{"id":18884,"date":"2025-03-29T04:00:00","date_gmt":"2025-03-29T07:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/golpe-de-estado-mata-as-marcas-da-ditadura-e-a-luta-por-justica\/"},"modified":"2025-03-29T04:00:00","modified_gmt":"2025-03-29T07:00:00","slug":"golpe-de-estado-mata-as-marcas-da-ditadura-e-a-luta-por-justica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/golpe-de-estado-mata-as-marcas-da-ditadura-e-a-luta-por-justica\/","title":{"rendered":"Golpe de Estado mata: as marcas da ditadura e a luta por justi\u00e7a"},"content":{"rendered":"<div aria-hidden=\"true\"><\/div>\n<p>A Comiss\u00e3o Nacional da Verdade (CNV), criada em 2011 no governo Dilma Rousseff (PT) para investigar viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos praticadas pelo Estado brasileiro durante a ditadura militar, registrou pelo menos <span>502 casos de tortura e mais de 40 assassinatos ocorridos no Destacamento de Opera\u00e7\u00f5es de Informa\u00e7\u00f5es<\/span> \u2013 Centro de Opera\u00e7\u00f5es de Defesa Interna (DOI-Codi), sob o comando do coronel do Ex\u00e9rcito Carlos Alberto Brilhante Ustra.<\/p>\n<p>Condenado como torturador pela Justi\u00e7a brasileira em 2012, Ustra \u2013 que morreu em 2015, aos 85 anos \u2013 marcou a vida de in\u00fameras fam\u00edlias, entre elas a Teles, de militantes pol\u00edticos, que moveu um dos primeiros processos contra o coronel. Jana\u00edna Teles, que, aos 4 anos, foi levada com o irm\u00e3o para ver a tortura de seus pais, \u00e9 a convidada do <strong>Pauta P\u00fablica <\/strong>desta semana. O epis\u00f3dio discute a import\u00e2ncia da <a href=\"https:\/\/apublica.org\/tag\/justica\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">justi\u00e7a<\/a> e da responsabiliza\u00e7\u00e3o do Estado pelos crimes da repress\u00e3o, al\u00e9m da urg\u00eancia de preservar a mem\u00f3ria como instrumento de defesa da democracia e garantir que esses erros do passado n\u00e3o se repitam.<\/p>\n<p>Para Jana\u00edna Teles, hoje professora de hist\u00f3ria e diretora do Centro de Mem\u00f3ria Social da Universidade do Estado de Minas Gerais (<a href=\"https:\/\/www.uemg.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Uemg<\/a>), \u201cmuita gente ainda carrega na mem\u00f3ria os sofrimentos vividos durante a ditadura, mas [essa mem\u00f3ria] \u00e9 frequentemente reprimida e deixada debaixo do tapete, seja por um discurso positivista que busca neutralidade na hist\u00f3ria ou por uma cultura pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o que evitou o confronto com o passado\u201d.<\/p>\n<p>Leia os principais pontos e ou\u00e7a o podcast completo abaixo.<\/p>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/apublica.org\/podcast\/2025\/03\/podcast-pauta-publica\/golpe-de-estado-mata-as-marcas-da-ditadura-e-a-luta-por-justica-com-janaina-teles\/\"><\/a><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<h2>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span>EP 161<\/span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\tGolpe de Estado mata: as marcas da ditadura e a luta por justi\u00e7a \u2013 com Jana\u00edna Teles\t\t\t\t\t\t\t<\/h2>\n<div>\n<p>\n\t\t\t\t<span><br \/>\n\t\t\t\t\t<span>28 de mar\u00e7o de 2025<\/span><br \/>\n\t\t\t\t\t\u00b7<br \/>\n\t\t\t\t<\/span><br \/>\n\t\t\t\tNeste epis\u00f3dio, Jana\u00edna Teles relata os impactos do regime militar e a luta por mem\u00f3ria e justi\u00e7a<\/p>\n<div