{"id":15521,"date":"2025-03-04T09:48:54","date_gmt":"2025-03-04T12:48:54","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/escrita-carnaval-e-reinvencoes-coluna-da-appoa\/"},"modified":"2025-03-04T09:48:54","modified_gmt":"2025-03-04T12:48:54","slug":"escrita-carnaval-e-reinvencoes-coluna-da-appoa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/escrita-carnaval-e-reinvencoes-coluna-da-appoa\/","title":{"rendered":"Escrita, carnaval e (re)inven\u00e7\u00f5es (Coluna da Appoa)"},"content":{"rendered":"<section>\n<div>\n<p><strong>Manuela Sampaio de Mattos (*)\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><span>\u201cA escrita tamb\u00e9m faz parte da forma\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica\u201d, disse o colega Robson Pereira em sua fala na Jornada de abertura da APPOA em 2023. Esta frase vem reverberando em mim desde aquela ocasi\u00e3o, quando, coincidentemente, fui convidada a integrar o grupo de colegas que escreve para a Coluna da APPOA no <strong>Sul21<\/strong>. A cada vez que enfrento a folha em branco para diferentes escritas, retorno \u00e0 frase. Penso nos efeitos formativos ao longo dos anos e em como o inconsciente vai se atualizando em fric\u00e7\u00e3o com os acontecimentos que nos circundam, levando tamb\u00e9m em conta a m\u00e1xima lacaniana de que um analista, para estar \u00e0 altura de seu tempo, deve colocar em seu horizonte a subjetividade de sua \u00e9poca.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Assim, para mim, vai se tornando cada vez mais viva a complexidade da forma\u00e7\u00e3o anal\u00edtica \u00e0 medida em que a escrita se torna imperativa, como integrante do trip\u00e9 no que toca \u00e0 forma\u00e7\u00e3o te\u00f3rica. Isso n\u00e3o me parecia evidente, mesmo que tenha entendido desde muito cedo que a exist\u00eancia da psican\u00e1lise est\u00e1 atrelada a um dever de reinven\u00e7\u00e3o. Este \u00e9 seu ponto de subvers\u00e3o dirigida a ela mesma enquanto pr\u00e1tica e teoria, seu ponto cristal. Portanto, podemos entender que a psican\u00e1lise \u00e9, tamb\u00e9m, uma escrita. Escrita em permanente constru\u00e7\u00e3o e necessariamente sintonizada com aquilo que interroga a pretensa coes\u00e3o de um saber. Sem interroga\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 reinven\u00e7\u00e3o poss\u00edvel. N\u00e3o h\u00e1 psican\u00e1lise poss\u00edvel.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>H\u00e1 que se ter coragem de tomar posi\u00e7\u00e3o diante daquilo que a realidade nos imp\u00f5e como o que ata e desata os fios do la\u00e7o social. E n\u00e3o se toma posi\u00e7\u00e3o sem colocar o corpo em cena. Nesse sentido, permito-me agora uma associa\u00e7\u00e3o que leva \u00e0s interroga\u00e7\u00f5es que ando escutando em tempos de carnaval. Tempos de div\u00e3 purpurinado, conforme fala nossa colega Carolina Mousquer Lima. Tempos de festas e trocas com os amigos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Nesta \u00e9poca do ano, o corpo retoma sua pot\u00eancia vital, criativa, sua porosidade \u00e0 alteridade e \u00e0 coletividade. Reflex\u00f5es interessant\u00edssimas s\u00e3o feitas a partir deste rito que (re)inventa o Brasil, conforme defende Luiz Ant\u00f4nio Simas. Perguntas sobre o formato dos relacionamentos, monogamia, fantasias, planos a serem realizados antes ou depois do carnaval, viagens, perdas, ganhos, inibi\u00e7\u00f5es, lamentos, revolta com os imperativos de felicidade, flertes com imperativos de gozo, etc. Fato \u00e9 que, dificilmente, algu\u00e9m fica alheio de se posicionar com a chegada deste momento \u201cfundante\u201d do Brasil. Mesmo quem est\u00e1 em outros lugares do mundo acaba trazendo, de alguma forma, aquilo que o carnaval causa em si.