{"id":23396,"date":"2025-04-22T18:42:40","date_gmt":"2025-04-22T21:42:40","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/glauber-heroismo-e-refundacao-da-politica\/"},"modified":"2025-04-22T18:42:40","modified_gmt":"2025-04-22T21:42:40","slug":"glauber-heroismo-e-refundacao-da-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/glauber-heroismo-e-refundacao-da-politica\/","title":{"rendered":"Glauber, hero\u00edsmo e refunda\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"748\" height=\"413\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/250422-GlauberB.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/250422-GlauberB.jpg 748w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/250422-GlauberB-300x166.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/250422-GlauberB-700x387.jpg 700w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/250422-GlauberB-219x121.jpg 219w\" sizes=\"(max-width: 748px) 100vw, 748px\"><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Por <strong>Luiz Eduardo Soares<\/strong><\/p>\n<p>T\u00edtulo original:<br \/><strong>Glauber contra a mercantiliza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica<\/strong><\/p>\n<p>No ano 2000, publiquei um artigo no site <a href=\"http:\/\/no.com.br\/\"><em>No<\/em><\/a>, sob o t\u00edtulo \u201cPerd\u00e3o e esquecimento: a cultura pol\u00edtica brasileira e as li\u00e7\u00f5es da \u00c1frica do Sul\u201d<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-brasileira\/glauber-braga-heroismo-e-refundacao-da-politica\/#sdendnote1sym\"><sup>i<\/sup><\/a>, onde procurava mostrar que a subordina\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica ao mercado corro\u00eda a credibilidade das institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas e poderia abrir, perigosamente, espa\u00e7o para a reemerg\u00eancia do autoritarismo, se for\u00e7as conservadoras identificassem a profundidade da rejei\u00e7\u00e3o popular \u00e0 cultura pol\u00edtica liberal e oferecessem um <em>blend<\/em> ideol\u00f3gico de ordem e mudan\u00e7a. O artigo afirmava a negligenciada import\u00e2ncia do hero\u00edsmo \u2013 entendido como o sacrif\u00edcio dos pr\u00f3prios interesses, quando n\u00e3o da pr\u00f3pria vida \u2013, como fonte de valor e legitimidade da pol\u00edtica, talvez a \u00fanica for\u00e7a moral e afetiva capaz de reverter a hegemonia degradante da mercantiliza\u00e7\u00e3o generalizada.<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/apoia.se\/outraspalavras\" aria-label=\"MAT\u00c9RIA-GERAL\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/MATERIA-GERAL-14.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/MATERIA-GERAL-14.png 681w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-GERAL-300x75.png 300w\" sizes=\"(max-width: 681px) 100vw, 681px\" width=\"681\" height=\"171\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>Reproduzo, aqui, sinteticamente, o artigo escrito h\u00e1 25 anos, em homenagem ao gesto de um pol\u00edtico que honra o instituto da representa\u00e7\u00e3o. Durante dez dias, o deputado federal Glauber Braga, amea\u00e7ado de perder o mandato por se opor ao jogo das emendas secretas, esteve em greve de fome. Decidiu p\u00f4r sua vida em risco em resposta ao absurdo. Sua decis\u00e3o causou surpresa e perplexidade. Hav\u00edamos esquecido que pol\u00edtica n\u00e3o se restringe \u00e0 l\u00f3gica liberal, utilit\u00e1ria e individualista. Para evocar virtudes her\u00f3icas na pol\u00edtica, n\u00e3o \u00e9 preciso recorrer \u00e0s armas. Basta apagar a fronteira entre privado e p\u00fablico, n\u00e3o para tornar a sociedade <em>voyeur<\/em> de intimidades narc\u00edsicas, mas para entregar o pr\u00f3prio corpo \u00e0 luta pol\u00edtica coletiva.