{"id":17464,"date":"2025-03-18T19:18:35","date_gmt":"2025-03-18T22:18:35","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/bolsonaro-em-copacabana-anatomia-de-um-semifracasso\/"},"modified":"2025-03-18T19:18:35","modified_gmt":"2025-03-18T22:18:35","slug":"bolsonaro-em-copacabana-anatomia-de-um-semifracasso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/bolsonaro-em-copacabana-anatomia-de-um-semifracasso\/","title":{"rendered":"Bolsonaro em Copacabana: anatomia de um (semi)fracasso"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"644\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/5103101668492422691-1024x644-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/5103101668492422691-1024x644-1.jpg 1024w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/5103101668492422691-300x189.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/5103101668492422691-768x483.jpg 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/5103101668492422691.jpg 1268w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><\/figure>\n<p>No dia 16 de mar\u00e7o de 2025, a extrema direita realizou mais um ato p\u00fablico em Copacabana, no Rio de Janeiro, reunindo milhares de manifestantes. A mobiliza\u00e7\u00e3o teve como prop\u00f3sito declarado pressionar pela anistia dos envolvidos nos ataques \u00e0s sedes dos Tr\u00eas Poderes, ocorridos em 8 de janeiro de 2023. O evento foi convocado com ampla mobiliza\u00e7\u00e3o da base bolsonarista e teve como eixo central discursos contra o governo Lula e o Supremo Tribunal Federal (STF), com ataques direcionados especialmente ao ministro Alexandre de Moraes.<\/p>\n<p>Os organizadores projetaram uma ades\u00e3o massiva, estimando a presen\u00e7a de 100 mil pessoas no evento. No entanto, a contagem realizada pelo Monitor do Debate Pol\u00edtico no Meio Digital, vinculado \u00e0 USP, apontou que, no pico da manifesta\u00e7\u00e3o, havia 18,3 mil participantes<sup><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/direita-assanhada\/bolsonaro-em-copacabana-anatomia-de-um-semifracasso\/#sdfootnote1sym\"><sup>1<\/sup><\/a><\/sup>. Esse n\u00famero ficou bem abaixo de eventos anteriores, como os atos de 7 de setembro de 2022, sugerindo uma redu\u00e7\u00e3o na capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o do bolsonarismo ap\u00f3s a derrota eleitoral e o avan\u00e7o das investiga\u00e7\u00f5es judiciais contra seus principais l\u00edderes.<\/p>\n<p>No entanto, se o n\u00famero de participantes pode ensejar uma apar\u00eancia de fragiliza\u00e7\u00e3o do campo, em termos pol\u00edticos o ato obteve resultados interessantes, interditando qualquer narrativa de fracasso que nos leve a crer que a extrema direita est\u00e1 fragilizada. At\u00e9 porque, em virtude dos processos de altera\u00e7\u00e3o na din\u00e2mica de forma\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica, cada vez mais fragmentada, o principal prop\u00f3sito desse tipo de ato \u00e9 produzir material para as redes sociais. Nesse material, os cortes produzidos mostram uma Copacabana lotada de pessoas de verde-amarelo.<\/p>\n<p>O segundo prop\u00f3sito do evento foi mostrar a for\u00e7a de Jair Bolsonaro e sua capacidade de mobilizar pol\u00edticos que se mant\u00e9m sob sua lideran\u00e7a. A lista de presentes evidencia isto. Foram quatro governadores de tr\u00eas partidos diferentes, Cl\u00e1udio Castro (PL-RJ), Tarc\u00edsio de Freitas (Republicanos-SP), Jorginho Mello (PL-SC) e Mauro Mendes (Uni\u00e3o Brasil-MT), dois deles representam os maiores estados em termos eleitorais e econ\u00f4micos, com especial destaque para o governador de S\u00e3o Paulo, tido como principal alternativa a Bolsonaro que demonstrou rever\u00eancia e submiss\u00e3o ao l\u00edder em sua fala.