{"id":18998,"date":"2025-03-30T15:20:06","date_gmt":"2025-03-30T18:20:06","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/a-alemanha-abraca-o-neoliberalismo-militar\/"},"modified":"2025-03-30T15:20:06","modified_gmt":"2025-03-30T18:20:06","slug":"a-alemanha-abraca-o-neoliberalismo-militar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/a-alemanha-abraca-o-neoliberalismo-militar\/","title":{"rendered":"A Alemanha abra\u00e7a o neoliberalismo militar"},"content":{"rendered":"<p><span>O cessante parlamento alem\u00e3o aprovou a Emenda \u00e0 Lei Fundamental que p\u00f4s fim ao Freio da D\u00edvida [<\/span><i><span>Schuldenbremse<\/span><\/i><span>] de 2009, um equivalente germ\u00e2nico ao Teto de Gastos ou Arcabou\u00e7o Fiscal do Brasil. Se os alem\u00e3es optaram por uma met\u00e1fora automobil\u00edstica, e os brasileiros aludiram \u00e0 constru\u00e7\u00e3o civil, a serventia \u00e9 a mesma: limitar o investimento p\u00fablico ao sabor da banca \u2013 o fim do mecanismo alem\u00e3o, contudo, tem a ver com amplia\u00e7\u00e3o dos gastos militares.<\/span><\/p>\n<p><span>Longe de ser uma boa not\u00edcia, ou um exemplo para o Brasil, a medida alem\u00e3 \u00e9 um controversa volta ao que pode ser chamado \u201ckeynesiano militar\u201d, conforme Mike Roberts colocou em um artigo grandioso, recentemente <\/span><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/eurocentrismoemxeque\/alemanha-flerta-com-o-abismo\/\"><span>publicado no <\/span><i><span>Outras Palavras<\/span><\/i><\/a><span>, mas tamb\u00e9m Yanis Varoufakis em suas redes sobre <\/span><a href=\"https:\/\/www.yanisvaroufakis.eu\/2025\/03\/22\/goodbye-linke\/\"><span>a decep\u00e7\u00e3o com o<\/span> <span>Linke<\/span><\/a><span>, partido da esquerda alem\u00e3. Isso, no entanto, merece um reparo: <\/span><i><span>neoliberalismo militar<\/span><\/i><span> parece ser um termo mais adequado.<\/span><\/p>\n<p><span>Ainda que preveja medidas para a infraestrutura, a medida \u00e9 centrada na reorienta\u00e7\u00e3o da economia alem\u00e3 para a guerra, com f\u00e1bricas de autom\u00f3veis da Volkswagen sendo reconvertidas para fabricar tanques. Isso n\u00e3o coloca fim \u00e0 austeridade geral da Alemanha, mas destina recursos \u2013 que os seguidos governos alem\u00e3es sempre alegaram n\u00e3o ter, fosse para a \u00e1rea social ou para economia normal para finalidades pac\u00edficas.<\/span><\/p>\n<p><span>Isso apenas refor\u00e7a a l\u00f3gica da guerra, hoje materializada no conflito na Ucr\u00e2nia, em que Berlim foi envolvida pela administra\u00e7\u00e3o Biden \u2013 \u00e0s custas de suas vantajosas rela\u00e7\u00f5es comerciais com a R\u00fassia. Parece, portanto, ser uma aposta redobrada no atoleiro, em uma rebeldia contra Donald Trump em meio \u00e0s disputas internas na Alemanha e na Europa, mas tamb\u00e9m externas junto \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica dos Estados Unidos.<\/span><\/p>\n<p><span>Ainda, o fato do Linke ter votado contra a medida na C\u00e2mara, mas mudado de posi\u00e7\u00e3o no Senado [<\/span><i><span>Bundsrat<\/span><\/i><span>] foi chave para a aprova\u00e7\u00e3o da Emenda, o que traz \u00e0 tona crise ideol\u00f3gica da esquerda radical alem\u00e3: se para se manter no Parlamento, e ampliar seus votos, o Linke adotou posturas mais moderadas, principalmente em pol\u00edtica externa, nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es, agora seu giro mostra o que pode estar por vir.