{"id":22124,"date":"2025-04-14T20:08:33","date_gmt":"2025-04-14T23:08:33","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/quem-sao-os-brasileiros-que-alimentam-as-ias\/"},"modified":"2025-04-14T20:08:33","modified_gmt":"2025-04-14T23:08:33","slug":"quem-sao-os-brasileiros-que-alimentam-as-ias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/quem-sao-os-brasileiros-que-alimentam-as-ias\/","title":{"rendered":"Quem s\u00e3o os brasileiros que alimentam as IAs"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Screenshot-2025-04-14-at-20-17-02-headereconomiaaiwebp-imagem-WEBP-1200-675-pixels-Redimensionada-92-1-1024x576-1.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Screenshot-2025-04-14-at-20-17-02-headereconomiaaiwebp-imagem-WEBP-1200-675-pixels-Redimensionada-92-1-1024x576-1.png 1024w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Screenshot-2025-04-14-at-20-17-02-headereconomiaai.webp-imagem-WEBP-1200-\u00d7-675-pixels-Redimensionada-92-1-300x169.png 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Screenshot-2025-04-14-at-20-17-02-headereconomiaai.webp-imagem-WEBP-1200-\u00d7-675-pixels-Redimensionada-92-1-768x432.png 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Screenshot-2025-04-14-at-20-17-02-headereconomiaai.webp-imagem-WEBP-1200-\u00d7-675-pixels-Redimensionada-92-1.png 1105w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption>Imagem publicado pelo Globo<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Este texto \u00e9 um cap\u00edtulo do livro <strong><a href=\"https:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/produto\/as-novas-infraestruturas-produtivas-153049?srsltid=AfmBOoqOqjojkEBvw0e2xFFsfUNm6d79MwUpkHJOCYG1x_kn1TlETpul\">As Novas Infraestruturas Produtivas: digitaliza\u00e7\u00e3o do trabalho, e-log\u00edstica e ind\u00fastria 4.0,<\/a><\/strong> organizado por Ricardo Festi e J\u00f6rg Nowak e publicado pela editora Boitempo, parceira de Outras Palavras. Quem colabora com nosso jornalismo tem desconto de 20% em todos dos t\u00edtulos da editora. <strong><a href=\"https:\/\/apoia.se\/outraspalavras\">Saiba como apoiar<\/a><\/strong><\/p>\n<div>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"290\" height=\"420\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Screenshot-2025-04-14-at-19-57-12-338699-1webp-imagem-WEBP-290-420-pixels.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Screenshot-2025-04-14-at-19-57-12-338699-1webp-imagem-WEBP-290-420-pixels.png 290w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Screenshot-2025-04-14-at-19-57-12-338699-1.webp-imagem-WEBP-290-\u00d7-420-pixels-207x300.png 207w\" sizes=\"(max-width: 290px) 100vw, 290px\"><\/figure>\n<\/div>\n<h3><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia artificial (IA) \u00e9 comumente associada ao trabalho de engenheiros de software ou profissionais altamente qualificados, vinculados a grandes empresas ou start-ups especializadas, que se desenvolveram inspiradas na ideologia californiana <em><strong>[<\/strong><\/em><em><strong>1<\/strong><\/em><em><strong>]<\/strong><\/em>. Contudo, o desenvolvimento de \u201ctecnologias inteligentes\u201d depende tamb\u00e9m, em diferentes etapas, de uma multid\u00e3o de trabalhadores precarizados, sub-remunerados e invisibilizados, os quais dispersos globalmente realizam atividades repetitivas, fragmentadas, pagas por tarefa e feitas em poucos segundos.<\/p>\n<p>Trata-se de trabalhadores que rotulam dados para treinar algoritmos, mediante tarefas que necessitam das capacidades intuitivas, criativas e cognitivas dos seres humanos, tais como categoriza\u00e7\u00e3o de imagens, classifica\u00e7\u00e3o de publicidades, transcri\u00e7\u00e3o de \u00e1udios e v\u00eddeos, avalia\u00e7\u00e3o de an\u00fancios, modera\u00e7\u00e3o de conte\u00fados em m\u00eddias sociais, rotulagem de pontos de interesse anat\u00f4micos humanos, digitaliza\u00e7\u00e3o de documentos etc. <em><strong>[2]<\/strong><\/em>. Embora se trate de um processo essencial ao aprendizado de m\u00e1quina (machine ou deep learning), esse trabalho \u00e9 externalizado para plataformas digitais ou para redes especializadas de terceiriza\u00e7\u00e3o <em><strong>[3]<\/strong><\/em>, bem como \u00e9 realizado nas franjas da informalidade, sem quaisquer prote\u00e7\u00f5es social ou trabalhista (salvo algumas exce\u00e7\u00f5es), tampouco autonomia para negocia\u00e7\u00e3o de remunera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/apoia.se\/outraspalavras\" aria-label=\"MAT\u00c9RIA-GERAL\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/MATERIA-GERAL-7.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/MATERIA-GERAL-7.png 681w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-GERAL-300x75.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 681px) 100vw, 681px\" width=\"681\" height=\"171\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>Esta forma de trabalho \u00e9 frequentemente designada por \u201cmicrotrabalho\u201d. Tal termo ganhou popularidade em meados dos anos 2000, baseado no conceito de \u201cmicrocr\u00e9dito\u201d, abordagem econ\u00f4mica que teria supostamente por finalidade garantir inclus\u00e3o financeira a popula\u00e7\u00f5es vulnerabilizadas e marginalizadas, sem acesso a servi\u00e7os banc\u00e1rios. \u00c9 nessa esteira discursiva que surgem as plataformas digitais especializadas em rotulagem e treinamento de dados para IA, como se a produ\u00e7\u00e3o de dados pudesse oferecer uma possibilidade semelhante, por\u00e9m relacionada \u00e0 obten\u00e7\u00e3o de renda on-line. No mundo todo, estima-se que haja mais de 160 milh\u00f5es de trabalhadores <em><strong>[<\/strong><\/em><em><strong>4<\/strong><\/em><em><strong>]<\/strong><\/em> registrados em plataformas de microtrabalho e freelancer <em><strong>[<\/strong><\/em><em><strong>5<\/strong><\/em><em><strong>]<\/strong><\/em>. Nas plataformas de trabalho freelancer, a m\u00e9dia global de remunera\u00e7\u00e3o \u00e9 de 7,6 d\u00f3lares por hora, enquanto nas de treinamento de dados a m\u00e9dia \u00e9 de 3,3 d\u00f3lares por hora <em><strong>[<\/strong><\/em><em><strong>6<\/strong><\/em><em><strong>]<\/strong><\/em>. Numa perspectiva mais ampla, uma pesquisa realizada pelo Banco Mundial estima que globalmente h\u00e1 entre 154 e 435 milh\u00f5es de trabalhadores subordinados a diferentes tipos de plataformas digitais <em><strong>[<\/strong><\/em><em><strong>7<\/strong><\/em><em><strong>]<\/strong><\/em>.