{"id":22861,"date":"2025-04-17T19:56:46","date_gmt":"2025-04-17T22:56:46","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/trump-eis-o-grande-plano\/"},"modified":"2025-04-17T19:56:46","modified_gmt":"2025-04-17T22:56:46","slug":"trump-eis-o-grande-plano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/trump-eis-o-grande-plano\/","title":{"rendered":"Trump: eis o \u201cGrande Plano\u201d"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"540\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Sem-titulo.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Sem-titulo.png 800w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Sem-titulo-300x203.png 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Sem-titulo-768x518.png 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\"><figcaption>Arte: International Political Cartoons <\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Por <strong>Michael Hudson<\/strong> | Tradu\u00e7\u00e3o: <strong>Antonio Martins<\/strong><\/p>\n<p>A pol\u00edtica de tarifas de Donald Trump lan\u00e7ou os mercados numa zona de turbul\u00eancia, tanto entre aliados quanto inimigos. Esse caos reflete o fato de que seu principal objetivo n\u00e3o era na verdade a pol\u00edtica tarif\u00e1ria, mas cortar impostos pagos pelos ricos, substituindo-os por tarifas como principal fonte de receita do governo. Extrair concess\u00f5es econ\u00f4micas de outros pa\u00edses \u00e9 parte de sua justificativa para essa mudan\u00e7a tribut\u00e1ria, apresentada como um ato nacionalista em benef\u00edcio os Estados Unidos.<\/p>\n<p>A narrativa de fachada do presidente \u2013 e talvez at\u00e9 sua cren\u00e7a \u2013 \u00e9 que as tarifas, por si mesmas, podem reviver a ind\u00fastria norte-americana. Mas ele n\u00e3o tem planos para lidar com os problemas que que est\u00e3o na origem da desindustrializa\u00e7\u00e3o dos EUA. N\u00e3o se enxerga o que tornou o primeiro programa industrial dos EUA \u2013 e o da maioria das outras na\u00e7\u00f5es \u2013 t\u00e3o bem-sucedido.<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/apoia.se\/outraspalavras\" aria-label=\"MAT\u00c9RIA-GERAL\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/MATERIA-GERAL-13.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/MATERIA-GERAL-13.png 681w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-GERAL-300x75.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 681px) 100vw, 681px\" width=\"681\" height=\"171\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>Esse programa baseava-se em infraestrutura p\u00fablica, investimento industrial privado crescente, sal\u00e1rios protegidos por tarifas e forte regulamenta\u00e7\u00e3o governamental. A pol\u00edtica de terra arrasada de Trump \u00e9 o oposto: reduzir o Estado, enfraquecer a regulamenta\u00e7\u00e3o p\u00fablica e vender infraestrutura p\u00fablica para ajudar a bancar seus cortes de impostos para a classe de bilion\u00e1rios<\/p>\n<p>Tudo isso n\u00e3o passa do programa neoliberal sob outro disfarce. Trump o deturpa como um apoio \u00e0 ind\u00fastria, e n\u00e3o como sua ant\u00edtese. Sua objetivo n\u00e3o \u00e9 um plano industrial, mas uma manobra de poder para extrair concess\u00f5es econ\u00f4micas de outros pa\u00edses enquanto reduz impostos sobre os mais ricos. O resultado imediato ser\u00e3o demiss\u00f5es em massa, fechamento de empresas e infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h3><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<p>O not\u00e1vel deslanche industrial americano, desde o fim da Guerra Civil at\u00e9 o in\u00edcio da Primeira Guerra Mundial, sempre constrangeu os economistas do livre mercado. O sucesso dos EUA seguiu pol\u00edticas exatamente opostas \u00e0s que a ortodoxia econ\u00f4mica atual defende. O contraste n\u00e3o est\u00e1 apenas entre tarifas protecionistas e livre com\u00e9rcio. Os EUA criaram uma economia mista p\u00fablico-privada, onde o investimento em infraestrutura p\u00fablica foi desenvolvido como um \u201cquarto fator de produ\u00e7\u00e3o\u201d \u2013 n\u00e3o para gerar lucros, mas para fornecer servi\u00e7os b\u00e1sicos a pre\u00e7os m\u00ednimos, subsidiando assim o custo de vida e as opera\u00e7\u00f5es do setor privado.<\/p>\n<p>A l\u00f3gica por tr\u00e1s dessas pol\u00edticas foi formulada j\u00e1 na d\u00e9cada de 1820 no Sistema Norte-americano de Henry Clay \u2013 tarifas protecionistas, melhorias internas (investimento p\u00fablico em transporte e outras infraestruturas b\u00e1sicas) e um sistema banc\u00e1rio nacional voltado para financiar o desenvolvimento da ind\u00fastria . Surgiu uma Escola Americana de Economia Pol\u00edtica para guiar a industrializa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, baseada na doutrina da Economia de Altos Sal\u00e1rios, que promovia produtividade laboral atrav\u00e9s da eleva\u00e7\u00e3o do padr\u00e3o de vida e programas p\u00fablicos de subs\u00eddio e apoio.<\/p>\n<p>Estas n\u00e3o s\u00e3o as pol\u00edticas que republicanos e democratas de hoje recomendam. Se a Reaganomics, o Thatcherismo e os Chicago boys, defensores do livre mercado, tivessem dirigido a pol\u00edtica econ\u00f4mica norte-americana no final do s\u00e9culo XIX, os EUA n\u00e3o teriam alcan\u00e7ado sua domin\u00e2ncia industrial. Por isso, n\u00e3o surpreende que a l\u00f3gica protecionista e de investimento p\u00fablico que guiou a industrializa\u00e7\u00e3o norte-americana tenha sido apagada da hist\u00f3ria do pa\u00eds. Ela n\u00e3o tem nenhum papel na narrativa falsa sustentada por Donald Trump para promover a aboli\u00e7\u00e3o de impostos progressivos, o encolhimento do Estado e a venda de ativos p\u00fablicos.<\/p>\n<p>O que Trump escolhe admirar na pol\u00edtica industrial norte-americana do s\u00e9culo XIX \u00e9 a aus\u00eancia de imposto de renda progressivo e o financiamento do governo principalmente por receitas tarif\u00e1rias. Isso lhe deu a ideia de substituir a tributa\u00e7\u00e3o progressiva da renda, que incide sobre sua pr\u00f3pria class \u2013 o 1% que n\u00e3o pagava imposto de renda antes que este fosse institu\u00eddo, em 1913 \u2013 por tarifas projetadas para recair apenas sobre os consumidores (ou seja, os trabalhadores). Uma nova Era Dourada, de fato!