<\/span><\/p>\n<h3><b>\u00a0Os zigue-zagues de Friedrich Merz<\/b><\/h3>\n<p><span>O premi\u00ea eleito da Alemanha n\u00e3o tomou posse ainda, uma vez que formalmente a coaliz\u00e3o de governo n\u00e3o foi sacramentada, ent\u00e3o segue o parlamento eleito em 2021. No entanto, at\u00e9 as pedrinhas da rua sabem que os social-democratas, derrotados nas recentes elei\u00e7\u00f5es, ser\u00e3o os s\u00f3cios minorit\u00e1rios dos democratas-crist\u00e3os de Merz. O atraso talvez se deva ao fato de que o novo parlamento n\u00e3o teria maioria qualificada de 2\/3 para mudar a Lei Fundamental.<\/span><\/p>\n<p><span>Com os votos de social-democratas, democratas-crist\u00e3os e verdade, com tr\u00eas exce\u00e7\u00f5es pontuais, a <\/span><a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/world\/ng-interactive\/2025\/mar\/18\/how-every-german-mp-voted-on-reforming-the-debt-brake\"><span>Emenda passou<\/span><\/a><span> com 512 a favor e 206 contra, mas isso n\u00e3o teria acontecido na <\/span><a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Results_of_the_2025_German_federal_election\"><span>nova composi\u00e7\u00e3o<\/span><\/a><span> do Bundestag \u2013 ou melhor: para acontecer, seria necess\u00e1ria a ades\u00e3o do Linke. No entanto, o Linke, que, como sabemos, vetou no Bundestag, mas <\/span><a href=\"https:\/\/www.spiegel.de\/politik\/deutschland\/bundestag-die-linke-und-ihr-aerger-ueber-den-eigenen-beschluss-a-ff0c165e-e4c4-44cb-82af-07747519af84\"><span>mudou de posi\u00e7\u00e3o no Senado<\/span><\/a><span>, o que foi decisivo l\u00e1 e, tamb\u00e9m, lhe gera agora uma crise interna.<\/span><\/p>\n<p><span>O mais estranho em toda a hist\u00f3ria \u00e9 que a Emenda surgiu em discuss\u00f5es que envolveram o alto capital alem\u00e3o, alcan\u00e7aram o todo-poderoso Banco Central e, depois, geraram um <\/span><a href=\"https:\/\/www.br.de\/nachrichten\/deutschland-welt\/spd-fraktionsfluegel-fordern-ausnahmeregeln-von-schuldenbremse,UGahYTb\"><span>debate duro dentro da social-democracia<\/span><\/a><span>. O belicoso, obscuro e, no entanto, popular ministro da Defesa Boris Pistorius foi central na proposta, o que gerou uma s\u00e9rie de debates entre as correntes social-democratas, que lhe aprovaram \u2013 mas o governo Scholz caiu por isso.<\/span><\/p>\n<p><span>Merz, enquanto l\u00edder da oposi\u00e7\u00e3o, foi contra a proposta da Emenda, enquanto os liberais-democratas, que chefiam o Minist\u00e9rio das Finan\u00e7as se opuseram e se retiraram do governo, derrubando a coaliz\u00e3o que governava a Alemanha desde 2021\u00a0 \u2013 o premi\u00ea social-democrata tentou salvar seu governo em dezembro, mas <\/span><a href=\"https:\/\/www.dw.com\/en\/german-election-scholz-loses-confidence-vote\/live-71063891\"><span>perdeu a mo\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a<\/span><\/a><span> gra\u00e7as aos votos democratas-crist\u00e3os, o que antecipou as elei\u00e7\u00f5es vencidas por Merz.<\/span><\/p>\n<p><span>Qual n\u00e3o foi a surpresa de que Merz, uma vez eleito, n\u00e3o apenas convidou o partido derrotado para sua coaliz\u00e3o como, ainda, incorporou justo a pauta que derrubou o governo social-democrata \u2013 e mesmo excluindo os verdes dessa futura coaliz\u00e3o, contou com a boa vontade deles para aprovar a Emenda no parlamento cessante. Por essa raz\u00e3o, n\u00e3o falta quem mencione um <\/span><a href=\"https:\/\/www.mdr.de\/nachrichten\/deutschland\/politik\/merz-schuldenbremse-kein-wahlbetrug-100~amp.html\"><i><span>estelionato eleitoral<\/span><\/i><\/a><span> de Merz diante de suas mudan\u00e7as de posi\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span>Esses constantes zigue-zagues