{"id":23002,"date":"2025-04-19T08:28:39","date_gmt":"2025-04-19T11:28:39","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/brasil-e-um-deserto-de-noticias-diz-jornalista-elmar-bones-da-costa\/"},"modified":"2025-04-19T08:28:39","modified_gmt":"2025-04-19T11:28:39","slug":"brasil-e-um-deserto-de-noticias-diz-jornalista-elmar-bones-da-costa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/brasil-e-um-deserto-de-noticias-diz-jornalista-elmar-bones-da-costa\/","title":{"rendered":"Brasil \u00e9 um deserto de not\u00edcias, diz jornalista Elmar Bones da Costa"},"content":{"rendered":"<p>Com 81 anos completados em janeiro, a maioria deles fazendo jornalismo independente, <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2025\/04\/09\/associacao-riograndense-de-imprensa-presta-homenagem-a-comunicadores-gauchos-no-dia-do-jornalista\/\">Elmar Bones da Costa<\/a> alimenta um sonho: \u201cRestabelecer o projeto do jornal <em>J\u00e1<\/em> e transferi-lo para um grupo de jornalistas que desenvolva uma nova rela\u00e7\u00e3o de trabalho, sem patr\u00f5es e com apoio do leitor. Na Alemanha, inclusive, h\u00e1 uma cooperativa de leitores cujo objetivo \u00e9 sustentar uma m\u00eddia independente voltada aos assuntos locais\u201d.<\/p>\n<p>Natural de Cacequi, na Depress\u00e3o Central ga\u00facha, mas criado em Santana do Livramento, na divisa com o Uruguai, com passagens pelas reda\u00e7\u00f5es de <em>Veja<\/em>, <em>Gazeta Mercantil<\/em>, <em>Ag\u00eancia Estado<\/em> e outras, ele encarna uma gera\u00e7\u00e3o de jornalistas combativos que enfrentaram os anos da ditadura, mantendo coer\u00eancia e independ\u00eancia.<\/p>\n<figure><a href=\"https:\/\/apoia.se\/amigosdobrasildefators\"><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"128\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/image-1-33.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/image-1-300x38.png 300w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/image-1-1024x128.png 1024w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/image-1-768x96.png 768w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/image-1-1536x192.png 1536w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/image-1-750x200.png 750w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/image-1-1140x200.png 1140w, https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/image-1-33.png 1600w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><\/a><\/figure>\n<p>Dos fundadores e primeiro editor do <em>Coojornal<\/em>, um dos t\u00edtulos mais importantes entre os ve\u00edculos alternativos que peitaram a ditadura de 1964, desde 1985 dirige o <em>J\u00e1<\/em>, um pequeno e destemido jornal de Porto Alegre que, entre suas fa\u00e7anhas, inclui a conquista, em 2004, de um <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2020\/04\/19\/a-morte-de-um-reporter-do-tipo-que-nao-se-faz-mais\/\">Pr\u00eamio Esso Nacional de Jornalismo<\/a>.<\/p>\n<p>Sempre colocou a profiss\u00e3o de jornalista como uma miss\u00e3o social, a de informar os leitores para que eles pudessem tomar decis\u00f5es. Para ele, a rela\u00e7\u00e3o editor\/leitor \u00e9 um elo de cumplicidade que se estabelece atrav\u00e9s das entrelinhas, t\u00e9cnica apreendida durante os anos de chumbo para ludibriar os censores de plant\u00e3o.<\/p>\n<p>Neste m\u00eas Elmar Bones foi um dos homenageados pela Associa\u00e7\u00e3o Riograndense de Imprensa (ARI) pela longa e fecunda trajet\u00f3ria na imprensa. Nesta conversa com o <strong>Brasil de Fato RS<\/strong>, ele conta parte de sua jornada e aponta os trope\u00e7os da imprensa brasileira nos tempos atuais.