{"id":18277,"date":"2025-03-24T20:27:34","date_gmt":"2025-03-24T23:27:34","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/europa-em-guerra-aposta-insana\/"},"modified":"2025-03-24T20:27:34","modified_gmt":"2025-03-24T23:27:34","slug":"europa-em-guerra-aposta-insana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/europa-em-guerra-aposta-insana\/","title":{"rendered":"Europa em guerra: aposta insana"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"994\" height=\"548\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/MilitaresB.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/MilitaresB.jpg 994w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/MilitaresB-300x166.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/MilitaresB-768x423.jpg 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/MilitaresB-700x387.jpg 700w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/MilitaresB-219x121.jpg 219w\" sizes=\"(max-width: 994px) 100vw, 994px\"><\/figure>\n<p>Por <strong>Michael Roberts<\/strong>, no <em>The Next Recession blog <\/em>| Tradu\u00e7\u00e3o: <strong>Antonio Martins<\/strong><\/p>\n<p>O clima de guerra agora est\u00e1 em n\u00edvel febril na Europa. Tudo come\u00e7ou quando os EUA, sob Trump, decidiram que n\u00e3o valia a pena, para Washington, custear a \u201cprote\u00e7\u00e3o\u201d militar das capitais europeias contra potenciais inimigos. Trump quer que os EUA parem de bancar a maior parte do financiamento da OTAN e fornecer seu poderio militar. Deseja encerrar o conflito Ucr\u00e2nia-R\u00fassia para concentrar a estrat\u00e9gia imperialista norte-americana nas Am\u00e9ricas e no Pac\u00edfico, com o objetivo de \u201cconter\u201d e enfraquecer a ascens\u00e3o econ\u00f4mica da China.<\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia de Trump deixou as elites dominantes europeias em p\u00e2nico. De repente, elas preocupam-se que a Ucr\u00e2nia perca para as for\u00e7as russas e que, em breve, Putin esteja nas fronteiras da Alemanha \u2014 ou, como afirmam o premi\u00ea brit\u00e2nico Keir Starmer e um ex-chefe do servi\u00e7o secreto brit\u00e2nico MI5, \u201cnas ruas do Reino Unido\u201d.<\/p>\n<p>Independentemente da validade desse suposto perigo, criou-se a oportunidade para os militares e servi\u00e7os secretos europeus \u201caumentarem a aposta\u201d e pedirem o fim do chamado \u201cdividendo da paz\u201d, que come\u00e7ou ap\u00f3s a queda da temida Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, dando in\u00edcio agora ao processo de rearmamento. A chefe de pol\u00edtica externa da UE, Kaja Kallas, explicitou como enxerga a pol\u00edtica externa do bloco: <em>\u201cSe juntos n\u00e3o formos capazes de pressionar Moscou o suficiente, como podemos afirmar que derrotaremos a China?\u201d<\/em><strong><br \/><\/strong><br \/>V\u00e1rios argumentos s\u00e3o apresentados para o rearmamento do capitalismo europeu. Bronwen Maddox, diretora do Chatham House, \u201cthink tank\u201d de rela\u00e7\u00f5es internacionais que representa principalmente os interesses do estado militar brit\u00e2nico, iniciou a discuss\u00e3o afirmando que <em>\u201cgastos com \u201cdefesa\u201d s\u00e3o os de maior benef\u00edcio p\u00fablico de todos\u201d<\/em>, pois seriam necess\u00e1rios para a sobreviv\u00eancia da \u201cdemocracia\u201d contra for\u00e7as autorit\u00e1rias. Mas h\u00e1 um pre\u00e7o a ser pago por defender a democracia: <em>\u201cO Reino Unido pode ter que se endividar mais para custear os gastos militares urgentes. No pr\u00f3ximo ano e depois, os pol\u00edticos ter\u00e3o que se preparar para recuperar dinheiro cortando seguro-doen\u00e7a, aposentadorias e sa\u00fade p\u00fablica.