<\/p>\n<p>O gesto de Glauber foi vitorioso, ao menos provisoriamente. N\u00e3o apenas porque ampliou o arco de solidariedade, chamou \u00e0 responsabilidade tantos que antes se mostravam indiferentes, envolveu partidos e entidades da sociedade civil, jogou luz sobre a quest\u00e3o de fundo (as emendas secretas como fontes de reprodu\u00e7\u00e3o de mandatos parlamentares) e obteve um recuo \u2013 embora parcial \u2013 da C\u00e2mara. Tamb\u00e9m porque alargou nosso repert\u00f3rio pol\u00edtico, mobilizou nossa mem\u00f3ria e tocou o nervo do descr\u00e9dito popular, matriz da reemerg\u00eancia do fascismo: a mercantiliza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica. O heroismo de Glauber trouxe de volta \u00e0 cena a problem\u00e1tica do valor \u2013 aquele que n\u00e3o se troca, n\u00e3o \u00e9 monetiz\u00e1vel, aquele que \u00e9 incomensur\u00e1vel e se chamava (lembram-se?) dignidade. Valor que nos situa ante o limite de nossa humanidade, revelando que a pol\u00edtica, em sua grandeza hist\u00f3rica, diz respeito \u00e0 vida e \u00e0 morte.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>O descr\u00e9dito das institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, particularmente das institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, \u00e9 crescente, no Brasil. H\u00e1 tr\u00eas fatores, a meu ju\u00edzo, que, combinados, explicam essa perda de credibilidade: o fracasso econ\u00f4mico \u2013 duas d\u00e9cadas de estagna\u00e7\u00e3o e a incapacidade de oferecer condi\u00e7\u00f5es de vida dignas \u00e0 maioria da popula\u00e7\u00e3o \u2013; a magnitude da corrup\u00e7\u00e3o e sua visibilidade, associadas \u00e0 impunidade; a redu\u00e7\u00e3o da vida pol\u00edtica a simples extens\u00e3o do mercado. Os dois primeiros fatores t\u00eam sido bastante discutidos. O terceiro me parece insuficientemente reconhecido e problematizado. Esse artigo pretende ajudar a tir\u00e1-lo do limbo e coloc\u00e1-lo na agenda do debate p\u00fablico.<\/p>\n<h3><strong>A Pol\u00edtica como Extens\u00e3o do Mercado<\/strong><\/h3>\n<p>As teorias liberais pensam a pol\u00edtica como um mercado, o que significa dizer: como a extens\u00e3o da economia de mercado e da l\u00f3gica que orienta suas pr\u00e1ticas. Em outras palavras, a pol\u00edtica, para os liberais, \u00e9 um campo de competi\u00e7\u00f5es entre atores que buscam maximizar vantagens, benef\u00edcios e acesso a mecanismos que permitam a reprodu\u00e7\u00e3o em escala ampliada de seu poder. Esses mecanismos s\u00e3o, essencialmente, aqueles que acionam decis\u00f5es, por parte dos governos e dos cidad\u00e3os. Voto \u00e9 o nome da principal decis\u00e3o dos cidad\u00e3os, desse ponto de vista. Os nomes das principais decis\u00f5es governamentais s\u00e3o: \u201cforma\u00e7\u00e3o das alian\u00e7as dirigentes\u201d e \u201cpol\u00edticas p\u00fablicas\u201d, que incluem as suas pr\u00e9-condi\u00e7\u00f5es, entre elas a aprova\u00e7\u00e3o de legisla\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, a confec\u00e7\u00e3o do or\u00e7amento e a composi\u00e7\u00e3o das m\u00e1quinas estatais.<\/p>\n<p>Os embara\u00e7os te\u00f3ricos come\u00e7am na identifica\u00e7\u00e3o dos atores: s\u00e3o indiv\u00edduos ou ag\u00eancias coletivas, como os partidos? A distin\u00e7\u00e3o \u00e9 de grande relev\u00e2ncia, porque uma coisa \u00e9 agir como o personagem individual ego\u00edsta e maximizador da microeconomia; outra coisa bem diferente \u00e9 sacrificar o interesse individual em nome do c\u00e1lculo que visa privilegiar a realiza\u00e7\u00e3o das finalidades de um ente coletivo, mesmo que o c\u00e1lculo do ente coletivo siga a mesma l\u00f3gica econ\u00f4mica da redu\u00e7\u00e3o de custos e amplia\u00e7\u00e3o de benef\u00edcios \u2013o que muda \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o do que sejam custos e do que sejam benef\u00edcios. A dor de cabe\u00e7a dos liberais surge quando essas defini\u00e7\u00f5es variam e se contradizem, nos dois casos. Quer dizer, quando, por exemplo, a vantagem para o partido corresponde a perdas graves para indiv\u00edduos que o comp\u00f5em.<\/p>\n<p>Os liberais ortodoxos, que levam ao extremo suas cren\u00e7as individualistas, afirmam que o que importa mesmo \u00e9 o indiv\u00edduo (e seu interesse), at\u00e9 porque os atores coletivos s\u00e3o feitos de indiv\u00edduos e se movem de acordo com decis\u00f5es dos indiv\u00edduos, os quais se organizam para isso e implantam sistemas decis\u00f3rios de tipos diferentes, cuja \u00fanica peculiaridade \u00e9 reproduzir em escala min\u00fascula as solu\u00e7\u00f5es para a pergunta \u201ccomo tomar decis\u00f5es?