{"id":22353,"date":"2025-04-15T19:42:37","date_gmt":"2025-04-15T22:42:37","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/perry-anderson-o-neoliberalismo-este-zumbi\/"},"modified":"2025-04-15T19:42:37","modified_gmt":"2025-04-15T22:42:37","slug":"perry-anderson-o-neoliberalismo-este-zumbi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/perry-anderson-o-neoliberalismo-este-zumbi\/","title":{"rendered":"Perry Anderson: O neoliberalismo, este zumbi"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"933\" height=\"515\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/250415-Zumbi4.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/250415-Zumbi4.jpg 933w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/250415-Zumbi4-300x166.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/250415-Zumbi4-768x424.jpg 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/250415-Zumbi4-700x387.jpg 700w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/250415-Zumbi4-219x121.jpg 219w\" sizes=\"auto, (max-width: 933px) 100vw, 933px\"><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Por <strong>Perry Anderson<\/strong>, na <a href=\"https:\/\/www.lrb.co.uk\/\">London Review of Books<\/a><strong> <\/strong>| Tradu\u00e7\u00e3o: <strong>Antonio Martins<\/strong><\/p>\n<p>T\u00edtulo original:<strong><br \/>Mudan\u00e7a de regime no Ocidente?<\/strong><\/p>\n<p>Passado um quarto deste s\u00e9culo, \u201cmudan\u00e7a de regime\u201d tornou-se uma express\u00e3o can\u00f4nica. Significa a derrubada em todo o mundo \u2014 normalmente, mas n\u00e3o apenas, pelos Estados Unidos \u2014 de governos que n\u00e3o s\u00e3o do agrado do Ocidente; empregando-se, para esse prop\u00f3sito, for\u00e7a militar, bloqueio econ\u00f4mico, eros\u00e3o ideol\u00f3gica ou uma combina\u00e7\u00e3o de tudo isso. No entanto, originalmente o termo significava algo bem diferente: uma mudan\u00e7a generalizada no pr\u00f3prio Ocidente. N\u00e3o a transforma\u00e7\u00e3o s\u00fabita de um Estado-na\u00e7\u00e3o pela viol\u00eancia externa, mas a instala\u00e7\u00e3o gradual de uma nova ordem internacional em tempo de paz. Os pioneiros desta concep\u00e7\u00e3o foram os te\u00f3ricos norte-americanos que desenvolveram a ideia de \u201cregimes internacionais\u201d, vistos como acordos que asseguravam rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas de coopera\u00e7\u00e3o entre os principais Estados industriais, que podiam ou n\u00e3o assumir a forma de tratados. Estes, como se afirmava, desenvolveram-se a partir da lideran\u00e7a dos EUA ap\u00f3s a <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/589156-a-igreja-catolica-a-segunda-guerra-mundial-e-as-vitimas-do-nacional-socialismo\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Segunda Guerra Mundial<\/a>, substitu\u00edda mais tarde pela forma\u00e7\u00e3o de um quadro consensual de transa\u00e7\u00f5es mutuamente satisfat\u00f3rias entre os principais pa\u00edses. O manifesto desta ideia surgiu em <em>Power and interdependence<\/em>, uma obra em coautoria de dois pilares do establishment da pol\u00edtica externa da \u00e9poca, <a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/noticias\/547290-qo-soft-power-de-bergoglio-renovou-a-igreja-dos-euaq-entrevista-com-joseph-s-nye\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Joseph Nye<\/a> e <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/533710\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Robert Keohane<\/a>, cuja primeira edi\u00e7\u00e3o \u2013 houve v\u00e1rias, depois \u2013 apareceu em 1977. Embora apresentado como um sistema de normas e expectativas que ajudava a assegurar a continuidade entre os diferentes governos em Washington, introduzindo \u201cmaior disciplina\u201d na pol\u00edtica externa americana, o estudo de Nye e Keohane n\u00e3o deixava d\u00favidas quanto aos benef\u00edcios para os EUA. \u201cRegimes normalmente s\u00e3o do interesse da Am\u00e9rica porque os Estados Unidos s\u00e3o a principal pot\u00eancia comercial e pol\u00edtica do mundo. Se muitos regimes j\u00e1 n\u00e3o existissem, os Estados Unidos certamente buscariam invent\u00e1-los, tal como fizeram\u201d<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/perry-anderson-neoliberalismo-este-zumbi\/#sdfootnote1sym\"><sup>1<\/sup><\/a>. No in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980, os livros que seguiam esta linha estavam saindo das impressoras: um simp\u00f3sio intitulado <em>International regimes<\/em>, e editado por Stephen Krasner (1983); o tratado do pr\u00f3prio Keohane, <em>After hegemony<\/em> (1984); e uma s\u00e9rie de artigos eruditos.<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/apoia.se\/outraspalavras\" aria-label=\"MAT\u00c9RIA-GERAL\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/MATERIA-GERAL-10.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/MATERIA-GERAL-10.png 681w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-GERAL-300x75.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 681px) 100vw, 681px\" width=\"681\" height=\"171\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>Na d\u00e9cada seguinte, esta doutrina reconfortante passou por uma muta\u00e7\u00e3o, com a publica\u00e7\u00e3o de um volume intitulado <em>Regime changes: macroeconomic policy and financial regulation in Europe from the 1930s to the 1990s<\/em>, editado por Douglas Forsyth e Ton Notermans \u2013 um norte-americano, o outro holand\u00eas. O livro reteve, mas acentuou, a ideia de um regime internacional, especificando a variante que prevaleceu antes da guerra, baseada no padr\u00e3o-ouro; depois, a ordem forjada em Bretton Woods, que lhe sucedeu ap\u00f3s a guerra; e, finalmente, explicitando o desaparecimento deste sucessor na d\u00e9cada de 1970.<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/perry-anderson-neoliberalismo-este-zumbi\/#sdfootnote2sym\"><sup>2<\/sup><\/a> O que substituiu o mundo institu\u00eddo em Bretton Woods foi um conjunto de restri\u00e7\u00f5es sist\u00eamicas que afetam todos os governos, independentemente de sua complei\u00e7\u00e3o, consistindo em pacotes de macropol\u00edtica de regula\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria e financeira que fixam os par\u00e2metros de poss\u00edveis pol\u00edticas trabalhistas, industriais e sociais. Enquanto a ordem do p\u00f3s-guerra tinha sido conduzida pelo objetivo de assegurar o pleno emprego, a prioridade em sua sequ\u00eancia foi a estabilidade monet\u00e1ria. O liberalismo econ\u00f4mico cl\u00e1ssico chegou ao fim com a Grande Depress\u00e3o. O keynesianismo do p\u00f3s-guerra esgotou-se com a estagfla\u00e7\u00e3o da d\u00e9cada de 1970. O novo regime internacional marcou o reinado do neoliberalismo.<\/p>\n<p>Tal era o significado original da f\u00f3rmula \u201cmudan\u00e7a de regime\u201d, hoje praticamente esquecida, apagada pela onda de intervencionismo militar que confiscou o termo na virada do s\u00e9culo. Uma olhada em seu N-grama<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/perry-anderson-neoliberalismo-este-zumbi\/#sdfootnote3sym\"><sup>3<\/sup><\/a> conta essa hist\u00f3ria. Sem express\u00e3o antes de sua chegada, nos anos 1970, a frequ\u00eancia do termo disparou subitamente no final dos anos 1990, multiplicando-se sessenta vezes e tornando-se, como observou John Gillingham, um historiador econ\u00f4mico ligado a seu sentido anterior, \u201co eufemismo atual para derrubar governos estrangeiros\u201d.<\/p>\n<p>No entanto, a relev\u00e2ncia de seu significado original mant\u00e9m-se. O neoliberalismo n\u00e3o desapareceu. Suas caracter\u00edsticas s\u00e3o agora familiares: desregulamenta\u00e7\u00e3o dos mercados financeiros e de produtos; privatiza\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os e ind\u00fastrias; redu\u00e7\u00e3o da tributa\u00e7\u00e3o das corpora\u00e7\u00f5es e do patrim\u00f4nio; enfraquecimento dos sindicatos, \u00e0s vezes levando-os \u00e0 impot\u00eancia. O objetivo da transforma\u00e7\u00e3o neoliberal, que come\u00e7ou nos Estados Unidos e na Gr\u00e3-Bretanha sob os governos de Carter e Callaghan e atingiu seu auge sob os governos de Thatcher e Reagan, era restaurar as taxas de lucro do capital \u2013 que tinham ca\u00eddo praticamente em todos os lugares a partir do final da d\u00e9cada de 1960 \u2013 e vencer a combina\u00e7\u00e3o de estagna\u00e7\u00e3o e infla\u00e7\u00e3o que se instalou ap\u00f3s a queda dessas taxas.