\u201d<\/em> Ela continuou: <em>\u201cLevou-se d\u00e9cadas para acumular esses gastos, pode levar d\u00e9cadas para revert\u00ea-los\u201d \u2013 por isso, <\/em>a Gr\u00e3-Bretanha precisa agir. <em>\u201c[O primeiro-ministro] Starmer logo ter\u00e1 que definir uma data para que o Reino Unido atinja 2,5% do PIB em gastos militares \u2014 e j\u00e1 h\u00e1 um coro defendendo que esse n\u00famero precisa ser maior. No fim, os pol\u00edticos ter\u00e3o que convencer os eleitores a abrir m\u00e3o de parte de seus direitos para pagar pela defesa.\u201d<\/em><strong><br \/><\/strong><br \/>Martin Wolf, o guru econ\u00f4mico keynesiano-liberal do <em>Financial Times<\/em>, entrou no debate: <em>\u201cOs gastos com defesa precisar\u00e3o aumentar substancialmente. Note que chegaram a 5% do PIB brit\u00e2nico, ou mais, nos anos 1970 e 1980. Talvez n\u00e3o precisem atingir esses patamares no longo prazo: a R\u00fassia moderna n\u00e3o \u00e9 a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Mas \u00e9 poss\u00edvel que precisem ser t\u00e3o altos quanto isso durante o per\u00edodo de ac\u00famulo, especialmente se os EUA se retirarem.\u201d<\/em><strong><br \/><\/strong><br \/>Como pagar por isso? <em>\u201cSe os gastos militares forem permanentemente maiores, os impostos devem subir, a menos que o governo fa\u00e7a cortes suficientes em outras \u00e1reas, o que \u00e9 duvidoso.\u201d<\/em> Mas n\u00e3o se preocupe, diz Wolf, gastar com tanques, tropas e m\u00edsseis \u00e9 na verdade ben\u00e9fico para a economia. <em>\u201cO Reino Unido tamb\u00e9m pode esperar realisticamente retornos econ\u00f4micos em seus investimentos em defesa. Historicamente, as guerras t\u00eam sido a m\u00e3e da inova\u00e7\u00e3o.\u201d<\/em> Ele ent\u00e3o cita os exemplos maravilhosos dos ganhos que Israel e Ucr\u00e2nia obtiveram com suas guerras: <em>\u201cA \u2018economia de startups\u2019 de Israel come\u00e7ou em seu ex\u00e9rcito. Os ucranianos agora revolucionaram a guerra com drones.\u201d<\/em> Ele n\u00e3o menciona o custo humano envolvido na inova\u00e7\u00e3o pela guerra. Wolf continua: <em>\u201cO ponto crucial, por\u00e9m, \u00e9 que a necessidade de gastar significativamente mais com defesa deve ser vista como mais do que uma necessidade e tamb\u00e9m mais do que um custo, embora ambos sejam verdadeiros. Se feito da maneira certa, tamb\u00e9m \u00e9 uma oportunidade econ\u00f4mica.\u201d<\/em> Portanto, a guerra \u00e9 o caminho para sair da estagna\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica.<strong><br \/><\/strong><br \/>Wolf clama que a Gr\u00e3-Bretanha precisa agir: <em>\u201cSe os EUA n\u00e3o s\u00e3o mais proponentes e defensores da democracia liberal, a \u00fanica for\u00e7a potencialmente capaz de preencher a lacuna \u00e9 a Europa. Se os europeus quiserem ter sucesso nessa tarefa pesada, devem come\u00e7ar garantindo sua pr\u00f3pria casa. Sua capacidade de faz\u00ea-lo depender\u00e1, por sua vez, de recursos, tempo, vontade e coes\u00e3o\u2026 Sem d\u00favida, a Europa pode aumentar substancialmente seus gastos com defesa.\u201d<\/em> Wolf argumentou que devemos defender os propalados \u201cvalores europeus\u201d de liberdade pessoal e democracia liberal. <em>\u201cFazer isso ser\u00e1 economicamente custoso e at\u00e9 perigoso, mas necess\u00e1rio\u2026 porque \u201ca Europa tem quintas colunas em quase todos os lugares\u201d. <\/em>Ele concluiu que <em>\u201cse a Europa n\u00e3o se mobilizar rapidamente em sua pr\u00f3pria defesa, a democracia liberal pode naufragar completamente. Hoje parece um pouco com os anos 1930. Desta vez, infelizmente, os EUA parecem estar do lado errado.