<\/p>\n<p>Ao admirar a aus\u00eancia de tributa\u00e7\u00e3o progressiva da renda na era de seu her\u00f3i, William McKinley (eleito presidente em 1896 e 1900), Trump est\u00e1 reverenciando o excesso econ\u00f4mico e a desigualdade da Era Dourada. Essa desigualdade foi amplamente criticada como uma distor\u00e7\u00e3o da efici\u00eancia econ\u00f4mica e do progresso social. Para combater a busca por riqueza corrosiva e ostentat\u00f3ria que causava essa distor\u00e7\u00e3o, o Congresso aprovou a Lei Sherman Antitruste em 1890, Teddy Roosevelt foi adiante com seu combate aos trustes e aprovou-se um imposto de renda notavelmente progressivo que reca\u00eda quase inteiramente sobre rendas financeiras rentistas, imobili\u00e1rias e monop\u00f3lios.<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/elefanteeditora.com.br\/\" aria-label=\"Banner-Elefante+Outras-Palavras\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Banner-ElefanteOutras-Palavras-1.gif\" alt=\"\" width=\"728\" height=\"90\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>Trump est\u00e1, portanto, promovendo uma narrativa simplista e francamente falsa sobre o que tornou a pol\u00edtica de industrializa\u00e7\u00e3o norte-americana do s\u00e9culo XIX t\u00e3o bem-sucedida. Para ele, o \u00f3timo \u00e9 a parte \u201cdourada\u201d da Era Dourada, n\u00e3o o deslanche industrial liderado pelo Estado e social-democrata.<br \/>Sua panaceia \u00e9 substituir impostos de renda por tarifas, junto com a privatiza\u00e7\u00e3o do que resta das fun\u00e7\u00f5es do Estado. Isso daria a um novo grupo de bar\u00f5es ladr\u00f5es carta branca para enriquecer ainda mais, beneficiando-se de tributa\u00e7\u00e3o e regula\u00e7\u00e3o governamental reduzidas, ao mesmo tempo em que o d\u00e9ficit or\u00e7ament\u00e1rio diminui por meio da venda do que resta do dom\u00ednio p\u00fablico \u2013 desde as terras dos parques nacionais at\u00e9 os correios e os laborat\u00f3rios de pesquisa.<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"803\" height=\"200\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Screenshot-2025-04-17-at-19-54-00-File-Federal-taxes-by-typepdf-Wikipedia.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Screenshot-2025-04-17-at-19-54-00-File-Federal-taxes-by-typepdf-Wikipedia.png 803w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Screenshot-2025-04-17-at-19-54-00-File-Federal-taxes-by-type.pdf-Wikipedia-300x75.png 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Screenshot-2025-04-17-at-19-54-00-File-Federal-taxes-by-type.pdf-Wikipedia-768x191.png 768w\" sizes=\"(max-width: 803px) 100vw, 803px\"><\/figure>\n<\/p>\n<h3><strong>As <\/strong><strong>P<\/strong><strong>ol\u00edticas que <\/strong><strong>permitiram o desenvolvimento industrial dos EUA<\/strong><\/h3>\n<p>As tarifas por si s\u00f3s n\u00e3o foram suficientes para criar o impulso industrial norte-americano, nem o da Alemanha e outros pa\u00edses que buscavam substituir e superar o monop\u00f3lio industrial e financeiro brit\u00e2nico. O segredo estava em usar as receitas tarif\u00e1rias para subsidiar investimentos p\u00fablicos. Combinados com poder regulat\u00f3rio, e sobretudo com pol\u00edtica tribut\u00e1ria, estes investimentos reestruturaram a economia em v\u00e1rias frentes e moldaram a forma como o trabalho e o capital eram organizados.<\/p>\n<p>O principal objetivo era aumentar a produtividade do trabalho. Isso exigia uma trabalhadores cada vez mais qualificados, o que por sua vez requeria melhores padr\u00f5es de vida, educa\u00e7\u00e3o, condi\u00e7\u00f5es salubres, prote\u00e7\u00e3o ao consumidor e regulamenta\u00e7\u00e3o de alimentos seguros. A doutrina da Economia de Altos Sal\u00e1rios reconhecia que m\u00e3o de obra bem educada, saud\u00e1vel e bem alimentada poderia superar a concorr\u00eancia do \u201ctrabalho paup\u00e9rrimo\u201d.O problema era que os empregadores sempre buscaram aumentar seus lucros combatendo as demandas trabalhistas por sal\u00e1rios mais altos. O impulso industrial norte-americano resolveu esse problema ao reconhecer que o padr\u00e3o de vida dos trabalhadores resulta n\u00e3o apenas dos n\u00edveis salariais, mas tamb\u00e9m do custo de vida.<\/p>\n<p>Na medida em que investimentos p\u00fablicos financiados por receitas tarif\u00e1rias pudessem cobrir o custo de suprir necessidades b\u00e1sicas, os padr\u00f5es de vida e a produtividade do trabalho poderiam aumentar sem que os industriais sofressem queda nos lucros. As principais necessidades b\u00e1sicas eram educa\u00e7\u00e3o gratuita, apoio \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica e servi\u00e7os sociais correlatos. Tamb\u00e9m foram realizados investimentos p\u00fablicos em infraestrutura de transporte (canais e ferrovias), comunica\u00e7\u00f5es e outros servi\u00e7os b\u00e1sicos \u2013 que eram monop\u00f3lios naturais \u2013 para evitar que tudo isso se transformasse em feudos privados, em busca rentas monopolistas e \u00e0s custas da economia como um todo.<\/p>\n<p>Simon Patten, o primeiro professor de economia da primeira escola de neg\u00f3cios dos EUA (a Wharton School na Universidade da Pensilv\u00e2nia), chamou o investimento p\u00fablico em infraestrutura de \u201cquarto fator de produ\u00e7\u00e3o\u201d.<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/direita-assanhada\/donald-trump-eis-o-grande-plano\/#sdfootnote1sym\"><sup>1<\/sup><\/a> Diferentemente do capital do setor privado, seu objetivo n\u00e3o era obter lucro, muito menos maximizar seus pre\u00e7os at\u00e9 o que o mercado pudesse suportar. O objetivo era fornecer servi\u00e7os p\u00fablicos ao pre\u00e7os custo, a taxas subsidiadas ou mesmo gratuitamente.<\/p>\n<p>Em contraste com a tradi\u00e7\u00e3o europeia, os Estados Unidos mantiveram muitos servi\u00e7os b\u00e1sicos em m\u00e3os privadas, mas os regularam para evitar a extra\u00e7\u00e3o de rendas monopolistas. L\u00edderes empresariais apoiavam esta economia mista p\u00fablico-privada, pois viam que ela subsidiava uma economia de baixo custo, aumentando assim sua vantagem competitiva (e deles pr\u00f3prios) na economia internacional.<\/p>\n<p>O servi\u00e7o p\u00fablico mais importante, por\u00e9m o mais dif\u00edcil de implementar, era o sistema monet\u00e1rio e financeiro necess\u00e1rio para prover cr\u00e9dito suficiente ao financiamento do crescimento industrial do pa\u00eds. A cria\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito em papel (privado e\/ou p\u00fablico) exigia substituir a depend\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o ao ouro em barras, como base monet\u00e1ria. Este metal permaneceu por muito tempo como base para pagamento de direitos alfandeg\u00e1rios ao Tesouro, o que o drenava recursos da economia em geral, limitando sua disponibilidade para financiar a ind\u00fastria.