\u201d, respondida, em escala mais ampla, pelas sociedades. Os problemas, portanto, seriam sempre os mesmos e poderiam ser resumidos em uma \u00fanica f\u00f3rmula: os indiv\u00edduos buscar\u00e3o formas de proteger seus pr\u00f3prios interesses, mesmo que isso signifique a redefini\u00e7\u00e3o do interesse da coletividade de que fazem parte; para que essa redefini\u00e7\u00e3o seja alcan\u00e7ada, os indiv\u00edduos se empenhar\u00e3o em negocia\u00e7\u00f5es, trocas, barganhas e acordos, os quais se apoiar\u00e3o, sempre e necessariamente, portanto, nos interesses ego\u00edstas dos atores individuais. Uma ilustra\u00e7\u00e3o seriam as manipula\u00e7\u00f5es de conven\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias: os liberais radicais consideram natural a substitui\u00e7\u00e3o do interesse partid\u00e1rio pela agrega\u00e7\u00e3o contingente de interesses individuais, resultante da disputa no mercado de votos dos convencionais. Outras teorias liberais, que eu considero mais sofisticadas, reconhecem a diferen\u00e7a irredut\u00edvel entre os atores individuais e os coletivos. Essas concep\u00e7\u00f5es atribuem muita import\u00e2ncia \u00e0s institui\u00e7\u00f5es, cujas regras de funcionamento determinariam os comportamentos dos atores individuais e condicionariam as principais din\u00e2micas pol\u00edticas.<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/www.scientiaestudia.org.br\/\" aria-label=\"bannerOutras\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/bannerOutras-2.gif\" alt=\"\" width=\"2162\" height=\"268\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>De todo modo, a despeito de suas diverg\u00eancias, os liberais compartilham alguns dogmas e muito ceticismo: n\u00e3o cre\u00eam em Rousseau, ironizam a vontade geral, desqualificam a relev\u00e2ncia das ideologias e consideram irracional a experi\u00eancia subjetiva da identifica\u00e7\u00e3o coletiva.<\/p>\n<h3><strong>A Cultura Pol\u00edtica Liberal: dom\u00ednio sem hegemonia<\/strong><\/h3>\n<p>Tudo isso fica muito mais complicado e interessante quando deixa de ser mera especula\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e se transforma em modelo de a\u00e7\u00e3o e em normas pr\u00e1ticas de organiza\u00e7\u00e3o da realidade. Ou seja, as teorias e os credos liberais revelam-se mat\u00e9ria de grande import\u00e2ncia quando deixam de ser instrumentos de interpreta\u00e7\u00e3o da realidade e se convertem em cultura pol\u00edtica, isto \u00e9, em um conjunto de valores pelos quais se avaliam comportamentos pr\u00f3prios e alheios, e em padr\u00f5es de orienta\u00e7\u00e3o para as a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. No Brasil, desde a promulga\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o, em 1988, somos regidos pela institucionalidade pol\u00edtica democr\u00e1tica, que \u00e9 compat\u00edvel com modelos anal\u00edticos e pr\u00e1ticos de inspira\u00e7\u00e3o liberal, ainda que possa transcend\u00ea-los, porque a democracia n\u00e3o se confunde com o liberalismo. E desde que a transi\u00e7\u00e3o para a democracia se completou, a cultura pol\u00edtica liberal tem exercido forte dom\u00ednio, no Brasil, sem ter conquistado, todavia, a hegemonia, o que gera contradi\u00e7\u00f5es e desgastes profundos na pr\u00f3pria imagem da atividade pol\u00edtica. Explico meu argumento: nossa vida pol\u00edtica, desde a reconquista da normalidade democr\u00e1tica, passou a ser regida pela introje\u00e7\u00e3o e mimetiza\u00e7\u00e3o dos valores e da l\u00f3gica do mercado. A grande maioria dos pol\u00edticos t\u00eam sido caracterizada pelo seguinte perfil: s\u00e3o indiv\u00edduos que atuam como profissionais, dedicados \u00e0 pr\u00f3pria carreira, maximizando votos e acesso a postos de decis\u00e3o legislativa e executiva, reduzindo riscos, custos de decis\u00e3o e faixas de tens\u00e3o, o que os condena \u00e0 previsibilidade do centro. Eles n\u00e3o cedem ao fisiologismo; eles s\u00e3o a pr\u00f3pria \u201cfisiologia\u201d da pol\u00edtica enquanto mercado; s\u00e3o negociantes de votos e oportunidades \u2013 podem se entregar \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o ou opor-se a ela, segundo as conveni\u00eancias do jogo, quer dizer, do mercado pol\u00edtico. Consequentemente, boa parte dos pol\u00edticos, enquanto observadores da cena em que se inscrevem, pensam a pol\u00edtica com a mesma r\u00e9gua e o mesmo compasso, isto \u00e9, com os crit\u00e9rios do mercado: o movimento de cada ator se avalia de acordo com a adequa\u00e7\u00e3o entre sua a\u00e7\u00e3o e o fim que deseja atingir. O c\u00e1lculo ganha autonomia e passa a ser valorizado por sua efici\u00eancia, pelo ajuste interno entre meios e fins. Deixa de haver espa\u00e7o para a reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre a natureza dos fins e a qualidade dos meios. Em resumo, impera a cultura pol\u00edtica utilit\u00e1ria e liberal.