\u201d<\/em><\/p>\n<p>O colunista do FT e \u201cconservador progressista\u201d Janan Ganesh foi direto ao ponto: <em>\u201cA Europa deve reduzir seu estado de bem-estar social para construir um estado de guerra. N\u00e3o h\u00e1 como defender o continente sem cortes nos gastos sociais.\u201d<\/em> Ele deixou claro que os ganhos que a classe trabalhadora obteve ap\u00f3s o fim da Segunda Guerra, mas que foram gradualmente erodidos nos \u00faltimos 40 anos, agora devem ser totalmente abandonados. <em>\u201cA miss\u00e3o agora \u00e9 defender a vida dos europeus. Como, <\/em><em>financiar um continente melhor armado, <\/em><em>sen\u00e3o <\/em><em>por meio <\/em><em>de um estado de bem-estar social menor?\u201d<\/em> A era de ouro do estado de bem-estar social do p\u00f3s-guerra n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel, pensa. <em>\u201cQualquer pessoa com menos de 80 anos que passou a vida na Europa pode ser perdoada por considerar um estado de bem-estar social gigante (sic) como a ordem natural das coisas. Na verdade, foi o produto de circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas estranhas, que prevaleceram na segunda metade do s\u00e9culo 20 e n\u00e3o existem mais.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Sim, os ganhos para a classe trabalhadora na era de ouro foram a exce\u00e7\u00e3o \u00e0 norma no capitalismo (\u201ccircunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas estranhas\u201d). Mas agora <em>\u201cas obriga\u00e7\u00f5es com <\/em><em>aposentadoria<\/em><em>s e sa\u00fade j\u00e1 seriam dif\u00edceis <\/em><em>de sustentar <\/em><em>mesmo antes do choque atual da defesa\u2026 Os governos ter\u00e3o que ser mais mesquinhos com os idosos. Ou, se isso for impens\u00e1vel dado seu peso eleitoral, a l\u00e2mina ter\u00e1 que cair sobre \u00e1reas de gasto mais produtivas\u2026 De qualquer forma, o estado de bem-estar social como o conhecemos deve recuar um pouco: n\u00e3o o suficiente para que n\u00e3o o chamemos mais por esse nome, mas o suficiente para doer.\u201d<\/em> Ganesh, o verdadeiro conservador, v\u00ea o rearmamento como uma oportunidade para o capital fazer as redu\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias no bem-estar social e nos servi\u00e7os p\u00fablicos. <em>\u201cCortes de gastos s\u00e3o mais f\u00e1ceis de vender em nome da defesa do que em nome de uma no\u00e7\u00e3o generalizada de efici\u00eancia\u2026 Ainda assim, esse n\u00e3o \u00e9 o prop\u00f3sito da defesa, e os pol\u00edticos devem insistir nesse ponto. O prop\u00f3sito \u00e9 a sobreviv\u00eancia.\u201d<\/em> Portanto, o chamado \u201ccapitalismo liberal! precisa sobreviver, e isso significa cortar os padr\u00f5es de vida dos mais pobres e gastar dinheiro indo \u00e0 guerra. Do Estado de bem-estar social ao Estado de guerra.<\/p>\n<p>O primeiro-ministro da Pol\u00f4nia, Donald Tusk, elevou a belicosidade a outro n\u00edvel. Ele disse que seu pa\u00eds Pol\u00f4nia <em>\u201cdeve buscar as possibilidades relacionadas a armas nucleares e armas n\u00e3o convencionais modernas\u201d<\/em>. Podemos presumir que \u201cn\u00e3o convencionais\u201d significava armas qu\u00edmicas? Tusk: <em>\u201cDigo isso com plena responsabilidade, n\u00e3o basta comprar armas convencionais, as mais tradicionais.