{"id":16860,"date":"2025-03-14T13:52:01","date_gmt":"2025-03-14T16:52:01","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/uma-comunidade-tenta-se-salvar-do-veneno\/"},"modified":"2025-03-14T13:52:01","modified_gmt":"2025-03-14T16:52:01","slug":"uma-comunidade-tenta-se-salvar-do-veneno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/uma-comunidade-tenta-se-salvar-do-veneno\/","title":{"rendered":"Uma comunidade tenta se salvar do veneno"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"386\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-6-1024x386-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-6-1024x386-1.jpg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-6-300x113.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-6-768x289.jpg 768w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-6-1536x578.jpg 1536w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-6.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>Imagem: O Joio e o Trigo<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Por Ma\u00edra Mathias*<br \/>De O Joio e o Trigo<\/em><\/p>\n<p>Passava pouco da meia-noite de um dia de outubro de 2024 quando Helena Overnei acordou. Um cheiro forte empesteava o ar. \u201cFalei: \u2018ih, t\u00e3o passando veneno\u2026\u2019\u201d O barrac\u00e3o de lona onde ela mora fica pr\u00f3ximo de uma \u00e1rea usada para plantar commodities como sorgo, milho e soja. Era a \u00e9poca da prepara\u00e7\u00e3o para o plantio dessa \u00faltima. O fedor que ela sentia vinha do agrot\u00f3xico 2,4 D. \u201cAquilo chega a afogar a gente.\u201d<\/p>\n<p>Beirando a rodovia GO-210, que est\u00e1 sendo duplicada para facilitar o transporte de gr\u00e3os, fica a entrada do acampamento Leonir Orback. Ali, uma guarita serve de abrigo para os moradores, que se revezam dia e noite num esquema de vig\u00edlia comum nas ocupa\u00e7\u00f5es do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). De l\u00e1, Carlos Bonfim Souza de Jesus, 65 anos, p\u00f4de ver o que acontecia. \u201cEles passaram com Uniport, e da\u00ed banhou l\u00e1.\u201d<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"600\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-7.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-7.jpg 800w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-7-300x225.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-7-768x576.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\"><figcaption><em>Debaixo de lona h\u00e1 quase nove anos, as fam\u00edlias j\u00e1 foram expulsas de outra \u00e1rea na qual conseguiam produzir alimentos. Foto: Ma\u00edra Mathias<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Uniport \u00e9 o nome comercial de uma esp\u00e9cie de trator que pulveriza agrot\u00f3xicos \u2013 e que a Jacto, empresa brasileira especializada na fabrica\u00e7\u00e3o do maquin\u00e1rio, caracteriza como \u201co 4X4 compacto para todos os desafios\u201d.<\/p>\n<p>O \u2018desafio\u2019 daquela noite rendeu dez intoxica\u00e7\u00f5es, segundo as contas de Carlos, que coordena o setor de sa\u00fade do acampamento.<\/p>\n<p>\u201cPassei mal l\u00e1, muito mal mesmo\u201d, relembra Helena, uma das pessoas afetadas naquela madrugada. N\u00e3o era sua primeira intoxica\u00e7\u00e3o. Aos 77 anos \u2013 os \u00faltimos cinco passados no acampamento \u2013, ela j\u00e1 se intoxicou tr\u00eas vezes. \u201cO est\u00f4mago ruim, muita dor de cabe\u00e7a. N\u00e3o \u00e9 ansiedade, mas uma agonia. Acho que era falta de ar, n\u00e9? Porque ele d\u00e1 uma falta de ar na gente\u201d, descreve.<\/p>\n<p>Outro sintoma muito relatado pelos acampados \u00e9 a coceira. \u201cDeu uma alergia em mim. Eu moro sozinha \u2013 eu e Deus \u2013; apanhei uma faca de mesa sem ponta e co\u00e7ava as costas porque n\u00e3o alcan\u00e7ava\u201d, relata Maria Rodrigues dos Santos, uma senhora com um senso de humor agu\u00e7ad\u00edssimo que n\u00e3o sabe dizer quantos anos tem.<\/p>\n<p>Maria tem uma filha no acampamento. \u201cEla n\u00e3o tem tempo de ficar me co\u00e7ando\u201d, falou de um jeito maroto, emendando mais s\u00e9ria: \u201cPorque eu me co\u00e7ava dia e noite.\u201d A coceira persistente a deixou com as costas em carne viva.<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"600\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-8.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-8.jpg 800w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-8-300x225.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-8-768x576.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\"><figcaption><em>Ao procurar atendimento, Maria Rodrigues e Helena Overnei se depararam com a falta de sensibilidade ao problema causado pelos agrot\u00f3xicos. Foto: Ma\u00edra Mathias<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Tanto Helena quanto Maria procuraram atendimento na rede de sa\u00fade de Santa Helena de Goi\u00e1s, cidade onde fica o acampamento. \u201cIsso a\u00ed \u00e9 uma coceirinha, isso a\u00ed \u00e9 uma virose\u201d, teria dito o m\u00e9dico de plant\u00e3o na Unidade de Pronto-Atendimento, segundo Maria, que teve outros sintomas de intoxica\u00e7\u00e3o por agrot\u00f3xicos, como dor de cabe\u00e7a e \u00e2nsia de v\u00f4mito. \u201cN\u00f3s vai l\u00e1 e eles falam que \u00e9 bact\u00e9ria, \u00e9 um v\u00edrus\u201d, lamenta ela. Mas o que o atendimento do SUS em Santa Helena n\u00e3o viu, pesquisadores de institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas confirmaram.<\/p>\n<p>Procurada pela reportagem, a Prefeitura de Santa Helena n\u00e3o se manifestou.<\/p>\n<h2>Agrot\u00f3xicos proibidos na Europa na \u00e1gua dos acampados<\/h2>\n<p>\u201cInfelizmente a gente vai trazer dados que n\u00e3o s\u00e3o legais, mas que s\u00e3o importantes pra tentar mudar um pouco dessa realidade que a gente encontra aqui na regi\u00e3o\u201d, disse a engenheira agr\u00f4noma Fernanda Savicki na manh\u00e3 do dia 26 de novembro do ano passado. Ela se dirigia a tr\u00eas dezenas de acampados, reunidos em uma tenda constru\u00edda com grandes ripas de madeira e lona na entrada do acampamento. Pesquisadora da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz), Savicki se referia aos resultados de um levantamento in\u00e9dito sobre os agrot\u00f3xicos encontrados em sete comunidades do Cerrado brasileiro, dentre elas o acampamento Leonir Orback.<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"600\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-9.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-9.jpg 800w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-9-300x225.