{"id":14305,"date":"2025-02-22T18:23:54","date_gmt":"2025-02-22T21:23:54","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/a-teoria-da-crise-final-do-capitalismo-nao-foi-confirmada\/"},"modified":"2025-02-22T18:23:54","modified_gmt":"2025-02-22T21:23:54","slug":"a-teoria-da-crise-final-do-capitalismo-nao-foi-confirmada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/a-teoria-da-crise-final-do-capitalismo-nao-foi-confirmada\/","title":{"rendered":"A teoria da crise final do capitalismo n\u00e3o foi confirmada"},"content":{"rendered":"<p><i><span>\u201cEm agudas contradi\u00e7\u00f5es, crises, convuls\u00f5es, evidencia-se a crescente inadequa\u00e7\u00e3o do desenvolvimento produtivo da sociedade \u00e0s rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o em vigor. A violenta aniquila\u00e7\u00e3o do capital (nas crises), n\u00e3o por circunst\u00e2ncias alheias a ele, mas como condi\u00e7\u00e3o de sua autoconserva\u00e7\u00e3o, \u00e9 a forma mais contundente de aviso para que ele desapare\u00e7a e d\u00ea lugar a um est\u00e1gio superior de produ\u00e7\u00e3o social [\u2026] Estas contradi\u00e7\u00f5es t\u00eam como resultado cataclismos, crises nos quais a suspens\u00e3o moment\u00e2nea de trabalho e a destrui\u00e7\u00e3o de grande parte do capital fazem-no voltar violentamente ao ponto no qual \u00e9 incapaz de empregar plenamente seus poderes produtivos sem cometer suic\u00eddio. No entanto, estas regulares e recorrentes cat\u00e1strofes t\u00eam como resultado sua repeti\u00e7\u00e3o em uma escala maior e, por \u00faltimo, a derrubada violenta do capital.\u201d<\/span><\/i><span><br \/>\n<\/span><span>\u2013 <\/span><b><i>Grundrisse<\/i><\/b><b>, Karl Marx<\/b><\/p>\n<p><i><span>\u201cCristo est\u00e1 morto, Freud est\u00e1 morto, Marx est\u00e1 morto.<\/span><\/i><i><span><br \/>\n<\/span><\/i><i><span>Eu tamb\u00e9m n\u00e3o estou me sentindo muito bem.\u201d<\/span><\/i><span><br \/>\n<\/span><span>\u2013 <\/span><b>Picha\u00e7\u00e3o do Maio franc\u00eas, 1968<\/b><\/p>\n<p><span>O liberalismo apresentou o capitalismo como o horizonte da hist\u00f3ria. O marxismo devolveu o capitalismo \u00e0 dimens\u00e3o de um processo hist\u00f3rico, portanto transit\u00f3rio, com \u00e9pocas de forma\u00e7\u00e3o, auge e crise. Anunciou que o capitalismo podia ser superado por outra forma de organiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais. A recess\u00e3o mundial provocada pela crise de 2007\/08 trouxe de volta alguns temas hist\u00f3ricos no movimento socialista.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Entre eles, foi considerada a hip\u00f3tese de um \u201cnovo 1929\u201d, em uma escala qui\u00e7\u00e1 superior ao maior cataclismo econ\u00f4mico do s\u00e9culo passado. An\u00e1lises catastrofistas foram feitas, mais de uma vez, sobre o destino do capitalismo. A tradi\u00e7\u00e3o socialista debateu o progn\u00f3stico de uma hecatombe econ\u00f4mica, atribu\u00edda a Marx por alguns, embora contestada por outros, e conhecida como teoria do colapso ou do desmoronamento.