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Assim, em quase toda a Europa, o chamado \u00e9 por aumento nos gastos de \u201cdefesa\u201d e rearmamento. A presidente da Comiss\u00e3o Europeia, Ursula von der Leyen, prop\u00f4s um Plano de Rearmamento da Europa que visa mobilizar at\u00e9 \u20ac800 bilh\u00f5es para financiar um aumento maci\u00e7o nos gastos militares. <em>\u201cEstamos em uma era de rearmamento, e a Europa est\u00e1 pronta para aumentar maci\u00e7amente seus gastos com defesa, tanto para responder \u00e0 urg\u00eancia de curto prazo de apoiar a Ucr\u00e2nia, quanto para atender \u00e0 necessidade de longo prazo de assumir mais responsabilidade por nossa pr\u00f3pria seguran\u00e7a europeia\u201d<\/em>, disse ela. Sob uma \u201ccl\u00e1usula de emerg\u00eancia\u201d, a Comiss\u00e3o Europeia pedir\u00e1 aumento nos gastos com armas mesmo que isso quebre as regras fiscais existentes. Fundos n\u00e3o utilizados da Covid (\u20ac90 bilh\u00f5es) e mais empr\u00e9stimos por meio de um \u201cnovo instrumento\u201d ser\u00e3o usados. Von der Leyen afirmou que, se os pa\u00edses da UE aumentarem seus gastos militares em m\u00e9dia 1,5% do PIB, \u20ac650 bilh\u00f5es poder\u00e3o ser liberados nos pr\u00f3ximos quatro anos. Mas n\u00e3o haver\u00e1 financiamento extra para investimentos, projetos de infraestrutura ou servi\u00e7os p\u00fablicos, porque a Europa deve dedicar seus recursos para se preparar para a guerra.<\/p>\n<div>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"424\" height=\"378\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/Roberts01.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/Roberts01.jpg 424w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/Roberts01-300x267.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 424px) 100vw, 424px\"><\/figure>\n<\/div>\n<p>Ao mesmo tempo, como frisou o FT, o governo brit\u00e2nico \u201cest\u00e1 fazendo uma r\u00e1pida transi\u00e7\u00e3o do verde para o cinza de navio de guerra, colocando agora a defesa no centro de sua abordagem \u00e0 tecnologia e ind\u00fastria.\u201d Starmer anunciou um aumento nos gastos militares para 2,5% do PIB at\u00e9 2027 e a ambi\u00e7\u00e3o de atingir 3% na d\u00e9cada de 2030. A ministra das finan\u00e7as brit\u00e2nica Rachel Reeves, que vem cortando sistematicamente gastos com cr\u00e9ditos para crian\u00e7as, pagamentos de inverno para idosos e benef\u00edcios por defici\u00eancia, anunciou que o escopo do novo Fundo Nacional de Riqueza do governo trabalhista seria alterado para permitir investimentos em defesa. Os fabricantes de armas brit\u00e2nicos est\u00e3o em festa. \u201cDeixando de lado a \u00e9tica da produ\u00e7\u00e3o de armas, que desencoraja alguns investidores, h\u00e1 muito o que admirar na defesa como estrat\u00e9gia industrial\u201d, disse um executivo-chefe.<\/p>\n<p>Na Alemanha, o chanceler eleito no novo governo de coaliz\u00e3o, Friedrich Merz, aprovou no parlamento alem\u00e3o uma lei para acabar com o chamado \u201cfreio fiscal\u201d que tornava ilegal o governo alem\u00e3o contrair empr\u00e9stimos al\u00e9m de um limite r\u00edgido ou aumentar a d\u00edvida para pagar gastos p\u00fablicos. Mas agora o d\u00e9ficit militar tem prioridade acima de tudo, sendo o \u00fanico or\u00e7amento sem limites. A meta de gastos militares ofuscar\u00e1 os recursos dispon\u00edveis para controle clim\u00e1tico e para a infraestrutura, urgentemente necess\u00e1rios.<\/p>\n<div>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"385\" height=\"284\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-4.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-4.png 385w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-4-300x221.png 300w\" sizes=\"(max-width: 385px) 100vw, 385px\"><\/figure>\n<\/div>\n<p>Os gastos governamentais anuais decorrentes do novo pacote fiscal alem\u00e3o ser\u00e3o maiores do que o <em>boom<\/em> de gastos que acompanhou o Plano Marshall no p\u00f3s-guerra e com a reunifica\u00e7\u00e3o alem\u00e3 no in\u00edcio dos anos 1990.