{"id":22857,"date":"2025-04-17T18:38:15","date_gmt":"2025-04-17T21:38:15","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/uma-autopsia-do-ocidente\/"},"modified":"2025-04-17T18:38:15","modified_gmt":"2025-04-17T21:38:15","slug":"uma-autopsia-do-ocidente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/uma-autopsia-do-ocidente\/","title":{"rendered":"Uma aut\u00f3psia do Ocidente"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"550\" height=\"698\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/12138652.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/12138652.jpeg 550w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/12138652-236x300.jpeg 236w\" sizes=\"auto, (max-width: 550px) 100vw, 550px\"><figcaption>Arte: \u00caxodo II, 1949, de Lasar Segall <\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>\u201c<em>Certas estruturas, por viverem muito tempo,<\/em><br \/><em>tornam-se elementos est\u00e1veis<\/em><br \/><em>de uma infinidade de gera\u00e7\u00f5es:<\/em><br \/><em>embara\u00e7am a hist\u00f3ria, incomodam-na,<\/em><br \/><em>e assim comandam seu fluxo.\u201d<\/em><br \/>(<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Fernand_Braudel\">Fernand Braudel<\/a>)<\/p>\n<p>\u201c<em>O Ocidente? Um poss\u00edvel sem futuro.\u201d<\/em><br \/>(<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Emil_Cioran\">Emil Cioran<\/a>)<\/p>\n<p>O Ocidente governa o conflituoso mundo humano desde tempos imemoriais. Seu ide\u00e1rio milenar, que compreende todo um conjunto de cren\u00e7as, valores, costumes, h\u00e1bitos, tradi\u00e7\u00f5es, apropria\u00e7\u00f5es, tecnologias, inova\u00e7\u00f5es, guerras, dom\u00ednios e, sobretudo, sua perene <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Destrui%C3%A7%C3%A3o_criativa\">\u201cdestrui\u00e7\u00e3o criativa\u201d<\/a>, \u00e9 talvez o principal indutor cultural do modo de viver do <em>Homo sapiens<\/em> moderno. O Ocidente que proporcionou a uma parcela significativa da popula\u00e7\u00e3o mundial progressos fabulosos, geradores de bem-estar material e de aumento da expectativa de vida dos seres humanos, \u00e9 o mesmo Ocidente que escravizou, praticou exclus\u00f5es, opress\u00f5es, desigualdades e genoc\u00eddios, inventou e utilizou armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa e arrastou toda a humanidade para os atuais impasses da <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/desastre-planetario-negacionismo-revolta-politica\/\">perturba\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica planet\u00e1ria<\/a> e da imin\u00eancia de <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/havera-humanidade-apos-a-guerra-nuclear\/\">conflito geopol\u00edtico nuclear global<\/a>.<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/apoia.se\/outraspalavras\" aria-label=\"MAT\u00c9RIA-3\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/MATERIA-3-1.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/MATERIA-3-1.png 681w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-3-300x75.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 681px) 100vw, 681px\" width=\"681\" height=\"171\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>Por isso, os ideais do Ocidente sempre carregaram, mais do que esperan\u00e7as, muitas contradi\u00e7\u00f5es, ambiguidades e afli\u00e7\u00f5es. Como bem deduziu o escritor romeno Emil Cioran (1911-1995), o fil\u00f3sofo do desespero, em um de seus amargos silogismos, \u201cmil anos de guerras consolidaram o Ocidente; um s\u00e9culo de \u2018psicologia\u2019 p\u00f4s-lhe a corda no pesco\u00e7o\u201d. Dever\u00edamos, portanto, diante da situa\u00e7\u00e3o de <a href=\"https:\/\/editoraelefante.com.br\/um-futuro-em-estado-terminal\/\">policrise terminal<\/a> que marca o ag\u00f4nico tempo presente, investigar em profundidade as suas origens, os seus mecanismos de indu\u00e7\u00e3o do comportamento humano e, sobretudo, a sua hoje inequ\u00edvoca incapacidade de assegurar a continuidade do tortuoso curso civilizat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Neste in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, ap\u00f3s o modo de viver ocidental ter conquistado todos os povos do planeta, mediante a expans\u00e3o do <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/o-tempo-em-que-podemos-mudar-o-mundo-2\/\">sistema-mundo capitalista<\/a>, por meio do fen\u00f4meno da <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Globaliza%C3%A7%C3%A3o\">globaliza\u00e7\u00e3o<\/a> patrocinada pelo neoliberalismo <em>high tech<\/em>, essa inarred\u00e1vel conflituosidade que caracteriza o modo milenar de viver do <em>Homo sapiens<\/em> moderno esbarrou no seu paroxismo, ou melhor, no seu esgotamento, refletido especialmente em tr\u00eas principais impossibilidades civilizat\u00f3rias que sintetizam o \u00e1pice do conflito Ocidente <em>versus<\/em> Natureza (ou <em>versus<\/em> Realidade). S\u00e3o elas:<\/p>\n<p>1) as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e o acelerado e aparentemente irrefre\u00e1vel processo de aquecimento do planeta, que em 2024 alcan\u00e7ou o perigoso patamar de 1,55 \u00baC acima dos n\u00edveis pr\u00e9-industriais (1850-1900), ultrapassando o 1,5 \u00baC estipulado no <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Acordo_de_Paris_(2015)\">Acordo de Paris<\/a> (meta que deveria ser inegoci\u00e1vel face \u00e0 amea\u00e7a existencial implicada nessa acelera\u00e7\u00e3o, pois houve um salto de 0,4 \u00baC s\u00f3 nos \u00faltimos dois anos), evidenciando que estamos imersos e \u00e0 deriva num <a href=\"https:\/\/editoraelefante.com.br\/o-que-e-essencial-compreender-sobre-o-colapso-socioambiental-em-curso\/\">processo de colapso ambiental<\/a>, cuja acelera\u00e7\u00e3o ganha agora em 2025 um novo adepto de peso, o segundo (des)governo de Donald Trump que prometeu em seu discurso de posse: \u201cvamos perfurar, perfurar e perfurar.\u201d<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, o retorno de Trump \u2013 agora sob o influxo do avan\u00e7o global e irrefre\u00e1vel de uma <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Extrema-direita\">extrema direita<\/a> iliberal e salvacionista \u2013 pode estar encerrando irrecuperavelmente o per\u00edodo do Estado-na\u00e7\u00e3o (secular e liberal) como regulador civilizat\u00f3rio, assim como a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa p\u00f4s fim ao absolutismo mercantilista europeu. Este 2025 provavelmente ser\u00e1 considerado no futuro o ano em que o destino das civiliza\u00e7\u00f5es foi assumido pelos mercadores. Uma nova <em>Ordem Comercial<\/em> \u2013 que surgiu como um inofensivo parasita h\u00e1 cerca de 1.300 anos a. C., nos arredores do Mediterr\u00e2neo \u2013 est\u00e1 se sobrepondo \u00e0 obsolesc\u00eancia do Estado-na\u00e7\u00e3o e passando a governar o mundo. N\u00e3o h\u00e1 como voltar atr\u00e1s, e muito menos como prever o que emergir\u00e1 dessa insanidade civilizat\u00f3ria, inequivocamente terminal.