<\/p>\n<p>Os estudos sobre o microtrabalho surgiram em meados de 2010 <strong>[<\/strong><strong>8<\/strong><strong>]<\/strong> e a maior parte das pesquisas se concentra em pa\u00edses da Europa e da Am\u00e9rica do Norte. Os principais produtores de IA no mundo est\u00e3o sediados no Norte Global, por\u00e9m se servem majoritariamente de m\u00e3o de obra barata proveniente do Sul Global <em><strong>[<\/strong><\/em><em><strong>9<\/strong><\/em><em><strong>]<\/strong><\/em>. Pesquisas recentes evidenciaram ainda a expressiva presen\u00e7a de trabalhadores de diferentes pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina nessa cadeia produtiva <em><strong>[<\/strong><\/em><em><strong>10<\/strong><\/em><em><strong>]<\/strong><\/em>.<\/p>\n<p>No Brasil, Rafael Grohmann <em><strong>[<\/strong><\/em><em><strong>11<\/strong><\/em><em><strong>]<\/strong><\/em> e Ricardo Antunes <em><strong>[<\/strong><\/em><em><strong>12<\/strong><\/em><em><strong>]<\/strong><\/em> organizaram obras coletivas dedicadas \u00e0 compreens\u00e3o dos impactos das plataformas digitais no mundo do trabalho, inclusive no que diz respeito \u00e0 produ\u00e7\u00e3o da IA e \u00e0 nova morfologia do trabalho em nossa sociedade. A plataformiza\u00e7\u00e3o do trabalho e a uberiza\u00e7\u00e3o, nesse sentido, t\u00eam sido objeto de in\u00fameros debates, notadamente relacionados ao processo hist\u00f3rico de informaliza\u00e7\u00e3o do trabalho em territ\u00f3rio nacional <em><strong>[<\/strong><\/em><em><strong>13<\/strong><\/em><em><strong>]<\/strong><\/em>. Todavia, ainda s\u00e3o incipientes as pesquisas emp\u00edricas concernentes ao trabalho digital de rotulagem e treinamentos de dados para IA <em><strong>[<\/strong><\/em><em><strong>14<\/strong><\/em><em><strong>]<\/strong><\/em>.<\/p>\n<p>Em contraposi\u00e7\u00e3o, Viana Braz <em><strong>[<\/strong><\/em><em><strong>15<\/strong><\/em><em><strong>]<\/strong><\/em> constatou a exist\u00eancia de ao menos 54 plataformas de microtrabalho em opera\u00e7\u00e3o no Brasil, sendo que 29 abarcavam microtarefas de gera\u00e7\u00e3o, anota\u00e7\u00e3o ou verifica\u00e7\u00e3o de dados para aprendizado de m\u00e1quina, o que indica que o Brasil constitui uma das principais reservas de m\u00e3o de obra desse mercado na Am\u00e9rica Latina. Mas quem s\u00e3o, afinal, os trabalhadores brasileiros que atuam nessas plataformas? Em quais condi\u00e7\u00f5es realizam seus trabalhos? Quanto ganham? Por que recorrem \u00e0s plataformas? Quais as diferen\u00e7as entre trabalhadores do Norte Global e do Sul Global, quando nos remetemos \u00e0 produ\u00e7\u00e3o e \u00e0 qualifica\u00e7\u00e3o de dados que sustentam a produ\u00e7\u00e3o da IA? Esse trabalho poderia, enfim, ser considerado como uma s\u00f3lida oportunidade de renda para pa\u00edses subdesenvolvidos ou em desenvolvimento.<\/p>\n<p>Para responder a essas interroga\u00e7\u00f5es, buscamos cartografar o perfil sociodemogr\u00e1fico dos trabalhadores brasileiros no mercado de anota\u00e7\u00e3o de dados, para depois analisarmos em quais condi\u00e7\u00f5es realizam suas atividades. Para tanto, fizemos uma pesquisa explorat\u00f3ria que abarcou m\u00e9todos mistos. Primeiro, elaboramos uma etnografia digital dos anos de 2020 e 2021, em 24 grupos de WhatsApp e Facebook relacionados a esse mercado <em><strong>[<\/strong><\/em><em><strong>16<\/strong><\/em><em><strong>]<\/strong><\/em>. A partir dessa inser\u00e7\u00e3o no campo, no ano seguinte convidamos individualmente alguns membros desses grupos e realizamos quinze entrevistas em profundidade. Tratou-se de dez mulheres e cinco homens, com idade m\u00ednima de 22 e m\u00e1xima de 54 anos. Entre os participantes, treze pessoas possu\u00edam ensino superior completo, em diferentes \u00e1reas, como direito, engenharia de petr\u00f3leo, fisioterapia, engenharia civil, administra\u00e7\u00e3o, biotecnologia, letras, com\u00e9rcio exterior e ci\u00eancia da computa\u00e7\u00e3o. Todos trabalhavam em ao menos uma e no m\u00e1ximo quatro plataformas concomitantemente, entre as seguintes: Amazon Mechanical Turk, Appen, Telus (anteriormente denominada Lionbridge), Clickworker, Quadrant e OneForma.<\/p>\n<p>Em 2023, servimo-nos de metodologia an\u00e1loga \u00e0quela utilizada nos trabalhos de Casilli et al., Kalil e Moreschi et al. <em><strong>[<\/strong><\/em><em><strong>17<\/strong><\/em><em><strong>]<\/strong><\/em> e aplicamos um question\u00e1rio on-line a 477 trabalhadores brasileiros que atuavam na plataforma Microworkers. O instrumento foi desenvolvido no bojo do DiPLab (Digital Platform Labor Research Group), traduzido da vers\u00e3o em espanhol (aplicado em pa\u00edses como Argentina, Bol\u00edvia, Chile, Col\u00f4mbia, Costa Rica, Equador, Rep\u00fablica Dominicana, Venezuela etc.) e adaptado para o portugu\u00eas, de acordo com particularidades do Brasil. O question\u00e1rio compreendia cerca de 120 quest\u00f5es, relacionadas a informa\u00e7\u00f5es sociodemogr\u00e1ficas variadas, como n\u00edveis de escolaridade, situa\u00e7\u00e3o familiar, experi\u00eancia profissional, renda, uso da internet, rela\u00e7\u00f5es sociais e condi\u00e7\u00f5es de trabalho nas plataformas. A escolha pela plataforma justificou-se pelo fato de abarcar variadas modalidades de microtrabalho. No que concerne \u00e0s quest\u00f5es \u00e9ticas espec\u00edficas das pesquisas em plataformas de microtrabalho, fundamentamo-nos nas reflex\u00f5es e recomenda\u00e7\u00f5es realizadas por Molina et al. <em><strong>[<\/strong><\/em><em><strong>18<\/strong><\/em><em><strong>]<\/strong><\/em>. Para an\u00e1lise dos dados, primeiro fizemos uma caracteriza\u00e7\u00e3o das plataformas de treinamentos de dados, de maneira a compreendermos como elas se inserem em cadeias globais de suprimentos para produ\u00e7\u00e3o da IA. Depois, problematizamos a sociodemografia e as condi\u00e7\u00f5es de trabalho dos brasileiros nesse mercado, com foco nas assimetrias existentes entre pa\u00edses do Norte Global e do Sul Global.