<\/p>\n<p>Por outro lado, segundo o que v\u00eam demonstrando muitas pesquisas antropol\u00f3gicas e sociol\u00f3gicas, os valores predominantes na sociedade brasileira ainda privilegiam o interesse p\u00fablico e os benef\u00edcios coletivos que resultam das iniciativas privadas \u2013 e n\u00e3o por conta da cren\u00e7a de que os v\u00edcios privados produzam, automaticamente, virtudes p\u00fablicas, como querem os liberais, desde Mendeville, mas por conta da convic\u00e7\u00e3o de que a virtude p\u00fablica pode ser um fim em si mesmo, mobilizador do interesse individual e capaz de se sobrepor ao ego\u00edsmo, ou seja, aos v\u00edcios privados. Nossa sociedade ainda se anima a agir de acordo com sentimentos e imagens do mundo que continuam a ser greg\u00e1rios, igualit\u00e1rios e universalistas. Est\u00e1 muito distante, felizmente, do cinismo individualista e do ceticismo generalizado, ainda que essas percep\u00e7\u00f5es tenham se difundido bastante, entre n\u00f3s. A sociedade brasileira \u00e9 <em>seletivamente<\/em> c\u00e9tica. Tem se tornado crescentemente c\u00e9tica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vida pol\u00edtica. A predomin\u00e2ncia do credo e da pr\u00e1tica liberal, no meio pol\u00edtico, isto \u00e9, o dom\u00ednio da cultura pol\u00edtica liberal, em um contexto cultural mais amplo dominado por valores anti-individualistas, tem contribu\u00eddo para a expans\u00e3o desse ceticismo, que subtrai legitimidade na exata medida em que retira confiabilidade das institui\u00e7\u00f5es. Insisto: a repulsa popular n\u00e3o diz respeito apenas aos corruptos, aos atos de corrup\u00e7\u00e3o ou \u00e0 possibilidade de comprometimentos mais generalizados; diz respeito ao tratamento pr\u00e1tico e moral da pol\u00edtica como mercado.<\/p>\n<h3><strong>Usos e Abusos da Resist\u00eancia Popular ao Liberalismo Pol\u00edtico<\/strong><\/h3>\n<p>Considero o liberalismo pol\u00edtico prefer\u00edvel a qualquer forma de autoritarismo, por mais que seja cr\u00edtico em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua capacidade de servir \u00e0 causa democr\u00e1tica. Por isso, \u00e9 com preocupa\u00e7\u00e3o que antecipo riscos autorit\u00e1rios, no horizonte, se for\u00e7as conservadoras identificarem a profundidade da rejei\u00e7\u00e3o popular \u00e0 cultura pol\u00edtica liberal e oferecerem um <em>blend<\/em> ideol\u00f3gico de ordem e mudan\u00e7a, composto pelos seguintes ingredientes: o fim da impunidade, um distributivismo democratizante ousado e algum tipo de restri\u00e7\u00e3o \u00e0 liberdade pol\u00edtica, que viria provavelmente mascarada por ret\u00f3rica nacionalista e xen\u00f3foba. Para bloquear essa hip\u00f3tese obscurantista, seria necess\u00e1rio que os int\u00e9rpretes da rejei\u00e7\u00e3o popular \u00e0 cultura pol\u00edtica liberal fossem atores pol\u00edticos democr\u00e1ticos, com capacidade para traduzir de modo criativo e positivo a demanda por ordem, por estabilidade e seguran\u00e7a, e por penaliza\u00e7\u00e3o rigorosa dos criminosos de todos os tipos e classes. O redistributivismo ousado teria de vir acompanhado de uma defesa n\u00e3o-autorit\u00e1ria da ordem p\u00fablica e n\u00e3o revanchista da justi\u00e7a, porque a barb\u00e1rie policial s\u00f3 concorre para a dissemina\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia e o encarceramento n\u00e3o pode ser mais, no in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, a resposta generalizada \u00e0s transgress\u00f5es.<\/p>\n<p>Sendo, portanto, necess\u00e1rio interpretar a rejei\u00e7\u00e3o popular \u00e0 cultura pol\u00edtica liberal \u2013 o que jamais deveria ser confundido com rejei\u00e7\u00e3o da institucionalidade democr\u00e1tica \u2013, proponho aos leitores uma reflex\u00e3o.