{"id":13706,"date":"2025-02-17T19:03:36","date_gmt":"2025-02-17T22:03:36","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/para-compreender-o-fascismo-tardio\/"},"modified":"2025-02-17T19:03:36","modified_gmt":"2025-02-17T22:03:36","slug":"para-compreender-o-fascismo-tardio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/para-compreender-o-fascismo-tardio\/","title":{"rendered":"Para compreender o fascismo tardio"},"content":{"rendered":"<p>Por <strong>Lisa Lowe<\/strong>, no <em><a href=\"https:\/\/www.versobooks.com\/en-gb\/blogs\/news\/making-comprehensible-fascism-in-our-time\">Verso Books <\/a><\/em>| Tradu\u00e7\u00e3o: <strong>Antonio Martins<\/strong><\/p>\n<p>No mundo contempor\u00e2neo, bombas destroem implacavelmente escolas, hospitais e suprimentos de \u00e1gua, expulsando pessoas de suas casas. Medidas de \u201causteridade\u201d aprofundam os abismos econ\u00f4micos globais, enquanto governos autorit\u00e1rios submetem os mais vulner\u00e1veis, pobres e desabrigados, \u00e0 viol\u00eancia estatal e ao encarceramento. \u00c9 um tempo, nas palavras escritas por Antonio Gramsci em uma pris\u00e3o fascista um s\u00e9culo atr\u00e1s, em que \u201co velho mundo est\u00e1 morrendo e o novo n\u00e3o pode nascer\u201d; em que os fracassos de uma antiga ordem pol\u00edtico-econ\u00f4mica e os \u201csintomas m\u00f3rbidos\u201d dos Estados-na\u00e7\u00e3o imperiais assolados por crises de legitima\u00e7\u00e3o coexistem com alternativas emergentes que lutam para nascer. Ao redor do mundo, multid\u00f5es v\u00e3o \u00e0s ruas para pedir um cessar-fogo em Gaza, protestar contra assassinatos policiais de homens e mulheres negros desarmados na Am\u00e9rica do Norte, exigir moradia para migrantes e o fim do encarceramento em massa, e proteger cursos d\u2019\u00e1gua e terras da extra\u00e7\u00e3o e da constru\u00e7\u00e3o de oleodutos. O caos resultante do regime moribundo traz suas pr\u00f3prias atrocidades e novas formas de terror, mas tamb\u00e9m torna poss\u00edveis novas rela\u00e7\u00f5es ainda n\u00e3o realizadas. Esses movimentos coletivos \u2013 atravessando diversas hist\u00f3rias coloniais e capitalistas, regi\u00f5es e popula\u00e7\u00f5es \u2013 compreendem condi\u00e7\u00f5es diferenciadas, mas interligadas, de promessa e perigo que se unem neste momento hist\u00f3rico urgente e que parece \u00e0s vezes incompreens\u00edvel.<\/p>\n<p>Leio o livro erudito, elegantemente pensado e pacientemente argumentado de Alberto Toscano, <em>Late Fascism <\/em><em>[Fascismo Tardio]<\/em>, como um esfor\u00e7o de nos oferecer os meios hist\u00f3ricos e filos\u00f3fico-pol\u00edticos para compreender o fascismo em nosso tempo, ao ajustar as contas com o fascismo na longa dura\u00e7\u00e3o. Como as linguagens pol\u00edticas dispon\u00edveis est\u00e3o saturadas por l\u00f3gicas liberais, elas frequentemente velam e obstruem a compreens\u00e3o do \u201cpresente pol\u00edtico\u201d. Contribuem para o reconhecimento equivocado do \u201cfascismo\u201d como espetacular e excepcional, em vez de integrante do casamento moderno entre democracia liberal e capitalismo. O <em>Late Fascism<\/em> de Toscano enfatiza que esse reconhecimento equivocado \u00e9 um obst\u00e1culo prim\u00e1rio para entender, organizar e lutar eficazmente contra as m\u00faltiplas contradi\u00e7\u00f5es do nosso presente pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Ao discutir a natureza e a etiologia do fascismo tardio, Toscano nos leva