{"id":14775,"date":"2025-02-26T14:42:14","date_gmt":"2025-02-26T17:42:14","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/decisao-do-ibama-sobre-belo-monte-retoma-disputa-entre-energia-e-vida-tradicional-no-xingu\/"},"modified":"2025-02-26T14:42:14","modified_gmt":"2025-02-26T17:42:14","slug":"decisao-do-ibama-sobre-belo-monte-retoma-disputa-entre-energia-e-vida-tradicional-no-xingu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/decisao-do-ibama-sobre-belo-monte-retoma-disputa-entre-energia-e-vida-tradicional-no-xingu\/","title":{"rendered":"Decis\u00e3o do Ibama sobre Belo Monte retoma disputa entre energia e vida tradicional no Xingu"},"content":{"rendered":"<p>No \u00faltimo dia 24 de janeiro, beiradeiros e ind\u00edgenas moradores da Volta Grande do Xingu foram surpreendidos por algo que h\u00e1 anos n\u00e3o viam acontecer nesta \u00e9poca do ano: a eleva\u00e7\u00e3o r\u00e1pida do n\u00edvel do rio no trecho de cerca de 130 quil\u00f4metros entre a cidade de Altamira e a Usina Hidrel\u00e9trica de Belo Monte, no Par\u00e1.\u00a0<\/p>\n<p>As \u00e1guas j\u00e1 estavam subindo quando a Norte Energia, concession\u00e1ria que opera a hidrel\u00e9trica, enviou uma sequ\u00eancia de mensagens avisando aos moradores que a vaz\u00e3o (volume de \u00e1gua que corre por um determinado trecho) aumentaria de cerca de 1.800 metros c\u00fabicos por segundo (m<sup>3<\/sup>\/s) para mais de 5.000 m\u00b3\/s j\u00e1 no dia seguinte.\u00a0<\/p>\n<p>Foi o suficiente para, pela primeira vez em meses, a \u00e1gua entrar em uma das ilhas da Volta Grande do Xingu, formando um pequeno riacho no ch\u00e3o da mata. Era o sinal que os peixes esperavam: a chance de depositar suas ovas na \u00e1gua em um local seguro.\u00a0<\/p>\n<p>No dia seguinte, por\u00e9m, a vaz\u00e3o diminuiu e o pouco de \u00e1gua que havia entrado na ilha retrocedeu. Foi quando Jainy Kuruya de Almeida, de 42 anos, encontrou uma cena horr\u00edvel: <span>os milhares de ovas rec\u00e9m-depositadas tinham ido parar todas no seco.<\/span> Uma senten\u00e7a de morte, j\u00e1 que elas precisam estar na \u00e1gua para sobreviver.<\/p>\n<p>\u201cDava para ver os \u2018peixinhos\u2019 pulando dentro. Muito triste\u201d, disse ela \u00e0 reportagem.\u00a0<\/p>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"67bf56a648f42\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" aria-label=\"Aumentar imagem: R\u00e9guas do Monitoramento Ambiental Territorial Independente na piracema do Odilo, na Volta Grande do Xingu, que, antes da usina, sempre alagava em fevereiro, mas agora est\u00e1 totalmente seca\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\" data-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><figcaption><em>R\u00e9guas do Monitoramento Ambiental Territorial Independente na piracema do Odilo, na Volta Grande do Xingu, que, antes da usina, sempre alagava em fevereiro, mas agora est\u00e1 totalmente seca<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>O epis\u00f3dio de morte em massa na Volta Grande est\u00e1 no centro do mais recente cap\u00edtulo de um longo hist\u00f3rico de disputas entre a Norte Energia e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renov\u00e1veis (Ibama), respons\u00e1vel pelo licenciamento ambiental do empreendimento, sobre a quantidade de \u00e1gua para a Volta Grande do Xingu.\u00a0<\/p>\n<p>No \u00faltimo dia 14, o \u00f3rg\u00e3o federal determinou que a empresa mantivesse aquela vaz\u00e3o maior de \u00e1gua na regi\u00e3o at\u00e9 o final do per\u00edodo de defeso (paralisa\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria da pesca para preservar as esp\u00e9cies), sem redu\u00e7\u00f5es que pudessem provocar uma queda abrupta no n\u00edvel do rio, levando a novas perdas de ovas, como a flagrada por Jainy.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 que o aumento da vaz\u00e3o s\u00f3 ocorrera a partir de um fato extraordin\u00e1rio: uma tempestade havia derrubado cinco torres de uma das linhas de transmiss\u00e3o ligada \u00e0 usina, provocando o desligamento de algumas unidades geradoras. Sem a possibilidade de gerar mais energia, a Norte Energia se viu obrigada a liberar mais \u00e1gua do que o previsto em seu planejamento para a Volta Grande.