{"id":23392,"date":"2025-04-22T18:32:29","date_gmt":"2025-04-22T21:32:29","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/por-tras-do-colorido-nas-prateleiras-do-supermercado\/"},"modified":"2025-04-22T18:32:29","modified_gmt":"2025-04-22T21:32:29","slug":"por-tras-do-colorido-nas-prateleiras-do-supermercado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/por-tras-do-colorido-nas-prateleiras-do-supermercado\/","title":{"rendered":"Por tr\u00e1s do colorido nas prateleiras do supermercado"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"400\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Supermercado.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Supermercado.jpg 600w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Supermercado-300x200.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Supermercado-272x182.jpg 272w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\"><figcaption>Foto: Revista Mercados<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Poucos lugares s\u00e3o t\u00e3o coloridos quanto um supermercado. Cada corredor cont\u00e9m prateleiras e mais prateleiras, sobre as quais embalagens de todos os tons disputam a aten\u00e7\u00e3o do nosso olhar, mesclando palavras e figuras criadas minuciosamente pelos departamentos de marketing para otimizar sua \u201catratibilidade\u201d, aumentando a chance de venda.<\/p>\n<p>Confesso que, sempre que fico algum tempo distante desses centros de mercadorias reluzentes, me sinto um tanto chocada ao entrar em seus ambientes sobrecarregados de est\u00edmulos visuais. Para refletir a partir do que me incomoda neles, convido voc\u00ea a vir comigo em uma experi\u00eancia imaginativa, que nos levar\u00e1 mentalmente para espa\u00e7os totalmente d\u00edspares.<\/p>\n<p>Para come\u00e7ar, imagine que voc\u00ea est\u00e1 em um desses \u201ctemplos do consumo\u201d, com pacotes e pacotes de produtos comest\u00edveis, um mais colorido que o outro, e todos gritando pra voc\u00ea: \u201cme leva, eu sou diferente dos outros!\u201d Slogans divertidos, fotos tentadoras, refer\u00eancias a uma natureza id\u00edlica, promessas de boa forma ou de sa\u00fade turbinada se revezam em superf\u00edcies plastificadas que provavelmente nunca mais ser\u00e3o usadas, mas que n\u00e3o \u201cmorrer\u00e3o\u201d t\u00e3o j\u00e1, dada sua n\u00e3o biodegradabilidade.<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/apoia.se\/outraspalavras\" aria-label=\"MAT\u00c9RIA-2\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/MATERIA-2-9.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/MATERIA-2-9.png 681w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-2-300x75.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 681px) 100vw, 681px\" width=\"681\" height=\"171\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>Imaginou? Agora, vamos fazer um corte radical neste \u201cfilme\u201d, e voc\u00ea vai imaginar que est\u00e1 em meio a uma imensa monocultura de soja, com fronteiras a perder de vista. Para qualquer dire\u00e7\u00e3o em que olhar, s\u00f3 o que voc\u00ea ver\u00e1 \u00e9 apenas um \u00fanico tom de verde, t\u00edpico da esp\u00e9cie que est\u00e1 sendo cultivada ali \u2013 esp\u00e9cie cuja semente provavelmente foi modificada em um laborat\u00f3rio de biotecnologia, atrav\u00e9s de um processo de transgenia, para que, ao brotar, a planta siga determinados padr\u00f5es desejados pelos seus <em>des-envolvedores<\/em>. Sentiu o baque do contraste?<\/p>\n<p>A pergunta que n\u00e3o quer calar \u00e9: considerando que estamos em um dos pa\u00edses mais biodiversos do mundo, qual a rela\u00e7\u00e3o entre a acachapante uniformidade de uma imensa \u00e1rea de cultivo, como a que voc\u00ea visualizou, e a Disneyl\u00e2ndia multicolorida t\u00e3o caracter\u00edstica dos espa\u00e7os em que os alimentos industrializados s\u00e3o vendidos?<\/p>\n<p>Para responder a essa quest\u00e3o, precisamos entender de qu\u00ea esses produtos comest\u00edveis s\u00e3o realmente feitos. Ali\u00e1s, chamar muitos deles de comida seria uma injusti\u00e7a imensa com nossa hist\u00f3ria alimentar, baseada em mil\u00eanios e mil\u00eanios de relacionamento com a agrobiodiversidade presente nos diferentes ecossistemas ao redor do planeta. Gosto de cham\u00e1-los de \u201ccoisas engol\u00edveis\u201d. Mas, nomenclaturas pessoais \u00e0 parte, o importante mesmo \u00e9 analisar a composi\u00e7\u00e3o de alguns desses preparados.