{"id":21671,"date":"2025-04-11T17:07:39","date_gmt":"2025-04-11T20:07:39","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/lula-mais-agitprop-e-menos-marketing\/"},"modified":"2025-04-11T17:07:39","modified_gmt":"2025-04-11T20:07:39","slug":"lula-mais-agitprop-e-menos-marketing","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/lula-mais-agitprop-e-menos-marketing\/","title":{"rendered":"Lula: mais agitprop e menos marketing"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"484\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/image_processing20200201-29235-hn1zsg.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/image_processing20200201-29235-hn1zsg.jpg 800w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/image_processing20200201-29235-hn1zsg-300x182.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/image_processing20200201-29235-hn1zsg-768x465.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\"><figcaption>Foto: Ricardo Stuckert<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Por <strong>Luis Felipe Miguel<\/strong>, em seu <em><a href=\"https:\/\/lfmiguel.substack.com\/\">substack<\/a><\/em><\/p>\n<p>Existem muitos motivos para deplorar o imp\u00e9rio das pesquisas de popularidade sobre o comportamento dos agentes pol\u00edticos.<\/p>\n<p>As pesquisas levam a que a a\u00e7\u00e3o de governantes e parlamentares seja guiada pela expectativa do impacto no curt\u00edssimo prazo, o que contribui para impedir a ado\u00e7\u00e3o de um programa mais coerente. S\u00e3o centrais para produ\u00e7\u00e3o da chamada \u201ccampanha permanente\u201d, reconhecida como um dos fatores de decad\u00eancia da ordem democr\u00e1tica. Incentivam a transfer\u00eancia cada vez maior de poder decis\u00f3rio para os marqueteiros, vistos como aqueles que teriam a capacidade milagrosa de orientar o p\u00fablico e redefinir essa popularidade. O logro e a mistifica\u00e7\u00e3o tornam-se, mais do que nunca, a ess\u00eancia de toda a pol\u00edtica.<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/apoia.se\/outraspalavras\" aria-label=\"MAT\u00c9RIA-GERAL\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/MATERIA-GERAL-5.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/MATERIA-GERAL-5.png 681w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-GERAL-300x75.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 681px) 100vw, 681px\" width=\"681\" height=\"171\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>Em vez da amplia\u00e7\u00e3o da capacidade de escrut\u00ednio cr\u00edtico e de interlocu\u00e7\u00e3o efetiva com seus representantes pelos cidad\u00e3os comuns, o horizonte \u00e9 a busca por f\u00f3rmulas para manipular seu comportamento de maneira instant\u00e2nea.<\/p>\n<p>Tudo isso com base em n\u00fameros que s\u00e3o mais do que discut\u00edveis. N\u00e3o estou nem falando das dificuldades crescentes que os institutos de pesquisa enfrentam para produzir amostras confi\u00e1veis da popula\u00e7\u00e3o \u2013 e essas dificuldades existem, ainda que os respons\u00e1veis pelas empresas, preocupados com a manuten\u00e7\u00e3o do mercado milion\u00e1rio em que atuam, costumem ser discretos ao tratar do assunto.<\/p>\n<p>Assim, Felipe Nunes, dono da Quaest, escreve (em livro em coautoria com Thomas Traumann) que os institutos de pesquisa \u201cn\u00e3o fazem sondagens com o intuito de predizer o resultado num\u00e9rico da elei\u00e7\u00e3o. Eles produzem estimativas da inten\u00e7\u00e3o de voto dos eleitores no momento em que as entrevistas s\u00e3o realizadas. Revelam, portanto inten\u00e7\u00f5es \u2013 que podem ou n\u00e3o ser executadas de fato, j\u00e1 que o comportamento do eleitor \u00e9 determinado por uma s\u00e9rie de fatores\u201d.