<\/p>\n<p>Durante um quarto de s\u00e9culo, os rem\u00e9dios do neoliberalismo pareceram funcionar. O crescimento retornou, embora a um ritmo claramente inferior ao do quarto de s\u00e9culo que se seguiu \u00e0 Segunda Guerra Mundial. A infla\u00e7\u00e3o foi controlada. As recess\u00f5es foram curtas e reduzidas. As taxas de lucro recuperaram-se. Economistas e especialistas saudaram o triunfo daquilo que o futuro presidente do Banco Central dos Estados Unidos [Federal Reserve, ou Fed], Ben Bernanke, exaltou como a Grande Modera\u00e7\u00e3o. O sucesso do neoliberalismo como sistema internacional n\u00e3o se baseou, contudo, na recupera\u00e7\u00e3o do investimento aos n\u00edveis do p\u00f3s-guerra no Ocidente: isso teria exigido um incremento da demanda econ\u00f4mica, impossibilitado pela repress\u00e3o salarial, que foi central para o sistema. Em vez disso, foi constru\u00eddo com base numa expans\u00e3o maci\u00e7a do cr\u00e9dito \u2013 isto \u00e9, na cria\u00e7\u00e3o de n\u00edveis sem precedentes de d\u00edvida privada, empresarial e, eventualmente, p\u00fablica. Em <em>Buying time<\/em>, sua obra pioneira de 2014, Wolfgang Streeck descreve isso como reivindica\u00e7\u00f5es sobre recursos futuros, que ainda precisam ser produzidos;\u00a0Marx chamou-lhe, de forma mais direta, \u201ccapital fict\u00edcio\u201d. Eventualmente, tal como previsto por mais de um cr\u00edtico do sistema, a pir\u00e2mide da d\u00edvida cedeu, causando o crash de 2008.<\/p>\n<p>A crise que se seguiu representou, como Bernanke confessou, \u201cum risco de vida\u201d para o capitalismo. Em magnitude, foi totalmente compar\u00e1vel ao crash de Wall Street de 1929. No ano seguinte, a produ\u00e7\u00e3o global e o com\u00e9rcio mundial ca\u00edram mais rapidamente do que durante os primeiros doze meses da Grande Depress\u00e3o. No entanto, o que se seguiu n\u00e3o foi outra grande depress\u00e3o, mas uma grande recess\u00e3o \u2013 h\u00e1 uma grande diferen\u00e7a. Um ponto de partida para compreender a posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em que o Ocidente se encontra hoje \u00e9 olhar para tr\u00e1s, para a sequ\u00eancia de acontecimentos da d\u00e9cada de 1930. Quando a Segunda-Feira Negra atingiu o mercado de a\u00e7\u00f5es americano, em outubro de 1929, governos conservadores estavam no poder nos Estados Unidos, Fran\u00e7a e Su\u00e9cia, enquanto havia governos social-democratas na Gr\u00e3-Bretanha e na Alemanha. Todos, no entanto, eram mais ou menos indistintamente fi\u00e9is \u00e0s ortodoxias econ\u00f4micas da \u00e9poca: um compromisso com a moeda s\u00f3lida \u2013 ou seja, o padr\u00e3o-ouro \u2013 e or\u00e7amentos equilibrados, pol\u00edticas que simplesmente aprofundaram e prolongaram a Depress\u00e3o. S\u00f3 no outono de 1932 e na primavera de 1933, ou seja, durante tr\u00eas anos ou mais, come\u00e7aram a ser introduzidos programas n\u00e3o convencionais para combater a situa\u00e7\u00e3o, primeiro na Su\u00e9cia, depois na Alemanha e, por fim, na Am\u00e9rica. Estes pa\u00edses correspondiam a tr\u00eas configura\u00e7\u00f5es pol\u00edticas bem diferentes: a chegada ao poder da social-democracia na Su\u00e9cia, do fascismo na Alemanha e de um liberalismo atualizado nos Estados Unidos. Por tr\u00e1s de cada um deles, havia heterodoxias pr\u00e9-existentes, que estavam prontas para serem aplicadas caso os governantes decidissem adot\u00e1-las, como fizeram Per Albin Hansson na Su\u00e9cia, Hitler na Alemanha e Roosevelt nos Estados Unidos. Elas eram: a escola de economia de Estocolmo, descendente de Knut Wicksell a Ernst Wigforss na Su\u00e9cia, a valoriza\u00e7\u00e3o das obras p\u00fablicas por Hjalmar Schacht na Alemanha e as inclina\u00e7\u00f5es reguladoras neoprogressistas de Raymond Moley, Rexford Tugwell e Adolf Berle \u2013 o \u201cgrupo de especialistas\u201d original de Franklin Delano Roosevelt \u2013 nos Estados Unidos. Nenhum destes foi um sistema totalmente elaborado ou coerente. Schacht, na Alemanha, e Keynes, na Gr\u00e3-Bretanha, estiveram em contato um com o outro desde a d\u00e9cada de 1920, mas o keynesianismo propriamente dito \u2013 <em>A teoria geral do emprego, do juro e da moeda<\/em> s\u00f3 apareceu em 1936 \u2013 n\u00e3o foi uma contribui\u00e7\u00e3o direta para estas experi\u00eancias, embora todas envolvessem o refor\u00e7o do papel do Estado. Estas eram as caixas de ferramenta t\u00e9cnicas, dispersas, da \u00e9poca.<\/p>\n<p>Tr\u00eas anos de desemprego em massa tinham gerado for\u00e7as ideol\u00f3gicas poderosas em cada pa\u00eds: um reformismo social-democrata muito mais ousado na no\u00e7\u00e3o de Folkhemmet, a Casa do Povo, na Su\u00e9cia; o nazismo, autodescrito como die Bewegung, o Movimento, na Alemanha; e, nos Estados Unidos, o papel din\u00e2mico dos comunistas nos sindicatos e entre os intelectuais, for\u00e7ando reformas trabalhistas e da seguridade social num governo democrata que, por sua pr\u00f3pria vontade, dificilmente as teria promulgado. Por \u00faltimo, como pano de fundo destes tr\u00eas desenvolvimentos no mundo capitalista, surgia o sucesso sem precedentes alcan\u00e7ado pela Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica ao evitar completamente a recess\u00e3o, com pleno emprego e taxas de crescimento aceleradas, tornando atrativa a ideia de planejamento econ\u00f4mico em todo o mundo capitalista. No entanto, seria necess\u00e1rio um choque muito maior e mais profundo do que o crash de Wall Street para p\u00f4r fim \u00e0 depress\u00e3o global produzida, e institucionalizar a ruptura com as ortodoxias do liberalismo econ\u00f4mico cl\u00e1ssico. Foi o abismo da Segunda Guerra Mundial que fez isso. Quando a paz foi restabelecida, ningu\u00e9m podia duvidar de que um sistema internacional diferente havia sido estabelecido. Ele cominava o padr\u00e3o-ouro, pol\u00edticas monet\u00e1rias e fiscais contrac\u00edclicas, n\u00edveis elevados e est\u00e1veis de emprego e sistemas oficiais de prote\u00e7\u00e3o social. Nem se questionava o papel que as ideias de Keynes haviam desempenhado em sua consolida\u00e7\u00e3o. Depois de 25 anos de sucesso, foi a eventual degenera\u00e7\u00e3o deste regime em estagfla\u00e7\u00e3o que desencadeou o neoliberalismo.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/rosalux.org.br\/curso-online-gratuito-o-legado-revolucionario-de-rosa-luxemburgo\/\" aria-label=\"curso rosa luxemburgo\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/curso-rosa-luxemburgo.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/curso-rosa-luxemburgo.png 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/curso-rosa-luxemburgo-300x37.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>O cen\u00e1rio era totalmente diferente na sequ\u00eancia do crash de 2008. Nos Estados Unidos, as ambul\u00e2ncias pol\u00edticas entraram imediatamente em a\u00e7\u00e3o. Sob Obama, os bancos e companhias de seguros praticantes de fraudes e as empresas de autom\u00f3veis falidas foram resgatados com enormes inje\u00e7\u00f5es de fundos p\u00fablicos nunca dispon\u00edveis para cuidados de sa\u00fade decentes, escolas, pens\u00f5es, ferrovias, rodovias, aeroportos, e muito menos para apoiar a renda dos mais desfavorecidos. Promoveu-se um est\u00edmulo fiscal maci\u00e7o, com a disciplina or\u00e7ament\u00e1ria sendo ignorada. Para sustentar o mercado de a\u00e7\u00f5es, sob o eufemismo bem educado de Quantitative Easing, a o banco central liberou dinheiro em escala gigantesca. Sorrateiramente, e desafiando seu mandato, o Fed socorreu n\u00e3o s\u00f3 os bancos norte-americanos em dificuldades, mas tamb\u00e9m os bancos europeus, em transa\u00e7\u00f5es ocultas ao Congresso e ao escrut\u00ednio p\u00fablico, enquanto o Tesouro assegurava \u2013 em estreita liga\u00e7\u00e3o nos bastidores com o Banco Popular da China \u2013 que n\u00e3o haveria qualquer hesita\u00e7\u00e3o chinesa na compra de b\u00f4nus do Tesouro (T-bonds). Em suma, uma vez que as institui\u00e7\u00f5es centrais do capital estavam em risco, todos os preceitos da economia neoliberal foram lan\u00e7ados aos ventos, com mega-doses de rem\u00e9dios keynesianos, muito al\u00e9m da imagina\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Keynes. Na Gr\u00e3-Bretanha, onde a crise rapidamente se refletiu nos pa\u00edses da Europa, estes chegaram ao ponto de nacionalizar temporariamente aquilo a que o dom norte-americano para o eufemismo burocr\u00e1tico chamou de \u201cativos problem\u00e1ticos\u201d.