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-9-768x576.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\"><figcaption><em>Em novembro, tr\u00eas dezenas de acampados se reuniram para discutir a dura realidade da intoxica\u00e7\u00e3o por venenos. Foto: Helo\u00edsa Sousa\/CPT Nacional<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Tinha chegado a hora de levar \u00e0s comunidades <a href=\"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/images\/biblioteca\/dossie-agrotoxicos-aguas-cerrado.pdf\">os resultados da pesquisa<\/a>, que come\u00e7ara durante a pandemia como parte das a\u00e7\u00f5es da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, articula\u00e7\u00e3o de diversas organiza\u00e7\u00f5es lan\u00e7ada em 2016 com o objetivo de denunciar a destrui\u00e7\u00e3o do bioma. O estudo foi coordenado por Aline Gurgel, tamb\u00e9m pesquisadora da Fiocruz.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s somos seres que estamos relacionados com o nosso ambiente, fazemos parte dele. Se o nosso ambiente est\u00e1 doente, consequentemente n\u00f3s tamb\u00e9m estamos\u201d, continuou Fernanda para uma audi\u00eancia atenta. \u201c\u00c9 imposs\u00edvel a gente estar num local que \u00e9 totalmente contaminado, que a \u00e1gua est\u00e1 contaminada, que a terra est\u00e1 contaminada, e achar que est\u00e1 bem.\u201d No caso do Leonir Orback, as coletas foram feitas na \u00e1gua em dois momentos diferentes: mar\u00e7o de 2022 e janeiro de 2023. Foram retiradas amostras de corpos d\u2019 \u00e1gua pr\u00f3ximos, como um rio e um a\u00e7ude, e do po\u00e7o da comunidade.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"632\" height=\"411\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-1.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-1.png 632w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-300x195.png 300w\" sizes=\"(max-width: 632px) 100vw, 632px\"><\/figure>\n<p>O agrot\u00f3xico mais encontrado no acampamento foi o glifosato \u2013 que \u00e9 tamb\u00e9m o mais usado no pa\u00eds e no mundo. No primeiro ciclo, ele apareceu em 87,5% das amostras. No segundo, em 12,5%. A coleta em ciclos tem uma raz\u00e3o de ser: ela retrata momentos diferentes do calend\u00e1rio agr\u00edcola.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, veio o 2,4 D. No primeiro ciclo, ele apareceu em 12,5% das amostras e depois foi encontrado em 75% delas. O valor \u00e9 28 vezes superior ao m\u00e1ximo permitido pela legisla\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia (UE), a mais restritiva do mundo quando o assunto s\u00e3o os agrot\u00f3xicos.<\/p>\n<p>J\u00e1 o fipronil, veneno proibido na UE por estar ligado ao fen\u00f4meno de morte em massa das abelhas, foi encontrado em 100% das amostras do ciclo 2.<\/p>\n<p>Outro agrot\u00f3xico proibido por l\u00e1, a atrazina, foi rastreado em metade das amostras do ciclo 1. No Brasil, notou Fernanda, n\u00e3o s\u00f3 a atrazina \u00e9 liberada como \u2013 ao contr\u00e1rio dos outros venenos \u2013, n\u00e3o temos valores de refer\u00eancia para a exposi\u00e7\u00e3o a ela. \u201cOu seja: se tiver um ou um milh\u00e3o de part\u00edculas de atrazina por litro de \u00e1gua n\u00e3o faz diferen\u00e7a. A \u00e1gua vai estar pot\u00e1vel, mesmo que ela esteja cheia de atrazina\u201d, criticou.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"600\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-1-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-1-1.jpg 800w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-1-1-300x225.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-1-1-768x576.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\"><figcaption><em>A pesquisadora da Fiocruz Fernanda Savicki apresenta os resultados da pesquisa sobre agrot\u00f3xicos na \u00e1gua do acampamento. Foto: Helo\u00edsa Sousa\/CPT Nacional<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Em \u00faltimo lugar, foi encontrado o etofenprox, inseticida que tamb\u00e9m \u00e9 respons\u00e1vel pela morte de abelhas. Ele apareceu em 12,5% das amostras no primeiro ciclo.<\/p>\n<p>Na regi\u00e3o de Santa Helena, a soja \u00e9 plantada entre outubro e novembro \u2013 quando come\u00e7a o per\u00edodo de chuvas. Antes de plantar, \u00e9 preciso preparar a terra. Nesse momento, se usa herbicidas como 2,4D e atrazina para limpar a \u00e1rea em que as plantas ser\u00e3o colocadas.<\/p>\n<p>Uma vez plantada a soja, s\u00e3o aplicados produtos como o glifosato e o 2,4 D para controlar o mato (j\u00e1 que as variedades transg\u00eanicas da planta s\u00e3o resistentes a esses e outros agrot\u00f3xicos). \u201cQuando ela d\u00e1 uma arrancada, mas o mato vem junto, eles v\u00e3o limpar pra n\u00e3o ter competi\u00e7\u00e3o por \u00e1gua, por nutrientes, por luz, essas coisas\u201d, explica o engenheiro agr\u00f4nomo Gabriel Fernandes. \u00c9 neste momento que se faz o controle de doen\u00e7as causadas por fungos, como a ferrugem, ou infesta\u00e7\u00e3o de insetos.<\/p>\n<p>\u201cNo final do ciclo, dependendo de como estiver o clima, se a soja n\u00e3o estiver sequinha pra colher ou se estiver amea\u00e7ando chover, eles podem fazer uma outra aplica\u00e7\u00e3o de 2, 4 D para ajudar a secar a soja e facilitar a colheita\u201d, afirma Fernandes. \u201cO 2,4 D vai longe com o vento e queima tudo.\u201d<\/p>\n<p>Quando acaba o ciclo da soja, come\u00e7a o ciclo das culturas que alternam com ela, como o sorgo e o milho. \u201cA\u00ed repete tudo de novo\u201d, explica o engenheiro agr\u00f4nomo.<\/p>\n<h2>Altera\u00e7\u00f5es e muta\u00e7\u00f5es no DNA<\/h2>\n<p>O levantamento da Fiocruz n\u00e3o foi o \u00fanico apresentado naquela manh\u00e3. A geneticista Andreya Gon\u00e7alves Costa e o biom\u00e9dico Miller Caldas Barradas tamb\u00e9m tinham m\u00e1s not\u00edcias para dar. Meses antes, em julho, o Laborat\u00f3rio de Muta\u00e7\u00e3o Gen\u00e9tica da Universidade Federal de Goi\u00e1s (Labmut\/UFG) \u2013 ao qual ambos est\u00e3o vinculados \u2013 tamb\u00e9m tinha coletado amostras do acampamento. N\u00e3o de \u00e1gua, mas de sangue e saliva. Quarenta e seis pessoas doaram material biol\u00f3gico para a an\u00e1lise.<\/p>\n<p>O objetivo era analisar o DNA dos acampados e verificar poss\u00edveis danos causados pelos agrot\u00f3xicos. \u201cA exposi\u00e7\u00e3o aos agrot\u00f3xicos constante, mesmo que curta, pode danificar o DNA\u201d, disse Costa.