{"id":17657,"date":"2025-03-19T15:40:38","date_gmt":"2025-03-19T18:40:38","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/cruz-e-sousa-o-genio-maximo-do-simbolismo-brasileiro\/"},"modified":"2025-03-19T15:40:38","modified_gmt":"2025-03-19T18:40:38","slug":"cruz-e-sousa-o-genio-maximo-do-simbolismo-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/cruz-e-sousa-o-genio-maximo-do-simbolismo-brasileiro\/","title":{"rendered":"Cruz e Sousa, o g\u00eanio m\u00e1ximo do simbolismo brasileiro"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 127 anos, em 19 de mar\u00e7o de 1898, falecia o poeta catarinense Cruz e Sousa. Ele morreu aos 36 anos de idade, vitimado pela tuberculose. Malgrado sua vida curta e atribulada, Cruz e Sousa tornou-se o principal expoente do simbolismo no Brasil, dando enorme contribui\u00e7\u00e3o para as inova\u00e7\u00f5es estil\u00edsticas no uso po\u00e9tico da l\u00edngua portuguesa, aliando o lirismo imag\u00edstico ao uso primoroso da alitera\u00e7\u00e3o, da met\u00e1fora e da sinestesia.<\/p>\n<p>Cruz e Sousa foi um dos primeiros autores negros a ingressar nos c\u00e2nones liter\u00e1rios nacionais, produzindo obras de grande originalidade libert\u00e1ria, abrangendo sobretudo o misticismo e a ang\u00fastia existencial. Ele tamb\u00e9m teve importante atua\u00e7\u00e3o como jornalista e foi um aguerrido militante da causa abolicionista.<\/p>\n<h3>A juventude de Cruz e Sousa<\/h3>\n<p>Jo\u00e3o da Cruz e Sousa nasceu em 24 de novembro de 1861, em Nossa Senhora do Desterro (atual Florian\u00f3polis), filho do pedreiro Guilherme da Cruz e da lavadeira Carolina Eva da Concei\u00e7\u00e3o, ambos escravizados alforriados que trabalhavam para marechal Guilherme Xavier de Sousa.<\/p>\n<p>Impossibilitada de ter filhos, a esposa do marechal, Clarinda Fagundes, afei\u00e7oou-se ao menino, assumindo sua tutela e encarregando-se de custear sua educa\u00e7\u00e3o. Aos nove anos de idade, Cruz e Sousa j\u00e1 compunha e recitava poemas.<\/p>\n<p>Entre 1871 e 1875, o jovem estudou no Ateneu Provincial Catarinense, onde cursou franc\u00eas, ingl\u00eas, latim, grego, matem\u00e1tica e ci\u00eancias naturais. Nessa institui\u00e7\u00e3o, ele foi aluno do naturalista alem\u00e3o Fritz M\u00fcller, um dos principais colaboradores de Charles Darwin.<\/p>\n<p>Em uma carta enviada ao seu irm\u00e3o em 1876, M\u00fcller elogiou efusivamente a intelig\u00eancia de Cruz e Sousa, apontando-o como uma evid\u00eancia que contrariava as teorias racistas sobre a alegada superioridade intelectual ing\u00eanita dos brancos.<\/p>\n<p>Com a morte do marechal, as condi\u00e7\u00f5es de vida de Cruz e Sousa tornaram-se mais dif\u00edceis. Ap\u00f3s concluir os estudos no Ateneu, ele se dedicou ao magist\u00e9rio e publicou alguns poemas nos jornais da prov\u00edncia. Em 1881, em parceria com Virg\u00edlio V\u00e1rzea e Manuel dos Santos Lostada, fundou o jornal liter\u00e1rio \u201c<em>Colombo<\/em>\u201c, perfilado ao parnasianismo.<\/p>\n<h3>Jornalista e militante abolicionista<\/h3>\n<p>Nesse mesmo ano, Cruz e Sousa come\u00e7ou a trabalhar como secret\u00e1rio na Companhia Dram\u00e1tica Julieta dos Santos, com a qual realizou um p\u00e9riplo pelo Brasil, viajando do Amazonas ao Rio Grande do Sul. A experi\u00eancia lhe propiciou um contato ainda mais intenso com o flagelo da escravid\u00e3o, impelindo-o \u00e0 defesa vocal da causa abolicionista.<\/p>\n<p>Ao longo de tr\u00eas anos, Cruz e Sousa uma s\u00e9rie de confer\u00eancias sediadas nas capitais brasileiras, defendendo o fim da escravid\u00e3o. Tamb\u00e9m tomou parte da campanha antiescravagista promovida pela sociedade carnavalesca \u201cDiabo a Quatro\u201d.<\/p>\n<p>O ideal antiescravagista norteou a atua\u00e7\u00e3o de Cruz e Sousa no jornalismo. Escreveu para a \u201c<em>Tribuna Popular<\/em>\u201c, um dos mais importantes di\u00e1rios catarinenses, ajudando a consolidar sua linha editorial republicana e abolicionista. Tamb\u00e9m dirigiu o seman\u00e1rio ilustrado \u201c<em>O Moleque<\/em>\u201c, imprimindo um forte vi\u00e9s de cr\u00edtica pol\u00edtica e social, causando grande desconforto nos c\u00edrculos abastados da prov\u00edncia.