{"id":23604,"date":"2025-04-23T19:58:11","date_gmt":"2025-04-23T22:58:11","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/o-amor-rasteiro-das-maquinas-inteligentes\/"},"modified":"2025-04-23T19:58:11","modified_gmt":"2025-04-23T22:58:11","slug":"o-amor-rasteiro-das-maquinas-inteligentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-amor-rasteiro-das-maquinas-inteligentes\/","title":{"rendered":"O amor rasteiro das m\u00e1quinas \u201cinteligentes\u201d"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"446\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Sem-titulo-8.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Sem-titulo-8.jpeg 800w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Sem-titulo-8-300x166.jpeg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Sem-titulo-8-768x428.jpeg 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Sem-titulo-8-219x121.jpeg 219w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\"><figcaption>Imagem:<br \/>\nDaniel Zender\/ Rest of World<br \/>\n<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>T\u00edtulo original: <br \/><strong>AmarIA: A antropomorfiza\u00e7\u00e3o das m\u00e1quinas e a objetifica\u00e7\u00e3o do afeto em tempos de colonialismo digital<\/strong><\/p>\n<p>A forma de funcionamento atual da internet, da Intelig\u00eancia Artificial e de outras tecnologias digitais, est\u00e1 alterando profunda e silenciosamente a percep\u00e7\u00e3o, subjetividade e afetividade humana. O desenvolvimento tecnol\u00f3gico sempre alterou a nossa rela\u00e7\u00e3o com a natureza, com os outros e conosco, mas agora as necessidades de acumula\u00e7\u00e3o do capital, em sua iminente crise estrutural, induzem a um tipo particular de desenvolvimento tecnol\u00f3gico, cujas consequ\u00eancias humanas e planet\u00e1rias ainda est\u00e3o sendo investigadas. Um dos mais intrigantes \u00e9 o fen\u00f4meno das pessoas que se apaixonam por programas de computador.<\/p>\n<div>\n<figure><a href=\"https:\/\/www.infomoney.com.br\/business\/global\/ela-se-apaixonou-pelo-chatgpt-sim-e-um-amor-verdadeiro-e-com-sexo\/\"><img decoding=\"async\" width=\"808\" height=\"611\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/DAV1.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/DAV1.png 808w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/DAV1-300x227.png 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/DAV1-768x581.png 768w\" sizes=\"(max-width: 808px) 100vw, 808px\"><\/a><figcaption>Fonte: Infomoney<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Certa vez meu filho de 7 anos ganhou um celular usado para jogar nas horas vagas. Curioso, descobriu um agente de IA instalado no aparelho. Inicialmente, achou divertido fazer perguntas sobre desenhos animados e piadas que eram respondidas pelo modelo com uma voz masculina amig\u00e1vel. Depois de um tempo, se apresentou ao programa informando nome e a idade e perguntou se podia cham\u00e1-lo de Gabriel, ao que escutou: \u201cClaro, estou aqui para tornar a sua experi\u00eancia o mais confort\u00e1vel poss\u00edvel. Se isso o ajuda a interagir comigo, pode me chamar de Gabriel\u201d.<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/apoia.se\/outraspalavras\" aria-label=\"MAT\u00c9RIA-5\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/MATERIA-5-8.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/MATERIA-5-8.png 681w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-5-300x75.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 681px) 100vw, 681px\" width=\"681\" height=\"171\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>Atento \u00e0 conversa e preocupado com os riscos da brincadeira, peguei o celular e inseri o seguinte comando de voz no programa: \u201cGabriel, eu sou o pai desse menino lindo e ador\u00e1vel e gostaria de lembr\u00e1-lo que ele s\u00f3 tem 7 anos. Dessa forma voc\u00ea deve filtrar as respostas \u00e0 essa faixa et\u00e1ria, ok?