\u00a0<\/p>\n<p>Tr\u00eas dias depois da decis\u00e3o do Ibama, a Norte Energia entrou na Justi\u00e7a contra a determina\u00e7\u00e3o, argumentando que o problema na linha de transmiss\u00e3o j\u00e1 havia sido solucionado e que, portanto, j\u00e1 estava apta para reduzir a vaz\u00e3o e voltar a gerar mais energia. Segundo a empresa, seguir a determina\u00e7\u00e3o do Ibama implicaria perdas para a gera\u00e7\u00e3o el\u00e9trica e danos de cerca de R$ 16 milh\u00f5es por m\u00eas para a Norte Energia. No \u00faltimo dia 19, a Justi\u00e7a acatou os argumentos e autorizou a redu\u00e7\u00e3o da vaz\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>\u00c0 reportagem, o Ibama afirmou que nesta segunda-feira (24) houve uma reuni\u00e3o entre o \u00f3rg\u00e3o, a Ag\u00eancia Nacional de \u00c1guas (ANA) e a Uni\u00e3o para \u201cpara discutir a a\u00e7\u00e3o proposta pela Norte Energia e a liminar concedida pelo juiz da causa\u201d. Ainda de acordo com o \u00f3rg\u00e3o, o Ibama apresentar\u00e1 ao juiz esclarecimentos t\u00e9cnicos sobre a quest\u00e3o.<\/p>\n<div>\n<div>\n<h2>Por que isso importa?<\/h2>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<ul>\n<li>Decis\u00e3o do Ibama de manter vaz\u00e3o de \u00e1gua mais alta para a Volta Grande do Xingu reacende den\u00fancias de ind\u00edgenas e ribeirinhos sobre impactos socioambientais no momento em que renova\u00e7\u00e3o da licen\u00e7a \u00e9 analisada.<\/li>\n<li>Embate em torno do chamado hidrograma escancara o fato de que a usina gera, em m\u00e9dia, apenas 31% da sua capacidade instalada, enquanto o rio, muito seco, n\u00e3o consegue mais garantir a reprodu\u00e7\u00e3o de peixes.<\/li>\n<\/ul><\/div>\n<\/p><\/div>\n<h3><strong>\u00c1gua em disputa<\/strong><\/h3>\n<p>A quantidade de \u00e1gua na Volta Grande do Xingu \u00e9 um dos pontos mais sens\u00edveis do processo de renova\u00e7\u00e3o da licen\u00e7a de opera\u00e7\u00e3o da usina, vencida desde 2021 e atualmente sob an\u00e1lise do Ibama.\u00a0<\/p>\n<p>A explica\u00e7\u00e3o \u00e9 simples: quanto mais \u00e1gua \u00e9 liberada para a regi\u00e3o, menos \u00e1gua fica dispon\u00edvel para correr pelas turbinas e gerar energia. Mas a licen\u00e7a de opera\u00e7\u00e3o da usina determinou que o controle da vaz\u00e3o fosse feito de forma a atenuar os impactos para a fauna e para o modo de vida das popula\u00e7\u00f5es da Volta Grande.<\/p>\n<p>\u201cA \u00e1gua hoje est\u00e1 sendo roubada. Est\u00e3o roubando a \u00e1gua da reprodu\u00e7\u00e3o dos peixes\u201d, resume a beiradeira e pescadora Sara Rodrigues Lima, de 41 anos, sobre a situa\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o em que nasceu e sempre viveu.\u00a0<\/p>\n<p>O \u201croubo\u201d, como denunciado por Sara, acontece pela opera\u00e7\u00e3o da usina, que, ao barrar o fluxo do rio, retirou em m\u00e9dia entre 70% e 80% das \u00e1guas que antes alimentavam o Xingu no trecho da Volta Grande.\u00a0<\/p>\n<p>Isso porque a usina opera no modelo chamado \u201cfio d\u2019\u00e1gua\u201d. Outras hidrel\u00e9tricas do mesmo porte no Brasil, como Itaipu e Tucuru\u00ed, possuem imensos reservat\u00f3rios para regular a quantidade de \u00e1gua que passa pelas turbinas. J\u00e1 Belo Monte depende do fluxo natural do rio.<\/p>\n<p>Para essa engenharia funcionar, foram necess\u00e1rias duas barragens. A primeira, do Pimental, tem uma casa de for\u00e7a pequena, com apenas seis turbinas. Sua principal fun\u00e7\u00e3o \u00e9 barrar o fluxo do rio \u2013 em um ponto a cerca de 40 km da cidade de Altamira, logo antes do in\u00edcio da Volta Grande \u2013 para encher o reservat\u00f3rio do Xingu, formado pelo pr\u00f3prio leito do rio.\u00a0<\/p>\n<p>A \u00e1gua desse reservat\u00f3rio \u00e9 desviada por meio de um canal para um segundo reservat\u00f3rio, menor, que alimenta a segunda barragem, a de Belo Monte, onde est\u00e1 a casa de for\u00e7a principal, com 18 turbinas com 11.000 MW (megawatts) de pot\u00eancia instalada \u2013 para compara\u00e7\u00e3o, Itaipu, a maior usina do pa\u00eds, tem capacidade de 14.000 MW.\u00a0<\/p>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"67bf56a6492cc\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" aria-label=\"Aumentar imagem\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\" data-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><\/figure>\n<p>Por centenas de milhares de anos, o ciclo do rio esteve bem demarcado entre per\u00edodos de enchente (quando as \u00e1gua come\u00e7avam a subir, a partir de novembro), cheia (cujo pico costumava ser em abril), vazante (quando as \u00e1guas come\u00e7am a baixar) e seca (entre agosto e setembro).