<\/p>\n<p>O poder Legislativo tamb\u00e9m esteve representado por parlamentares do Partido Liberal como Fl\u00e1vio Bolsonaro, Magno Malta, Nikolas Ferreira, S\u00f3stenes Cavalcante, o deputado federal Maur\u00edcio do V\u00f4lei e o deputado estadual Bruno Engler. Tamb\u00e9m esteve presente o deputado federal Rodrigo Valadares (Uni\u00e3o-SE), relator do PL da anistia.<\/p>\n<p>No tocante \u00e0 sociedade civil, destaca-se o protagonismo da maior lideran\u00e7a religiosa do pa\u00eds, o pastor Silas Malafaia, que teve papel central na organiza\u00e7\u00e3o e na condu\u00e7\u00e3o dos discursos.<\/p>\n<p>A manifesta\u00e7\u00e3o ocorreu \u00e0s v\u00e9speras do julgamento no STF sobre uma den\u00fancia da Procuradoria-Geral da Rep\u00fablica (PGR), que pode tornar Bolsonaro r\u00e9u em um processo de tentativa de golpe de Estado. Esse contexto ajudou a moldar os discursos do ato, nos quais a anistia foi defendida como uma necessidade para a \u201cpacifica\u00e7\u00e3o do pa\u00eds\u201d, ao mesmo tempo em que cr\u00edticas severas eram dirigidas ao STF e ao governo Lula.<\/p>\n<p>O evento revelou diferentes posturas entre seus principais l\u00edderes: enquanto figuras como Malafaia e Fl\u00e1vio Bolsonaro usaram tons mais agressivos contra Alexandre de Moraes, governadores como Tarc\u00edsio adotaram um discurso mais moderado, sugerindo a necessidade de revisar eventuais \u201cexcessos\u201d na puni\u00e7\u00e3o dos condenados.<\/p>\n<p>O montante num\u00e9rico da manifesta\u00e7\u00e3o em termos de p\u00fablico n\u00e3o significa, no entanto, que sua pauta tenha sido esvaziada. O foco do bolsonarismo desloca-se progressivamente das ruas para as institui\u00e7\u00f5es, com tentativas de articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no Congresso Nacional em torno do projeto de anistia, enquanto Bolsonaro e seus aliados preparam-se para os pr\u00f3ximos desafios jur\u00eddicos e eleitorais.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da dimens\u00e3o institucional, a extrema direita tamb\u00e9m investe na ressignifica\u00e7\u00e3o de conceitos historicamente associados \u00e0 esquerda. Isso ocorre em populismos de direita ao redor do mundo, mas no Brasil ganha contornos espec\u00edficos em virtude do retorno dos debates sobre <em>anistia<\/em>. Esse retorno \u00e9 produto da recupera\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio da ditadura militar e seus desdobramentos, enquanto n\u00facleo discursivo das performances de Jair Bolsonaro, ao longo de seus sete mandatos consecutivos como deputado federal<sup><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/direita-assanhada\/bolsonaro-em-copacabana-anatomia-de-um-semifracasso\/#sdfootnote2sym\"><sup>2<\/sup><\/a><\/sup>. No entanto, a apropria\u00e7\u00e3o de <em>significantes<\/em> discursivos caros \u00e0 esquerda vai al\u00e9m da ideia de anistia, abarcando tamb\u00e9m conceitos como liberdade de express\u00e3o, censura e tortura, como veremos ao analisar as falas de alguns dos presentes na manifesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h3><strong>Tarc\u00edsio e o paradoxo entre modera\u00e7\u00e3o e extremismo<\/strong><\/h3>\n<p>O governador de S\u00e3o Paulo, Tarc\u00edsio de Freitas vem desempenhando um papel dif\u00edcil na cena da extrema direita brasileira: o de l\u00edder moderado. A dificuldade vem do fato de que modera\u00e7\u00e3o e extremismo s\u00e3o termos antit\u00e9ticos.