<\/p>\n<div>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"610\" height=\"498\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-5-1.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-5-1.png 610w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-5-300x245.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 610px) 100vw, 610px\"><\/figure>\n<\/div>\n<p>Isso nos leva aos argumentos econ\u00f4micos para os gastos militares. Os gastos militares podem reimpulsionar uma economia presa em armadilha em depress\u00e3o, como \u00e9 o caso de grande parte da Europa desde o fim da Grande Recess\u00e3o em 2009? Alguns keynesianos acham que sim. A fabricante de armas alem\u00e3 Rheinmetall diz que a f\u00e1brica ociosa da Volkswagen em Osnabr\u00fcck poderia ser uma candidata ideal para convers\u00e3o \u00e0 produ\u00e7\u00e3o militar. O economista keynesiano Matthew Klein, co-autor com Michael Pettis de <em>Trade Wars are Class Wars<\/em>, saudou a not\u00edcia: \u201cA Alemanha j\u00e1 est\u00e1 construindo tanques. Estou incentivando que construam muitos mais tanques.\u201d<\/p>\n<p>A teoria do \u201ckeynesianismo militar\u201d tem uma hist\u00f3ria. Uma variante dela foi o conceito da \u201ceconomia de armamentos permanente\u201d defendido por alguns marxistas para explicar por que as principais economias n\u00e3o entraram em depress\u00e3o ap\u00f3s o fim da Segunda Guerra, mas viveram, ao inv\u00e9s disso, um longo <em>boom,<\/em> com apenas recess\u00f5es suaves, at\u00e9 a crise internacional de 1974-75. Essa \u201cera de ouro\u201d s\u00f3 poderia ser explicada, diziam eles, pelos gastos militares permanentes para manter a demanda agregada e sustentar o pleno emprego.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o existem evid\u00eancias em favor desta teoria do <em>boom<\/em> do p\u00f3s-guerra. Os gastos militares do governo brit\u00e2nico ca\u00edram de mais de 12% do PIB em 1952 para cerca de 7% em 1960 e continuaram caindo durante os anos 1960 at\u00e9 atingir cerca de 5% do PIB no final da d\u00e9cada. E ainda assim a economia brit\u00e2nica teve seu melhor desempenho desde ent\u00e3o. Em todos os pa\u00edses capitalistas avan\u00e7ados, os gastos com defesa eram, no final dos anos 1960, uma fra\u00e7\u00e3o substancialmente menor da produ\u00e7\u00e3o total do que haviam sido no in\u00edcio dos anos 1950: de 10,2% do PIB em 1952-53 no auge da Guerra da Coreia; para apenas 6,5% em 1967. No entanto, o crescimento econ\u00f4mico foi sustentado durante os anos 1960 e in\u00edcio dos 1970.<\/p>\n<div>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1023\" height=\"665\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-6.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-6.png 1023w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-6-300x195.png 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-6-768x499.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1023px) 100vw, 1023px\"><\/figure>\n<\/div>\n<p>O boom do p\u00f3s-guerra n\u00e3o foi resultado dos gastos governamentais com armas, mas sim da alta taxa de lucratividade do capital investido pelas principais economias no p\u00f3s-guerra. Se h\u00e1 alguma rela\u00e7\u00e3o, \u00e9 de sentido oposto \u00e0 normalmente estabelecida. Como as principais economias cresciam relativamente r\u00e1pido e a lucratividade era alta, os governos podiam se dar ao luxo de sustentar gastos militares como parte de seu objetivo geopol\u00edtico de \u201cguerra fria\u201d para enfraquecer e esmagar a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica \u2013 ent\u00e3o o principal inimigo do imperialismo.