<\/p>\n<p>Deu vontade de um chips crocante? \u00c9 algo relativamente simples de fazer \u2013 basta ter um determinado tipo de alimento (como um tub\u00e9rculo ou cereal), \u00f3leo e sal, n\u00e3o \u00e9? Pois ERA. O processo de <a href=\"https:\/\/exame.com\/negocios\/conheca-os-segredos-por-tras-da-producao-do-doritos\/\"><u>fabrica\u00e7\u00e3o de um salgadinho bem popular<\/u><\/a>, por exemplo, envolve dezenas de etapas, nas quais seu ingrediente b\u00e1sico, milho transg\u00eanico, \u00e9 transformado em uma pasta, que ser\u00e1 submetida a v\u00e1rias m\u00e1quinas sofisticadas, at\u00e9 adquirir a visualidade do produto conhecido por milh\u00f5es de pessoas. E \u00e9 s\u00f3 nesse momento que os petiscos recebem, ainda, a aplica\u00e7\u00e3o de uma f\u00f3rmula secreta de aditivos para conferir a eles um dos tr\u00eas sabores t\u00edpicos da marca \u2013 o que d\u00e1 margem para que muita coisa que n\u00e3o \u00e9 bem o que entendemos por comida entre em cena. Ali\u00e1s, boa sorte para quem quiser descobrir o tal segredo laboratorial.<\/p>\n<p>Mas passemos \u00e0 algo mais corriqueiro\u2026 Segundo um <a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/economia\/fritas-com-acucar-saiba-como-sao-feitas-as-batatinhas-do-mcdonalds-12264721#:~:text=Segundo%20a%20empresa%2C%20a%20prepara%C3%A7%C3%A3o,que%20as%20batatinhas%20fiquem%20doces.\"><u>documento divulgado pela pr\u00f3pria empresa em 2012<\/u><\/a>, as batatas fritas presentes na rede de fast food mais popular do mundo \u2013 que supostamente tamb\u00e9m deveriam conter apenas o tub\u00e9rculo, \u00f3leo e sal \u2013 levam, ainda, \u00e1cido c\u00edtrico (conservante), dimetilpolisiloxane (antiespumante), \u00e1cido s\u00f3dio pirofosfato (real\u00e7ador da cor) e dextrose (a\u00e7\u00facar derivado do milho). Fica a\u00ed a dica pra voc\u00ea \u201cfazer em casa\u201d, se quiser se aventurar no mundo dos preparados culin\u00e1rios com sobrenomes qu\u00edmicos.<\/p>\n<h3><strong>Que tal uns peda\u00e7os de frango?<\/strong><\/h3>\n<p>Na \u00e9poca em que a tal rede de fast food chegou ao Brasil, eu e minha irm\u00e3 enchemos o saco do meu pai para nos levar para conhecer e experimentar a t\u00e3o alardeada novidade. Embora ele e minha m\u00e3e sempre tivessem adotado uma postura cr\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o ao sistema econ\u00f4mico globalizado, no qual alguns pa\u00edses do Norte planet\u00e1rio imp\u00f5em padr\u00f5es de consumo ao restante da popula\u00e7\u00e3o, ele acabou cedendo, e l\u00e1 fomos n\u00f3s.<\/p>\n<p>Quando chegou nossa hora de fazer o pedido, e todas as pessoas da fila estavam caprichando para falar os nomes gringos dos sandu\u00edches oferecidos pela (mal) dita lanchonete, meu pai resmungou assim para a atendente: \u201cme v\u00ea a\u00ed os peda\u00e7os de frango\u201d. A minha cara e a cara da minha irm\u00e3 ferveram de vergonha porque hav\u00edamos implorado a ele, durante dias e dias, para que pedisse e comprasse os tais dos nuggets, novidade absoluta naqueles tempos.<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/armasdacritica.boitempoeditorial.com.br\/\" aria-label=\"ADC30_Engels_anuncio_OP\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/ADC30_Engels_anuncio_OP-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/ADC30_Engels_anuncio_OP-1.jpg 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/ADC30_Engels_anuncio_OP-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>Se a inten\u00e7\u00e3o dele foi desconstruir a marquetagem da empresa \u2013 baseada em nomes sofisticados e quase impronunci\u00e1veis por crian\u00e7as brasileiras, como n\u00f3s \u00e9ramos na \u00e9poca -, acabou dando certo. Entendemos que aquilo era algo do tipo \u201cgalinha frita\u201d e n\u00e3o merecia muita baba\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que n\u00e3o \u00e9ramos uma fam\u00edlia muito ligada ao card\u00e1pio carn\u00edvoro (ou mesmo frangu\u00edvoro). Nunca mais fomos com ele a essa rede de lanchonetes, mas ela segue a\u00ed, firmona ap\u00f3s v\u00e1rias d\u00e9cadas e incont\u00e1veis pol\u00eamicas. E ainda vende os tais peda\u00e7os de frango empanados.