data-init=\"0\" data-id=\"186694\" data-playing=\"0\">\n<p>\t\t\t\t\t\t<audio src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/PAUTA_PUBLICA_EP-161_Golpe-de-Estado-mata-as-marcas-da-ditadura-e-a-luta-por-justica-com-Janaina-Teles.mp3\" preload=\"none\"><\/audio><\/p>\n<div>\n<div>\n<div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<a href=\"https:\/\/apublica.org\/2025\/03\/golpe-de-estado-mata-as-marcas-da-ditadura-e-a-luta-por-justica\/#_\"><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<i><\/i><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<i><\/i><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/a>\n\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n<div>\n<div><\/div>\n<div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span><span>0:00<\/span><\/span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span><span>-:\u2013<\/span><\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<a href=\"https:\/\/apublica.org\/2025\/03\/golpe-de-estado-mata-as-marcas-da-ditadura-e-a-luta-por-justica\/#_\" data-time=\"-15\"><i><\/i>15<\/a><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<a href=\"https:\/\/apublica.org\/2025\/03\/golpe-de-estado-mata-as-marcas-da-ditadura-e-a-luta-por-justica\/#_\" data-time=\"15\"><i><\/i>15<\/a><\/p>\n<div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<a href=\"https:\/\/apublica.org\/2025\/03\/golpe-de-estado-mata-as-marcas-da-ditadura-e-a-luta-por-justica\/#_\"><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<i><\/i><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<i><\/i><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<i><\/i><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/a><\/p>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<a href=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/PAUTA_PUBLICA_EP-161_Golpe-de-Estado-mata-as-marcas-da-ditadura-e-a-luta-por-justica-com-Janaina-Teles.mp3\"><i><\/i><\/a><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<a href=\"https:\/\/apublica.org\/podcast\/2025\/03\/podcast-pauta-publica\/golpe-de-estado-mata-as-marcas-da-ditadura-e-a-luta-por-justica-com-janaina-teles\/\"><i><\/i><\/a>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div><center><a href=\"https:\/\/apublica.org\/podcast\/2023\/02\/podcast-pauta-publica\/\">Veja mais epis\u00f3dios desta s\u00e9rie<\/a><\/center><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<p><strong>Como a ditadura atravessou a sua inf\u00e2ncia, do seu irm\u00e3o e a vida de toda a sua fam\u00edlia?<\/strong><\/p>\n<p>Eles me levaram para ver minha m\u00e3e sendo torturada, e essa parte eu apaguei da minha lembran\u00e7a, da minha mem\u00f3ria, por motivos \u00f3bvios. Eu fiquei bastante espantada, eu n\u00e3o sabia nem o que era comunista. Pensei em perguntar, mas achei que o clima n\u00e3o era bom pra isso. Estava tudo muito violento. Eu n\u00e3o lembro como a gente chegou no DOI- Codi, mas fomos levados para l\u00e1. S\u00f3 lembro da segunda vez que eu fui levada a ver meus pais j\u00e1 nas celas l\u00e1 de baixo no DOI-Codi. Eles estavam meio transfigurados, inchados. Eles estavam sentados numa mesa, acho que havia algum tipo de comida, e eu olhei para eles, eles estavam machucados.<\/p>\n<p>A gente era uma fam\u00edlia muito unida, assim, amorosa, a gente se abra\u00e7ava, a gente se beijava, e eles n\u00e3o me abra\u00e7aram e n\u00e3o me beijaram. Eu acho que eles n\u00e3o se mexiam muito. Ent\u00e3o, eu que fui at\u00e9 eles e abracei e beijei. N\u00e3o lembro bem qual a conversa que n\u00f3s tivemos, mas eu lembro que eu n\u00e3o estava entendendo nada, s\u00f3 achando aquilo completamente fora dos meus h\u00e1bitos e da minha compreens\u00e3o.