<\/p>\n<p>Acima de tudo, o keynesianismo militar \u00e9 contra os interesses dos trabalhadores e da humanidade. Somos a favor de fabricar armas e matar pessoas para criar empregos? Esse argumento, frequentemente sustentado por alguns l\u00edderes sindicais, coloca o dinheiro acima das vidas. Keynes certa vez disse: \u201cO governo deveria pagar as pessoas para cavar buracos no ch\u00e3o e depois tap\u00e1-los.\u201d As pessoas responderiam: \u201cIsso \u00e9 est\u00fapido, por que n\u00e3o pagar as pessoas para construir estradas e escolas?\u201d Keynes responderia: \u201cTudo bem, paguem-nas para construir escolas. O ponto \u00e9 que n\u00e3o importa o que fa\u00e7am, contanto que o governo esteja criando empregos\u201d.<\/p>\n<p>Keynes estava errado. Importa, sim. O keynesianismo defende cavar buracos e tap\u00e1-los para criar empregos. O keynesianismo militar defende cavar covas e ench\u00ea-las de corpos para criar empregos. Se n\u00e3o importa como os empregos s\u00e3o criados, ent\u00e3o por que n\u00e3o aumentar drasticamente a produ\u00e7\u00e3o de tabaco e promover o v\u00edcio para criar empregos? Atualmente, a maioria das pessoas se oporia a isso por ser claramente prejudicial \u00e0 sa\u00fade. Fabricar armas (convencionais e n\u00e3o convencionais) \u00e9 ainda mais prejudicial. E h\u00e1 muitos outros produtos e servi\u00e7os socialmente \u00fateis que poderiam fornecer empregos e sal\u00e1rios para os trabalhadores (como escolas e moradias).<\/p>\n<p>O ministro da defesa brit\u00e2nico John Healey insistiu recentemente que aumentar o or\u00e7amento militar \u201cfaria de nossa ind\u00fastria de defesa o motor do crescimento econ\u00f4mico no pa\u00eds\u201d. \u00d3tima not\u00edcia. Infelizmente para Healey, a associa\u00e7\u00e3o comercial da ind\u00fastria de armas do Reino Unido (ADS) estima que o pa\u00eds tem cerca de 55.000 empregos em exporta\u00e7\u00e3o de armas e outros 115.000 empregados no Minist\u00e9rio da Defesa. Mesmo incluindo estes \u00faltimos, o total representa apenas 0,5% da for\u00e7a de trabalho brit\u00e2nica (veja o relat\u00f3rio \u201cArmas para Renov\u00e1veis\u201d da CAAT para detalhes). Mesmo nos EUA, a propor\u00e7\u00e3o \u00e9 muito semelhante.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma quest\u00e3o te\u00f3rica frequentemente debatida na economia pol\u00edtica marxista: a produ\u00e7\u00e3o de armas \u00e9 produtora de valor em uma economia capitalista? A resposta \u00e9 que sim, para os produtores de armas. Os fabricantes da ind\u00fastria b\u00e9lica entregam mercadorias (armas) que s\u00e3o pagas pelo Estado. O trabalho que as produz, portanto, \u00e9 produtor de valor e mais-valia. Mas no n\u00edvel de toda a economia, a produ\u00e7\u00e3o de armas \u00e9 improdutiva de valor futuro, da mesma forma que os bens de luxo para consumo capitalista. A produ\u00e7\u00e3o de armas e bens de luxo n\u00e3o reentra no ciclo produtivo \u2013 nem como meios de produ\u00e7\u00e3o, nem como meios de subsist\u00eancia para a classe trabalhadora. Embora seja produtora de mais-valia para os capitalistas armamentistas, a produ\u00e7\u00e3o de armas n\u00e3o \u00e9 reprodutiva e, portanto, amea\u00e7a a reprodu\u00e7\u00e3o do capital. Se o aumento na produ\u00e7\u00e3o geral de mais-valia em uma economia desacelera e a lucratividade do capital produtivo come\u00e7a a cair, ent\u00e3o desviar parte da mais-valia dispon\u00edvel para investimento produtivo, a fim de investi-la em gastos militares, pode prejudicar a \u201csa\u00fade\u201d