<\/p>\n<p>S\u00f3 que n\u00e3o \u00e9 bem assim\u2026 E \u00e9 a\u00ed que a est\u00f3ria d\u00e1 uma cambalhota. Na realidade, os tais nuggets at\u00e9 cont\u00eam a carne dos simp\u00e1ticos galin\u00e1ceos, que <a href=\"https:\/\/mercyforanimals.org.br\/blog\/como-sao-feitos-nuggets\/\"><u>sofrem horrores<\/u><\/a> antes de virarem petiscos, mas est\u00e3o muito longe de ser o que meu pai achava que eram. Cada quitutezinho desses, al\u00e9m de ter carne e pele mo\u00eddos, \u00e9 um aglomerado de ingredientes dos mais diversos (como farinha, gordura vegetal, temperos, emulsificantes e estabilizantes), que passa por um processamento complexo, formando uma massa uniforme, cortada no formato padr\u00e3o, de modo a sugerir algo mais ou menos como o que minha fam\u00edlia conhecia como frango \u00e0 passarinho. Por sinal, v\u00eddeos que mostram essa fabrica\u00e7\u00e3o s\u00e3o bastante indigestos.<\/p>\n<p>Da mesma maneira que observamos as batatas e os nuggets, podemos olhar para boa parte dos outros produtos aliment\u00edcios industrializados vendidos nos supermercados e \u2013 batata! \u2013 vamos encontrar ingredientes e formas de produ\u00e7\u00e3o muito diferentes do que entendemos, respectivamente, por comida e por cozinhar. Eles fazem parte do tipo de \u201ccoisa engol\u00edvel\u201d que o <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/saude\/pt-br\/assuntos\/saude-brasil\/publicacoes-para-promocao-a-saude\/guia_alimentar_populacao_brasileira_2ed.pdf\/view\"><u>Guia Alimentar para a Popula\u00e7\u00e3o Brasileira<\/u><\/a> denomina como ultraprocessados, aconselhando as pessoas a ficarem o mais longe que puderem de seus pacotes. S\u00e3o exemplos dessa categoria os biscoitos recheados, os cereais do tipo corn flakes, os n\u00e9ctares de caixinha, os macarr\u00f5es instant\u00e2neos, as salsichas e os refrigerantes, entre outras figurinhas carimbadas que povoam as propagandas.<\/p>\n<h3><strong>Ilus\u00e3o dos sentidos<\/strong><\/h3>\n<p>Entretanto, se os ingredientes s\u00e3o distintos do que usamos em nossas cozinhas para preparar as refei\u00e7\u00f5es, eles s\u00e3o muito semelhantes entre si. A base de quase todos \u00e9 soja, milho, trigo, cana-de-a\u00e7\u00facar, sal e um bom punhado de aditivos artificiais, como aromatizantes, conservantes, emulsificantes, estabilizantes, ado\u00e7antes sint\u00e9ticos etc\u2026 tudo isso \u00e9 misturado em diferentes composi\u00e7\u00f5es e propor\u00e7\u00f5es, de maneira cuidadosamente calculada para aumentar a palatabilidade, ou seja, a sensa\u00e7\u00e3o de prazer ao ingerir, <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/direitosouprivilegios\/big-techs-e-big-foods-um-casamento-lucrativo\/\"><u>viciando<\/u><\/a> nossos c\u00e9rebros.<\/p>\n<p>Tendo o sabor, o aroma, a consist\u00eancia, a textura idealizados, \u00e9 o momento de escolher um formato, uma embalagem, um nome, buscando passar a ideia de que \u00e9 algo original \u2013 e ter mais chance de concorrer com os outros produtos que foram elaborados a partir do mesmo tipo de procedimento fake, especialidade das Big Foods.<\/p>\n<p>\u00c9 por essa maquiagem toda que achamos que h\u00e1 uma variedade imensa de op\u00e7\u00f5es de alimentos nos corredores supermercadeiros, quando, na verdade, as esp\u00e9cies comest\u00edveis presentes nas incont\u00e1veis prateleiras s\u00e3o sempre uma meia d\u00fazia, com acr\u00e9scimo de mais meia d\u00fazia, em alguns casos. Para ter no\u00e7\u00e3o do empobrecimento alimentar que isso significa, vale lembrar que, s\u00f3 no territ\u00f3rio brasileiro, h\u00e1 a estimativa da exist\u00eancia de cerca de <a href=\"https:\/\/www.repositorio.ufal.br\/handle\/riufal\/7208#:~:text=Estima-se%20que%20no%20Brasil%20existam%20cerca%20de,do%20que%20se%20pode%20utilizar%20como%20alimento.\"><u>3 mil plantas comest\u00edveis<\/u><\/a>, sendo que centenas ou at\u00e9 milhares de variedades de algumas delas, como o milho e a ab\u00f3bora, j\u00e1 foram cultivadas e consumidas.<\/p>\n<p>Claro que, no mundo do capital, nada \u00e9 por acaso. N\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia o fato das esp\u00e9cies vegetais que batem ponto na composi\u00e7\u00e3o da maioria dos alimentos industrializados serem justamente as que povoam nossas monoculturas Brasil afora. Por sinal, monoculturas estas que seguem avan\u00e7ando no mesmo ritmo em que avan\u00e7a o consumo de ultraprocessados e em que perdemos elementos de nossa Cultura Alimentar, formada pelos saberes acumulados, durante mil\u00eanios, por povos que nos constitu\u00edram como Estado Nacional, conceito em si j\u00e1 bem problem\u00e1tico.