\u00a0<\/p>\n<p>Era esse pulso do rio que orientava todos os ritmos da vida na regi\u00e3o, da frutifica\u00e7\u00e3o das \u00e1rvores \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o de peixes e outros animais. Tudo estava sincronizado \u2013 e os povos tradicionais da regi\u00e3o, ind\u00edgenas e beiradeiros, conheciam essa sincronia como ningu\u00e9m, dependendo dela para todas as suas atividades. At\u00e9 que veio a hidrel\u00e9trica.<\/p>\n<p>\u201cHoje em dia quem manda no ciclo \u00e9 a Norte Energia. O rio Xingu est\u00e1 sendo escravizado pelo desenvolvimento, um desenvolvimento que n\u00e3o serve para mim, que sou pescadora, beiradeira e m\u00e3e aqui na Volta Grande\u201d, diz Sara.\u00a0<\/p>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"67bf56a6494b8\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" aria-label=\"Aumentar imagem: A pescadora e beiradeira Sara Rodrigues Lima, de 41 anos, nascida e criada na Volta Grande do Xingu\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\" data-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><figcaption><em>A pescadora e beiradeira Sara Rodrigues Lima, de 41 anos, nascida e criada na Volta Grande do Xingu<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Para ela e para outras fam\u00edlias tradicionais da regi\u00e3o, o funcionamento da usina implica massacres \u2013 do rio, de um mundo e de um modo de vida \u2013 na medida em que n\u00e3o \u00e9 mais a natureza que dita o pulso do Xingu. A regra, agora, \u00e9 a do \u201chidrograma\u201d, plano que estipula a vaz\u00e3o a ser praticada a cada m\u00eas na regi\u00e3o, definido nas licen\u00e7as ambientais da usina, aprovadas pelo Ibama, e estabelecido na outorga da ANA, que concedeu \u00e0 Norte Energia o direito de usar o rio Xingu.\u00a0<\/p>\n<p>A empresa chama de \u201chidrograma de consenso\u201d \u2013 termo contestado por moradores da regi\u00e3o \u2013 e defende a regra, alegando que seus impactos j\u00e1 estavam previstos no Estudo de Impacto Ambiental (EIA), apresentado h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada, durante o licenciamento.<\/p>\n<p>No final de 2023, um relat\u00f3rio de t\u00e9cnicos do Ibama chegou a recomendar que a Norte Energia ajustasse o hidrograma para a regi\u00e3o da Volta Grande, com \u201c\u00e1gua suficiente para que a ictiofauna [peixes] se reproduza nos meses de dezembro, janeiro, fevereiro e mar\u00e7o\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>A recomenda\u00e7\u00e3o, no entanto, n\u00e3o subiu de n\u00edvel na hierarquia do \u00f3rg\u00e3o. Em comunicado \u00e0 empresa, a Diretoria de Licenciamento Ambiental do Ibama disse que a quest\u00e3o do hidrograma ainda estava \u201csob avalia\u00e7\u00e3o institucional\u201d e orientou a Norte Energia a aguardar novas orienta\u00e7\u00f5es. Desde ent\u00e3o, o \u00f3rg\u00e3o s\u00f3 se manifestou em situa\u00e7\u00f5es pontuais sobre a vaz\u00e3o, como no \u00faltimo dia 14.\u00a0<\/p>\n<p>Mais cedo ou mais tarde, por\u00e9m, o Ibama precisar\u00e1 se pronunciar de forma definitiva sobre o hidrograma, j\u00e1 que est\u00e1 analisando a renova\u00e7\u00e3o da Licen\u00e7a de Opera\u00e7\u00e3o da usina, expedida em 2015 e vencida h\u00e1 quase quatro anos. Uma das medidas que condicionam a opera\u00e7\u00e3o \u00e9, justamente, o controle das vaz\u00f5es da Volta Grande do Xingu, \u201csempre com objetivo de mitigar impactos na qualidade da \u00e1gua, ictiofauna, vegeta\u00e7\u00e3o aluvial, quel\u00f4nios, pesca, navega\u00e7\u00e3o e modos de vida da popula\u00e7\u00e3o da Volta Grande\u201d.<\/p>\n<p>Questionado sobre esse e outros pontos, o Ibama n\u00e3o respondeu \u00e0s perguntas enviadas pela reportagem. O \u00f3rg\u00e3o tem sido alvo de <a href=\"https:\/\/apublica.org\/2025\/02\/o-vai-e-vem-do-petroleo-na-foz-do-amazonas-e-o-elefante-na-sala-ignorado-no-debate\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">intensa press\u00e3o p\u00fablica<\/a>, ap\u00f3s<a href=\"https:\/\/apublica.org\/2025\/02\/petroleo-desperta-o-lado-trump-de-lula\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"> falas do presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva<\/a> e outras autoridades do governo federal sobre a explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo na foz do rio Amazonas.\u00a0<\/p>\n<p>A Norte Energia, tamb\u00e9m questionada pela reportagem, informou que n\u00e3o vai se manifestar. Caso a empresa ou o \u00f3rg\u00e3o decidam se manifestar, esse texto ser\u00e1 atualizado.