<\/p>\n<h3><strong>A Pol\u00edtica Al\u00e9m do Mercado: Hero\u00edsmo e Legitimidade<\/strong><\/h3>\n<p>Em 1954, ocorreu o epis\u00f3dio talvez mais marcante de nossa hist\u00f3ria recente e, certamente, o mais extraordin\u00e1rio. O presidente Get\u00falio Vargas estava desgastado, enfraquecido, crescentemente isolado, acuado por acusa\u00e7\u00f5es de corrup\u00e7\u00e3o e envolvimento criminoso e prestes a sofrer a derrota final, que o desmoralizaria, afastando-o do Pal\u00e1cio do Catete. Um gesto reverteu esse quadro, aparentemente irrevers\u00edvel. Na noite do dia 23 de agosto, as oposi\u00e7\u00f5es, articuladas com as For\u00e7as Armadas, impuseram a Get\u00falio seu afastamento da presid\u00eancia. Nenhuma for\u00e7a pol\u00edtica expressiva, nenhum partido, nenhum personagem importante do drama, nem o pr\u00f3prio presidente, considerou a hip\u00f3tese de que a popula\u00e7\u00e3o se mobilizasse em massa, nas ruas, contra o afastamento, tais a profundidade e a extens\u00e3o do desgaste. Get\u00falio estava descartado. Era carta fora do baralho. Recolheu-se para a \u00faltima noite, no Pal\u00e1cio. Como um estrategista incompar\u00e1vel, imaginou uma sa\u00edda. A \u00fanica que lhe devolveria a dignidade, o apoio e o prest\u00edgio perdidos, mesmo que a um pre\u00e7o alt\u00edssimo: a impossibilidade de beneficiar-se de sua pr\u00f3pria conquista. Na madrugada do dia 24, Vargas suicidou-se com um tiro no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim que a not\u00edcia come\u00e7ou a circular, as ruas da capital foram tomadas por multid\u00f5es incalcul\u00e1veis. Jornais de oposi\u00e7\u00e3o foram empastelados. A popula\u00e7\u00e3o encontrou formas surpreendentes de manifesta\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea de sua solidariedade ao l\u00edder morto. As massas tomaram a cidade: um mar de gente saudando o velho caudilho, chorando sua perda, homenageando sua mem\u00f3ria e investindo sua c\u00f3lera contra os detratores, aqueles que, horas antes, celebravam a vit\u00f3ria e se preparavam para assumir o poder. Get\u00falio Vargas adiou por 10 anos a festa da UDN.<\/p>\n<p>Que mist\u00e9rio h\u00e1 nesse gesto extremo? Por que o suic\u00eddio foi capaz de virar a hist\u00f3ria de cabe\u00e7a para baixo? Que propriedades h\u00e1 nesse lance tr\u00e1gico e magistral? Por que a grandeza do ato e a intensidade dos efeitos s\u00e3o t\u00e3o evidentes e, ao mesmo tempo, t\u00e3o enigm\u00e1ticas e dif\u00edceis de explicar? Que pensador pol\u00edtico liberal poderia formular uma equa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica para o \u201cc\u00e1lculo\u201d de Vargas? Qual o pre\u00e7o da vida e da morte? Em que jogo racional, em que mercado, a morte do jogador se inclui como custo volunt\u00e1rio da maximiza\u00e7\u00e3o de um poder evanescente? Entenda-se por evanescente o poder cuja natureza \u00e9 oferecer-se a quem se disp\u00f5e a perd\u00ea-lo, \u00e9 dar-se <em>como<\/em> e <em>enquanto<\/em> <strong>perda,<\/strong> conforme ficar\u00e1 claro adiante.<\/p>\n<h3><strong>Um Tiro no Cora\u00e7\u00e3o: o sacrif\u00edcio como virtude pol\u00edtica<\/strong><\/h3>\n<p>Em certo sentido, a pergunta j\u00e1 cont\u00e9m a resposta: a grandeza desse gesto, que lhe infunde valor e o diferencia radicalmente de todos os demais gestos rotineiros da pol\u00edtica, est\u00e1 em sua gratuidade, na disposi\u00e7\u00e3o de ren\u00fancia que revela. Mas essa \u00e9 uma ren\u00fancia por tudo distinta daquela outra, formal, que apenas afastaria o presidente de suas fun\u00e7\u00f5es, ou melhor, que apenas separaria o indiv\u00edduo do cargo que ele ocupa. Essa ren\u00fancia envolve o sacrif\u00edcio da pr\u00f3pria vida. Por isso, \u00e9 uma ren\u00fancia unilateral e absoluta, que n\u00e3o espera nada em troca, que n\u00e3o exige qualquer pagamento e n\u00e3o representa uma rea\u00e7\u00e3o a qualquer determina\u00e7\u00e3o externa. \u00c9 volunt\u00e1ria, decidida somente por quem renuncia, e, por defini\u00e7\u00e3o, anula seu autor, quer dizer, elimina a exist\u00eancia daquele que seria benefici\u00e1rio do reconhecimento ou de alguma outra forma de reciprocidade. N\u00e3o h\u00e1 nega\u00e7\u00e3o mais radical da individualidade. Seu recept\u00e1culo material, o corpo, tem sua vida f\u00edsica destru\u00edda. A esfera privada \u00e9 oferecida em sacrif\u00edcio \u00e0 l\u00f3gica da esfera p\u00fablica, subordinando-se \u00e0s suas necessidades, que, por essa raz\u00e3o, resumem-se aos interesses da coletividade, depuradas de quaisquer resqu\u00edcios de autointeresse. Esta \u00e9 a l\u00f3gica simb\u00f3lica que confere ao presidente morto a estatura do her\u00f3i.