<\/p>\n<p>Aqui, deixo um exerc\u00edcio para quem se sentir tentado a cair no mundo ilus\u00f3rio criado pela ind\u00fastria aliment\u00edcia: olhe o r\u00f3tulo dos produtos e, ao perceber os ingredientes de sempre, lembre-se dos <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/terraeantropoceno\/fogo-e-motoserra-no-cerrado\/\"><u>nossos biomas sendo destru\u00eddos<\/u><\/a> pelo avan\u00e7o do Ogroneg\u00f3cio \u2013 a engrenagem venenosa que produz e fornece essas esp\u00e9cies vegetais aos seus fabricantes. Provavelmente, eles n\u00e3o v\u00e3o parecer assim, t\u00e3o apetitosos. Ou assista o document\u00e1rio <a href=\"https:\/\/https\/\/comidadementira.org.br\"><em><u>Comida de Mentira<\/u><\/em><\/a>, produzido pelo Coletivo Bodoque, ACT Promo\u00e7\u00e3o da Sa\u00fade, O Joio e o Trigo e IDEC \u2013 Instituto de Defesa do Consumidor. Um tapa com classe na cara de pau corporativa.<\/p>\n<h3><strong>(Des)colorindo o alimento<\/strong><\/h3>\n<p>Voltemos a nos imaginar em outros cen\u00e1rios. Visualize-se em uma floresta tropical. Perceba a variedade de seres vivos que convivem dentro dela. Com certeza, voc\u00ea ser\u00e1 capaz de encontrar cores das mais diversas, seja no alto dos galhos ou entre as folhas ca\u00eddas no solo. Mesmo se observar os tons de verde das folhas, poder\u00e1 ver que formam uma paleta extremamente ampla e que a uniformidade passa longe desse ambiente.<\/p>\n<p>Ao imaginar a reuni\u00e3o dos frutos comest\u00edveis nativos que se espalham pelos nossos ecossistemas, n\u00f3s teremos uma verdadeira obra de arte multicolorida. Dos alaranjados do pequi e do jeriv\u00e1 at\u00e9 o roxo amarronzado do a\u00e7a\u00ed e da jabuticaba, passando pelo verde vivo do cambuci e pelo amarelo vibrante da cagaita, n\u00e3o h\u00e1 como n\u00e3o se encantar com o arco-\u00edris que a Pachamama espalhou em nossos territ\u00f3rios de Abya Yala.<\/p>\n<p>Mas esse tesouro biol\u00f3gico \u2013 bem como os saberes culturais acumulados a partir do contato com suas j\u00f3ias comest\u00edveis \u2013 est\u00e1 sendo exterminado em v\u00e1rias regi\u00f5es do pa\u00eds. A <a href=\"https:\/\/agro.estadao.com.br\/economia\/brasil-pode-aumentar-area-de-soja-em-30-milhoes-de-hectares-sem-desmatamento-afirma-ceo-da-slc-agricola\"><u>voracidade da elite agr\u00e1ria<\/u><\/a> e das empresas do setor agroalimentar parece aumentar ano a ano, e os seguidos recordes na produ\u00e7\u00e3o de commodities, como a soja e o milho, mostram que cada vez mais terras est\u00e3o sendo totalmente alteradas em suas caracter\u00edsticas naturais, para virarem desertos verdes, nos quais um s\u00f3 tipo de planta pode existir. \u00c9 o cen\u00e1rio perfeito para um cataclismo ambiental \u2013 nos colocando, ao mesmo tempo, como agentes desencadeadores do caos clim\u00e1tico e v\u00edtimas absolutamente vulner\u00e1veis aos seus efeitos.<\/p>\n<p>E o tingimento monocrom\u00e1tico, que esse modelo de<em> des-envolvimento<\/em> tem aplicado \u00e0s paisagens, tamb\u00e9m se estende ao nosso circuito de preparos alimentares. Mesmo aquelas pessoas que ainda t\u00eam acesso ao tomate e \u00e0 alface que comp\u00f5em os PFs de todo dia, j\u00e1 perderam uma imensa gama de cores de suas refei\u00e7\u00f5es, pois comem o mesmo tipo de tomate e o mesmo tipo de alface rotineiramente, quando eles poderiam ser de muitas outras variedades, com muitas outras cores, das tantas que os seres humanos j\u00e1 cultivaram dessas esp\u00e9cies.<\/p>\n<p>E o mesmo pode se dizer da batata frita ou do pur\u00ea de batata, sempre feitos com a variedade que ficou conhecida como inglesa (embora as batatas sejam um alimento origin\u00e1rio da Am\u00e9rica e tenham viajado para a Europa ap\u00f3s o processo de coloniza\u00e7\u00e3o que sofremos). Muita gente nem sabe que existem vers\u00f5es laranjas, roxas, avermelhadas e brancas de tub\u00e9rculos que poderiam ser usados para preparar essas receitas.