<\/p>\n<p>Durante o dia, a gente ficava no estacionamento, eu e meu irm\u00e3o, brincando, e \u00e0 noite eles [os militares] levavam a gente para uma casa que era l\u00e1 perto, uma casa mais ou menos grande, onde a gente dormia do lado da cozinha, numa cama de campanha, tipo cama de militar. E eles n\u00e3o apagavam a luz. A\u00ed eu lembro de pensar: \u201cComo \u00e9 que eu vou conseguir dormir com a luz acesa?\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Enfim, depois de alguns dias, eles levaram a gente para Belo Horizonte, na casa de um delegado de pol\u00edcia, que era amigo do Ustra e que, para minha infelicidade, era casado com a irm\u00e3 mais velha do meu pai. Eu n\u00e3o conhecia minha fam\u00edlia, nem materna, nem paterna, porque ambos os lados tinham muita gente de direita que n\u00e3o apoiou meus pais. Ent\u00e3o, eu n\u00e3o tinha contato com essa fam\u00edlia, que era grande.<\/p>\n<p>Esse delegado tratou a gente muito mal ao longo de seis meses, at\u00e9 que a Crimeia, minha tia, foi solta. Quando a Crimeia foi solta, parece que a Anistia Internacional ou outros grupos de den\u00fancia tamb\u00e9m estavam fazendo muita press\u00e3o. Como meu primo estava muito magro porque ele passou muita fome, eles fizeram um regime de engorda para entregar ele \u00e0 fam\u00edlia da minha m\u00e3e em Minas. A\u00ed eles nos encontraram.<\/p>\n<p>[Minha tia] ia todo dia \u00e0 tarde para ver se encontrava a gente, e o delegado proibiu ela de nos ver. Ela ficou um m\u00eas tentando nos ver. Ficava todo dia na frente do quintal da casa esperando que a gente fosse brincar. At\u00e9 que um dia a gente foi e a\u00ed ela me chamou. Quando eu a vi, eu fiquei muito emocionada, a gente saiu correndo, abrimos o port\u00e3o para ir l\u00e1 abra\u00e7\u00e1-la, beij\u00e1-la, e ela ent\u00e3o come\u00e7ou a contar que meus pais n\u00e3o tinham me abandonado, que meus pais estavam presos, e ela explicou tudo. Ela falou que os militares n\u00e3o gostavam da gente porque n\u00f3s \u00e9ramos comunistas, a\u00ed eu perguntei o que era ser comunista e ela falou: \u201cComunista \u00e9 aquele que quer dividir tudo igualmente com todos\u201d. E eu falei: \u201cMas at\u00e9 a minha escova de dente vou ter que dividir?\u201d. Ela: \u201cN\u00e3o, as escovas de dente, cada um fica com a sua\u201d.<\/p>\n<p><strong>O Brasil j\u00e1 foi condenado por uma s\u00e9rie de raz\u00f5es, n\u00e3o s\u00f3 pelos crimes da ditadura, mas por outros crimes de viola\u00e7\u00e3o de direitos humanos. O que acontece na pr\u00e1tica?\u00a0Por que essa resist\u00eancia do Brasil em reconhecer o parecer da Corte Interamericana de Direitos Humanos, que diz que os crimes cometidos pela ditadura n\u00e3o prescrevem? <\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel constatar a preval\u00eancia, durante muitos anos, da ideia de que a democracia estava consolidada no Brasil. Mas a gente viu, com a tentativa de golpe do 8 de janeiro, que a democracia brasileira n\u00e3o est\u00e1 nada consolidada. <span>Como podemos dizer que h\u00e1 democracia no Brasil, se os torturadores da ditadura militar n\u00e3o s\u00e3o julgados, n\u00e3o s\u00e3o punidos e os mandantes tamb\u00e9m?