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 hero\u00edsmo sem algum grau de sacrif\u00edcio, vale dizer, de risco excessivo para o autointeresse, em nome do respeito ao outro, ou aos outros. E n\u00e3o h\u00e1 vitalidade nas m\u00e1quinas institucionais sem alguma dose de hero\u00edsmo, nem que seja atrav\u00e9s da representa\u00e7\u00e3o, na atualiza\u00e7\u00e3o ritual do sacrif\u00edcio pret\u00e9rito, sintetizado no mito de origem da comunidade. N\u00e3o h\u00e1 cimento que mantenha juntas as partes do edif\u00edcio pol\u00edtico-institucional, sem a celebra\u00e7\u00e3o do hero\u00edsmo, que, no fundo, \u00e9 apenas a descri\u00e7\u00e3o mitol\u00f3gica da dimens\u00e3o altru\u00edsta do ser humano, \u00e9 apenas a nota\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica que sinaliza a exist\u00eancia de um plano coletivo (que \u00c9mile Durkheim chamaria transcendente) como condi\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia da sociabilidade. Vargas presenteou sua gera\u00e7\u00e3o com essa d\u00e1diva incompar\u00e1vel: o gesto supremo de doa\u00e7\u00e3o, entrega e sacrif\u00edcio do ator p\u00fablico. Ele saiu da vida e entrou para a hist\u00f3ria, em um duplo sentido: (a) morrendo por suas cren\u00e7as, reafirmando os compromissos com o povo brasileiro, a que servia, o que o tornava digno de figurar, com destaque, na mem\u00f3ria coletiva; (b) tornando poss\u00edvel <em>a hist\u00f3ria<\/em>, quer dizer, o relato que uma sociedade se conta a si pr\u00f3pria a respeito de si mesma, com algum senso de estar falando de um objeto dotado de sentido, unidade, integridade, valor ou, numa palavra, identidade.<\/p>\n<p>O apoio, as homenagens espont\u00e2neas, a solidariedade foram o reconhecimento, o pagamento moral, o contra-dom, a d\u00e1diva da sociedade \u2013 d\u00e1diva atra\u00edda pelo v\u00e1cuo criado pelo sacrif\u00edcio do presidente (como talvez dissessem Marcel Mauss e L\u00e9vi-Strauss).<\/p>\n<h3><strong>A Trag\u00e9dia Instituinte<\/strong><\/h3>\n<p>Um fen\u00f4meno tamb\u00e9m extraordin\u00e1rio, uma trag\u00e9dia pol\u00edtica de grande significado para a hist\u00f3ria recente do Brasil foi a morte do quase-presidente Tancredo Neves. Durante sua carreira, Tancredo foi muito conhecido em todo o pa\u00eds e bastante popular em seu estado, Minas Gerais, que chegou a governar. Mas nunca foi um pol\u00edtico carism\u00e1tico. Era um homem inteligente, refinado, um art\u00edfice prodigioso de alian\u00e7as, que enxergava muito mais longe que a m\u00e9dia de seus pares. No entanto, carism\u00e1tico nunca foi. Nem pretendeu ser. N\u00e3o fazia o g\u00eanero. Nunca foi um grande orador em manifesta\u00e7\u00f5es de massa, ainda que fosse um mestre na ret\u00f3rica pol\u00edtica. Era antes o <em>spalla<\/em> sofisticado do quarteto de cordas, do que o metal colorido e abundante da sinf\u00f4nica. Tudo mudou em seu mart\u00edrio. Quando a doen\u00e7a o alcan\u00e7ou na v\u00e9spera da posse, projetou-se sobre seu destino o arqu\u00e9tipo crist\u00e3o do calv\u00e1rio. Os longos dias de sua agonia passaram a ser lidos pelo filtro da cultura popular brasileira como a expia\u00e7\u00e3o sacrificial de nossos pecados, de nossas faltas, das injusti\u00e7as de que somos c\u00famplices. O passado ditatorial e a hist\u00f3ria brasileira de opress\u00e3o eram exorcizados pelo sofrimento vivido pelo presidente. Definhando, submetendo-se \u00e0 sequ\u00eancia de cirurgias, Tancredo era o exemplo de obstina\u00e7\u00e3o e paci\u00eancia, em seu hero\u00edsmo modesto e pertinaz. Assim como Cristo, Tancredo resistia \u00e0 morte, mas, paradoxalmente, experimentava sua imin\u00eancia com resigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Get\u00falio Vargas submeteu seu destino \u00e0 virtude pol\u00edtica \u2013 domesticando a fortuna com suas m\u00e3os, literalmente, Get\u00falio transformou a virtude em