<\/p>\n<p>A realidade nos mostra que, nos espa\u00e7os urbanos, onde residem cerca de 85% da popula\u00e7\u00e3o brasileira (\u00edndice que sobe para 93% no Sudeste), o que os mercados vendem como alimentos in natura \u00e9 relativo a uma parte \u00ednfima da biodiversidade comest\u00edvel dos nossos territ\u00f3rios. E que boa parte do povo n\u00e3o tem acesso nem a essa pequena variedade, j\u00e1 que frutas, legumes e verduras (os tais FLVs) n\u00e3o est\u00e3o dispon\u00edveis em muitas quebradas ou costumam ter pre\u00e7os inacess\u00edveis aos bolsos da classe trabalhadora precarizada. S\u00e3o os chamados <a href=\"https:\/\/pp.nexojornal.com.br\/glossario\/2022\/05\/02\/ambientes-alimentares-dos-sistemas-as-escolhas\"><u>desertos e p\u00e2ntanos alimentares<\/u><\/a>, que andam de m\u00e3os dadas com os desertos verdes do ambiente rural que j\u00e1 mencionamos.<\/p>\n<p>Em compensa\u00e7\u00e3o, \u00e9 cada vez mais raro encontrar um local nas cidades, por mais perif\u00e9rico que seja, que n\u00e3o tenha um cantinho em que se vende, a valores bem mais em conta, p\u00e3o de forma industrializado, salsicha, biscoito, salgadinhos do tipo chips\u2026 e tudo o que parece muito colorido e variado, mas que costuma ser feito de algum tipo de massaroca monocrom\u00e1tica como as que descrevemos \u2013 oriunda diretamente das planta\u00e7\u00f5es de commodities que descolorem nossos ecossistemas, \u2013 com o acr\u00e9scimo de aditivos dos mais diversos.<\/p>\n<h3><strong>A cor proibida<\/strong><\/h3>\n<p>Se, por terem sempre os mesmos ingredientes, os produtos gerados pela ind\u00fastria aliment\u00edcia ir\u00e3o parecer repetitivos em rela\u00e7\u00e3o aos seus sabores, \u00e9 s\u00f3 tascar aromatizantes artificiais na hora de fabric\u00e1-los, que \u00e9 poss\u00edvel criar gostos que imitam quase tudo o que existe. Est\u00e3o a\u00ed os sabores <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/reel\/DHYtrB9OmBE\/?igsh=azV1MXU0MWs0Z2Z4\"><u>cuscuz com calabresa<\/u><\/a> do lamen instant\u00e2neo e cupua\u00e7u do refresco em p\u00f3 para n\u00e3o deixarmos d\u00favidas no ar. Caso o problema seja a falta de colora\u00e7\u00e3o, \u00e9 a vez dos corantes entrarem em cena. Vale combinar os que existem dispon\u00edveis no mercado, muitos deles totalmente sint\u00e9ticos, para obter algod\u00e3o doce azul, refrigerante cor de rosa, carne vermelha\u2026<\/p>\n<p>\u00d4pa, carne vermelha? \u00c9 isso mesmo, at\u00e9 produtos que deveriam ser feitos com carne bovina ou su\u00edna \u2013 e ter sua colora\u00e7\u00e3o avermelhada t\u00edpica -, por vezes, s\u00e3o feitos com boa quantidade de soja, temperada com um toque de um dos corantes dispon\u00edveis na pra\u00e7a. No embalo do aumento do veganismo no mundo, empresas que querem surfar nas ondas das tend\u00eancias de consumo v\u00eam lan\u00e7ando \u201ccoisas engol\u00edveis\u201d das mais variadas, com a promessa de tornar poss\u00edvel a obten\u00e7\u00e3o do prazer de comer carne\u2026 sem comer carne!<\/p>\n<p>Como algu\u00e9m que n\u00e3o come carne, nem sente vontade de comer, essa ideia me parece bem inapetec\u00edvel, mas sei que muita gente adepta do vegetarianismo tem larica de comer receitas que normalmente s\u00e3o feitas com o sacrif\u00edcio de animais. O fato \u00e9 que, independentemente de ideologias ou prefer\u00eancias gustativas, sabemos bem que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel cada ser humano do planeta devorar prote\u00edna animal, sobretudo carne vermelha, como se fosse um\/a estadunidense m\u00e9dio\/a. Reduzir \u00e9 preciso, e ponto.<\/p>\n<p>Mas, se o vermelho da carne bovina vem se tornando <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/DIluHvSJa9G\/?img_index=2&amp;igsh=bzN0MzA3N3VmNmhq\"><u>proibitivo na atual situa\u00e7\u00e3o de colapso clim\u00e1tico<\/u><\/a>, n\u00e3o \u00e9 se entupindo de vers\u00f5es veganas de embutidos ultraprocessados que vamos construir sociedades mais resilientes, tanto do ponto de vista ambiental como do ponto de vista econ\u00f4mico ou o de sa\u00fade p\u00fablica. Somente transformando substancialmente o atual modelo agropecu\u00e1rio, associado \u00e0s ind\u00fastrias aliment\u00edcias e farmac\u00eauticas na domina\u00e7\u00e3o de nossos territ\u00f3rios, nossos pratos e nossos corpos, \u00e9 que teremos alguma possibilidade de reverter o processo de \u201cdegringola\u00e7\u00e3o\u201d civilizacional que nos atropela. Ser\u00e1 que estamos agindo para isso?