<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"682\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/premio-ari-2048x1365-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/premio-ari-300x200.jpg 300w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/premio-ari-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/premio-ari-768x512.jpg 768w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/premio-ari-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/premio-ari-2048x1365-1.jpg 2048w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/premio-ari-750x536.jpg 750w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/premio-ari-1140x815.jpg 1140w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/premio-ari-600x400.jpg 600w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption>Elmar coleciona estatuetas de pr\u00eamios de Jornalismo \u2013 Foto: Rafa Dotti<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Brasil de Fato RS: Depois de viver as limita\u00e7\u00f5es impostas pela ditadura militar durante 21 anos, como classificarias os mais recentes anos da redemocratiza\u00e7\u00e3o em termos das dificuldades para o exerc\u00edcio do jornalismo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Elmar Bones:<\/strong> \u00c9 preciso lembrar que a \u201credemocratiza\u00e7\u00e3o\u201d foi precedida de algumas provid\u00eancias que preservaram o modelo consolidado na ditadura, a partir de uma estrat\u00e9gia autorit\u00e1ria que visava o controle da opini\u00e3o p\u00fablica atrav\u00e9s de um pequeno conjunto de meios, devidamente alinhados com os objetivos da \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Redentora\u201d. Em 1974, por exemplo, o governo levantou a censura mas fez ver \u00e0s empresas que elas precisavam ter \u201creda\u00e7\u00f5es mais confi\u00e1veis\u201d.<\/p>\n<p>Muitos dos profissionais expurgados, por \u201cn\u00e3o confi\u00e1veis\u201d, foram os criadores de uma \u201cimprensa alternativa\u201d \u2013 <em>Pasquim<\/em>, <em>Movimento<\/em>, <em>Opini\u00e3o<\/em>, <em>Extra<\/em>, <em>Versus<\/em>, <em>Coojornal<\/em>\u2026 mais de 30 jornais que se tornaram relativamente influentes. Ganhavam leitores, mas tamb\u00e9m puxavam a m\u00eddia governista para temas que ela evitava: tortura, anistia aos exilados pol\u00edticos, arrocho salarial.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cA imprensa que se consolidou na ditadura \u00e9 praticamente a mesma que a\u00ed est\u00e1\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Foi preciso o governo intervir, para o bom andamento da \u201cabertura lenta, gradual e segura\u201d e eliminar essa imprensa \u201cn\u00e3o confi\u00e1vel\u201d. Um plano incluiu desde cerco fiscal e financeiro, at\u00e9 a atemoriza\u00e7\u00e3o e pris\u00e3o dos editores. E, diga-se, tudo isso transcorreu diante de um frio distanciamento da \u201cimprensa confi\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<p>O <em>Estad\u00e3o<\/em> revelou, 30 anos depois, detalhes desse plano para acabar com os pequenos jornais independentes e reproduziu bilhetes do ministro M\u00e1rio Henrique Simonsen, da Fazenda, indicando medidas financeiras para \u201capertar\u201d os \u201cnanicos\u201d.<\/p>\n<p>Quero dizer: a imprensa que se consolidou na ditadura \u00e9 praticamente a mesma que a\u00ed est\u00e1. Alinhados agora ao poder econ\u00f4mico, esses grupos formam um oligop\u00f3lio, que imp\u00f5e uma narrativa ditada pelo \u201cmercado\u201d. A concentra\u00e7\u00e3o das verbas, privadas e p\u00fablicas, inviabiliza a diversidade.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cUma imprensa movida por reais convic\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas n\u00e3o teria participado da s\u00f3rdida conspira\u00e7\u00e3o que derrubou Dilma Rousseff\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Eles t\u00eam a seu favor, agora, n\u00e3o ter entrado no 8 de janeiro. Foi importante, mas n\u00e3o creio que tenha sido por convic\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas. Foi, talvez, porque o capit\u00e3o Bolsonaro n\u00e3o \u00e9 o general Castelo Branco e o Heleno n\u00e3o \u00e9 o Golbery.