<\/p>\n<p>Tudo isto significou um rep\u00fadio do neoliberalismo e uma guinada para um novo regime internacional de acumula\u00e7\u00e3o? De modo algum. O princ\u00edpio central da ideologia neoliberal, cunhado por Margaret Thatcher, sempre residiu no atraente acr\u00f4nimo com sonoridade feminina TINA: There Is No Alternative. Por mais que as medidas para controlar a crise parecessem quebrar tabus, e em boa parte faziam isso, se consideradas a partir dos c\u00e2nones neocl\u00e1ssicos, elas essencialmente equivaliam ao quadrado, ou ao cubo, da din\u00e2mica subjacente \u00e0 \u00e9poca neoliberal. Dito com todas as letras, a expans\u00e3o cont\u00ednua do cr\u00e9dito acima de qualquer aumento da produ\u00e7\u00e3o, naquilo a que os franceses chamam uma <em>fuite en avant<\/em> \u2013 uma fuga para a frente. Assim, uma vez que as medidas exigidas pelo risco de vida do sistema o estabilizaram, a l\u00f3gica do neoliberalismo avan\u00e7ou novamente, pa\u00eds ap\u00f3s pa\u00eds.<\/p>\n<p>Na Gr\u00e3-Bretanha, que foi a primeira no processo, a imposi\u00e7\u00e3o implac\u00e1vel da \u201causteridade\u201d reduziu as despesas dos governos locais a n\u00edveis mendicantes e cortou as aposentadorias universit\u00e1rias. Na Espanha e na It\u00e1lia, a legisla\u00e7\u00e3o trabalhista foi revista para facilitar a demiss\u00e3o sum\u00e1ria de trabalhadores e aumentar o emprego prec\u00e1rio. Nos Estados Unidos, foram mantidas as redu\u00e7\u00f5es dr\u00e1sticas dos impostos sobre as empresas e os ricos, enquanto a desregulamenta\u00e7\u00e3o se acelerou nos setores de energia e servi\u00e7os financeiros. Na Fran\u00e7a, historicamente retardat\u00e1ria na corrida ao neoliberalismo, mas agora candidata a um lugar na vanguarda, foi posto em marcha algo como um programa thatcheriano completo: privatiza\u00e7\u00e3o de ind\u00fastrias p\u00fablicas, legisla\u00e7\u00e3o para enfraquecer os sindicatos, benef\u00edcios fiscais para as empresas, redu\u00e7\u00e3o do n\u00famero de funcion\u00e1rios p\u00fablicos, cortes nas aposentadorias, redu\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0s universidades \u2013 tudo parecendo encaminhar-se para um confronto social na linha do esmagamento dos mineiros por Margaret Thatcher, um ponto de inflex\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es de classe do qual o capital brit\u00e2nico nunca se arrependeu.<\/p>\n<p>Como tudo isto foi poss\u00edvel? Como um choque t\u00e3o traum\u00e1tico para o sistema como a crise financeira global, e o descr\u00e9dito em que suas principais ag\u00eancias e receitas milagrosas inevitavelmente ca\u00edram, foram seguidos por uma revers\u00e3o t\u00e3o completa aos neg\u00f3cios como de costume? Duas condi\u00e7\u00f5es foram fundamentais para este resultado paradoxal. Em primeiro lugar, ao contr\u00e1rio do que aconteceu na d\u00e9cada de 1930, n\u00e3o havia paradigmas te\u00f3ricos alternativos \u00e0 espera nos bastidores, para desalojar o dom\u00ednio da doutrina neoliberal e substitu\u00ed-la. O keynesianismo, que depois de 1945 se tornou o denominador comum do que tinha sido peneirado pela m\u00e1quina debulhadora da guerra a partir das tr\u00eas tend\u00eancias em disputa na d\u00e9cada de 1930, nunca se recuperou de sua derrocada nos conflitos de classe da d\u00e9cada de 1970. A matematiza\u00e7\u00e3o anestesiou durante muito tempo boa parte da disciplina econ\u00f4mica contra qualquer tipo de pensamento original, deixando anomalias como a Escola da Regula\u00e7\u00e3o na Fran\u00e7a, ou a Escola da Estrutura Social de Acumula\u00e7\u00e3o nos EUA, completamente marginalizadas. Os teoremas neoliberais das \u201cexpectativas racionais\u201d ou da \u201ccompensa\u00e7\u00e3o de mercado\u201d podiam agora parecer disparatados, mas n\u00e3o havia muita coisa para substitu\u00ed-los.<\/p>\n<p>Por tr\u00e1s dessa aus\u00eancia intelectual \u2013 e esta foi a segunda condi\u00e7\u00e3o para a aparente imunidade do neoliberalismo diante da desgra\u00e7a \u2013 estava o desaparecimento de qualquer movimento pol\u00edtico significativo que apelasse vigorosamente quer \u00e0 aboli\u00e7\u00e3o, quer \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o radical do capitalismo. Na virada do s\u00e9culo, o socialismo, nas suas duas variantes hist\u00f3ricas, revolucion\u00e1ria e reformista, tinha sido varrido do palco na zona atl\u00e2ntica. A variante revolucion\u00e1ria: ao que parece, com o colapso do comunismo na URSS e a desintegra\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. A variante reformista: ao que parece, com a extin\u00e7\u00e3o de qualquer vest\u00edgio de resist\u00eancia aos imperativos do capital nos partidos social-democratas do Ocidente, que agora se limitavam a competir com os partidos conservadores, democratas-crist\u00e3os ou liberais, em sua implementa\u00e7\u00e3o. A Internacional Comunista foi encerrada logo em 1943. Sessenta anos depois, a chamada Internacional Socialista contava em suas fileiras com o partido governante da brutal ditadura militar de Mubarak no Egito.<\/p>\n<p>Nada disto significa, ou poderia significar, que depois de reinar durante um quarto de s\u00e9culo e cair de joelhos, de repente, o sistema neoliberal tinha ficado sem oposi\u00e7\u00e3o. Depois de 2008, suas consequ\u00eancias sociais e pol\u00edticas acumuladas come\u00e7aram a fazer-se sentir. Consequ\u00eancias sociais: uma escalada acentuada e, em alguns casos (sobretudo nos Estados Unidos e no Reino Unido),\u00a0assombrosa da desigualdade; estagna\u00e7\u00e3o salarial a longo prazo; um precariado em expans\u00e3o. Consequ\u00eancias pol\u00edticas: corrup\u00e7\u00e3o generalizada, crescente permutabilidade dos partidos, eros\u00e3o de uma escolha eleitoral significativa, decl\u00ednio da participa\u00e7\u00e3o dos eleitores \u2013 em suma, o apagamento crescente da vontade popular por uma oligarquia endurecida. Este sistema gerou ent\u00e3o seu anticorpo, deplorado em todos os \u00f3rg\u00e3os reputados de opini\u00e3o e em todos os quadrantes pol\u00edticos respeit\u00e1veis como a doen\u00e7a da \u00e9poca: o populismo. As revoltas enquadradas neste r\u00f3tulo, muito diferentes entre si, t\u00eam em comum sua rejei\u00e7\u00e3o do regime internacional em vigor no Ocidente desde a d\u00e9cada de 1980. N\u00e3o se op\u00f5em ao capitalismo enquanto tal, mas \u00e0 sua vers\u00e3o socioecon\u00f4mica atual: o neoliberalismo. Seu inimigo comum \u00e9 o establishment pol\u00edtico que preside \u00e0 ordem neoliberal, constitu\u00eddo pelo duo alternado de partidos de centro-direita e de centro-esquerda que monopolizaram o governo sob seu dom\u00ednio. Estes partidos ofereceram muitas vezes, embora nem sempre, duas variantes ligeiramente diferentes de neoliberalismo: uma \u00e9 disciplinar, e tipicamente mais inovadora em suas iniciativas, como Thatcher e Reagan; a outra \u00e9 compensat\u00f3ria, oferecendo aos pobres pagamentos secund\u00e1rios que a variante disciplinar ret\u00e9m, como Clinton ou Blair. Ambas as vers\u00f5es, no entanto, t\u00eam estado inabalavelmente empenhadas em promover o objetivo comum de fortalecer o capital contra quaisquer choques inconvenientes.<\/p>\n<p>O neoliberalismo, como j\u00e1 afirmei, forma um regime internacional: isto \u00e9, n\u00e3o \u00e9 apenas um sistema replicado dentro de cada Estado-na\u00e7\u00e3o, mas um sistema que une e ultrapassa os diferentes Estados-na\u00e7\u00e3o das regi\u00f5es avan\u00e7adas, e menos avan\u00e7adas, do mundo capitalista no processo que veio a ser chamado de globaliza\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio das v\u00e1rias agendas nacionais do neoliberalismo, este processo n\u00e3o foi originalmente conduzido pela inten\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos detentores do poder, mas seguiu a explosiva desregulamenta\u00e7\u00e3o dos mercados financeiros desencadeada pelo chamado Big Bang de Margaret Thatcher, em 1986. No devido tempo, a globaliza\u00e7\u00e3o tornou-se uma palavra de ordem ideol\u00f3gica dos regimes neoliberais em todo o mundo, uma vez que resultou em duas enormes vantagens para o capital em geral. Do ponto de vista pol\u00edtico, a globaliza\u00e7\u00e3o assegurou a expropria\u00e7\u00e3o da vontade democr\u00e1tica que o fechamento olig\u00e1rquico do neoliberalismo estava impondo internamente. Agora, o TINA n\u00e3o significava apenas que a coniv\u00eancia pol\u00edtica entre a centro-direita e a centro-esquerda em n\u00edvel nacional. Ele eliminava em grande medida qualquer escolha eleitoral significativa, mas tamb\u00e9m significava que os mercados financeiros globais n\u00e3o permitiriam qualquer desvio das pol\u00edticas oferecidas, sob pena de colapso econ\u00f4mico. Este foi o b\u00f4nus pol\u00edtico da globaliza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o menos importante foi o b\u00f4nus econ\u00f4mico: o capital podia agora enfraquecer ainda mais o trabalho, n\u00e3o s\u00f3 atrav\u00e9s da dessindicaliza\u00e7\u00e3o, repress\u00e3o salarial e precariedade, mas tamb\u00e9m realocando a produ\u00e7\u00e3o para pa\u00edses menos desenvolvidos com custos trabalhistas muito mais baixos, ou simplesmente amea\u00e7ando fazer isso.