<\/p>\n<p>No come\u00e7o deste ano, a Ag\u00eancia de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA) anunciou que, a partir de 2027, o uso do corante vermelho eritrosina, um dos mais usados pelas empresas de \u201ccoisas engol\u00edveis\u201d, <a href=\"https:\/\/site.cff.org.br\/noticia\/Noticias-gerais\/16\/01\/2025\/agencia-dos-eua-proibe-corante-vermelho-eritrosina-em-alimentos-e-medicamento#:~:text=Ag%C3%AAncia%20dos%20EUA%20pro%C3%ADbe%20corante%20vermelho%20eritrosina%20em%20alimentos%20e%20medicamento&amp;text=A%20FDA%20(Ag%C3%AAncia%20de%20Alimentos,3%2C%20em%20alimentos%20e%20medicamentos.\"><u>ser\u00e1 proibido no territ\u00f3rio do pa\u00eds<\/u><\/a>. Os motivos s\u00e3o os que j\u00e1 sab\u00edamos h\u00e1 d\u00e9cadas: essa subst\u00e2ncia \u00e9 potencialmente cancer\u00edgena e j\u00e1 havia sido alvo de restri\u00e7\u00e3o na UE e no Jap\u00e3o. Agora, quando n\u00e3o d\u00e1 mais para disfar\u00e7ar esse \u201cpotencial\u201d \u2013 e j\u00e1 existem outras op\u00e7\u00f5es no mercado -, as autoridades respons\u00e1veis por ditar o que deve e o que n\u00e3o deve nos envenenar v\u00eam a p\u00fablico soar as trombetas contra sua presen\u00e7a nos alimentos e suplementos.<\/p>\n<p>\u00c9 algo a celebrar? Pode at\u00e9 parecer que sim, mas \u00e9 s\u00f3 uma casquinha em uma cebola que tem camadas e mais camadas de manipula\u00e7\u00e3o mercadol\u00f3gica. Al\u00e9m disso, aqui no nosso pa\u00eds, a Anvisa (Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria) ainda n\u00e3o acompanhou esse movimento de sua \u201ccolega\u201d gringa e \u00e9 prov\u00e1vel que sejamos novamente alvos do lixo t\u00f3xico decorrente da circula\u00e7\u00e3o seletiva das subst\u00e2ncias no globo terrestre, processo bem definido \u2013 <a href=\"https:\/\/editoraelefante.com.br\/produto\/agrotoxicos-e-colonialismo-quimico\/?srsltid=AfmBOooNa1Auex_XZm8Xb5jW1gQ-Lj9a58wzV98IbohIY47qs85XKFle\"><u>em seu livro mais recente<\/u><\/a> \u2013 pela pesquisadora Larissa Bombardi como Colonialismo Qu\u00edmico.<\/p>\n<h3><strong>A disputa pelo vermelho<\/strong><\/h3>\n<p>N\u00e3o deixa de ser curioso que, na sociedade capitalista, a \u201ccor do morango\u201d seja um fetiche no mundo da alimenta\u00e7\u00e3o. Balas, jujubas, pirulitos, sorvetes, gelatinas, pudins, sucos, geleias\u2026 as crian\u00e7as (de todas as idades) t\u00eam bastante inclina\u00e7\u00e3o a preferir guloseimas de tonalidade vermelha, que costumam ser associadas \u00e0 alegria e ao sabor doce ou azedinho-doce.<\/p>\n<p>\u00c9 algo que pode estar associado \u00e0 busca ancestral por um alimento cal\u00f3rico, que veio da \u00e9poca em que \u00e9ramos ca\u00e7adores-coletores e frutinhos vermelhos maduros eram tesouros energ\u00e9ticos dentro de uma realidade em que gast\u00e1vamos muitas calorias para prover nossa alimenta\u00e7\u00e3o. O fato \u00e9 que as ind\u00fastrias produtoras de ultraprocessados sempre abusaram dessa \u201csuscetibilidade\u201d humana, ou mesmo a estimularam, de modo a extrair lucros polpudos do bolso dos\/as consumidores\/as desses produtos e enriquecer proficuamente seus grandes acionistas.<\/p>\n<p>S\u00f3 que a cor vermelha tamb\u00e9m representa algo diametralmente oposto ao fen\u00f4meno gustativo que leva ao enchimento dos bolsos capetalistas. Ela \u00e9 s\u00edmbolo do sangue derramado pelos povos que a sanha imperialista por dinheiro vem atacando ao longo de s\u00e9culos. Ela est\u00e1 nas bandeiras levantadas por pessoas que lutaram e seguem lutando por justi\u00e7a social, por um modo de viver mais solid\u00e1rio, pelo fim da explora\u00e7\u00e3o da vida, seja de que tipo de vida for. Ela est\u00e1 no urucum usado pelas popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas para pintar suas peles j\u00e1 avermelhadas e praticar seus rituais ancestrais para que o c\u00e9u n\u00e3o desabe e a terra n\u00e3o fique est\u00e9ril.<\/p>\n<p>E o m\u00eas de abril \u00e9 especialmente simb\u00f3lico para quem tanto resiste ao exterm\u00ednio f\u00edsico e espiritual perpetuado pelas elites nacionais e internacionais, em sua alian\u00e7a despudorada pelo ac\u00famulo de riquezas e privil\u00e9gios. \u00c9 um per\u00edodo de mobiliza\u00e7\u00e3o pelos direitos campesinos e ind\u00edgenas, sobretudo pelo direito \u00e0 terra e ao territ\u00f3rio. \u00c9 o <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2025\/04\/03\/abril-vermelho-mst-prepara-ocupacoes-e-doacoes-de-alimentos-em-denuncia-ao-agro-e-por-reforma-agraria\/\"><u>Abril Vermelho<\/u><\/a>, que ganha vida em todos os cantos do pa\u00eds, empunhando a mensagem da Reforma Agr\u00e1ria aos quatro ventos. \u00c9 o tempo do <a href=\"https:\/\/apiboficial.org\/historicoatl\/\"><u>Acampamento Terra Livre<\/u><\/a>, reunindo milhares de ind\u00edgenas em Bras\u00edlia, para reivindicar sua exist\u00eancia plena enquanto povos origin\u00e1rios destes nossos solos sagrados \u2013 que tanto v\u00eam sendo sugados por homens brancos de classes hist\u00f3rica e economicamente privilegiadas.