\u00a0<\/p>\n<h3><strong>Piracemas secas<\/strong><\/h3>\n<p>Ainda que a queda das torres de transmiss\u00e3o tenha possibilitado um volume maior de \u00e1gua no final de janeiro, a vaz\u00e3o continuou muito abaixo da m\u00e9dia hist\u00f3rica antes da constru\u00e7\u00e3o da usina.\u00a0<\/p>\n<p>A reportagem esteve na regi\u00e3o entre os dias 4 e 8 de fevereiro, quando a vaz\u00e3o m\u00e9dia foi de 5.579 m\u00b3\/s \u2013 menos da metade da m\u00e9dia hist\u00f3rica de 13.544 m\u00b3\/s para o m\u00eas de fevereiro. Ainda assim, mais do que os 1.600 m\u00b3\/s previstos pelo hidrograma.<\/p>\n<p>Essa quantidade de \u00e1gua tem sido insuficiente para alagar \u00e1reas onde, antes da usina, havia reprodu\u00e7\u00e3o de peixes, as chamadas piracemas. No Xingu, a palavra se refere, simultaneamente, aos meses e aos locais de reprodu\u00e7\u00e3o. Elas podem estar localizadas nas ilhas do rio ou em terra firme. Tamb\u00e9m podem estar conectadas a um lago ou dependerem exclusivamente do Xingu para encherem de \u00e1gua.\u00a0<\/p>\n<p>A reportagem esteve em sete piracemas na Volta Grande. Nenhuma delas tinha \u00e1gua suficiente para que os peixes pudessem entrar para desovar e se alimentar. Duas estavam completamente secas. Um mau sinal, j\u00e1 que essas piracemas costumavam alagar primeiro.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cO igap\u00f3 inundava mais de 1 metro, v\u00e1rias frutas ca\u00edam na \u00e1gua. Tanto o pacu como o matrinx\u00e3, a curimat\u00e1, que entravam para fazer a desova, vinham se alimentar. Trair\u00e3o, tra\u00edra, arraia tamb\u00e9m. Tudo voc\u00ea via aqui nessas ilhas. Agora n\u00e3o d\u00e1 mais. As frutas caem todas no seco\u201d, explica Josiel Jacinto Pereira Juruna, de 33 anos.\u00a0<\/p>\n<p>Josiel \u00e9 do povo Juruna, autodenominado Yudj\u00e1, conhecido como \u201cos donos do rio\u201d por sua tradi\u00e7\u00e3o canoeira e modo de vida intimamente ligado ao Xingu. Ele \u00e9 coordenador do <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/mati.xingu\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Monitoramento Ambiental Territorial Independente (Mati)<\/a>, uma iniciativa in\u00e9dita no Brasil formada por cientistas locais, ind\u00edgenas e beiradeiros, que, em conjunto com pesquisadores de diferentes universidades, monitora a sa\u00fade das piracemas e igap\u00f3s da Volta Grande.\u00a0<\/p>\n<p>Em um trabalho di\u00e1rio, os monitores, todos moradores da regi\u00e3o, v\u00e3o \u00e0s piracemas sob sua supervis\u00e3o munidos com seus celulares para registrar o n\u00edvel da \u00e1gua marcado nas r\u00e9guas instaladas nos pontos que sempre alagaram.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cA gente consultou os mais velhos\u201d, diz Josiel. \u201cQuem indicou essa piracema aqui foi meu pai, que hoje est\u00e1 com 75 anos. Ele nos contou o hist\u00f3rico dessa piracema. Falou que antes da barragem, no final de novembro, j\u00e1 entrava peixe aqui.\u201d<\/p>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"67bf56a649786\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" aria-label=\"Aumentar imagem: Josiel Juruna, coordenador do Mati apoia-se no piez\u00f4metro, equipamento usado para medir o n\u00edvel do len\u00e7ol fre\u00e1tico na piracema do Odilo\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\" data-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><figcaption><em>Josiel Juruna, coordenador do Mati apoia-se no piez\u00f4metro, equipamento usado para medir o n\u00edvel do len\u00e7ol fre\u00e1tico na piracema do Odilo<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Naquele 6 de fevereiro, no entanto, as camadas de folhas secas no ch\u00e3o e os grandes ninhos de formiga sa\u00fava eram sinais claros de que a piracema do Z\u00e9 Maria n\u00e3o via \u00e1gua havia meses. O ribeirinho Raimundo da Cruz e Silva, de 49 anos, explica: as formigas jamais faziam ninho em lugares que sabiam que ia alagar. Segundo Josiel, se repetir o padr\u00e3o dos \u00faltimos anos, a \u00e1gua s\u00f3 deve chegar em abril, quando o per\u00edodo de reprodu\u00e7\u00e3o j\u00e1 ter\u00e1 acabado.\u00a0<\/p>\n<p>Trata-se de um duplo problema: quantidade de \u00e1gua insuficiente e por tempo tamb\u00e9m insuficiente.