<\/span><\/p>\n<h3><b>Um intervalo t\u00e3o longo exige uma explica\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica<\/b><\/h3>\n<p><span>A longevidade do capital \u00e9 um tema espinhoso, mas inescap\u00e1vel. Um per\u00edodo de um pouco mais de 170 anos separa-nos da publica\u00e7\u00e3o do\u00a0<\/span><i><span>Manifesto Comunista<\/span><\/i><span>, quando Marx apresentou pela primeira vez, publicamente, suas conclus\u00f5es sobre a condi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do capitalismo, e deve ser reconhecido como um intervalo hist\u00f3rico suficiente, pelo menos como indica\u00e7\u00e3o de que a regularidade das crises n\u00e3o deve ser confundida com um estado de coma terminal, ou antessala de um colapso.\u00a0<\/span><\/p>\n<figure aria-describedby=\"caption-attachment-212490\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/capitalismo.webp\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"661\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/capitalismo.webp 1024w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/capitalismo-300x194.webp 300w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/capitalismo-768x496.webp 768w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/capitalismo-750x484.webp 750w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption>A revolucion\u00e1ria alem\u00e3 Rosa Luxemburgo. <br \/>(Foto: Dom\u00ednio P\u00fablico)<\/figcaption><\/figure>\n<p><span>Sem crises econ\u00f4micas que se desdobrem em crises sociais, evidentemente seria imposs\u00edvel pensar uma estrat\u00e9gia pol\u00edtica de conquista revolucion\u00e1ria do poder, sustentada no combate organizado dos trabalhadores. Petrogrado em 1917, Berlim em 1921 e ainda 1923, Madri e Barcelona entre 1930 e 1937 e, depois, a Fran\u00e7a e a It\u00e1lia entre 1945 e 1948, a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, a revolu\u00e7\u00e3o portuguesa, enfim, todas as situa\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias do s\u00e9culo XX seriam impens\u00e1veis sem o fermento das crises econ\u00f4micas.<\/span><\/p>\n<p><span>No entanto, por mais severas que tenham sido as turbul\u00eancias econ\u00f4micas do capitalismo, n\u00e3o se abriram situa\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias sem a disposi\u00e7\u00e3o de luta dos sujeitos sociais. N\u00e3o h\u00e1 xeque-mate econ\u00f4mico na luta de classes. Nunca houve recess\u00e3o ou mesmo depress\u00e3o sem sa\u00edda. Sempre h\u00e1 uma sa\u00edda econ\u00f4mica para o capital, se sua domina\u00e7\u00e3o n\u00e3o estiver politicamente amea\u00e7ada: descarregar\u00e1 sobre outras classes, e sobre as na\u00e7\u00f5es perif\u00e9ricas, de uma ou outra forma, os custos da recupera\u00e7\u00e3o da taxa m\u00e9dia de lucro.<\/span><\/p>\n<p><span>As duas met\u00e1foras mais comuns nos estudos marxistas sobre a din\u00e2mica do capital s\u00e3o a sequ\u00eancia internamente direcionada g\u00eanese, apogeu e decad\u00eancia, e a sequ\u00eancia recorrente, o movimento dos ciclos. A primeira inspira-se em processos encadeados como inf\u00e2ncia, vida adulta, velhice e morte, ou seja, uma curva hist\u00f3rica com uma orienta\u00e7\u00e3o de ascens\u00e3o e decl\u00ednio definida. A segunda remete a um movimento circular de altern\u00e2ncia de fases como primavera, ver\u00e3o, outono e inverno, que no movimento dos ciclos assume as formas de expans\u00e3o e contra\u00e7\u00e3o. Os dois movimentos descritos n\u00e3o s\u00e3o incompat\u00edveis, s\u00e3o complementares. Os dois modelos te\u00f3ricos s\u00e3o \u00fateis, ainda que sejam inspiradores para temporalidades distintas.