<\/p>\n<p>Mais tarde, ela me explicou por escrito que o DNA \u00e9 como um manual de instru\u00e7\u00f5es para nossas c\u00e9lulas. \u201cEle cont\u00e9m todas as informa\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para que as c\u00e9lulas funcionem corretamente.\u201d E que diversos fatores podem causar danos a esse nosso \u2018manual\u2019, como o consumo excessivo de \u00e1lcool e a fuma\u00e7a do cigarro. Mas os agrot\u00f3xicos s\u00e3o, definitivamente, um desses fatores.<\/p>\n<p>Esses dados se dividem entre altera\u00e7\u00f5es e muta\u00e7\u00f5es. As primeiras podem ser corrigidas pelo pr\u00f3prio corpo. As segundas s\u00e3o irrevers\u00edveis. \u201cSe o sistema de reparo celular n\u00e3o conseguir consertar essas quebras corretamente, ocorre uma altera\u00e7\u00e3o na sequ\u00eancia do DNA \u2013 ou seja, uma muta\u00e7\u00e3o. Essas muta\u00e7\u00f5es podem afetar o funcionamento normal da c\u00e9lula e, em alguns casos, levar ao desenvolvimento de doen\u00e7as.\u201d<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"600\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-1-2.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-1-2.jpg 800w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-1-2-300x225.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-1-2-768x576.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\"><figcaption><em>Andreya Gon\u00e7alves Costa mostra aos acampados os resultados da pesquisa do Labmut, que envolveu tamb\u00e9m agricultores. Foto: Helo\u00edsa Sousa\/CPT Nacional<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>A an\u00e1lise do material biol\u00f3gico encontrou altera\u00e7\u00f5es e muta\u00e7\u00f5es no DNA e teve resultados parecidos com a que tinha sido feita na \u00e1gua do acampamento. O agrot\u00f3xico mais encontrado no corpo dos acampados tamb\u00e9m foi o glifosato. Depois veio o chumbinho, usado para matar ratos, seguido por fipronil e tordon (um herbicida que resulta da mistura de picloram com 2,4 D). A lista segue, com um total de 12 agrot\u00f3xicos.<\/p>\n<p>Quem buscou a UFG foi a acampada Laureana Fernandes de Lima Ferreira, 40 anos. \u201cO que me levou a procurar a universidade foi a quest\u00e3o dos companheiros, que estavam com muita irrita\u00e7\u00e3o na pele. Companheiros que tinham sido intoxicados por veneno.\u201d<\/p>\n<p>De posse dos laudos, alguns acampados puderam procurar atendimento m\u00e9dico. E o acampamento passou a contar com mais um elemento na luta contra os agrot\u00f3xicos.<\/p>\n<h2>\u00c1rea do acampamento tem hist\u00f3rico de d\u00edvidas<\/h2>\n<p>Santa Helena de Goi\u00e1s \u00e9 uma cidade de 38 mil habitantes que fica a pouco menos de tr\u00eas horas de carro da capital do estado, Goi\u00e2nia. Segundo o \u00faltimo Censo Agropecu\u00e1rio do IBGE, de 2022, os estabelecimentos agropecu\u00e1rios se estendem por 88,6 mil hectares do territ\u00f3rio do munic\u00edpio. O acampamento Leonir Orback ocupa 16 hectares \u2013 0,02% desse total.<\/p>\n<p>A maior \u00e1rea \u00e9 dedicada ao cultivo de cana-de-a\u00e7\u00facar (33,5 mil hectares). Logo atr\u00e1s, vem a soja (33,2 mil hectares). Em terceiro lugar, o milho (29,8 mil hectares). O feij\u00e3o, por outro lado, ocupou m\u00edseros 205 hectares.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"600\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-1-3.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-1-3.jpg 800w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-1-3-300x225.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-1-3-768x576.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\"><figcaption><em>Com apenas 16 hectares, o acampamento Leonir Orback est\u00e1 espremido entre lavouras com uso intensivo de agrot\u00f3xicos. Foto: Google Maps<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>A hist\u00f3ria do acampamento est\u00e1 entrela\u00e7ada \u00e0 cana-de-a\u00e7\u00facar. O Leonir Orback fica no quil\u00f4metro 6 da GO-210, quase em frente \u00e0 entrada da Usina S\u00e3o Jos\u00e9, antiga Usina Santa Helena de A\u00e7\u00facar e \u00c1lcool S\/A, e dentro da Fazenda Ouro Branco, que tem 1,8 mil hectares.<\/p>\n<p>Usina e fazenda eram alguns dos muitos empreendimentos do Grupo Naoum, fundado por Mounir Naoum. Liban\u00eas, ele chegou ao Brasil na d\u00e9cada de 1940. Estabeleceu-se em An\u00e1polis, cidade a 270 quil\u00f4metros de Santa Helena. Seu neg\u00f3cio eram hot\u00e9is, fazendas e usinas. Pagar impostos, nem tanto.<\/p>\n<p>O grupo chegou a acumular d\u00edvidas com a Uni\u00e3o na casa do bilh\u00e3o. Entrou em recupera\u00e7\u00e3o judicial em 2008. Olhando a situa\u00e7\u00e3o, o MST decidiu agir. A ocupa\u00e7\u00e3o de \u00e1reas do complexo pertencente \u00e0 Usina Santa Helena fazia parte da estrat\u00e9gia do movimento para pressionar o governo federal a cobrar o pagamento, com terras, da d\u00edvida. E destinar essas terras para a reforma agr\u00e1ria.<\/p>\n<p>\u201cA reforma agr\u00e1ria estava paralisada. E da\u00ed foi uma estrat\u00e9gia do Movimento Sem Terra: ocupar latif\u00fandios. E n\u00e3o s\u00f3 em Goi\u00e1s, teve uma outra grande ocupa\u00e7\u00e3o do MST no Paran\u00e1. N\u00f3s ocupamos porque [a usina] era uma grande devedora\u201d, explica Ueber Alves, advogado do movimento que cuida do caso do acampamento Leonir Orback.<\/p>\n<p>A primeira ocupa\u00e7\u00e3o aconteceu em agosto de 2015 em outra fazenda do complexo da usina, a V\u00e1rzea da Ema. Contou com a participa\u00e7\u00e3o de mais de 3 mil fam\u00edlias, nas contas do MST. O local \u2013 batizado de acampamento Padre Josimo Tavares \u2013 tinha \u00e1gua em abund\u00e2ncia, o que favorecia o plantio de alimentos. \u201cTodo mundo tinha ro\u00e7a\u201d, lembrou Carlos, que participava do setor da produ\u00e7\u00e3o no antigo acampamento. Para dar conta dos cultivos, os acampados organizavam mutir\u00f5es nos fins de semana. \u201cOs mutir\u00e3o andava com 1,5 mil pessoas.\u201d<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"600\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-1-4.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-1-4.jpg 800w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-1-4-300x225.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-1-4-768x576.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\"><figcaption><em>\u201cAqui n\u00f3s desbravamos tudo sem uma m\u00e1quina, s\u00f3 na enxada\u201d, relembra Carlos Bonfim Souza de Jesus. Foto: Ma\u00edra Mathias<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>No ano seguinte, a Justi\u00e7a decretou a reintegra\u00e7\u00e3o de posse. Teve disputa e at\u00e9 pris\u00e3o de quatro militantes,<a href=\"https:\/\/www.intercept.com.br\/2019\/01\/20\/mst-organizacao-criminosa\/\"> condenados por formar \u201cuma organiza\u00e7\u00e3o criminosa\u201d<\/a>. O movimento n\u00e3o esmoreceu: em 31 de julho de 2016 ocupou outra \u00e1rea e criou o Acampamento Leonir Orback.