<\/p>\n<p>2) a vertigem das armas nucleares de destrui\u00e7\u00e3o em massa, que representa o \u00e1pice do progresso cient\u00edfico que permitiu o desenvolvimento do instrumento hobbesiano de controle da agressividade humana, criado pelo homem para lidar com a perene e inarred\u00e1vel <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Guerra\">l\u00f3gica da \u201cguerra de todos contra todos\u201d<\/a> (Thomas Hobbes, em <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Leviat%C3%A3_(livro)\"><em>Leviat\u00e3<\/em><\/a>, de 1651), supostamente inscrita no <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Estado_natural\">\u201cestado de natureza\u201d<\/a> humana. Os EUA e R\u00fassia, os dois <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Pa%C3%ADses_com_armamento_nuclear\">maiores beligerantes<\/a> do planeta, tinham, em janeiro de 2023, cerca de <a href=\"https:\/\/unicamp.br\/unicamp\/ju\/artigos\/luiz-marques\/guerra-e-colapso-socioambiental\/\">8.200 ogivas nucleares<\/a> em seus arsenais militares, n\u00famero tendente a crescer em raz\u00e3o do cada vez mais degradado contexto geopol\u00edtico dos \u00faltimos anos. At\u00e9 a Europa, que agora perdeu a prote\u00e7\u00e3o americana em raz\u00e3o do novo regime \u201ccada um por si\u201d implementado pelo <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/trump-o-estado-sob-a-incultura-dos-ceos\/\">Estado-corpora\u00e7\u00e3o da segunda gest\u00e3o Trump<\/a>, resolveu reativar seu passado armamentista, mas provavelmente terminar\u00e1 se aliando comercialmente aos autoritarismos em ascens\u00e3o.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que tais armas nucleares encontram-se hoje na imin\u00eancia de serem utilizadas, especialmente em face dos tr\u00eas principais confrontos geopol\u00edticos imbricados, em andamento: a disputa de influ\u00eancia entre EUA, R\u00fassia e Europa em torno da falida Ucr\u00e2nia, a insol\u00favel contenda religiosa entre Israel e o fragmentado mundo isl\u00e2mico, e a guerra tecno-comercial entre EUA e China. Embates estes hiperturbinados pelo novo capitalismo s\u00f3 de mercado inaugurado por Trump, sem Estado, sem regras internacionais e sem diplomacia.<\/p>\n<p>3) catalisando as duas primeiras impossibilidades, o fen\u00f4meno da mercantiliza\u00e7\u00e3o da vida que est\u00e1 al\u00e7ando o <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Economia_de_mercado\"><em>Mercado<\/em><\/a> \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de novo regulador civilizat\u00f3rio, assumindo o lugar do Estado-na\u00e7\u00e3o. Combinado com a crescente e perigosa <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/a-crise-planetaria-e-o-resgate-da-democracia\/\">retra\u00e7\u00e3o dos regimes democr\u00e1ticos<\/a>, resultante da captura do Estado pelos agentes do mercado \u2013 um punhado de megacorpora\u00e7\u00f5es transnacionais \u2013, essa nova realidade tem acelerado o processo de degrada\u00e7\u00e3o dos v\u00ednculos de coes\u00e3o social, heran\u00e7a nefasta de mais de quatro d\u00e9cadas de doutrina neoliberal que, em simbiose com as inova\u00e7\u00f5es do inebriante novo mundo dos algoritmos, vem desencadeando uma profunda regress\u00e3o socioecon\u00f4mica e uma abissal desigualdade entre os povos e classes sociais. Assunto que tem ocupado as preocupa\u00e7\u00f5es de renomados economistas que tentam recuperar o real <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Sociologia_econ%C3%B4mica\">sentido da economia<\/a> (o termo vem do grego <em>oikos<\/em> que significa casa e nomos que significa costume ou lei, ou seja, economia significa satisfazer as necessidades da casa) como Ladislau Dowbor, Mariana Mazucato, Joseph Stiglitz, Thomas Pikety, Jeffrey Sachs, Amartya Sen, Vandana Shiva, Muhammad Yunus e tantos outros.<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/www.belasartesalacarte.com.br\/\" aria-label=\"OUTRAS PALAVRAS _A LA CAARTE728x90px\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/OUTRAS-PALAVRAS-_A-LA-CAARTE728x90px-1-1-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/OUTRAS-PALAVRAS-_A-LA-CAARTE728x90px-1-1-1.jpg 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/OUTRAS-PALAVRAS-_A-LA-CAARTE728x90px-1-1-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>O que torna a conturbada conjuntura global atual ainda mais sombria \u00e9 que parece n\u00e3o existir hoje consci\u00eancia coletiva nem alternativa civilizat\u00f3ria, frente \u00e0 <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/pos-capitalismo\/para-superar-a-agonia-da-civilizacao-patriarcal\/\">policrise terminal<\/a> vivenciada no presente. Essa situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 refletida na in\u00e9pcia pol\u00edtica e na incapacidade de di\u00e1logo para tratar dos dist\u00farbios planet\u00e1rios em curso, seja por parte dos l\u00edderes mundiais, seja por parte at\u00e9 mesmo da intelig\u00eancia cient\u00edfico-acad\u00eamica, todos ainda cognitivamente muito arraigados \u00e0s esperan\u00e7as iluministas que cegam o Ocidente. Seguimos inebriados com as distra\u00e7\u00f5es do <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Quarta_Revolu%C3%A7%C3%A3o_Industrial\">novo mundo 4.0<\/a>.<\/p>\n<p>Essas dram\u00e1ticas circunst\u00e2ncias globais (mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, risco de guerra nuclear e mundo desregulado pelo <em>Mercado<\/em>) representam uma profunda agonia civilizat\u00f3ria pelo simples fato de que parece n\u00e3o haver uma sa\u00edda a dois dilemas civilizat\u00f3rios decorrentes desse contexto de policrise:<\/p>\n<p>1) Como parar o acelerado <a href=\"https:\/\/editoraelefante.com.br\/o-que-e-essencial-compreender-sobre-o-colapso-socioambiental-em-curso\/\">processo de colapso ambiental<\/a> em curso, uma vez que as reiteradas confer\u00eancias cient\u00edficas realizadas desde 1972 (<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Confer%C3%AAncia_de_Estocolmo\">Estocolmo<\/a>), alertando que a sobreviv\u00eancia da humanidade nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas depende de uma redu\u00e7\u00e3o radical das emiss\u00f5es de gases de efeito estufa, t\u00eam sido in\u00f3cuas (ver comparativo <em><a href=\"https:\/\/www.nationalobserver.com\/2018\/12\/12\/analysis\/co2-vs-cops\">\u201dCO2 vs COPs<\/a>\u201d<\/em>)?<\/p>\n<p>2) Como imaginar que as <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Pa%C3%ADses_com_armamento_nuclear\">na\u00e7\u00f5es detentoras de armas nucleares<\/a> abram m\u00e3o de fazer uso desses arsenais para eliminar seus inimigos, o que poderia desencadear uma <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/havera-humanidade-apos-a-guerra-nuclear\/\">conflagra\u00e7\u00e3o nuclear terminal para a humanidade<\/a>, quando confrontadas com situa\u00e7\u00f5es cr\u00edticas de clara amea\u00e7a existencial, algo que nunca ocorreu ao longo da hist\u00f3ria registrada (ver listas de guerras <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Lista_de_guerras\">entre pa\u00edses<\/a> e <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Lista_de_guerras_civis\">civis<\/a>)?