v\u00eam de longe. Merz foi opositor \u00e0 direita de Angela Merkel na Democracia Crist\u00e3, criticando ela inclusive por posi\u00e7\u00f5es supostamente muito lenientes com Trump, na primeira presid\u00eancia dele. Ainda, Merz se op\u00f4s inicialmente \u00e0 guerra na Ucr\u00e2nia, mas deu um cavalo de pau rapidamente no in\u00edcio de 2022. Nada de novo, mas talvez o eleitor alem\u00e3o s\u00f3 v\u00e1 entender isso agora, depois do seu voto de puni\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<h3><b>A mistura dos partidos tradicionais na Alemanha: como a extrema direita ganha com isso\u00a0<\/b><\/h3>\n<p><span>A hist\u00f3ria confusa da aprova\u00e7\u00e3o da Emenda, contudo, mostra uma indiferencia\u00e7\u00e3o entre as for\u00e7as pol\u00edticas dominantes da Alemanha. Em 2009, quando Merkel aprovou o Freio da D\u00edvida, ela teve o apoio dos social-democratas, que integravam seu governo. Meses depois, ela venceu as elei\u00e7\u00f5es e chutou os social-democratas da sua coaliz\u00e3o, governando apenas com os liberais-democratas. Isso se reverteu em 2013, com os social-democratas de volta.<\/span><\/p>\n<p><span>Antes, em 2003, a coaliz\u00e3o de social-democratas e verdes, liderada pelos primeiros, implementou a Agenda 2010, que marcou o desmoronamento da economia social de mercado, edificada pelos democratas-crist\u00e3os ap\u00f3s a Segunda Guerra \u2013 que sofria oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 esquerda dos social-democratas que, no entanto, beijaram a cruz e passaram para dentro do jogo na Alemanha Ocidental. D\u00e9cadas depois, eles foram seus algozes.<\/span><\/p>\n<p><span>Tanto a Agenda 2010 de 2003 quanto o Freio da D\u00edvida de 2009 marcaram a passagem da Alemanha para o neoliberalismo, d\u00e9cadas depois de Margaret Thatcher no Reino Unido e Ronald Reagan nos Estados Unidos. Foi nesse cen\u00e1rio que nasceu o Linke, formado por militantes da antiga Alemanha Oriental que integravam o Partido do Socialismo Democr\u00e1tico, junto com a dissid\u00eancia de esquerda dos social-democratas.<\/span><\/p>\n<p><span>Inicialmente, em 2007, o Linke era o partido anti-establishment, mas logo ele integrou coaliz\u00f5es de governo com suas benesses \u2013 inclusive em Berlim \u2013 ou governou estados como a Tur\u00edngia, o que domesticou o partido \u2013 enquanto a crise social causada pelo neoliberalismo avan\u00e7ava, sendo habilmente manipulada por uma extrema direita alem\u00e3 renascida e, novamente, tolerada no jogo pol\u00edtico.<\/span><\/p>\n<p><span>De repente, a extrema direita fundou o seu pr\u00f3prio partido de massas, o Alternativa pela Alemanha (AfD), e tomou para si a ins\u00edgnia do anti-establishment, se colocando como o \u00fanico partido diferente \u2013 enquanto \u00e9 financiada pelos ricos, e mais tolerada pelo aparato repressor alem\u00e3o em compara\u00e7\u00e3o \u00e0s esquerdas, uma vez que o <\/span><i><span>Gabinete de Defesa da Constitui\u00e7\u00e3o<\/span><\/i><span> equipara o fascismo ao comunismo.<\/span><\/p>\n<p><span>O campo de esquerda, por sua vez, ao se confundir com as direitas, faz o que o que a extrema direita precisava para se proclamar a \u00fanica for\u00e7a \u201cdiferente\u201d \u2013 primeiro com os social-democratas caminhando ao centro e se dissolvendo em um caldo comum com os democratas-crist\u00e3os, agora com o Linke ajudando o establishment na aprova\u00e7\u00e3o da Emenda, passando pela capitula\u00e7\u00e3o dos verdes nos anos 1990.