al\u00e9m dos exemplos europeus do per\u00edodo entre guerras do \u201ctipo ideal\u201d do fascismo e desconstr\u00f3i a suposta oposi\u00e7\u00e3o entre fascismo e democracia liberal. Enfatizando que o fascismo n\u00e3o \u00e9 monol\u00edtico ou gen\u00e9rico, e n\u00e3o possui um modelo singular e est\u00e1tico para o qual possamos identificar analogias ao marcar uma lista de caracter\u00edsticas, ele argumenta que devemos, em vez disso, abordar o fascismo como um processo com m\u00faltiplas origens, localidades e temporalidades, ocorrendo dinamicamente em rela\u00e7\u00e3o a condi\u00e7\u00f5es espec\u00edficas. De certa forma (embora ele n\u00e3o se expresse exatamente assim), Toscano est\u00e1 argumentando que \u201co fascismo \u00e9 uma estrutura, n\u00e3o um evento\u201d, significando que ele n\u00e3o \u00e9 uma aberra\u00e7\u00e3o do per\u00edodo de guerra europeu, nem um estado natural original do qual emerge o ant\u00eddoto da liberdade pol\u00edtica liberal, mas sim uma caracter\u00edstica persistente da hist\u00f3ria do liberalismo colonizador e do capitalismo colonial. A democracia liberal n\u00e3o \u00e9 o ant\u00eddoto do fascismo, mas sim sua condi\u00e7\u00e3o de possibilidade. O governo fascista pode incluir, mas n\u00e3o se limita exclusivamente a, Estados autorit\u00e1rios ultranacionalistas. Dentro dos Estados liberais, ele anima a perda econ\u00f4mica e o abandono social, e armazena energias libidinais at\u00e1vicas n\u00e3o resolvidas, liberadas pelas crises e crueldades da ordem social desigual, e as volta contra <em>outros<\/em> raciais, religiosos, sexuais e de g\u00eanero.<\/p>\n<p>Toscano elabora ainda que podemos entender o fascismo como a constela\u00e7\u00e3o de forma\u00e7\u00f5es reativas atrav\u00e9s de aparatos ideol\u00f3gicos e estatais, com o objetivo de manter ou sustentar uma ordem social em decad\u00eancia. Ele n\u00e3o \u00e9 separ\u00e1vel dos colonialismos, mas sim intimamente interconectado tanto com o despossess\u00e3o ind\u00edgena hist\u00f3rica e cont\u00ednua, quanto com o cativeiro e a escravid\u00e3o nas <em>plantations<\/em> e a contrarrevolu\u00e7\u00e3o; os fascismos se desdobram em oposi\u00e7\u00e3o e em antecipa\u00e7\u00e3o a rebeli\u00f5es insurgentes que desafiam ou transformam o regime de propriedade existente, a partir dos povos, locais e regi\u00f5es onde a ocupa\u00e7\u00e3o e o governo t\u00eanue foram estabelecidos. Essa \u00e9 a raz\u00e3o pela qual Toscano se baseia especialmente nas tradi\u00e7\u00f5es radicais negras e anticoloniais para teorias incisivas sobre o fascismo \u2014 n\u00e3o apenas para evidenciar que reconhecemos mal o fascismo, se o limitarmos \u00e0 It\u00e1lia de Mussolini e \u00e0 Alemanha de Hitler, mas tamb\u00e9m para argumentar que o fascismo \u00e9 uma forma\u00e7\u00e3o ancorada no capitalismo racial e colonial, que precede e persiste al\u00e9m do exemplo europeu. Entre as muitas contribui\u00e7\u00f5es valiosas do livro, \u00e9 essa que abordo no restante dos meus coment\u00e1rios.<\/p>\n<p>Pensadores anticoloniais t\u00eam sido os analistas mais incisivos dos fascismos. Em seu <em>Discurso sobre o colonialismo<\/em>, de 1950, o martinicano Aim\u00e9 C\u00e9saire identificou as origens do fascismo no projeto de subjuga\u00e7\u00e3o colonial ao afirmar que a Europa s\u00f3 conseguiu reconhecer a vergonha e a brutalidade da \u201chumilha\u00e7\u00e3o do homem\u201d quando empregadas pelos nazistas contra europeus brancos, algo que \u201cat\u00e9 ent\u00e3o havia sido reservado exclusivamente aos \u00e1rabes da Arg\u00e9lia, aos coolies da \u00cdndia e aos negros da \u00c1frica\u201d.