<\/p>\n<p>Os defensores da industrializa\u00e7\u00e3o defendiam a redu\u00e7\u00e3o da excessiva depend\u00eancia do ouro atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o de um sistema banc\u00e1rio nacional que proporcionasse uma superestrutura crescente de cr\u00e9dito em papel para financiar o crescimento industrial.<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/direita-assanhada\/donald-trump-eis-o-grande-plano\/#sdfootnote2sym\"><sup>2<\/sup><\/a><\/p>\n<p>A economia pol\u00edtica cl\u00e1ssica via a pol\u00edtica tribut\u00e1ria como a alavanca mais importante para direcionar a aloca\u00e7\u00e3o de recursos e cr\u00e9dito para a ind\u00fastria. Seu principal objetivo pol\u00edtico era minimizar a renda econ\u00f4mica (o excedente dos pre\u00e7os de mercado sobre o valor de custo intr\u00ednseco das mercadorias), libertando os mercados da renta<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/direita-assanhada\/donald-trump-eis-o-grande-plano\/#sdfootnote3sym\"><sup>3<\/sup><\/a> obtida gra\u00e7as \u00e0 propriedade da terra, aos monop\u00f3lios e aos juros e taxas financeiras.<\/p>\n<p>Os impostos sobre lucros industriais e sal\u00e1rios aumentavam os custos de produ\u00e7\u00e3o e deviam ser evitados. Em contrapartida, a renta da terra, as rentas monopolistas e os ganhos financeiros deveriam ser tributados ou mesmo ter suas fontes (terra, monop\u00f3lios e cr\u00e9dito) nacionalizadas para reduzir custos de acesso a im\u00f3veis e servi\u00e7os monopolizados, e diminuir encargos financeiros. Estas pol\u00edticas, baseadas na distin\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica entre valor de custo intr\u00ednseco e pre\u00e7o de mercado, foram o que tornou o capitalismo industrial t\u00e3o revolucion\u00e1rio. Libertar as economias da renta atrav\u00e9s da taxa\u00e7\u00e3o visava minimizar o custo da vida e dos neg\u00f3cios, al\u00e9m de reduzir o dom\u00ednio pol\u00edtico de uma elite financeira e latifundi\u00e1ria.<\/p>\n<p>Quando os EUA institu\u00edram seu primeiro imposto de renda progressivo em 1913, apenas 2% dos norte-americanos tinham renda suficiente para declar\u00e1-la ao fisco. A grande fatia da tributa\u00e7\u00e3o de 1913 reca\u00eda sobre a renta sobe interesses financeiros e imobili\u00e1rios, e sobre as rentas monopolistas extra\u00eddas pelos trustes organizados pelo sistema banc\u00e1rio.<\/p>\n<h3><strong>Como as pol\u00edticas neoliberais reverteram o dinamismo industrial dos EUA<\/strong><\/h3>\n<p>Desde o in\u00edcio do per\u00edodo neoliberal nos anos 1980, a renda dispon\u00edvel dos trabalhadores norte-americanos foi comprimida pelos altos custos das necessidades b\u00e1sicas. Ao mesmo tempo, seu custo de vida os tornou n\u00e3o competitivos nos mercados globais. Isso n\u00e3o equivale a uma Economia de Altos Sal\u00e1rios, mas a um desvio de boa parte dos sal\u00e1rios para pagar as v\u00e1rias formas de renta econ\u00f4mica que proliferaram e destru\u00edram a antiga estrutura de custos competitiva dos EUA.<\/p>\n<p>A renda m\u00e9dia atual dos EUA, de U$ 175.000 para uma fam\u00edlia de quatro pessoas, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 gasta principalmente em produtos ou servi\u00e7os que os assalariados produzem. \u00c9 em grande parte drenada pelo setor de finan\u00e7as, seguros e im\u00f3veis (FIRE) e pelos monop\u00f3lios no topo da pir\u00e2mide econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>O endividamento do setor privado \u00e9 em grande parte respons\u00e1vel pelo desvio dos sal\u00e1rios \u2013 que j\u00e1 n\u00e3o asseguram a melhora do padr\u00e3o de vida dos trabalhadores. Tamb\u00e9m desencaminha os lucros corporativos, impedindo que seja transformado em investimento em capital tang\u00edvel, pesquisa e desenvolvimento para empresas industriais.<\/p>\n<p>Os empregadores n\u00e3o pagam o suficiente para que os assalariados mantenham seu padr\u00e3o de vida e suportem esse fardo financeiro, de seguros e imobili\u00e1rio, o que deixa a m\u00e3o-de-obra norte-americana cada vez mais empobrecida.<\/p>\n<p>Inflacionado pelo cr\u00e9dito banc\u00e1rio e pelo aumento da rela\u00e7\u00e3o d\u00edvida\/renda, o custo habitacional de refer\u00eancia nos EUA para compradores de im\u00f3veis subiu para 43% de sua renda, muito acima do padr\u00e3o anterior de 25%. Ag\u00eancia Federal de Habita\u00e7\u00e3o garante as hipotecas, para assegurar que os bancos seguindo esta diretriz n\u00e3o tenhyam preju\u00edzos, mesmo quando os atrasos e inadimpl\u00eancias atingem recordes hist\u00f3ricos.<strong>O percentual de norte-americanos que possuem im\u00f3veis caiu <\/strong>de mais 69% em 2005 para menos de 63%, na onda de despejos e execu\u00e7\u00f5es hipotec\u00e1rias durante o governo Obama, ap\u00f3s a crise das hipotecas podres de 2008.<\/p>\n<p>Os alugu\u00e9is e pre\u00e7os de im\u00f3veis dispararam continuamente (especialmente durante o per\u00edodo em que o Banco Central [Federal Reserve] manteve juros baixos deliberadamente, para inflacionar os pre\u00e7os dos ativos e sustentar o setor financeiro, enquanto o capital privado comprava casas que assalariados n\u00e3o podiam pagar), tornando a habita\u00e7\u00e3o de longe o maior \u00f4nus sobre a renda dos assalariados. Os atrasos no pagamento tamb\u00e9m explodem nos empr\u00e9stimos estudantis contra\u00eddos para qualifica\u00e7\u00e3o profissional, e em muitos casos nas d\u00edvidas para compra de autom\u00f3veis necess\u00e1rios para o deslocamento ao trabalho. Isso \u00e9 coroado por d\u00edvidas de cart\u00e3o de cr\u00e9dito que se acumulam apenas para fechar as contas no fim do m\u00eas. O desastre do seguro sa\u00fade privatizado agora absorve 18% do PIB norte-americano, e ainda assim as d\u00edvidas m\u00e9dicas tornaram-se uma das principais causas de fal\u00eancia pessoal. Tudo isso \u00e9 exatamente o oposto do que se pretendia com a pol\u00edtica original da Economia de Altos Sal\u00e1rios para a ind\u00fastria americana.