<\/p>\n<p>Uma imprensa movida por reais convic\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas n\u00e3o teria participado da s\u00f3rdida conspira\u00e7\u00e3o que derrubou Dilma Rousseff.<\/p>\n<p>N\u00e3o teria alimentado a Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato com manchetes di\u00e1rias, baseadas em vazamentos criminosos. Com aquele duto que jorrava d\u00f3lares, no <em>Jornal Nacional<\/em>, a <em>Globo<\/em> sustentou a farsa por mais de dois anos. Em 1964, Julio Mesquita, diretor do Estad\u00e3o, participava de reuni\u00f5es onde se preparava o golpe, est\u00e1 l\u00e1 nas mem\u00f3rias do general Olympio Mour\u00e3o Filho. No dia 2 de abril, a manchete de <em>O Globo<\/em> foi a senha para os golpistas declararem vaga a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica e legitimar a tomada do poder. Hoje est\u00e3o empenhados em desestabilizar o Lula. Mudou o qu\u00ea?<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cUma informa\u00e7\u00e3o de baixa qualidade, cheia de aditivos, alimenta uma opini\u00e3o p\u00fablica balofa, mal informada, manipul\u00e1vel\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>Lendo os principais jornais do estado e do pa\u00eds voc\u00ea, enquanto leitor e cidad\u00e3o, fica satisfeito com o material oferecido?<\/strong><\/p>\n<p>A crise atual, que atinge inclusive os grupos hegem\u00f4nicos como a <em>Globo<\/em>, tem impacto direto na qualidade do conte\u00fado que oferecem. De um lado, o aumento das mat\u00e9rias pagas (o \u201c<em>brand content<\/em>\u201d), para incrementar a receita. De outro, a redu\u00e7\u00e3o das equipes e sal\u00e1rios para conten\u00e7\u00e3o de custos. Resulta esse <em>fast food <\/em>que servem diariamente a milh\u00f5es de brasileiros.<\/p>\n<p>Uma informa\u00e7\u00e3o de baixa qualidade, cheia de aditivos, alimenta uma opini\u00e3o p\u00fablica balofa, mal informada, manipul\u00e1vel. Imagine comer hamburguer com coca-cola nas tr\u00eas refei\u00e7\u00f5es di\u00e1rias. Pior: esse <em>fast food<\/em> noticioso quase de gra\u00e7a nos grandes ve\u00edculos, engana o leitor que n\u00e3o se disp\u00f5e a pagar por uma informa\u00e7\u00e3o qualificada. De outro lado, n\u00e3o h\u00e1 uma pol\u00edtica p\u00fablica que promova a diversidade dos meios, para romper com esse modelo de oligop\u00f3lio.<\/p>\n<p><strong>Os dois grandes acontecimentos jornal\u00edsticos no Brasil em anos recentes foram, primeiro, as revela\u00e7\u00f5es da opera\u00e7\u00e3o Lava Jato e, logo depois, aquelas conversas nada republicanas que vieram \u00e0 tona com a Vaza Jato, desfazendo tudo aquilo que a imprensa propagara. Nenhuma das revela\u00e7\u00f5es teve a ver com o fazer jornal\u00edstico. Na primeira, os jornalistas comeram o prato feito do juiz Moro e dos procuradores de Curitiba. Na segunda, um hacker acessou os di\u00e1logos comprometedores. Em um e outro caso, a imprensa n\u00e3o investigou nada. O que esses dois epis\u00f3dios dizem sobre o jornalismo brasileiro hoje?