<\/p>\n<p>Resumindo, a humanidade encontra-se, pela primeira vez, diante de uma <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Extin%C3%A7%C3%A3o_humana\">crise existencial<\/a> aparentemente insol\u00favel, pois s\u00f3 uma impens\u00e1vel <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/pos-capitalismo\/para-superar-a-agonia-da-civilizacao-patriarcal\/\">ruptura civilizat\u00f3ria<\/a>, que interrompa a continuidade do <em>ethos<\/em> do Ocidente, cujo modo de viver foi forjado numa cultura da domina\u00e7\u00e3o e da preda\u00e7\u00e3o dos recursos naturais, pode nos desviar do <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Altera%C3%A7%C3%B5es_clim%C3%A1ticas_e_colapso_civilizacional\">colapso civilizat\u00f3rio<\/a> que se avizinha rapidamente. Portanto, se a policrise se apresenta em car\u00e1ter terminal, cabe antecipar uma aut\u00f3psia do Ocidente que nos permita vislumbrar sa\u00eddas ante o colapso socioambiental anunciado pela agudiza\u00e7\u00e3o de suas disfuncionalidades.<\/p>\n<h3><strong>O que define o <\/strong><em><strong>ethos<\/strong><\/em><strong> do Ocidente?<\/strong><\/h3>\n<p>O Ocidente confunde-se com a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Civiliza%C3%A7%C3%A3o\"><em>Civiliza\u00e7\u00e3o<\/em><\/a> e de <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Historiografia\"><em>Hist\u00f3ria<\/em><\/a>. Para al\u00e9m do seu significado geogr\u00e1fico e temporal, o Ocidente tem na sua ess\u00eancia um componente cognitivo que \u00e9 o aprisionamento da condi\u00e7\u00e3o humana \u00e0s dimens\u00f5es teol\u00f3gica e teleol\u00f3gica, abstra\u00e7\u00f5es criadas pelo homem para lidar com as insuport\u00e1veis conting\u00eancias da sua conflituosa realidade. Este talvez seja o principal elemento formador da no\u00e7\u00e3o de <em>Civiliza\u00e7\u00e3o<\/em>, ou do chamado homem dito <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Civilidade\">civilizado<\/a>. Digo aprisionamento porque se tais dimens\u00f5es forem investigadas e compreendidas em profundidade, talvez forne\u00e7am as pistas para entendermos como chegamos \u00e0s agonias que definem o tempo presente e quais s\u00e3o as poss\u00edveis brechas para escaparmos do crescente e aparentemente insol\u00favel <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/um-saida-avampirizacao-do-planeta\/\">conflito humano<\/a> que arrastou toda a humanidade para o <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/para-abrir-espaco-a-transicao-de-epoca\/\">abismo existencial<\/a> que est\u00e1 bem \u00e0 nossa frente. A <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Cultura_ocidental\">cultura do Ocidente<\/a> pode constituir-se, nessa perspectiva, como a principal fonte da nossa crise de percep\u00e7\u00e3o da realidade e, consequentemente, da nossa ru\u00edna enquanto esp\u00e9cie animal.<\/p>\n<p>H\u00e1, portanto, uma esp\u00e9cie de <em>Ocidente cognitivo<\/em>, principal condutor da <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Hist%C3%B3ria_da_humanidade\">hist\u00f3ria da humanidade<\/a>, que se constitui como elemento comum a todas as grandes civiliza\u00e7\u00f5es e culturas que se desenvolveram nos \u00faltimos seis mil\u00eanios. Ele n\u00e3o \u00e9 uma exclusividade do que se entende hoje por <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Mundo_ocidental\">Mundo Ocidental<\/a>. Esteve presente nas <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Mundo_ocidental\">civiliza\u00e7\u00f5es antigas<\/a>, incluindo-se as do lado oriental, estudadas pelos historiadores e arque\u00f3logos, como \u00e9 o caso das que foram identificadas pelo historiador brit\u00e2nico Arnold Toynbee, registradas na sua grande obra <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/A_Study_of_History\"><em>Um Estudo de Hist\u00f3ria<\/em><\/a> (1934 a 1961). Est\u00e1 hoje presente naquelas que foram recentemente propostas no <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Choque_de_civiliza%C3%A7%C3%B5es\"><em>Choque de Civiliza\u00e7\u00f5es<\/em><\/a> (1993), do cientista pol\u00edtico Samuel Huntington.<\/p>\n<p>O renomado historiador <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Fernand_Braudel\">Fernand Braudel<\/a> foi muito assertivo em seus estudos sobre a din\u00e2mica que moldou a hist\u00f3ria do Ocidente ao perceber dois fatores determinantes no tortuoso curso civilizat\u00f3rio: a ideia de que a hist\u00f3ria \u00e9 guiada por processos de <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Longa_dura%C3%A7%C3%A3o\">longa dura\u00e7\u00e3o<\/a>; e os muitos eventos que a forjaram irromperam nos arredores do <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Fernand_Braudel#O_Mediterr%C3%A2neo\">Mediterr\u00e2neo<\/a>, local a partir do qual eclodiram as diferentes culturas e civiliza\u00e7\u00f5es formadoras do Ocidente. O <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Mundo_ocidental\">mundo ocidental<\/a> que conduziu a humanidade at\u00e9 o atual est\u00e1gio ag\u00f4nico tem pelo menos 33 s\u00e9culos de exist\u00eancia. Embora haja variados entendimentos sobre sua g\u00eanese e caracteriza\u00e7\u00e3o, seus antecedentes remontam, principalmente, aos muitos acontecimentos ocorridos nas cercanias do Mediterr\u00e2neo, como bem descreveu o escritor e economista franc\u00eas Jacques Attali, nessa passagem do livro <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/A_Brief_History_of_the_Future\"><em>Uma breve hist\u00f3ria do futuro<\/em><\/a> (Novo s\u00e9culo, 2006):<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201c<em>Por volta de 1.300 a.C., a maneira c\u00edclica de pensar o mundo, ent\u00e3o dominante, \u00e9 subvertida por alguns mediterr\u00e2neos incrivelmente inventivos: gregos, fen\u00edcios e judeus. Eles t\u00eam em comum a paix\u00e3o pelo progresso, pela metaf\u00edsica, pela a\u00e7\u00e3o, pelo novo e pelo belo.<\/em><br \/><em>(\u2026)<\/em><br \/><em>Para esses tr\u00eas povos, a vida humana vem antes de tudo. Para eles, todos os homens s\u00e3o iguais, exceto os escravos e os \u2018metecos\u2019, como eram chamados os estrangeiros domiciliados em Atenas. A pobreza \u00e9 maldi\u00e7\u00e3o. O mundo precisa ser domesticado, melhorado, constru\u00eddo, enquanto se espera que um Salvador venha mudar as leis deste mundo. Pela primeira vez, o futuro humano terrestre \u00e9 pensado como algo que pode e deve ser melhor que o passado. Pela primeira vez, o enriquecimento material \u00e9 visto como uma forma de se aproximar do ou dos deuses. \u00c9 esse o ideal que se instala, e que se tornar\u00e1 o <\/em><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Mundo_ocidental\"><em>ideal do Ocidente<\/em><\/a><em> e em seguida de toda a <\/em><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/capitalismo-de-vigilancia-caminho-ao-abismo\/\"><em>Ordem Comercial<\/em><\/a><em> at\u00e9 hoje: o ideal greco-judaico.