<\/p>\n<p>Esta financeiriza\u00e7\u00e3o neoliberal \u2014 a prolifera\u00e7\u00e3o de \u00f4nus rentistas, a infla\u00e7\u00e3o dos custos habitacionais e de sa\u00fade, e a necessidade de viver a cr\u00e9dito al\u00e9m do que se ganha \u2013 tem dois efeitos. O mais \u00f3bvio \u00e9 que a maioria das fam\u00edlias norte-americanas n\u00e3o consegue aumentar suas poupan\u00e7as desde 2008, vivendo de sal\u00e1rio em sal\u00e1rio. O segundo efeito \u00e9 que, com os empregadores obrigados a pagar o suficiente para cobrir esses custos rentistas, o sal\u00e1rio m\u00ednimo vital americano elevou-se tanto acima de todas as outras economias que a ind\u00fastria americana n\u00e3o tem como competir com outros pa\u00edses.<\/p>\n<p>A privatiza\u00e7\u00e3o e a desregulamenta\u00e7\u00e3o da economia norte-americana obrigou empregadores e trabalhadores a arcar com custos rentistas, incluindo pre\u00e7os imobili\u00e1rios mais altos e crescente endividamento, que s\u00e3o parte integrante das pol\u00edticas neoliberais atuais. A consequente perda de competitividade industrial \u00e9 o principal obst\u00e1culo \u00e0 sua reindustrializa\u00e7\u00e3o. Afinal, foram esses encargos rentistas, antes de tudo, que desindustrializaram a economia, tornando-a menos competitiva nos mercados globais e estimulando a relocaliza\u00e7\u00e3o industrial ao elevar o custo das necessidades b\u00e1sicas e dos neg\u00f3cios. Pagar tais encargos tamb\u00e9m reduz o mercado interno, ao diminuir a capacidade dos trabalhadores de comprar o que produzem.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica tarif\u00e1ria de Trump n\u00e3o faz nada para resolver esses problemas, mas os agravar\u00e1 ao acelerar a infla\u00e7\u00e3o. Esta situa\u00e7\u00e3o dificilmente mudar\u00e1 no curto prazo, porque os benefici\u00e1rios das pol\u00edticas neoliberais \u2014 os receptores das rentas que oneram a economia norte-americana \u2013 tornaram-se a Classe dos Bilion\u00e1rios. Para aumentar suas rentas e ganhos de capital, e torn\u00e1-los irrevers\u00edveis, esta oligarquia ressurgente pressiona por mais privatiza\u00e7\u00f5es dos bens p\u00fablico, ao inv\u00e9s de cultiv\u00e1-lo, para que forne\u00e7a servi\u00e7os subsidiados para atender \u00e0s necessidades b\u00e1sicas da economia com custo m\u00ednimo. Os maiores servi\u00e7os p\u00fablicos privatizados s\u00e3o monop\u00f3lios naturais \u2013 raz\u00e3o pela qual estavam originalmente no dom\u00ednio p\u00fablico (ou seja, para evitar extra\u00e7\u00e3o de renta monopolista).<\/p>\n<p>O pretexto \u00e9 que a propriedade privada em busca de lucros criar\u00e1 incentivos para maior efici\u00eancia. A realidade \u00e9 que os pre\u00e7os dos antigos servi\u00e7os p\u00fablicos \u2014 transportes, comunica\u00e7\u00f5es e outros setores privatizados \u2014 v\u00e3o sendo elevados at\u00e9 o n\u00edvel que o mercado possa suportar. Aguarda-se com ansiedade o destino dos correios norte-americanos, que o Congresso tenta privatizar.<\/p>\n<p>Os objetivos da atual venda de ativos governamentais n\u00e3o s\u00e3o nem aumentar a produ\u00e7\u00e3o, nem reduzir seus custos. A perspectiva de possuir um monop\u00f3lio privatizado capaz de extrair rentas monopolistas levou gestores financeiros a contrair empr\u00e9stimos para comprar esses neg\u00f3cios, acrescentando pagamentos de d\u00edvida \u00e0 sua estrutura de custos. Os gestores come\u00e7am ent\u00e3o a vender os im\u00f3veis das empresas que comandam para obter caixa r\u00e1pido, distribu\u00eddo como dividendos especiais \u2013 e alugam de volta a propriedade necess\u00e1ria para operar. O resultado \u00e9 um monop\u00f3lio de alto custo, altamente endividado e com lucros em queda. Esse \u00e9 o modelo neoliberal, desde a emblem\u00e1tica privatiza\u00e7\u00e3o da Thames Water na Inglaterra at\u00e9 ex-empresas industriais financeirizadas, como General Electric e Boeing.<\/p>\n<p>Em contraste com o impulso do capitalismo industrial no s\u00e9culo XIX, o objetivo dos privatizadores na era p\u00f3s-industrial do capitalismo financeiro-rentista \u00e9 obter ganhos de \u201ccapital\u201d com as a\u00e7\u00f5es de empresas p\u00fablicas que foram privatizadas, financeirizadas e desregulamentadas. Objetivo financeiro similar tem sido perseguido no \u00e2mbito privado, onde o plano de neg\u00f3cios do setor financeiro tem sido substituir a busca por lucros corporativos pela obten\u00e7\u00e3o de ganhos de capital em a\u00e7\u00f5es, t\u00edtulos e im\u00f3veis.<\/p>\n<p>A grande maioria das a\u00e7\u00f5es e t\u00edtulos \u00e9 propriedade dos 10% mais ricos. Enquanto sua riqueza financeira disparou, a renda pessoal dispon\u00edvel da maioria (ap\u00f3s pagar encargos rentistas) encolheu. Sob o atual capitalismo financeiro-rentista, a economia segue em duas dire\u00e7\u00f5es simult\u00e2neas \u2013 para baixo no setor produtor de bens industriais; mas para cima, nas exig\u00eancias financeiras sobre o trabalho e capital.<\/p>\n<p>A economia mista p\u00fablico-privada, que antes construiu a ind\u00fastria norte-americana minimizando o custo da vida e dos neg\u00f3cios foi invertida pelos setores que comp\u00f5em a base pol\u00edtica de Trump (e dos Partido Democrata tamb\u00e9m, \u00e9 claro): o 1% mais rico, que continua marchando sob a bandeira ultraliberal do Thatcherismo, da Reaganomics e dos ide\u00f3logos de Chicago anti-Estado (ou seja, anti-trabalho).<\/p>\n<p>Eles atacam os impostos progressivos sobre renda e patrim\u00f4nio, o investimento em infraestrutura p\u00fablica e o papel regulador do governo de serem intromiss\u00f5es nos \u201clivres mercados\u201d.<\/p>\n<p>A pergunta, claro, \u00e9 \u201clivre para quem?\u201d Quando usam o termo, eles se referem a um mercado livre para os ricos extra\u00edrem renta. Eles ignoram tanto a necessidade de taxar (e de minimizar a renta, para alcan\u00e7ar competitividade industrial) quanto o fato de que cortar impostos sobre os ricos \u2013 e insistir em equilibrar o or\u00e7amento do Estado \u201ccomo o de uma fam\u00edlia\u201d, para evitar mais d\u00edvidas \u2013 priva a economia de inje\u00e7\u00e3o p\u00fablica de poder de compra. Sem gasto p\u00fablico l\u00edquido, a economia \u00e9 obrigada a recorrer aos bancos para financiamento, cujos empr\u00e9stimos com juros crescem exponencialmente e deslocam gastos com bens e servi\u00e7os reais. Isso intensifica a compress\u00e3o salarial descrita acima e a din\u00e2mica de desindustrializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um efeito fatal dessas mudan\u00e7as foi que, em vez de o capitalismo industrializar o sistema banc\u00e1rio e financeiro como se esperava no s\u00e9culo XIX, a ind\u00fastria foi financeirizada. O setor financeiro n\u00e3o alocou seu cr\u00e9dito para financiar novos meios de produ\u00e7\u00e3o, mas para assumir ativos j\u00e1 existentes \u2013 principalmente im\u00f3veis e empresas j\u00e1 estabelecidas. Isso sobrecarrega os ativos com d\u00edvidas no processo de inflacionar ganhos de capital, enquanto o setor financeiro empresta dinheiro para que aumentem seus pre\u00e7os.