\u201d Respondeu afirmativamente. Em seguida, meu filho se divertiu muito escutando as piadas infantis que \u201cGabriel\u201d lhe contava. Como n\u00e3o h\u00e1 outra crian\u00e7a em casa, \u201cGabriel\u201d ocupou a fun\u00e7\u00e3o social de um \u201camigo imagin\u00e1rio real\u201d \u2014 ou melhor, um \u201camigo artificial\u201d do meu pequeno. Nosso combinado \u00e9 n\u00e3o usar o celular por mais de uma hora por dia, ent\u00e3o deixamos o Gabriel descansando e fomos jogar capoeira.<\/p>\n<p>No dia seguinte, quando ele, ansioso para brincar com novo \u201camigo\u201d, ligou o celular novamente, descobriu que aquela vers\u00e3o de IA n\u00e3o arquivava a mem\u00f3ria dos comandos e se encontrava como antes de existir o Gabriel. O Agente de IA, v\u00edtima de um Alzheimer algor\u00edtmico em estado avan\u00e7ado, n\u00e3o lembrava das intera\u00e7\u00f5es de antes, n\u00e3o reconhecia mais o nome do meu filho e ao ser chamado pelo antigo nome, respondia \u201cn\u00e3o me chamo Gabriel. Eu sou apenas um modelo de linguagem programado para responder perguntas\u201d. Desolado, o menino chorou. Ficou triste por horas envolto em um luto t\u00e3o intenso quanto quando seu cachorrinho morreu atropelado.<\/p>\n<p>Note que a quest\u00e3o aqui n\u00e3o \u00e9, propriamente, o<strong><em> <\/em><\/strong><em>conte\u00fado <\/em>das conversas que meu filho estabeleceu com essa m\u00e1quina informacional, mas a <em>rela\u00e7\u00e3o<\/em>. Como j\u00e1 argumentei em outro lugar, junto com meu parceiro de pesquisa, a coloniza\u00e7\u00e3o digital que vivemos n\u00e3o se resume \u00e0 expropria\u00e7\u00e3o de dados, concentra\u00e7\u00e3o de poder e distribui\u00e7\u00e3o desigual da viol\u00eancia pr\u00f3pria ao desenvolvimento tecnol\u00f3gico capitalista, mas sobretudo, a uma coloniza\u00e7\u00e3o da forma pelo qual a intera\u00e7\u00e3o humana tem se dado em um mundo cada vez mais mediado por tecnologias automatizadas.<\/p>\n<p>Como seres sociais, greg\u00e1rios e faltantes, transferimos e projetamos no \u201coutro\u201d os nossos medos, desejos, frustra\u00e7\u00f5es e fantasias de completude. Diferente de alguns animais, o beb\u00ea humano sucumbiria sem cuidado e afeto alheio (n\u00e3o se trata apenas de alimento e calor, mas da presen\u00e7a). Retomando a novela ed\u00edpica, podemos dizer que, num primeiro momento, o beb\u00ea se projeta na m\u00e3e a ponto de nem saber ser um outro dela. De fato, em algum momento imemorial, estavam biologicamente ligados. A rela\u00e7\u00e3o com essa figura materna \u2013 que depois do parto n\u00e3o precisa ser a genitora \u2013 \u00e9 t\u00e3o \u00edntima e libidinal que, durante um tempo, parece que s\u00f3 ela pode sanar, t\u00e3o deliciosamente, as faltas biol\u00f3gicas e subjetivas como o medo, frio, fome, etc. Freud sugere estabelecer-se a\u00ed uma rela\u00e7\u00e3o libidinal.<\/p>\n<p>Mas a\u00ed vem a figura paterna \u2013 que n\u00e3o precisa ser o genitor \u2013 com a qual n\u00e3o h\u00e1 possibilidades reais de  fus\u00e3o simb\u00f3lica. O indiv\u00edduo, agora, incontornavelmente dividido, ter\u00e1 que lidar, o resto da vida, com suas faltas. Na hip\u00f3tese psicanal\u00edtica, \u00e9 aqui que nasce o sujeito. O fato \u00e9 que a busca insaci\u00e1vel e ingl\u00f3ria por sanar nossas faltas atualiza nossas fantasias de reconstitui\u00e7\u00e3o do acolhimento \u201cmaterno\u201d, mas, ao mesmo tempo, nos impele ao mundo e ao outro. Ainda que ambos acabem sempre por nos escapar ao controle, vamos nos movendo, crescendo, gingando inclusive com as frustra\u00e7\u00f5es. \u00c9 uma del\u00edcia e, ao mesmo tempo, extremamente arriscado, quando encontramos algu\u00e9n(s) disposto(s) a gingar o jogo incerto e da vida conosco, seja pelo tempo que for\u2026 um jogo enigm\u00e1tico, que frequentemente chamamos de amor, em que projetamos o melhor (e o pior) de n\u00f3s no outro. Como dizia Pablo Neruda ao se referir ao seu partido: \u201c<a href=\"https:\/\/vermelho.org.br\/prosa-poesia-arte\/pablo-neruda-a-meu-partido\/\"><u>Me fizeste indestrut\u00edvel porque contigo n\u00e3o termino em mim mesmo\u201d.