{"id":16370,"date":"2025-03-11T16:43:28","date_gmt":"2025-03-11T19:43:28","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/as-mulheres-camponesas-tem-o-potencial-de-mostrar-que-a-justica-climatica-nao-e-o-futuro-mas-o-presente\/"},"modified":"2025-03-11T16:43:28","modified_gmt":"2025-03-11T19:43:28","slug":"as-mulheres-camponesas-tem-o-potencial-de-mostrar-que-a-justica-climatica-nao-e-o-futuro-mas-o-presente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/as-mulheres-camponesas-tem-o-potencial-de-mostrar-que-a-justica-climatica-nao-e-o-futuro-mas-o-presente\/","title":{"rendered":"\u201cAs mulheres camponesas t\u00eam o potencial de mostrar que a justi\u00e7a clim\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 o futuro, mas o presente\u201d"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"512\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/Arvores-768x512-1.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/Arvores-768x512-1.jpeg 768w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Arvores-768x512-1-300x200.jpeg 300w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\"><figcaption><em>Foto: Rafa Dotti<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Por Fernanda Alc\u00e2ntara<br \/>Da P\u00e1gina do MST<\/em><\/p>\n<p>A crise clim\u00e1tica e o avan\u00e7o do capital no campo, tem intensificando a destrui\u00e7\u00e3o do meio ambiente e a piora nas condi\u00e7\u00f5es de vida dos camponeses e trabalhadores rurais, aumento de eventos clim\u00e1ticos extremos com secas e inunda\u00e7\u00f5es, entre outros malef\u00edcios que afetam a vida dessas popula\u00e7\u00f5es. Diante disso, a <strong>P\u00e1gina do MST<\/strong> conversou com a doutora em Ci\u00eancia Pol\u00edtica\/Rela\u00e7\u00f5es Internacionais e professora do Programa de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel do Tr\u00f3pico \u00damido \u2013 PPDSTU no N\u00facleo de Altos Estudos Amaz\u00f4nicos (Naea), Marcela Vecchione.<\/p>\n<p>A pesquisadora falou sobre a import\u00e2ncia da Reforma Agr\u00e1ria no enfrentamento \u00e0 crise clim\u00e1tica e produ\u00e7\u00e3o de alimentos, principalmente na Amaz\u00f4nica, a import\u00e2ncia da participa\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais na C\u00fapula dos Povos da COP30, que ocorre em Bel\u00e9m neste ano e o protagonismo das mulheres Sem Terra na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<blockquote>\n<p><em>As mulheres do MST, nos assentamentos e ocupa\u00e7\u00f5es, t\u00eam desenvolvido pr\u00e1ticas muito importantes para a produ\u00e7\u00e3o de alimentos. N\u00e3o s\u00f3 para manter suas comunidades, mas tamb\u00e9m para abastecer cidades amaz\u00f4nicas, munic\u00edpios e escolas, garantindo alimenta\u00e7\u00e3o de qualidade para crian\u00e7as e para a popula\u00e7\u00e3o em geral\u201d,<\/em> enfatiza.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><em>Na semana em que as mulheres do MST realizam sua Jornada Nacional de lutas, confira entrevista na \u00edntegra:<\/em><\/p>\n<p><strong>Como a rela\u00e7\u00e3o entre terra, biodiversidade e as lutas dos povos na Amaz\u00f4nia pode nos ajudar a compreender os desafios da Reforma Agr\u00e1ria?