<\/span><\/p>\n<p><span>A hist\u00f3ria econ\u00f4mica do capitalismo foi a hist\u00f3ria da valoriza\u00e7\u00e3o do capital. Esta valoriza\u00e7\u00e3o nunca foi homog\u00eanea, linear, uniforme: ela flutua, oscila, balan\u00e7a. Em alguns momentos, acelera; em outros, desacelera. As analogias, por mais fascinantes que sejam, n\u00e3o precisam ser conclusivas. S\u00e3o esquemas de interpreta\u00e7\u00e3o da realidade que buscam regularidades. Exige-se de uma teoria algo mais: uma l\u00f3gica irrefut\u00e1vel, a coer\u00eancia interna de seus fundamentos e verifica\u00e7\u00f5es confi\u00e1veis, ou seja, os crit\u00e9rios de comprova\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>No entanto, os dois movimentos que o marxismo sugere para a compreens\u00e3o das varia\u00e7\u00f5es de pulsa\u00e7\u00e3o do capital nos \u00faltimos 200 anos foram demonstrados com s\u00f3lida demonstra\u00e7\u00e3o estat\u00edstica. A interpreta\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica achou um nexo coerente nas oscila\u00e7\u00f5es entre fases de crescimento e fases de encolhimento da economia mundial, alternando-se os ciclos. A sincronicidade das crises recessivas internacionais aumentou com o processo de globaliza\u00e7\u00e3o de capitais a partir dos anos 70. A interpreta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da sequ\u00eancia direcionada procurou consist\u00eancia na aprecia\u00e7\u00e3o da din\u00e2mica pol\u00edtico-social do sistema: os \u00faltimos 90 anos foram os mais revolucion\u00e1rios da hist\u00f3ria da humanidade.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>A partir de 1914, o capitalismo mergulhou o mundo em duas guerras mundiais e, desde ent\u00e3o, a civiliza\u00e7\u00e3o se viu amea\u00e7ada pela possibilidade de um holocausto nuclear, por guerras regionais cada vez mais graves entre os pa\u00edses centrais e as na\u00e7\u00f5es perif\u00e9ricas, e por uma crise ambiental sem precedentes. Revolu\u00e7\u00f5es sacudiram as mais diversas sociedades em todos os continentes.<\/span><\/p>\n<h3><b>Duas met\u00e1foras sobre o destino do capitalismo<\/b><\/h3>\n<p><span>Estas duas met\u00e1foras nos permitiriam concluir que o marxismo afirma que o capitalismo caminha de crise em crise at\u00e9 um desmoronamento econ\u00f4mico? Na verdade, os marxistas polemizaram entre si sobre tudo e em primeiro lugar sobre o destino do capitalismo. Pioneira na identifica\u00e7\u00e3o da natureza destrutiva do capitalismo em sua fase imperialista, a obra de <a href=\"https:\/\/operamundi.uol.com.br\/politica-e-economia\/pensamento-de-rosa-luxemburgo-segue-atual-mesmo-apos-105-anos-de-sua-morte\/\">Rosa Luxemburgo<\/a> permanece uma inspira\u00e7\u00e3o para os socialistas do s\u00e9culo XXI. Mas a hip\u00f3tese da crise final que ela, entre outros, considerou seriamente, n\u00e3o parece ter passado na prova da hist\u00f3ria. N\u00e3o porque tenham faltado crises na economia capitalista, mas pela capacidade do sistema de super\u00e1-las, se n\u00e3o triunfa a mobiliza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria de massas. Vejamos seus argumentos:<\/span><\/p>\n<p><span>\u201cA tend\u00eancia objetiva da evolu\u00e7\u00e3o capitalista para tal desenlace \u00e9 suficiente para produzir muito antes uma tal agudiza\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica das for\u00e7as opostas