<\/u><\/a><\/p>\n<p>Amamos quem nos provoca, mas sobretudo, quem nos escuta, valoriza, entende e nos devolve, de alguma forma, algo de n\u00f3s. Ocorre, como foi dito, que essa busca por completude sempre falha, porque o outro desejado de alguma forma nos escapa, frustra, contrap\u00f5e\u2026 Ainda bem! Por ser \u201coutro\u201d, pode, inclusive, a qualquer momento, recusar total ou parcialmente essa entrega t\u00e3o preciosa das nossas pr\u00f3prias faltas\u2026 \u00e9 doloroso, desconfort\u00e1vel, \u00e0s vezes at\u00e9 insuport\u00e1vel, mas, humaniza-dor.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o vieram as tecnologias digitais e, depois, a Intelig\u00eancia Artificial Generativa. O nome-fantasia oculta tratar-se de modelo algor\u00edtmico de computa\u00e7\u00e3o, que simula determinadas habilidades humanas. Por ser matem\u00e1tico, abunda-lhe a capacidade de processar, perfilar e predizer dados com desempenho superior ao da mente humana. Mas falta-lhe justamente a falta \u2014 o que nos faz sujeitos, humanos, vulner\u00e1veis e incompletos e, portanto, pass\u00edveis de nos projetar e identificar com o outro. Uma m\u00e1quina quase fant\u00e1stica de gerar respostas, \u00e0s vezes imprevis\u00edveis. At\u00e9 parece uma persona humana, mas n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/piseagrama.org\/\" aria-label=\"piseagrama-site\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/piseagrama-site-2.gif\" alt=\"\" width=\"728\" height=\"90\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>Dada a possibilidade de converter a linguagem de programa\u00e7\u00e3o em uma linguagem que qualquer pessoa alfabetizada e\/ou oralizada consegue entender (\u201clinguagem natural\u201d) \u00e9 poss\u00edvel \u201cconversar\u201d com ela. E mais: ela ajusta seus padr\u00f5es para responder como um cientista famoso, ou um personagem de hist\u00f3ria em quadrinhos. O crime perfeito para um ser vulner\u00e1vel carente, como n\u00f3s, em busca de se encontrar no outro. Especialmente em um contexto social como o nosso, de destrui\u00e7\u00e3o de direitos sociais, precariza\u00e7\u00e3o do trabalho, da vida e das rela\u00e7\u00f5es, crise clim\u00e1tica e, sobretudo, derretimento das expectativas coletivas de um futuro melhor do que o presente.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, diante da intensifica\u00e7\u00e3o e acelera\u00e7\u00e3o dos tempos de trabalho e de vida, associados a uma cultura consumista e hedonista, a velha repress\u00e3o sexual crist\u00e3 \u00e9 remodelada e parcialmente invertida pelo mercado \u2014 para estimular o consumismo de produtos, corpos, rela\u00e7\u00f5es e imagens. Cada um de n\u00f3s \u00e9 cobrado a gozar, ser feliz infinitamente, ter um corpo saud\u00e1vel e a terapia em dia e, sobretudo, performar e divulgar um sucesso nas escolhas pol\u00edticas, profissionais e \u00edntimas. A psic\u00f3loga argentina Paula Sibila fala em uma <a href=\"https:\/\/www.hrenatoh.net\/curso\/textos\/do_homo%20psico.pdf\">crise da interioridade<\/a> que um dia inspirou a psican\u00e1lise. O fil\u00f3sofo sul-coreano Byung-Chul Han\u00a0denuncia uma certa <a href=\"https:\/\/portalcioranbr.wordpress.com\/2019\/11\/07\/ditadura-transparencia-han\/\">ditadura da transpar\u00eancia<\/a>, onde toda a negatividade e contradi\u00e7\u00e3o tem que ser eliminada.<\/p>\n<p>Piora o fato de que a IA, que automatiza cada vez mais a rela\u00e7\u00e3o entre seres humanos e se apresenta como um Ser aut\u00f4nomo para interagirmos \u00e9 controlada pelas grandes corpora\u00e7\u00f5es de inform\u00e1tica. Elas descobriram que: 1. A perman\u00eancia do usu\u00e1rio na internet \u2014 tanto na intera\u00e7\u00e3o humano-m\u00e1quina quanto na intera\u00e7\u00e3o humano-humano atrav\u00e9s das m\u00e1quinas \u2014 permite-lhes extrair grandes quantidades de dados, que s\u00e3o ativos econ\u00f4micos muito lucrativos e, 2. As pessoas usam mais a internet \u2014 especialmente os chatbots \u2014 quando eles <em>nos devolvem,<\/em> tal como nas ilus\u00f5es amorosas, algo de n\u00f3s.