<\/p>\n<p>O recurso utilizado para performar dessa maneira \u00e9 fazer sinaliza\u00e7\u00f5es distintas ao longo de seus discursos. Ora acena ao mercado, indicando que o governo atual \u00e9 irrespons\u00e1vel pois \u201cgasta mais do que arrecada\u201d. Ora ataca a institucionalidade liberal, vociferando contra o Supremo Tribunal Federal. A despeito destas modula\u00e7\u00f5es, o personagem aposta mais em um perfil de eleitor lavajatista do que bolsonarista, por\u00e9m entende que n\u00e3o pode abrir m\u00e3o de nenhum dos segmentos caso tenha pretens\u00f5es de governar o pa\u00eds. Sugerindo que os acusados do 8 de janeiro seriam menos criminosos por n\u00e3o estarem envolvidos em corrup\u00e7\u00e3o, o governador acenou a esse p\u00fablico que tamb\u00e9m se encontrou representado pelo bord\u00e3o lavajatista vociferado pelo senador Fl\u00e1vio Bolsonaro: <em>Lula ladr\u00e3o, seu lugar \u00e9 na pris\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p>O discurso de Tarc\u00edsio, todavia, foi marcado por uma inflex\u00e3o econ\u00f4mica, na chave de um segundo bord\u00e3o, este mais recente e de marca\u00e7\u00e3o bolsonarista: <em>t\u00e1 tudo caro, volta Bolsonaro<\/em>. Sobre esta virada discursiva da extrema direita para o \u00e2mbito econ\u00f4mico, talvez seja poss\u00edvel encar\u00e1-la com otimismo, na medida em que, esse \u00e9 um tema no qual o campo progressista consegue navegar com seus n\u00fameros, fatos e explica\u00e7\u00f5es oriundas de uma racionalidade instrumental, cada vez mais amea\u00e7ada por uma pol\u00edtica que tem passado por um processo de desseculariza\u00e7\u00e3o. Como fica n\u00edtido na proemin\u00eancia de outros dois protagonistas do ato em copacabana: Silas Malafaia e Nikolas Ferreira.<\/p>\n<h3>\u201c<strong>Esse pa\u00eds n\u00e3o \u00e9 da esquerda, \u00e9 das pessoas de verde e amarelo\u201d.<\/strong><\/h3>\n<p>O pastor Silas Malafaia ocupa um papel estrat\u00e9gico dentro do bolsonarismo, n\u00e3o apenas como l\u00edder religioso, mas como articulador pol\u00edtico de grande influ\u00eancia sobre a base evang\u00e9lica. Malafaia \u00e9 presidente da Assembleia de Deus Vit\u00f3ria em Cristo e h\u00e1 d\u00e9cadas construiu uma carreira como televangelista, empres\u00e1rio do setor religioso e influenciador de massas dentro do meio religioso.<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio do governo Bolsonaro, Malafaia se tornou um dos principais aliados do ex-presidente, operando como um elo entre o bolsonarismo e o eleitorado religioso. Sua atua\u00e7\u00e3o extrapola o p\u00falpito. O pastor utiliza sua rede de comunica\u00e7\u00e3o para disseminar discursos contra o STF, a esquerda e a \u201camea\u00e7a do globalismo\u201d, estruturando uma narrativa de resist\u00eancia crist\u00e3 diante do que chama de \u201cpersegui\u00e7\u00e3o ao povo de Deus\u201d.<\/p>\n<p>No ato de 16 de mar\u00e7o, Malafaia esteve no centro da organiza\u00e7\u00e3o e da condu\u00e7\u00e3o dos discursos. Ele elevou o tom contra o ministro Alexandre de Moraes, chamando-o de \u201ccriminoso e ditador\u201d, e buscou mobilizar a indigna\u00e7\u00e3o da base evang\u00e9lica contra o Judici\u00e1rio, argumentando que os condenados de 8 de janeiro est\u00e3o sendo perseguidos por sua f\u00e9 e patriotismo. Sua participa\u00e7\u00e3o no evento refor\u00e7ou seu papel como um dos principais articuladores da frente religiosa do bolsonarismo, mantendo seu discurso alinhado com a tese de que h\u00e1 uma \u201cguerra cultural\u201d em curso no Brasil, na qual a religi\u00e3o deve desempenhar um papel fundamental.