<\/p>\n<h3><strong>Fabricando os dados e invisibilizando o trabalho<\/strong><\/h3>\n<p>Pedro, 54 anos, \u00e9 graduado em com\u00e9rcio exterior, por\u00e9m trabalha como corretor. Concilia essa atividade com outro trabalho, em plataformas digitais cujas tarefas implicam atividades como transcrever \u00e1udios, classificar avalia\u00e7\u00f5es de an\u00fancios em websites de empresas e catalogar descritores para aperfei\u00e7oar os mecanismos de busca do Google. No passado, participou tamb\u00e9m de projetos relacionados \u00e0 modera\u00e7\u00e3o de conte\u00fados pornogr\u00e1ficos e violentos em m\u00eddias sociais como Facebook e Instagram. Clara, 38 anos, \u00e9 graduada em administra\u00e7\u00e3o e morou no exterior por alguns anos. Ao voltar para o Brasil, trabalhou como professora de ingl\u00eas, mas n\u00e3o se adaptou \u00e0 escola \u00e0 qual estava vinculada. Desde ent\u00e3o, trabalha em plataformas de microtarefas variadas, notadamente relacionadas a avalia\u00e7\u00f5es de an\u00fancios, classifica\u00e7\u00e3o de dados e modera\u00e7\u00e3o de conte\u00fados em m\u00eddias sociais. Izabela, por sua vez, tem 29 anos e \u00e9 m\u00e3e solo de uma filha de 9 anos. Mudou-se do Nordeste para o Sudeste do pa\u00eds para fazer um mestrado em uma prestigiada universidade p\u00fablica. Como sua bolsa de pesquisa n\u00e3o lhe oferece condi\u00e7\u00f5es financeiras suficientes para se manter, trabalha todas as noites em plataformas como Appen e OneForma, realizando microtarefas de transcri\u00e7\u00f5es de \u00e1udios. Embora possuam trajet\u00f3rias de vida bastante distintas, o que Pedro, Clara e Izabela t\u00eam em comum?<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/www.belasartesalacarte.com.br\/\" aria-label=\"OUTRAS PALAVRAS _A LA CAARTE728x90px\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/OUTRAS-PALAVRAS-_A-LA-CAARTE728x90px-1-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/OUTRAS-PALAVRAS-_A-LA-CAARTE728x90px-1-1.jpg 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/OUTRAS-PALAVRAS-_A-LA-CAARTE728x90px-1-1-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>Os tr\u00eas trabalham em plataformas digitais, como Appen, OneForma, Telus, Clickworker e Microworkers, voltadas \u00e0 rotulagem de dados para o desenvolvimento da IA. Se os dados s\u00e3o uma das principais fontes de valor na ind\u00fastria de \u201ctecnologias inteligentes\u201d (como carros aut\u00f4nomos, assistentes de voz e chatbots como o ChatGPT), fabric\u00e1-los e trein\u00e1-los \u00e9 mais complexo do que comumente imaginamos. O trabalho de gera\u00e7\u00e3o e anota\u00e7\u00e3o de dados \u00e9 vastamente utilizado na produ\u00e7\u00e3o da IA e cumpre uma variedade de fun\u00e7\u00f5es que gravitam em torno de tr\u00eas polos: prepara\u00e7\u00e3o, verifica\u00e7\u00e3o e imita\u00e7\u00e3o da IA <em><strong>[19]<\/strong><\/em>, conforme evidenciado na figura 1.<\/p>\n<p>No primeiro caso, para que empresas, start-ups ou laborat\u00f3rios de pesquisa desenvolvam algum tipo de IA, extensas bases de dados precisam ser geradas e qualificadas (via anota\u00e7\u00e3o e rotulagem), para que sejam estabelecidos os par\u00e2metros t\u00e9cnicos dos algoritmos de aprendizagem. Esse processo exige um trabalho cognitivo sens\u00edvel, elementar para extra\u00e7\u00e3o e gera\u00e7\u00e3o de valor de tais dados <em><strong>[21]<\/strong><\/em>. Na ind\u00fastria de reconhecimento facial, por exemplo, a prepara\u00e7\u00e3o da IA compete a trabalhadores que, mediante plataformas digitais ou redes especializadas de terceiriza\u00e7\u00e3o, realizam manualmente microtarefas de gera\u00e7\u00e3o de dados, identifica\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es de reconhecimento, classifica\u00e7\u00e3o de express\u00f5es faciais e rotulagem de diferentes partes anat\u00f4micas do rosto (nariz, boca, olhos etc.) <em><strong>[22]<\/strong><\/em>.<\/p>\n<p>Mesmo ap\u00f3s os processos de gera\u00e7\u00e3o e anota\u00e7\u00e3o de dados, os par\u00e2metros t\u00e9cnicos da produ\u00e7\u00e3o da IA precisam ser continuamente aperfei\u00e7oados, sobretudo para corre\u00e7\u00e3o de eventuais falhas e para garantir maior acur\u00e1cia t\u00e9cnica dos resultados dos algoritmos de aprendizagem. E aqui nos remetemos \u00e0 fun\u00e7\u00e3o de verifica\u00e7\u00e3o dos resultados da IA. Em plataformas digitais como Appen e Clickworker, microtarefas de verifica\u00e7\u00e3o s\u00e3o recorrentes e envolvem, por exemplo, ouvir \u00e1udios e verificar se a transcri\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica gerada pelo assistente virtual est\u00e1 correta ou n\u00e3o <em><strong>[23]<\/strong><\/em>. Nesse cen\u00e1rio, Perrigo <em><strong>[24]<\/strong><\/em> revelou em reportagem publicada na revista <em>Time<\/em> que, visando deixar o ChatGPT menos \u201ct\u00f3xico\u201d, a OpenAI (empresa propriet\u00e1ria) contou com a terceiriza\u00e7\u00e3o de quenianos, contratados por menos de dois d\u00f3lares por hora, para realizarem tarefas de verifica\u00e7\u00e3o e rotulagem de dados relacionadas a coment\u00e1rios violentos que descreviam detalhadamente situa\u00e7\u00f5es de abuso sexual infantil, assassinato, incesto, zoofilia, suic\u00eddio, tortura e automutila\u00e7\u00e3o. A referida empresa, denominada Sama, \u00e9 sediada em S\u00e3o Francisco e se especializou na terceiriza\u00e7\u00e3o de trabalhadores no Qu\u00eania, em Uganda e na \u00cdndia, para rotular dados para clientes como Microsoft, Google e Meta <em><strong>[25]<\/strong><\/em>.<\/p>\n<p>Em outras situa\u00e7\u00f5es, como o desenvolvimento do aprendizado de m\u00e1quina \u00e9 caro e por vezes falho, trabalhadores passam a desempenhar fun\u00e7\u00f5es que supostamente deveriam ser realizadas por m\u00e1quinas. Trata-se da imita\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia artificial. \u00c9 o caso, por exemplo, do Google Duplex, assistente virtual voltado \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de liga\u00e7\u00f5es a empresas para agendamento de reservas e confirma\u00e7\u00e3o de hor\u00e1rios. Em 2019, contudo, descobriu-se que cerca de 25% das chamadas realizadas pela ferramenta eram feitas por humanos em call centers, os quais imitavam a IA <em><strong>[<\/strong><\/em><em><strong>26<\/strong><\/em><em><strong>]<\/strong><\/em>.<\/p>\n<p>Nessa mesma dire\u00e7\u00e3o, Le Ludec et al. <em><strong>[<\/strong><\/em><em><strong>27<\/strong><\/em><em><strong>]<\/strong><\/em> relatam o caso de uma start-up francesa que criou uma IA centrada em vis\u00e3o computacional que permite que c\u00e2meras de vigil\u00e2ncia em lojas identifiquem furtos de maneira automatizada. Ao perceber algum tipo de comportamento suspeito, os caixas ou gerentes de lojas recebem mensagens autom\u00e1ticas de alerta em seus celulares. Tr\u00eas empresas terceirizadas em Madagascar e uma na Indon\u00e9sia fazem o microtrabalho de prepara\u00e7\u00e3o de dados e verifica\u00e7\u00e3o dos resultados da IA da companhia na Fran\u00e7a, que envolve majoritariamente assistir a v\u00eddeos de c\u00e2meras (com pessoas supostamente roubando, desembalando ou danificando produtos) e rotular comportamentos considerados suspeitos, em menos de um minuto. Os autores revelaram, todavia, que alguns v\u00eddeos a serem rotulados eram, na realidade, reproduzidos em tempo real, diretamente das c\u00e2meras de alguns clientes da start-up. Mais que prepara\u00e7\u00e3o e verifica\u00e7\u00e3o, trabalhadores imitavam a IA e cumpriam a fun\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7as remotamente <em><strong>[<\/strong><\/em><em><strong>28<\/strong><\/em><em><strong>]<\/strong><\/em>.