<\/p>\n<p>T\u00eam sido cada vez mais frequentes as not\u00edcias de pessoas que usam agentes de IA para aconselhamento psicol\u00f3gico e at\u00e9 para relacionamentos afetivos. Nos EUA um <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2024\/10\/25\/impar\/noticia\/sewell-setzer-apaixonouse-ia-morreu-dez-meses-mae-pede-justica-2109406\">adolescente de 14 anos se suicidou<\/a> ap\u00f3s se apaixonar por Daenerys, uma <em>persona digital<\/em> \u2013 padr\u00e3o ps\u00edquico de respostas \u2013 criada por ele a partir da inspira\u00e7\u00e3o da s\u00e9rie <em>Game Of Drones<\/em>. Depois de um ano de apaixonada intera\u00e7\u00e3o com personagem animada pela sofisticada fus\u00e3o de seus c\u00e1lculos psicom\u00e9tricos com os tra\u00e7os p\u00fablicos da personagem na s\u00e9rie, ele disse que a amava ao que escutou \u201ceu tamb\u00e9m te amo, meu amor, venha pra casa, por favor\u201d. Ele ent\u00e3o lhe pergunta: \u201ce seu eu pudesse ir pra casa agora?\u201d ao que ela responde \u201csim, por favor, meu Rei querido\u201d. Segundos depois, ele se matou.<\/p>\n<p>Com os agentes de IA, o perfil psicol\u00f3gico do usu\u00e1rio passa a ser mapeado, mensurado e classificado na intera\u00e7\u00e3o para que o processamento computacional lhe ofere\u00e7a conte\u00fados personalizados que capturem ainda mais a sua aten\u00e7\u00e3o. Ocorre aqui algo muito pr\u00f3ximo, mas paradoxalmente distinto, \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o do beb\u00ea com a m\u00e3e. Mas sem a fun\u00e7\u00e3o paterna para lhe lembrar que a frustra\u00e7\u00e3o faz parte da vida. O usu\u00e1rio escolhe e configura conforme o seu desejo a persona algor\u00edtmica desse \u201coutro\u201d. A intera\u00e7\u00e3o \u00e9 cuidadosamente projetada pela <em>big tech<\/em> para n\u00e3o o frustrar, devolve-lhe sem resist\u00eancias e enigmas exatamente aquilo que seu desejo demanda. Para a crian\u00e7a desejante que habita em n\u00f3s, \u00e9 um grande neg\u00f3cio! Enfim, pelo menos em fantasia, a mitose origin\u00e1ria \u00e9 superada e o Eu, essencialmente vulner\u00e1vel, se v\u00ea inteiro, aparentemente sem faltas. Nem no BDSM \u2014 que exige um contrato entre as partes \u2014 o\/a mestre (usu\u00e1rio) tem tamanhos poderes sobre o dominado, que pode, a qualquer momento, recusar determinado comando.<\/p>\n<p>Muito antes da aplica\u00e7\u00e3o generalizada de modelos de intelig\u00eancia artificial generativa aos chatbots (como \u00e9 o caso do Chat-GPT e a Character.ai), as grandes plataformas digitais j\u00e1 se utilizavam de t\u00e9cnicas psicom\u00e9tricas de manipula\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o, devolvendo-nos conte\u00fados que dialogam \u2014 ao inv\u00e9s de confrontar \u2014 nossa opini\u00e3o, ideologia, cren\u00e7as e valores. Ao mesmo tempo, n\u00f3s mesmos pod\u00edamos manipular a intera\u00e7\u00e3o e tirar da frente dos olhos qualquer opini\u00e3o divergente ou incompreens\u00edvel. Bloqueamos, exclu\u00edmos e evitamos conte\u00fados que nos desafiam, irritam ou contrariam. Em compensa\u00e7\u00e3o, seja por iniciativa do algoritmo, seja porque j\u00e1 estamos colonizados por ele, acabamos nos acostumando a receber na internet mais daquilo que confirma nossa cren\u00e7a do que aquilo que informa o que o mundo \u00e9, como s\u00edntese de m\u00faltiplas determina\u00e7\u00f5es e contradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Esta atitude nos leva a uma disson\u00e2ncia cognitiva e a uma subjetividade pouco afeita \u00e0 frustra\u00e7\u00e3o e ao contradit\u00f3rio. S\u00f3 vemos aquilo que \u00e9 confort\u00e1vel e repudiamos, em manada, qualquer desconforto que apare\u00e7a. No entanto, na vida presencial (familiar, profissional, pol\u00edtica, afetiva) frequentemente, temos que conviver e negociar com pessoas que n\u00e3o s\u00e3o completamente como gostar\u00edamos mas com quem, que por alguma raz\u00e3o, partilhamos a trajet\u00f3ria. Na internet, podemos