<\/p>\n<p>Outro aspecto da globaliza\u00e7\u00e3o teve, no entanto, um efeito mais amb\u00edguo. Os princ\u00edpios neoliberais estipulam a desregulamenta\u00e7\u00e3o dos mercados: a livre circula\u00e7\u00e3o de todos os fatores de produ\u00e7\u00e3o, ou seja, a mobilidade transfronteiri\u00e7a n\u00e3o apenas de bens, servi\u00e7os e capitais, mas tamb\u00e9m de for\u00e7a de trabalho. Logicamente, portanto, isso significa imigra\u00e7\u00e3o. Faz muito tempo que as empresas da maior parte dos pa\u00edses recorrem aos trabalhadores migrantes como ex\u00e9rcito de reserva de for\u00e7a de trabalho barata, sempre que a oferta \u00e9 necess\u00e1ria e as circunst\u00e2ncias o permitem. Mas, para os Estados, as considera\u00e7\u00f5es de ordem puramente econ\u00f4mica tinham de ser ponderadas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s de ordem mais social e pol\u00edtica. Neste ponto, Friedrich von Hayek \u2013 a maior mente do neoliberalismo \u2013 tinha introduzido significativamente, desde cedo, uma reserva, uma ressalva. A imigra\u00e7\u00e3o, ele advertia, n\u00e3o podia ser tratada como se fosse uma simples quest\u00e3o de mercado de fatores, pois, se n\u00e3o fosse rigorosamente controlada, poderia amea\u00e7ar a coes\u00e3o cultural do Estado acolhedor e a estabilidade pol\u00edtica da pr\u00f3pria sociedade. Era aqui que Margaret Thatcher tamb\u00e9m tra\u00e7ava a linha. Entretanto, \u00e9 claro que as press\u00f5es para a importa\u00e7\u00e3o ou aceita\u00e7\u00e3o de for\u00e7a de trabalho estrangeira barata persistiram, mesmo quando a produ\u00e7\u00e3o era cada vez mais terceirizada para o estrangeiro, uma vez que muitos servi\u00e7os de tipo bra\u00e7al ou degradante, evitados pelos habitantes locais, n\u00e3o podiam, ao contr\u00e1rio das f\u00e1bricas, ser exportados, pois tinham que ser executados no pr\u00f3prio lugar. Ao contr\u00e1rio de praticamente todos os outros aspectos da ordem neoliberal, nunca se chegou a um consenso est\u00e1vel no establishment sobre esta quest\u00e3o, que permaneceu um elo fraco na cadeia do TINA.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Se olharmos para as revoltas populistas contra o neoliberalismo, elas dividem-se, grosso modo, como todos sabem, em movimentos de direita e de esquerda. Nesse sentido, repetem o padr\u00e3o das revoltas contra o liberalismo cl\u00e1ssico ap\u00f3s seu fracasso na Grande Depress\u00e3o: fascistas \u00e0 direita, social-democratas ou comunistas \u00e0 esquerda. O que diferencia as rebeli\u00f5es atuais \u00e9 n\u00e3o terem ideologias ou programas articulados de forma compar\u00e1vel \u2013 nada que corresponda \u00e0 consist\u00eancia te\u00f3rica ou pr\u00e1tica do pr\u00f3prio neoliberalismo. Elas s\u00e3o definidas por aquilo a que se op\u00f5em, muito mais do que por aquilo que prop\u00f5em. Contra o que protestam? O sistema neoliberal de hoje, como o de ontem, incorpora tr\u00eas princ\u00edpios: escalada dos diferenciais de riqueza e renda; revoga\u00e7\u00e3o do controle e representa\u00e7\u00e3o democr\u00e1ticos; e desregulamenta\u00e7\u00e3o do maior n\u00famero poss\u00edvel de transa\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas. Em suma: desigualdade, oligarquia e mobilidade de fatores de produ\u00e7\u00e3o. Estes s\u00e3o os tr\u00eas alvos centrais contra os quais se voltam insurg\u00eancias populistas. O ponto em que essas insurrei\u00e7\u00f5es se dividem \u00e9 quanto ao peso que atribuem a cada elemento \u2013 ou seja, contra que segmento da paleta neoliberal dirigem mais hostilidades. \u00c9 not\u00f3rio que os movimentos de direita se agarram ao \u00faltimo deles, o fator mobilidade, jogando com as rea\u00e7\u00f5es xen\u00f3fobas e racistas em rela\u00e7\u00e3o aos imigrantes para ganhar um apoio generalizado entre os setores mais vulner\u00e1veis da popula\u00e7\u00e3o. Os movimentos de esquerda resistem a este direcionamento, apontando a desigualdade como o principal mal. A hostilidade contra a oligarquia pol\u00edtica estabelecida \u00e9 comum aos populismos de direita e de esquerda.<\/p>\n<p>Historicamente, h\u00e1 uma clara divis\u00e3o cronol\u00f3gica entre estas diferentes formas do mesmo fen\u00f4meno. O populismo contempor\u00e2neo surgiu na Europa, que ainda continua sendo o continente com a maior e mais diversificada variedade de movimentos. As for\u00e7as populistas de direita remontam ao in\u00edcio da d\u00e9cada de 1970. Na Escandin\u00e1via, assumiram a forma de revoltas ultraliberais [\u201clibertarian\u201d] contra os impostos por meio dos Partidos do Progresso na Dinamarca e na Noruega, fundados em 1972 e 1973, respectivamente. Na Fran\u00e7a, o Front National foi fundado em 1972, mas s\u00f3 no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980 conseguiu uma modesta for\u00e7a eleitoral como partido de direita nacionalista e anti-imigra\u00e7\u00e3o, com um certo apelo \u00e0 classe trabalhadora e fortes conota\u00e7\u00f5es racistas. No final dessa d\u00e9cada, a lideran\u00e7a do Partido da Liberdade na \u00c1ustria foi conquistada por J\u00f6rg Haider, que adotou uma plataforma semelhante, enquanto, mais ao norte, os Democratas da Su\u00e9cia surgiram como um grupelho de extrema direita com uma base xen\u00f3foba muito semelhante. Na g\u00eanese das tr\u00eas forma\u00e7\u00f5es, havia literalmente elementos neofascistas, que \u2013 uma vez alcan\u00e7ada uma presen\u00e7a eleitoral significativa \u2013 se desvaneceram gradualmente. A d\u00e9cada de 1990 assistiu \u00e0 eclos\u00e3o da Liga do Norte na It\u00e1lia, que, ao contr\u00e1rio, tinha ra\u00edzes antifascistas; ao aparecimento do Ukip na Gr\u00e3-Bretanha e \u00e0 convers\u00e3o dos partidos dinamarqu\u00eas e noruegu\u00eas, outrora \u201clibertarian\u201d, em for\u00e7as anti-imigra\u00e7\u00e3o. No in\u00edcio da d\u00e9cada seguinte, os Pa\u00edses Baixos criaram seu pr\u00f3prio Partido da Liberdade, que combinava perspectivas \u201clibert\u00e1rias\u201d e islamof\u00f3bicas. Dez anos mais tarde, a Alternative f\u00fcr Deutschland repetiu o modelo holand\u00eas na Alemanha. Todos estes partidos de direita insurgiram-se contra a corrup\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e o fechamento de suas institui\u00e7\u00f5es nacionais e contra os ditames burocr\u00e1ticos da Uni\u00e3o Europeia a partir de Bruxelas. Todos, com a \u00fanica exce\u00e7\u00e3o do AfD (fundado em 2013), s\u00e3o anteriores ao crash de 2008.<\/p>\n<p>As for\u00e7as populistas de esquerda s\u00e3o muito mais recentes, tendo surgido apenas ap\u00f3s a crise financeira global de 2008. Na It\u00e1lia, o Movimento Cinco Estrelas data de 2009. Na Gr\u00e9cia, o Syriza, ainda um pequeno grupo quando o Lehman Brothers entrou em colapso em Nova York, surgiu como uma for\u00e7a eleitoral significativa em 2012. Na Espanha, o Podemos foi criado em 2014. Jean-Luc M\u00e9lenchon criou La France Insoumise em 2016. O momento desta onda deixa claro que foram as desigualdades socioecon\u00f4micas do neoliberalismo, e n\u00e3o o enfraquecimento das fronteiras \u00e9tnico-nacionais, que estimularam o surgimento do populismo de esquerda. Esta \u00e9 uma distin\u00e7\u00e3o fundamental entre os dois tipos de revolta contra a ordem atual. N\u00e3o se trata, por\u00e9m, de um abismo intranspon\u00edvel, uma vez que n\u00e3o h\u00e1 apenas uma sobreposi\u00e7\u00e3o geral na repulsa comum ao conluio e \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o dos establishments pol\u00edticos de cada pa\u00eds, mas tamb\u00e9m, em alguns casos, uma contiguidade na defesa comum de sistemas de bem-estar amea\u00e7ados e, em outros, na preocupa\u00e7\u00e3o com as press\u00f5es da imigra\u00e7\u00e3o. Sob o comando de Marine Le Pen, o Front Nacional esteve consistentemente \u00e0 esquerda do Partido Socialista franc\u00eas na maioria das quest\u00f5es de pol\u00edtica interna e externa, com exce\u00e7\u00e3o da imigra\u00e7\u00e3o, apresentando cr\u00edticas ao regime de Fran\u00e7ois Hollande muitas vezes indistingu\u00edveis das de M\u00e9lenchon. Por outro lado, o Movimento Cinco Estrelas, na It\u00e1lia, cujo registro de vota\u00e7\u00e3o no parlamento foi, em geral, impecavelmente radical, expressou repetidamente seu alarme diante do crescente afluxo de refugiados \u00e0 It\u00e1lia. Outro gesto comum a praticamente todos os matizes do populismo na Europa foi a rebeli\u00e3o contra o confisco flagrante da democracia pelas estruturas da Uni\u00e3o Europeia em Bruxelas.