\u201d<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Portanto, um dos pressupostos que consideraremos aqui \u00e9 o de que o Ocidente surgiu quando os ideais <a href=\"https:\/\/en-m-wikipedia-org.translate.goog\/wiki\/Hellenistic_Judaism?_x_tr_sl=en&amp;_x_tr_tl=pt&amp;_x_tr_hl=pt&amp;_x_tr_pto=sge#:~:text=Eles%20eram%20judeus%20de%20l%C3%ADngua,da%20Palestina%20para%20a%20S%C3%ADria.\">greco-judaicos<\/a> irromperam entre os povos que habitavam o Mediterr\u00e2neo, na \u00e9poca em que a chamada <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Idade_do_Bronze\">Idade do Bronze<\/a> chegou a termo. Ideais estes posteriormente refor\u00e7ados por seus suced\u00e2neos <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Igreja_estatal_do_Imp%C3%A9rio_Romano\">romano-crist\u00e3os<\/a>. Da\u00ed em diante, o j\u00e1 tortuoso e intrat\u00e1vel mundo humano passa a ser governado por cosmovis\u00f5es frontalmente incompat\u00edveis com a <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/pos-capitalismo\/as-complexidades-nos-salvarao-da-distopia\/\">complexidade do mundo real<\/a>, ou seja, com a din\u00e2mica que move aquilo que chamamos de <em>Natureza<\/em>, da qual somos uma \u00ednfima parte integrante e interdependente, por\u00e9m profundamente <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/a-humanidade-desenraizada-em-agonia-civilizatoria\/\">desenraizada<\/a> justamente por conta do nosso condicionamento milenar aos ideais ocidentais, que se estabeleceram como <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Cultura\">Cultura<\/a> (modo de viver) predominante e forjaram a civiliza\u00e7\u00e3o tal como a conhecemos hoje.<\/p>\n<p>Quem j\u00e1 havia tangenciado essa incompatibilidade, muito tempo atr\u00e1s, foi o historiador alem\u00e3o <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Oswald_Spengler\">Oswald Spengler<\/a> (1880-1936), para quem havia um \u201cproblema da Hist\u00f3ria Universal\u201d resultante de uma oposi\u00e7\u00e3o entre a \u201cmorfologia da Hist\u00f3ria Universal\u201d e a \u201cmorfologia da Natureza\u201d, entendimento desenvolvido na sua mais impactante obra, <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/A_decad%C3%AAncia_do_Ocidente\"><em>A Decad\u00eancia do Ocidente<\/em><\/a> (1918). Dizia ele:<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201c<em>Natureza \u00e9 a forma sob a qual o homem das culturas elevadas confere unidade e significado \u00e0s impress\u00f5es imediatas dos seus sentidos. Hist\u00f3ria \u00e9 a forma sob a qual a sua imagina\u00e7\u00e3o procura compreender a exist\u00eancia viva do Universo, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua pr\u00f3pria vida, a fim de conferir a esta uma realidade mais profunda. Ser\u00e1 o homem capaz de criar tais formas, e qual delas dominar\u00e1 a sua consci\u00eancia vigilante? Eis o problema primordial de toda a exist\u00eancia humana.\u201d<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o que Spengler encontrou para tentar tratar esse \u201cproblema primordial\u201d foi conceber a ideia de que \u201ccultura\u201d (<em>Kultur<\/em>) \u00e9 a fase inicial (qualitativa) e \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d (<em>Zivilisation<\/em>) a fase decadente (quantitativa) dos ciclos vivos da <em>Hist\u00f3ria<\/em>. Assim como na natureza, o surgimento das culturas seria fruto do acaso, estando destinadas a uma degeneresc\u00eancia quantitativa. Mas a percep\u00e7\u00e3o de Spengler de que a cultura ocidental europeia, \u201ca \u00fanica no nosso planeta a ter alcan\u00e7ado a sua plenitude\u201d, era um processo organicamente condicionado e teve seu in\u00edcio subitamente, talvez se revele hoje muito limitada. Depois dos eventos que ocorreram ao longo do s\u00e9culo XX, que ampliaram os tent\u00e1culos do Ocidente a uma dimens\u00e3o planet\u00e1ria, a percep\u00e7\u00e3o de Spengler foi praticamente abandonada. Afinal de contas, Spengler n\u00e3o tinha \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o o imenso aporte de formula\u00e7\u00f5es, teorias, modelos e descobertas ocorridas no s\u00e9culo passado, sobretudo nos campos das ci\u00eancias sociais, para poder tratar satisfatoriamente essa quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Tais aportes permitem hoje compreendermos a predomin\u00e2ncia da cultura ocidental sobre a <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Hist%C3%B3ria_da_humanidade\">Hist\u00f3ria<\/a>, a partir de novas perspectivas. Uma delas \u00e9 a de que \u00e9 necess\u00e1ria uma imers\u00e3o \u2013 abstraindo-se de nossas preconcep\u00e7\u00f5es de mundo \u2013 nas circunst\u00e2ncias que favoreceram o surgimento dos ideais do Ocidente, ou seja, \u00e9 preciso investigar sem prejulgamentos o contexto que pode ter gerado as condi\u00e7\u00f5es para a sua emerg\u00eancia. Para tanto, vamos tentar retornar a muito tempo atr\u00e1s.<\/p>\n<h3><strong>A forma\u00e7\u00e3o do humano \u2013 uma longu\u00edssima jornada<\/strong><\/h3>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 como saber como eram exatamente os modos de vida do <em>Homo sapiens<\/em> e de seus muitos ancestrais antes da hist\u00f3ria escrita, que deve ter apenas cerca de 3.400 anos de registos documentados. Por\u00e9m, temos, hoje, muitas descobertas nos campos da paleontologia, antropologia, arqueologia, etnografia, lingu\u00edstica, dentre outros ramos afins, que j\u00e1 lan\u00e7aram muitas luzes sobre esses prim\u00f3rdios.<\/p>\n<p>Existem atualmente apenas 8 exemplares remanescentes dos grandes <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Hominidae\"><u>primatas homin\u00eddeos (fam\u00edlia <\/u><u><em>Hominidae)<\/em><\/u><\/a>que j\u00e1 povoaram a Terra, desde tempos remot\u00edssimos: dois chimpanz\u00e9s, dois gorilas, tr\u00eas orangotangos e n\u00f3s, a inventiva esp\u00e9cie <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Humano\"><em>Homo sapiens<\/em><\/a>. Todos resultaram de <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Timeline_of_human_evolution\">deriva\u00e7\u00f5es de sucessivas linhagens<\/a> ao longo de cerca de 4,5 bilh\u00f5es de anos da <a href=\"https:\/\/pt.m.wikipedia.org\/wiki\/Hist%C3%B3ria_evolutiva_da_vida\">hist\u00f3ria da vida na Terra<\/a>. O antepassado comum mais long\u00ednquo de todos esses primatas viveu h\u00e1 cerca de 20 milh\u00f5es de anos e, segundo consta na literatura cient\u00edfica, muito provavelmente era um s\u00edmio de pequeno porte muito similar aos atuais <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Gib%C3%A3o\">gib\u00f5es<\/a>. Descobertas recentes indicam que por volta de 7 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s dois desses primatas (<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Sahelanthropus_tchadensis\">Tumai<\/a>, no Sahel, e <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Orrorin_tugenensis\">Orrorin<\/a>, no Qu\u00eania) desceram das \u00e1rvores e se ergueram sobre as duas pernas. Dentre todos os primatas que nos antecederam, sabe-se que tinham em comum o comportamento social, a express\u00e3o facial e a capacidade de vocaliza\u00e7\u00e3o, diferenciando apenas a sofisticada linguagem comunicativa que \u00e9 exclusiva dos humanos.