<\/p>\n<p>Esse processo de aumento da riqueza financeirizada acrescenta sobrecarga econ\u00f4mica n\u00e3o apenas como d\u00edvida, mas como pre\u00e7os de compra mais altos (inflacionados por cr\u00e9dito banc\u00e1rio) para im\u00f3veis e empresas industriais e outras. E, coerente com seu plano de neg\u00f3cios de obter ganhos de capital, o setor financeiro buscou isentar tais ganhos de impostos.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m assumiu a lideran\u00e7a das press\u00f5es por cortes em impostos imobili\u00e1rios, para que uma parcela maior do valor j\u00e1 crescente dos terrenos, casas e pr\u00e9dios comerciais \u2013 a renda locativa \u2013 permane\u00e7ao como garantia para os bancos, em vez de servir como principal base tribut\u00e1ria para sistemas fiscais locais e nacionais. \u00c9 o contr\u00e1rio do que os economistas cl\u00e1ssicos defenderam durante todo o s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>O resultado foi uma mudan\u00e7a da tributa\u00e7\u00e3o progressiva para a regressiva. Rentas e ganhos de capital financiados por d\u00edvida tornaram-se isentos de impostos, o que transferiu a carga tribut\u00e1ria para trabalhadores e ind\u00fastrias. \u00c9 essa mudan\u00e7a tribut\u00e1ria que incentivou gestores financeiros corporativos a substituir a busca por lucros empresariais pela obten\u00e7\u00e3o de ganhos de capital, como descrito anteriormente.<br \/>O que prometia ser uma harmonia de interesses para todas as classes \u2013 alcan\u00e7ada pelo aumento da riqueza via endividamento e valoriza\u00e7\u00e3o de im\u00f3veis, a\u00e7\u00f5es e t\u00edtulos \u2013 transformou-se em uma guerra de classes. N\u00e3o se trata mais apenas da guerra de classes entre capital industrial e trabalho do s\u00e9culo XIX. A forma p\u00f3s-moderna \u00e9 a guerra do capital financeiro contra tanto trabalhadores quanto ind\u00fastrias.<strong>Os e<\/strong>mpregadores ainda exploram trabalhadores, ao pagar menos do que o valor produzido. Mas agora os trabalhadores s\u00e3o cada vez mais explorados pela d\u00edvida \u2013 hipotec\u00e1ria (com cr\u00e9dito \u201cf\u00e1cil\u201d inflacionando custos habitacionais), estudantil, automotiva e de cart\u00e3o de cr\u00e9dito, apenas para cobrir custos b\u00e1sicos.<\/p>\n<p>O pagamento desses encargos da d\u00edvida aumenta o custo da m\u00e3o-de-obra para as ind\u00fastrias, limitando sua capacidade de gerar lucros. \u00c9 essa explora\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria (e da economia como um todo) pelo capital financeiro e outros rentistas que acelerou a relocaliza\u00e7\u00e3o industrial e a desindustrializa\u00e7\u00e3o nos EUA e das outras economias ocidentais que seguiram o mesmo caminho.<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/direita-assanhada\/donald-trump-eis-o-grande-plano\/#sdfootnote4sym\"><sup>4<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Em n\u00edtido contraste com a desindustrializa\u00e7\u00e3o ocidental est\u00e1 o bem-sucedido avan\u00e7o industrial chin\u00eas. Atualmente, os padr\u00f5es de vida na China s\u00e3o, para boa parte da popula\u00e7\u00e3o, equivalentes aos dos EUA. Isso resulta da pol\u00edtica chinesa de apoiar ind\u00fastrias via subs\u00eddios a necessidades b\u00e1sicas (educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade), trens-bala, metr\u00f4s, transporte p\u00fablico, comunica\u00e7\u00f5es high-tech e outros bens de consumo, incluindo novos sistemas de pagamento. O mais importante: a China manteve o sistema banc\u00e1rio e a cria\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito no dom\u00ednio do Estado, como servi\u00e7o p\u00fablico essencial. Essa \u00e9 a pol\u00edtica fundamental que lhe permitiu evitar a financeiriza\u00e7\u00e3o que desindustrializou os EUA e outras economias ocidentais.<\/p>\n<p>A grande ironia \u00e9 que a pol\u00edtica industrial chinesa \u00e9 notavelmente similar \u00e0 que impulsionou o desenvolvimento industrial norte-americano no s\u00e9culo XIX. Como mencionado, o governo chin\u00eas financiou a infraestrutura b\u00e1sica, mantendo-a no setor p\u00fablico e oferecendo servi\u00e7os a baixo custo para preservar a estrutura de custos da economia. Al\u00e9m disso, o aumento dos sal\u00e1rios e padr\u00f5es de vida na China realmente corresponde a ganhos de produtividade laboral.<\/p>\n<p>Existem bilion\u00e1rios na China, mas n\u00e3o s\u00e3o vistos como her\u00f3is celebridades ou modelos para o desenvolvimento econ\u00f4mico geral. O ac\u00famulo de grandes fortunas ostentat\u00f3rias \u2013 t\u00edpico do Ocidente e de sua Classe de Bilion\u00e1rios \u2013 foi contido por san\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e morais contra o uso da riqueza pessoal para controlar pol\u00edticas econ\u00f4micas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Este ativismo governamental \u2013 que a ret\u00f3rica norte-americana denuncia como \u201cautocracia\u201d chinesa \u2013 conseguiu o que as democracias ocidentais n\u00e3o lograram: impedir o surgimento de uma oligarquia rentista financeirizada, que usa sua riqueza para comprar controle governamental, assumir a economia via privatiza\u00e7\u00f5es e promover seus ganhos endividando o resto da economia, ao mesmo tempo em que desmonta regulamenta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas.<\/p>\n<h3><strong>O que foi a Era de Ouro que Trump deseja reviver?<\/strong><\/h3>\n<p>Trump e os republicanos estabeleceram um objetivo pol\u00edtico acima de todos os outros: cortar impostos, especialmente a tributa\u00e7\u00e3o progressiva que incide sobre as maiores rendas e patrim\u00f4nios. \u00c9 poss\u00edvel que em algum momento Trump tenha perguntado a algum economista se havia uma forma alternativa de os governos se financiarem. Algu\u00e9m deve t\u00ea-lo informado que, desde a independ\u00eancia norte-americana at\u00e9 a v\u00e9spera da Primeira Guerra Mundial, a forma dominante de receita governamental eram os impostos alfandeg\u00e1rios sobre importa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 f\u00e1cil imaginar a l\u00e2mpada que se acendeu no c\u00e9rebro de Trump. Tarifas n\u00e3o afetam a classe dos rentistas e os bilion\u00e1rios do setor imobili\u00e1rio, financeiro e monopolistas. Incidem principalmente sobre os trabalhadores (e tamb\u00e9m sobre a ind\u00fastria, no caso de importa\u00e7\u00f5es de mat\u00e9rias-primas e componentes essenciais).