<\/span> A Comiss\u00e3o da Verdade conseguiu, com todas suas limita\u00e7\u00f5es, mostrar que foram muito mais do que 434 mortos e desaparecidos, conforme os dados oficiais da pr\u00f3pria Comiss\u00e3o da Verdade. Ela mesma mostrou, no volume 2 do relat\u00f3rio, que s\u00e3o mais de 10 mil mortos e desaparecidos da ditadura.<\/p>\n<p>\u00c9 um debate que ainda est\u00e1 muito incipiente, mas a comiss\u00e3o conseguiu mostrar a omiss\u00e3o da verdade, mostrando que as v\u00edtimas da repress\u00e3o ditatorial foram muito mais amplas, tanto o perfil das v\u00edtimas quanto a quantidade das v\u00edtimas. Se, por um lado, a gente conquistou essa vit\u00f3ria com a Comiss\u00e3o da Verdade, por outro lado, o negacionismo tamb\u00e9m tomou uma dimens\u00e3o muito maior do que tinha antes.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, eu penso que a gente n\u00e3o deveria desistir de conquistar e de lutar por esse debate p\u00fablico, por essa discuss\u00e3o com toda a sociedade. Nesse sentido, a retomada feita pelo [ministro] Fl\u00e1vio Dino, no STF, do debate sobre a interpreta\u00e7\u00e3o da Lei da Anistia \u00e9 important\u00edssima. Com esta reabertura do debate, ele pode se ampliar para muitos setores da sociedade e muita gente pode vir a conhecer aspectos da hist\u00f3ria da ditadura que n\u00e3o conheciam.<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea v\u00ea, nessa nova ascens\u00e3o da extrema direita global, o fortalecimento do discurso negacionista da hist\u00f3ria da ditadura militar? O que pode ser feito para que, apesar disso, prevale\u00e7a na hist\u00f3ria da sociedade brasileira a mem\u00f3ria do que realmente aconteceu, pensando que n\u00e3o \u00e9 um problema somente dos familiares, \u00e9 um problema de toda a sociedade?<\/strong><\/p>\n<p>Como historiadora eu posso dizer que \u00e9 importante que os historiadores percebam que ainda h\u00e1 muito, no debate historiogr\u00e1fico, uma falsa dicotomia entre mem\u00f3ria e hist\u00f3ria. Eu acho que nesse ponto o Paul Ric\u0153ur, que \u00e9 um fil\u00f3sofo franc\u00eas recentemente falecido, fala de algo muito importante, que a mem\u00f3ria \u00e9 uma coisa, a hist\u00f3ria \u00e9 outra e que nenhuma das duas deve ser submetidas uma \u00e0 outra. Quer dizer, a hist\u00f3ria n\u00e3o deve submeter a mem\u00f3ria. A mem\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 simplesmente fonte da hist\u00f3ria. A mem\u00f3ria \u00e9 muito mais que isso. A mem\u00f3ria \u00e9 nossa identidade como pessoas, como sociedade.<\/p>\n<p>A mem\u00f3ria nos constitui e tem um valor enorme, inclusive na luta contra o positivismo cient\u00edfico dentro da ci\u00eancia e dentro da hist\u00f3ria. Quer dizer, ao inv\u00e9s de tratar a mem\u00f3ria apenas como fonte da hist\u00f3ria, a gente tem que respeitar a mem\u00f3ria em toda a sua riqueza, em toda a sua amplitude. Ent\u00e3o, a gente tem que sair desse debate, que \u00e9 empobrecedor, de dizer que o historiador n\u00e3o pode mostrar a sua subjetividade ao construir um conhecimento sobre a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Acho que a primeira coisa \u00e9 isso, romper com esse discurso positivista do s\u00e9culo 19, de uma suposta objetividade, de um suposto distanciamento do nosso objeto de estudo, porque isso n\u00e3o existe. Isso \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica.A gente n\u00e3o negar a nossa pr\u00f3pria subjetividade j\u00e1 \u00e9 um primeiro passo. A outra coisa \u00e9 que, se n\u00f3s somos seres complexos cheios de subjetividade, quer dizer que t\u00e1 na mem\u00f3ria de muita gente o sofrimento que foi viver na ditadura. E sofrimentos de diversos tipos. De diversas origens, com diversas caracter\u00edsticas. Ent\u00e3o, a gente tem que dar vaz\u00e3o a isso e n\u00e3o reprimir isso. Porque sen\u00e3o a gente vive nessa melancolia. A gente reprime essa mem\u00f3ria, deixa ela l\u00e1 debaixo do tapete ou deixa no inconsciente e n\u00e3o deixa ela brotar.