<\/p>\n<p>\u201cAqui era tudo cana. Aqui n\u00f3s desbravamos tudo sem uma m\u00e1quina, s\u00f3 na enxada. N\u00f3s mor\u00e1vamos dentro dos matos a\u00ed, \u00f3\u201d, contou Carlos, apontando para um pequeno trecho de mata mais \u00e0 frente, na borda esquerda do acampamento.<\/p>\n<p>A caminhada tem sido dura. \u201cO mais brabo aqui \u00e9 os agrot\u00f3xicos e as pol\u00edcias, porque quando eles v\u00eam, eles v\u00eam pra tirar a gente\u201d, disse Wilma Correa do Nascimento Silva, 48 anos, uma das lideran\u00e7as do acampamento.<\/p>\n<p>Um dossi\u00ea preparado pelo N\u00facleo de Assessoria Jur\u00eddica Universit\u00e1ria Popular Josiane Evangelista, ligado \u00e0 Universidade Federal de Jata\u00ed, e pelo N\u00facleo de Direitos Humanos de Rio Verde e Regi\u00e3o \u2013 ao qual o Joio teve acesso \u2013 re\u00fane essas viola\u00e7\u00f5es na tentativa de sensibilizar autoridades p\u00fablicas.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o atual \u00e9 inst\u00e1vel. No plano administrativo, o MST negocia com o Instituto Nacional de Coloniza\u00e7\u00e3o e Reforma Agr\u00e1ria (Incra) para que o \u00f3rg\u00e3o provoque a Fazenda Nacional para requerer que a d\u00edvida seja paga com as terras.<\/p>\n<p>No plano judicial, a coisa \u00e9 mais complicada. A terra chegou a ser adjudicada, ou seja, requerida pela Uni\u00e3o. Mas o Tribunal de Justi\u00e7a de Goi\u00e1s reverteu a decis\u00e3o. \u201cAssim que a gente ocupou, a usina \u2013 que estava em processo de fal\u00eancia \u2013 pediu a recupera\u00e7\u00e3o judicial e a adjudica\u00e7\u00e3o foi anulada. Porque quando uma empresa pede recupera\u00e7\u00e3o judicial, ela \u00e9 protegida\u201d, explica Ueber.<\/p>\n<p>No fim de 2024, a Justi\u00e7a indicou que a usina havia extrapolado o prazo que uma empresa tem para ficar em recupera\u00e7\u00e3o judicial. Por\u00e9m, n\u00e3o decretou a sua fal\u00eancia. \u201cEnt\u00e3o ela nem tem a fal\u00eancia decretada, nem pagou as d\u00edvidas que tem com a Uni\u00e3o\u201d, resume o advogado.<\/p>\n<p>Mas o MST continua lutando, n\u00e3o s\u00f3 pela desapropria\u00e7\u00e3o da fazenda onde o acampamento est\u00e1 instalado, mas de todas as propriedades do Grupo Naoum. \u201cAs quatro propriedades do Grupo Naoum l\u00e1 naquela regi\u00e3o perfazem 75 mil hectares de terra. A nossa luta \u00e9 pela desapropria\u00e7\u00e3o de todas\u201d, afirma Ueber.<\/p>\n<p>Procurado, o Grupo Naoum n\u00e3o se manifestou at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o da reportagem.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"600\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-1-5.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-1-5.jpg 800w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-1-5-300x225.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-1-5-768x576.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\"><figcaption><em>Planta\u00e7\u00e3o de soja a perder de vista fica colada ao acampamento Leonir Orback. Foto: Ma\u00edra Mathias<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<h2>\u201cAcabou com tudo\u201d<\/h2>\n<p>O Leonir Orback \u00e9 uma tripa de casas no meio de um mar de monoculturas do agroneg\u00f3cio. De um lado, cana. Do outro, se alternam planta\u00e7\u00f5es de soja, milho e sorgo.<\/p>\n<p>A luta por um modelo de produ\u00e7\u00e3o diferente num contexto assim n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. \u201cN\u00f3s lutamos muito para as coisas aqui serem pelo menos um pouco sem veneno. Porque a gente n\u00e3o aplica veneno, mas o agro aplica\u201d, pontuou Carlos.<\/p>\n<p>\u201cAqui voc\u00ea planta alface, t\u00e1 o trem mais lindo. Quando eles come\u00e7am a jogar veneno, no outro dia voc\u00ea olha e d\u00e1 vontade de chorar. Tudo amarelinho assim\u201d, lamentou Maria Rodrigues dos Santos.<\/p>\n<p>Carlos explica que alguns agrot\u00f3xicos usados na produ\u00e7\u00e3o da soja danificam as plantas que t\u00eam membranas, como alfaces e couves. O uso intensivo tamb\u00e9m tem como efeito a migra\u00e7\u00e3o, para os cultivos do acampamento, dos animais considerados pragas pelo agroneg\u00f3cio. \u201cEnt\u00e3o \u00e9 que v\u00eam os pulg\u00e3o, que v\u00eam as paquinhas de todas as esp\u00e9cies, que v\u00eam as lagartas, porque eles batem, d\u00e1 combate, e os bichos v\u00eam pra c\u00e1\u201d, relatou.<\/p>\n<p>Nesse ritmo, muita gente do acampamento desanimou de plantar nos quintais. \u201cTodo mundo perdeu as hortas; tudo. Os alfaces de cabe\u00e7a, \u2018mel\u00f4\u2019 tudo. Acabou com tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo\u201d, enfatizou Carlos, inconformado.<\/p>\n<p>Mas ainda existe produ\u00e7\u00e3o no acampamento, como me mostrou Paulo Roberto da Silva Pires. Aos 41 anos, o professor de ci\u00eancias exatas se encantou pelo MST depois de participar de um mutir\u00e3o em 2023. \u201cComo a minha fam\u00edlia \u00e9 toda de lavradores, meus av\u00f3s e meus pais trabalhavam na terra, eu vim conhecer, entendi a din\u00e2mica do movimento, compreendi rapidamente que era muito mais do que luta pela terra: era luta por uma sociedade mais justa, mais igualit\u00e1ria. E a\u00ed eu fui assumindo algumas tarefas.\u201d<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"600\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-1-6.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-1-6.jpg 800w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-1-6-300x225.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-1-6-768x576.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\"><figcaption><em>Paulo Roberto se encantou pelo MST em 2023 e, hoje, mora no acampamento. Foto: Ma\u00edra Mathias<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Deixou a cidade e se mudou para o Leonir Orback. \u201cBasicamente, eu estou acampado debaixo de uma lona h\u00e1 18 meses\u201d, contou, caminhando pela estradinha de terra batida que leva da guarita \u00e0s \u00e1reas de produ\u00e7\u00e3o coletivas, coladas \u00e0 planta\u00e7\u00e3o de soja.<\/p>\n<p>Pergunto o que eles t\u00eam plantado ali. \u201cMilho, mandioca, hortali\u00e7as em geral \u2013 inclusive as que voc\u00eas comeram no almo\u00e7o, grande parte veio daqui. Banana, lim\u00e3o, as frut\u00edferas nossas e, agora por \u00faltimo, arroz e feij\u00e3o que a gente n\u00e3o vai mais comprar\u201d, enumera.