<\/span><\/p>\n<h3><b>A Alemanha como espa\u00e7o estrat\u00e9gico central do \u201ccontinente\u201d Europeu<\/b><\/h3>\n<p><span>Continentes, a bem da verdade, s\u00e3o conceitos geopol\u00edticos, os europeus trataram de nome\u00e1-los e, assim, situ\u00e1-los de acordo com seus planos. A busca de um fundamento geogr\u00e1fico para o termo, ironicamente, esbarrou na pr\u00f3pria Europa: ela n\u00e3o \u00e9 um continente, mas sim uma pen\u00ednsula da \u00c1sia. Sua exist\u00eancia como algo aut\u00f4nomo se deu pela integra\u00e7\u00e3o promovida pela cristandade, mas n\u00e3o existia at\u00e9 a Idade M\u00e9dia.<\/span><\/p>\n<p><span>Nos prim\u00f3rdios, Europa e \u00c1sia eram, apenas, regi\u00f5es opostas, respectivamente ao ocidente e ao oriente do mar Egeu. Depois, elas se tornaram conceitos el\u00e1sticos. A consolida\u00e7\u00e3o dessa Europa sempre teve uma realidade de pot\u00eancias nas suas extremidades oeste (a Fran\u00e7a, mas depois Espanha e Portugal) e leste (a Pol\u00f4nia, depois em companhia com a Litu\u00e2nia, sucedida pela R\u00fassia) at\u00e9 a unifica\u00e7\u00e3o da Alemanha nos anos 1870, quando surgiu um n\u00facleo duro.<\/span><\/p>\n<p><span>O velho espa\u00e7o descentralizado e flex\u00edvel do Sacro-Imp\u00e9rio Romano Germ\u00e2nico do s\u00e9culo IX foi substitu\u00eddo por um Estado centralizado e coeso. Os acordos prec\u00e1rios das d\u00e9cadas seguintes buscaram organizar o colonialismo europeu \u2013 nas confer\u00eancias de Berlim \u2013 e ordenar a rela\u00e7\u00e3o entre as pot\u00eancias, mas o desequil\u00edbrio de for\u00e7as com o avan\u00e7o do Imp\u00e9rio Alem\u00e3o sobre o Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico, e erros pol\u00edticos, levaram \u00e0 <\/span><i><span>Primeira Guerra Mundial<\/span><\/i><span>.<\/span><\/p>\n<p><span>A Alemanha unificada demandou um tipo de tessitura de acordos, cujo desequil\u00edbrio levaria \u00e0 guerra \u2013 como terminou por acontecer em 1914 e 1939. Isso s\u00f3 foi detido \u00e0s custas da <\/span><i><span>paz armada<\/span><\/i><span> da Guerra Fria, com americanos e sovi\u00e9ticos dividindo o espa\u00e7o alem\u00e3o. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 de se desprezar que a destrui\u00e7\u00e3o da Alemanha, sua reconstru\u00e7\u00e3o contida e ordenada sob o ordoliberalismo no oeste e o socialismo real no leste, o que contribuiu para a paz.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>O fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e da Guerra Fria foi contrabalanceado, por seu turno, pela integra\u00e7\u00e3o europeia e, depois, com uma integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica assim\u00e9trica e err\u00e1tica com Moscou, mediante o com\u00e9rcio do g\u00e1s, o que j\u00e1 estava em curso nos anos 1980. O modelo econ\u00f4mico interno alem\u00e3o ocidental, igualmente, era um fator aut\u00f4nomo para a paz, mas sem a rivalidade socialista, seria \u2013 como foi \u2013 rebaixado pela elite econ\u00f4mica local.<\/span><\/p>\n<p><span>O elemento interno da reconstru\u00e7\u00e3o alem\u00e3 do p\u00f3s-guerra n\u00e3o pode ser desprezado. Mas, igualmente, n\u00e3o podemos ignorar como sua exist\u00eancia se dava num contexto de concorr\u00eancia com o socialismo real, no qual a Alemanha Ocidental tinha de prosperar. Sem esses riscos, a elite econ\u00f4mica alem\u00e3 se viu livre para defender sua \u201cdisfuncionalidade\u201d ou \u201cdesatualiza\u00e7\u00e3o\u201d e abra\u00e7ar o neoliberalismo.