<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/direita-assanhada\/para-compreender-o-fascismo-tardio\/#sdfootnote1sym\"><sup>1<\/sup><\/a> Em <em>Como a Europa subdesenvolveu a \u00c1frica<\/em>, o guian\u00eas Walter Rodney escreveu que \u201co fascismo era um monstro nascido de pais capitalistas\u2026 o produto final de s\u00e9culos de bestialidade capitalista, explora\u00e7\u00e3o, domina\u00e7\u00e3o e racismo exercidos fora da Europa\u201d.<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/direita-assanhada\/para-compreender-o-fascismo-tardio\/#sdfootnote2sym\"><sup>2<\/sup><\/a> O George Padmore, de Trinidad considerava o <em>apartheid<\/em> na \u00c1frica do Sul como o Estado fascista cl\u00e1ssico, e o poeta afro-americano Langston Hughes frequentemente declarava que as condi\u00e7\u00f5es enfrentadas pelos negros na Am\u00e9rica eram \u201cfascistas\u201d. Em outras palavras, antes que a viol\u00eancia nazista viesse a epitomar o fascismo, pensadores radicais negros j\u00e1 detalhavam fascismos associados \u00e0 despossess\u00e3o colonial e \u00e0 escravid\u00e3o racial.<\/p>\n<p>Toscano invoca <em>A Reconstru\u00e7\u00e3o Negra na Am\u00e9rica<\/em> (1935), de W.E.B. Du Bois, como um texto-chave na an\u00e1lise do entrela\u00e7amento entre fascismo e democracia liberal. Du Bois argumentou que a escravid\u00e3o estava no cerne do capitalismo liberal moderno. A brutal mercantiliza\u00e7\u00e3o de seres humanos pela escravid\u00e3o n\u00e3o apenas desmentia as reivindica\u00e7\u00f5es de democracia liberal dos EUA. A possibilidade de rebeli\u00e3o escrava tamb\u00e9m tinha a for\u00e7a para transformar o sistema de desigualdade racial violenta que tornava poss\u00edvel aos liberais falar em \u201cliberdade universal\u201d. Du Bois afirmou que a escravid\u00e3o n\u00e3o era uma aberra\u00e7\u00e3o da democracia liberal nos Estados Unidos; ela era, e continuou a ser, sist\u00eamica e constitutiva da democracia norte-americana, e da extens\u00e3o do poder dos Estados Unidos ao redor do mundo. O livro conta a hist\u00f3ria de meio milh\u00e3o de trabalhadores negros que, por meio de seu \u00eaxodo massivo das plantations escravistas do sul, criaram um ambiente semelhante ao de greve geral. Ele paralisou o sistema de <em>plantations<\/em>, derrubou a Confedera\u00e7\u00e3o e, for\u00e7ou o Norte a assumir a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o como sua causa.<\/p>\n<p>Mas <em>A Reconstru\u00e7\u00e3o Negra<\/em> acaba por relatar o que Du Bois chama de \u201ccontrarrevolu\u00e7\u00e3o da propriedade\u201d: o bloqueio da liberdade negra pela consolida\u00e7\u00e3o de uma alian\u00e7a branca entre industriais do norte e oligarcas do sul, e a persuas\u00e3o dos trabalhadores camponeses brancos a se afastarem de uma alian\u00e7a inter-racial com os trabalhadores negros. A \u201ccontrarrevolu\u00e7\u00e3o da propriedade\u201d exemplificou precisamente uma forma\u00e7\u00e3o fascista que sustentou o capital branco e a supremacia branca contra uma potencial \u201cinsurg\u00eancia\u201d que tinha o poder de acabar com a escravid\u00e3o e o apartheid racial, e que poderia ter transformado uma ordem social constru\u00edda sobre a acumula\u00e7\u00e3o por meio da subjuga\u00e7\u00e3o de seres humanos cativos.