<\/p>\n<h2>Legisla\u00e7\u00e3o inexistente ou fraca<\/h2>\n<p>\u201c\u00c9 proibido o uso de agrot\u00f3xicos em \u00e1reas pr\u00f3ximas aos ambientes urbanos ou em locais onde tem a concentra\u00e7\u00e3o de pessoas\u201d, me disse Paulo, enquanto caminh\u00e1vamos pela \u00e1rea do acampamento. Infelizmente n\u00e3o \u00e9 bem assim.<\/p>\n<p>A mais antiga delas \u00e9 uma <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/agricultura\/pt-br\/assuntos\/insumos-agropecuarios\/aviacao-agricola\/legislacao\/3-in-2-de-03-de-janeiro-de-2008-com-alteracoes-da-in-37-2020.pdf\">instru\u00e7\u00e3o normativa<\/a> editada pelo Minist\u00e9rio da Agricultura e Pecu\u00e1ria (Mapa) em 2008. Ela trata da aplica\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos por avi\u00f5es e prev\u00ea duas situa\u00e7\u00f5es. No caso de \u00e1reas com mananciais de \u00e1gua, moradias isoladas e agrupamentos de animais, essa pulveriza\u00e7\u00e3o pode acontecer a 250 metros de dist\u00e2ncia. J\u00e1 no caso de povoa\u00e7\u00f5es, cidades, vilas, bairros e mananciais de capta\u00e7\u00e3o de \u00e1gua para abastecimento de popula\u00e7\u00e3o, a dist\u00e2ncia aumenta para 500 metros.<\/p>\n<p>Com a chegada dos drones na agricultura, uma <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/agricultura\/pt-br\/assuntos\/insumos-agropecuarios\/aviacao-agricola\/legislacao\/portaria-mapa-298-de-22-09-2021.pdf\">portaria <\/a>mais recente, de 2021, foi editada para tratar especificamente deles. Nela, o Minist\u00e9rio da Agricultura estipula uma dist\u00e2ncia m\u00ednima de apenas 20 metros.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"683\" height=\"503\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-1-1.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-1-1.png 683w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-1-300x221.png 300w\" sizes=\"(max-width: 683px) 100vw, 683px\"><\/figure>\n<p>No caso da pulveriza\u00e7\u00e3o terrestre \u2013 que pode ser feita por tratores como o Uniport ou por equipamentos pequenos, usados nas costas dos trabalhadores rurais \u2013, a bola fica com os estados. E pouqu\u00edssimos deles (apenas cinco, segundo o levantamento <em><a href=\"https:\/\/terradedireitos.org.br\/acervo\/publicacoes\/livros\/42\/agrotoxicos-e-violacoes-de-direitos-humanos-no-brasil\/23783\">Agrot\u00f3xicos e viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos no Brasil<\/a><\/em> editado em 2022) t\u00eam algo a dizer sobre o assunto.<\/p>\n<p>\u201cA maioria dos estados n\u00e3o tem dist\u00e2ncias estabelecidas. E, a\u00ed, realmente n\u00e3o h\u00e1 uma determina\u00e7\u00e3o que literalmente pro\u00edba esse tipo de coisa\u201d, lamenta Emiliano Maldonado, advogado da Campanha Permanente em Defesa da Vida e Contra os Agrot\u00f3xicos.<\/p>\n<p><strong>Estados que regulamentam a aplica\u00e7\u00e3o terrestre<\/strong><\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"953\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-2-1-1024x953-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-2-1-1024x953-1.jpg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-2-1-300x279.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-2-1-768x715.jpg 768w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-2-1.jpg 1100w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>Fonte: Agrot\u00f3xicos e viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos no Brasil, 2022<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Goi\u00e1s \u00e9 uma das exce\u00e7\u00f5es. Por l\u00e1, existem duas leis tratando do assunto,<a href=\"https:\/\/legisla.casacivil.go.gov.br\/api\/v2\/pesquisa\/legislacoes\/98740\/pdf#:~:text=Disp%C3%B5e%20sobre%20a%20produ%C3%A7%C3%A3o%2C%20o,Goi%C3%A1s%2C%20e%20d%C3%A1%20outras%20provid%C3%AAncias.\"> uma de 2016<\/a> que teve trechos modificados por <a href=\"https:\/\/legisla.casacivil.go.gov.br\/api\/v2\/pesquisa\/legislacoes\/99909\/pdf#:~:text=Altera%20a%20Lei%20n%C2%BA%2019.423,Goi%C3%A1s%2C%20e%20d%C3%A1%20outras%20provid%C3%AAncias.\">outra, de 2018<\/a>. Essas mudan\u00e7as tratam exatamente das dist\u00e2ncias que devem ser observadas na aplica\u00e7\u00e3o dos agrot\u00f3xicos. O estado previa, por exemplo, uma dist\u00e2ncia de 2 mil metros para pulveriza\u00e7\u00f5es a\u00e9reas em \u00e1reas pr\u00f3ximas de cidades, povoados, vilas\u2026 Isso caiu para 500 metros (mesma dist\u00e2ncia estipulada pelo governo federal). Mas as leis tamb\u00e9m estabelecem dist\u00e2ncias para pulveriza\u00e7\u00f5es com aplica\u00e7\u00e3o terrestre.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"626\" height=\"616\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-2.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-2.png 626w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-2-300x295.png 300w\" sizes=\"(max-width: 626px) 100vw, 626px\"><\/figure>\n<p>O barraco de lona no qual Helena Overnei mora fica a aproximadamente 25 metros de onde a soja foi plantada. Do ponto de vista da legisla\u00e7\u00e3o estadual, aplicar agrot\u00f3xico ali \u00e9 uma infra\u00e7\u00e3o grav\u00edssima. Caberia aos \u00f3rg\u00e3os de defesa agropecu\u00e1ria, sa\u00fade e meio ambiente de Goi\u00e1s a fiscaliza\u00e7\u00e3o e autua\u00e7\u00e3o dos respons\u00e1veis \u2013 que, no entanto, segundo relato dos acampados, nunca aconteceu no Leonir Orback.<\/p>\n<p>Procurada pelo Joio, a Secretaria estadual de Meio Ambiente n\u00e3o respondeu.<\/p>\n<p>J\u00e1 a Ag\u00eancia Goiana de Defesa Agropecu\u00e1ria (Agrodefesa) enviou uma nota (que pode ser lida na \u00edntegra ao final da reportagem) afirmando que \u201co acampamento se encontra localizado numa regi\u00e3o agr\u00edcola h\u00e1 oito anos, onde existe um canavial h\u00e1 mais de 30 anos e o cultivo de diferentes culturas\u201d. O \u00f3rg\u00e3o sustenta que tem um fiscal acompanhando a vigil\u00e2ncia sanit\u00e1ria de Santa Helena de Goi\u00e1s na fiscaliza\u00e7\u00e3o \u201cno entorno do acampamento\u201d. \u201cTendo em vista a proximidade do acampamento, praticamente dentro das \u00e1reas agr\u00edcolas, onde se utiliza medidas de controle qu\u00edmico para preven\u00e7\u00e3o e controle de pragas\u201d, ressalta a nota. \u201cOrientamos aos moradores, que no momento da aplica\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos no entorno do acampamento, notifiquem o fiscal da unidade do munic\u00edpio para apura\u00e7\u00e3o de poss\u00edveis irregularidades e ado\u00e7\u00e3o de medidas punitivas legais. Quanto ao fato j\u00e1 ocorrido, recomendamos que seja oficializado \u00e0 Agrodefesa para apura\u00e7\u00e3o e resposta formal da a\u00e7\u00e3o fiscal na regi\u00e3o\u201d, finaliza.