<\/p>\n<p>O primeiro membro conhecido do g\u00eanero <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Humano\"><em>Homo<\/em><\/a>, que deu origem ao <em>Homo sapiens<\/em> surgido h\u00e1 cerca de 300 mil anos, o <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Australopithecus_anamensis\"><em>Australopithecus anamensis<\/em><\/a>, existiu na \u00c1frica oriental por volta de 4,2 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s, e n\u00e3o se tem registro arqueol\u00f3gico ou paleontol\u00f3gico de que este homin\u00eddeo ancestral e os primatas posteriores da linhagem tenham causado um <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Human_impact_on_the_environment\">impacto ambiental<\/a> t\u00e3o devastador quanto o que o <em>Homo sapiens<\/em> moderno causou em apenas seis dos mais recentes mil\u00eanios de sua conflituosa hist\u00f3ria. N\u00e3o sabemos como realmente viviam esses nossos ancestrais, mas tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancias \u2013 fora das abstra\u00e7\u00f5es criadas pelas vis\u00f5es teol\u00f3gicas e teleol\u00f3gicas \u2013 de que a agressividade e a autodestrutividade sejam atributos incontorn\u00e1veis da <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Natureza_humana\">natureza humana<\/a>.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que para imaginarmos como o <em>Homo sapiens<\/em> e seus ancestrais homin\u00eddeos se sustentaram por tanto tempo, numa escala de milh\u00f5es de anos, sem se autodestruir e interromper seu processo de evolu\u00e7\u00e3o natural \u2013 como j\u00e1 est\u00e1 evidenciado no atual est\u00e1gio da civiliza\u00e7\u00e3o \u2013, n\u00e3o d\u00e1 para aceitar que a ess\u00eancia da natureza humana esteja amparada em pressuposi\u00e7\u00f5es de que a agressividade observada nos \u00faltimos mil\u00eanios da nossa hist\u00f3ria decorre de uma condi\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica. Parece ser o caso da vis\u00e3o hobbesiana, para a qual o animal humano veio ao mundo naturalmente destinado \u00e0 viol\u00eancia, condenado \u00e0 inarred\u00e1vel \u201c<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Bellum_omnium_contra_omnes\">guerra de todos contra todos<\/a>\u201d; ou da transmiss\u00e3o ancestral de instintos destrutivos imaginada por Bertrand Russell; ou ainda que o desajustado comportamento humano seja fruto do suposto <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Pecado_original\">pecado original<\/a> que Santo Agostinho incorporou \u00e0 doutrina crist\u00e3. Esta \u00e9 a vis\u00e3o ocidental da natureza humana que predomina at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>J\u00e1 as hip\u00f3teses do \u201c<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Bom_selvagem\">bom selvagem<\/a>\u201d de Jean-Jacques Rosseau ou da \u201c<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Ensaio_acerca_do_Entendimento_Humano\">t\u00e1bula rasa<\/a>\u201d de John Locke, que tentaram buscar um fundamento de vi\u00e9s mais cultural e menos biol\u00f3gico para explicar a conflituosa conviv\u00eancia humana, parecem mais razo\u00e1veis para sustentar a possibilidade de que tenha ocorrido uma profunda ruptura cultural que modificou radicalmente o modo de viver humano, conforme abordaremos mais adiante. Mais recentemente, o neurobi\u00f3logo chileno <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/maturana-sem-cooperacao-e-alteridade-nao-ha-futuro\/\">Humberto Maturana<\/a> (1928-2021) foi um dos que conseguiu dar mais razoabilidade para essa explica\u00e7\u00e3o acerca da natureza humana, que pode estar mais pr\u00f3xima da realidade de como se deu a forma\u00e7\u00e3o do humano. E a no\u00e7\u00e3o de <em>Cultura<\/em>, no sentido antropol\u00f3gico que esse termo comporta, \u00e9 a chave para essa compreens\u00e3o, como argumentava Maturana: \u201cnossa possibilidade de sair da contradi\u00e7\u00e3o emocional b\u00e1sica em que estamos imersos em nossa cultura patriarcal ocidental \u2013 e assim escapar do sofrimento que essa contradi\u00e7\u00e3o traz consigo \u2013 est\u00e1 em nossa possibilidade de perceber que sua origem \u00e9 cultural e n\u00e3o biol\u00f3gica.\u201d<\/p>\n<p>Cabe aqui um par\u00eantese para destacar que, diferentemente do entendimento convencional de que a ideia de \u201cpatriarcado\u201d refere-se a um conceito associado \u00e0 rela\u00e7\u00e3o de superioridade e de domina\u00e7\u00e3o do masculino sobre o feminino, a no\u00e7\u00e3o de \u201cCultura patriarcal\u201d para Maturana \u00e9 bem mais ampla. Ela \u201cse caracteriza pelas coordena\u00e7\u00f5es de a\u00e7\u00f5es e emo\u00e7\u00f5es que fazem de nossa vida cotidiana um modo de coexist\u00eancia que valoriza a guerra, a competi\u00e7\u00e3o, a luta, as hierarquias, a autoridade, o poder, a procria\u00e7\u00e3o, o crescimento, a apropria\u00e7\u00e3o de recursos e a justifica\u00e7\u00e3o racional do controle e da domina\u00e7\u00e3o dos outros por meio da apropria\u00e7\u00e3o da verdade\u201d.<\/p>\n<p>Maturana sustentava, amparando-se em estudos de registros f\u00f3sseis de 3,5 milh\u00f5es de anos, de primatas homin\u00eddeos que precederam o <em>Homo sapiens<\/em>, que a origem do <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Humano\">humano<\/a> est\u00e1 no surgimento da <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Linguagem\"><em>Linguagem<\/em><\/a> e no seu entrela\u00e7amento com a <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Emo%C3%A7%C3%A3o\"><em>Emo\u00e7\u00e3o<\/em><\/a>. Nessa perspectiva, a origem da forma\u00e7\u00e3o do humano estaria nesse entrela\u00e7amento, ao contr\u00e1rio do que pensa o senso comum que d\u00e1 centralidade \u00e0 <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Raz%C3%A3o\"><em>Raz\u00e3o<\/em><\/a> e \u00e0 <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Objetividade_(filosofia)\"><em>Objetividade<\/em><\/a> nas nossas a\u00e7\u00f5es, entendimento que constituiu a base do desenvolvimento da Ci\u00eancia Moderna, surgida nos s\u00e9culos XVI e XVII, na Europa. Como ele mesmo dizia, \u201ctodo sistema racional tem um fundamento emocional\u201d. No entanto, \u201cpertencemos a uma cultura que d\u00e1 ao racional uma validade transcendente, e ao que prov\u00e9m de nossas emo\u00e7\u00f5es, um car\u00e1ter arbitr\u00e1rio.