<\/span><\/p>\n<h3><b>A cabe\u00e7a de ponte \u201cdemocr\u00e1tica\u201d chegando \u00e0 Ucr\u00e2nia e o esgar\u00e7amento europeu<\/b><\/h3>\n<p><span>N\u00e3o \u00e0 toa, grande parte das <\/span><a href=\"https:\/\/archive.org\/details\/KissingerHenryDiplomacia\/page\/n209\/mode\/2up?q=alemania\"><span>reflex\u00f5es de Henry Kissinger<\/span><\/a><span> sobre o p\u00f3s-Guerra tratam do espa\u00e7o vazio deixado pela queda da Alemanha em 1945. As grandes negocia\u00e7\u00f5es entre sovi\u00e9ticos e americanos giraram em torno de como estabelecer essa divis\u00e3o. A Alemanha ora como espa\u00e7o flex\u00edvel ora como espa\u00e7o r\u00edgido muda, por completo, o equil\u00edbrio europeu e mundial, com consequ\u00eancias graves.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Nos anos 1990,<\/span><i><span> O grande tabuleiro de xadrez<\/span><\/i><span>, livro seminal de Zbigniew Brzezinski, a contraparte democrata de Kissinger, tratava da nova ordem mundial e a ideia de expans\u00e3o da Otan para leste europeu, mesmo ap\u00f3s a queda dos socialismo real \u2013 apontada, durante a Guerra Fria, como a \u00fanica causa da presen\u00e7a militar americana na Europa; no entanto, havia interesses mais diretos e concretos.<\/span><\/p>\n<p><span>Brzezinski dedicou um cap\u00edtulo inteiro de seu livro \u00e0 necessidade de uma \u201c<\/span><a href=\"https:\/\/archive.org\/details\/grand-chessboard-brzezinski-1997\/page\/56\/mode\/2up\"><span>cabe\u00e7a de ponte<\/span><\/a><span>\u201d que iria da Fran\u00e7a at\u00e9 a Ucr\u00e2nia, naturalmente, sob o dom\u00ednio americano. \u00c9 \u00f3bvio que isso demandava a expans\u00e3o da Otan at\u00e9 o mar Negro e, \u201ceventualmente\u201d at\u00e9 a Ucr\u00e2nia. Mesmo entusiastas da <\/span><i><span>d\u00e9tente<\/span><\/i><span> como Kissinger <\/span><a href=\"https:\/\/www.latimes.com\/archives\/la-xpm-1997-01-17-me-19382-story.html\"><span>se colocaram a favor desse avan\u00e7o<\/span><\/a><span> nos anos 1990, embora ele, em particular, tenha voltado atr\u00e1s disso nos anos 2000.<\/span><\/p>\n<p><span>O republicano George Bush Filho freou essa expans\u00e3o, brevemente, em 2001 at\u00e9 a oposi\u00e7\u00e3o de Vladimir Putin \u00e0 Guerra do Iraque, o que levou ao avan\u00e7o da Otan para o leste em 2004, chegando \u00e0 costa oeste do mar Negro com a assimila\u00e7\u00e3o da Bulg\u00e1ria e da Rom\u00eania. Tudo isso anteviu a trag\u00e9dia da Guerra na Ucr\u00e2nia de 2022, o que foi o segmento de um conflito armado desde 2014, e tocado no banho-maria desde ent\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span>Mesmo a derrota dos democratas nas elei\u00e7\u00f5es de 2024 n\u00e3o mudou a posi\u00e7\u00e3o europeia, dominada por for\u00e7as pol\u00edticas alinhadas ao Partido Democrata e hostis ao governo Trump, este retornado em termos mais radicais, que em virtude de sua agenda particular na economia, age para frear o conflito ucraniano \u2013 e como o leitor atento deve lembrar que tratamos h\u00e1 quinze dias.<\/span><\/p>\n<p><span>Portanto, para al\u00e9m da panor\u00e2mica de Mike Davis, abordando o rearmamento em v\u00e1rias frentes na Europa, a quest\u00e3o do rearmamento alem\u00e3o nos parece de uma natureza mais grave e perigosa. Sem fontes energ\u00e9ticas pr\u00f3prias e apartadas da R\u00fassia pela natureza do conflito, os alem\u00e3es rearmados se veem em uma situa\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0s duas guerras mundiais, quando trocaram a colabora\u00e7\u00e3o e o com\u00e9rcio pelas armas.