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m procuramos a Secretaria estadual de Sa\u00fade que, por sua vez, respondeu que fiscaliza a situa\u00e7\u00e3o do acampamento e que o munic\u00edpio de Santa Helena \u00e9 priorit\u00e1rio quando o assunto s\u00e3o os agrot\u00f3xicos. A nota (que pode ser lida na \u00edntegra ao fim do texto) tamb\u00e9m fala que \u201cap\u00f3s tratativas de v\u00e1rios \u00f3rg\u00e3os municipais e estaduais como Agrodefesa, Pastoral da Terra, vigil\u00e2ncia sanit\u00e1ria municipal, representantes locais (\u2026), a Agrodefesa se prop\u00f4s articular com os propriet\u00e1rios\/arrendat\u00e1rios sobre os limites para pulveriza\u00e7\u00e3o e os tipos de defensivos agr\u00edcolas apropriados para uso nas proximidades dessa popula\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Mas a lideran\u00e7a do acampamento nega que o \u00f3rg\u00e3o atue na fiscaliza\u00e7\u00e3o. \u201cA \u00fanica vez que chegou um fiscal aqui foi para verificar se o alimento que n\u00f3s damos aos porcos estava adequado. Ou seja: buscando nos punir\u201d, conta Paulo Roberto da Silva Pires. \u201cO acampamento n\u00e3o foi procurado em momento algum, a tratativa \u00e9 falsa\u201d, denuncia. Questionada, a Comiss\u00e3o Pastoral da Terra tamb\u00e9m negou ter ci\u00eancia de qualquer articula\u00e7\u00e3o do g\u00eanero. \u201cDesconhecemos. Nunca fomos procurados pela Secretaria estadual de Sa\u00fade ou outro \u00f3rg\u00e3o p\u00fablico para falar sobre os impactos dos agrotoxicos no acampamento Leonir Orback\u201d, respondeu a coordenadora da CPT em Goi\u00e1s, Leila Lemes.<\/p>\n<p>At\u00e9 poucos dias antes da publica\u00e7\u00e3o dessa reportagem, as pulveriza\u00e7\u00f5es continuavam a todo o vapor. Num v\u00eddeo gravado em 10 de mar\u00e7o deste ano, uma acampada mostra como o trator passa rente ao limite do acampamento, pr\u00f3ximo aos barrac\u00f5es onde as pessoas moram. Ela narra em tom de revolta: \u201cN\u00e3o est\u00e3o nem a\u00ed para n\u00f3s. Querem matar n\u00f3s de veneno.\u201d<\/p>\n<figure>\n<div>\n<\/div>\n<\/figure>\n<p>Um pouco antes, em fevereiro, eu recebi not\u00edcias tamb\u00e9m da pulveriza\u00e7\u00e3o a\u00e9rea nos limites do acampamento. Num v\u00eddeo enviado por outra acampada, um avi\u00e3o passa em cima do Leonir Orback. Voa baixinho. D\u00e1 pra ver que a pessoa que gravou est\u00e1 nervosa: o celular treme.<\/p>\n<figure>\n<div>\n<\/div>\n<\/figure>\n<p>Mas a presen\u00e7a dos agrot\u00f3xicos no acampamento tamb\u00e9m \u00e9 sentida em situa\u00e7\u00f5es mais corriqueiras, como a hora do banho. \u201cA gente toma banho por tomar, n\u00e9? Porque a \u00e1gua \u00e9 muito suja. Voc\u00ea acaba de tomar banho e d\u00e1 uma piniqueira \u2013 s\u00f3 de falar, eu j\u00e1 me arrepio. Ent\u00e3o, eu acho que j\u00e1 \u00e9 veneno que t\u00e1 l\u00e1 naquela \u00e1gua, n\u00e9?\u201d, me contou Helena, que \u00e0s vezes prefere ir na casa dos filhos na cidade se banhar. Mas a verdade \u00e9 que n\u00e3o tem muito jeito de fugir. \u201cA roupa n\u00f3s temos que lavar com essa \u00e1gua. A verdura n\u00f3s temos que aguar com essa \u00e1gua. N\u00e3o tem como.\u201d<\/p>\n<p>A hora do banho tamb\u00e9m assombra Maria Rodrigues. \u201cE voc\u00ea toma banho, a hora que voc\u00ea veste a roupa, voc\u00ea faz assim, parece que t\u00e1 com dois meses [que] voc\u00ea n\u00e3o banha. T\u00e1 grudento. Eu t\u00f4 gastando dois sabonetes por semana pra poder tirar a manteiga do corpo. Eu falo que \u00e9 manteiga, n\u00e3o sei o que que \u00e9\u2026\u201d<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o do advogado, a proximidade entre os monocultivos e o acampamento n\u00e3o \u00e9 mero acaso. \u201cO pessoal est\u00e1 ainda numa fase de acampamento e a disputa pelo territ\u00f3rio ainda \u00e9 muito dura. Ent\u00e3o, tamb\u00e9m tem um papel de persegui\u00e7\u00e3o, mesmo, inclusive de inviabilizar que aquelas fam\u00edlias consigam viver e produzir ali\u201d, reflete Emiliano.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"600\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-3-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-3-1.jpg 800w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-3-1-300x225.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-3-1-768x576.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\"><figcaption><em>Os agrot\u00f3xicos aplicados nas monoculturas vizinhas atrapalham a produ\u00e7\u00e3o de alimentos no acampamento, mas tamb\u00e9m se fazem sentir em situa\u00e7\u00f5es corriqueiras, como a hora do banho. Foto: Helo\u00edsa Sousa\/CPT Nacional<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<h2>Press\u00e3o tem gerado conquistas, como per\u00edmetros de exclus\u00e3o<\/h2>\n<p>A sede da Assembleia Legislativa de Goi\u00e1s \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o com ares modernos, por onde se entra depois de subir uma ampla escadaria que leva a uma estrutura esf\u00e9rica que conecta dois pr\u00e9dios envidra\u00e7ados. Em d\u00favida sobre como descrever o complexo, consultei um amigo arquiteto que resumiu assim: \u201cestilo greco-goiano com pitadas contempor\u00e2neas\u201d. Inaugurada em 2022, a nova sede do Poder Legislativo \u00e9 motivo de orgulho dos parlamentares por ser pretensamente verde, sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u201cO fim do uso de papel ser\u00e1 um dos principais frutos dos investimentos tecnol\u00f3gicos que estamos realizando na nova sede, um grande benef\u00edcio para o meio ambiente e para toda a sociedade\u201d, disse antes da inaugura\u00e7\u00e3o o ent\u00e3o presidente da Casa e deputado, Lissauer Vieira (PSB). Ele \u00e9 produtor rural de Rio Verde. No Instagram, aparece posando em cima de trator, carregando gal\u00e3o de agrot\u00f3xico e fazendo V de vit\u00f3ria com as m\u00e3os junto de Jair Bolsonaro.<\/p>\n<p>Em outra manh\u00e3 abafada de novembro, o estilo greco-goiano teve de se haver com dezenas de bon\u00e9s do MST. No dia seguinte \u00e0 reuni\u00e3o que apresentou os resultados dos levantamentos sobre agrot\u00f3xicos no Leonir Orback, os acampados foram fazer press\u00e3o na assembleia.