<\/p>\n<p>Durante este per\u00edodo, o Movimento dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Rurais Sem Terra, impulsionado pelo <a href=\"https:\/\/www.oxfam.org.br\/blog\/dia-de-luta-das-trabalhadoras-e-trabalhadores-do-campo\/#:~:text=17%20de%20abril%3A%20Dia%20de%20Luta%20dos%20Trabalhadores%20e%20Trabalhadoras%20do%20Campo,-17%2F04%2F2025\"><u>Dia Internacional da Solidariedade e A\u00e7\u00e3o para as Comunidades Camponesas<\/u><\/a>, que tamb\u00e9m \u00e9 o Dia Nacional da Luta pela Reforma Agr\u00e1ria, promove uma agenda consistente, que inclui marchas, protestos, doa\u00e7\u00f5es de alimentos e as t\u00e3o necess\u00e1rias ocupa\u00e7\u00f5es, que s\u00e3o instrumentos leg\u00edtimos de press\u00e3o sobre os governantes e, tamb\u00e9m, gritos de alerta \u00e0 popula\u00e7\u00e3o para a realidade de exclus\u00e3o no campo. Ocupando \u00e1reas dominadas por v\u00e1rios ogronegoceiros \u2013 que mastigam os elementos vitais dos ecossistemas e cospem seus baga\u00e7os venenosos sobre nossas cabe\u00e7as -, os povos campesinos denunciam viola\u00e7\u00f5es inaceit\u00e1veis contra a natureza e a sociedade.<\/p>\n<p>\u00c9 que a data acima referida, o dia 17 de abril, faz refer\u00eancia aos 29 anos do que ficou conhecido como <em>Massacre dos Caraj\u00e1s<\/em>, uma chacina cometida pela pol\u00edcia militar do estado do Par\u00e1, ceifando a vida de 21 integrantes de acampamentos Sem Terra que protestavam por seus direitos. O sangue de quem tombou na luta serviu de impulso para que o m\u00eas se tornasse o tradicional Abril Vermelho, e fosse reverenciado ano ap\u00f3s ano, como s\u00edmbolo da coragem de tantos outros lutadores e lutadoras assassinados\/as, ao redor do mundo, em fun\u00e7\u00e3o da gan\u00e2ncia da minoria que se julga senhora do universo.<\/p>\n<p>Este ano, o lema <em>Direitos dos Camponeses, Soberania Alimentar e Fim da Guerra e do Genoc\u00eddio<\/em>, adotado pela Via Campesina, maior movimento de agricultores\/as do planeta, faz uma refer\u00eancia \u00e0 situa\u00e7\u00e3o inaceit\u00e1vel em Gaza. Tamb\u00e9m encorpa a luta para que a <a href=\"https:\/\/digitallibrary.un.org\/record\/1650694?ln=fr&amp;v=pdf\"><u>UNDROP<\/u><\/a> \u2013 Declara\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre os Direitos dos Camponeses -, promulgada em 2018 ap\u00f3s d\u00e9cadas de mobiliza\u00e7\u00e3o ativista, seja finalmente implementada.<\/p>\n<p>Aqui, onde quem \u00e9 ind\u00edgena, preto\/a, pobre e perif\u00e9rico\/a tamb\u00e9m costuma ser alvo de genocidas, o lema escolhido para 2025 foi <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/DIjjwy6RHmr\/?igsh=MWJlZ2E4bXY5MTdyNQ==\"><em><u>Ocupar para o Brasil alimentar<\/u><\/em><\/a>, refor\u00e7ando o elo indissol\u00favel entre o acesso \u00e0 terra e o combate \u00e0 fome, inclusive para frear a especula\u00e7\u00e3o e o boicote que v\u00eam insuflando a carestia dos alimentos.<\/p>\n<h3><strong>Liberdade multicolorida<\/strong><\/h3>\n<p>Se a voz dos povos origin\u00e1rios segue ecoando, mesmo frente aos mais de 500 anos de opress\u00e3o, \u00e9 porque, atrav\u00e9s dela, a natureza \u00e9 quem est\u00e1 falando, cantando e gritando. Transformando a capital do pa\u00eds em uma comunidade multicor, milhares de ind\u00edgenas reivindicam muito mais do que a demarca\u00e7\u00e3o de seus territ\u00f3rios ancestrais. Eles e elas dedicam seus esfor\u00e7os e seus saberes para tentar impedir que a esp\u00e9cie humana, por meio da minoria \u00e1vida por dinheiro que a domina, provoque a pr\u00f3pria extin\u00e7\u00e3o, levando outras milhares de formas de vida consigo nesse processo de ecosuic\u00eddio. E, no centro desse debate, est\u00e1 tanto a disputa pelo nosso imagin\u00e1rio como pela materialidade que nos constitui.