<\/span><\/p>\n<h3><b>O neoliberalismo militar<\/b><\/h3>\n<p><span>Por outro lado, h\u00e1 uma distin\u00e7\u00e3o apenas relativa entre a economia alem\u00e3 de hoje e a dos anos 1930, quando o liberal Hjalmar Schacht foi ministro das Finan\u00e7as de Adolf Hitler. O nazismo nunca tocou adiante uma economia estatal, mas sim amplamente privada e liderada pelas suas grandes corpora\u00e7\u00f5es, redirecionadas para o campo b\u00e9lico, como <\/span><a href=\"https:\/\/www.bresserpereira.org.br\/terceiros\/2019\/abril\/19.04-Ernesto-Araujo-nazismo.pdf\"><span>sempre nos lembra<\/span><\/a><span> o professor Luiz Gonzaga Belluzzo.<\/span><\/p>\n<p><span>O que se pode chamar de economia pol\u00edtica nazista teve menos fundamento em uma teoria s\u00f3lida pr\u00f3pria. Ela foi um arranjo liderado por tecnocratas liberais como Schacht. A resposta para isso, com a Alemanha destru\u00edda, foi o<\/span><i><span> ordoliberalismo alem\u00e3o<\/span><\/i><span>, que genuinamente se op\u00f4s a Hitler j\u00e1 nos anos 1930, com Konrad Adenauer \u00e0 frente \u2013 mas n\u00e3o podemos omitir a grande quantidade de quadros nazistas admitidos nas fileiras democratas-crist\u00e3s.<\/span><\/p>\n<p><span>Ainda que sobre o peso da divis\u00e3o e da polariza\u00e7\u00e3o das duas superpot\u00eancias em seu territ\u00f3rio restante ao final da Guerra, a Alemanha Ocidental edificou um modelo de capitalismo centrado em uma generosa rede prote\u00e7\u00e3o social e integra\u00e7\u00e3o continental e global. Esse elemento persistiu, em termos, mesmo com a reunifica\u00e7\u00e3o \u2013 a anexa\u00e7\u00e3o da Alemanha Oriental \u2013 n\u00e3o mudou isso pela integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica russo-alem\u00e3.<\/span><\/p>\n<p><span>Se o termo \u201ckeynesianismo militar\u201d \u00e9, em grande medida, uma ironia injusta com John Maynard Keynes \u2013 por sua observa\u00e7\u00e3o acerca de que os governos s\u00f3 acreditam em suas teorias sobre o investimento p\u00fablico em um cen\u00e1rio de guerra \u2013 aqui, isso \u00e9 uma imprecis\u00e3o. Trata-se, pois, de uma vers\u00e3o de militarismo que une a austeridade ao gasto sistem\u00e1tico e grandioso no setor b\u00e9lico, semelhante \u00e0 economia de Reagan nos Estados Unidos.<\/span><\/p>\n<p><span>Se nos anos 1910, a capitula\u00e7\u00e3o da social-democracia \u00e0 agenda b\u00e9lica da burguesia alem\u00e3 contribuiu, enormemente, para a Primeira Guerra, a postura do Linke \u00e9 uma repeti\u00e7\u00e3o farsesca do mesmo, ainda mais depois que o bloco parlamentar anti-imperialista de Sahra Wagenknecht foi deixado de fora do parlamento \u2013 em grande parte pela brutal m\u00e1 vontade do <\/span><i><span>establishment<\/span><\/i><span> alem\u00e3o com ela, contrastado com sua boa vontade com o atual Linke.<\/span><\/p>\n<p><span>Com a ruptura imposta, a partir dos Estados Unidos, das rela\u00e7\u00f5es comerciais russo-alem\u00e3s sobre a quest\u00e3o energ\u00e9tica \u2013 que possu\u00edam natureza, a bem da verdade colonial, favorecendo a Alemanha \u2013 junto da mudan\u00e7a do car\u00e1ter do capitalismo alem\u00e3o nos anos 2000, para uma vertente liberal mais radical, produz-se uma bifurca\u00e7\u00e3o: ou uma revers\u00e3o [pelo menos parcial] dos rumos tomados ou um aprofundamento que culminar\u00e1 em guerra.<\/span><\/p>\n<h3><b>Ep\u00edlogo: uma <\/b><b><i>Reaganomics <\/i><\/b><b>que fala alem\u00e3o significa algum tipo de cat\u00e1strofe<\/b><\/h3>\n<p><span>Uma vers\u00e3o alem\u00e3 da <\/span><i><span>Reaganomics<\/span><\/i><span>, em raz\u00e3o da falta de reservas energ\u00e9ticas no seu pr\u00f3prio territ\u00f3rio ou sob seu dom\u00ednio, impele a na\u00e7\u00e3o germ\u00e2nica \u00e0 guerra, mesmo tendo uma sociedade que construiu sua subjetividade longe da caserna \u2013 o que pode tornar os efeitos disso al\u00e9m de mau, em algo ruim. Sem uma ruptura \u00e0 esquerda com isso, a Alemanha cair\u00e1 inexoravelmente nas m\u00e3os da extrema direita para, ironicamente, alcan\u00e7ar a paz.