<\/strong><\/p>\n<p>Revelaram tudo. Escancararam\u2026<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cSe (os jornais) tivessem publicado o que sabiam e investigado o que faltava saber em 2018, n\u00e3o teria havido o fen\u00f4meno Bolsonaro\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>Tivemos um presidente como Jair Bolsonaro, algu\u00e9m que, pouco mais de um ano antes de se eleger, recebeu somente quatro votos em uma vota\u00e7\u00e3o para presidente da C\u00e2mara onde os eleitores \u2013 seus colegas \u2013 conheciam-no muito bem devido aos 25 anos de conviv\u00eancia. A impress\u00e3o que se tem \u00e9 que faltou imprensa para explicar ao eleitor quem era Bolsonaro. Ou n\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>O <em>Estad\u00e3o<\/em> publicou, h\u00e1 poucos dias, um editorial detonando o Bolsonaro, irretoc\u00e1vel. Tinha que ter sido publicado em 2018, quando eles j\u00e1 sabiam muito bem quem \u00e9 Jair Bolsonaro. Mas naquele momento n\u00e3o interessava mostrar isso. O que interessava era tirar o PT. Agora Bolsonaro n\u00e3o interessa mais, usa ele para comprovar a sua \u201cfama de mau\u201d. Se tivessem publicado o que sabiam e investigado o que faltava saber em 2018, n\u00e3o teria havido o fen\u00f4meno Bolsonaro.<\/p>\n<p><strong>Podes falar sobre tua experi\u00eancia como editor passando por diversas tecnologias? Entendes que a tecnologia pode modificar o jornalismo? Se sim, como?<\/strong><\/p>\n<p>Comecei no tempo das linotipos e da impress\u00e3o a chumbo. Acho que agora, neste tempo da informa\u00e7\u00e3o instant\u00e2nea, o jornalismo se torna ainda mais essencial e nunca, como agora, os jornalistas tiveram tantas possibilidades \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De um lado, os novos meios de busca e difus\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es abrem uma perspectiva sem limites para o trabalho jornal\u00edstico. De outro, a imensa demanda de uma sociedade que aposta na democracia e precisa de informa\u00e7\u00f5es confi\u00e1veis para seu desenvolvimento.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cO jornalismo tem que se reconstruir, de baixo para cima, e essa \u00e9 uma tarefa dos profissionais\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O que est\u00e1 em xeque com os novos meios \u00e9 o modelo de neg\u00f3cio, que emprega jornalistas para produzir um notici\u00e1rio que atraia audi\u00eancia e, consequentemente, anunciantes. Esse modelo deu origem, mundo afora, a grandes e pequenos \u201cimp\u00e9rios\u201d por dois s\u00e9culos. \u00c9 um modelo sem sa\u00edda para o jornalismo. Dentro dele, o jornalismo est\u00e1 embretado.<\/p>\n<p>O desafio \u00e9 construir alternativas, com novas rela\u00e7\u00f5es de trabalho, para resgatar o jornalismo. O jornalismo, nesse sentido, tem que se reconstruir, de baixo para cima, e essa \u00e9 uma tarefa dos profissionais. As empresas achar\u00e3o seus caminhos, mas atender ao \u201cdireito \u00e0 informa\u00e7\u00e3o\u201d consagrado na Constitui\u00e7\u00e3o brasileira \u00e9 uma tarefa dos jornalistas. Foi um compromisso assumido pelos jornalistas quando, representados por Aud\u00e1lio Dantas, introduziram esse princ\u00edpio na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988.<\/p>\n<p><strong>Assim como h\u00e1 planos de fomento para a agricultura, porque n\u00e3o h\u00e1 financiamento \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es jornal\u00edsticas,<br \/>de interesse social?<\/strong><\/p>\n<p>A informa\u00e7\u00e3o como um direito, o jornalismo como um servi\u00e7o p\u00fablico, s\u00e3o conceitos que devem orientar uma pol\u00edtica de enfrentamento \u00e0 desinforma\u00e7\u00e3o no Brasil. Assim como h\u00e1 planos de fomento para segmentos da agricultura, da ind\u00fastria ou de servi\u00e7os, porque n\u00e3o h\u00e1 financiamento \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es jornal\u00edsticas, de interesse social, para estimular o surgimento de grupos que desenvolvem projetos inovadores, pequenos, m\u00e9dios, ve\u00edculos de alcance local e regional, para diversos p\u00fablicos?<\/p>\n<p>O Brasil foi o primeiro pa\u00eds (n\u00e3o sei se ainda \u00e9 o \u00fanico) a incluir na sua Constitui\u00e7\u00e3o o \u201cdireito \u00e0 informa\u00e7\u00e3o\u201d, al\u00e9m dos direitos tradicionais de liberdade de imprensa e liberdade de express\u00e3o.