<\/p>\n<p>Com isso, as sondagens se tornam imunes a cr\u00edticas. Nunca h\u00e1 uma realidade contra a qual seus resultados possam ser confrontados \u2013 o que permite que os n\u00fameros sobre atitudes, cren\u00e7as e valores, que n\u00e3o t\u00eam uma elei\u00e7\u00e3o como horizonte final, continuem transitando como indiscut\u00edveis.<\/p>\n<p>Mas a quest\u00e3o \u00e9 mais profunda, diz respeito ao estatuto epistemol\u00f3gico das sondagens de opini\u00e3o (ou <em>surveys<\/em>, no termo ingl\u00eas que se tornou de uso corrente). Essa discuss\u00e3o tem sido feita h\u00e1 d\u00e9cadas, por autores como Herbert Blumer, Pierre Bourdieu, Patrick Champagne, Karina Duailibe e tantos outros.<\/p>\n<p>Para come\u00e7ar, como escreveu Bourdieu num artigo hoje cl\u00e1ssico, do in\u00edcio dos anos 1970 (\u201cL\u2019opinion publique n\u2019existe pas\u201d, a opini\u00e3o p\u00fablica n\u00e3o existe), a dissemina\u00e7\u00e3o do uso de <em>surveys<\/em> modificou o sentido de opini\u00e3o p\u00fablica, que passou a se referir a uma cole\u00e7\u00e3o de opini\u00f5es <em>privadas<\/em>, ecoando uma ideologia que parece democr\u00e1tica (cada um teria direito a um \u201cvoto\u201d na sondagem), mas que \u00e9 enganosa, j\u00e1 que no mundo social em que vivemos as opini\u00f5es de alguns grupos, que controlam recursos escassos como dinheiro e acesso \u00e0 m\u00eddia, t\u00eam maior visibilidade e maior influ\u00eancia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o <em>survey<\/em> leva as preocupa\u00e7\u00f5es de um campo espec\u00edfico (pol\u00edtica, mercado, academia) \u00e0 sociedade, no que provoca um deslocamento \u2013 que pode ser grave \u2013 na compreens\u00e3o da realidade social. Ningu\u00e9m acorda de manh\u00e3 e, se olhando no espelho ao escovar os dentes, pensa: \u201cQue nota eu dou hoje para o governo Lula, numa escala de 0 a 10?\u201d ou \u201cMinha maior preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 a economia ou a seguran\u00e7a p\u00fablica?\u201d<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2024\/03\/05\/por-um-feminismo-anticapitalista-antirracista-e-antilgbtqfobico\/\" aria-label=\"banner-outras-palavras-8m\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/banner-outras-palavras-8m-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/banner-outras-palavras-8m-1.jpg 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/banner-outras-palavras-8m-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>O que o question\u00e1rio coleta, portanto, s\u00e3o respostas \u00e0s suas perguntas, n\u00e3o necessariamente opini\u00f5es. Para saber se h\u00e1 opini\u00f5es de fato, isto \u00e9, posi\u00e7\u00f5es com algum grau de reflex\u00e3o que orientam comportamentos, o <em>survey<\/em> precisa ser complementado e corrigido por outras t\u00e9cnicas de investiga\u00e7\u00e3o, a come\u00e7ar pelas pr\u00f3ximas da etnografia. Sem isso, corremos o risco de encontrar uma dist\u00e2ncia, \u00e0s vezes grande, entre a resposta ao question\u00e1rio e a a\u00e7\u00e3o efetiva. Um exemplo famoso \u00e9 o <em>survey<\/em> entre estudantes na Fran\u00e7a no come\u00e7o de 1968, que revelou que era a gera\u00e7\u00e3o mais ap\u00e1tica e desmobilizada da hist\u00f3ria. Semanas depois, eclodiu a grande rebeli\u00e3o juvenil\u2026<\/p>\n<p>Muitas vezes, os respondentes t\u00eam dificuldade de se transportar \u00e0s hip\u00f3teses \u2013 um dos fatores que explica a pouca confiabilidade de pesquisas de inten\u00e7\u00e3o de voto em per\u00edodo muito distante da elei\u00e7\u00e3o. A maioria das pessoas n\u00e3o est\u00e1 se preocupando com isso e s\u00f3 vai come\u00e7ar a formar uma decis\u00e3o depois que a campanha efetivamente come\u00e7ar.