<\/strong><\/p>\n<p>Na Amaz\u00f4nia Legal como um todo, pode ajudar muito. \u00c9 importante dizer que temos o Bioma Amaz\u00f4nia, que \u00e9 essa ideia que fica no imagin\u00e1rio da maior parte das pessoas do pa\u00eds, que \u00e9 floresta densa e tudo mais; mas a gente tamb\u00e9m tem a Amaz\u00f4nia Legal, essa regi\u00e3o administrativa enorme, que compreende mais de 60% do pa\u00eds, em que temos outros biomas, como o Cerrado, mas outros ecossistemas al\u00e9m da floresta, como campos e at\u00e9 manguezais. A \u00e1rea de manguezal maior do mundo fica ali, naquela \u00e1rea de transi\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia, desde o Amap\u00e1 at\u00e9 o estado do Maranh\u00e3o, no limite com o Cear\u00e1. Ou seja, conectando o Norte e o Nordeste tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a Amaz\u00f4nia tem essa grande diversidade e biodiversidade, essa mistura vai compondo elementos que nos ajudam a lidar com o desafio da Reforma Agr\u00e1ria no pa\u00eds que perpassa os conflitos, a concentra\u00e7\u00e3o latifundi\u00e1ria, de uma distribui\u00e7\u00e3o totalmente injusta da terra, da dificuldade de acesso a pol\u00edticas p\u00fablicas para se manter nela. Isso tudo \u00e9 muito permeado n\u00e3o s\u00f3 por essa hist\u00f3ria de concentra\u00e7\u00e3o e desigualdades, mas tamb\u00e9m como elemento essencial para pensar o desafio da Reforma Agr\u00e1ria para a diversidade.\u00a0<\/p>\n<p>Ou seja, n\u00e3o tem como pensar uma Reforma Agr\u00e1ria uniforme, n\u00e3o h\u00e1 como ter um modelo padr\u00e3o de Reforma Agr\u00e1ria para o pa\u00eds como um todo, porque o pa\u00eds \u00e9 muito diverso. A Amaz\u00f4nia \u00e9 um exemplo disso, em compara\u00e7\u00e3o a outras partes do pa\u00eds e dentro da pr\u00f3pria Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Para dar um exemplo, ao pensar a destina\u00e7\u00e3o de terra para \u00e1reas de assentamento na Amaz\u00f4nia, \u00e9 preciso considerar as diferentes rela\u00e7\u00f5es com a floresta, com a terra, com essas \u201cterras-floresta\u201d, para usar um termo dos Yanomami, que existem na regi\u00e3o. Um modelo de assentamento convencional, em muitos lugares, n\u00e3o cabe na Amaz\u00f4nia. Ent\u00e3o, formas diferenciadas de acesso e uso da terra s\u00e3o um dos primeiros desafios dessa diversidade amaz\u00f4nica.\u00a0<\/p>\n<p>A biodiversidade nada mais \u00e9 do que isso. Biodiversidade \u00e9 a diversidade de formas de viver, se pensamos \u201cbio\u201d como vida. Isso traz outro elemento importante que \u00e9 o reconhecimento dessas diversas formas de ocupa\u00e7\u00e3o e uso para fazer Reforma Agr\u00e1ria na regi\u00e3o. E para garantir pol\u00edticas p\u00fablicas integradas, para que as pessoas possam se manter na terra com justi\u00e7a social, agr\u00e1ria e clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>O jeito que as pessoas vivem, que cuidam da terra, que produzem com a terra \u00e9 o que mant\u00e9m essa biodiversidade viva. S\u00e3o essas diferentes formas de manejo produtivo que garantem a pr\u00f3pria reprodu\u00e7\u00e3o social camponesa diferenciada na Amaz\u00f4nia. E isso inclui mulheres, ind\u00edgenas, ribeirinhos, migrantes, enfim, toda essa diversidade, essa convivialidade, que muitas vezes tamb\u00e9m envolve conflito, \u00e9 o que mant\u00e9m a biodiversidade amaz\u00f4nica. E por isso mesmo, \u00e9 preciso considerar a diversidade de formas de viver. Tudo isso leva \u2013 ou deveria levar \u2013 a um reconhecimento dessas formas diferenciadas de ocupa\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Esse reconhecimento \u00e9 um desafio e, ao mesmo tempo, \u00e9 fascinante, ter essas representa\u00e7\u00f5es diversas, e que ao mesmo tempo exige a formula\u00e7\u00e3o de destina\u00e7\u00f5es adequadas e pol\u00edticas p\u00fablicas integradas.<\/p>\n<p><strong>Neste sentido, como o governo brasileiro est\u00e1 atuando para reconhecer e regularizar as ocupa\u00e7\u00f5es tradicionais?