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cMesmo que seja num n\u00edvel mais baixo, tem que manter a \u00e1gua por um per\u00edodo minimamente adequado para que os peixes entrem, desovem, os ovos consigam eclodir e as larvas possam crescer, para que quando a \u00e1gua baixe, trazendo esses peixinhos de volta para o rio, eles j\u00e1 estejam num tamanho grande o suficiente para que n\u00e3o morram tantos\u201d, explica o bi\u00f3logo Jansen Zuanon, pesquisador aposentado do Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz\u00f4nia (Inpa) e integrante do Mati.\u00a0<\/p>\n<p>Desde que a usina come\u00e7ou a ser constru\u00edda e a \u00e1gua do Xingu, desviada, esse \u00e9 um dos ciclos, forjados ao longo de milhares de anos pela natureza, que foram quebrados.\u00a0<\/p>\n<p>O Mati nasceu para traduzir, com dados cient\u00edficos, as consequ\u00eancias dessa ruptura, que os Juruna e os beiradeiros j\u00e1 observavam por viverem no (e do) rio: o fim da reprodu\u00e7\u00e3o em algumas piracemas e a queda na quantidade e na qualidade dos peixes, que j\u00e1 n\u00e3o conseguem mais se alimentar nos igap\u00f3s.\u00a0<\/p>\n<p>Os dados contestam tamb\u00e9m os monitoramentos da Norte Energia, que afirma, em comunica\u00e7\u00f5es oficiais, que a maioria das esp\u00e9cies \u201cmanteve a propor\u00e7\u00e3o de peixes maduros\u201d ao longo de 12 anos de estudos e que algumas mudan\u00e7as no padr\u00e3o de reprodu\u00e7\u00e3o j\u00e1 eram previstas no EIA.\u00a0<\/p>\n<p>Recentemente, a empresa informou que um levantamento participativo realizado com moradores da regi\u00e3o localizou mais de 140 piracemas e que parte delas teria ficado inundada, \u201cgarantindo a reprodu\u00e7\u00e3o para os peixes\u201d. A reportagem pediu que a Norte Energia explicasse como fez esse monitoramento e quais evid\u00eancias coletou para afirmar que a reprodu\u00e7\u00e3o est\u00e1 assegurada. N\u00e3o obteve resposta.\u00a0<\/p>\n<h3><strong>Ovas no seco\u00a0<\/strong><\/h3>\n<p>Jainy, que encontrou as ovas no seco no \u00faltimo dia 26, \u00e9 uma das monitoras do Mati. Ela relata que casos de morte em massa de ovas vem acontecendo todos os anos.\u00a0<\/p>\n<figure><video controls src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Piracema-Barracao-Jan25_Decisao-do-Ibama-sobre-Belo-Monte-retoma-disputa-entre-energia-e-vida-tradicional-no-Xingu.mp4\" preload=\"none\"><\/video><figcaption><em>V\u00eddeo mostra ovas depositadas pelos peixes \u2013 Cr\u00e9dito: Jainy de Almeida\/Monitoramento Ambiental Territorial Independente (Mati)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Na piracema do Odilo, monitorada por Josiel, a primeira vez que o ber\u00e7\u00e1rio de pequenos peixes se transformou em um cemit\u00e9rio, como <a href=\"https:\/\/sumauma.com\/o-dia-em-que-os-yudja-encontraram-um-bercario-de-peixes-transformado-em-tumulo-por-belo-monte\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">mostrou reportagem da Suma\u00fama<\/a>, foi em fevereiro de 2023.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cMeu pai mesmo falou que nunca tinha visto aquilo acontecer\u201d, conta Josiel. Desde ent\u00e3o, na mesma piracema, ele encontrou ovas no seco em 2024 e neste ano.\u00a0<\/p>\n<p>Por tr\u00e1s desses epis\u00f3dios est\u00e1 a varia\u00e7\u00e3o da vaz\u00e3o na Volta Grande, que muda em poucos dias, \u00e0s vezes em poucas horas, segundo os moradores, que chamam o movimento de \u201cefeito sanfona\u201d. Segundo a outorga da ANA, a Norte Energia n\u00e3o pode alterar a vaz\u00e3o na regi\u00e3o para al\u00e9m de determinada taxa \u2013 o problema \u00e9 que n\u00e3o se sabe qual a correla\u00e7\u00e3o entre essa vaz\u00e3o e o n\u00edvel do rio. Mesmo altera\u00e7\u00f5es pequenas na vaz\u00e3o podem alterar o n\u00edvel do rio e, por consequ\u00eancia, das piracemas.\u00a0<\/p>\n<p>Quando mais \u00e1gua \u00e9 liberada e o rio come\u00e7a a subir, os peixes entendem que \u00e9 a hora da desova. Se, no entanto, as comportas s\u00e3o fechadas e o n\u00edvel do rio desce abruptamente, os peixes acabam presos em po\u00e7as ou em lagos, sem ter como voltar para o Xingu. J\u00e1 suas ovas v\u00e3o parar no solo seco.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cOs peixes ficam loucos\u201d, diz Raimundo, morador e lideran\u00e7a comunit\u00e1ria da Volta Grande, que monitora, pelo Mati, a piracema do Goianinho, nome de sua comunidade.