que ter\u00e1 de p\u00f4r fim ao sistema dominante [\u0085] Se, pelo contr\u00e1rio, aceitarmos, como os \u2018especialistas\u2019, que a acumula\u00e7\u00e3o capitalista pode ser ilimitada, desmorona para o socialismo o solo gran\u00edtico da necessidade hist\u00f3rica objetiva. N\u00f3s nos perder\u00edamos nas nebulosidades dos sistemas e escolas pr\u00e9-marxistas, que queriam deduzir o socialismo unicamente da injusti\u00e7a e perversidade do mundo atual e da decis\u00e3o revolucion\u00e1ria das classes trabalhadoras\u201d (LUXEMBURGO, 1980, p. 31, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/span><\/p>\n<p><span>A quest\u00e3o te\u00f3rica, como \u00e9 \u00f3bvio, \u00e9 decisiva, no seu sentido mais grave. Em que medida operam as tend\u00eancias objetivas, estritamente econ\u00f4micas, \u00e0 crise, como um dos fatores estruturais do atual per\u00edodo hist\u00f3rico? A cr\u00edtica dos cl\u00e1ssicos n\u00e3o \u00e9 um procedimento simples. No entanto, quando a perspectiva de uma avalia\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica se imp\u00f5e como necess\u00e1ria, os erros de progn\u00f3stico n\u00e3o s\u00e3o incomuns. Os revolucion\u00e1rios socialistas, sem exce\u00e7\u00e3o, abra\u00e7aram um projeto que tem pressa. N\u00e3o ser\u00e1 surpresa se foram impacientes e v\u00edtimas de autoengano. N\u00e3o nos devemos decepcionar se alguns, entre os mais capazes, acreditaram que o fim do capitalismo era iminente.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>O mundo em que nos coube viver \u00e9 demasiado terr\u00edvel para que aceitemos que esta ordem mundial deva se perpetuar ainda por muito tempo. \u00c9 razo\u00e1vel que a ansiedade da revolta tenha, involuntariamente, favorecido hip\u00f3teses e progn\u00f3sticos equivocados. O desejo de abreviar o intervalo da transi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica alimentou vatic\u00ednios errados. As dores de parto da passagem p\u00f3s-capitalista revelaram-se, contudo, muito mais penosas e longas do que se poderia prever h\u00e1 cem anos atr\u00e1s. Mandel recupera, com grandeza, a contribui\u00e7\u00e3o de Rosa Luxemburgo:<\/span><\/p>\n<p><span>\u201cRosa Luxemburgo foi a primeira a tratar de elaborar, sobre uma base estritamente cient\u00edfica, uma teoria do inevit\u00e1vel colapso do modo capitalista de produ\u00e7\u00e3o. Em seu livro <\/span><i><span>A acumula\u00e7\u00e3o de capital<\/span><\/i><span>, procurou demonstrar que a reprodu\u00e7\u00e3o ampliada era imposs\u00edvel no capitalismo \u2018puro]\u2019. Esse modo de produ\u00e7\u00e3o tinha, portanto, uma tend\u00eancia inerente de se expandir num meio n\u00e3o-capitalista, ou seja, de devorar grandes \u00e1reas de pequena produ\u00e7\u00e3o de mercadorias que ainda sobrevivem dentro das metr\u00f3poles capitalistas e expandir-se, continuamente, para a periferia n\u00e3o-capitalista: os pa\u00edses coloniais e semicoloniais\u201d (MANDEL, 1985a, p. 233, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/span><\/p>\n<p><span>Um ju\u00edzo cr\u00edtico da teoria do desmoronamento econ\u00f4mico parece, contudo, incontorn\u00e1vel, sobretudo para aqueles engajados em um projeto anticapitalista. Mais do que nunca, a defesa do socialismo exige firmeza na defesa do que permanece vigente na heran\u00e7a marxista, indissoci\u00e1vel, por\u00e9m, da disposi\u00e7\u00e3o de revisar o que se demonstrou unilateral.