<\/p>\n<p>Os <em>surveys<\/em>, assim, funcionam em primeiro lugar como um amuleto \u2013 servem para dar aos agentes pol\u00edticos algum grau de certeza, ainda que enganosa, em meio a um mundo social dif\u00edcil de decifrar.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m grande parte da Ci\u00eancia Pol\u00edtica ainda prefere trat\u00e1-las como atalhos infal\u00edveis para entrar na mente do p\u00fablico \u2013 por comodismo, creio eu, mais do que por uma an\u00e1lise aprofundada de sua real validade metodol\u00f3gica.<\/p>\n<p>(Isso \u00e9 frequente. Anos atr\u00e1s, publiquei <a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/rbcpol\/a\/fpBKv3bYGqhQRgs5HRJkJyR\/?format=pdf&amp;lang=pt\">um artigo com uma cr\u00edtica epistemol\u00f3gica e metodol\u00f3gica aos \u00edndices de val\u00eancia<\/a>, que eram muito usados em estudos de m\u00eddia e pol\u00edtica. Perdi a conta das vezes em que vi notas de rodap\u00e9 com refer\u00eancia ao meu texto, seguida de uma observa\u00e7\u00e3o do tipo \u201cainda assim, acho \u00fatil trabalhar com essa medida\u201d \u2013 s\u00f3 porque ela \u00e9 f\u00e1cil de operacionalizar e leva a resultados, muitas vezes, retumbantes, ainda que simplificadores ou mesmo enganosos.)<\/p>\n<p>Mas os amuletos funcionam \u2013 como falam os antrop\u00f3logos a respeito da magia, ela \u00e9 eficaz se todos acreditam nela. As pesquisas de popularidade e as sondagens antecipadas de inten\u00e7\u00e3o de voto orientam escolhas de diversos operadores pol\u00edticos, como dirigentes partid\u00e1rios, cabos eleitorais, financiadores de campanha. Estar bem posicionado nelas \u00e9, assim, um atrativo que permite angariar recursos importantes. Quase uma profecia autorrealiz\u00e1vel.<\/p>\n<p>(Por isso, ali\u00e1s, Champagne, de forma provocativa, sugeriu inverter a velha proposta legislativa e proibir a divulga\u00e7\u00e3o de resultados de pesquisas de inten\u00e7\u00e3o de voto n\u00e3o perto do momento da elei\u00e7\u00e3o, quando poderiam orientar o voto estrat\u00e9gico de todos os eleitores, mas meses antes, quando n\u00e3o se referem a nenhuma realidade concreta.)<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a quest\u00e3o para Lula. As sondagens mostram uma renitente avalia\u00e7\u00e3o negativa do governo, a despeito de alguns indicadores econ\u00f4micos que, segundo certa sabedoria convencional da pol\u00edtica, deveriam gerar efeito oposto \u2013 em particular o baixo \u00edndice de desemprego, uma eleva\u00e7\u00e3o (ainda que muito modesta) da massa salarial e o crescimento do PIB.<\/p>\n<p>O governo insiste que o problema est\u00e1 na \u201ccomunica\u00e7\u00e3o\u201d \u2013 e aumenta a press\u00e3o sobre o ministro Sid\u00f4nio Palmeira, colocado no cargo com a expectativa de que faria uma m\u00e1gica capaz de restaurar a popularidade do presidente.