<\/p>\n<p>Articulada pela Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT) junto ao mandato da deputada estadual Bia de Lima (PT), uma audi\u00eancia p\u00fablica foi o palco para cobrar por um basta \u00e0s pulveriza\u00e7\u00f5es. E, de novo, as duas an\u00e1lises de agrot\u00f3xicos \u2013 na \u00e1gua do acampamento e no sangue e na saliva dos acampados \u2013 foram apresentadas. Mas, desta vez, na presen\u00e7a de algumas (poucas) autoridades p\u00fablicas.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"600\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-3-2.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-3-2.jpg 800w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-3-2-300x225.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-3-2-768x576.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\"><figcaption><em>A audi\u00eancia p\u00fablica aconteceu no dia 27 de novembro de 2024 na presen\u00e7a de umas poucas autoridades p\u00fablicas. Foto: Helo\u00edsa Sousa\/CPT Nacional<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>\u201cA gente precisa do monitoramento dessas fam\u00edlias\u201d, reivindicou a agente da CPT Leila Lemes. \u201c\u00c9 importante o apoio da Secretaria de Sa\u00fade do munic\u00edpio de Santa Helena, mas tamb\u00e9m do estado de Goi\u00e1s, nos casos de pessoas que foram intoxicadas. E das pessoas que ainda est\u00e3o bebendo dessa \u00e1gua, que tem v\u00e1rios tipos de agrot\u00f3xicos\u201d, continuou. \u201cA gente precisa da cria\u00e7\u00e3o de leis, tamb\u00e9m.\u201d<\/p>\n<p>O \u00fanico representante do governo de Goi\u00e1s na audi\u00eancia era Magno Pereira Lima. Servidor de carreira, ele atualmente coordena a vigil\u00e2ncia ambiental e de sa\u00fade do trabalhador \u2013 \u00e1rea da Secretaria estadual de Sa\u00fade respons\u00e1vel por lidar com agrot\u00f3xicos. Questionado ap\u00f3s a audi\u00eancia se a secretaria tinha conhecimento de situa\u00e7\u00f5es como a do acampamento, ele anuiu. \u201cA gente tem conhecimento disso. Inclusive, a legisla\u00e7\u00e3o antiga tinha uma metragem maior para essas pulveriza\u00e7\u00f5es e a nova legisla\u00e7\u00e3o preconiza dist\u00e2ncias menores, o que ocasiona maiores acidentes, maiores intoxica\u00e7\u00f5es e tudo mais\u201d, destacou, se referindo \u00e0s leis de Goi\u00e1s.<\/p>\n<p>Tanto na entrevista, quanto na fala durante a audi\u00eancia, Magno insistiu que o problema dos agrot\u00f3xicos \u00e9 grande demais para cair s\u00f3 no colo dos profissionais de sa\u00fade. \u201cInstitui\u00e7\u00f5es, elas precisam ter esse olhar e promover essa mudan\u00e7a. Cada um no seu quadrado, dentro da legisla\u00e7\u00e3o, exigindo o que \u00e9 necess\u00e1rio fazer.\u201d<\/p>\n<p>As respostas institucionais, no entanto, n\u00e3o v\u00eam sem muita press\u00e3o. Costurar ci\u00eancia e a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica tem sido uma t\u00f4nica dos movimentos sociais que atuam na pauta dos venenos. Eles apostam na ideia de vigil\u00e2ncia popular em sa\u00fade como forma de reunir informa\u00e7\u00f5es sobre as intoxica\u00e7\u00f5es de maneira sistematizada e, a partir da\u00ed, cobrar por solu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A vigil\u00e2ncia em sa\u00fade \u00e9 uma estrutura do SUS. Quando um agente bate na porta de algu\u00e9m para verificar criadouros de mosquito e aplicar larvicidas, ele est\u00e1 desempenhando uma a\u00e7\u00e3o de vigil\u00e2ncia epidemiol\u00f3gica. Quando um fiscal cobra de um supermercado documentos que atestem a validade das carnes vendidas ali, ele est\u00e1 desempenhando uma a\u00e7\u00e3o de vigil\u00e2ncia sanit\u00e1ria. E quando um agente monitora o uso excessivo de agrot\u00f3xicos, ele desempenha uma a\u00e7\u00e3o de vigil\u00e2ncia ambiental.<\/p>\n<p>\u201cA vigil\u00e2ncia popular em sa\u00fade, por outro lado, n\u00e3o acontece no sistema de sa\u00fade. Ela acontece nas comunidades\u201d, afirma Fernanda Savicki, da Fiocruz. Segundo ela, o levantamento feito na \u00e1gua do acampamento Leonir Orback \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o de vigil\u00e2ncia popular, j\u00e1 que alguns acampados receberam treinamento para realizar as coletas. Mas ela d\u00e1 outros exemplos: \u201cAnotar as datas das pulveriza\u00e7\u00f5es. E criar documenta\u00e7\u00e3o a respeito dos problemas ambientais que possam apoiar a den\u00fancia de viola\u00e7\u00f5es aos direitos das comunidades. Isso \u00e9 vigil\u00e2ncia popular.\u201d<\/p>\n<p>Existem exemplos concretos de avan\u00e7os conquistados a partir de a\u00e7\u00f5es de vigil\u00e2ncia popular. Jakeline Pivato, da Campanha Nacional Contra os Agrot\u00f3xicos e Pela Vida, cita o caso do munic\u00edpio de Nova Santa Rita, no Rio Grande do Sul. Conhecida pela produ\u00e7\u00e3o de arroz org\u00e2nico pelo MST, a cidade aprovou em 2021 uma lei que cria per\u00edmetros de exclus\u00e3o, onde a pulveriza\u00e7\u00e3o a\u00e9rea de agrot\u00f3xicos \u00e9 proibida. Isso aconteceu depois de um epis\u00f3dio de contamina\u00e7\u00e3o em massa da produ\u00e7\u00e3o dos assentamentos por agrot\u00f3xicos, que gerou perdas significativas.<\/p>\n<p>\u201cOs agricultores fizeram todo o mecanismo de coleta de amostras, comprovar a contamina\u00e7\u00e3o, comprovar a perda da produ\u00e7\u00e3o, e tamb\u00e9m a base de c\u00e1lculo dos preju\u00edzos\u201d, relata Jakeline. \u201cE a\u00ed oficializaram den\u00fancias e foram fazendo tamb\u00e9m a articula\u00e7\u00e3o para ampliar a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as para conseguir, n\u00e3o s\u00f3 a partir das vias judiciais, mas ter um apoio da sociedade para enfrentar a pauta.\u201d<\/p>\n<p>Essa movimenta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m gerou uma medida administrativa do governo ga\u00facho que criou cinco outros pol\u00edgonos de exclus\u00e3o da pulveriza\u00e7\u00e3o a\u00e9rea de agrot\u00f3xicos, principalmente resguardando \u00e1reas de prote\u00e7\u00e3o ambiental e parques estaduais.<\/p>\n<p>\u201cO importante disso tudo \u00e9 a gente entender que n\u00e3o foi uma fam\u00edlia em si. A gente entende isso enquanto vigil\u00e2ncia popular porque um coletivo organizado conseguiu constatar a viola\u00e7\u00e3o, se mobilizar e criar um mecanismo de ir pra cima pra tentar reivindicar seus direitos\u201d, frisa Jakeline. \u201cAs pautas que v\u00eam avan\u00e7ando nesse sentido, todas t\u00eam iniciativa popular e mobiliza\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria sociedade.