\u201d<\/p>\n<p>Da\u00ed resultam duas premissas sobre o comportamento humano e de suas sociedades, ou seja, sobre a sua <em>Cultura,<\/em> que sustenta o seu modo de viver. S\u00e3o elas:<\/p>\n<p>1) O viver humano est\u00e1 fundado no emocional e n\u00e3o no racional, a despeito de toda uma longu\u00edssima constru\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica e cient\u00edfica ter sido hist\u00f3rica e culturalmente desenvolvida em sentido contr\u00e1rio, o qual Maturana definia nos seguintes termos:<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201c<em>A vida humana, como toda vida animal, \u00e9 vivida no <\/em><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Emo%C3%A7%C3%A3o_em_animais\"><em>fluxo emocional<\/em><\/a><em> que constitui, a cada instante, o cen\u00e1rio b\u00e1sico a partir do qual surgem nossas a\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m disso, creio que s\u00e3o nossas <\/em><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Emo%C3%A7%C3%A3o\"><em>emo\u00e7\u00f5es<\/em><\/a><em> (desejos, prefer\u00eancias, medos, ambi\u00e7\u00f5es\u2026) \u2013 e n\u00e3o a <\/em><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Raz%C3%A3o\"><em>raz\u00e3o<\/em><\/a><em> \u2013 que determinam, a cada momento, o que fazemos ou deixamos de fazer. Cada vez que afirmamos que nossa conduta \u00e9 racional, os argumentos que esgrimimos nessa afirma\u00e7\u00e3o ocultam os fundamentos emocionais em que ela se apoia, assim como aqueles a partir dos quais surge nosso suposto comportamento racional.\u201d<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>2) A deriva evolutiva que deu origem \u00e0 linhagem do primata <em>Homo sapiens<\/em> foi fortemente influenciada pelo aparecimento e desenvolvimento da linguagem, que Maturana chamava de \u201clinguajear\u201d e sintetizava nos seguintes termos:<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201c<em>N\u00f3s, humanos, surgimos na hist\u00f3ria da fam\u00edlia dos primatas b\u00edpedes \u00e0 qual pertencemos quando o linguajear \u2013 como maneira de conviver em coordena\u00e7\u00f5es de coordena\u00e7\u00f5es comportamentais consensuais \u2013 deixou de ser um fen\u00f4meno ocasional. (\u2026) Al\u00e9m disso, penso que, ao surgir como um modo de operar na conviv\u00eancia, o linguajear apareceu necessariamente entrela\u00e7ado com o emocionar.\u201d<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>\u00c9 a partir dessas duas premissas e do entrela\u00e7amento recursivo entre o emocionar e o \u201clinguajear\u201d que Maturana observava como uma <em>Cultura<\/em> \u00e9 forjada e se conserva como modo de viver, isto \u00e9, como surgem os padr\u00f5es de comportamento que sustentaram, por mil\u00eanios, o cotidiano das sociedades em que viviam as diversas linhagens de primatas homin\u00eddeos. At\u00e9 que, em algum momento no <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Neol%C3%ADtico\">neol\u00edtico<\/a>, esse entrela\u00e7amento entre o linguajear e o emocionar sofre uma profunda transforma\u00e7\u00e3o que parece explicar como se deu a \u201c<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Queda_do_homem\">queda do homem<\/a>\u201d, ou seja, como o humano metamorfoseou-se da harmonia de um conviver cooperativo e n\u00e3o-hier\u00e1rquico, integrado \u00e0s conting\u00eancias do seu meio ambiente, para a agonia da \u201cguerra de todos contra todos\u201d, da apropria\u00e7\u00e3o e do dom\u00ednio, que parece ter chegado ao seu cl\u00edmax em nossos dias.<\/p>\n<h3><strong>A <\/strong><strong>\u201c<\/strong><strong>queda do homem<\/strong><strong>\u201d \u2013<\/strong><strong> as circunst\u00e2ncias que propiciaram a emerg\u00eancia do Ocidente<\/strong><\/h3>\n<p>Em todos os relatos mitol\u00f3gicos sobre as aventuras e desventuras da vida humana, desde os seus prim\u00f3rdios, e at\u00e9 mesmo na literatura cient\u00edfica que trata da nossa ancestralidade, sempre prevaleceu uma vis\u00e3o hobbesiana acerca da natureza humana, ou seja, a ideia de que o animal humano veio ao mundo naturalmente propenso a uma vida \u201csolit\u00e1ria, pobre, s\u00f3rdida, embrutecida e curta\u201d (Thomas Hobbes, em <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Leviat%C3%A3_(livro)\"><em>Leviat\u00e3<\/em><\/a>, de 1651). Foi a partir dessa suposta compreens\u00e3o da natureza humana que se criaram as cosmovis\u00f5es que moldaram o viver do <em>Homo sapiens<\/em> moderno. Mas sabemos que uma <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Cosmovis%C3%A3o\">cosmovis\u00e3o<\/a> resulta de um processo recursivo entre observador e objeto observado, em que a percep\u00e7\u00e3o da realidade produz e se retroalimenta da realidade percebida, o que Maturana chamava de <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/pistas-para-entender-a-agonia-patriarcal\/\">processo de autoconserva\u00e7\u00e3o<\/a> de uma cultura estabelecida, isto \u00e9, de um modo de viver predominante. Isso parece ter muito a ver com o <em>insight<\/em> mais importante do fil\u00f3sofo Arthur Schopenhauer: \u201cO mundo \u00e9 a minha representa\u00e7\u00e3o\u201d. Foi por meio dessa din\u00e2mica cognitiva que o <em>Homo sapiens<\/em> ocidentalizado parece ter <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Anthropomorphism\">antropomorfizado<\/a>, sob o condicionamento da cosmovis\u00e3o patriarcal, a sua pr\u00f3pria ontologia.<\/p>\n<p>Por exemplo, recentemente o renomado paleont\u00f3logo e bi\u00f3logo brit\u00e2nico <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Henry_Gee\">Henry Ernest Gee<\/a>, editor s\u00eanior da revista <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Nature\"><em>Nature<\/em><\/a>, publicou o excelente livro <em>Uma hist\u00f3ria (muito) curta da vida na Terra: 4,6 bilh\u00f5es de anos em doze cap\u00edtulos<\/em> (Editora F\u00f3sforo, 2024), muito elucidativo sobre a longa trajet\u00f3ria da evolu\u00e7\u00e3o da vida na Terra. Na passagem em que Gee aborda sobre o comportamento do <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Homo_erectus\"><em>Homo erectus<\/em><\/a>, uma das \u00faltimas fases do nosso g\u00eanero <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Homo\"><em>Homo<\/em><\/a>, ele refor\u00e7a a vis\u00e3o hobbesiana predominante ao afirmar que \u201cas tribos que usavam o fogo viviam mais tempo, com mais sa\u00fade e produziam mais descendentes do que aquelas que n\u00e3o usavam. Por fim, as tribos que n\u00e3o usavam o fogo desapareceram. A exist\u00eancia desses grupos significava que, at\u00e9 certo ponto, o <em>Homo erectus<\/em> era territorial. Os primatas, mais do que quaisquer outros mam\u00edferos, s\u00e3o propensos \u00e0 viol\u00eancia, at\u00e9 mesmo ao assassinato. <strong>Os homin\u00edneos s\u00e3o os mais assassinos de todos.