<\/p>\n<p>Mas esse diagn\u00f3stico revela uma vis\u00e3o da disputa que podia fazer sentido nos dois primeiros mandatos de Lula, mas n\u00e3o faz mais agora, diante de uma extrema-direita radicalizada, com discurso fortemente ideol\u00f3gico. O peso do bem-estar material na avalia\u00e7\u00e3o subjetiva dos governos mudou, diante de amea\u00e7as et\u00e9reas como o \u201ccomunismo\u201d ou a \u201cideologia de g\u00eanero\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o peso desses indicadores \u00e9 sobredimensionado. Se \u00e9 verdade que o desemprego diminuiu e a mis\u00e9ria recuou, que temos em Bras\u00edlia um governo de verdade, n\u00e3o a insanidade bolsonarista, por outro lado existe a carestia dos alimentos, existe a falta de um projeto percept\u00edvel de desenvolvimento e existe, sobretudo, a incapacidade do governo implementar suas pol\u00edticas \u2013 porque o or\u00e7amento est\u00e1 sequestrado pelo Congresso, porque est\u00e1 imobilizado pelos muitos interesses a que precisa responder, pela predile\u00e7\u00e3o por pol\u00edticas simb\u00f3licas voltadas a afagar grupos espec\u00edficos, pela incompet\u00eancia de muitos dos seus gestores.<\/p>\n<p>A seguran\u00e7a p\u00fablica est\u00e1 do jeito que todos sabemos, na sa\u00fade o governo ainda n\u00e3o foi capaz sequer de recolocar nos eixos o programa nacional de vacina\u00e7\u00e3o, a educa\u00e7\u00e3o continua subfinanciada (e a resposta do governo \u00e9 distribuir bolsas e \u201cp\u00e9s-de-meia\u201d, isto \u00e9, apostar em incentivos de car\u00e1ter individualista sem produzir mudan\u00e7as reais), a reforma agr\u00e1ria continua paralisada, n\u00e3o h\u00e1 nenhum esfor\u00e7o efetivo de recomposi\u00e7\u00e3o dos direitos trabalhistas e assim por diante.<\/p>\n<p>Por outro lado, o governo se recusa a enfrentar os privil\u00e9gios ou mesmo o golpismo das For\u00e7as Armadas, n\u00e3o \u00e9 capaz de transformar seu compromisso com o meio ambiente de palavras em a\u00e7\u00f5es, \u00e9 carinhoso com a elite pol\u00edtica corrupta, com o latif\u00fandio, com o mercado financeiro.<\/p>\n<p>Em suma: existem muitos motivos para considerar que o governo n\u00e3o est\u00e1 indo bem. N\u00e3o \u00e9 preciso ter simpatia pelo bolsonarismo para chegar a essa conclus\u00e3o.<\/p>\n<p>Lula encarna a defesa de uma democracia abstrata e uma vis\u00e3o nefelibata da gest\u00e3o p\u00fablica \u2013 uma das consequ\u00eancias do negacionismo cient\u00edfico bolsonarista foi o refor\u00e7o, como resposta a ele, de no\u00e7\u00f5es despolitizantes como a apologia de programas \u201cbaseados em evid\u00eancias\u201d. Sim, \u00e9 necess\u00e1rio levar em conta as evid\u00eancias, mas pol\u00edticas p\u00fablicas n\u00e3o s\u00e3o decis\u00f5es t\u00e9cnicas e sim respostas (sempre provis\u00f3rias e questionadas) a conflitos de interesse. Sem isso, reca\u00edmos na tecnocracia.<\/p>\n<p>E Lula se equilibra no esfor\u00e7o de atender a dois senhores: n\u00e3o me melindrar o \u201cmercado\u201d e garantir alguma melhoria para os mais pobres. Isso nunca foi suficiente, mas, agora, menos ainda.<\/p>\n<p>Nas circunst\u00e2ncias em que nos encontramos, com uma disputa pol\u00edtica acirrada pela presen\u00e7a de uma extrema-direita aguerrida, o governo n\u00e3o precisa tanto de popularidade, sim de <em>apoio<\/em>. Isto \u00e9, precisaria ser capaz de mobilizar sua base social contra advers\u00e1rios claramente identificados que impedem qualquer tipo de avan\u00e7o. Como escrevi h\u00e1 alguns meses, \u201cmais do que de marketing, o governo est\u00e1 precisando de <em>agitprop<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma oportunidade para come\u00e7ar a travar essa disputa, com o projeto de reforma do imposto sobre a renda que est\u00e1 tramita\u00e7\u00e3o no Congresso. Ela contempla uma eleva\u00e7\u00e3o, \u00e9 verdade que bem modesta, da taxa\u00e7\u00e3o dos mais ricos.