do processo de acumula\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p>O resultado depende do efeito sobre a lucratividade do capital. O setor militar geralmente tem uma composi\u00e7\u00e3o org\u00e2nica de capital mais alta que a m\u00e9dia em uma economia, pois incorpora tecnologias de ponta. Portanto, o setor de armas tenderia a reduzir a taxa m\u00e9dia de lucro. Por outro lado, se os impostos arrecadados pelo Estado (ou cortes nos gastos civis) para pagar pela fabrica\u00e7\u00e3o de armas forem altos, ent\u00e3o a riqueza que poderia ir para o trabalho pode ser distribu\u00edda ao capital e assim pode aumentar a mais-valia dispon\u00edvel. Os gastos militares podem ter um efeito levemente positivo nas taxas de lucro nos pa\u00edses exportadores de armas, mas n\u00e3o nos importadores. Nestes \u00faltimos, os gastos militares s\u00e3o uma dedu\u00e7\u00e3o dos lucros dispon\u00edveis para investimento produtivo.<\/p>\n<p>No esquema geral das coisas, os gastos com armas n\u00e3o podem ser decisivos para a sa\u00fade da economia capitalista. Por outro lado, uma guerra total pode ajudar o capitalismo a sair da depress\u00e3o e da crise. \u00c9 um argumento chave da economia marxista (pelo menos na minha vers\u00e3o) que as economias capitalistas s\u00f3 podem se recuperar de forma sustentada se a lucratividade m\u00e9dia dos setores produtivos da economia aumentar significativamente. E isso exigiria destrui\u00e7\u00e3o suficiente do valor do \u201ccapital morto\u201d (acumula\u00e7\u00e3o passada) que n\u00e3o \u00e9 mais lucrativo empregar.<\/p>\n<p>A Grande Depress\u00e3o dos anos 1930 na economia dos EUA durou tanto tempo porque a lucratividade n\u00e3o se recuperou durante toda aquela d\u00e9cada. Em 1938, a taxa de lucro corporativo dos EUA ainda era menos da metade da taxa de 1929. A lucratividade s\u00f3 recuperou quando a economia de guerra entrou em vigor, a partir de 1940.<\/p>\n<div>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"590\" height=\"354\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-7-1.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-7-1.png 590w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-7-300x180.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 590px) 100vw, 590px\"><\/figure>\n<\/div>\n<p>Portanto, n\u00e3o foi o \u201ckeynesianismo militar\u201d que tirou a economia dos EUA da Grande Depress\u00e3o \u2013 como alguns keynesianos gostam de pensar. A recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica dos EUA da Grande Depress\u00e3o s\u00f3 come\u00e7ou quando a guerra mundial estava em andamento. O investimento s\u00f3 decolou a partir de 1941 (Pearl Harbor) em diante, atingindo, como parcela do PIB, mais que o dobro do n\u00edvel em que estava em 1940. Por que isso? N\u00e3o foi resultado de uma retomada do investimento do setor privado. O que aconteceu foi um enorme aumento no investimento e gastos governamentais. Em 1940, o investimento do setor privado ainda estava abaixo do n\u00edvel de 1929 e na verdade caiu ainda mais durante a guerra. O setor estatal assumiu quase todo o investimento, j\u00e1 que os recursos (valor) foram desviados para a produ\u00e7\u00e3o de armas e outras medidas de seguran\u00e7a em uma economia de guerra total.<\/p>\n<div>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"471\" height=\"291\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-8.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-8.png 471w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/image-8-300x185.