<\/strong><\/p>\n<p>Gostaria de mencionar que tivemos uma portaria publicada recentemente, do Minist\u00e9rio do Meio Ambiente junto com o Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Agr\u00e1rio. A Portaria 1.309, publicada em 4 de fevereiro deste ano, pode ser considerada algo muito importante para o MST. Se pensarmos nos assentamentos diferenciados, que s\u00e3o uma parte essencial do que comp\u00f5e o Movimento na regi\u00e3o amaz\u00f4nica, essa portaria se torna relevante porque reconhece essas formas diferenciadas de ocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa portaria vem de uma disputa que j\u00e1 existia antes do atual governo Lula, mas que agora avan\u00e7ou para uma resolu\u00e7\u00e3o. Ela trata das florestas p\u00fablicas n\u00e3o destinadas, ou seja, \u00e1reas p\u00fablicas da Uni\u00e3o que ainda n\u00e3o tinham sido destinadas para um uso espec\u00edfico. Muitas dessas \u00e1reas estavam ocupadas irregularmente por latifundi\u00e1rios, madeireiros, ou seja, terras p\u00fablicas da Uni\u00e3o estavam sendo usurpadas ilegalmente.<\/p>\n<p>Mas, ao mesmo tempo, muitas dessas terras tamb\u00e9m eram ocupadas por povos e comunidades tradicionais, por ribeirinhos, quilombolas, camponeses amaz\u00f4nicos, agricultores e agricultoras. Como essa disputa envolvia conflitos com o latif\u00fandio, essas terras eram chamadas de \u201cterras devolutas\u201d, como se n\u00e3o houvesse ningu\u00e9m nelas. Mas, na verdade, havia sim, s\u00f3 que essas ocupa\u00e7\u00f5es n\u00e3o eram reconhecidas formalmente.<\/p>\n<p>Aqueles que ocupavam de forma violenta se achavam no direito de ocupar essas terras, gerando conflitos graves. No total, eram aproximadamente 63 milh\u00f5es de hectares de terras em disputa no pa\u00eds, e na regi\u00e3o amaz\u00f4nica especificamente, quase 36 milh\u00f5es de hectares.<\/p>\n<p>Isso levou \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de um Grupo de Trabalho (GT) no governo, que come\u00e7ou no primeiro ano deste mandato do Lula, com pessoas tanto do Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Agr\u00e1rio quanto do Minist\u00e9rio do Meio Ambiente. O objetivo era desenvolver um processo administrativo para reconhecer essas ocupa\u00e7\u00f5es tradicionais, assim como existem para a demarca\u00e7\u00e3o de terras ind\u00edgenas, territ\u00f3rios quilombolas e assentamentos convencionais da Reforma Agr\u00e1ria, mas agora para pensar um modelo espec\u00edfico para essas ocupa\u00e7\u00f5es na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>A ideia \u00e9 criar projetos de destina\u00e7\u00e3o diferenciados. Por exemplo, \u00e1reas de uso espec\u00edfico para quebradeiras de coco baba\u00e7u e outros grupos tradicionais da regi\u00e3o. Assim, foi publicada essa portaria, que tem v\u00e1rias coisas importantes, e \u00e9 uma conquista. A portaria do MMA e do MDA teve muita luta, muito processo nessa disputa por esses quase 34 milh\u00f5es de hectares de terra, que n\u00e3o \u00e9 pouca coisa.<\/p>\n<p>Essa disputa tem muito a ver com a biodiversidade amaz\u00f4nica, ou seja, garantir as formas diferenciadas de ocupa\u00e7\u00e3o e de trabalho na rela\u00e7\u00e3o com a floresta, que n\u00e3o \u00e9 um trabalho concentrador, n\u00e3o \u00e9 um trabalho produtor de injusti\u00e7a social e agr\u00e1ria. \u00c9 um trabalho que garante a distribui\u00e7\u00e3o dessa destina\u00e7\u00e3o, ou seja, fazer com que essa destina\u00e7\u00e3o n\u00e3o seja concentradora e padronizada para determinados usos \u2014 monopolizadores, cercadores, latifundi\u00e1rios \u2014 mas sim para usos que conservem a biodiversidade. At\u00e9 porque a pr\u00f3pria biodiversidade est\u00e1 implicada na forma de trabalho e de ocupa\u00e7\u00e3o dessas pessoas nesses territ\u00f3rios.