{"id":14107,"date":"2025-02-20T19:30:05","date_gmt":"2025-02-20T22:30:05","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/por-um-futuro-exu-benjaminiano\/"},"modified":"2025-02-20T19:30:05","modified_gmt":"2025-02-20T22:30:05","slug":"por-um-futuro-exu-benjaminiano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/por-um-futuro-exu-benjaminiano\/","title":{"rendered":"Por um futuro exu-benjaminiano\u00a0"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"941\" height=\"622\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Screenshot-2025-02-20-at-19-30-08-cultura-africana-1.webp-imagem-WEBP-1260-C397-832-pixels-Redimensionada-74.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Screenshot-2025-02-20-at-19-30-08-cultura-africana-1.webp-imagem-WEBP-1260-C397-832-pixels-Redimensionada-74.png 941w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Screenshot-2025-02-20-at-19-30-08-cultura-africana-1.webp-imagem-WEBP-1260-\u00d7-832-pixels-Redimensionada-74-300x198.png 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Screenshot-2025-02-20-at-19-30-08-cultura-africana-1.webp-imagem-WEBP-1260-\u00d7-832-pixels-Redimensionada-74-768x508.png 768w\" sizes=\"(max-width: 941px) 100vw, 941px\"><figcaption>Foto: iStock <\/figcaption><\/figure>\n<p>Este texto integra o dossi\u00ea <a href=\"https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/categoria\/edicoes\/cult-312\/\">312<\/a>, <strong>O Lento Cancelamento do Futuro<\/strong>, da revista <em>Cult<\/em>, parceira editorial de <em>Outras Palavras<\/em><\/p>\n<div>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"764\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/71FrNP4eKAL._SL1500_-764x1024-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/71FrNP4eKAL._SL1500_-764x1024-1.jpg 764w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/71FrNP4eKAL._SL1500_-224x300.jpg 224w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/71FrNP4eKAL._SL1500_-768x1029.jpg 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/71FrNP4eKAL._SL1500_.jpg 1119w\" sizes=\"(max-width: 764px) 100vw, 764px\"><\/figure>\n<\/div>\n<p>Muito antes que Mark Fisher, lendo Bifo Berardi, anunciasse o lento cancelamento do futuro, Filippo Tommaso Marinetti apregoava em alto e bom som: \u201cEstamos no promont\u00f3rio extremo dos s\u00e9culos! Por que haver\u00edamos de olhar para tr\u00e1s se queremos arrombar as misteriosas portas do imposs\u00edvel?\u201d. Turbinado por um aguerrido desprezo pelo passado, seu vigoroso <em>Manifesto futurista<\/em> se lan\u00e7ava na contram\u00e3o do moralismo, do feminismo e da \u201cgangrena f\u00e9tida\u201d de professores, arque\u00f3logos e antiqu\u00e1rios, propagando, aos quatro ventos, a obsolesc\u00eancia de museus, bibliotecas e academias, comparados a funer\u00e1rias e cemit\u00e9rios.<\/p>\n<p>O ano era 1909. Contra a tradi\u00e7\u00e3o, a mem\u00f3ria e a Hist\u00f3ria, Marinetti e seus compatriotas entoavam loas ardentes a uma nova beleza disparada pelo culto onipresente da velocidade. Segundo eles, \u201ca literatura exaltou at\u00e9 hoje a imobilidade pensativa, o \u00eaxtase, o sono. N\u00f3s queremos exaltar o movimento agressivo, a ins\u00f4nia febril, o passo de corrida, o salto mortal, o bofet\u00e3o e o soco\u201d. N\u00e3o por acaso, sua ode viril e militarista \u00e0 combatividade da arte levaria seus jovens e fortes adeptos a uma grandiloquente apologia da est\u00e9tica da guerra como \u00fanica higiene do mundo. E avisavam: \u201c\u00c9 da It\u00e1lia que n\u00f3s lan\u00e7amos este nosso manifesto de viol\u00eancia arrebatadora e incendi\u00e1ria, com o qual fundamos hoje o \u2018Futurismo\u2019\u2006\u201d.