<\/p>\n<p>Toscano se concentra especialmente no que Cedric Robinson chamou de \u201cconstru\u00e7\u00e3o negra do fascismo\u201d. Ele mostra como te\u00f3ricos sub-valorizados do fascismo norte-americano \u2013 desde os Panteras Negras no final dos anos 1960 e in\u00edcio dos anos 1970, at\u00e9 os escritos e correspond\u00eancias prisionais dos presos pol\u00edticos Angela Davis e George Jackson. Ao faz\u00ea-lo, convida a repensar o debate te\u00f3rico sobre o fascismo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 situa\u00e7\u00e3o dos negros norte-americanos encarcerados sob o capitalismo racial. Como presos pol\u00edticos, Davis e Jackson entendiam o fascismo como uma forma de contrarrevolu\u00e7\u00e3o preventiva, usando estruturas carcer\u00e1rio-judiciais para suprimir amea\u00e7as percebidas \u00e0 ordem social capitalista estruturada na domina\u00e7\u00e3o branca. Em outras palavras, os fascismos s\u00e3o sinais de crises do capitalismo racial e do excesso imperial, parasitando tanto as fraquezas da ordem pol\u00edtico-econ\u00f4mica quanto a vulnerabilidade da oposi\u00e7\u00e3o a ela. Toscano comenta que o fascismo \u00e9 \u201creativo, n\u00e3o apenas em conte\u00fado social, mas em forma temporal \u2013 seja respondendo imediatamente a um potencial levante revolucion\u00e1rio triunfante ou, de forma mediada, a um desafio j\u00e1 derrotado ou em decl\u00ednio\u201d.<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/direita-assanhada\/para-compreender-o-fascismo-tardio\/#sdfootnote3sym\"><sup>3<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Ao entender que o capitalismo \u00e9 inerentemente inst\u00e1vel, podemos observar que ele entra em crise quando a contradi\u00e7\u00e3o entre acumula\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o atinge um n\u00edvel insustent\u00e1vel, expresso como superprodu\u00e7\u00e3o, diminui\u00e7\u00e3o dos lucros e desemprego, por um lado, e o aumento das desigualdades de riqueza, segrega\u00e7\u00e3o racial e policiamento de comunidades pobres e n\u00e3o-brancas, por outro. Nos Estados Unidos, essas contradi\u00e7\u00f5es produziram dialeticamente antagonismos ao longo dos anos 1970 que irromperam em movimentos radicais de Poder Negro, Pardo, Amarelo e Vermelho, greves trabalhistas, rebeli\u00f5es urbanas e movimentos sociais, desde feministas negras at\u00e9 anti-apartheid e anti-guerra. A eles, o Estado respondeu com o aumento da capacidade militar, policial e prisional do Estado. Ruth Wilson Gilmore nos ensinou muito sobre como essas contradi\u00e7\u00f5es levaram \u00e0 expans\u00e3o do sistema prisional dos EUA nos anos 1980. Para justificar a si mesmo e seu monop\u00f3lio da for\u00e7a, o Estado trabalhou ideologicamente para compelir a identifica\u00e7\u00e3o com a cidadania multicultural, e puniu aquelas \u201camea\u00e7as\u201d \u00e0 seguran\u00e7a nacional dessa cidadania ao distinguir entre o uso \u201cleg\u00edtimo\u201d da for\u00e7a pela pol\u00edcia e pelas for\u00e7as armadas, e a viol\u00eancia \u201cileg\u00edtima\u201d da dissid\u00eancia e da rebeli\u00e3o.