<\/p>\n<p>Processamentos de linguagem natural (que utilizam Large Language Models), vis\u00e3o computacional, an\u00e1lises preditivas, sistemas aut\u00f4nomos, assim como toda tecnologia baseada em aprendizado de m\u00e1quina, incluindo a intelig\u00eancia artificial generativa, dependem vastamente do trabalho humano de prepara\u00e7\u00e3o, verifica\u00e7\u00e3o ou imita\u00e7\u00e3o da IA. A t\u00edtulo de ilustra\u00e7\u00e3o, segundo relat\u00f3rio produzido pela Cognilytica <em><strong>[<\/strong><\/em><em><strong>29<\/strong><\/em><em><strong>]<\/strong><\/em>, estima-se que o mercado de gera\u00e7\u00e3o e anota\u00e7\u00e3o de dados para IA chegar\u00e1 a 3,5 bilh\u00f5es de d\u00f3lares at\u00e9 o fim de 2024. Tarefas de prepara\u00e7\u00e3o e rotulagem de dados, nesse contexto, representam cerca de 80% do tempo gasto na maior parte dos projetos de IA que envolvem aprendizado de m\u00e1quina <em><strong>[<\/strong><\/em><em><strong>30<\/strong><\/em><em><strong>]<\/strong><\/em>. Evidencia-se, portanto, que esse trabalho constitui um ingrediente secreto da cadeia de suprimentos da IA. Secreto, pois ele parece ser invisibilizado, por parte dos produtores da IA globalmente, de modo que, sobretudo no Brasil, segue ainda distante da esfera p\u00fablica e da agenda regulat\u00f3ria, tanto no \u00e2mbito da IA como no do trabalho plataformizado.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos dez anos, esse mercado se diversificou e se expandiu de maneira heterog\u00eanea. A Amazon Mechanical Turk, primeira plataforma global de treinamentos de dados, lan\u00e7ada em 2005 por Jeff Bezos, parece ter perdido relev\u00e2ncia, frente ao surgimento de novas plataformas intermedi\u00e1rias <em><strong>[<\/strong><\/em><em><strong>31<\/strong><\/em><em><strong>]<\/strong><\/em> e tamb\u00e9m devido \u00e0 cria\u00e7\u00e3o do SageMaker Ground Truth, plataforma interna que se serve de tarefas humanas para aprimorar seus modelos de aprendizado de m\u00e1quina. Schmidt <em><strong>[<\/strong><\/em><em><strong>32<\/strong><\/em><em><strong>]<\/strong><\/em>, nessa dire\u00e7\u00e3o, discorre que a demanda de maior acur\u00e1cia e complexidade das tarefas tamb\u00e9m resultou num processo de especializa\u00e7\u00e3o das plataformas em mercados e projetos determinados.<\/p>\n<p>Existem plataformas de anota\u00e7\u00f5es de dados focadas em microtarefas de uso geral (general-purpose crowdwork), nas quais as tarefas s\u00e3o ofertadas numa esp\u00e9cie de market place aberto, como ocorre na Neevo, Microworkers, Hive Work e Amazon Mechanical Turk. H\u00e1, tamb\u00e9m, plataformas constru\u00eddas por meio de m\u00faltiplas camadas e n\u00edveis de complexidade (specialized full-service crowd-AI stacks), como Appen, Telus, Quadrant, Mighty AI e Scale AI. S\u00e3o organizadas mediante projetos espec\u00edficos, nos quais os trabalhadores precisam fazer provas, para atestar habilidades e conhecimentos pr\u00e9-definidos. Ao serem aprovados, ap\u00f3s assinarem um acordo de confidencialidade (non-disclosure agreement), estabelece-se um contrato de tempo parcial e s\u00e3o direcionados para outra camada nas plataformas. Nesse plano, deve-se cumprir uma quantidade espec\u00edfica de horas ou tarefas por dia e a remunera\u00e7\u00e3o ocorre mediante um valor\/hora definido pela plataforma <em><strong>[<\/strong><\/em><em><strong>33<\/strong><\/em><em><strong>]<\/strong><\/em>.<\/p>\n<p>No mundo todo, os trabalhadores dedicam em m\u00e9dia 18,6 horas semanais a atividades remuneradas nessas plataformas, e 32% deles t\u00eam como principal fonte de renda o trabalho de anota\u00e7\u00e3o de dados <em><strong>[<\/strong><\/em><em><strong>34<\/strong><\/em><em><strong>]<\/strong><\/em>. Como o processo de distribui\u00e7\u00e3o e avalia\u00e7\u00e3o das atividades \u00e9 controlado por algoritmos, os pre\u00e7os s\u00e3o definidos unilateralmente, assim como \u00e9 comum que haja rejei\u00e7\u00f5es injustas das tarefas realizadas, de modo que os trabalhadores n\u00e3o recebem por trabalhos conclu\u00eddos e n\u00e3o raro tampouco recebem justificativas dos motivos da rejei\u00e7\u00e3o, pois n\u00e3o h\u00e1 comunica\u00e7\u00e3o entre o cliente e o trabalhador. Al\u00e9m de culminar na perda de rendimentos, as reprova\u00e7\u00f5es reduzem suas classifica\u00e7\u00f5es nas plataformas, o que limita suas possibilidades de terem acesso a melhores projetos <em><strong>[35]<\/strong><\/em>.<\/p>\n<p>Ainda que os modelos de neg\u00f3cios tenham se diversificado nos \u00faltimos anos, as diferen\u00e7as de remunera\u00e7\u00e3o e condi\u00e7\u00f5es de trabalho desses mercados evidenciam a cria\u00e7\u00e3o de canais mundiais de deslocamento da for\u00e7a de trabalho, em que atividades mal pagas e invisibilizadas refletem assimetrias e tens\u00f5es hist\u00f3ricas entre o Norte Global e o Sul Global. Em pa\u00edses desenvolvidos, a m\u00e9dia de rendimentos por hora \u00e9 de 4 d\u00f3lares, contra 2,10 d\u00f3lares em pa\u00edses em desenvolvimento. Ademais, em estudo conduzido pela Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho <em><strong>[<\/strong><\/em><em><strong>36<\/strong><\/em><em><strong>]<\/strong><\/em>, que abarcou cinco plataformas em 75 pa\u00edses, constatou-se que o rendimento m\u00e9dio por hora dos trabalhadores nessas plataformas \u00e9 de 4,70 d\u00f3lares na Am\u00e9rica do Norte, 3 d\u00f3lares na Europa e na \u00c1sia Central, 2,22 d\u00f3lares na \u00c1sia Pac\u00edfico e 1,33 d\u00f3lar na \u00c1frica. Descortina-se, nesse contexto, uma s\u00e9rie de desigualdades digitais, intensificadas pela pandemia de covid-19 <em><strong>[<\/strong><\/em><em><strong>37<\/strong><\/em><em><strong>]<\/strong><\/em> e relacionadas a marcadores de ra\u00e7a <em><strong>[<\/strong><\/em><em><strong>38<\/strong><\/em><em><strong>]<\/strong><\/em>, g\u00eanero <em><strong>[<\/strong><\/em><em><strong>39<\/strong><\/em><em><strong>]<\/strong><\/em>, classe, educa\u00e7\u00e3o <em><strong>[<\/strong><\/em><em><strong>40<\/strong><\/em><em><strong>]<\/strong><\/em> e territ\u00f3rio <em><strong>[<\/strong><\/em><em><strong>41<\/strong><\/em><em><strong>]<\/strong><\/em>.