<\/p>\n<p>No entanto, durante sete anos ap\u00f3s o crash de 2008, o impacto pol\u00edtico das revoltas populistas na Europa foi bastante modesto \u2013 nada remotamente compar\u00e1vel \u00e0s tempestades que varreram a Europa e a Am\u00e9rica na d\u00e9cada de 1930. A Liga do Norte e o AfD ficaram abaixo dos 5% dos votos. O Ukip, os Democratas da Su\u00e9cia, o Partido da Liberdade holand\u00eas, o Partido do Progresso noruegu\u00eas e a Frente Nacional estavam conquistando entre 10 e 18% do eleitorado. Todos eles s\u00e3o populismos de direita. O Partido da Liberdade, na \u00c1ustria, e o Partido Popular Dinamarqu\u00eas, tamb\u00e9m de direita, e o Podemos, de esquerda, atingiam pouco mais de um quinto dos cidad\u00e3os ativos. Os dois populismos mais bem sucedidos eram cria\u00e7\u00f5es ent\u00e3o recentes da esquerda: na It\u00e1lia, o Movimento Cinco Estrelas obteve um quarto dos votos e, na Gr\u00e9cia, o Syriza mais de um ter\u00e7o.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O que mudou tudo isto foram quatro outros acontecimentos. Na Gr\u00e3-Bretanha, o governante Partido Conservador, sob press\u00e3o interna e amea\u00e7ado de perder eleitores para o Ukip, autorizou um referendo sobre a ades\u00e3o \u00e0 Uni\u00e3o Europeia. Seus l\u00edderes imaginaram que se produziria uma vit\u00f3ria f\u00e1cil para o status quo, dado que tr\u00eas quartos dos membros do Parlamento, a totalidade da alta finan\u00e7a e das grandes empresas, os n\u00edveis mais altos da burocracia sindical e as fileiras da intelligentsia e do establishment cultural do pa\u00eds eram favor\u00e1veis a que a ades\u00e3o continuasse. Para espanto geral, uma clara maioria da popula\u00e7\u00e3o votou pela sa\u00edda da Europa, com uma participa\u00e7\u00e3o muito mais elevada do que nas elei\u00e7\u00f5es gerais. Decisiva para o resultado foi a revolta das regi\u00f5es e classes mais abandonadas do pa\u00eds contra o establishment neoliberal bipartid\u00e1rio que estava continuamente no poder desde a d\u00e9cada de 1990. Foi a primeira vez que uma rebeli\u00e3o populista se tornou a express\u00e3o de uma maioria pol\u00edtica num pa\u00eds capitalista e, ao faz\u00ea-lo, alterou o curso de sua hist\u00f3ria. Foi uma revolta orquestrada por for\u00e7as de direita: Ukip, a ala tradicionalista do Partido Conservador e a maior parte da imprensa sensacionalista. Mas seu \u00eaxito se baseou na mobiliza\u00e7\u00e3o de vastas camadas da popula\u00e7\u00e3o que, no passado, tinham sido basti\u00f5es da esquerda trabalhista.<\/p>\n<p>Poucos meses depois, Donald Trump triunfou nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais dos Estados Unidos, nas quais tinha saudado o Brexit como um ensaio geral. Sua campanha, obviamente distinta de seu governo, foi de um tom e conte\u00fado puramente populistas de direita \u2013 acordes tocados pela \u00faltima vez em seu discurso de posse, que combinou den\u00fancias contundentes de involu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, aumento da desigualdade e perda de soberania nacional com hostilidade \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o. Sua vit\u00f3ria nacional foi, de certa forma, acidental: se os democratas tivessem escolhido praticamente qualquer outro candidato menos impopular do que Hillary Clinton, ele teria provavelmente sido derrotado. Ficando muito aqu\u00e9m de uma maioria absoluta, com menos votos agregados do que Hillary Clinton, a [primeira] vit\u00f3ria de Donald Trump n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o atingiu as mesmas propor\u00e7\u00f5es do Brexit, como tamb\u00e9m dependeu, para seu sucesso, do sequestro de lealdades partid\u00e1rias reflexas entre aqueles que estavam dispostos a votar em qualquer candidato desde que fosse republicano, independentemente de qu\u00e3o desagrad\u00e1vel fosse. No entanto, a vit\u00f3ria de Donald Trump n\u00e3o foi conseguida com base numa \u00fanica quest\u00e3o de sim\/n\u00e3o, como no Brexit, mas numa ampla plataforma pol\u00edtico-ideol\u00f3gica, e seu apoio entre os eleitores da classe trabalhadora pode ter sido maior do que o obtido pelo Brexit: cerca de 70% dos que votaram nele n\u00e3o tinham um diploma universit\u00e1rio. Este tamb\u00e9m n\u00e3o foi o \u00fanico surto populista nos Estados Unidos nesse ano. Bernie Sanders revelou-se um formid\u00e1vel advers\u00e1rio para a escolha do candidato democrata no campo da esquerda. Se considerarmos os elementos das classes menos privilegiadas que votaram em Donald Trump nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais e os que votaram em Sanders nas prim\u00e1rias democratas como uma porcentagem proporcional aos que o fizeram por Hillary Clinton em novembro, cerca de um ter\u00e7o dos votantes em 2016 eram suscet\u00edveis a um populismo de direita e um quinto a um populismo de esquerda.<\/p>\n<p>A surpresa seguinte foi o desempenho do Partido Trabalhista brit\u00e2nico nas elei\u00e7\u00f5es gerais de 2017, sob a lideran\u00e7a de seu novo l\u00edder, Jeremy Corbyn, at\u00e9 ent\u00e3o rejeitado quase universalmente como um perdedor de extrema esquerda sem esperan\u00e7as e politicamente incompetente. Na ocasi\u00e3o, conduzindo uma campanha muito eficaz sob o slogan populista \u201cFor the Many, Not the Few\u201d [\u201cPara muitos, n\u00e3o para uns poucos\u201d], ele obteve uma vota\u00e7\u00e3o maior do que seu partido tinha obtido em qualquer uma das tr\u00eas elei\u00e7\u00f5es precedentes, privando os conservadores de sua maioria no Parlamento, numa plataforma mais explicitamente hostil \u00e0 ordem neoliberal do que a de qualquer partido de peso compar\u00e1vel na Europa. A tradi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e a natureza inalterada do trabalhismo brit\u00e2nico, ambos profundamente conservadores, est\u00e3o longe de ser populistas. Mas um grande afluxo de jovens ao partido depois que Jeremy Corbyn se tornou seu l\u00edder \u2013 o que fez dele a maior organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da Europa durante algum tempo \u2013 foi como uma inje\u00e7\u00e3o s\u00fabita e maci\u00e7a de uma cepa estranha, trazenda a agremia\u00e7\u00e3o para o que, em outras condi\u00e7\u00f5es, teria sido uma dire\u00e7\u00e3o populista de esquerda. N\u00e3o muito diferente da transforma\u00e7\u00e3o do Parti de Gauche, de M\u00e9lenchon, parte da tradu\u00e7\u00e3o socialista, no plenamento populista France Insoumise, de 2016.<\/p>\n<p>Em 2018, o obst\u00e1culo mais alto foi ultrapassado na It\u00e1lia, onde dois partidos explicitamente populistas, o Movimento Cinco Estrelas, \u00e0 esquerda, e a Liga, \u00e0 direita, obtiveram, em conjunto, 50% dos votos \u2013 um terremoto na It\u00e1lia e, de longe, o resultado mais alarmante at\u00e9 o momento para o establishment europeu, uma vez que ambos anunciaram que n\u00e3o tinham inten\u00e7\u00e3o de submeter o pa\u00eds aos ditames de mais austeridade de Berlim, Paris ou Bruxelas. As elei\u00e7\u00f5es italianas marcaram tamb\u00e9m a primeira vez que, no confronto direto, o populismo de esquerda ultrapassou por larga margem o populismo de direita: 33% para o M5S, 17% para a Liga. Nos demais lugares, foi o contr\u00e1rio. Na Fran\u00e7a, em 2017, os votos de Le Pen ultrapassaram os de M\u00e9lenchon. No Reino Unido, Corbyn foi fortemente derrotado em 2019 pelo demagogo conservador Boris Johnson, encarna\u00e7\u00e3o extravagante de um simulacro de populismo de direita.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o pela qual o populismo de direita tem gozado de uma vantagem sobre o populismo de esquerda n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil de observar. Na ordem neoliberal, desigualdade, oligarquia e mobilidade dos fatores deprodu\u00e7\u00e3o formam um sistema interligado. Os populismos de direita e de esquerda podem, de formas diferentes, atacar os dois primeiros com um vigor mais ou menos desinibido. Mas s\u00f3 a direita pode atacar o terceiro com uma veem\u00eancia ainda maior, com a xenofobia contra os imigrantes funcionando como seu trunfo. A\u00ed, os populismos de esquerda n\u00e3o podem seguir sem suic\u00eddio moral. E tamb\u00e9m n\u00e3o podem facilmente atenuar o problema da imigra\u00e7\u00e3o, por duas raz\u00f5es. N\u00e3o \u00e9 mero mito que as empresas importem for\u00e7a de trabalho barata do estrangeiro \u2013 ou seja, trabalhadores tipicamente desprotegidos por direitos de cidadania \u2013 para rebaixar os sal\u00e1rios e, em alguns casos, para tirar empregos dos trabalhadores locais, que qualquer esquerda deve procurar defender. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 verdade que, numa sociedade neoliberal, os eleitores tenham sido normalmente consultados sobre a chegada ou o volume da for\u00e7a de trabalho estrangeira: isto aconteceu quase sempre \u00e0s suas costas, tornando-se uma quest\u00e3o pol\u00edtica n\u00e3o <em>ex ante <\/em>mas <em>ex post facto<\/em>. H\u00e1 aqui uma diferen\u00e7a transatl\u00e2ntica. A nega\u00e7\u00e3o da democracia em que se transformou a estrutura da Uni\u00e3o Europeia incluiu, desde o in\u00edcio, a nega\u00e7\u00e3o de qualquer fala democr\u00e1tica sobre a composi\u00e7\u00e3o de sua popula\u00e7\u00e3o. A Constitui\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos, lamentavelmente anacr\u00f4nica em muitos outros aspectos, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o radicalmente n\u00e3o democr\u00e1tica. Historicamente tamb\u00e9m, \u00e9 claro, os EUA s\u00e3o uma sociedade de imigrantes, como nenhum pa\u00eds europeu alguma vez foi. Isso significa que h\u00e1 uma tradi\u00e7\u00e3o de acolhimento seletivo e de solidariedade em rela\u00e7\u00e3o aos rec\u00e9m-chegados que n\u00e3o se encontra na Europa com a mesma intensidade emocional. Mas em ambos os lados do Atl\u00e2ntico, o populismo de esquerda enfrenta a mesma dificuldade. Os populismos de direita t\u00eam uma posi\u00e7\u00e3o simples sobre a imigra\u00e7\u00e3o: barrar a porta aos estrangeiros e expulsar os que n\u00e3o deviam estar aqui. A esquerda n\u00e3o pode ter algo a ver com isto. Mas qual \u00e9 exatamente sua pol\u00edtica de imigra\u00e7\u00e3o: fronteiras abertas, testes de compet\u00eancias, cotas regionais, ou o qu\u00ea? Em nenhum lugar foi dada uma resposta politicamente coerente, empiricamente detalhada e sincera at\u00e9 o momento. Enquanto isso persistir, \u00e9 muito prov\u00e1vel que o populismo de direita mantenha sua vantagem sobre o populismo de esquerda.<\/p>\n<p>O problema, na verdade, \u00e9 mais amplo. Nenhum populismo, de direita ou de esquerda, produziu at\u00e9 agora um rem\u00e9dio poderoso para os males que denuncia. Do ponto de vista program\u00e1tico, os opositores contempor\u00e2neos do neoliberalismo ainda est\u00e3o, em sua maioria, assobiando no escuro. Como combater a desigualdade \u2013 e n\u00e3o apenas remend\u00e1-la \u2013 de uma forma s\u00e9ria, sem desencadear imediatamente uma greve do capital? Que medidas podem ser previstas para enfrentar o inimigo, golpe a golpe, nesse terreno disputado, e sair vitorioso? Que tipo de reconstru\u00e7\u00e3o, inevitavelmente radical nessa altura, da atual democracia liberal seria necess\u00e1ria para p\u00f4r fim \u00e0s oligarquias que ela gerou? Como desmantelar o Estado profundo, organizado em todos os pa\u00edses ocidentais para a guerra imperial \u2013 clandestina ou aberta? Que reconvers\u00e3o da economia imagina-se para combater as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, sem empobrecer as sociedades j\u00e1 pobres de outros continentes? Que faltem tantas flechas na aljava de uma oposi\u00e7\u00e3o s\u00e9ria ao status quo n\u00e3o \u00e9, evidentemente, culpa apenas dos populismos atuais. Reflete a contra\u00e7\u00e3o intelectual da esquerda, em seus longos anos de recuo desde a d\u00e9cada de 1970, e a esterilidade, nesse per\u00edodo, do que foram outrora vertentes originais de pensamento \u00e0s margens da corrente predominante. Podem ser citadas propostas paliativas, que variam de pa\u00eds para pa\u00eds: Medicare para todos nos EUA, renda garantida para os cidad\u00e3os na It\u00e1lia, bancos p\u00fablicos de investimento na Gr\u00e3-Bretanha, Taxa Tobin na Fran\u00e7a e coisas do tipo. Mas, em rela\u00e7\u00e3o a uma alternativa geral e articulada ao status quo, o arm\u00e1rio continua vazio. Para imaginar o resultado prov\u00e1vel da chegada de um partido ou movimento populista ao poder atualmente, basta olhar, \u00e0 esquerda, para o destino vira-casaca do Syriza na Gr\u00e9cia. Na oposi\u00e7\u00e3o, foi um rebelde contra os ditames da UE; no governo, um instrumento submisso da mesma. \u00c0 direita, tome-se a normaliza\u00e7\u00e3o, da noite para o dia, da primeira presid\u00eancia de Trump, que cuspira fogo contra a complac\u00eancia e a desigualdade do establishment no dia em que tomou posse, e nada fez em rela\u00e7\u00e3o a isso uma vez na Casa Branca. Em termos pol\u00edticos, o neoliberalismo n\u00e3o tem corrido grande perigo em nenhuma das duas situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Neste cen\u00e1rio, o v\u00edrus da Covid atingiu o mundo como um raio em 2020, for\u00e7ando confinamentos em todo o mundo. Donald Trump e Boris Johnson, que estavam em alta um ano antes, foram derrubados por seu impacto. Donald Trump teria sido quase certamente reeleito naquele ano, se seu governo n\u00e3o tivesse sido atingido pela pandemia. Boris Johnson foi destitu\u00eddo por seu pr\u00f3prio partido em 2022. Sob a onda de choque da Covid, o com\u00e9rcio internacional despencou e, em poucos meses, perderam-se quinhentos milh\u00f5es de postos de trabalho em todo o mundo. Nos Estados Unidos, o mercado de a\u00e7\u00f5es caiu e o PIB sofreu a pior queda desde 1946, contraindo 3,5% em 2020. No Reino Unido, o PIB caiu 10% e na Uni\u00e3o Europeia 6%. \u00c0 medida em que as cadeias de abastecimento mundiais se desgastaram, a infla\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a aumentar em toda a OCDE e, com ela, o desemprego. Nesta situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia, o \u00faltimo ano do primeiro governo de Donald Trump foi marcado por um enorme est\u00edmulo fiscal para evitar uma recess\u00e3o mais profunda. A partir de 2021, com Joe Biden na Casa Branca, foi posta em marcha uma interven\u00e7\u00e3o ainda maior do Estado para estabilizar a economia norte-americana. A chamada Lei de Redu\u00e7\u00e3o da Infla\u00e7\u00e3o, injetou 750 bilh\u00f5es de d\u00f3lares na economia, com um enorme pacote de subs\u00eddios estatais para incentivar novos investimentos, sustentar a renda das fam\u00edlias e alterar o uso de energia. Foi seguida pela Lei de Chips e Ci\u00eancia de 2022, que despejou mais 280 bilh\u00f5es de d\u00f3lares de gastos p\u00fablicos nas ind\u00fastrias de semicondutores e associadas, juntamente com uma bateria de medidas protecionistas destinadas a derrotar a concorr\u00eancia de alta tecnologia da China. Este era um programa orgulhosamente descrito pelos apoiadores do governo Joe Biden como uma vers\u00e3o do s\u00e9culo XXI do New Deal de Roosevelt. Suas receitas modernizariam a ind\u00fastria estadunidense, ajudariam os mais desfavorecidos e equipariam as for\u00e7as armadas para combater a amea\u00e7a representada pela ascens\u00e3o da China. Muitos saudaram suas amplas interven\u00e7\u00f5es estatistas e acolheram a ado\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas industriais ativas como uma ruptura com o neoliberalismo compar\u00e1vel e t\u00e3o decisiva como a ruptura de Roosevelt com as doutrinas paleoliberais na d\u00e9cada de 1930. Outros aplaudiram o renascimento, levado a cabo por Joe Biden, da pol\u00edtica da Guerra Fria de construir alian\u00e7as contra inimigos mortais no exterior, seja em torno do Mar Negro, no Oriente M\u00e9dio ou no Extremo Oriente, no melhor esp\u00edrito de Truman nas d\u00e9cadas de 1940 e 1950.<\/p>\n<p>A opini\u00e3o dominante, n\u00e3o s\u00f3 nos Estados Unidos, mas tamb\u00e9m, e muitas vezes ainda mais ardentemente, na Europa, saudou os resultados desta mudan\u00e7a como pouco menos do que um milagre. O peri\u00f3dico de massas mais influente e inteligente do mundo capitalista, funcionando por vezes como conselheiro semi-oficial para este, a revista <em>The Economist<\/em>, de Londres, p\u00f4de celebrar a norte-economia americana numa reportagem especial, em outubro passado, como \u201co objeto de inveja do mundo\u201d, cujo dinamismo p\u00f3s-pandemia \u201cdeixou os outros pa\u00edses ricos na poeira\u201d. Os comentadores nos pr\u00f3prios EUA enalteceram a capacidade de Joe Biden de suprimir a infla\u00e7\u00e3o, as medidas de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade de seu governo em rela\u00e7\u00e3o aos menos favorecidos, suas pol\u00edticas inter\u00e9tnicas progressistas de \u201cdiversidade, equidade e inclus\u00e3o\u201d. Tanto na Europa como nos EUA, houve aplausos para sua firmeza em estar lado a lado com Israel em Gaza e com a Ucr\u00e2nia. Por\u00e9m, os eleitores norte-americanos ficaram menos impressionados. No ver\u00e3o do ano passado, Joe Biden estava t\u00e3o desacreditado que seu pr\u00f3prio partido for\u00e7ou-o a desistir de sua candidatura \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o, da mesma forma que os conservadores expulsaram Boris Johnson na Gr\u00e3-Bretanha, deixando Kamala Harris, sua desafortunada vice-presidente, a ser derrotada em novembro por Donald Trump, que obteve uma vit\u00f3ria mais ampla do que em 2016.