<\/p>\n<p>Nikolas Ferreira consolidou-se como uma das figuras mais expressivas da nova gera\u00e7\u00e3o bolsonarista, combinando ret\u00f3rica agressiva, forte presen\u00e7a digital e um discurso alinhado \u00e0s pautas conservadoras. Nascido em Belo Horizonte, foi criado naComunidade Evang\u00e9lica Gra\u00e7a e Paz, onde seu pai atua como pastor presidente do minist\u00e9rio. Com apenas 26 anos, conquistou 1,47 milh\u00e3o de votos, sendo o terceiro deputado mais votado da hist\u00f3ria da Nova Rep\u00fablica, atr\u00e1s dos deputados <a href=\"https:\/\/www.camara.leg.br\/deputados\/92346\">Eduardo Bolsonaro (PL-SP)<\/a>, com 1,84 milh\u00e3o de votos, em 2018, e En\u00e9as Carneiro, que em 2002 conquistou 1,57 milh\u00e3o de votos. Esse ranking ilustra a capilaridade da extrema direita no pa\u00eds e a import\u00e2ncia de que seu discurso seja analisado e respeitado por aqueles que desejam ser seus advers\u00e1rios pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Voltando a Copacabana, Nikolas fez uma fala fortemente emotiva e conduziu o discurso para a humaniza\u00e7\u00e3o dos acusados, chamando aten\u00e7\u00e3o para suas trajet\u00f3rias de vida e para o impacto das pris\u00f5es sobre suas fam\u00edlias. Este tom emotivo tamb\u00e9m esteve presente na fala de Bolsonaro, que se concentrou nas mulheres presas, em uma fala voltada para atrair o segmento feminino do eleitorado, no qual a extrema direita tende a ter menor penetra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nikolas demarcou o apoio de uma das principais autoridades institucionais do pa\u00eds ao pleito da anistia, mencionando que o presidente da C\u00e2mara dos Deputados, Hugo Motta, recebeu o pai de um dos presos pela tentativa de golpe. Acredito, entretanto, que dois elementos da fala de Nikolas mere\u00e7am destaque pois s\u00e3o representativos do discurso de seu campo pol\u00edtico. O primeiro \u00e9 o ataque ao Supremo Tribunal Federal, que foi o mote central da fala de Malafaia, que se orientou para questionar diferentes aspectos da den\u00fancia, usando um l\u00e9xico proped\u00eautico, enumerando supostas inconsist\u00eancias na den\u00fancia.<\/p>\n<p>Nikolas, contudo, demarcou algo que n\u00e3o se faz usualmente presente nessas falas, mas que \u00e9 ilustrativo daquilo que subjaz a contenda, afirmando que o ministro Alexandre de Moraes n\u00e3o recebeu nenhum voto. Essa acusa\u00e7\u00e3o \u00e9 interessante pois aponta para a pr\u00f3pria fun\u00e7\u00e3o da Corte suprema, agir para garantir a Constitui\u00e7\u00e3o, em face de ataques por parte de for\u00e7as pol\u00edticas capazes de amea\u00e7\u00e1-la exatamente por estarem amparadas em apoio popular. \u00c9 isso que o Supremo faz ao indicar que uma determinada lei, proposta por um parlamentar eleito e muitas vezes apoiada por in\u00fameros cidad\u00e3os, \u00e9 inconstitucional, ao violar direitos civis, por exemplo. A Corte \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o <em>contramajorit\u00e1ria, <\/em>cujos membros possuem mandatos n\u00e3o eletivos e vital\u00edcios, exatamente para n\u00e3o estarem sujeitos a press\u00f5es populares. O princ\u00edpio subjacente \u00e9 que a opini\u00e3o p\u00fablica \u00e9 vol\u00e1til e, por vezes, pode se voltar contra direitos de minorias e garantias constitucionais.<\/p>\n<p>O segundo ponto ilustrativo da fala de Nikolas tamb\u00e9m gira em torno dessa din\u00e2mica majorit\u00e1ria, isto \u00e9, da soberania popular, quando ele questiona quem \u00e9 o <em>povo<\/em>, isto \u00e9, \u201cde quem \u00e9 o Brasil?\u201d. Isto \u00e9 feito quando ele afirma que este pa\u00eds n\u00e3o \u00e9 do STF, nem da esquerda, mas de pessoas de verde-amarelo, dos cidad\u00e3os de bem.