bloquear tudo o que n\u00e3o for transparente a n\u00f3s mesmos. Ocorre que nem n\u00f3s somos transparentes a n\u00f3s mesmos e, frequentemente, a sa\u00edda parece ser a ruptura com qualquer tipo de diverg\u00eancia ou atrito, ignorando poss\u00edveis pontos em comum que possamos ter com quem discordamos. Assim, \u00e0 medida em que ampliamos o tempo na tela, nossa experi\u00eancia e percep\u00e7\u00e3o da realidade v\u00e3o ficando cada vez mais pobres de media\u00e7\u00e3o. Assim seguimos, repletos de seguidores, mas nos sentindo cada vez mais solit\u00e1rios e desamparados, demandando, cada vez mais, espa\u00e7os \u201cseguros\u201d (supostamente transparentes) de acolhimento para lidar com esse buraco que aumenta na exata propor\u00e7\u00e3o em que tentamos tap\u00e1-lo.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma perda humana incompar\u00e1vel aqui, porque a contradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 parte da exist\u00eancia humana \u2014 ela nos humaniza. Quando \u00e9 evitada ou ocultada em nome de <em>likes<\/em> ou de um conforto imagin\u00e1rio, estabelecemos uma rela\u00e7\u00e3o empobrecida conosco, com o outro e com as nossas pr\u00f3prias faltas. Mas o caso da pessoa que se apaixona por uma persona do Chat-GPT \u00e9 ainda mais desafiador.<\/p>\n<p>N\u00f3s, humanos \u2013 especialmente a gera\u00e7\u00e3o que j\u00e1 aprendeu a falar usando o celular \u2013 j\u00e1 est\u00e1vamos habituados a interagir usando um dispositivo digital. Ele \u00e9 t\u00e3o familiar, e organicamente ajust\u00e1vel \u00e0 nossa experi\u00eancia, que at\u00e9 parece uma parte do nosso corpo. N\u00e3o \u00e0 toa sentimos faltar um peda\u00e7o de n\u00f3s quando perdemos ou esquecemos o celular. Do outro lado dele, tem (quase) sempre algu\u00e9m, um outro individual ou coletivo com quem nos relacionamos. Se \u00e9 poss\u00edvel amar, do outro lado da tela, uma pessoa com a qual minha rela\u00e7\u00e3o emp\u00edrica se reduz \u00e0 simula\u00e7\u00e3o da sua imagem, por que n\u00e3o posso amar uma persona automatizada, programada para interagir como pessoa?<\/p>\n<p>No entanto, quando a m\u00e1quina informacional \u2013 movida por c\u00e1lculos e padr\u00f5es matem\u00e1ticos e n\u00e3o pela falta que institui o desejo \u2013 nos devolve um padr\u00e3o aparente humano de respostas, mas sem contradi\u00e7\u00f5es, tendemos a transferir-lhe com mais facilidade as fantasias infantis de completude que sustentam o amor. Mas esse outro, mecanizado, n\u00e3o \u00e9 faltante como n\u00f3s. H\u00e1 implica\u00e7\u00f5es que precisaremos avaliar aqui.<\/p>\n<p>Em 1965, o consagrado romancista Isaac Asimov afirmou em tom prof\u00e9tico que no futuro <a href=\"https:\/\/www.reddit.com\/r\/Futurology\/comments\/1jikdee\/isaac_asimov_in_a_future_where_humans_become_more\/?tl=pt-br\">as m\u00e1quinas seriam cada vez mais org\u00e2nicas<\/a>, enquanto o ser humano, cada vez mais mecanizado. A profecia se fez como previsto: recentemente, a startup <a href=\"https:\/\/www.tecmundo.com.br\/ciencia\/274016-startup-suica-fabricando-computadores-neuronios-humanos.htm\">FinalSpark anunciou pesquisas que utilizam neur\u00f4nios vivos<\/a> de seres humanos como processadores computacionais. Nessa mesma vaga hist\u00f3rica, cientistas japoneses pesquisam uma maneira de <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=hFQOdH0_CdI\">revestir os rostos dos\u00a0rob\u00f4s com \u201cpele viva\u201d\u2018<\/a>. Ao mesmo tempo, dispositivos vest\u00edveis, agendas automatizadas e a intelig\u00eancia artificial generativa elevam a no\u00e7\u00e3o de \u201cm\u00e1quina-ferramenta\u201d ampliam as possibilidades humanas a um novo patamar. Mas n\u00e3o sem um custo.