<\/p>\n<p><strong>E quais os desafios que os povos enfrentam hoje?<\/strong><\/p>\n<p>Existem alguns obst\u00e1culos. Essa portaria tem algumas \u201ctrampas\u201d, algumas armadilhas, como, por exemplo, em algumas situa\u00e7\u00f5es, associar essa destina\u00e7\u00e3o ao reconhecimento de que essas \u00e1reas podem servir a esquemas de pagamento por servi\u00e7os ambientais ou gera\u00e7\u00e3o de cr\u00e9ditos de carbono.<\/p>\n<p>Ou seja, ela entra em outro processo, que \u00e9 uma disputa da qual o Movimento precisa se apropriar, mas que ainda n\u00e3o est\u00e1 plenamente resolvida para os Sem Terra. At\u00e9 porque a lei em rela\u00e7\u00e3o ao sistema brasileiro de com\u00e9rcio de emiss\u00f5es de carbono \u00e9 bastante complexa e, em grande medida, favorece setores propriet\u00e1rios e concentradores, e n\u00e3o a classe trabalhadora \u2014 muito menos a classe trabalhadora do campo.<\/p>\n<p>Eu diria que h\u00e1 um avan\u00e7o importante com essa portaria, pois criou um procedimento espec\u00edfico e \u00e9 resultado de muitas lutas, que tem a ver com a Amaz\u00f4nia Legal, pois essa portaria \u00e9 bem espec\u00edfica. Ela reconhece um problema geral no pa\u00eds, mas trata principalmente das Florestas P\u00fablicas N\u00e3o Destinadas (FPND), que s\u00e3o um dos maiores campos de batalha por terra no Brasil hoje.<\/p>\n<p>Portanto, foi muito importante essa portaria conjunta entre o MMA com o MDA para a cria\u00e7\u00e3o dessas \u00e1reas espec\u00edficas, por\u00e9m, existem os chamados \u201cjabutis\u201d, que aparecem na portaria em rela\u00e7\u00e3o a esses assuntos que ainda n\u00e3o est\u00e3o resolvidos e que podem trazer complica\u00e7\u00f5es na rela\u00e7\u00e3o de trabalho e ocupa\u00e7\u00e3o das pessoas com esses territ\u00f3rios. Esse \u00e9 um elemento central, al\u00e9m do desafio de pensar uma Reforma Agr\u00e1ria diferenciada na regi\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Quem s\u00e3o os pri<\/strong><strong>ncipais atores e mecanismos que financiam e sustentam o agroneg\u00f3cio, e como eles contribuem para a viol\u00eancia ambiental e social?<\/strong><\/p>\n<p>Na regi\u00e3o, e pegando esse exemplo que \u00e9 aplic\u00e1vel a v\u00e1rias partes do pa\u00eds, \u00e9 dif\u00edcil separar o social do ambiental. Acho mais interessante falar em socioambiental, porque a dimens\u00e3o social e ambiental est\u00e3o totalmente interligadas, na medida em que as rela\u00e7\u00f5es com o meio ambiente s\u00e3o constitutivas da pr\u00f3pria reprodu\u00e7\u00e3o social desses grupos e sujeitos sociais coletivos.<\/p>\n<p>Os atores pol\u00edticos e econ\u00f4micos que geram os problemas n\u00e3o pensam essa rela\u00e7\u00e3o de forma integrada. Eles se apropriam da natureza de maneira predat\u00f3ria e comodificam ela, e de forma muito violenta. Se pensarmos nas corpora\u00e7\u00f5es, as grandes comercializadoras de gr\u00e3os s\u00e3o fundamentais nesse sistema, como Cargill, Louis Dreyfus, Bunge, ADM (Archer Daniels Midland). Essas empresas comp\u00f5em o sistema BCD (Bunge, Cargill, Dreyfus) e estruturam o sistema agroalimentar capitalista corporativo, que controla desde a produ\u00e7\u00e3o at\u00e9 a circula\u00e7\u00e3o e log\u00edstica dessa produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A log\u00edstica \u00e9 um mecanismo essencial