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o ponto central do momento em que vivemos, um questionamento acerca da identidade do povo brasileiro, outrora associada aos pobres, aos marginalizados, aos exclu\u00eddos. Agora ela \u00e9 disputada pela massa embranquecida que se identifica como classe m\u00e9dia, como empreendedora, batalhadora e vitoriosa, n\u00e3o como oprimida pelos patr\u00f5es, mas como parte do patronato.<\/p>\n<h3><strong>Nosso governo fez o seu trabalho.<\/strong><\/h3>\n<p>A estrela da manifesta\u00e7\u00e3o, Jair Bolsonaro, fez uma fala que amarrou os diferentes eixos do discurso da extrema direita brasileira, ao mesmo tempo em que refor\u00e7ou sua inser\u00e7\u00e3o internacional. Subiu ao palanque ao lado de uma bandeira dos Estados Unidos e de um cartaz com uma foto de Donald Trump, de punho em riste, no qual estava escrito: <em>FIGHT, FIGHT, FIGHT!<\/em>. O p\u00fablico gritava: mito, mito, mito.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou o discurso em tom choroso, falando dos inocentes, primeiro elencando as mulheres, para, em seguida, falar de quem importa: ele mesmo. Se disse perseguido por uma acusa\u00e7\u00e3o absurda relativa \u00e0 reuni\u00e3o com embaixadores e por ter subido em um carro de som com Silas Malafaia. Negou qualquer tentativa de golpe, com uma alega\u00e7\u00e3o interessante, dizendo que havia se encontrado com um representante do Mossad, a ag\u00eancia de intelig\u00eancia de Israel, que lhe confirmou que n\u00e3o houve golpe, pois, caso tivesse havido o Mossad teria sido avisado.<\/p>\n<p>Sabendo que o absurdo sozinho n\u00e3o ganha elei\u00e7\u00e3o, a fala refor\u00e7a os v\u00ednculos internacionais da extrema direita, para os quais o Israel \u00e9 um s\u00edmbolo, ao mesmo tempo em que acena aos evang\u00e9licos que se sentem contemplados pela alus\u00e3o \u00e0 terra de Jav\u00e9.<\/p>\n<p>Questionou a den\u00fancia da PGR e a acusa\u00e7\u00e3o de golpe com um argumento que demonstra as consequ\u00eancias nocivas da din\u00e2mica de insulamento comunicativo que est\u00e1 na raiz da extrema-direita, cujo relacionamento com seus apoiadores \u00e9 constru\u00eddo a partir de canais de comunica\u00e7\u00e3o diretos, seja pelo Whatsapp seja atrav\u00e9s de formadores de opini\u00e3o voltados \u00e0 dissemina\u00e7\u00e3o do discurso produzido pelos l\u00edderes. <em>Se nosso governo fez seu trabalho, por que n\u00e3o fui reeleito? Se o agro estava fechado conosco, se os crist\u00e3os estavam fechados conosco, se n\u00f3s aumentamos o Bolsa-Fam\u00edlia, por que perdemos a elei\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>A resposta, ensejada pelo discurso do presidente, \u00e9 a mesma que j\u00e1 antecipada na tal reuni\u00e3o com embaixadores, por ele mencionada: fraude nas urnas.<\/p>\n<p>O ataque \u00e0s institui\u00e7\u00f5es eleitorais e ao Supremo s\u00e3o a t\u00f4nica de seu discurso e isso se mant\u00e9m consistentemente em todas as manifesta\u00e7\u00f5es realizadas pela extrema direita at\u00e9 agora. Esses ataques seguem o <em>script<\/em> internacional, um l\u00edder que se afirma o representante do povo em detrimento das media\u00e7\u00f5es que fazem parte do sistema liberal-democr\u00e1tico: a m\u00eddia, os Poderes Constitu\u00eddos, os processos eleitorais etc. No Brasil, entretanto, esse <em>script<\/em> ganha refer\u00eancias pr\u00f3prias em virtude da nossa hist\u00f3ria recente: a ditadura e uma hist\u00f3ria pol\u00edtica marcada pelo envolvimento dos militares, que tamb\u00e9m se veem como portadores de um <em>interesse nacional<\/em> n\u00e3o captado pelas estruturas da representa\u00e7\u00e3o e pelos Poderes constitu\u00eddos.