<\/p>\n<p>No Brasil, Viana Braz <strong>[<\/strong><strong>42<\/strong><strong>]<\/strong> observou que o trabalho de anota\u00e7\u00e3o e rotulagem de dados se insere num ecossistema mais amplo, de plataformas de microtrabalho que se difundem por meio da promessa de renda extra on-line, de maneira supostamente f\u00e1cil e r\u00e1pida. Esse mercado abarca tamb\u00e9m plataformas de fazendas de cliques (click farms), voltadas ao mercado de compra e venda de seguidores, curtidas, coment\u00e1rios e inscritos em m\u00eddias sociais como Instagram, Facebook, YouTube, TikTok, Kwai e Spotify <em><strong>[<\/strong><\/em><em><strong>43<\/strong><\/em><em><strong>]<\/strong><\/em>. Carece na literatura, no entanto, uma caracteriza\u00e7\u00e3o desses trabalhadores que compreenda as nuances e as particularidades presentes em territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n<h3><strong>Quem s\u00e3o os trabalhadores brasileiros por tr\u00e1s da intelig\u00eancia artificial?<\/strong><\/h3>\n<p>Os trabalhadores brasileiros s\u00e3o em sua maioria jovens, com idade entre 18 e 35 anos (70,6%), mulheres (63,9%) e casados, vivem com parceiros ou possuem uni\u00e3o est\u00e1vel (60,8%). Os tr\u00eas estados brasileiros com maior presen\u00e7a de trabalhadores foram S\u00e3o Paulo (28,8%), Rio de Janeiro (12,6%) e Minas Gerais (9,7%). As taxas de escolariza\u00e7\u00e3o observadas foram maiores que as m\u00e9dias da popula\u00e7\u00e3o brasileira. Chama aten\u00e7\u00e3o que, enquanto cerca de 20% da popula\u00e7\u00e3o brasileira acima de 25 anos possui ao menos ensino superior completo <em><strong>[<\/strong><\/em><em><strong>44<\/strong><\/em><em><strong>]<\/strong><\/em>, esse montante \u00e9 de 49,5% na referida amostra, n\u00edveis estes correspondentes \u00e0 m\u00e9dia (47,4%) encontrada entre os pa\u00edses da Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico <em><strong>[<\/strong><\/em><em><strong>45<\/strong><\/em><em><strong>]<\/strong><\/em>.<\/p>\n<p>Tal como constatado nos estudos de Moreschi e de Grohmann e Ara\u00fajo <em><strong>[<\/strong><\/em><em><strong>46<\/strong><\/em><em><strong>]<\/strong><\/em>, parece ser comum a utiliza\u00e7\u00e3o de m\u00faltiplas plataformas, inclusive concomitantemente. Parte significativa dos trabalhadores da Microworkers (n=342\/477) declarou j\u00e1 ter trabalhado em outras plataformas. Dentre as mais utilizadas, destacam-se Clickworker (48,6%), Appen (37,5%) OneForma (28,1%), Picoworkers (24,5%), UHRS (14,9%) e Telus (13,1%). Al\u00e9m disso, mais de 50% dos trabalhadores relataram j\u00e1 ter realizado atividades relacionadas a vendas on-line, jogos de azar ou apostas esportivas on-line, o que confirma que o trabalho de anota\u00e7\u00e3o de dados para IA est\u00e1 inserido em um ecossistema amplo, direcionado \u00e0 obten\u00e7\u00e3o de renda extra na internet. Diante do aumento da precariza\u00e7\u00e3o do trabalho, em um pa\u00eds no qual cerca de 40% da for\u00e7a de trabalho (38 milh\u00f5es de pessoas) est\u00e1 na informalidade <em><strong>[<\/strong><\/em><em><strong>47<\/strong><\/em><em><strong>]<\/strong><\/em>, o trabalho plataformizado parece ter emergido como mais uma alternativa de renda, sobretudo para jovens, substancialmente qualificados, por\u00e9m que n\u00e3o encontram no mercado formal de empregos condi\u00e7\u00f5es suficientes para se sustentarem.<\/p>\n<p>Necessidade de dinheiro, flexibilidade de hor\u00e1rios e prefer\u00eancia por trabalhar em casa s\u00e3o as principais motiva\u00e7\u00f5es que levam os trabalhadores a realizarem microtarefas. Em conson\u00e2ncia com o estudo de Berg et al. <em><strong>[48]<\/strong><\/em>, 33,5% dos participantes t\u00eam como \u00fanica fonte de renda as plataformas, por\u00e9m os rendimentos constatados foram expressivamente inferiores. Em m\u00e9dia, os brasileiros recebem 1,80 d\u00f3lar por hora (valor an\u00e1logo aos pagamentos feitos aos quenianos subcontratados pela OpenAI), o que corresponde a menos de dez reais por hora. Trata-se de trabalhadores que dedicam cerca de quinze horas e trinta minutos semanais \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de microtarefas, para receberem, em contrapartida, em m\u00e9dia 582,71 reais mensais.<\/p>\n<p>Contando com todas as suas fontes de renda (incluindo a rotulagem de dados), 1.866 reais \u00e9 o rendimento m\u00e9dio mensal dos trabalhadores, o equivalente a menos de 1,5 sal\u00e1rio m\u00ednimo em 2024.<\/p>\n<p>Ao nos aprofundarmos nos dados coletados, as caracter\u00edsticas da informaliza\u00e7\u00e3o do trabalho nessa popula\u00e7\u00e3o ficam ainda mais evidentes. Por exemplo, 66% dos trabalhadores contam com uma quantidade m\u00ednima de dinheiro a ser obtida nas plataformas para o pagamento de suas contas. Mais ainda, 49,8% tiveram pelo menos dois trabalhos informais e 68,9% ao menos tr\u00eas empregos formais ao longo da vida. Entre os participantes que estavam contratados formalmente em alguma outra organiza\u00e7\u00e3o (para al\u00e9m das plataformas), 40,5% trabalhavam em tempo parcial, enquanto na m\u00e9dia global esse percentual \u00e9 de 33% <em><strong>[<\/strong><\/em><em><strong>49<\/strong><\/em><em><strong>]<\/strong><\/em>. Dentre eles, 72% atuavam em ocupa\u00e7\u00f5es que exigiam alta qualifica\u00e7\u00e3o. Esse valor se distingue das taxas de 65% nos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina e Caribe, 61% na regi\u00e3o da \u00c1sia-Pac\u00edfico, 59% na Europa e \u00c1sia Central e menos de 20% na Am\u00e9rica do Norte <em><strong>[<\/strong><\/em><em><strong>50<\/strong><\/em><em><strong>]<\/strong><\/em>.<\/p>\n<p>Contrasta com a literatura <strong>[51]<\/strong> o fato de que a maior parte dos participantes (63,9%) s\u00e3o mulheres, o que parece ser uma particularidade do Brasil em rela\u00e7\u00e3o a outros pa\u00edses, onde comumente a maioria dos trabalhadores s\u00e3o homens. Contudo, em conson\u00e2ncia com os estudos feitos pela Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho <em><strong>[52]<\/strong><\/em>, em \u00e2mbito global os rendimentos das mulheres s\u00e3o ligeiramente superiores aos dos homens, em parte porque elas entram nas plataformas com mais frequ\u00eancia e realizam microtarefas em hor\u00e1rios mais bem remunerados. A t\u00edtulo de elucida\u00e7\u00e3o, no Brasil, 67,9% das mulheres e 55,8% dos homens fazem login pelo menos uma vez por dia para procurar novas tarefas remuneradas nas plataformas. Enquanto a maior propor\u00e7\u00e3o de homens (43,6%) trabalha nessas plataformas fora do hor\u00e1rio comercial (das 18h \u00e0s 22h), 54,8% das mulheres trabalham habitualmente entre as 14h e as 18h. Nossos resultados confirmam os principais achados do estudo de Tubaro et al. <em><strong>[53]<\/strong><\/em>, o qual sugere que as mulheres tendem a entrar nas plataformas por per\u00edodos mais curtos e com maior frequ\u00eancia do que os homens. Isso indica que o tempo livre dessas mulheres parece ser cada vez mais direcionado para a realiza\u00e7\u00e3o de microtarefas.