hoje na gera\u00e7\u00e3o de conflitos, viol\u00eancia e concentra\u00e7\u00e3o de terra. A terra n\u00e3o serve apenas para produ\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m para infraestrutura log\u00edstica, os portos, ferrovias, hidrovias, rodovias. Esses investimentos p\u00fablicos n\u00e3o servem para o escoamento da produ\u00e7\u00e3o dos assentamentos da Reforma Agr\u00e1ria, mas sim para garantir a circula\u00e7\u00e3o de valor do grande agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p><strong>E como o agroneg\u00f3cio age atualmente?<\/strong><\/p>\n<p>O agroneg\u00f3cio contempor\u00e2neo n\u00e3o \u00e9 mais apenas o latifundi\u00e1rio, da d\u00e9cada de 1970 e 1980. Hoje, \u00e9 formado por grandes corpora\u00e7\u00f5es que atuam em diferentes frentes, como log\u00edstica, agrot\u00f3xicos, engenharia gen\u00e9tica e digitaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o voc\u00ea tem empresas de tecnologia, como a Microsoft, que desenvolve semicondutores e chips para bancos de dados sobre produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, at\u00e9 armazenamento destas informa\u00e7\u00f5es das produ\u00e7\u00f5es para medir a produtividade. Isso inclui desde sistemas de plantio at\u00e9 tecnologias de sementes para aumentar a produtividade. Essas tecnologias s\u00e3o integradas com outras empresas que trabalham com biotecnologia e engenharia gen\u00e9tica. A concentra\u00e7\u00e3o de tecnologia se torna, assim, um mecanismo de concentra\u00e7\u00e3o de terra, porque para implementar esse modelo de produ\u00e7\u00e3o integrado, corporativo, voc\u00ea tamb\u00e9m precisa de muita terra.<\/p>\n<p>Assim, experimenta\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 mais s\u00f3 de laborat\u00f3rio, \u00e9 uma experimenta\u00e7\u00e3o integrada, ou seja, a experimenta\u00e7\u00e3o para ver se o drone de precis\u00e3o para lan\u00e7ar o agrot\u00f3xico funciona combinado com aquela semente, com aquela tecnologia espec\u00edfica, com aquele tipo de terra, com aquele \u00edndice pluviom\u00e9trico. Voc\u00ea tem toda uma integra\u00e7\u00e3o de tecnologia concentrada nas m\u00e3os de poucos, que vai demandar essa concentra\u00e7\u00e3o de terra.<\/p>\n<p>Se a gente pensa tamb\u00e9m em uma empresa grande de minera\u00e7\u00e3o, como a Vale, que hoje n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma empresa de extra\u00e7\u00e3o de min\u00e9rio. A Vale \u00e9 uma empresa log\u00edstica, \u00e9 uma empresa de tecnologia bioecon\u00f4mica tamb\u00e9m, inclusive, para compensar as suas atividades degradantes. A Vale trabalha com agro-minerais tamb\u00e9m, que servem para a composi\u00e7\u00e3o de fertilizantes do agroneg\u00f3cio. Ou seja, na Amaz\u00f4nia, por exemplo, a gente n\u00e3o pode separar a quest\u00e3o miner\u00e1ria da quest\u00e3o agr\u00e1ria. E isso comp\u00f5e esses atores corporativos.<\/p>\n<p>Por fim, eu citaria tamb\u00e9m os mecanismos tecnol\u00f3gicos legislativos, legais, infraestruturas legais que v\u00e3o corroborando e colaborando para essa concentra\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea teria, por exemplo, o Cadastro Ambiental Rural. A facilidade que produtores que integram essas grandes cadeias globais de produ\u00e7\u00e3o t\u00eam para fazer seus registros e entrar com as informa\u00e7\u00f5es no sistema de maneira muito mais r\u00e1pida e integrada, zoneando seus pr\u00f3prios territ\u00f3rios de opera\u00e7\u00e3o e interesse para a expans\u00e3o de suas opera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O jeito que