<\/p>\n<p>A direita naturalmente \u00e9 contra a medida. Seus modelos s\u00e3o Donald Trump e Javier Milei; seu projeto \u00e9 a aboli\u00e7\u00e3o de qualquer progressividade tribut\u00e1ria; seu discurso opera com as fantasias do \u201cEstado m\u00ednimo\u201d e do \u201cefeito <em>trickle down<\/em>\u201d, a balela segundo a qual \u00e9 bom que os ricos fiquem cada vez mais ricos porque a prosperidade escorreria do topo para a base da pir\u00e2mide.<\/p>\n<p>O relator do projeto \u00e9 ningu\u00e9m menos do que o deputado Arthur Lira, que se inclina por minimizar qualquer aumento do imposto sobre os grandes rendimentos.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma batalha boa a ser travada. Marca com clareza a diferen\u00e7a entre um projeto pol\u00edtico que est\u00e1 integralmente a servi\u00e7o dos privilegiados e outro que ao menos inclui as necessidades dos mais pobres. No final das contas, n\u00e3o \u00e9 essa a primeira linha divis\u00f3ria que precisamos tra\u00e7ar? Uma parte importante do nosso esfor\u00e7o n\u00e3o deve ser recolocar essa clivagem como central para as escolhas pol\u00edticas, dissipando as nuvens de fuma\u00e7a que a propaganda da direita insiste em produzir?<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a tributa\u00e7\u00e3o progressiva \u00e9 uma das pautas mais f\u00e1ceis de serem defendidas. Quando falamos, por exemplo, da redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho (outro item com potencial para mobilizar sua base social, mas que o governo foi incapaz de encampar), h\u00e1 v\u00e1rios aspectos a serem considerados envolvendo o impacto nos pre\u00e7os, a situa\u00e7\u00e3o dos pequenos empregadores etc. Imposto progressivo, n\u00e3o: ele \u00e9 sustentado pelo simples bom senso e por um sentido de justi\u00e7a elementar.<\/p>\n<p>H\u00e1 um vasto arsenal de informa\u00e7\u00f5es que o governo pode disponibilizar em favor de seu projeto. \u00c9 preciso indicar com clareza quem ser\u00e3o os atingidos pela medida (aqueles com renda superior a R$ 50 mil mensais, o topo do topo da pir\u00e2mide); mostrar como a estrutura de impostos no Brasil \u00e9 injusta; apresentar os dados que provam que, mesmo aprovada a nova legisla\u00e7\u00e3o, continuaremos com uma progressividade muito baixa e uma carga tribut\u00e1ria pequena em rela\u00e7\u00e3o aos outros pa\u00edses do mundo. \u00c9 preciso, na verdade, deixar claro que qualquer governo interessado em melhorar a vida do povo vai ter que enfrentar a resist\u00eancia dos ricos.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata apenas, nem mesmo preferencialmente, de calibrar a comunica\u00e7\u00e3o dos perfis do governo. \u00c9 preciso usar as ferramentas que ele tem a sua disposi\u00e7\u00e3o. Lula deveria falar em rede nacional de r\u00e1dio e televis\u00e3o, por exemplo, com contund\u00eancia. A propaganda paga governamental deveria ser utilizada em favor do projeto. Afinal, o governo Temer n\u00e3o passou meses martelando a defesa de sua malfadada reforma da previd\u00eancia em comerciais de TV, em an\u00fancios de jornal, em postagens impulsionadas nas plataformas sociodigitais?<\/p>\n<p>O governo est\u00e1 com a faca e o queijo na m\u00e3o para fazer este enfrentamento e mostrar, finalmente, que tem lado.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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