fortuna. Tancredo Neves sucumbiu \u00e0 trag\u00e9dia \u2013 a fortuna imp\u00f4s seu poder superior a toda virtude humana. Contudo, o mart\u00edrio e a morte, em seguida \u00e0 vit\u00f3ria pol\u00edtica, em um contexto hist\u00f3rico absolutamente singular, impedindo que o autor da conquista se beneficiasse de seus frutos, imitaram o arqu\u00e9tipo universalizado pelo cristianismo e seu modelo tradicional de sublima\u00e7\u00e3o (realiza\u00e7\u00e3o que suprime a frui\u00e7\u00e3o e eleva o autor e sua obra a um plano imaterial, em que o valor se separa do interesse). Por isso, pode-se concluir que a experi\u00eancia tr\u00e1gica de Tancredo converteu a fortuna em virtude, invertendo a estrutura simb\u00f3lica do mito de Vargas, mas, por isso mesmo, preservando-a, citando-a, representando-a e a atualizando. <strong>Nos dois casos, a vida pol\u00edtica recebeu intensa transfus\u00e3o de valor e significado<\/strong>. A sociabilidade brasileira se fortaleceu e as institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas se revitalizaram, com doses maci\u00e7as de legitimidade. Ambos os legados foram gastos pela vulgariza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, convertida em mercado. N\u00e3o os soubemos aproveitar adequadamente, nem como hist\u00f3ria e mitos de origem de um pa\u00eds renovado. O suic\u00eddio de Vargas tornou-se recorda\u00e7\u00e3o partidarizada. Tancredo, bem, o que sabem dele nossos estudantes secundaristas?<\/p>\n<h3><strong>A Pol\u00edtica do Esquecimento: amn\u00e9sia funcional e concilia\u00e7\u00e3o das elites<\/strong><\/h3>\n<p>Essa incapacidade de incorporar o gesto her\u00f3ico, a simb\u00f3lica do hero\u00edsmo, ao relato sobre n\u00f3s pr\u00f3prios, sobre nossa sociedade e nossa hist\u00f3ria, impede que as institui\u00e7\u00f5es oriundas dessa hist\u00f3ria se descolem da utiliza\u00e7\u00e3o eventualmente mercantil que dela fa\u00e7am e pairem acima dos predadores, preservando seu valor, sua credibilidade, sua legitimidade, sua grandeza. Grandeza que, afinal de contas, prov\u00e9m da a\u00e7\u00e3o criativa, generosa, solid\u00e1ria e altru\u00edsta de muitos brasileiros de que nos esquecemos.<\/p>\n<p>A amn\u00e9sia brasileira n\u00e3o \u00e9 uma patologia natural ou aleat\u00f3ria, t\u00edpica dos tr\u00f3picos; \u00e9 a contrapartida necess\u00e1ria do mecanismo s\u00f3cio-pol\u00edtico mais importante e consp\u00edcuo, no processo de nossa forma\u00e7\u00e3o nacional: a concilia\u00e7\u00e3o entre as elites. Para que os conflitos sejam superados e a unidade se recomponha, sempre que conveniente, de modo a evitar a tomada do poder pelos representantes das classes subalternas, \u00e9 indispens\u00e1vel que o passado seja esquecido. Essa \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o da viabiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de coaliz\u00f5es que, ante o risco de emerg\u00eancia dos exclu\u00eddos e perif\u00e9ricos, reaglutinam agentes, grupos e classes superiores, antes divididos por confrontos violentos. A amn\u00e9sia funcional \u00e9 uma exig\u00eancia estrat\u00e9gica, portanto, para a reprodu\u00e7\u00e3o do <em>status quo<\/em> no interior de um processo de mudan\u00e7as. Nossa evolu\u00e7\u00e3o tem sido conservadora e autorit\u00e1ria, exatamente porque, como dizia Edmund Burke em fins do s\u00e9culo XVIII, a mudan\u00e7a pode ser a melhor forma de conserva\u00e7\u00e3o, se houver o ajustamento adequado dos interesses olig\u00e1rquicos. Por isso, o esquecimento tem de ser valorizado positivamente. A \u00fanica forma de faz\u00ea-lo \u00e9 redefini-lo como transig\u00eancia, abertura flex\u00edvel \u00e0 diferen\u00e7a, toler\u00e2ncia, com o que, automaticamente, se desvalorizam os conflitos pret\u00e9ritos, reclassificados como intransig\u00eancia, inflexibilidade e intoler\u00e2ncia.