o cadastro funciona favorece licenciamentos e ambientais rurais espec\u00edficos, por exemplo, para legalizar os escoamento de produ\u00e7\u00e3o, seja para dentro, seja para fora do pa\u00eds. Isso \u00e9 absolutamente fundamental para que os atores da linha de frente, ou seja, quem expande, quem \u00e9 o produtor rural mesmo ou as empresas agr\u00edcolas e imobili\u00e1rias que trabalham junto com os produtores rurais, avancem, muitas vezes at\u00e9 por meio de grileiros que est\u00e3o na linha de frente para capta\u00e7\u00e3o dessas terras.<\/p>\n<p>Essa infraestrutura legal colabora para que isso aconte\u00e7a juntamente com outras infraestruturas. \u00c0s vezes, o acesso \u00e0 justi\u00e7a, por exemplo, por parte das pessoas que est\u00e3o no campo, \u00e9 muito mais dificultoso do que para essas outras pessoas, o que vai fazer tamb\u00e9m com que os processos poss\u00edveis de demandar direitos sejam menos acess\u00edveis e mais bloqueados para os pequenos e m\u00e9dios produtores ou para os assentados e ocupantes, do que para quem est\u00e1 desse outro lado.<\/p>\n<p>O que estou chamando de infraestruturas legais, seja do ponto de vista da mobiliza\u00e7\u00e3o de direitos na justi\u00e7a, seja para um processo de conflito, seja para a legaliza\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o, s\u00e3o mecanismos absolutamente fundamentais para que esses atores corporativos possam operar. \u00c9 uma combina\u00e7\u00e3o do que est\u00e1 na linha de frente com o que o Estado media por meio das infraestruturas legais, seja no n\u00edvel nacional, estadual ou municipal. E o pr\u00f3prio Judici\u00e1rio, que \u00e9 parte do Estado, tamb\u00e9m est\u00e1 conectado com o sistema corporativo, o que chamamos de \u201cnexo-estado-empresa\u201d.<\/p>\n<p><strong>Como a COP 30 poder\u00e1 ser aproveitada para ampliar a visibilidade das lutas por Reforma Agr\u00e1ria, responsabilidade socioambiental e os direitos das mulheres no campo? Quais s\u00e3o as expectativas e os desafios para que a COP 30 realmente dialogue com as demandas dos povos da regi\u00e3o e da Am\u00e9rica Latina?<\/strong><\/p>\n<p>As COPs, de maneira geral, n\u00e3o s\u00e3o espa\u00e7os amig\u00e1veis para quem vem dos territ\u00f3rios, para quem est\u00e1 na linha de frente da batalha por justi\u00e7a socioambiental. As confer\u00eancias das partes t\u00eam negocia\u00e7\u00f5es feitas por Estados, por diplomatas representando os Estados. Muitas decis\u00f5es s\u00e3o inacess\u00edveis ao p\u00fablico e s\u00f3 s\u00e3o conhecidas posteriormente.<\/p>\n<p>H\u00e1 um espa\u00e7o de entrada para a sociedade civil, mas quem realmente tem acesso s\u00e3o as grandes organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais internacionais. Muitas vezes, essas organiza\u00e7\u00f5es est\u00e3o associadas ao poder corporativo. Ent\u00e3o, n\u00e3o podemos generalizar essa sociedade civil, pois h\u00e1 diferen\u00e7as de atua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se tomarmos o territ\u00f3rio e o ch\u00e3o da terra como ponto de partida, vemos que h\u00e1 muito pouca entrada no espa\u00e7o oficial da confer\u00eancia para as pessoas que v\u00eam desses territ\u00f3rios.\u00a0<\/p>\n<p>Da mesma maneira que h\u00e1 30 edi\u00e7\u00f5es oficiais de COPs, onde os Estados s\u00e3o as partes principais, sempre h\u00e1 a C\u00fapula dos Povos. Esse espa\u00e7o surgiu desde a Rio-92, que foi o primeiro momento de assinatura das conven\u00e7\u00f5es do clima e da biodiversidade. Desde aquela \u00e9poca, os povos perceberam que n\u00e3o teriam muita entrada nos espa\u00e7os oficiais.