<\/p>\n<p>Ainda no \u00e2mbito das assimetrias de g\u00eanero em territ\u00f3rio nacional, entre os participantes desempregados, 73,7% s\u00e3o mulheres. Al\u00e9m disso, 38,7% das mulheres dependem exclusivamente de plataformas para obter rendimentos, em compara\u00e7\u00e3o com 24,1% dos homens. Enquanto 55,2% dos homens s\u00e3o assalariados, somente 41,3% das mulheres possuem empregos formais. No que diz respeito ao tempo dedicado a tarefas dom\u00e9sticas (como fazer compras, limpar, cuidar dos filhos, cozinhar etc.), as mulheres e os homens relatam gastar em m\u00e9dia, respectivamente, 13 horas e 48 minutos e 8 horas e 37 minutos por semana, o que corresponde a uma diferen\u00e7a de 37,5%.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, 62,6% das mulheres s\u00e3o m\u00e3es ou tutoras legais de um ou mais filhos, em compara\u00e7\u00e3o com 45,3% dos homens. Em termos de apoio financeiro, 62,3% das mulheres e 39,5% dos homens dependem dos seus parceiros para sustentar suas fam\u00edlias. Por fim, 53,5% dos homens s\u00e3o os principais provedores de seus lares, enquanto para as mulheres esse percentual cai praticamente para a metade (26,9%). Em resumo, constatamos que as plataformas n\u00e3o oferecem uma alternativa s\u00f3lida e est\u00e1vel de rentabilidade aos trabalhadores. Em especial, encerram-se as mulheres em um c\u00edrculo insidioso, pois o trabalho de rotulagem de dados se soma a outros trabalhos invis\u00edveis feitos dentro de suas casas, ao mesmo tempo que n\u00e3o garante a elas autonomia financeira.<\/p>\n<p>Observamos tamb\u00e9m que o trabalho de rotulagem de dados se opera mediante uma estrat\u00e9gia de dispers\u00e3o por parte das plataformas <em><strong>[54]<\/strong><\/em>, que n\u00e3o permitem aos trabalhadores entrar em contato uns com os outros. Com efeito, 69,6% dos trabalhadores brasileiros n\u00e3o conhecem mais ningu\u00e9m que trabalhe nas plataformas. Apenas 22,2% da amostra relatou participar em f\u00f3runs ou comunidades de discuss\u00e3o on-line sobre o microtrabalho. Entre elas, as plataformas mais populares s\u00e3o WhatsApp e Telegram (53,2% e 15,3%, respectivamente). Dentre esses trabalhadores, 45,4% alegam que fazem parte desses grupos para conversar com outras pessoas que trabalham on-line. Compartilhar informa\u00e7\u00f5es sobre tarefas criticadas por outros trabalhadores, queixar-se das plataformas e se atualizar sobre tarefas dispon\u00edveis s\u00e3o outras motiva\u00e7\u00f5es para participar de tais espa\u00e7os.<\/p>\n<p>\u00c9 revelador, nesse cen\u00e1rio, que as principais queixas dos trabalhadores abrangem a instabilidade financeira, a falta de transpar\u00eancia algor\u00edtmica e, em especial, o cansa\u00e7o e a falta de intera\u00e7\u00e3o entre eles <em><strong>[<\/strong><\/em><em><strong>55<\/strong><\/em><em><strong>]<\/strong><\/em>. Eles mencionaram, ademais, que as \u201cpiores tarefas\u201d seriam aquelas relacionadas \u00e0 modera\u00e7\u00e3o de conte\u00fados violentos e pornogr\u00e1ficos nas m\u00eddias sociais. H\u00e1 tamb\u00e9m aquelas caracterizadas como \u201cestranhas\u201d, que tamb\u00e9m entrariam nesse rol. Helena, 54 anos, por exemplo, nos relatou que trabalhara em um projeto voltado \u00e0 gera\u00e7\u00e3o de dados de \u201crob\u00f4s aspiradores de p\u00f3\u201d, de modo a treinar uma IA que fosse capaz de identificar fezes de cachorros e evitar que o aparelho passasse por cima delas. As microtarefas consistiam em tirar \u201cfotos de coc\u00f4s\u201d de tais animais em variados ambientes dom\u00e9sticos. Alguns centavos de d\u00f3lares eram pagos para cada foto enviada. A trabalhadora nos relatou que passara dois dias movendo as fezes de seu cachorro e chegou a tirar mais de 250 fotos em diferentes locais de sua resid\u00eancia.<\/p>\n<p>Quando se trata de moderar conte\u00fados violentos e pornogr\u00e1ficos nas redes sociais, os trabalhadores manifestaram preocupa\u00e7\u00f5es com o custo psicol\u00f3gico de tais atividades e com a falta de apoio que recebem das plataformas. Revolta, inc\u00f4modo, impot\u00eancia e tristeza foram alguns dos sentimentos relatados pelos trabalhadores nessas tarefas <em><strong>[<\/strong><\/em><em><strong>56<\/strong><\/em><em><strong>]<\/strong><\/em>, conforme ilustrado nos relatos de Lucas e Pedro:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Eu trabalhava em um projeto do Facebook, tinha que verificar o an\u00fancio, pra avaliar se tinha sangue, viol\u00eancia, abuso, se continha arma. Muitas vezes, peguei an\u00fancio pesado. [\u2026] Voc\u00ea precisa ter um psicol\u00f3gico forte pra trabalhar nisso. Voc\u00ea tinha que fazer tudo dentro de uma hora. Eles s\u00f3 te pagam o valor referente \u00e0 hora. Eles falam que se voc\u00ea for ver e n\u00e3o conseguir terminar nem come\u00e7a. Precisava de ter um apoio psicol\u00f3gico, um amparo. Uma mulher que conheci teve que fazer tratamento. \u00c9 preciso tentar minimizar o impacto dos trabalhadores que ficam assistindo a mortes, pra tirar a imagem da cabe\u00e7a da pessoa, porque ningu\u00e9m consegue acostumar com isso. (Lucas, 23 anos.)<br \/>N\u00e3o d\u00e1 para se sentir bem com isso, n\u00e9? A gente sente nojo do ser humano, infelizmente! Pensar que esse tipo de a\u00e7\u00e3o vem de uma esp\u00e9cie como a sua; \u00e9 horr\u00edvel voc\u00ea ver como o ser humano \u00e9 capaz de fazer esse tipo de coisa. (Pedro, 54 anos.)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Embora essas tarefas suscitem ang\u00fastia e sentimentos ansiog\u00eanicos aos trabalhadores, as plataformas parecem se eximir dos riscos psicossociais concernentes a tais atividades. Conforme destacado em estudo anterior <strong>[<\/strong><strong>57<\/strong><strong>]<\/strong> , no acordo de confidencialidade da OneForma, por exemplo, precisamente no item 5, nomeado \u201cIsen\u00e7\u00e3o de conte\u00fado adulto\u201d (adult contents waiver), consta o seguinte: \u201cO contratado est\u00e1 ciente da poss\u00edvel exist\u00eancia de conte\u00fados adultos em materiais transmitidos como parte dos trabalhos nos projetos atrav\u00e9s do website e, consequentemente, aceita a mencionada possibilidade, renunciando a todas as reclama\u00e7\u00f5es decorrentes desse fato\u201d <strong>[<\/strong><strong>58<\/strong><strong>]<\/strong> (tradu\u00e7\u00e3o nossa). Igualmente, no acordo de participa\u00e7\u00e3o da Amazon Mechanical Turk, precisamente no item 2, a plataforma \u00e9 enf\u00e1tica ao destacar que \u201cn\u00e3o somos respons\u00e1veis pelas a\u00e7\u00f5es de nenhum Requisitante ou Trabalhador [\u2026]. Seu uso do site ocorre por sua conta e risco\u201d <em><strong>[<\/strong><\/em><em><strong>59<\/strong><\/em><em><strong>]<\/strong><\/em>.