<\/p>\n<p>O que a segunda presid\u00eancia de Donald Trump significar\u00e1 para os Estados Unidos e para o mundo permanece indeterminado, dado o fosso de longa data entre suas palavras e seus atos. No \u00e2mbito interno, \u00e9 poss\u00edvel que, desta vez, n\u00e3o cumpra suas promessas eleitorais de impor tarifas aduaneiras de 60% sobre todos os produtos provenientes da China e deportar todos os onze milh\u00f5es de imigrantes ilegais nos Estados Unidos, tal como n\u00e3o cumpriu suas promessas da \u00faltima vez de reconstruir a infraestrutura norte-americana em ru\u00ednas e de construir um muro intranspon\u00edvel ao longo de toda a fronteira mexicana. No entanto, dado o controle republicano de ambas as c\u00e2maras do Congresso durante, pelo menos, dois anos, \u00e9 mais prov\u00e1vel que ele cumpra algumas de suas promessas do que descarte todas elas, e que, em mat\u00e9ria de com\u00e9rcio, obrigue tanto os aliados como os advers\u00e1rios a pagar mais tributos monet\u00e1rios aos Estados Unidos do que no passado. No exterior, pode parar a guerra na Ucr\u00e2nia, cortando toda a ajuda a Kiev; ou pode agravar o conflito, se a R\u00fassia recusar as condi\u00e7\u00f5es em que ele espera p\u00f4r fim aos combates. Ele acredita na vantagem de ser imprevis\u00edvel e, certamente, a Uni\u00e3o Europeia, a Gr\u00e3-Bretanha e o Jap\u00e3o, mesmo que n\u00e3o gostem do que faz, s\u00e3o demasiado fracos como parceiros subordinados para desvi\u00e1-lo disso.<\/p>\n<p>O governo da Alemanha \u2013 a pot\u00eancia mais forte da Europa \u2013 entrou em colapso no dia seguinte \u00e0 elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump, quando Olaf Scholz demitiu seu ministro das finan\u00e7as e perdeu o terceiro partido de que dependia sua coaliz\u00e3o. Nunca antes um acontecimento deste g\u00eanero tinha ocorrido na Rep\u00fablica Federal. As novas elei\u00e7\u00f5es duplicaram os votos do AfD para um quinto do eleitorado, dando origem a outra coaliz\u00e3o do establishment que se apressa para aprovar um aumento das despesas com defesa num Bundestag \u2013 algo que os eleitores acabaram de rejeitar, em mais uma demonstra\u00e7\u00e3o de como as elites europeias se preocupam pouco com a democracia que proclamam com ardor. Na Fran\u00e7a, o governo nomeado por Emmanuel Macron ap\u00f3s sua derrota nas urnas, no ver\u00e3o passado, colapsou em dois meses, derrubado por uma combina\u00e7\u00e3o de oposi\u00e7\u00e3o de direita e de esquerda na Assembleia Nacional, numa revolta que o pa\u00eds s\u00f3 conhecera uma vez, h\u00e1 mais de sessenta anos. Poucos acreditam que seu prec\u00e1rio sucessor, apoiado numa relutante coopta\u00e7\u00e3o do Partido Socialista, durar\u00e1 muito tempo. Em suma, a vers\u00e3o do populismo de direita de Donald Trump, abominada por metade do pa\u00eds como uma amea\u00e7a mortal \u00e0 democracia, tomou o poder em Washington num momento de desordem institucional em Berlim e Paris, e com um governo em Londres que \u00e9 agora ainda menos popular do que a oposi\u00e7\u00e3o desacreditada que derrotou h\u00e1 pouco tempo. Por todo o lado, o cen\u00e1rio \u00e9 de instabilidade, inseguran\u00e7a, imprevisibilidade. \u201cTudo \u00e9 desordem sob os c\u00e9us\u201d e h\u00e1 poucos sinais de um retorno \u00e0 ordem, tal como a entendem os que est\u00e3o habituados a governar o Ocidente.<\/p>\n<p>Qual \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o do neoliberalismo em meio a este turbilh\u00e3o? Em condi\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia, o sistema foi for\u00e7ado a tomar medidas \u2013 intervencionistas, estatistas e protecionistas \u2013 que s\u00e3o an\u00e1temas para sua doutrina, mas sem perder o controle sobre as mentes dos respons\u00e1veis pol\u00edticos, ou dar lugar a qualquer vis\u00e3o alternativa coerente sobre a forma como uma economia capitalista avan\u00e7ada deve ser gerida. Apesar dos desvios dram\u00e1ticos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pureza das receitas hayekianas ou friedmanianas, pouco mudou nas motiva\u00e7\u00f5es e contradi\u00e7\u00f5es subjacentes ao sistema que eles criaram. Enquanto o PIB dos Estados Unidos caiu cerca de 4,3% durante a Grande Recess\u00e3o ap\u00f3s o crash de 2008, e dois ter\u00e7os da popula\u00e7\u00e3o ativa da OCDE sofreram queda das rendas reais, o crescimento global foi retomado \u2013 ainda que em n\u00edveis muito inferiores aos alcan\u00e7ados na China, enquanto a desigualdade continuou aumentando. Nos Estados Unidos, o fosso entre as despesas das camadas mais ricas e mais pobres da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 o maior jamais registrado. Acima de tudo, entretanto, o que desencadeou a crise de 2008 foi compensado por mais do mesmo. O peso das finan\u00e7as no PIB norte-americano n\u00e3o diminuiu \u2013 antes, aumentou. O d\u00e9ficit do governo triplicou na \u00faltima d\u00e9cada. No mesmo per\u00edodo, a d\u00edvida p\u00fablica dos Estados Unidos aumentou 17 trilh\u00f5es de d\u00f3lares, um aumento equivalente ao dos 240 anos anteriores. No conjunto da OCDE, a d\u00edvida soberana total, que era de 26 trilh\u00f5es de d\u00f3lares em 2008, mais do que duplicou, subindo para 56 trilh\u00f5es de d\u00f3lares em 2024. Um regime internacional que h\u00e1 uma d\u00e9cada entrou em colapso e quase se afogou no mar de d\u00edvida que tinha criado est\u00e1 se encharcando com uma inunda\u00e7\u00e3o de d\u00edvida ainda maior, sem fim \u00e0 vista.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Estaremos finalmente assistindo ao in\u00edcio de uma mudan\u00e7a de regime no Ocidente, j\u00e1 anunciada v\u00e1rias vezes neste s\u00e9culo? Esta \u00e9 a mensagem do recente bestseller de um eminente historiador americano simp\u00e1tico a Biden, <em>The rise and fall of the neoliberal order: America and the world in the free market era<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/perry-anderson-neoliberalismo-este-zumbi\/#sdfootnote4sym\"><sup>4<\/sup><\/a>. <\/em>Gary Gerstle sugere que sugere que, a partir de diferentes dire\u00e7\u00f5es, Sanders e Trump desferiram golpes t\u00e3o eficazes na encarna\u00e7\u00e3o do neoliberalismo de Hillary Clinton que o caminho foi aberto por Joe Biden para que o equil\u00edbrio entre ricos e pobres na sociedade norte-americana come\u00e7asse a ser alterado e os benef\u00edcios da pol\u00edtica industrial comandada pelo governo se tornassem vis\u00edveis para milh\u00f5es. Reconhecendo que \u201cos vest\u00edgios da ordem neoliberal estar\u00e3o conosco durante anos e talvez d\u00e9cadas\u201d, o autor termina, no entanto, com a firme declara\u00e7\u00e3o de que \u201ca pr\u00f3pria ordem neoliberal est\u00e1 despeda\u00e7ada\u201d.<\/p>\n<p>De certa forma, uma acusa\u00e7\u00e3o ainda mais severa do balan\u00e7o socioecon\u00f4mico do per\u00edodo a partir Reagan vem de um antigo admirador do ex-presidente, o banqueiro indiano-americano Ruchir Sharma, ex-estrategista chefe global do Morgan Stanley, em <em>What went wrong with capitalism<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/perry-anderson-neoliberalismo-este-zumbi\/#sdfootnote5sym\"><sup>5<\/sup><\/a>. <\/em>Seu leitmotiv \u00e9 que \u201cas crises financeiras peri\u00f3dicas \u2013 que eclodiram em 2001, 2008 e 2020 \u2013 desenrolam-se agora contra o pano de fundo de uma crise permanente e di\u00e1ria de m\u00e1 aloca\u00e7\u00e3o colossal de capital\u201d, o resultado de enormes inje\u00e7\u00f5es de dinheiro f\u00e1cil injetado nas economias avan\u00e7adas pelos bancos centrais, para sustentar taxas de crescimento em decl\u00ednio constante. Estas torrentes de dinheiro distribu\u00eddas pelo Estado s\u00e3o a verdade \u00faltima e primordial deste per\u00edodo. Sharma adverte que, mais cedo ou mais tarde, o sistema ser\u00e1 afetado por um choque monumental. Que rem\u00e9dio isso traria? A resposta de Sharma: o retorno a um Estado menor e a um dinheiro mais apertado, a receita cl\u00e1ssica de Mises e Hayek \u2013 o neoliberalismo completa-se mais uma vez.