<\/p>\n<p>No entanto, eles tamb\u00e9m perceberam que aquele era um evento pol\u00edtico importante e que precisavam marcar posi\u00e7\u00e3o, ainda que em um espa\u00e7o externo, visibilizando tanto suas lutas quanto o d\u00e9ficit democr\u00e1tico que existe nos espa\u00e7os oficiais de negocia\u00e7\u00e3o. As decis\u00f5es tomadas nesses espa\u00e7os impactam diretamente a vida das pessoas.<\/p>\n<p><strong>E assim surge a C\u00fapula dos povos?<\/strong><\/p>\n<p>A C\u00fapula dos Povos surgiu com essa vis\u00e3o de que \u00e9 dif\u00edcil estar no espa\u00e7o oficial, mas \u00e9 necess\u00e1rio aproveitar o momento da negocia\u00e7\u00e3o para visibilizar os problemas globais e como eles se manifestam territorialmente, al\u00e9m de expor a falta de participa\u00e7\u00e3o popular nos processos decis\u00f3rios.<\/p>\n<p>A COP30 em Bel\u00e9m pode ser um momento muito importante para as mulheres camponesas, agricultoras, que vivem e lutam nos territ\u00f3rios. \u00c9 um espa\u00e7o essencial para visibilizar suas lutas e desafios, mas tamb\u00e9m para mostrar as solu\u00e7\u00f5es que j\u00e1 est\u00e3o sendo desenvolvidas.<\/p>\n<p>As mulheres na Amaz\u00f4nia, as mulheres do MST, nos assentamentos e ocupa\u00e7\u00f5es, t\u00eam desenvolvido pr\u00e1ticas muito importantes para a produ\u00e7\u00e3o de alimentos. N\u00e3o s\u00f3 para manter suas comunidades, mas tamb\u00e9m para abastecer cidades amaz\u00f4nicas, munic\u00edpios e escolas, garantindo alimenta\u00e7\u00e3o de qualidade para crian\u00e7as e para a popula\u00e7\u00e3o em geral.<\/p>\n<p>Isso representa um papel fundamental no cuidado, n\u00e3o apenas no sentido tradicional, mas em uma perspectiva ampliada, dentro da economia da reprodu\u00e7\u00e3o social e da economia feminista. Isso gera solidariedade entre campo, cidade, floresta, \u00e1guas e diferentes classes sociais. Essa luta pela terra \u00e9 tamb\u00e9m uma luta de classes.<\/p>\n<p>Pensar a distribui\u00e7\u00e3o e a desconcentra\u00e7\u00e3o como elementos fundantes de uma sociedade justa, socialmente e ambientalmente, \u00e9 essencial. No final das contas, as mulheres camponesas t\u00eam o potencial de mostrar que a justi\u00e7a clim\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 o futuro, mas o presente. E que j\u00e1 est\u00e1 sendo praticada nos territ\u00f3rios.<\/p>\n<p>Claro, ainda h\u00e1 necessidade de reconhecimento, apoio e financiamento adequado. Mas a utopia de um mundo justo climaticamente j\u00e1 est\u00e1 em curso, contra as distopias corporativas. Apesar dos problemas que uma COP apresenta, e eu as acompanho presencialmente desde 2009, acredito que, via C\u00fapula dos Povos, esse espa\u00e7o pode ser uma ferramenta importante para a visibiliza\u00e7\u00e3o dessas lutas e alternativas j\u00e1 existentes.<\/p>\n<p><em>*Editado por Solange Engelmann<\/em><\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/2025\/03\/11\/as-mulheres-camponesas-tem-o-potencial-de-mostrar-que-a-justica-climatica-nao-e-o-futuro-mas-o-presente\/\">\u201cAs mulheres camponesas t\u00eam o potencial de mostrar que a justi\u00e7a clim\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 o futuro, mas o presente\u201d<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/\">MST<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/assassinos-de-mae-bernadete-sao-condenados-na-bahia\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Mae-Bernadete-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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