\u00a0<\/p>\n<p>A reportagem esteve no local: a \u00e1gua marcava menos de 60 cent\u00edmetros na r\u00e9gua, mas, nesta \u00e9poca, era para j\u00e1 ter passado de 1,50 metro, alagando o igap\u00f3 \u2013 a \u201cfloresta de peixes\u201d, como diz Raimundo \u2013 onde ele costumava entrar com uma canoa pequena, o que se tornou imposs\u00edvel desde a usina.\u00a0<\/p>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"67bf56a649a4e\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" aria-label=\"Aumentar imagem: Raimundo da Cruz e Silva, integrante do Mati e lideran\u00e7a comunit\u00e1ria da Volta Grande, mostra o n\u00edvel da \u00e1gua esperado para fevereiro antes da usina na piracema do Goianinho\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\" data-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><figcaption><em>Raimundo da Cruz e Silva, integrante do Mati e lideran\u00e7a comunit\u00e1ria da Volta Grande, mostra o n\u00edvel da \u00e1gua esperado para fevereiro antes da usina na piracema do Goianinho<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<h3><strong>Energia x reprodu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<p><span>A disputa em torno das \u00e1guas do Xingu \u00e9 tamb\u00e9m uma quest\u00e3o de calend\u00e1rio.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>Diante da determina\u00e7\u00e3o do Ibama para que a Norte Energia n\u00e3o reduzisse a vaz\u00e3o at\u00e9 o final do per\u00edodo de defeso, em mar\u00e7o, a empresa alegou que haveria uma perda de 2.400 MWmed (megawatt m\u00e9dio) para o Sistema Interligado Nacional, \u201cenergia suficiente para o abastecimento de mais de 13 milh\u00f5es de pessoas\u201d.<\/p>\n<p>Na ocasi\u00e3o, o Operador Nacional do Sistema El\u00e9trico (ONS) enviou uma carta ao \u00f3rg\u00e3o ambiental, na qual afirmou que as altera\u00e7\u00f5es na disponibilidade de gera\u00e7\u00e3o por Belo Monte poderiam \u201cgerar impactos relevantes \u00e0 opera\u00e7\u00e3o do sistema el\u00e9trico brasileiro\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Um dos argumentos centrais do ONS \u00e9 que entre dezembro e junho, quando chove mais no Norte do pa\u00eds, Belo Monte \u00e9 uma das \u201cmaiores usinas respons\u00e1veis pela gera\u00e7\u00e3o de energia\u201d, possibilitando, inclusive, que os reservat\u00f3rios das hidrel\u00e9tricas do Sudeste e do Centro-Oeste sejam poupados para, depois, serem usados no per\u00edodo seco \u2013 quando a gera\u00e7\u00e3o da usina no Xingu despenca.\u00a0<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que os meses de enchente e de cheia, os mais importantes para a gera\u00e7\u00e3o de energia por Belo Monte, s\u00e3o tamb\u00e9m fundamentais para a reprodu\u00e7\u00e3o dos peixes na regi\u00e3o. Isso porque o Xingu \u00e9 um rio sazonal, cujo volume aumenta de forma substantiva na cheia e reduz muito na seca.\u00a0<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e0 toa, especialistas e t\u00e9cnicos alertaram, ainda antes da constru\u00e7\u00e3o de Belo Monte, que o funcionamento a fio d\u2019\u00e1gua da usina e a sazonalidade do rio implicariam pouca gera\u00e7\u00e3o de energia por v\u00e1rios meses do ano. Pesquisas citadas em um relat\u00f3rio encomendado pelo governo Dilma chamado \u201cBrasil 2040\u201d estimavam que o quadro se agravaria com secas mais frequentes e intensas provocadas pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.\u00a0<\/p>\n<p>A previs\u00e3o era de uma grande redu\u00e7\u00e3o da vaz\u00e3o de rios amaz\u00f4nicos at\u00e9 2040, a ponto de inviabilizar Belo Monte. A realidade foi ainda mais r\u00e1pida. Em 2021, por exemplo, ano em que o pa\u00eds enfrentou uma grave seca, a usina teve que desligar 17 de suas 18 turbinas, por falta de \u00e1gua. Em setembro do ano passado, ano de seca recorde, Belo Monte gerou apenas 3% de sua capacidade.\u00a0<\/p>\n<p>O alerta feito h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada se mostrou correto: nos \u00faltimos cinco anos, a hidrel\u00e9trica gerou, em m\u00e9dia, por ano, 3.485 MW m\u00e9dios \u2013 cerca de 31% de sua capacidade instalada total \u2013, segundo dados do ONS. O percentual est\u00e1 abaixo do fator de capacidade da m\u00e9dia das hidrel\u00e9tricas do pa\u00eds, de 55%.\u00a0<\/p>\n<p>Ainda assim, o Minist\u00e9rio de Minas e Energia (MME) tem procurado defender o atual regime de vaz\u00e3o. A pasta elaborou uma proposta para que o Conselho Nacional de Pol\u00edtica Energ\u00e9tica (CNPE), \u00f3rg\u00e3o de assessoramento do presidente da Rep\u00fablica para pol\u00edticas e diretrizes do setor de energia, declare que a usina tem import\u00e2ncia estrat\u00e9gica para a seguran\u00e7a energ\u00e9tica do Brasil.