<\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 um \u201cdeserto de not\u00edcias\u201d: metade dos munic\u00edpios n\u00e3o t\u00eam sequer um ve\u00edculo de informa\u00e7\u00e3o local. Sim, j\u00e1 existe uma importante \u201cimprensa alternativa\u201d como nos anos da ditadura: <em>ICL<\/em>, <em>P\u00fablica<\/em>, <em>247<\/em>, <em>F\u00f3rum<\/em>, <em>DCM<\/em>\u2026 aqui em Porto Alegre, o <em>Sul 21<\/em>, o <em>Matinal<\/em>, este <strong><em>Brasil de Fato<\/em><\/strong>, o <em>J\u00e1<\/em> e outros que podem ser a vanguarda de uma grande mudan\u00e7a, se tiverem apoio dos leitores, mas tamb\u00e9m de pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cUm dos orgulhos que tenho \u00e9 ter garantido a continuidade de A Plat\u00e9ia, que est\u00e1 viva at\u00e9 hoje\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>Por que tu, Kenny Braga e Danilo Ucha, compraram o jornal A Plat\u00e9ia, de Livramento? Como foi editar um di\u00e1rio na fronteira?<\/strong><\/p>\n<p>Essa hist\u00f3ria de Livramento foi uma inven\u00e7\u00e3o minha. Em 1980, junto com tr\u00eas colegas da Coojornal \u2013 Osmar Trindade, Rafael Guimar\u00e3es e Rosvita Saueressig \u2013, estava sendo processado pela Lei de Seguran\u00e7a Nacional por ter publicado relat\u00f3rios do Ex\u00e9rcito sobre guerrilhas acontecidas dez anos atr\u00e1s e nunca noticiadas. Fomos condenados e presos, havia um ambiente opressivo em Porto Alegre. Decidi sair da cidade.<\/p>\n<p>Recebi um convite da Gazeta Mercantil para abrir a sucursal em Salvador, estava com tudo acertado, at\u00e9 com a passagem. Fui a Livramento me despedir da minha m\u00e3e e acabei arrendando o jornal <em>A Plat\u00e9ia<\/em>. Eu tinha come\u00e7ado l\u00e1 aos 17 anos. Fui num jantar comemorativo do jornal e, no meio da festa, o dono me disse que ia fechar o jornal. Tinha posto \u00e0 venda e n\u00e3o aparecera comprador.<\/p>\n<p>Liguei pro Ucha, o Kenny e o Jorge Escosteguy, meus amigos, tamb\u00e9m santanenses, e arrendamos o jornal, completamente falido, confinado num galp\u00e3o. O trato era um rod\u00edzio entre os s\u00f3cios na dire\u00e7\u00e3o do jornal em Livramento, mas nenhum deles quis voltar para a cidade. O Escosteguy, que estava em S\u00e3o Paulo, tentou, mas teve problemas familiares e teve que voltar. Quatro anos depois, com o jornal circulando diariamente, com 7 mil exemplares, sa\u00edmos do neg\u00f3cio. Mas um dos orgulhos que tenho \u00e9 ter garantido a continuidade de A Plat\u00e9ia, que est\u00e1 viva at\u00e9 hoje, a caminho dos 90 anos. Ali eu fiz uma p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Ali tive certeza da fundamental import\u00e2ncia do jornalismo local.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cUma reportagem na qual n\u00e3o se apontou um erro, deu ensejo a um processo e uma condena\u00e7\u00e3o por dano moral. O sil\u00eancio foi a senha. S\u00e3o mais de 20 anos de ass\u00e9dio\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>H\u00e1 mais de 10 anos existe um processo correndo contra o jornal <em>J\u00e1<\/em> e seu editor. Para relembrar: qual a origem do processo e como est\u00e1 essa situa\u00e7\u00e3o hoje?