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 471px) 100vw, 471px\"><\/figure>\n<\/div>\n<p>Mas o aumento do investimento e consumo governamental n\u00e3o seria uma forma de est\u00edmulo keynesiano, apenas em um n\u00edvel mais alto? N\u00e3o! A diferen\u00e7a se revela no colapso cont\u00ednuo do consumo. A economia de guerra foi paga restringindo as oportunidades dos trabalhadores de gastar sua renda em tempo de guerra. Houve poupan\u00e7a for\u00e7ada atrav\u00e9s da compra de t\u00edtulos de guerra, racionamento e aumento de impostos. O investimento do Estado significou a dire\u00e7\u00e3o e planejamento da produ\u00e7\u00e3o por decreto governamental. A economia de guerra n\u00e3o estimulou o setor privado, substituiu o \u201cmercado livre\u201d e o investimento capitalista. O consumo n\u00e3o restaurou o crescimento econ\u00f4mico como os keynesianos (e aqueles que veem a causa da crise no subconsumo) esperariam. Quem o fez foi o investimento em armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa.<\/p>\n<p>A guerra terminou rapidamente com a depress\u00e3o. A ind\u00fastria norte-americana foi revitalizada e muitos setores foram orientados para a produ\u00e7\u00e3o de defesa (por exemplo, aeroespacial e eletr\u00f4nicos) ou para atividades completamente dependentes dela (energia at\u00f4mica). As r\u00e1pidas mudan\u00e7as cient\u00edficas e tecnol\u00f3gicas da guerra continuaram e intensificaram tend\u00eancias iniciadas durante a Grande Depress\u00e3o. Como a guerra danificou severamente todas as grandes economias do mundo, exceto os EUA, o capitalismo americano ganhou hegemonia econ\u00f4mica e pol\u00edtica ap\u00f3s 1945.<\/p>\n<p>O economista Guiglelmo Carchedi explicou: \u201cPor que a guerra provocou um salto t\u00e3o grande na lucratividade no per\u00edodo 1940-45? O denominador da taxa n\u00e3o apenas n\u00e3o subiu, como caiu \u2013 porque a deprecia\u00e7\u00e3o f\u00edsica dos meios de produ\u00e7\u00e3o foi maior que os novos investimentos. Ao mesmo tempo, o desemprego praticamente desapareceu. Sua diminui\u00e7\u00e3o possibilitou sal\u00e1rios mais altos. Mas sal\u00e1rios mais altos n\u00e3o prejudicaram a lucratividade. Na verdade, a convers\u00e3o de ind\u00fastrias civis em militares reduziu a oferta de bens civis. Os sal\u00e1rios mais altos e a produ\u00e7\u00e3o limitada de bens de consumo significaram que o poder de compra dos trabalhadores teve que ser muito comprimido para evitar a infla\u00e7\u00e3o. Isso foi alcan\u00e7ado instituindo o primeiro imposto de renda geral, desencorajando gastos do consumidor (o cr\u00e9dito ao consumo foi proibido) e estimulando a poupan\u00e7a, principalmente por meio do investimento em t\u00edtulos de guerra. Consequentemente, os trabalhadores foram for\u00e7ados a adiar o gasto de uma parcela consider\u00e1vel de seus sal\u00e1rios. Ao mesmo tempo, a taxa de explora\u00e7\u00e3o do trabalho aumentou. Em ess\u00eancia, o esfor\u00e7o de guerra foi uma produ\u00e7\u00e3o massiva de meios de destrui\u00e7\u00e3o financiada pelo trabalho.\u201d<\/p>\n<p>Deixemos que o pr\u00f3prio Keynes resuma: \u201cParece politicamente imposs\u00edvel para uma democracia capitalista organizar gastos na escala necess\u00e1ria para fazer os grandes experimentos que provariam meu caso \u2014 exceto em condi\u00e7\u00f5es de guerra\u201d.<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/geopoliticaeguerra\/europa-em-guerra-aposta-insana\/\">Europa em guerra: aposta insana<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/trump-transformou-washington-em-um-qg-desperdicando-milhoes-de-dolares-dos-contribuintes\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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