<\/p>\n<p>Embora a expans\u00e3o das fun\u00e7\u00f5es repressivas do Estado tenha multiplicado os espa\u00e7os em que as comunidades s\u00e3o tornadas vulner\u00e1veis \u00e0 viol\u00eancia estatal, tal viol\u00eancia n\u00e3o se restringe apenas ao encarceramento, militariza\u00e7\u00e3o ou policiamento. Comunidades racializadas pobres, imigrantes e anteriormente colonizadas t\u00eam sido devastadas pela privatiza\u00e7\u00e3o neoliberal, desregulamenta\u00e7\u00e3o e extrativismo que protegem corpora\u00e7\u00f5es e minam a prote\u00e7\u00e3o do trabalho e do meio ambiente ind\u00edgena; pela suburbaniza\u00e7\u00e3o e vigil\u00e2ncia direcionada de espa\u00e7os sociais urbanos; e pelos p\u00e2nicos morais em torno do \u201ccrime urbano\u201d, imigrantes, mulheres negras e n\u00e3o-brancas e comunidades <em>queer. <\/em>Essas, tamb\u00e9m, s\u00e3o opera\u00e7\u00f5es relacionadas e implicadas na expans\u00e3o do Estado carcer\u00e1rio dos EUA.<\/p>\n<p>Angela Davis e George Jackson, em seus escritos e correspond\u00eancias prisionais, discutem a expans\u00e3o do sistema prisional pelo Estado norte-americano como uma forma exemplar de fascismo, combinando capitalismo monopolista, imperialismo e crises capitalistas com a supress\u00e3o contrarrevolucion\u00e1ria da dissid\u00eancia pol\u00edtica. Em <em>Late Fascism<\/em>, Toscano discute uma das cartas da pris\u00e3o de George Jackson, em<em> Blood in my Eye <\/em>(1972). Jackson escreve:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Quando sou entrevistado por um membro da velha guarda e aponto para o concreto e o a\u00e7o, o min\u00fasculo dispositivo eletr\u00f4nico de escuta escondido na ventila\u00e7\u00e3o, a falange de capangas espiando-nos, seu gravador de pl\u00e1stico disfuncional que custou uma semana de trabalho, e aponto que tudo isso s\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es de fascismo, ele invariavelmente tenta me refutar definindo o fascismo simplesmente como um assunto econ\u00f4mico-geopol\u00edtico onde se permite que apenas um partido exista e nenhuma atividade de oposi\u00e7\u00e3o \u00e9 permitida.<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/direita-assanhada\/para-compreender-o-fascismo-tardio\/#sdfootnote4sym\"><sup>4<\/sup><\/a><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Jackson identifica a pris\u00e3o como um aparato do fascismo a partir da perspectiva de um prisioneiro pol\u00edtico negro acusado de atividade revolucion\u00e1ria armada, e logo em seguida assassinado por guardas prisionais. Como prisioneiro pol\u00edtico negro, enquadrado como \u201camea\u00e7a\u201d insurgente ao monop\u00f3lio da for\u00e7a do Estado, Jackson escreve de forma transparente sobre a forma\u00e7\u00e3o contrarrevolucion\u00e1ria do fascismo e enfatiza a materialidade do complexo industrial prisional, desde as tecnologias de vigil\u00e2ncia at\u00e9 o trabalho desvalorizado do pessoal prisional. Jackson est\u00e1 comentando sobre o fascismo como o que Gilmore mais tarde chamaria de \u201creestrutura\u00e7\u00e3o do Estado capitalista\u201d enquanto ele tenta avan\u00e7ar mas fracassa. Gilmore enfatiza que a \u201csolu\u00e7\u00e3o prisional\u201d do Estado racial americano do p\u00f3s-guerra para o fracasso do capitalismo n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno isolado. As decis\u00f5es de construir pris\u00f5es que encarceram desproporcionalmente homens e mulheres negros \u2013 e de investir em puni\u00e7\u00e3o industrial, policiamento e militarismo em vez de bem-estar p\u00fablico, sa\u00fade ou escolas \u2013 foram centrais para uma reorganiza\u00e7\u00e3o estrutural do \u201ccen\u00e1rio de acumula\u00e7\u00e3o e despossess\u00e3o\u201d do p\u00f3s-guerra. Como observa Toscano, o fascismo n\u00e3o \u00e9 apenas uma reestrutura\u00e7\u00e3o contrarrevolucion\u00e1ria do Estado capitalista. Tamb\u00e9m \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o incipiente e antecipat\u00f3ria contra um acerto de contas adiado, suprimido ou em curso.