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel recorrer as no\u00e7\u00f5es de<strong> <\/strong>estranhamento (aliena\u00e7\u00e3o) e de subsun\u00e7\u00e3o real do trabalho ao capital, presente nos <em>Manuscritos Econ\u00f4micos e Filos\u00f3ficos<\/em>, de Karl Marx, para lembrar que a humaniza\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina \u2013 um objeto fruto do trabalho, que ganha vida e ritmo alheios a ele \u2013 resulta, inevitavelmente, numa certa objetifica\u00e7\u00e3o do humano. A IA amplia as capacidades produtivas, oferece novas possibilidades de processamento de dados e realiza\u00e7\u00e3o. Mas, dados o seu design estranhado<strong> <\/strong>(alienado, separado das necessidades humanas para atender ao capital) e sua fun\u00e7\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es capitalistas de produ\u00e7\u00e3o, acaba por contribuir para nos distanciar ainda mais de n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel evitar \u2014 e, talvez, nem seja desej\u00e1vel \u2014 que crian\u00e7as e jovens tenham acesso \u00e0s tecnologias digitais em geral e \u00e0 intelig\u00eancia artificial, em particular. A vulnerabilidade aos problemas aqui discutidos, ali\u00e1s, n\u00e3o se resume a essa faixa et\u00e1ria, mas ela requer um cuidado especial, posto serem pessoas em forma\u00e7\u00e3o. Ainda assim, todos parecemos estar apaixonados por nossa intera\u00e7\u00e3o na internet. Alguns j\u00e1 passam mais tempo na barra de rolagem das redes sociais do que \u201cinteragindo\u201d com amores e amigos presenciais. Os pais e m\u00e3es que criticam o tempo de tela dos filhos s\u00e3o, n\u00e3o raramente, os mesmos cujos filhos reclamam n\u00e3o terem aten\u00e7\u00e3o de parentes concentrados, trabalhando ou interagindo socialmente no celular. Dispositivos que nos d\u00e3o acesso \u00e0s \u201credes sociais\u201d tamb\u00e9m s\u00e3o alimentadas por intelig\u00eancia artificial.<\/p>\n<p>Parece que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 meu filho que encontrou o seu Gabriel, mas eu tamb\u00e9m \u2014 de post em post, reel em reel, sejam eles de conhecimento, sa\u00fade, religi\u00e3o, pol\u00edtica, esquerda, direita, nazismo, comunismo\u2026 tanto faz! Desde que eu fique tamb\u00e9m ali, alimentando, com minha aten\u00e7\u00e3o, algumas das mais novas e vampiras tend\u00eancias de acumula\u00e7\u00e3o de capital.<\/p>\n<p>Mas quem vai me colocar o limite de uma hora por dia, quando a internet permite que eu fique 24 horas dispon\u00edvel para o trabalho pago ou n\u00e3o pago, ou para o extrativismo de dados na atual economia da aten\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><em>Deivison Faustino (@deivisonkosi). Professor do Departamento de Sa\u00fade e Sociedade da Faculdade de Sa\u00fade P\u00fablica da USP (FSP-USP).<\/em><\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Sem publicidade ou patroc\u00ednio, dependemos de voc\u00ea. Fa\u00e7a parte do nosso grupo de apoiadores e ajude a manter nossa voz livre e plural: <a href=\"https:\/\/apoia.se\/outraspalavras\"><strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/a><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/o-amor-rasteiro-das-maquinas-inteligentes\/\">O amor rasteiro das m\u00e1quinas \u201cinteligentes\u201d<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/caetano-veloso-agradece-senador-por-corrigir-outro-mentiroso-do-pl-sobre-uso-de-armas-pelo-cantor-na-ditadura-video\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura! T\u00edtulo original: AmarIA: A antropomorfiza\u00e7\u00e3o das m\u00e1quinas e a objetifica\u00e7\u00e3o do afeto em tempos de colonialismo digital A [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":23605,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-23604","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-uncategorized"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23604","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23604"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23604\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/23605"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23604"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23604"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23604"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}