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Quando se aproxima a sa\u00edda do Bloco da Laje em Porto Alegre, que ocorre no \u00faltimo domingo do m\u00eas de janeiro h\u00e1 12 anos, a cidade vai se transformando, vivendo uma experi\u00eancia \u00fanica de coletividade. Os ensaios colorem as vestimentas daqueles que v\u00e3o para prestigiar e participar da constru\u00e7\u00e3o coletiva da sa\u00edda do bloco. Mesmo os mais noturnos acordam mais cedo para ajudar a compor, a cada ensaio, este que \u00e9 um dos eventos mais deslumbrantes e vivos de nossa cidade. As lojas v\u00e3o se equipando com acess\u00f3rios nas cores do bloco. Os vendedores ambulantes e pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua comp\u00f5em a festa. Os assuntos nas rodas de conversa s\u00e3o atravessados pela pergunta a respeito de quem vai ou n\u00e3o vai no bloco. E por a\u00ed vai. Tudo isso acontece e, tamb\u00e9m, o seu contr\u00e1rio. O reacionarismo aparece nas mais diferentes formas, expondo as contradi\u00e7\u00f5es mais profundas de quem se considera liberal na pol\u00edtica, mas n\u00e3o nos costumes. Algo que se aproxima inevitavelmente da intoler\u00e2ncia e do exerc\u00edcio do \u00f3dio dirigido contra<\/span> <span>quem sustenta o querer ser livre para desejar, empatizar, etc.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Simas nos ajuda a pensar essas tens\u00f5es quando sustenta que o carnaval \u00e9 um sintoma de nossa sociedade, na medida em que exp\u00f5e, com pujan\u00e7a, as contradi\u00e7\u00f5es e os<\/span> <span>conflitos atinentes \u00e0 nossa hist\u00f3ria e ao tempo presente. Carnaval \u00e9 conflito, disputa. Simas nos elucida que as escolas de samba \u201crecriam no campo simb\u00f3lico as coletividades que nas experi\u00eancias cotidianas s\u00e3o aniquiladas\u201d. Nesse sentido, entende que o carnaval n\u00e3o \u00e9 somente um modo de resist\u00eancia, ou seja, um modo de resposta \u00e0s pautas impostas desde fora, mas tamb\u00e9m uma forma de inven\u00e7\u00e3o e instaura\u00e7\u00e3o de novos modos de vida. Justamente de modos de vida que devolvem o senso comunit\u00e1rio \u00e0s experi\u00eancias aniquiladas pela di\u00e1spora. Assim, a cultura de di\u00e1spora reinventa o que foi aniquilado, tornando as ruas terreiro, um espa\u00e7o radical de interroga\u00e7\u00e3o do mundo e de reencantamento do ser.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Escrevendo bem no meio do feriado de carnaval, logo ap\u00f3s o filme \u2018Ainda Estou Aqui\u2019 ter ganhado o Oscar como melhor filme estrangeiro, sintonizo com esses atos que encontram as frestas, os espa\u00e7os necess\u00e1rios de reinven\u00e7\u00e3o da vida e dos nossos fazeres. A indica\u00e7\u00e3o ao Oscar e o pr\u00eamio conquistado foram incorporados no carnaval. A imagem de Fernanda Torres pairou no c\u00e9u de Salvador como portadora da esperan\u00e7a, qui\u00e7\u00e1 nada fugaz, de que as condena\u00e7\u00f5es dos algozes da ditadura militar se tornem realidade. Momento hist\u00f3rico \u00fanico, de encontro e fus\u00e3o entre as artes, capaz de instaurar algo novo, de desejar a reinven\u00e7\u00e3o da escrita do Brasil.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>(*) M<em>embro da Associa\u00e7\u00e3o Psicanal\u00edtica de Porto Alegre (APPOA)<\/em><\/span><\/p>\n<p><strong><em>***<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>As opini\u00f5es emitidas nos artigos publicados no espa\u00e7o de opini\u00e3o expressam a posi\u00e7\u00e3o de seu autor e n\u00e3o necessariamente representam o pensamento editorial do Sul21.<\/em><\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/section>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/sul21.com.br\/opiniao\/2025\/03\/escrita-carnaval-e-reinvencoes-coluna-da-appoa\/\">Escrita, carnaval e (re)inven\u00e7\u00f5es (Coluna da Appoa)<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/sul21.com.br\/\">Sul 21<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/economia-e-coisa-de-mulher-mas-orcamento-para-mulheres-ainda-e-pouco-transparente\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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