<\/p>\n<p>Estes vereditos contrastantes n\u00e3o s\u00e3o, em si mesmos, uma novidade. Eric Hobsbawm proclamava \u201cA morte do neoliberalismo\u201d em 1998. Alguns anos mais tarde, Colin Crouch, n\u00e3o menos avesso a este sistema e intitulando seu livro sobre as desventuras dele <em>The strange non-death of neoliberalism<\/em>, chegou \u00e0 conclus\u00e3o oposta, um ju\u00edzo que reiterou h\u00e1 um ano num texto intitulado <em>Neoliberalism: still to shrug off its mortal coil [\u201cNeoliberalismo: ainda preso a sua mortalha\u201d]<\/em>. Estas foram as conclus\u00f5es de um inimigo declarado da ordem neoliberal. Um expoente convicto, Jason Furman \u2013 assistente especial de Bill Clinton, presidente do Conselho de Consultores Econ\u00f4micos de Obama, admirador do modelo de gest\u00e3o do Walmart \u2013 \u00e9 da mesma opini\u00e3o. Num artigo de primeira p\u00e1gina da <em>Foreign Affairs<\/em>, intitulado <em>\u201cThe post-neoliberal delusion\u201d<\/em>, Furman responde vigorosamente a pensadores como Gerstle, atribuindo a derrota dos democratas pela Casa Branca \u00e0 loucura de abandonarem a disciplina econ\u00f4mica ortodoxa com programas de despesas supostamente vastos e incontinentes, que n\u00e3o atingiram seus objetivos. Apresentando os custos e benef\u00edcios do mandato de Joe Biden com riqueza de detalhes exagerada, Furman relata: \u201cA infla\u00e7\u00e3o, o desemprego, as taxas de juro e a d\u00edvida p\u00fablica eram todos mais elevados em 2024 do que em 2019. De 2019 a 2023, a renda familiar ajustada pela infla\u00e7\u00e3o caiu e a taxa de pobreza aumentou\u201d. \u201cApesar dos esfor\u00e7os para aumentar o cr\u00e9dito tribut\u00e1rio infantil e o sal\u00e1rio m\u00ednimo\u201d, continua ele, \u201cambos eram consideravelmente mais baixos em termos ajustados pela infla\u00e7\u00e3o quando Biden deixou o cargo do que quando entrou. Apesar de toda a \u00eanfase que colocou nos trabalhadores norte-americanos, Biden foi o primeiro presidente democrata em um s\u00e9culo que n\u00e3o expandiu permanentemente a rede de prote\u00e7\u00e3o social\u201d. Conclus\u00e3o: \u201cOs dirigentes pol\u00edticos n\u00e3o devem mais ignorar o essencial em busca de solu\u00e7\u00f5es heterodoxas fantasiosas\u201d. O que foi rejeitado como ortodoxia neoliberal estaria vivo e bem, e ofereceria o \u00fanico caminho a seguir.<\/p>\n<p>Um regime internacional est\u00e1 sendo enterrado, ou est\u00e1 ressuscitando, como <strong>L\u00e1zaro<\/strong>? O impasse entre os vereditos destes especialistas tem seu correlato no panorama pol\u00edtico, em que o conflito entre neoliberalismo e populismo, os advers\u00e1rios que se confrontaram em todo o <strong>Ocidente<\/strong> desde o in\u00edcio do s\u00e9culo, tornou-se cada vez mais explosivo, como demonstram os acontecimentos das \u00faltimas semanas \u2013 mesmo que, apesar de todas as suas aparentes concess\u00f5es ou recuos, o neoliberalismo mantenha a vantagem. O primeiro sobreviveu apenas por ser capaz de reproduzir o que amea\u00e7a derrub\u00e1-lo, enquanto o segundo cresceu em magnitude sem avan\u00e7ar numa estrat\u00e9gia relevante. O impasse pol\u00edtico entre os dois n\u00e3o acabou: quanto tempo durar\u00e1 \u00e9 uma inc\u00f3gnita.<\/p>\n<p>Isto quer dizer que n\u00e3o se pode esperar qualquer mudan\u00e7a s\u00e9ria no modo de produ\u00e7\u00e3o existente, at\u00e9 que um conjunto coerente de ideias econ\u00f4micas e pol\u00edticas, compar\u00e1vel aos paradigmas keynesianos ou hayekianos de outrora, tenha tomado forma como um caminho alternativo de gerir as sociedades contempor\u00e2neas? N\u00e3o necessariamente. Fora das zonas centrais do capitalismo, pelo menos duas altera\u00e7\u00f5es de grande import\u00e2ncia ocorreram sem que nenhuma doutrina sistem\u00e1tica as imaginasse ou propusesse antecipadamente. Uma foi a transforma\u00e7\u00e3o do Brasil com a revolu\u00e7\u00e3o que levou Get\u00falio Vargas ao poder em 1930, quando as exporta\u00e7\u00f5es de caf\u00e9 de que sua economia dependia entraram em colapso na crise e a recupera\u00e7\u00e3o foi pragmaticamente conseguida atrav\u00e9s da substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es, sem o impulso de qualquer teoria antecipada. A outra, ainda mais abrangente, foi a transforma\u00e7\u00e3o, ap\u00f3s a morte de Mao, da economia planificada na China, na Era da Reforma presidida por Deng Xiaoping, com a introdu\u00e7\u00e3o do sistema de responsabilidade das fam\u00edlias na agricultura e a arrancada, por empresas das vilas e aldeias, rumo \u00e0 mais espetacular explos\u00e3o sustentada de crescimento econ\u00f4mico de que h\u00e1 registro na hist\u00f3ria \u2013 o que tamb\u00e9m foi improvisado e experimental, sem qualquer tipo de teorias pr\u00e9-existentes. Ser\u00e3o estes casos demasiado ex\u00f3ticos para terem qualquer influ\u00eancia no cora\u00e7\u00e3o do capitalismo avan\u00e7ado? O que os tornou poss\u00edveis foi a magnitude do choque e a profundidade da crise que cada sociedade sofreu: a recess\u00e3o no Brasil, a Revolu\u00e7\u00e3o Cultural na China \u2013 equivalentes tropical e oriental dos golpes na autoconfian\u00e7a ocidental durante a Segunda Guerra Mundial. Se se desfizer em algum momento, no Ocidente, a descren\u00e7a em qualquer alternativa, \u00e9 prov\u00e1vel que um feito compar\u00e1vel seja respons\u00e1vel por isso.<\/p>\n<h2><\/h2>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/perry-anderson-neoliberalismo-este-zumbi\/#sdfootnote1anc\">1<\/a>Nye tornou-se presidente do Conselho Nacional de Intelig\u00eancia e secret\u00e1rio adjunto da Defesa na administra\u00e7\u00e3o Clinton.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/perry-anderson-neoliberalismo-este-zumbi\/#sdfootnote2anc\">2<\/a>Forsyth e Notermans tiveram o cuidado de terminar seu relato destacando que n\u00e3o estavam oferecendo explica\u00e7\u00f5es causais para as sucessivas mudan\u00e7as sist\u00eamicas que narravam. Notermans, o mais prol\u00edfico dos dois, tornou-se um not\u00e1vel cr\u00edtico do neoliberalismo \u2013 um termo que s\u00f3 se generalizou neste s\u00e9culo \u2013 do ponto de vista de uma social-democracia friamente realista, produzindo, entre outras coisas, a melhor an\u00e1lise do modelo econ\u00f4mico do imposto de renda com al\u00edquota \u00fanica no pa\u00eds para onde se mudou: \u201cAn unassailable fortress? Neoliberalism in Estonia\u201d, em <em>Localities<\/em> (2015).<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/perry-anderson-neoliberalismo-este-zumbi\/#sdfootnote3anc\">3<\/a>Para entender o conceito de N-grama, consulte a Wikipedia, em https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/N-grama<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/perry-anderson-neoliberalismo-este-zumbi\/#sdfootnote4anc\">4<\/a>Oxford, 432 pp., setembro de 2023.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/perry-anderson-neoliberalismo-este-zumbi\/#sdfootnote5anc\">5<\/a>Allen Lane, 384 pp., junho de 2024.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, contribua com um PIX para <strong>outrosquinhentos@outraspalavras.net<\/strong> e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico.<\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/perry-anderson-neoliberalismo-este-zumbi\/\">Perry Anderson: O neoliberalismo, este zumbi<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/do-lar-a-plataforma-a-continuidade-da-violencia-contra-mulheres-no-setor-petroleiro\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Do lar \u00e0 plataforma: a continuidade da viol\u00eancia c...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/juros-cada-vez-mais-juros-ate-quando\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/lula1-1-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Juros, cada vez mais juros. At\u00e9 quando?<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/mesmo-com-tarifaco-de-trump-china-exportou-o-triplo-do-que-importou-dos-eua-no-1o-semestre\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Mesmo com tarifa\u00e7o de Trump, China exportou o trip...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/investimento-em-biocombustiveis-perde-espaco-para-petroleo-e-energia-solar\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Investimento em biocombust\u00edveis perde espa\u00e7o para ...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Boletim Outras Palavras Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site Assinar Loading&#8230; Assinar Loading&#8230; Agradecemos! Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura! Por Perry Anderson, na London Review of Books | Tradu\u00e7\u00e3o: Antonio Martins T\u00edtulo original:Mudan\u00e7a de regime no Ocidente? Passado um quarto deste s\u00e9culo, \u201cmudan\u00e7a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":22354,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-22353","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-uncategorized"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22353","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22353"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22353\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/22354"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22353"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22353"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22353"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}