<\/span><\/p>\n<h3><b>Hip\u00f3teses explorat\u00f3rias e erros de progn\u00f3stico<\/b><\/h3>\n<p><span>N\u00e3o h\u00e1 por que temer o af\u00e3 revisionista. Todos os grandes marxistas foram, em algum aspecto, revisionistas do legado que receberam e, frequentemente, de si pr\u00f3prios. Polemizaram empolgados, at\u00e9 exaltados, sobre tudo. In\u00fameras previs\u00f5es hist\u00f3ricas constru\u00eddas pelo marxismo n\u00e3o se confirmaram, sem que esses erros diminu\u00edssem a for\u00e7a da teoria. A constru\u00e7\u00e3o de cen\u00e1rios mais prov\u00e1veis n\u00e3o deve ser confundida com a adivinha\u00e7\u00e3o. Procurar antecipar-se aos acontecimentos, analisando as linhas de for\u00e7a das tend\u00eancias em presen\u00e7a, considerando seus movimentos internos, corresponde ao estatuto das ci\u00eancias sociais. As aproxima\u00e7\u00f5es sucessivas foram e ser\u00e3o inevit\u00e1veis. Os equ\u00edvocos tamb\u00e9m.<\/span><\/p>\n<p><span>Nesse terreno, n\u00e3o houve marxista que n\u00e3o tenha cometido mais erros do que acertos, e n\u00e3o poderia ser diferente. Os equ\u00edvocos n\u00e3o se reduziram a quest\u00f5es marginais, mas remeteram at\u00e9 ao desenho do projeto estrat\u00e9gico. Lembremos, a t\u00edtulo de exemplo, que o pr\u00f3prio Marx, inspirado pela experi\u00eancia de 1848, considerava prov\u00e1vel que as primeiras revolu\u00e7\u00f5es prolet\u00e1rias vitoriosas tivessem como cen\u00e1rio a Europa Ocidental, estendendo-se na forma de vagas ou ondas de um pa\u00eds para outros, e se equivocou. Onde o capitalismo realizou de forma pioneira a industrializa\u00e7\u00e3o e onde, portanto, as condi\u00e7\u00f5es materiais para iniciar uma transi\u00e7\u00e3o socialista eram mais favor\u00e1veis, as tentativas revolucion\u00e1rias foram derrotadas. A Inglaterra permanece um dos basti\u00f5es da contrarrevolu\u00e7\u00e3o mundial.<\/span><\/p>\n<p><span>Os erros de progn\u00f3stico pol\u00edtico n\u00e3o diminuem os acertos de m\u00e9todo hist\u00f3rico. Marx errou na escala, por\u00e9m, acertou na subst\u00e2ncia. Afirmou que a revolu\u00e7\u00e3o anticapitalista seria um processo cada vez mais mundial, com refra\u00e7\u00f5es nacionais. A primeira vaga das revolu\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo XX, entre 1917 e 1923, sacudiu os fundamentos da domina\u00e7\u00e3o burguesa em toda a Europa Central, triunfou no antigo imp\u00e9rio dos Czares, mas deixou a Rep\u00fablica dos Sovietes isolada. Uma segunda vaga, depois da crise de 1929, incendiou a Alemanha e a Espanha, atingiu a Fran\u00e7a, mas tamb\u00e9m foi derrotada. L\u00eanin previu que, quando chegasse a hora da revolu\u00e7\u00e3o nas metr\u00f3poles imperialistas, soaria a hora da revolu\u00e7\u00e3o anticolonial na \u00c1sia e \u00c1frica. Mas, a din\u00e2mica hist\u00f3rica, em grande medida, foi invertida. Foi a revolu\u00e7\u00e3o na Arg\u00e9lia que fermentou as condi\u00e7\u00f5es para o Maio de 68 franc\u00eas, foi a guerra colonial em Angola, Guin\u00e9 e Mo\u00e7ambique que inflamou as condi\u00e7\u00f5es para a derrubada da ditadura em Portugal. Foi assim porque nas tr\u00eas ondas revolucion\u00e1rias seguintes o epicentro da revolu\u00e7\u00e3o mundial deslocou-se para a periferia do sistema.