<\/strong>\u201d <em>(grifo meu)<\/em><\/p>\n<p>Sabemos, no entanto, conforme j\u00e1 mencionado nas preliminares deste texto, que, seguindo a razoabilidade das muitas evid\u00eancias arqueol\u00f3gicas e antropol\u00f3gicas que se tem hoje, a forma\u00e7\u00e3o do humano deu-se a partir de um longu\u00edssimo processo de alguns milh\u00f5es de anos em que os primatas b\u00edpedes passaram a conservar um modo de viver num entrela\u00e7amento recursivo entre o emocionar e o \u201clinguajear\u201d, em que predominava, conforme hip\u00f3tese defendida por Maturana e outros, um modo de <a href=\"https:\/\/humana.social\/conversacoes-matristicas-e-patriarcais\/\">viver matr\u00edstico<\/a>, que se tratava de \u201cuma cultura na qual homens e mulheres podem participar de um modo de vida centrado em uma coopera\u00e7\u00e3o n\u00e3o-hier\u00e1rquica\u201d, atributos que evidenciavam a exist\u00eancia de uma cultura \u201ccentrada na alteridade e na est\u00e9tica, na consci\u00eancia da harmonia espont\u00e2nea de todo o vivo e do n\u00e3o-vivo, em seu fluxo cont\u00ednuo de ciclos entrela\u00e7ados de transforma\u00e7\u00e3o de vida e morte\u201d. Inclusive, se observarmos o comportamento dos nossos milhares de parentes animais, abstraindo-se de nossas arraigadas inclina\u00e7\u00f5es hobbesianas, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil atestar que esta hip\u00f3tese parece ser a mais fact\u00edvel.<\/p>\n<p>Mas um desvio at\u00edpico no n\u00famero populacional da nossa esp\u00e9cie, que se mantinha oscilando entre 1 e 4 milh\u00f5es de indiv\u00edduos por milhares de anos, iniciado por volta de seis a sete mil\u00eanios atr\u00e1s, aponta que devem ter ocorrido eventos desencadeadores de uma profunda mudan\u00e7a comportamental, indicando uma ruptura no modo de interagir do <em>Homo sapien<\/em>s com o seu meio ambiente. Aqui se situa talvez o fen\u00f4meno mais peculiar da esp\u00e9cie <em>Homo sapiens<\/em>. Ela conseguiu, no curt\u00edssimo tempo dos <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Superpopula%C3%A7%C3%A3o_humana\">seis mil\u00eanios mais recentes<\/a>, se alastrar exponencialmente pelos quatro cantos do planeta (ver gr\u00e1fico do <a href=\"https:\/\/ourworldindata.org\/grapher\/population\">crescimento da popula\u00e7\u00e3o mundial nos \u00faltimos 10 mil anos<\/a>), enquanto os outros <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Hominidae\">7 tipos de primatas homin\u00eddeos<\/a> ainda existentes mantiveram suas <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Hominidae#\/media\/Ficheiro:Distribution_of_the_Great_Apes.png\">popula\u00e7\u00f5es restritas a poucas \u00e1reas do globo<\/a>, encontrando-se apenas na \u00c1frica equatorial, na Sumatra e em Born\u00e9u.<\/p>\n<p>Esse fen\u00f4meno do crescimento populacional descontrolado, em regime exponencial, inclusive provocando a supress\u00e3o de outras esp\u00e9cies do planeta (o que se convencionou chamar de <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Especismo\">especismo<\/a>), \u00e9 talvez uma das consequ\u00eancias mais devastadoras dessa ruptura comportamental. Foi a partir desse fen\u00f4meno que provavelmente inauguramos a atual \u00e9poca geol\u00f3gica do <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Antropoceno\">antropoceno<\/a>, em que os efeitos destrutivos da atividade humana passaram a modificar e desestabilizar a estrutura geol\u00f3gica da Terra, pondo sob amea\u00e7a a sua pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia \u2013 uma disfun\u00e7\u00e3o que vem sendo estudada por um novo campo de estudo chamado <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Colapsologia\">colapsologia<\/a>.<\/p>\n<p>O gatilho para que esse fen\u00f4meno do desvio do crescimento populacional ocorresse pode ter sido causado pelas invas\u00f5es patrocinadas pelos povos pastores guerreiros indo-europeus ou arianos, vindos das estepes euroasi\u00e1ticas, ocorridas entre sete e seis mil anos atr\u00e1s, a conhecida <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Hip%C3%B3tese_Curg%C3%A3\">hip\u00f3tese kurgan<\/a>, que teriam mudado radicalmente o padr\u00e3o cultural at\u00e9 ent\u00e3o predominante dos povos pr\u00e9-patriarcais (povos de culturas matr\u00edsticas) que habitavam a <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Civiliza%C3%A7%C3%A3o_da_Europa_Antiga\">Europa Antiga<\/a>. Essa hip\u00f3tese foi levantada pela arque\u00f3loga lituana <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Marija_Gimbutas\">Marija Gimbutas<\/a> (1921-1994) e est\u00e1 registrada nos seus \u00faltimos livros: <em>The Goddesses and Gods of Old Europe<\/em> (1974), <em>The Language of the Goddesses<\/em> (1989) e <em>The Civilization of the Goddess<\/em> (1991).<\/p>\n<p>Gimbutas apresentou seu estudo sobre a cultura kurgan em 1956, no qual ela combinava pesquisas de arqueologia e lingu\u00edstica com o objetivo de colher evid\u00eancias no estudo dos povos de l\u00edngua proto-indo-europeia. Ela mapeou tr\u00eas ondas migrat\u00f3rias desses povos kurgan que devastaram popula\u00e7\u00f5es inteiras e causaram um enorme choque cultural na Europa Antiga: <em>Primeira Onda<\/em>, de 4300-4200 a.C.; <em>Segunda Onda<\/em>, de 3400-3200 a.C.; e <em>Terceira Onda<\/em>, de 3000-2800 a.C. \u201cGra\u00e7as ao n\u00famero crescente de data\u00e7\u00f5es com radiocarbono, hoje \u00e9 poss\u00edvel tra\u00e7ar as v\u00e1rias ondas migrat\u00f3rias dos pastoralistas da estepe ou povo kurgo, as quais varreram a Europa pr\u00e9-hist\u00f3rica\u201d, afirmava Gimbutas. Abordei esse assunto com mais detalhes em dois textos intitulados <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/pistas-para-entender-a-agonia-patriarcal\/\"><em>Pistas para entender a agonia patriarcal<\/em><\/a> e <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/como-nasceu-e-germinou-a-civilizacao-patriarcal\/\"><em>Como nasceu e germinou a civiliza\u00e7\u00e3o patriarcal<\/em><\/a>, publicados pelo <em>Outras Palavras<\/em>.<\/p>\n<p>Um dos estudos mais aprofundados sobre este longo processo de ruptura cultural est\u00e1 registrado no livro <em>O C\u00e1lice e a Espada: nossa hist\u00f3ria, nosso futuro<\/em> (1\u00aa edi\u00e7\u00e3o em 1987, prefaciado por <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/maturana-sem-cooperacao-e-alteridade-nao-ha-futuro\/\">Humberto Maturana<\/a>), da soci\u00f3loga austr\u00edaca <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Riane_Eisler\">Riane Eisler<\/a>, no qual ela aborda n\u00e3o s\u00f3 o trabalho de Gimbutas mas de outros renomados arque\u00f3logos como o brit\u00e2nico <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/James_Mellaart\">James Mellaart<\/a>, que chamou essas ondas kurgan de \u201cpadr\u00e3o desintegrador\u201d. Eisler reuniu muitos dados arqueol\u00f3gicos que demonstram como a \u201cencruzilhada evolutiva em nossa pr\u00e9-hist\u00f3ria, quando a sociedade humana foi violentamente transformada\u201d. Ela se refere \u00e0 gradual passagem da \u201csociedade de parceria\u201d para a \u201csociedade de domina\u00e7\u00e3o\u201d, ocorrida ao longo de aproximadamente 1.500 anos. O desaparecimento de importantes civiliza\u00e7\u00f5es da antiguidade como a <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Civiliza%C3%A7%C3%A3o_Minoica\">Creta minoica<\/a>, situada no mar Egeu, a <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Civiliza%C3%A7%C3%A3o_do_Vale_do_Indo\">Civiliza\u00e7\u00e3o do Vale do Indo<\/a>, nas regi\u00f5es a noroeste do sul da \u00c1sia, e a do <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/El%C3%A3o\">El\u00e3o<\/a>, a leste da Mesopot\u00e2mia, pode estar associado \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o patrocinada por essas ondas invasoras.