<\/p>\n<p>Vislumbrando na atitude pir\u00f4mano-futurista o melhor exemplo de estetiza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica posta em marcha pelos propagandistas da guerra, Walter Benjamin chama aten\u00e7\u00e3o para as desastrosas resson\u00e2ncias entre a iconoclastia po\u00e9tica defendida pelo movimento e o ide\u00e1rio b\u00e9lico que tantos estragos iria causar nas m\u00e3os dos l\u00edderes do fascismo italiano \u2013 ao qual Marinetti posteriormente viria a se filiar \u2013 e, da mesma forma, do nacional-socialismo alem\u00e3o dos anos 1930. No famoso ensaio \u201cA obra de arte na era de sua reprodutibilidade t\u00e9cnica\u201d, Benjamin escreve: \u201c\u2006\u2018<em>Fiat ars, pereat mundus<\/em>\u2019 [que a justi\u00e7a seja feita, ainda que o mundo pere\u00e7a], diz o fascismo e espera que a guerra proporcione a satisfa\u00e7\u00e3o art\u00edstica de uma percep\u00e7\u00e3o sens\u00edvel modificada pela t\u00e9cnica, como faz Marinetti. \u00c9 a forma mais perfeita do <em>art pour l\u2019art<\/em> [arte pela arte]. Na \u00e9poca de Homero, a humanidade oferecia-se aos deuses ol\u00edmpicos; agora, ela se transforma em espet\u00e1culo para si mesma. Sua autoaliena\u00e7\u00e3o atingiu o ponto que lhe permite viver sua pr\u00f3pria destrui\u00e7\u00e3o como um prazer est\u00e9tico de primeira ordem. Eis a estetiza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica como a pratica do fascismo. O comunismo responde com a politiza\u00e7\u00e3o da arte\u201d.<\/p>\n<p>Enquanto Walter Benjamin via no cinema a chance de atualizar a voca\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da arte para tocar as massas por meio de uma sensibilidade transformada pela t\u00e9cnica, Fredric Jameson, j\u00e1 no final do s\u00e9culo 20, iria questionar tal progn\u00f3stico de renova\u00e7\u00e3o da humanidade, levando em conta o esgotamento do \u201cnovo\u201d diante da persist\u00eancia p\u00f3s-moderna de uma certa tend\u00eancia retr\u00f4 mesmo em filmes altamente tecnol\u00f3gicos, como <em>Star Wars<\/em>. Para o cr\u00edtico de arte estadunidense, pel\u00edculas como essa foram concebidas como sintoma patol\u00f3gico do decl\u00ednio da historicidade respons\u00e1vel por camuflar seu anacronismo pelo uso abundante de efeitos especiais encarregados de proverem uma roupagem hipermoderna a uma forma est\u00e9tica irredutivelmente arcaica. Portanto, nada menos revolucion\u00e1rio. Em vez de modificar radicalmente a percep\u00e7\u00e3o da realidade, o resultado \u00e9 a promo\u00e7\u00e3o de uma esp\u00e9cie de \u201cmodo nostalgia\u201d a indicar nossa incapacidade de focar no aqui e agora e, assim, alcan\u00e7ar uma representa\u00e7\u00e3o est\u00e9tica da nossa pr\u00f3pria experi\u00eancia presente.<\/p>\n<p>Nesse ponto, podemos entender Mark Fisher quando ele afirma que, ao contr\u00e1rio da atmosfera moderna, din\u00e2mica e criativa do s\u00e9culo anterior, a cultura do s\u00e9culo 21 \u00e9 marcada pelo anacronismo e pela in\u00e9rcia. Sinalizando uma diferen\u00e7a fundamental em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 atitude radicalmente inovadora das vanguardas art\u00edsticas, ele adverte: \u201cMas essa estase foi sepultada, enterrada embaixo de um frenesi superficial no movimento perp\u00e9tuo da \u2018novidade\u2019. A \u2018desordem do tempo\u2019, a combina\u00e7\u00e3o de outras eras, n\u00e3o \u00e9 mais digna de coment\u00e1rio; prevalece tanto que deixou de ser notada\u201d. Se, em 2009, citando Jameson, Fisher havia postulado que \u201c\u00e9 mais f\u00e1cil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo\u201d, em <em>Fantasmas da minha vida: Escritos sobre depress\u00e3o, assombrologia e futuros perdidos<\/em>, de 2016, ele constata: \u201cA mem\u00f3ria cultural n\u00e3o parece capaz de encontrar novas formas \u2013 \u00e9 como se a m\u00fasica, o cinema e a arte estivessem agora presos em loops infinitos de reciclagem e repeti\u00e7\u00e3o. A sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 a de que o tempo parou e o futuro desapareceu\u201d.