<\/span><\/p>\n<p><span>Em mais de uma oportunidade, portanto, o capitalismo esteve seriamente amea\u00e7ado no s\u00e9culo XX. N\u00e3o faltaram revolu\u00e7\u00f5es que desafiaram o sistema. Na aurora do s\u00e9culo XXI, contudo, nem um s\u00f3 pa\u00eds est\u00e1 em transi\u00e7\u00e3o para o socialismo. O capital inicia o novo mil\u00eanio estendendo as rela\u00e7\u00f5es mercantis at\u00e9 mesmo aos pa\u00edses em que a propriedade privada tinha sido expropriada, como China e Vietn\u00e3. O destino de Cuba n\u00e3o parece ser, infelizmente, diferente. Uma conclus\u00e3o perempt\u00f3ria est\u00e1 colocada para os marxistas: a transi\u00e7\u00e3o pr\u00f3-capitalista demonstrou-se muito mais complexa do que tinha sido, teoricamente, prevista. As revolu\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-sociais dentro de fronteiras nacionais encontram pela frente uma for\u00e7a muito mais poderosa: a contrarrevolu\u00e7\u00e3o internacional. No entanto, como todos os modos de produ\u00e7\u00e3o que o precederam, o capitalismo corresponde a um per\u00edodo hist\u00f3rico e est\u00e1 condenado a desaparecer. Mas a burguesia n\u00e3o vai cometer suic\u00eddio coletivo. N\u00e3o renunciar\u00e1 \u00e0s suas riquezas sem uma luta encarni\u00e7ada.<\/span><\/p>\n<p><span>Ainda que todos os projetos de transi\u00e7\u00e3o ao socialismo tenham encontrado obst\u00e1culos insuper\u00e1veis em condi\u00e7\u00f5es de isolamento nacional e mis\u00e9ria econ\u00f4mica e cultural, como na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, foi nos pa\u00edses de desenvolvimento retardat\u00e1rio da periferia que a ruptura anticapitalista ganhou apoio de massas e revolu\u00e7\u00f5es sociais triunfaram. Contrariando as expectativas das tr\u00eas primeiras gera\u00e7\u00f5es marxistas, foi nos pa\u00edses coloniais e semicoloniais que o capital foi expropriado. No entanto, elaborar hip\u00f3teses de trabalho mais prov\u00e1veis como antevis\u00f5es explorat\u00f3rias correspondia ao m\u00e9todo, e permanece uma necessidade.<\/span><\/p>\n<p><span>Resumindo, nunca existiram nem te\u00f3ricos nem dirigentes infal\u00edveis. Os erros dos que nos antecederam n\u00e3o os diminuem diante de suas gigantescas realiza\u00e7\u00f5es. Entre marxistas n\u00e3o deveriam existir temas tabus. A causa do socialismo n\u00e3o precisa do culto \u00e0 personalidade de ningu\u00e9m. Apoiamo-nos nos ombros dos que nos antecederam e nas li\u00e7\u00f5es que a hist\u00f3ria nos legou e, por isso, podemos e devemos fazer corre\u00e7\u00f5es e revis\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span>A teoria da crise final estava errada.<\/span><\/p>\n<p><b><i>(*) Val\u00e9rio Arcary<\/i><\/b><i><span> \u00e9 historiador e professor titular aposentado do Instituto Federal de Educa\u00e7\u00e3o, Ci\u00eancia e Tecnologia de S\u00e3o Paulo.<\/span><\/i><\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/operamundi.uol.com.br\/opiniao\/a-teoria-da-crise-final-do-capitalismo-nao-foi-confirmada\/\">A teoria da crise final do capitalismo n\u00e3o foi confirmada<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/operamundi.uol.com.br\/\">Opera Mundi<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/stf-ex-comandante-da-fab-presta-depoimento-sobre-trama-golpista\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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