<\/p>\n<p>O interessante \u00e9 observar como, em um momento no qual esse envolvimento volta a ser questionado, em que o pa\u00eds volta a demandar a investiga\u00e7\u00e3o dos crimes cometidos pelos militares, o tema da anistia torna-se a principal bandeira da extrema direita. A mesma anistia que permitiu que estes crimes permanecessem sem puni\u00e7\u00e3o, mantendo-os seus executores na ativa, reproduzindo um discurso de nega\u00e7\u00e3o das atrocidades cometidas. Uma anistia que impediu um processo de reflex\u00e3o e responsabiliza\u00e7\u00e3o, no qual as fronteiras entre democracia e ditadura ficassem n\u00edtidas. O bolsonarismo \u00e9 um produto desta anistia e a tentativa de golpe, em janeiro de 2023, \u00e9 o seu curso natural. Ou interrompemos este curso, ou ele se completar\u00e1 por meio da implos\u00e3o destas fronteiras em um futuro pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma fun\u00e7\u00e3o que precisa ser desempenhada pelas institui\u00e7\u00f5es liberais, em particular, a m\u00eddia e o Judici\u00e1rio, que devem ser palco de um profundo processo de reflex\u00e3o sobre a ditadura, sobre a censura e outros componentes do autoritarismo, engendrando processos de entendimento sobre a import\u00e2ncia das garantias democr\u00e1ticas. O Executivo, todavia, deve desempenhar outra fun\u00e7\u00e3o, como alerta o pr\u00f3prio Bolsonaro, ao afirmar que a defesa da democracia \u00e9 o \u00fanico programa do governo. Sua tarefa \u00e9 ter um programa e produzir um discurso que traduza em a\u00e7\u00f5es concretas os ideais de igualdade e liberdade, amea\u00e7ados pelo projeto patriarcal e excludente da extrema-direita.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/direita-assanhada\/bolsonaro-em-copacabana-anatomia-de-um-semifracasso\/#sdfootnote1anc\">1<\/a> Depois de anos sem realizar este tipo de c\u00e1lculo, a pol\u00edcia militar do Rio de Janeiro se prestou ao lament\u00e1vel papel de divulgar uma estimativa de p\u00fablico de 400 mil pessoas, demonstrando uma perigosa ades\u00e3o a um projeto pol\u00edtico por parte de uma entidade que, por sua natureza, deve se manter imparcial.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/direita-assanhada\/bolsonaro-em-copacabana-anatomia-de-um-semifracasso\/#sdfootnote2anc\">2<\/a> O Laborat\u00f3rio de Partidos Elei\u00e7\u00f5es e Pol\u00edtica Comparada da UFRJ (LAPPCOM) se dedica a sistematizar e analisar os discursos de Jair Bolsonaro ao longo de sua trajet\u00f3ria legislativa e do per\u00edodo na Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. Acerca do primeiro per\u00edodo, temos dois <em>papers<\/em> publicados e dispon\u00edveis online: Da diferen\u00e7a \u00e0 equival\u00eancia: hip\u00f3teses laclaunianas sobre a trajet\u00f3ria legislativa de Jair Bolsonaro. <a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/dados\/a\/PD35TLXnCHDWr5LZ53hv3Vq\/\">https:\/\/www.scielo.br\/j\/dados\/a\/PD35TLXnCHDWr5LZ53hv3Vq\/<\/a><\/p>\n<p>Nomea\u00e7\u00e3o, significa\u00e7\u00e3o e representa\u00e7\u00e3o: uma abordagem p\u00f3s-fundacionalista para a g\u00eanese do bolsonarismo. <a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/rsocp\/a\/dYv4tSckxJHfmmNDpD3Nm5G\/\">https:\/\/www.scielo.br\/j\/rsocp\/a\/dYv4tSckxJHfmmNDpD3Nm5G\/<\/a><\/p>\n<p>Sobre o segundo per\u00edodo, estamos finalizando uma pesquisa que sistematiza todas as postagens realizadas por Jair Bolsonaro em seus perfis no Instagram, Facebook e Twitter.<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/direita-assanhada\/bolsonaro-em-copacabana-anatomia-de-um-semifracasso\/\">Bolsonaro em Copacabana: anatomia de um (semi)fracasso<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/em-honduras-rixi-moncada-pede-unidade-do-povo-e-denuncia-intimidacao-dos-eua\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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