<\/p>\n<figure aria-describedby=\"caption-attachment-214324\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/cruz_e_sousa_02.jpg\" alt=\"\" width=\"785\" height=\"900\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/cruz_e_sousa_02.jpg 785w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/cruz_e_sousa_02-262x300.jpg 262w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/cruz_e_sousa_02-768x881.jpg 768w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/cruz_e_sousa_02-750x860.jpg 750w\" sizes=\"auto, (max-width: 785px) 100vw, 785px\"><figcaption>Wikimedia Commons\/NSC Total <br \/>O poeta Cruz e Sousa, retratado por volta de 1898<\/figcaption><\/figure>\n<p>A oposi\u00e7\u00e3o que sofria dos setores mais reacion\u00e1rios era enormemente intensificada pelo preconceito racial. Em 1883, o escritor foi nomeado promotor de Laguna, mas foi impedido de assumir o cargo devido \u00e0 rea\u00e7\u00e3o truculenta dos chefes pol\u00edticos locais, indignados com a possibilidade de um negro assumir a fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Apesar do ambiente de discrimina\u00e7\u00e3o, Cruz e Sousa tornou-se um dos mais destacados intelectuais catarinenses. Interessou-se por autores como Charles Baudelaire, Leconte de Lisle, Giacomo Leopardi, Guerra Junqueiro e Antero de Quental e ajudou a fundar o grupo \u201cIdeia Nova\u201d, que se dedicou a difundir o conhecimento sobre as vanguardas liter\u00e1rias europeias.<\/p>\n<h3>A carreira liter\u00e1ria<\/h3>\n<p>Em 1885, Cruz e Sousa publicou, em conjunto com Virg\u00edlio V\u00e1rzea, seu primeiro livro \u2014 \u201c<em>Tropos e Fantasias<\/em>\u201c, uma colet\u00e2nea de poemas em prosa. Ainda imbu\u00edda de influxo naturalista, a obra anteciparia diversas caracter\u00edsticas que se fariam presentes na sua produ\u00e7\u00e3o posterior, incluindo o vocabul\u00e1rio requintado, o gosto pelo experimentalismo e a import\u00e2ncia conferida ao ritmo.<\/p>\n<p>Tr\u00eas anos depois, aceitando o convite de Oscar Rosas, Cruz e Sousa viajou ao Rio de Janeiro, em busca de um ambiente menos hostil e mais prop\u00edcio ao of\u00edcio de escritor. Na antiga capital, ele conheceu Lu\u00eds Delfino e fez amizade com Nestor V\u00edtor, que se tornaria importante divulgador de sua obra. Permaneceu na cidade por oito meses, mas viu-se obrigado a retornar a Desterro por n\u00e3o conseguir emprego.<\/p>\n<p>Em 1890, Cruz e Sousa instalou definitivamente no Rio de Janeiro, onde passou a trabalhar como arquivista da Central do Brasil. Colaborou com diversos peri\u00f3dicos, incluindo as revistas \u201c<em>Ilustrada<\/em>\u201d e \u201c<em>Novidades<\/em>\u201c. No ano seguinte, publicou nos jornais \u201c<em>Folha Popular<\/em>\u201d e \u201c<em>O Tempo<\/em>\u201d os primeiros artigos-manifestos do simbolismo, assumindo o papel de principal difusor da est\u00e9tica simbolista-decadentista.<\/p>\n<p>Em 1893, Cruz e Sousa publicou os livros \u201c<em>Missal<\/em>\u201d (sob influ\u00eancia da prosa baudelairiana) e \u201c<em>Broqu\u00e9is<\/em>\u201d (coligindo poemas em verso), que se tornariam marcos da literatura nacional e o consagrariam como maior representante do simbolismo no Brasil.<\/p>\n<p>Inovadoras, as obras combinavam caracter\u00edsticas simbolistas, como a preocupa\u00e7\u00e3o com a musicalidade e a tem\u00e1tica metaf\u00f3rica e transcendental, com tra\u00e7os parnasianos, sobretudo o preciosismo sint\u00e1tico e a sofistica\u00e7\u00e3o lexical.<\/p>\n<p>A despeito da qualidade liter\u00e1ria de suas obras, Cruz e Sousa n\u00e3o conheceria o sucesso em vida. O escritor seguiria produzindo poemas de inspira\u00e7\u00e3o simbolista, abandonando progressivamente o formalismo est\u00e9tico em favor da express\u00e3o po\u00e9tica e da musicalidade, versando sobre temas como o misticismo, o individualismo, os estados da alma, a noite e o mist\u00e9rio.<\/p>\n<h3>Os \u00faltimos anos<\/h3>\n<p>Ainda em 1893, Cruz e Sousa se casou com Gavita Rosa Gon\u00e7alves, tamb\u00e9m descendente de escravizados. O matrim\u00f4nio gerou quatro filhos: Raul, Guilherme, Reinaldo e Jo\u00e3o. Dependendo de empregos mal remunerados, a fam\u00edlia teve de lidar com severas priva\u00e7\u00f5es financeiras.