<\/p>\n<p>Assim, o resgate do futuro e o libelo contra a estagna\u00e7\u00e3o do presente n\u00e3o permanecem circunscritos \u00e0 aurora do s\u00e9culo 20, ecoando, mais de 100 anos depois, na voz met\u00e1lica, veloz e furiosa do n\u00e3o pouco heterog\u00eaneo movimento aceleracionista. Redigido em 2013, o #Acelerar Manifesto reclama a si a tarefa de recuperar futuros poss\u00edveis perdidos para o neoliberalismo, revisitando o clamor dos futuristas pela velocidade, a partir de ent\u00e3o, a servi\u00e7o de uma nova hegemonia assentada em uma plataforma tecnossocial p\u00f3s-capitalista em condi\u00e7\u00f5es de lidar com problemas globais como a defla\u00e7\u00e3o das expectativas revolucion\u00e1rias, a hegemonia do trabalho precarizado e o implac\u00e1vel colapso ambiental, entre outros.<\/p>\n<p>Da\u00ed postularem sem concess\u00f5es: \u201cO futuro precisa ser constru\u00eddo. Ele foi demolido pelo capitalismo liberal e reduzido a uma promessa barata de grande iniquidade, conflito e caos. Esse colapso na ideia de futuro \u00e9 sintom\u00e1tico do status hist\u00f3rico retr\u00f3grado de nossa \u00e9poca. [\u2026] O que o aceleracionismo estimula \u00e9 um futuro que \u00e9 mais moderno \u2013 uma modernidade alternativa que o neoliberalismo \u00e9 inerentemente incapaz de gerar. O futuro deve ser aberto mais uma vez, ampliando nossos horizontes para as possibilidades universais do Lado de Fora\u201d.<\/p>\n<p>No entanto, ainda que o apelo a um futuro alien\u00edgena constitu\u00eddo por formas mais din\u00e2micas, fluidas e indeterminadas de exist\u00eancia coletiva seja um clamor partilhado tamb\u00e9m por p\u00f3s-humanistas e xenofeministas, o aceleracionismo, tomado em conjunto, se assemelha menos a um movimento organizado do que a um desconexo e incoerente \u201cbalaio de gato\u201d. Tanto que podemos falar em um aceleracionismo de esquerda, representado por Alex Williams, Nick Srnicek e Benjamin Noys, mas tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel identificar em seu bojo uma ala de direita, ou mesmo de extrema direita, bastante ativa, sobretudo nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Um dos expoentes mais importantes da fac\u00e7\u00e3o antidemocr\u00e1tica \u00e9 Nick Land, que aborda a rela\u00e7\u00e3o entre capitalismo, tecnologia e futuro de forma bastante pessimista. Para ele, n\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis para uma situa\u00e7\u00e3o inescap\u00e1vel em que o mercado e os dispositivos tecnol\u00f3gicos se sobrep\u00f5em \u00e0 ag\u00eancia de sujeitos aut\u00f4nomos dispostos a assumirem o controle sobre suas pr\u00f3prias vidas. \u201cO futuro n\u00e3o \u00e9 um lugar para o qual nos movemos, mas algo que est\u00e1 sendo puxado em nossa dire\u00e7\u00e3o pelo aumento da acelera\u00e7\u00e3o do capital e da inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. \u00c9 um processo de descontrole, n\u00e3o um destino\u201d, pondera ele com base em um horizonte p\u00f3s-humano, no qual a intelig\u00eancia planet\u00e1ria se desacopla da vida org\u00e2nica como n\u00f3s a conhecemos. Em seu influente <em>The Dark Enlightment<\/em> [O Iluminismo das trevas], ele \u00e9 enf\u00e1tico: \u201cA modernidade 2.0 \u00e9 a principal estrada do mundo para o futuro. Isso depende de o Ocidente parar e reverter praticamente tudo o que vem fazendo h\u00e1 mais de um s\u00e9culo, com exce\u00e7\u00e3o apenas da inova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, tecnol\u00f3gica e empresarial\u201d.