<\/p>\n<p>Essa <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Hip%C3%B3tese_Curg%C3%A3\">hip\u00f3tese kurgan<\/a> pode tamb\u00e9m estar associada aos registros de destrui\u00e7\u00f5es patrocinadas pelos guerreiros invasores chamados <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Povos_do_Mar\">Povos do Mar<\/a>, que navegavam no Mar Mediterr\u00e2neo, durante o s\u00e9culo XIII a.C.. Muitos outros fatores tamb\u00e9m podem ter contribu\u00eddo com esse sentimento de regress\u00e3o como \u00e9 o caso de prov\u00e1veis mudan\u00e7as clim\u00e1ticas que poderiam ter causado migra\u00e7\u00f5es em massa, destrui\u00e7\u00f5es de cidades e interrup\u00e7\u00f5es de rotas comerciais, fatores que limitaram a produ\u00e7\u00e3o de bronze utilizado pelas civiliza\u00e7\u00f5es do Mediterr\u00e2neo Oriental, no s\u00e9culo XII a.C., provocando o chamado <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Colapso_da_Idade_do_Bronze\">Colapso da Idade do Bronze<\/a>.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que nessa \u00e9poca, nos prov\u00e1veis prim\u00f3rdios da cultura patriarcal, muitos imp\u00e9rios se digladiavam permanentemente entre si. Esse cen\u00e1rio de conflagra\u00e7\u00e3o generalizada est\u00e1 bem descrito nesta passagem do livro <em>Uma Breve Hist\u00f3ria do Futuro<\/em> (Novo S\u00e9culo, 2008), do escritor e economista franc\u00eas <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Jacques_Attali\">Jacques Attali<\/a>, na qual ele relata uma fase da hist\u00f3ria que ele chama de <em>Ordem Imperial<\/em> (aproximadamente de 6000 a 1300 a. C.), que foi sucedida pela <em>Ordem Comercial<\/em> (equivalente ao que chamamos hoje de <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Democracia_de_mercado\">democracia de mercado<\/a> e que vigora at\u00e9 os dias atuais), e que converge com o processo de surgimento e sedimenta\u00e7\u00e3o da cultura patriarcal:<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201c<em>H\u00e1 seis mil anos, alguns reinos re\u00fanem povoados e tribos espalhados em territ\u00f3rios cada vez maiores. O sagrado se apaga diante da for\u00e7a, o religioso, diante do militar. O trabalho dos homens \u00e9 obtido por meio da viol\u00eancia e o saber essencial se transforma naquele que permite produzir o excedente agr\u00edcola. Os objetos n\u00e3o t\u00eam mais nome pr\u00f3prio, nem personalidade. S\u00e3o artefatos, pass\u00edveis de troca, instrumentos. A escravid\u00e3o do maior n\u00famero \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o da liberdade de uma minoria. O chefe de cada reino ou imp\u00e9rio \u00e9 a um s\u00f3 tempo pr\u00edncipe, sacerdote e chefe de guerra, aquele que domina o tempo e a for\u00e7a, o Homem-Deus. S\u00f3 ele est\u00e1 autorizado a deixar tra\u00e7os da sua morte por um t\u00famulo identific\u00e1vel. Os outros morrem ainda no anonimato. \u00c9 portanto com o pr\u00edncipe que nasce a no\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduo. \u00c9 tamb\u00e9m com a sua ditadura que surge o sonho de liberdade. (\u2026)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p><em>Nessa fase, no planeta, mais de cinquenta imp\u00e9rios convivem, combatem entre si ou se esgotam. \u00c9 cada vez mais dif\u00edcil administrar conjuntos cada vez mais vastos. S\u00e3o necess\u00e1rios mais e mais escravos, soldados e terras. A pr\u00f3pria Ordem Imperial come\u00e7a a perder sentido: a for\u00e7a j\u00e1 n\u00e3o basta.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Nessa mesma \u00e9poca, \u201calgumas tribos vindas da \u00c1sia se instalaram no litoral e nas ilhas do Mediterr\u00e2neo\u201d. Diante do ambiente de profunda degrada\u00e7\u00e3o social gerado pela for\u00e7a da <em>Ordem Imperial<\/em>, elas perceberam que \u201co com\u00e9rcio e o dinheiro s\u00e3o as suas melhores armas. Mar e portos, os seus principais terrenos de ca\u00e7a\u201d. A partir de ent\u00e3o, a <em>Ordem Comercial<\/em> foi, gradualmente, se estabelecendo como uma eficiente forma de controle, domina\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o da ordem entre os humanos.<\/p>\n<p>Como dizia o poeta ingl\u00eas Thomas Eliot, \u201co homem n\u00e3o suporta muita realidade\u201d. Num mundo desfeito pelas sucessivas ondas de invas\u00f5es kurgan, que possivelmente teriam instalado essa <em>Ordem Imperial<\/em>, militarizado e no qual vigorava apenas a lei do mais forte, a necessidade de questionar a intrat\u00e1vel exist\u00eancia humana (<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Filosofia\">filosofia<\/a>) e a <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Progresso_(filosofia)\">ideia de progresso<\/a> para reparar o processo de decaimento infringido \u00e0 conviv\u00eancia entre grupos humanos irrompem naturalmente, nas proximidades das vastas regi\u00f5es afetadas pelas culturas guerreias kurgan, que compreendem os arredores do <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Mar_Mediterr%C3%A2neo\">Mediterr\u00e2neo<\/a>. O fil\u00f3sofo <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Bertrand_Russell\">Bertrand Russell<\/a> parece ter intu\u00eddo essa mesma perspectiva quando, investigando as causas que favoreceram o aflorar da filosofia na Gr\u00e9cia Antiga (<em>Hist\u00f3ria do Pensamento Ocidental<\/em>, 1946), afirmou que \u201co modo de viver filos\u00f3fico \u00e9 o \u00fanico a oferecer alguma esperan\u00e7a de superar os acasos da exist\u00eancia, propiciando uma fuga \u00e0 roda do destino.\u201d<\/p>\n<p>Esse contexto de conflu\u00eancias profundamente regressivas pode ter criado as condi\u00e7\u00f5es para a emerg\u00eancia de uma nova hist\u00f3ria, que pudesse colocar ordem num mundo humano que se apresentava demasiadamente hostil e degradado. \u00c9 exatamente neste ponto da conflituosa <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Hist%C3%B3ria_da_regi%C3%A3o_do_Mediterr%C3%A2neo\">hist\u00f3ria do Mediterr\u00e2neo<\/a> que talvez encontremos as circunst\u00e2ncias que propiciaram o irromper da hist\u00f3ria dos ideais que forjaram a longa predomin\u00e2ncia do Ocidente, sobre a qual abordaremos num pr\u00f3ximo texto aqui em <em>Outras Palavras<\/em>.<\/p>\n<hr>\n<p><em>NOTA<\/em>: Registro aqui meu agradecimento aos colaboradores do <em>Outras Palavras<\/em>, o pacifista <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/author\/rubenbauernaveira\/\">Ruben Bauer Naveira<\/a> e o pesquisador da Unicamp <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/author\/luizmarques\/\">Luiz Marques<\/a>, que se dispuseram a fazer uma leitura preliminar deste texto, cujo tema \u00e9 muito abrangente e controverso. Suas impress\u00f5es, mesmo com alguma diverg\u00eancia, foram muito \u00fateis.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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