<\/p>\n<p>Alberto Toscano \u00e9 um dos te\u00f3ricos pol\u00edticos mais significativos e originais da atualidade. Em <em>Fascismo Tardio<\/em>, ele lida com um vasto espectro do pensamento antifascista: de Ernst Bloch, George Bataille e Leo Lowenthal a Angela Davis e George Jackson; de Stuart Hall e Ruth Wilson Gilmore a Jairus Banerji e Furio Jesi. Os resultados s\u00e3o reveladores. Ao retratar o fascismo n\u00e3o como um monolito, mas como uma gama de respostas \u00e0 crise colonial e capitalista racial, ele ajuda a desalojar o fascismo do impasse da analogia, fornecendo os recursos para entender efetivamente nosso presente hist\u00f3rico. Al\u00e9m disso, o exame de Toscano sobre a longa dura\u00e7\u00e3o do fascismo refere-se \u00e0 colonialidade do presente. Nas palavras de Cedric Robinson, ele \u201cressuscita eventos que foram sistematicamente apagados de nossa consci\u00eancia intelectual\u201d,<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/direita-assanhada\/para-compreender-o-fascismo-tardio\/#sdfootnote5sym\"><sup>5<\/sup><\/a> e nos permite entender nossas condi\u00e7\u00f5es presentes de uma nova maneira.<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Notas<\/strong>:<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/direita-assanhada\/para-compreender-o-fascismo-tardio\/#sdfootnote1anc\">1<\/a> Discurso sobre o colonialismo, Monthly Review Press, 1955\/1972.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/direita-assanhada\/para-compreender-o-fascismo-tardio\/#sdfootnote2anc\">2<\/a> Walter Rodney, Como a Europa subdesenvolveu a \u00c1frica, Verso Books, 1972\/2018.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/direita-assanhada\/para-compreender-o-fascismo-tardio\/#sdfootnote3anc\">3<\/a> Toscano, p34.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/direita-assanhada\/para-compreender-o-fascismo-tardio\/#sdfootnote4anc\">4<\/a> George Jackson, Sangue em Meu Olho, citado em Toscano.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/direita-assanhada\/para-compreender-o-fascismo-tardio\/#sdfootnote5anc\">5<\/a> Cedric Robinson, Uma Antropologia do Marxismo, Ashgate, 2001.<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/direita-assanhada\/para-compreender-o-fascismo-tardio\/\">Para compreender o fascismo tardio<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/alimentos-ficam-mais-baratos-pelo-4o-mes-consecutivo-aponta-ibge\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/IPCA_home_AcervoAgencia-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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Medidas de \u201causteridade\u201d aprofundam os abismos econ\u00f4micos globais, enquanto governos autorit\u00e1rios submetem os mais vulner\u00e1veis, pobres e desabrigados, \u00e0 viol\u00eancia estatal e ao encarceramento. \u00c9 um tempo, nas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-13706","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13706","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13706"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13706\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13706"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13706"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13706"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}