<\/p>\n<p>\u00c9 compreendendo essa dupla chave, que afirmamos que \u00e9 hora de libertar o vermelho \u2013 que foi cooptado pelos fabricantes de corantes artificiais e pelas identidades visuais trai\u00e7oeiras das redes de fast food transnacionais, como a que eu mencionei no come\u00e7o deste texto \u2013 das garras do capital. Tamb\u00e9m \u00e9 hora de libertar as bandeiras e os pigmentos dos povos dos campos, das \u00e1guas e das florestas da persegui\u00e7\u00e3o massiva e cont\u00ednua por parte de quem empunha espingardas e correntes de arrasto, ao inv\u00e9s de enxadas e marac\u00e1s.<\/p>\n<p>Queremos e vamos lutar pelos avermelhados naturais das pitangas, das grumixamas, das pimentas e vinagreiras. E de tantas outras esp\u00e9cies de vegetais e de animais que est\u00e3o sucumbindo frente ao espraiamento sem limites dos monotons do Ogroneg\u00f3cio. Os avermelhados do que \u00e9 e do que n\u00e3o \u00e9 comest\u00edvel. Das araras e borboletas. Basta de esquizofrenia em rela\u00e7\u00e3o a essa cor t\u00e3o vibrante que, de um lado, vem sendo instrumento de manipula\u00e7\u00e3o marqueteira para nos impor um padr\u00e3o alimentar artificial e insustent\u00e1vel e, de outro, vem sendo criminalizada por sua identifica\u00e7\u00e3o com as lutas sociais e pol\u00edticas dos povos oprimidos pelo sistema baseado na maximiza\u00e7\u00e3o dos lucros.<\/p>\n<p>Mas queremos muito mais. Queremos todos os tons do arco-\u00edris! E os queremos muito al\u00e9m das pautas da diversidade de g\u00eanero (tamb\u00e9m essenciais na busca de uma sociedade plural) ou mesmo da esfera humana. Somos parte de uma teia de (ainda) incont\u00e1veis tipos de seres viventes, cujas rela\u00e7\u00f5es complexas nem sempre vislumbramos, mas que podemos intuir, se observarmos com os olhos bem abertos \u2013 ou bem fechados -, como fazem ancestralmente povos nativos de todas as regi\u00f5es planet\u00e1rias.<\/p>\n<p>Se sentirmos seu pulsar, mesmo sob camadas de asfalto ou de solos envenenados e compactados por m\u00e1quinas agr\u00edcolas. Se abrirmos espa\u00e7o para que nossos pratos sejam novamente ocupados pelas cores das ab\u00f3boras, dos milhos crioulos, das batatas roxas e das ju\u00e7aras, que repovoar\u00edam, ent\u00e3o, as ro\u00e7as campesinas e ind\u00edgenas. Se nos negarmos a aceitar o dom\u00ednio corporativo sobre nossas terras, mercados e estruturas pol\u00edticas, e exigirmos Reforma Agr\u00e1ria Popular Agroecol\u00f3gica e Demarca\u00e7\u00e3o de Territ\u00f3rios Ind\u00edgenas J\u00e1!<\/p>\n<p>A luta n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, mas \u00e9 o \u00fanico caminho. Deixar que a ditadura de mercado siga (des)colorindo artificialmente nossas vidas, seja com suas uniformiza\u00e7\u00f5es biotecnol\u00f3gicas ou seja com suas tintas sint\u00e9ticas t\u00f3xicas, \u00e9 aceitar um futuro de empobrecimento e sofrimento atrozes, que pode obrigar a nossa Gaia a nos expulsar da \u00fanica Casa Comum em que nossas vidas s\u00e3o poss\u00edveis. \u00c9 por isso que as vozes urbanas, camponesas, florestais, ribeirinhas, pantaneiras, cai\u00e7aras e oriundas de todos os espa\u00e7os em que a vida ainda vibra precisam se unir em cantos regenerativos e em gritos de protesto, neste e em todos os meses do ano. Como diz a <a href=\"https:\/\/apiboficial.org\/2025\/04\/11\/a-resposta-somos-nos-vinte-anos-de-apib-e-a-emergencia-climatica\/\"><u>Carta Final do Acampamento Terra Livre 2025<\/u><\/a>: \u201cNossa luta \u00e9 pela Vida, pela M\u00e3e Terra, pela Constitui\u00e7\u00e3o e pelo futuro de toda a humanidade. A resposta somos n\u00f3s\u201d.<\/p>\n<p>Viva o Abril Vermelho Campesino e Ind\u00edgena! Viva a liberdade multicolorida!<\/p>\n<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, seja nosso apoiador e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico: <strong><a href=\"https:\/\/apoia.se\/outraspalavras\">apoia.se\/outraspalavras<\/a><\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/terraeantropoceno\/por-tras-do-colorido-nas-prateleiras-do-supermercado\/\">Por tr\u00e1s do colorido nas prateleiras do supermercado<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/brasil-e-japao-anunciam-inicio-de-negociacoes-para-acordo-comercial-do-mercosul-japao\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura! Poucos lugares s\u00e3o t\u00e3o coloridos quanto um supermercado. 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