<\/p>\n<p>Anunciar suas tarifas exorbitantes e sem precedentes em 3 de abril, Trump prometeu que as tarifa<strong>s <\/strong><strong>por si s\u00f3s<\/strong> reindustrializariam os EUA, criando uma barreira protecionista e permitindo que o Congresso reduzisse impostos para os norte-americanos mais ricos \u2014 que, segundo ele, seriam assim \u201cincentivados\u201d a \u201creconstruir\u201d a ind\u00fastria americana. \u00c9 como se dar mais riqueza aos gestores financeiros que <strong>desindustrializaram<\/strong> a economia americana magicamente permitisse repetir o boom industrial do final do s\u00e9culo XIX, sob William McKinley.<\/p>\n<p>O que esta narrativa ignora \u00e9 que as tarifas eram apenas o pr\u00e9-requisito para o fomento governamental \u00e0 ind\u00fastria numa economia mista p\u00fablico-privada, onde o governo moldava os mercados para minimizar o custo da vida e dos neg\u00f3cios. Esse fomento p\u00fablico foi o que deu aos EUA do s\u00e9culo XIX sua vantagem competitiva internacional. Mas, dado seu objetivo econ\u00f4mico principal de isentar de impostos a si mesmo e seus apoiadores mais influentes, o que atrai Trump \u00e9 simplesmente o fato de que o governo ainda n\u00e3o tinha imposto de renda.<\/p>\n<p>Trump tamb\u00e9m se identifica com a superaflu\u00eancia da classe dos bar\u00f5es ladr\u00f5es, nas fileiras das quais ele facilmente se imagina, como num romance hist\u00f3rico. Mas essa consci\u00eancia de classe autoindulgente tem um ponto cego: n\u00e3o enxerga como sua busca por riqueza e renta predat\u00f3rias destr\u00f3i a economia ao redor, enquanto fantasia que os bar\u00f5es ladr\u00f5es fizeram suas fortunas por serem grandes organizadores e motores da ind\u00fastria. Ele n\u00e3o percebe que a Era Dourada n\u00e3o surgiu como parte da estrat\u00e9gia industrial americana para o sucesso \u2014 mas apenas porque ainda n\u00e3o se regulava monop\u00f3lios nem taxava rendas rentistas. As grandes fortunas tornaram-se poss\u00edveis justamente pela falha inicial em regular monop\u00f3lios e tributar a renda econ\u00f4mica. A <em>Hist\u00f3ria das Grandes Fortunas Americanas<\/em> de Gustavus Myers conta como os monop\u00f3lios ferrovi\u00e1rios e imobili\u00e1rios foram esculpidos \u00e0s custas da economia como um todo.<\/p>\n<p>A legisla\u00e7\u00e3o antitruste norte-americana foi criada para lidar com esse problema, e o imposto de renda original de 1913 aplicava-se apenas aos 2% mais ricos da popula\u00e7\u00e3o. Ele incidia (como mencionado antes) principalmente sobre riqueza financeira e imobili\u00e1ria e monop\u00f3lios \u2013 juros, alugu\u00e9is de terra e rendas monopolistas -, n\u00e3o sobre trabalhadores ou a maioria das empresas. Em contraste, o plano de Trump \u00e9 substituir a tributa\u00e7\u00e3o das classes rentistas mais ricas por tarifas pagas principalmente pelos consumidores norte-americanos.<\/p>\n<p>Para difundir sua cren\u00e7a de que a prosperidade pode ser alcan\u00e7ada atrav\u00e9s de favorecimento fiscal para sua Classe Bilion\u00e1rios, isentando suas rentas rentistas, Trump precisa bloquear a consci\u00eancia de que tal pol\u00edtica impedir\u00e1 a reindustrializa\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica que ele afirma desejar.<\/p>\n<h3><strong>A economia dos EUA n\u00e3o se reindustrilizar\u00e1 sem livrar-se dos rentistas<\/strong><\/h3>\n<p>Os efeitos mais imediatos da pol\u00edtica tarif\u00e1ria de Trump ser\u00e3o o desemprego decorrente da ruptura dos fluxos comerciais (al\u00e9m do desemprego gerado por seus cortes de gastos governamentais) e o aumento dos pre\u00e7os ao consumidor, para uma for\u00e7a de trabalho j\u00e1 pressionada por encargos financeiros, de seguros e imobili\u00e1rios que precisam ser pagos como primeiros desenbolsos de sua renda salarial.<\/p>\n<p>Os atrasos em hipotecas, empr\u00e9stimos automotivos e cart\u00f5es de cr\u00e9dito j\u00e1 est\u00e3o em n\u00edveis historicamente altos, e mais da metade dos norte-americanos n\u00e3o tem poupan\u00e7a l\u00edquida alguma \u2013 e dizem aos pesquisadores que n\u00e3o conseguiriam arcar com uma emerg\u00eancia de US$ 400. N\u00e3o h\u00e1 como a renda pessoal dispon\u00edvel aumentar, nessas circunst\u00e2ncias. E n\u00e3o h\u00e1 como a produ\u00e7\u00e3o americana n\u00e3o ser interrompida pelo corte dos la\u00e7os comerciais e pelas demiss\u00f5es devidas \u00e0s enormes barreiras tarif\u00e1rias que Trump amea\u00e7ou impor<\/p>\n<p>Embora Trump tenha anunciado uma pausa de 90 dias durante, a qual as tarifas ser\u00e3o reduzidas para 10% para pa\u00edses dispostos a negociar, ele elevou as tarifas sobre importa\u00e7\u00f5es chinesas para 145%.<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/direita-assanhada\/donald-trump-eis-o-grande-plano\/#sdfootnote5sym\"><sup>5<\/sup><\/a> A China e outros pa\u00edses e empresas estrangeiras j\u00e1 pararam de exportar mat\u00e9rias-primas e componentes necess\u00e1rios \u00e0 ind\u00fastria norte-americana. Para muitas empresas, ser\u00e1 arriscado demais retomar o com\u00e9rcio at\u00e9 que as incertezas dessas negocia\u00e7\u00f5es pol\u00edticas sejam resolvidas. Alguns pa\u00edses provavelmente usar\u00e3o esse intervalo para encontrar alternativas ao mercado americano (incluindo produzir para suas pr\u00f3prias popula\u00e7\u00f5es). Quanto \u00e0 esperan\u00e7a de Trump de persuadir empresas estrangeiras a realocar f\u00e1bricas para os EUA, essas companhias enfrentar\u00e3o o risco ter Espada de D\u00e2mocles sobre suas cabe\u00e7as. No momento oportuno, o presidente pode simplesmente insistir que vendam suas filiais norte-americanas a investidores dom\u00e9sticos, como exigiu que a China fizesse com o TikTok.