<\/strong><\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"682\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/elmar-2-2048x1365-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/elmar-2-300x200.jpg 300w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/elmar-2-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/elmar-2-768x512.jpg 768w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/elmar-2-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/elmar-2-2048x1365-1.jpg 2048w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/elmar-2-750x536.jpg 750w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/elmar-2-1140x815.jpg 1140w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/elmar-2-600x400.jpg 600w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption>Jornalista mostra exemplar com mat\u00e9ria que resultou em processo \u2013 Foto: Rafa Dotti<\/figcaption><\/figure>\n<p>O caso do <em>J\u00e1<\/em>, guardadas as devidas dist\u00e2ncias, \u00e9 uma repeti\u00e7\u00e3o do que aconteceu com a Coojornal. Um projeto jornal\u00edstico com uma proposta nova, sem os compromissos dos grupos dominantes. Enquanto ele era mambembe, com poucos leitores, tudo bem. Quando ele se firma, ganha leitores e come\u00e7a a publicar coisas inc\u00f4modas, ainda que verdadeiras, ent\u00e3o precisaram dar um jeito nele.<\/p>\n<p>O <em>J\u00e1 <\/em>come\u00e7ou em 1985 numa sala alugada no centro de Porto Alegre, em 1998 estava num pr\u00e9dio de dois andares no Bom Fim, editando um jornal de reportagens, quatro jornais de bairro, editando livros, com mais de 40 pessoas envolvidas em seus projetos. Uma reportagem na qual n\u00e3o se apontou um erro, deu ensejo a um processo e uma condena\u00e7\u00e3o por dano moral. O sil\u00eancio foi a senha. S\u00e3o mais de 20 anos de ass\u00e9dio.<\/p>\n<p>No momento estou \u00e0s voltas com advogado, para contestar um pedido de fal\u00eancia do <em>J\u00e1<\/em>, num processo que ultrapassa todos os limites do absurdo: um empres\u00e1rio que matou a mulher e queimou o cad\u00e1ver, processou o jornal por uma reportagem do Renan Antunes de Oliveira. Ele n\u00e3o apontou erros na mat\u00e9ria, mas alegou que ela, na internet, prejudicava sua reabilita\u00e7\u00e3o social. Ganhou uma indeniza\u00e7\u00e3o por dano moral, hoje quase R$ 100 mil em valores atualizados. J\u00e1 obteve o bloqueio das contas da editora e agora pediu a fal\u00eancia para garantir a indeniza\u00e7\u00e3o. Ainda estamos aqui com o <a href=\"http:\/\/www.jornalja.com.br\/\" data-type=\"link\" data-id=\"www.jornalja.com.br\">site<\/a>, nosso jornal on line, e a editora <em>J\u00e1<\/em> que faz tr\u00eas ou quatro lan\u00e7amentos por ano. Aguardamos o desfecho de uma a\u00e7\u00e3o que corre h\u00e1 mais de 10 anos na Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), contra o Estado brasileiro que n\u00e3o garantiu nosso direito de defesa e \u00e0 liberdade de imprensa em v\u00e1rios processos. Aos 81 anos, n\u00e3o sei se verei o desfecho.<\/p>\n<p><strong>Tens algum novo projeto?<\/strong><\/p>\n<p>Restabelecer o projeto do jornal <em>J\u00e1 <\/em>e transferi-lo para um grupo de jornalistas que desenvolva uma nova rela\u00e7\u00e3o de trabalho, sem patr\u00f5es e com apoio do leitor. Na Alemanha, inclusive, h\u00e1 uma cooperativa de leitores cujo objetivo \u00e9 sustentar uma m\u00eddia independente voltada aos assuntos locais.<\/p>\n<figure><a href=\"https:\/\/api.whatsapp.com\/send?phone=5551998132796&amp;text=Quero%20receber%20not%C3%ADcias%20do%20Brasil%20de%20Fato%20RS\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"92\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/image-2-12.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/image-2-300x35.png 300w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/image-2-768x88.png 768w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/image-2-750x92.png 750w, https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/image-2-12.png 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\"><\/a><\/figure>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/thiago-avila-itamaraty-diz-que-trabalha-para-liberacao-de-brasileiro-preso-em-israel\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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