<\/p>\n<h3><strong>Refunda\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica: algumas perspectivas<\/strong><\/h3>\n<p>Claro que j\u00e1 \u00e9 tarde para uma redefini\u00e7\u00e3o coletiva do sentido da transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, para a revers\u00e3o da pol\u00edtica do esquecimento e para o abandono da simb\u00f3lica da nega\u00e7\u00e3o. Nossa realidade, hoje, \u00e9 a do continu\u00edsmo neutralizador de conflitos, moralmente diluidor, pilar da concilia\u00e7\u00e3o das elites. \u00c9 tamb\u00e9m a da mercantiliza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, reduzida a mercado de votos e oportunidades. Por outro lado, tamb\u00e9m \u00e9 parte da nossa realidade a presen\u00e7a forte da cultura solidarista e igualit\u00e1ria, que valoriza a justi\u00e7a e ainda preserva um espa\u00e7o nobre para a a\u00e7\u00e3o generosa, gratuita e altru\u00edsta. Considerando-se a contradi\u00e7\u00e3o entre o predom\u00ednio pr\u00e1tico da cultura pol\u00edtica liberal e a preemin\u00eancia moral da cultura solidarista, na qual o hero\u00edsmo pol\u00edtico ainda \u00e9 cultuado, pode-se propor a seguinte conclus\u00e3o: h\u00e1 espa\u00e7o, no Brasil, para uma refunda\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, que revalorize as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, como origin\u00e1rias de uma hist\u00f3ria valiosa e significativa. Essa refunda\u00e7\u00e3o, que revitalizaria o espa\u00e7o p\u00fablico e infundiria legitimidade e credibilidade \u00e0s institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, dependeria de gestos her\u00f3icos que sensibilizassem a cultura solidarista e a mem\u00f3ria coletiva. Seria pat\u00e9tico, absurdo e despropositado propor o hero\u00edsmo entendido em seu sentido b\u00e9lico, que se alimenta do combate armado e arma tiranias em nome de utopias rom\u00e2nticas. O hero\u00edsmo a que me refiro e que considero decisivo para revitalizar nossa democracia \u00e9 aquele do pequeno (e grande) gesto anti-utilit\u00e1rio dos atores pol\u00edticos, individuais e coletivos, gesto improv\u00e1vel, que transgride as normas da cultura pol\u00edtica liberal e surpreende quem espera a pol\u00edtica rotineira. Hoje, no quadro da pol\u00edtica reduzida a mercado, no quadro do esquecimento funcional e da neutraliza\u00e7\u00e3o moral das diferen\u00e7as em benef\u00edcio das uni\u00f5es oportunistas, trair conveni\u00eancias e c\u00e1lculos utilit\u00e1rios, ousar dizer a verdade e agir em conformidade com ela, contar a hist\u00f3ria e apostar no valor da mem\u00f3ria coletiva, podem ser gestos revificadores da democracia. Talvez tenhamos outra chance de carregar de sentido e valor as institui\u00e7\u00f5es que nossa hist\u00f3ria construiu, com muita luta e muito mais hero\u00edsmo do que reconhece o <em>ethos<\/em> c\u00ednico da cultura pol\u00edtica liberal.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-brasileira\/glauber-braga-heroismo-e-refundacao-da-politica\/#sdendnote1anc\">i<\/a> O artigo foi republicado em Soares, Luiz Eduardo. <strong>Legalidade libert\u00e1ria<\/strong>. RJ: Lumen-Juris, 2006.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Sem publicidade ou patroc\u00ednio, dependemos de voc\u00ea. Fa\u00e7a parte do nosso grupo de apoiadores e ajude a manter nossa voz livre e plural: <a href=\"https:\/\/apoia.se\/outraspalavras\"><strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/a><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-brasileira\/glauber-braga-heroismo-e-refundacao-da-politica\/\">Glauber, hero\u00edsmo e refunda\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/escolas-conectadas-se-aproxima-da-meta-de-universalizacao-com-internet-em-684-das-instituicoes\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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Por Luiz Eduardo Soares T\u00edtulo original:Glauber contra a mercantiliza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica No ano 2000, publiquei um artigo no site No, sob o t\u00edtulo \u201cPerd\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":23397,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-23396","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-uncategorized"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23396","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23396"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23396\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/23397"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23396"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23396"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23396"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}