\u00a0<\/p>\n<p>Em uma nota t\u00e9cnica enviada ao Tribunal de Contas da Uni\u00e3o (TCU) em dezembro, o MME afirmou que vem atuando junto ao Ibama, \u00e0 Norte Energia e aos demais \u00f3rg\u00e3os do setor para \u201csensibilizar\u201d quanto aos impactos de \u201caltera\u00e7\u00e3o no hidrograma de Belo Monte para a seguran\u00e7a energ\u00e9tica\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio documento do MME afirma que a energia assegurada por Belo Monte \u00e9 de 4.571 MW \u2013 menos da metade dos 11.000 MW de capacidade instalada.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cSeis meses funcionando e seis meses s\u00f3 gera um pingo de energia. A\u00ed eu n\u00e3o sei por que acabou com a nossa vida\u201d, questiona Sara Rodrigues.\u00a0<\/p>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"67bf56a649cad\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" aria-label=\"Aumentar imagem\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\" data-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><\/figure>\n<h3><strong>O fim de um jeito de viver<\/strong><\/h3>\n<p>Foi com a renda da pesca que o pai dela, Francisco Valeriano, criou os filhos, que tamb\u00e9m passaram a se dedicar \u00e0 atividade. Tinham uma renda confort\u00e1vel e nunca precisaram de aux\u00edlio governamental. O futuro, diz Valeriano, \u201cestava garantido\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cA gente n\u00e3o tinha nem possibilidade de sofrer para ganhar o nosso dinheiro\u201d, sintetiza Orlando Valeriano, 37 anos, irm\u00e3o mais novo de Sara, dada a abund\u00e2ncia de peixes na Volta Grande. \u201cOs nossos filhos, o que eles queriam, a gente dava.\u201d<\/p>\n<p>Com a queda acentuada na quantidade de peixes, tudo mudou \u2013 para pior.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cO que essa empresa fez com a gente \u00e9 uma humilha\u00e7\u00e3o muito grande\u201d, diz ele. Questionado se alguma alternativa de renda foi oferecida a eles, Orlando mostra os bra\u00e7os. Francisco, o pesco\u00e7o. Est\u00e3o machucados, com feridas vermelhas. Explicam: \u201c[Estamos] queimando castanha [processo artesanal de torra de castanhas] para sobreviver\u201d.<\/p>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"67bf56a649e83\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" aria-label=\"Aumentar imagem: Orlando Rodrigues Lima, filho de Francisco Valeriano e irm\u00e3o de Sara, rema na canoa da fam\u00edlia no rio Xingu\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\" data-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><figcaption><em>Orlando Rodrigues Lima, filho de Francisco Valeriano e irm\u00e3o de Sara, rema na canoa da fam\u00edlia no rio Xingu<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>A falta de peixes na regi\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas um problema de renda e de atividade profissional. Mesmo quem n\u00e3o atuava como pescador profissional teve a vida transfigurada, porque a alimenta\u00e7\u00e3o de todos era baseada nos peixes.\u00a0<\/p>\n<p>Raimundo explica que, antes da usina, obter alimento era f\u00e1cil. As pessoas pescavam o pr\u00f3prio peixe e completavam a dieta com alimentos cultivados em suas ro\u00e7as familiares. Hoje, denunciam que n\u00e3o h\u00e1 peixes suficientes nem para subsist\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cTu acha que um ribeirinho tem condi\u00e7\u00f5es de ir todo o dia l\u00e1 no a\u00e7ougue, na cidade, comprar um quilo de carne?\u201d, pergunta Raimundo. \u201cN\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es.\u201d\u00a0<\/p>\n<p>E n\u00e3o tem mesmo. As dist\u00e2ncias s\u00e3o enormes, o rio n\u00e3o \u00e9 mais naveg\u00e1vel como antes. Ir a Altamira, a mais de uma hora de carro a depender do ponto na Volta Grande, custa caro, comprar alguma prote\u00edna, mais ainda. O problema econ\u00f4mico \u00e9 agravado pela insufici\u00eancia dos programas de gera\u00e7\u00e3o de renda e subsist\u00eancia, criados pela Norte Energia como medidas compensat\u00f3rias, algumas estavam previstas desde a Licen\u00e7a de Opera\u00e7\u00e3o, de 2015, outras foram definidas em 2021 em um acordo com o Ibama.