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o se agravaria a partir de 1894, quando Cruz e Sousa contraiu tuberculose em fun\u00e7\u00e3o das p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de trabalho na Central do Brasil. Gavita, por sua vez, desenvolveu graves dist\u00farbios mentais ap\u00f3s o nascimento do segundo filho.<\/p>\n<p>A discrimina\u00e7\u00e3o racial, a pobreza, a melancolia, a morte e a indigna\u00e7\u00e3o seriam temas presentes nos \u00faltimos poemas de Cruz e Sousa. Em \u201c<em>Emparedado<\/em>\u201c, o escritor expressa sua \u201ccompleta, l\u00f3gica e inevit\u00e1vel revolta\u201d com os obst\u00e1culos interpostos por uma sociedade racista, cruel e injusta, descritos como uma \u201cparede horrendamente incomensur\u00e1vel de ego\u00edsmos e preconceitos\u201d.<\/p>\n<p>Em 1897, o escritor concluiu o livro de prosa po\u00e9tica \u201c<em>Evoca\u00e7\u00f5es<\/em>\u201c, mas o agravamento da doen\u00e7a o impediu de publicar a obra. Cruz e Sousa se mudou para Curral Novo, em Minas Gerais, na esperan\u00e7a de que as condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas mais favor\u00e1veis ajudassem em sua recupera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A tentativa foi em v\u00e3o. Cruz e Sousa faleceria em 19 de mar\u00e7o de 1898, com apenas 36 anos de idade. Sua fam\u00edlia teve a mesma sina. Todos os quatro filhos morreram de tuberculose antes de atingirem a maioridade. Testemunhando o destino tr\u00e1gico dos filhos, Gavita enlouqueceu e, em 1901, tamb\u00e9m sucumbiu \u00e0 mol\u00e9stia.<\/p>\n<h3>A consagra\u00e7\u00e3o ap\u00f3s a morte<\/h3>\n<p>Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio arcou com as despesas do funeral do escritor, sepultado no Cemit\u00e9rio S\u00e3o Francisco Xavier, no Rio de Janeiro. Seus escritos foram reunidos por amigos e postumamente publicados: \u201c<em>Evoca\u00e7\u00f5es<\/em>\u201c, lan\u00e7ado no ano de sua morte, \u201c<em>Far\u00f3is<\/em>\u201c, publicado dois anos depois, e \u201c<em>\u00daltimos Sonetos<\/em>\u201c, lan\u00e7ado em 1905.<\/p>\n<p>Tr\u00eas colet\u00e2neas contendo alguns poemas in\u00e9ditos de Cruz e Sousa foram lan\u00e7adas em 1961, por ocasi\u00e3o do centen\u00e1rio de nascimento do autor: \u201c<em>Outras Evoca\u00e7\u00f5es<\/em>\u201c, \u201c<em>O Livro Derradeiro<\/em>\u201d e \u201c<em>Dispersos<\/em>\u201c.<\/p>\n<p>Todas essas obras transparecem o que Ivone Dar\u00e9 Rabello chamou de \u201crespostas l\u00edricas do exclu\u00eddo\u201d \u2014 poemas que sintetizam os dilemas e os infort\u00fanios advindos do jugo de uma sociedade escravocrata que jamais o aceitou. Como observou Ronald de Carvalho, \u201cn\u00e3o h\u00e1 quase um verso seu em que n\u00e3o haja um grito contra a opress\u00e3o do ambiente que o cercava\u201d.<\/p>\n<p>Em 2007, os restos mortais do escritor foram trasladados para Florian\u00f3polis e depositados no Pal\u00e1cio Cruz e Sousa, antiga sede do governo catarinense. Ele \u00e9 o patrono da cadeira n\u00ba. 15 da Academia Catarinense de Letras.<\/p>\n<p>Por seu extraordin\u00e1rio talento liter\u00e1rio e enormes contribui\u00e7\u00f5es para a cultura brasileira, Cruz e Sousa recebeu a alcunha de \u201cDante Negro\u201d. \u00c9 considerado por muitos cr\u00edticos como o maior poeta brasileiro do s\u00e9culo XIX e frequentemente listado como um dos maiores nomes do simbolismo, ao lado de St\u00e9phane Mallarm\u00e9 e Stefan George.<\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/operamundi.uol.com.br\/pensar-a-historia\/cruz-e-sousa-o-genio-maximo-do-simbolismo-brasileiro\/\">Cruz e Sousa, o g\u00eanio m\u00e1ximo do simbolismo brasileiro<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/operamundi.uol.com.br\/\">Opera Mundi<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/onu-define-escravizacao-de-africanos-como-o-mais-grave-crime-contra-a-humanidade\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/votacao_onu-2-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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