<\/span><\/p>\n<p><span>Nesse sentido, a <\/span><i><span>Reaganomics<\/span><\/i><span>, que drenou recursos de v\u00e1rios setores para uma pol\u00edtica belicista nos Estados Unidos, foi um equivalente light, e em um posi\u00e7\u00e3o superior, da economia de guerra nazista, cujo escopo n\u00e3o foi gerir seus dom\u00ednios, mas adquiri-los \u2013 diante da insufici\u00eancia energ\u00e9tica do territ\u00f3rio alem\u00e3o, o que demandou a conquista de um espa\u00e7o vital para todos os lados, colocando o pa\u00eds em in\u00fameras e desastrosas frentes.<\/span><\/p>\n<p><span>A AfD sabe muito bem que a \u00fanica forma de realizar o neoliberalismo, ao qual ela n\u00e3o se op\u00f5e, dentro de um ambiente de paz \u00e9 necess\u00e1rio reatar com a R\u00fassia, cujas rela\u00e7\u00f5es eram amplamente favor\u00e1veis \u00e0 Alemanha \u2013 apesar disso favorecer a uma fra\u00e7\u00e3o ocidentalista da oligarquia russa. Isso produz um efeito que bagun\u00e7a o coreto de quem v\u00ea a atual polaridade pol\u00edtica alem\u00e3, mas tamb\u00e9m global, como um jogo de democratas (liberais) versus fascistas.<\/span><\/p>\n<p><span>Sem o combate a uma economia pol\u00edtica comum, que produz essa polaridade, as esquerdas est\u00e3o presas \u2013 l\u00e1 e em toda parte \u2013 \u00e0 <\/span><i><span>condi\u00e7\u00e3o de S\u00edsifo<\/span><\/i><span> na mitologia grega, empurrando uma pedra at\u00e9 o alto de uma montanha at\u00e9 ela rola, lhe obrigando a retomar o trabalho: eleger uma frente democr\u00e1tica que, ao chegar ou retornar ao poder, trope\u00e7a nas pr\u00f3prias pernas, trazendo a extrema direita de volta.<\/span><\/p>\n<p><span>Isso se torna perigoso na medida em que a banda liberal-democrata dessa polariza\u00e7\u00e3o est\u00e9ril se torna, ironicamente, o partido da guerra, em uma escalada que se torna perigosa \u2013 seja na Ucr\u00e2nia ou na Palestina, mas tamb\u00e9m pode estourar em outras partes sens\u00edveis do mundo, como a Coreia, o Estreito de Taiwan, a \u00c1frica Ocidental ou, at\u00e9 mesmo, na nossa Am\u00e9rica Latina.<\/span><\/p>\n<p><span>Por mais que a esquerda seja marginal, e minorit\u00e1ria, em um pa\u00eds como a Alemanha, sua anu\u00eancia \u00e9 necess\u00e1ria, como foi na Primeira Guerra. Sua trai\u00e7\u00e3o pode ser, novamente, a pedra de toque para um grande desastre \u2013 mas o que vemos at\u00e9 aqui n\u00e3o \u00e9 bom, nem muito animador. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, de todo modo, abra\u00e7ar uma pol\u00edtica <\/span><i><span>nacional-chauvinista<\/span><\/i><span> para vencer fascistas, pois a \u201cvit\u00f3ria\u201d seria se tornar um deles.<\/span><\/p>\n<p><b><i>(*) Hugo Albuquerque <\/i><\/b><i><span>\u00e9 jurista e editor da Autonomia Liter\u00e1ria.<\/span><\/i><\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/operamundi.uol.com.br\/opiniao\/a-alemanha-abraca-o-neoliberalismo-militar\/\">A Alemanha abra\u00e7a o neoliberalismo militar<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/operamundi.uol.com.br\/\">Opera Mundi<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/vorcaro-compareceu-ao-casamento-da-filha-de-ciro-nogueira-dias-antes-de-senador-apresentar-emenda-master\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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