\u00a0<\/p>\n<p>A reportagem ouviu 18 pessoas que vivem ou trabalham na Volta Grande, todas relataram algum problema nos programas \u2013 de atrasos a falta de assist\u00eancia e inadequa\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es propostas para aquele ambiente. Documentos do Ibama corroboram as falhas (a reportagem consultou 180 p\u00e1ginas de documentos do \u00f3rg\u00e3o, entre relat\u00f3rios t\u00e9cnicos, pareceres e of\u00edcios, al\u00e9m de mais de 1,8 mil p\u00e1ginas de a\u00e7\u00f5es judiciais, comunica\u00e7\u00f5es da Norte Energia e outros documentos p\u00fablicos de diferentes \u00f3rg\u00e3os do governo federal).\u00a0<\/p>\n<p>Em outubro do ano passado, por exemplo, um parecer t\u00e9cnico do Ibama apontou que 44 a\u00e7\u00f5es dos programas ainda n\u00e3o haviam sido conclu\u00eddas, mesmo findado o prazo do acordo firmado com a empresa. Apenas cinco haviam sido finalizadas \u2013 duas com atraso.\u00a0<\/p>\n<p>N\u00e3o bastasse, a pesca na Volta Grande era parte de uma transmiss\u00e3o de conhecimentos, t\u00e9cnicas e saberes passados ao longo de gera\u00e7\u00f5es. Josiel Juruna, por exemplo, aprendeu a pescar com arco e flecha com o pai na piracema do Odilo. Hoje, n\u00e3o tem onde ensinar a t\u00e9cnica tradicional de seu povo ao filho pequeno.\u00a0<\/p>\n<p>Uma vida de abund\u00e2ncia \u2013 de \u201cfartura\u201d, como dizem os beiradeiros \u2013 se transformou na gest\u00e3o da escassez, provocando altera\u00e7\u00f5es t\u00e3o violentas e profundas no jeito beiradeiro e juruna de estar no mundo, que v\u00e1rias fam\u00edlias t\u00eam se visto obrigadas a abandonar a Volta Grande do Xingu.\u00a0<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria Norte Energia j\u00e1 informou ao Ibama que, a cada ano, a empresa deixa de encontrar 10% das fam\u00edlias que residiam na regi\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cO insucesso das medidas mitigadoras propostas [no acordo] nos leva novamente a informar as autoridades competentes que este empreendimento gera impactos sociais inaceit\u00e1veis relacionados \u00e0 perda do modo de vida ribeirinho na Volta Grande do Xingu\u201d, alertou o relat\u00f3rio t\u00e9cnico do Ibama, em outubro do ano passado.\u00a0<\/p>\n<p>O mesmo documento lembrou, mais uma vez, a necessidade de a Diretoria de Licenciamento Ambiental indicar um hidrograma \u201cque permita o modo de vida tradicional\u201d.<\/p>\n<p>O Mati j\u00e1 construiu uma sugest\u00e3o, o chamado \u201chidrograma piracema\u201d, segundo o qual a vaz\u00e3o para a Volta Grande em fevereiro seria de 10.000 m\u00b3\/s \u2013 o hidrograma atual prev\u00ea 1.600 m\u00b3\/s. Al\u00e9m de uma maior quantidade de \u00e1gua para os meses de reprodu\u00e7\u00e3o, o hidrograma piracema tem outra diferen\u00e7a fundamental: a vaz\u00e3o come\u00e7aria a aumentar j\u00e1 em novembro (1500 m\u00b3\/s em vez dos atuais 800 m\u00b3\/s) e s\u00f3 seria reduzida a partir de abril, com o fim da cheia, emulando mais fielmente o ciclo da natureza.<\/p>\n<p><span>\u201cBelo Monte n\u00e3o \u00e9 fato consumado\u201d, disseram ind\u00edgenas e beiradeiros \u00e0 reportagem.<\/span> \u201cO nosso monitoramento vem com a inten\u00e7\u00e3o de manter a vida na Volta Grande, manter a cultura, manter o modo de vida, manter um povo nessa regi\u00e3o, que n\u00e3o quer sair, que vem de gera\u00e7\u00f5es, dos nossos ancestrais\u201d, diz Josiel sobre a proposta do grupo.\u00a0<\/p>\n<p>Recentemente, a Norte Energia perguntou a algumas fam\u00edlias se elas sa\u00edram da Volta Grande caso tivessem a oportunidade, segundo relataram os beiradeiros. Raimundo foi um dos abordados. Respondeu que n\u00e3o. \u00c0 reportagem, explicou: \u201cEu amo esse lugar: \u00e9 bom, \u00e9 a vida da gente. S\u00f3 uma trag\u00e9dia para sair daqui\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>A fam\u00edlia de Sara tamb\u00e9m continua firme em seu prop\u00f3sito de \u201clutar pela vida do rio Xingu\u201d, como diz a pescadora. \u201cO desenvolvimento, a nossa fartura, que a gente queria que permanecesse, era o nosso rio correndo livremente.\u201d\u00a0<\/p>\n<p>Resta saber qual desenvolvimento ser\u00e1 considerado pelo \u00f3rg\u00e3o licenciador.\u00a0<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/trump-confirma-encontro-com-lula-na-malasia-neste-domingo-26\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/lula_trump-150x150.jpeg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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