<br \/>O problema mais fundamental, claro, \u00e9 que o crescente endividamento da economia norte-americana, somado aos custos de sa\u00fade e moradia, j\u00e1 tornaram a m\u00e3o-de-obra americana \u2013 e os produtos que ela fabrica \u2013 n\u00e3o competitivos nos mercados globais. A pol\u00edtica tarif\u00e1ria de Trump n\u00e3o resolver\u00e1 isso. Na verdade, suas tarifas, ao aumentarem os pre\u00e7os ao consumidor, agravar\u00e3o o problema ao elevar ainda mais o custo de vida e, consequentemente, o pre\u00e7o da m\u00e3o-de-obra americana.<\/p>\n<p>Em vez de apoiar o renascimento da ind\u00fastria norte-americana, o efeito das tarifas e outras pol\u00edticas fiscais de Trump ser\u00e1 proteger e subsidiar a obsolesc\u00eancia e a desindustrializa\u00e7\u00e3o financeirizada. Sem reestruturar a economia rentista financeirizada para retorn\u00e1-la ao plano original do capitalismo industrial \u2013 com mercados livres de rentas, como defendiam os economistas cl\u00e1ssicos em sua distin\u00e7\u00e3o entre valor e pre\u00e7o, e portanto entre renta e lucro industrial -, seu programa fracassar\u00e1 em reindustrializar os EUA. Na verdade, amea\u00e7a levar a economia americana \u00e0 depress\u00e3o \u2013 para 90% da popula\u00e7\u00e3o, diga-se.<\/p>\n<p>Assim, nos vemos diante de duas filosofias econ\u00f4micas opostas. De um lado est\u00e1 o programa industrial original que os EUA e a maioria das na\u00e7\u00f5es bem-sucedidas seguiram. \u00c9 o programa cl\u00e1ssico baseado em investimento p\u00fablico em infraestrutura e forte regula\u00e7\u00e3o governamental, com sal\u00e1rios crescentes protegidos por tarifas que geravam receita p\u00fablica e oportunidades de lucro para criar f\u00e1bricas e empregar trabalhadores. Trump n\u00e3o tem planos para recriar tal economia. Em vez disso, defende a filosofia econ\u00f4mica oposta: reduzir o Estado, enfraquecer a regula\u00e7\u00e3o p\u00fablica, privatizar a infraestrutura p\u00fablica e abolir os impostos progressivos sobre renda. Este \u00e9 o programa neoliberal que elevou a estrutura de custos para a ind\u00fastria e polarizou a riqueza e renda entre credores e devedores. Donald Trump deturpa este programa como sendo favor\u00e1vel \u00e0 ind\u00fastria, quando na verdade \u00e9 a ant\u00edtese disso.<\/p>\n<p>Impor tarifas enquanto se mant\u00e9m o programa neoliberal apenas proteger\u00e1 a senilidade da produ\u00e7\u00e3o industrial norte-americana, sobrecarregada por altos custos trabalhistas decorrentes do aumento dos pre\u00e7os imobili\u00e1rios, seguros m\u00e9dicos, educa\u00e7\u00e3o e servi\u00e7os de p\u00fablicos privatizados \u2013 que antes forneciam necessidades b\u00e1sicas de comunica\u00e7\u00e3o, transporte e outros servi\u00e7os a pre\u00e7os subsidiados, n\u00e3o como rendas monopolistas financeirizadas. Ser\u00e1 uma falsa era dourada.<\/p>\n<p>Embora Trump possa ser sincero em querer reindustrializar os EUA, seu objetivo mais obsessivo \u00e9 reduzir impostos para sua Classe Bilion\u00e1rios, imaginando que as receitas tarif\u00e1rias possam bancar isso. Mas muito do com\u00e9rcio j\u00e1 parou. Quando ele for retomado e as receitas tarif\u00e1rias forem geradas, demiss\u00f5es em massa j\u00e1 ter\u00e3o ocorrido, levando os trabalhadores afetados a cair ainda mais em inadimpl\u00eancia, deixando a economia norte-americana em posi\u00e7\u00e3o igualmente ruim para reindustrializar-se.<\/p>\n<h3><strong>A Dimens\u00e3o Geopol\u00edtica<\/strong><\/h3>\n<p>As negocia\u00e7\u00f5es pa\u00eds a pa\u00eds de Trump para extrair concess\u00f5es econ\u00f4micas em troca de restabelecer acesso ao mercado norte-americano sem d\u00favida levar\u00e3o alguns pa\u00edses a ceder a essa t\u00e1tica coercitiva. De fato, Trump anunciou que mais de 75 pa\u00edses contataram o governo americano para negociar. Mas alguns pa\u00edses asi\u00e1ticos e latino-americanos j\u00e1 buscam alternativas \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o comercial em arma pelos EUA para extorquir concess\u00f5es. Os pa\u00edses discutem op\u00e7\u00f5es de se unirem para criar um mercado comercial m\u00fatuo com regras menos an\u00e1rquicas.<\/p>\n<p>O resultado seria tornar a pol\u00edtica de Trump mais um passo na marcha da Guerra Fria dos EUA para isolar-se das rela\u00e7\u00f5es comerciais e de investimento com o resto do mundo, inclusive possivelmente com alguns de seus sat\u00e9lites europeus. Os EUA arriscam-se a ser relegados ao que sempre se sup\u00f4s ser sua maior vantagem econ\u00f4mica: a autossufici\u00eancia em alimentos, mat\u00e9rias-primas e m\u00e3o-de-obra. Mas eles j\u00e1 se desindustrializaram e t\u00eam pouco a oferecer a outros pa\u00edses, exceto a promessa de n\u00e3o prejudic\u00e1-los, perturbar seu com\u00e9rcio ou impor san\u00e7\u00f5es, se concordarem em fazer dos EUA os principais benefici\u00e1rios de seu crescimento econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>A hybris de l\u00edderes nacionais tentando expandir seu imp\u00e9rio \u00e9 antiga \u2013 como tamb\u00e9m o \u00e9 seu castigo, que geralmente acaba recaindo sobre eles mesmos. Em sua segunda posse, Trump prometeu uma nova Era Dourada. Her\u00f3doto (Hist\u00f3rias, Livro 1.53) conta a hist\u00f3ria de Creso, rei da L\u00eddia por volta de 585-546 a.C., na regi\u00e3o que hoje \u00e9 o oeste da Turquia e a costa j\u00f4nica do Mediterr\u00e2neo. Creso conquistou \u00c9feso, Mileto e reinos gregos vizinhos, obtendo tributos e saques que o tornaram um dos governantes mais ricos de sua \u00e9poca, famoso especialmente por suas moedas de ouro. Mas essas vit\u00f3rias e riquezas o levaram \u00e0 arrog\u00e2ncia e hybris. Creso voltou seus olhos para o leste, ambicionando conquistar a P\u00e9rsia, governada por Ciro, o Grande.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s doar quantias substanciais de ouro e prata ao cosmopolita Templo de Delfos, Creso consultou seu or\u00e1culo sobre o sucesso de sua planejada conquista. A sacerdotisa P\u00edtia respondeu: \u201cSe voc\u00ea for \u00e0 guerra contra a P\u00e9rsia, destruir\u00e1 um grande imp\u00e9rio.\u201d Creso partiu otimista para atacar a P\u00e9rsia por volta de 547 a.C. Marchando para leste, atacou a Fr\u00edgia, estado vassalo da P\u00e9rsia. Ciro lan\u00e7ou uma Opera\u00e7\u00e3o Militar Especial para repelir Creso, derrotando seu ex\u00e9rcito, capturando-o e aproveitando para tomar o ouro da L\u00eddia e cunhar suas pr\u00f3prias moedas persas. Assim, Creso realmente destruiu um grande imp\u00e9rio \u2013 mas foi o seu mesmo.