\u201d<\/p>\n<p><strong>Leia a \u00edntegra das notas \u00e0 imprensa enviadas ao Joio:<\/strong><\/p>\n<p><strong>Secretaria Estadual de Sa\u00fade de Goi\u00e1s<\/strong><\/p>\n<p>A Secretaria de Estado da Sa\u00fade de Goi\u00e1s (SES\/GO) informa que tem acompanhado a situa\u00e7\u00e3o no acampamento Leonir Orbak, por meio do Programa do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade: Vigil\u00e2ncia em Sa\u00fade de Popula\u00e7\u00f5es Expostas a Agrot\u00f3xicos (VSPEA) executado Em Goi\u00e1s pela SES, por meio da Subsecretaria de Vigil\u00e2ncia em Sa\u00fade (Suvisa).<\/p>\n<p>Um estudo da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra e implementado pela Fiocruz no bioma Cerrado em v\u00e1rios estados do Brasil e em Goi\u00e1s foi realizado no acampamento Leonir Orback, no munic\u00edpio de Santa Helena (GO) e motivou a\u00e7\u00f5es do programa VSPEA em 2024, em parceria com a Universidade Federal de Goi\u00e1s (UFG), culminando em Audi\u00eancia P\u00fablica na Assembleia Legislativa de Goi\u00e1s, realizada dia 27 de novembro de 2024.<\/p>\n<p>V\u00e1rias a\u00e7\u00f5es do VSPEA foram realizadas no acompanhamento desde julho de 2024, como a coleta de \u00e1gua para an\u00e1lises microbiol\u00f3gicas e f\u00edsico-qu\u00edmicas nos dois po\u00e7os subterr\u00e2neos que a popula\u00e7\u00e3o do acampamento consome, entrega de 400 frascos de 50 ml de hipoclorito de s\u00f3dio para o tratamento da \u00e1gua, com orienta\u00e7\u00f5es de uso, considerando que a \u00e1gua de consumo humano n\u00e3o possui nenhum tipo de tratamento, coleta de larvas de mosquitos pelo setor de vetores para identifica\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies naquela regi\u00e3o com import\u00e2ncia em sa\u00fade p\u00fablica, an\u00e1lise de glicemia e press\u00e3o arterial dos acampados, entretanto, como a coleta de sangue pela UFG para an\u00e1lises de intoxica\u00e7\u00f5es daquela popula\u00e7\u00e3o, estava sendo comprometida pela grande participa\u00e7\u00e3o popular e os poucos recursos humanos para execu\u00e7\u00e3o das tarefas, a \u00e1rea epidemiol\u00f3gica municipal auxiliou nesta a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s tratativas de v\u00e1rios \u00f3rg\u00e3os municipais e estaduais como Agrodefesa, Pastoral da Terra, vigil\u00e2ncia sanit\u00e1ria municipal, representantes locais, VSPEA Estadual e Coordena\u00e7\u00e3o da Sa\u00fade do Trabalhador Estadual, a Agrodefesa se prop\u00f4s articular com os propriet\u00e1rios\/arrendat\u00e1rios sobre os limites para pulveriza\u00e7\u00e3o e os tipos de defensivos agr\u00edcolas apropriados para uso nas proximidades dessa popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Importante ressaltar que o munic\u00edpio de Santa Helena de Goi\u00e1s consta como priorit\u00e1rio para a implanta\u00e7\u00e3o e implementa\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es do VSPEA. At\u00e9 o final do ano de 2024, contava com a participa\u00e7\u00e3o atuante da coordena\u00e7\u00e3o da vigil\u00e2ncia sanit\u00e1ria. Entretanto, com a mudan\u00e7a de gest\u00e3o municipal houve a troca de coordenador e a interrup\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es. A VSPEA Estadual j\u00e1 retomou em janeiro de 2025 as tratativas com os gestores municipais explicando da necessidade da continuidade da implanta\u00e7\u00e3o do Programa no munic\u00edpio. A\u00e7\u00f5es de coleta de \u00e1gua para an\u00e1lises de agrot\u00f3xicos tamb\u00e9m foram realizadas nos anos anteriores e programadas para 2025 (mar\u00e7o\/2025) objetivando melhor monitoramento da qualidade da \u00e1gua.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Goiana de Defesa Agropecu\u00e1ria(Agrodefesa)<\/strong><\/p>\n<p>A Agrodefesa como \u00f3rg\u00e3o respons\u00e1vel pela defesa agropecu\u00e1ria no estado de Goi\u00e1s, tem como miss\u00e3o proteger a sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o contribuindo para a sustentabilidade sanit\u00e1ria, ambiental e econ\u00f4mica do agroneg\u00f3cio goiano.<\/p>\n<p>Nesse sentido, fiscais estaduais agropecu\u00e1rios\/ engenheiros(as) agr\u00f4nomos(as) atuam na a\u00e7\u00e3o educativa e fiscalizat\u00f3ria do cumprimento das medidas legislativas. No caso do fato em quest\u00e3o referente a intoxica\u00e7\u00e3o por agrot\u00f3xicos acarretados aos moradores do acampamento do MST Leonir Orback, situado no munic\u00edpio de Santa Helena de Goi\u00e1s, relatamos que:<\/p>\n<p>A Agrodefesa tem a compet\u00eancia de fiscalizar o uso correto e seguro de agrot\u00f3xicos, bem como a destina\u00e7\u00e3o final das embalagens vazias e seus res\u00edduos.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos, seja a\u00e9rea ou terrestre, existem crit\u00e9rios quanto ao distanciamento m\u00ednimo para aplica\u00e7\u00e3o, conforme as Leis Estaduais \u00ba 19423\/2016 e n\u00ba 20.025\/2018.<\/p>\n<p>Segundo relatos do fiscal respons\u00e1vel, o acampamento se encontra localizado numa regi\u00e3o agr\u00edcola h\u00e1 08 anos, onde existe um canavial h\u00e1 mais de 30 anos e o cultivo de diferentes culturas.<\/p>\n<p>Quanto a fiscaliza\u00e7\u00e3o direcionada da Agrodefesa no entorno do acampamento, ressaltamos que o fiscal tem acompanhado a vigil\u00e2ncia sanit\u00e1ria do munic\u00edpio, promovendo a\u00e7\u00f5es educativas na regi\u00e3o e fiscaliza\u00e7\u00e3o do cumprimento da legisla\u00e7\u00e3o, tendo em vista a proximidade do acampamento, praticamente dentro das \u00e1reas agr\u00edcolas, onde se utiliza medidas de controle qu\u00edmico para preven\u00e7\u00e3o e controle de pragas.<\/p>\n<p>Orientamos aos moradores, que no momento da aplica\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos no entorno do acampamento, notifiquem o fiscal da unidade do munic\u00edpio para apura\u00e7\u00e3o de poss\u00edveis irregularidades e ado\u00e7\u00e3o de medidas punitivas legais.<\/p>\n<p>Quanto ao fato j\u00e1 ocorrido, recomendamos que seja oficializado \u00e0 Agrodefesa para apura\u00e7\u00e3o e resposta formal da a\u00e7\u00e3o fiscal na regi\u00e3o.<\/p>\n<p><em>*A rep\u00f3rter viajou a Goi\u00e1s a convite da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado.<\/em><\/p>\n<\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/2025\/03\/14\/uma-comunidade-tenta-se-salvar-do-veneno\/\">Uma comunidade tenta se salvar do veneno<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/\">MST<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/independencias-fronteiras-coloniais-e-o-complexo-sistema-de-poder-regional-por-pedro-henrichs\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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