<\/p>\n<p>\u00a0Ent\u00e3o, acho que o primeiro passo \u00e9 dar mais espa\u00e7o \u00e0s historiadoras mulheres, que t\u00eam menos vergonha ou menos compromisso com esse discurso objetificador cientificista, dar mais raz\u00e3o \u00e0s nossas mem\u00f3rias e valorizar isso. Os projetos de hist\u00f3ria oral, os projetos de document\u00e1rios, de filmes, de tudo, produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica, s\u00e3o fundamentais neste momento. N\u00f3s temos que fazer muito mais do que n\u00f3s fizemos. O segundo \u00e9: n\u00f3s n\u00e3o vivemos uma democracia consolidada. N\u00f3s temos que parar de ter essas refer\u00eancias eurocentristas.<\/p>\n<p>J\u00e1 que a democracia liberal predominou no mundo capitalista, n\u00f3s vamos dizer que n\u00f3s tamb\u00e9m temos uma democracia consolidada? N\u00e3o. A gente tem que fazer o debate sobre qual democracia a gente quer e que democracia \u00e9 a que a gente tem. Esse debate est\u00e1 muito fraco no Brasil.<\/p>\n<p>Se no anivers\u00e1rio de 60 anos do golpe de 64, no ano passado, o presidente da Rep\u00fablica, Lula, chega e pede para n\u00e3o falarmos, para n\u00e3o fazermos debate sobre os 60 anos do golpe e barra a proposta do Fl\u00e1vio Dino de fazer um Museu da Mem\u00f3ria, quer dizer, se n\u00f3s n\u00e3o podemos fazer isso, o debate est\u00e1 muito abaixo do n\u00edvel do solo.<\/p>\n<p>Acho que parte das esquerdas, dos setores progressistas, n\u00e3o est\u00e1 fazendo essa cr\u00edtica, que \u00e9 necess\u00e1ria. Nos \u00faltimos 30 e tantos anos, a gente usou o caminho da concilia\u00e7\u00e3o e deu no que deu. Eles [os militares] foram l\u00e1 e tentaram o golpe de novo. Ent\u00e3o, j\u00e1 passou da hora da gente admitir que este caminho n\u00e3o deu certo, que n\u00f3s temos que trilhar outro e que tem que ser atrav\u00e9s da cr\u00edtica, n\u00e3o pode fingir que est\u00e1 tudo certo. Infelizmente, a gente tem que p\u00f4r o dedo na ferida.<\/p>\n<p>O 8 de janeiro [atos golpistas em 2023] foi um dos \u00e1pices desse momento da gente perceber que a ferida est\u00e1 aberta. A gente tem que apostar nas iniciativas que fortalecem os v\u00ednculos com esse passado nas novas gera\u00e7\u00f5es. A gente n\u00e3o vai manter essa mem\u00f3ria viva apenas com os sobreviventes vivos. A gente precisa conseguir dialogar com esse passado, apesar de n\u00e3o estarmos mais aqui daqui a alguns anos. A hist\u00f3ria n\u00e3o termina em n\u00f3s.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/governo-tem-nova-vitoria-contra-lei-que-facilita-acesso-a-armas\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/Captura-de-Tela-2025-03-18-as-15.14.23-150x150.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Governo tem nova vit\u00f3ria contra lei que facilita a...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/justica-determina-reparacao-economica-mensal-a-dilma-rousseff-por-tortura-na-ditadura\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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