<\/p>\n<p>A consequ\u00eancia mais imediata desse plet\u00f3rico estado de coisas \u00e9, paradoxalmente, a aposta na constru\u00e7\u00e3o de um futuro conservador, ou mesmo reacion\u00e1rio, acionado pela perspectiva de restaura\u00e7\u00e3o de formas de governo mais permanentes e est\u00e1veis como a monarquia e a ditadura tecnocr\u00e1tica. Essa \u00e9 a vis\u00e3o de Mencius Moldbug, pseud\u00f4nimo de Curtis Yarvin, personagem envolvida na invas\u00e3o do Capit\u00f3lio no fat\u00eddico 6 de janeiro de 2021. Cientista da computa\u00e7\u00e3o, Moldbug se apresenta como o pr\u00f3prio \u201canti-Chomsky\u201d, ou seja, como o belicoso porta-voz de tend\u00eancias assumidamente antidemocr\u00e1ticas e antimodernas como o Neorrea\u00e7\u00e3o (NRx) e a Alt-Right estadunidense. J\u00e1 na introdu\u00e7\u00e3o de seu blog <em>Unqualified Reservations<\/em>, ele proclama: \u201cA ess\u00eancia de qualquer rea\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo 21 \u00e9 a unidade destas duas for\u00e7as: a mentalidade da engenharia moderna e o grande legado hist\u00f3rico do pensamento pr\u00e9-democr\u00e1tico antigo, cl\u00e1ssico e vitoriano. O adepto, para alcan\u00e7ar a ilumina\u00e7\u00e3o reacion\u00e1ria, observa que ambos produzem o mesmo resultado. O que pode ser, sen\u00e3o a verdade, que todos os homens bons procuram? Armada com essa f\u00e9 segura e destemida, a Rea\u00e7\u00e3o vence tudo\u201d.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito, um contundente posicionamento cr\u00edtico, contr\u00e1rio, ao mesmo tempo, ao historicismo narc\u00f3tico e \u00e0 ideologia do progresso, \u00e9, de novo, o de Walter Benjamin \u2013 sim, o \u201cvelho\u201d materialista dial\u00e9tico associado ao Instituto de Pesquisa Social, que redigiu derradeiramente suas c\u00e9lebres teses <em>Sobre o conceito de Hist\u00f3ria<\/em>. Nesse escrito que j\u00e1 foi considerado seu testamento intelectual, o pensador marxista defende a tarefa de escovar a Hist\u00f3ria a contrapelo. Isso para que o presente responda \u00e0s interpela\u00e7\u00f5es do passado a fim de reunir vest\u00edgios, registros e narrativas perdidas sobre futuros pret\u00e9ritos a partir da perspectiva dos vencidos, e n\u00e3o mais dos vencedores.<\/p>\n<p>Nessas teses, esbo\u00e7adas em 1940 \u2013 portanto, no auge da campanha hitlerista em prol da constru\u00e7\u00e3o de um novo tipo de homem \u2013, Benjamin j\u00e1 se dava conta das insufici\u00eancias do combate ao fascismo alem\u00e3o com base apenas na rejei\u00e7\u00e3o de seus aspectos mais regressivos, como o culto \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es germ\u00e2nicas e ao mito da superioridade da ra\u00e7a ariana. Em vez disso, o autor ressalta o imperativo de p\u00f4r em xeque n\u00e3o apenas a tentativa de reconstitui\u00e7\u00e3o de um Imp\u00e9rio de mil anos, mas a pr\u00f3pria temporalidade linear, progressiva e homog\u00eanea sobre a qual \u00e9 tra\u00e7ada uma linha do tempo horizontal orientada, unidimensional e irreversivelmente, do passado em dire\u00e7\u00e3o ao futuro \u2013 o qual \u00e9 visto com grande otimismo, j\u00e1 que melhor e mais desenvolvido, porque mais avan\u00e7ado e moderno.<\/p>\n<p>Se na conhecida tese de n\u00famero nove o fil\u00f3sofo se vale do quadro <em>Angelus Novus<\/em>, de Paul Klee, para elaborar uma instigante alegoria do progresso como fen\u00f4meno natural ou tempestade que sopra em dire\u00e7\u00e3o ao futuro, na tese de n\u00famero oito ele contesta a premissa de o progresso ser um irrevog\u00e1vel destino hist\u00f3rico: \u201cA tradi\u00e7\u00e3o dos oprimidos nos ensina que o \u2018estado de exce\u00e7\u00e3o\u2019 no qual vivemos \u00e9 a regra. Precisamos chegar a um conceito de Hist\u00f3ria que d\u00ea conta disso. Ent\u00e3o surgir\u00e1 diante de n\u00f3s nossa tarefa, a de instaurar o real estado de exce\u00e7\u00e3o; e gra\u00e7as a isso, nossa posi\u00e7\u00e3o na luta contra o fascismo se tornar\u00e1 melhor. A chance deste consiste, n\u00e3o por \u00faltimo, em que seus advers\u00e1rios o afrontem em nome do progresso como se este fosse uma norma hist\u00f3rica. O espanto em constatar que os acontecimentos que vivemos \u2018ainda\u2019 sejam poss\u00edveis no s\u00e9culo 20 n\u00e3o \u00e9 nenhum espanto filos\u00f3fico. Ele n\u00e3o est\u00e1 no in\u00edcio de um conhecimento, a menos que seja o de mostrar que a representa\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria de onde prov\u00e9m aquele espanto \u00e9 insustent\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<p>O autor nos mostra, pois, que \u00e9 preciso abandonar a pr\u00f3pria ordem temporal de passado-presente-futuro para interromper o <em>continuum<\/em> dos opressores preservado e transmitido por uma cultura hegem\u00f4nica alheia \u00e0 barb\u00e1rie da qual se mostra indissoci\u00e1vel. Com tal prop\u00f3sito em mente, Denise Ferreira da Silva, lendo Walter Benjamin, argumenta sobre a urg\u00eancia de demolir os pilares que ainda sustentam o que ela se refere como ontoepistemologia moderna \u2013 estruturalmente colonial, racista e ecocida \u2013 para que sejamos capazes de imaginar outros mundos para al\u00e9m do enquadramento capitalista desenhado com base na fal\u00e1cia de uma d\u00edvida impag\u00e1vel.<\/p>\n<p>Mesclando a dial\u00e9tica benjaminiana com o afrofuturismo de Octavia Butler, ela busca com a (po)\u00e9tica negra feminista desmantelar \u201ca l\u00f3gica perversa que oclui a maneira como, desde o fim do s\u00e9culo 19, a racialidade opera como um arsenal \u00e9tico em conjunto \u2013 por dentro, ao lado, e sempre j\u00e1 \u2013 a\/diante das arquiteturas jur\u00eddico-econ\u00f4micas que constituem o par Estado-capital\u201d. Desse modo, Ferreira da Silva nos leva a lidar com m\u00faltiplas temporalidades entrela\u00e7adas em estratos ou camadas em que passados n\u00e3o realizados interpelam o presente com vistas a um futuro saturado de agoras. Atento aos cruzamentos de tempos e espa\u00e7os abertos ao que nunca foi, Luiz Antonio Simas situa Benjamin na encruzilhada de Exu, que acertou uma ave ontem com uma pedra que s\u00f3 atirou hoje: \u201cO p\u00e1ssaro do passado s\u00f3 pode ser alcan\u00e7ado com a pedra que lan\u00e7amos hoje; seu voo \u00e9 incessante. Exu n\u00e3o vai ao ontem porque sabe que (nas espirais do tempo) \u00e9 no presente que a pedra \u00e9 lan\u00e7ada em busca do p\u00e1ssaro que, em seu voo incerto, pousar\u00e1 no futuro\u201d.<\/p>\n<p>Ou seja, o resgate de ancestralidades quase apagadas pela modernidade ocidental n\u00e3o \u00e9 de modo algum incompat\u00edvel com a preocupa\u00e7\u00e3o por um futuro sustent\u00e1vel para todos os seres humanos e n\u00e3o humanos que coabitam a Terra. Pelo contr\u00e1rio. Talvez seja essa a nossa \u00fanica sa\u00edda dos impasses que hoje tanto nos angustiam, como as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas ou as cat\u00e1strofes ambientais.<\/p>\n<p>Assim, numa atualiza\u00e7\u00e3o do fragmento pr\u00e9-socr\u00e1tico \u201ctudo flui, nada permanece o mesmo\u201d, poder\u00edamos tomar o rio sinuoso de Her\u00e1clito, que a tudo transforma, como o pr\u00f3prio fluxo do tempo. Com isso, quem sabe, chegar\u00edamos de volta ao <em>Futuro ancestral<\/em> de Ailton Krenak: \u201cOs rios, esses seres que sempre habitaram os mundos em diferentes formas, s\u00e3o quem me sugerem que, se h\u00e1 futuro a ser cogitado, esse futuro \u00e9 ancestral, porque j\u00e1 estava aqui. Gosto de pensar que todos aqueles que somos capazes de invocar como devir s\u00e3o nossos companheiros de jornada, mesmo que imemor\u00e1veis, j\u00e1 que a passagem do tempo acaba se tornando um ru\u00eddo em nossa observa\u00e7\u00e3o sens\u00edvel do planeta\u201d. Portanto, contra o antinaturalismo tecnocr\u00e1tico de futuristas e aceleracionistas, e com o legado exu-benjaminiano e a sabedoria pr\u00e1tica dos povos origin\u00e1rios, \u201csejamos \u00e1gua, em mat\u00e9ria e esp\u00edrito, em nossa mov\u00eancia e capacidade de mudar o rumo, ou estaremos perdidos\u201d.<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/pos-capitalismo\/por-um-futuro-exu-benjaminiano\/\">Por um futuro exu-benjaminiano\u00a0<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/receita-paga-nesta-segunda-30-maior-lote-de-restituicao-do-ir-da-historia\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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