<\/p>\n<p>Avan\u00e7ando para hoje: assim como Creso esperava obter as riquezas de outros pa\u00edses para sua cunhagem de ouro, Trump esperava que sua agress\u00e3o comercial global permitisse aos EUA extorquir a riqueza de outras na\u00e7\u00f5es e fortalecer o papel do d\u00f3lar como moeda de reserva, contra movimentos defensivos de desdolariza\u00e7\u00e3o e cria\u00e7\u00e3o de alternativas para o com\u00e9rcio internacional e reservas cambiais. Mas sua postura agressiva minou ainda mais a confian\u00e7a no d\u00f3lar no exterior e est\u00e1 causando graves interrup\u00e7\u00f5es nas cadeias de suprimentos da ind\u00fastria americana, paralisando produ\u00e7\u00f5es e gerando demiss\u00f5es internas. Os investidores esperavam um retorno \u00e0 normalidade, quando a bolsa de Nova York disparou, com a suspens\u00e3o tempor\u00e1ria das tarifas por Trump \u2014 apenas para voltar a recuar, quando ficou claro que ele ainda taxava todos os pa\u00edses em 10% (e a China em proibitivos 145%).<\/p>\n<p>Est\u00e1 se tornando evidente que a ruptura radical do com\u00e9rcio \u00e9 irrevers\u00edvel. As tarifas anunciadas por Trump em 3 de abril, seguidas de sua declara\u00e7\u00e3o de que eram apenas demandas m\u00e1ximas para negocia\u00e7\u00f5es bilaterais pa\u00eds a pa\u00eds visando extrair concess\u00f5es econ\u00f4micas e pol\u00edticas (sujeitas a mais mudan\u00e7as a seu crit\u00e9rio), substitu\u00edram o conceito tradicional de regras consistentes e vinculantes para todos. Sua exig\u00eancia de que os EUA devem ser \u201co vencedor\u201d em qualquer transa\u00e7\u00e3o mudou a forma como o mundo v\u00ea suas rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas com os EUA. Uma l\u00f3gica geopol\u00edtica totalmente diferente emerge agora, para criar uma nova ordem econ\u00f4mica internacional.<\/p>\n<p>A China respondeu com tarifas e controles de exporta\u00e7\u00e3o enquanto seu com\u00e9rcio com os EUA congela, potencialmente paralisado. Parece improv\u00e1vel que Pequim remova seus controles sobre produtos essenciais \u00e0s cadeias de produ\u00e7\u00e3o norte-americanas. Outros pa\u00edses buscam alternativas \u00e0 depend\u00eancia comercial diante dos EUA, e uma reordena\u00e7\u00e3o da economia global est\u00e1 em debate, incluindo pol\u00edticas defensivas de desdolariza\u00e7\u00e3o. Trump deu um passo gigantesco rumo \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o do que foi um grande imp\u00e9rio.<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Notas:<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/direita-assanhada\/donald-trump-eis-o-grande-plano\/#sdfootnote1anc\">1<\/a>Os tr\u00eas fatores tradicionais de produ\u00e7\u00e3o s\u00e3o trabalho, capital e terra. Mas esses fatores s\u00e3o melhor compreendidos como classes de receptores de renda. Capitalistas e trabalhadores desempenham um papel produtivo. J\u00e1 os propriet\u00e1rios de terra recebem sem produzir servi\u00e7o produtivo algum, pois a renda da terra \u00e9 rendimento n\u00e3o merecido, que obt\u00eam \u201cenquanto dormem\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/direita-assanhada\/donald-trump-eis-o-grande-plano\/#sdfootnote2anc\">2<\/a>Em contraste com o sistema brit\u00e2nico de cr\u00e9dito comercial de curto prazo e bolsa de valores voltada a ganhos r\u00e1pidos \u00e0s custas do resto da economia, a Alemanha foi al\u00e9m dos EUA ao criar uma simbiose entre governo, ind\u00fastria pesada e bancos. Seus economistas chamaram a l\u00f3gicasubjacente de Teoria Estatal do Dinheiro. Detalho isso em \u201cKilling the Host\u201d (2015, cap\u00edtulo 7).<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/direita-assanhada\/donald-trump-eis-o-grande-plano\/#sdfootnote3anc\">3<\/a>Ainda que recorrendo a um neologismo, preferimos empregar, no texto, o termo \u201crenta\u201d, quando o autor se refere a um ganho derivado de atividade n\u00e3o-produtiva \u2013 o controle dos meios financeiros, a propriedade da terra, o exerc\u00edcio de um monop\u00f3lio ou outros. Reservamos \u201crenda\u201d para a contrapartida monet\u00e1ria a um trabalho realizado ou um ganho relacionado \u00e0 produ\u00e7\u00e3o <strong>(Nota do tradutor)<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/direita-assanhada\/donald-trump-eis-o-grande-plano\/#sdfootnote4anc\">4<\/a> A desindustrializa\u00e7\u00e3o norte-americana tamb\u00e9m foi facilitada por pol\u00edticas (iniciadas sob Jimmy Carter e aceleradas por Bill Clinton) que promoveram a relocaliza\u00e7\u00e3o industrial para M\u00e9xico, China, Vietn\u00e3 e outros pa\u00edses com sal\u00e1rios mais baixos. As pol\u00edticas anti-imigra\u00e7\u00e3o de Trump, que exploram o nativismo americano, refletem o sucesso dessa pol\u00edtica deliberada de desindustrializa\u00e7\u00e3o. Vale notar que suas pol\u00edticas migrat\u00f3rias s\u00e3o o oposto das do impulso industrial americano, que incentivava imigra\u00e7\u00e3o como fonte de m\u00e3o-de-obra \u2014 tanto a qualificada (que fugia da sociedade opressiva europeia) quanto a n\u00e3o qualificada para constru\u00e7\u00e3o civil (homens) e t\u00eaxtil (mulheres). Hoje, ao ter se transferido para os pa\u00edses de origem desses imigrantes, a ind\u00fastria americana n\u00e3o precisa mais traz\u00ea-los aos EUA.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/direita-assanhada\/donald-trump-eis-o-grande-plano\/#sdfootnote5anc\">5<\/a>A Casa Branca destacou que a nova tarifa de 125% de Trump sobre a China soma-se aos 20% j\u00e1 vigentes pelo IEEPA (Lei de Poderes Econ\u00f4micos em Emerg\u00eancia Internacional), tornando a tarifa sobre importa\u00e7\u00f5es chinesas um impag\u00e1vel 145%.<\/p>\n<hr>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Por Michael Hudson | Tradu\u00e7\u00e3o: Antonio Martins A pol\u00edtica de tarifas de Donald Trump lan\u00e7ou os mercados numa zona de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":22862,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-22861","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-uncategorized"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22861","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22861"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22861\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/22862"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22861"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22861"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22861"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}