<\/p>\n<p>Roberts <em><strong>[<\/strong><\/em><em><strong>60<\/strong><\/em><em><strong>]<\/strong><\/em> chama aten\u00e7\u00e3o para o fato de que n\u00e3o h\u00e1 estudos longitudinais suficientes na literatura acerca dos efeitos do trabalho de modera\u00e7\u00e3o de conte\u00fados na sa\u00fade mental dos trabalhadores. Nosso estudo n\u00e3o oferece dados conclusivos a esse respeito, contudo constatamos uma falta de amparo psicol\u00f3gico e espa\u00e7os de apoio para que esses trabalhadores expressem seus sofrimentos. Na pr\u00e1tica, as estrat\u00e9gias encontradas para preserva\u00e7\u00e3o de sa\u00fade s\u00e3o notadamente individualizadas <em><strong>[<\/strong><\/em><em><strong>61<\/strong><\/em><em><strong>]<\/strong><\/em>.<\/p>\n<p>Os processos de gerenciamento e controle algor\u00edtmico sobre o trabalho tampouco s\u00e3o claros. Os trabalhadores se queixam sobre a nebulosidade das pol\u00edticas de desligamentos (e bloqueio) e dos crit\u00e9rios de admiss\u00e3o em projetos, assim como de aprova\u00e7\u00e3o e rejei\u00e7\u00e3o das tarefas nas plataformas. Cl\u00e1udia, 38 anos, por exemplo, que dedicava horas do seu dia \u00e0 rotulagem de dados, nos contou sobre sua experi\u00eancia ao ser desligada repentinamente de um projeto em uma plataforma:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Depois que eu fui demitida [da plataforma], tive uma crise bem horr\u00edvel, a\u00ed tive que procurar o psiquiatra e ele me medicou. [\u2026] \u00c9 revoltante, d\u00f3i bastante, de repente voc\u00ea fica sem o seu trabalho e em meio a uma pandemia. Eu mandei v\u00e1rios e-mails quando fui demitida, mas n\u00e3o recebi nenhuma resposta. [\u2026] Teve uma \u00e9poca que estava sem task para fazer, a n\u00e3o ser que voc\u00ea acordasse tr\u00eas ou quatro horas da manh\u00e3 para fazer. Tenho uma conhecida que fez isso e ela ficou muito doente. Mas, assim mesmo, tem muita gente que faz, agora vai entrar abril e maio, quem acordar \u00e0s tr\u00eas \u00e9 que vai conseguir trabalhar. (Cl\u00e1udia, 38 anos.)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Nessa dire\u00e7\u00e3o, as ofertas de tarefas nas plataformas s\u00e3o imprevis\u00edveis e frequentemente n\u00e3o s\u00e3o claras as formas como s\u00e3o distribu\u00eddas. Como a maior parte das empresas est\u00e3o sediadas no Norte Global <em><strong>[62]<\/strong><\/em>, os trabalhadores queixam-se de que a reposi\u00e7\u00e3o de tarefas costuma ocorrer de acordo com os fusos hor\u00e1rios dos clientes-sede, o que coloca os brasileiros em desvantagem na realiza\u00e7\u00e3o de tarefas em projetos globais. Uma das alternativas para contornar essa desvantagem \u00e9 passar a trabalhar no per\u00edodo da madrugada nos momentos em que ocorre a reposi\u00e7\u00e3o. Isso explica, provavelmente, porque 27,9% dos participantes trabalham nas plataformas entre 22 horas e uma hora da manh\u00e3, e 9,4% entre uma hora e cinco horas da manh\u00e3.<\/p>\n<p>A partir da sociodemografia tra\u00e7ada, nossos dados permitem afirmar categoricamente que tais plataformas n\u00e3o oferecem uma alternativa sustent\u00e1vel e segura de renda para esses trabalhadores. Em resumo, trata-se de pessoas jovens com rendimento m\u00e9dio mensal inferior a 1,5 sal\u00e1rio m\u00ednimo e um hist\u00f3rico pregresso de trabalho na informalidade. Com n\u00edveis de escolaridade superiores aos da popula\u00e7\u00e3o geral, passam a conhecer esse mercado em m\u00eddias sociais como Instagram, YouTube, TikTok etc., ou mediante buscas de renda on-line no Google. As plataformas difundem o trabalho de rotulagem e treinamento de dados com base em um discurso que promete autonomia, flexibilidade e liberdade. Na realidade, contudo, a distribui\u00e7\u00e3o das tarefas, crit\u00e9rios de admiss\u00e3o, de aprova\u00e7\u00e3o e rejei\u00e7\u00e3o s\u00e3o assim\u00e9tricas e nebulosas. No Brasil, os n\u00edveis de remunera\u00e7\u00e3o s\u00e3o correlatos \u00e0queles recebidos por trabalhadores em pa\u00edses da \u00c1frica e da \u00c1sia Pac\u00edfico, o que indica a manuten\u00e7\u00e3o de um padr\u00e3o hist\u00f3rico de explora\u00e7\u00e3o de pa\u00edses do Norte Global sobre pa\u00edses do Sul Global. Chama aten\u00e7\u00e3o, ainda, a aguda desigualdade relacionada ao marcador de g\u00eanero em territ\u00f3rio nacional. O microtrabalho parece constituir mais um trabalho invis\u00edvel que se soma \u00e0 jornada de mulheres brasileiras, sobretudo aquelas que s\u00e3o m\u00e3es.<\/p>\n<h3><strong>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/strong><\/h3>\n<p>A IA gera tanto entusiasmo quanto desilus\u00e3o, com promessas que muitas vezes n\u00e3o s\u00e3o cumpridas. Por isso, n\u00e3o \u00e9 de surpreender que o trabalho humano, que constitui seu componente fundamental, tamb\u00e9m esteja sujeito a essas mesmas decep\u00e7\u00f5es. Na pr\u00e1tica, para os trabalhadores, as promessas de desenvolvimento econ\u00f4mico e social, engendradas na origem da proposi\u00e7\u00e3o do conceito de microtrabalho, n\u00e3o se materializaram. N\u00e3o s\u00f3 as remunera\u00e7\u00f5es s\u00e3o baixas e assim\u00e9tricas, mas, acima de tudo, as condi\u00e7\u00f5es de trabalho s\u00e3o duras e penosas. A disponibilidade substancialmente vari\u00e1vel de tarefas faz com que os trabalhadores migrem a todo tempo de uma plataforma para outra, o que resulta em mais tempo de trabalho n\u00e3o remunerado (dispendido na busca por novas tarefas e projetos e na realiza\u00e7\u00e3o de provas de admiss\u00e3o). Diferen\u00e7as de fuso hor\u00e1rio com os clientes estrangeiros, majoritariamente localizados no Norte Global, for\u00e7am parte significativa dos trabalhadores a ficarem na frente de seus computadores durante a noite ou na madrugada. Trabalham em suas casas, sem encontrar clientes ou colegas. Ficam dispersos e desorganizados (com exce\u00e7\u00e3o de uma minoria de trabalhadores que interagem em grupos on-line), as plataformas os isolam e se desresponsabilizam por quaisquer danos f\u00edsicos ou psicol\u00f3gicos provenientes de suas atividades. Como vimos, sobretudo quando se trata de modera\u00e7\u00e3o de conte\u00fados violentos e pornogr\u00e1ficos, a situa\u00e7\u00e3o se agrava ainda mais. Todavia, \u00e9 notadamente porque outras pessoas n\u00e3o aceitam trabalhar nessas condi\u00e7\u00f5es que as microtarefas s\u00e3o deixadas para grupos relativamente desfavorecidos: m\u00e3es, desempregados, trabalhadores jovens com contratos prec\u00e1riosou que trabalham nas franjas da informalidade. Carentes de prote\u00e7\u00f5es sociais e trabalhistas s\u00f3lidas, encontram nas plataformas uma oportunidade residual de renda. Ao mesmo tempo que fazem um trabalho central \u00e0 cadeia produtiva da IA, esses trabalhadores s\u00e3o colocados na invisibilidade pelas plataformas.<\/p>\n<p>Embora o prefixo micro tenha sido comumente utilizado para se referir a esse trabalho, constatamos que importantes habilidades lingu\u00edsticas, culturais e de inform\u00e1tica s\u00e3o mobilizadas para a realiza\u00e7\u00e3o das tarefas. \u00c9 preciso saber como pesquisar, classificar e avaliar as informa\u00e7\u00f5es on-line; comunicar-se em ingl\u00eas ou, pelo menos, saber utilizar os plug-ins de tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica; comparar tarefas e plataformas para selecionar as mais rent\u00e1veis; escolher um m\u00e9todo de pagamento calculando os encargos banc\u00e1rios e as mudan\u00e7as das taxas de c\u00e2mbio etc. H\u00e1 tamb\u00e9m um processo de aprendizado gradual, desenvolvido ao longo do tempo, que n\u00e3o s\u00f3 faz com que os trabalhadores trabalhem mais r\u00e1pido, como lhes garante acesso a uma ampla gama de tarefas direcionadas para aqueles mais qualificados. Mas essas compet\u00eancias e habilidades n\u00e3o s\u00e3o reconhecidas. Ao contr\u00e1rio, o termo microtrabalho parece ter adquirido outra acep\u00e7\u00e3o, na qual se enfatiza a natureza m\u00ednima das tarefas, que supostamente seriam simples e curtas, de modo que n\u00e3o exigiriam qualifica\u00e7\u00f5es. Aparentemente inexistente, a experi\u00eancia adquirida com o microtrabalho nas plataformas n\u00e3o \u00e9, portanto, transfer\u00edvel de uma plataforma para outra e tampouco pode ser inclu\u00edda em um curr\u00edculo. Logo, n\u00e3o \u00e9 de se surpreender que essa atividade pouco conhecida e desvalorizada n\u00e3o garanta, at\u00e9 o momento, acesso a melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho.<\/p>\n<p>Estamos diante de um trabalho que cumpre papel essencial no desenvolvimento da IA, ao mesmo tempo que a intelig\u00eancia humana empregada nesse processo \u00e9 desvalorizada. Nesse cen\u00e1rio, amplia-se a disparidade entre grupos sociais mais favorecidos (como engenheiros e profissionais de tecnologia de alto valor agregado que desenvolvem a IA e que esperam colher dela benef\u00edcios) e o proletariado da economia de plataforma, cujo tempo e habilidades s\u00e3o colocados a servi\u00e7o da IA, sem que seu papel e contribui\u00e7\u00e3o sejam reconhecidos. Em escala global, h\u00e1 tamb\u00e9m uma assimetria cada vez maior entre os pa\u00edses produtores da IA, majoritariamente localizados em pa\u00edses do Norte Global (bem como em alguns pa\u00edses em desenvolvimento, como China e \u00cdndia), de onde vem a maior parte da demanda por microtrabalho, e os pa\u00edses do Sul Global, onde a oferta tem aumentado exponencialmente.<\/p>\n<p>Ao mapear a sociodemografia e as condi\u00e7\u00f5es concretas da for\u00e7a de trabalho por tr\u00e1s da IA no Brasil, endossamos um movimento mais amplo, de supera\u00e7\u00e3o do atual estado de invisibiliza\u00e7\u00e3o. Abrimos caminhos para pesquisas futuras que objetivem caracterizar com ainda mais profundidade essa nova forma de trabalho, analisando suas mudan\u00e7as, inerentes \u00e0 din\u00e2mica da globaliza\u00e7\u00e3o e, idealmente, identificando alavancas para a\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, seja nosso apoiador e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico: <strong><a href=\"https:\/\/apoia.se\/outraspalavras\">apoia.se\/outraspalavras<\/a><\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/quemsao-os-brasileiros-que-alimentam-as-ias\/\">Quem s\u00e3o os brasileiros que alimentam as IAs<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/pescadores-marisqueiras-e-pesquisadores-se-reunem-em-evento-nesta-sexta-4-para-fortalecer-a-criacao-de-uma-reserva-extrativista-no-rio-paraiba\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/SaveClipApp_344793685_2176073475912135_2798308945103370120_n-1-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Pescadores, marisqueiras e pesquisadores se re\u00fanem...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/em-votacao-contestada-ultraconservador-anti-uniao-europeia-e-eleito-presidente-da-georgia\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Em vota\u00e7\u00e3o contestada, ultraconservador anti-Uni\u00e3o...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/papa-apresenta-pequenas-melhoras-e-aliados-rejeitam-possibilidade-de-renuncia\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/papa_francisco_05_2018_323-1-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Papa apresenta \u2018pequenas melhoras\u2019, e aliados reje...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/pe-de-meia-pagamento-da-sexta-parcela-comeca-nesta-segunda-feira\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">P\u00e9-de-Meia:\u202fpagamento\u202fda sexta parcela come\u00e7a nest...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Imagem publicado pelo Globo Boletim Outras Palavras Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site Assinar Loading&#8230; Assinar Loading&#8230; Agradecemos! Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura! Este texto \u00e9 um cap\u00edtulo do livro As Novas Infraestruturas Produtivas: digitaliza\u00e7\u00e3o do trabalho, e-log\u00edstica e ind\u00fastria 4.0, organizado por [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":22125,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-22124","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-uncategorized"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22124","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22124"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22124\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/22125"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22124"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22124"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22124"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}