{"id":24075,"date":"2025-04-25T18:11:05","date_gmt":"2025-04-25T21:11:05","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/a-tempestuosa-identidade-latino-americana-no-brasil\/"},"modified":"2025-04-25T18:11:05","modified_gmt":"2025-04-25T21:11:05","slug":"a-tempestuosa-identidade-latino-americana-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/a-tempestuosa-identidade-latino-americana-no-brasil\/","title":{"rendered":"A tempestuosa identidade (latino-)americana no Brasil"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"807\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/mapa191g-1024x807-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/mapa191g-1024x807-1.jpg 1024w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/mapa191g-300x236.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/mapa191g-768x605.jpg 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/mapa191g.jpg 1500w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption>Imagem: -J. Hondius (1607)<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Este texto foi originalmente publicado no <a href=\"https:\/\/blogbvps.com\/\">Blog da Biblioteca Virtual do Pensamento Social (BVPS)<\/a>, com o t\u00edtulo \u201cE depois de A tempestade?\u201d Para ler outros textos da BVPS por n\u00f3s publicados, <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tag\/bvps\/\">clique aqui<\/a>.<\/p>\n<p>CALIBAN: You taught me language, and my profit on\u2019t<br \/>Is, I know how tu curse.<br \/>William Shakespeare, The Tempest, 1611<\/p>\n<p>Vou aprender a ler<br \/>Pra ensinar meus camaradas<br \/>\u2018Prender a ler<br \/>Joao Roberto Caribe Mendes \/ Capinan, Y\u00e1y\u00e1 Massemba, 2003<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/apoia.se\/outraspalavras\" aria-label=\"MAT\u00c9RIA-GERAL\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/MATERIA-GERAL-19.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/MATERIA-GERAL-19.png 681w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-GERAL-300x75.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 681px) 100vw, 681px\" width=\"681\" height=\"171\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>\u00c9 recorrente a ideia de que Brasil e Am\u00e9rica Hisp\u00e2nica est\u00e3o de costas um para o outro na hist\u00f3ria intelectual. A varia\u00e7\u00e3o mais contundente da mesma afirma\u00e7\u00e3o mobiliza inclusive a express\u00e3o Am\u00e9rica Latina como se ela fosse sin\u00f4nimo ou prerrogativa das antigas col\u00f4nias espanholas, nossas vizinhas. Quantos acad\u00eamicos brasileiros se descobriram latino-americanos em departamentos universit\u00e1rios norte-americanos, ao menos quando eles pareciam locais atraentes para se ir? Outros, por raz\u00f5es biogr\u00e1ficas acidentais e ideol\u00f3gicas, cultivaram interesse e conhecimento \u00edmpares sobre o Brasil <em>na<\/em> Am\u00e9rica Latina. O assunto volta \u00e0 tona como problema sociol\u00f3gico e pol\u00edtico em v\u00e1rios momentos importantes, como foi o caso da quest\u00e3o do desenvolvimento nos anos 1950 e 1960, que gerou, inclusive, teorias relativamente originais no quadro mais amplo do debate sobre a moderniza\u00e7\u00e3o. O que sugere, portanto, que mais do que exatamente um desconhecimento m\u00fatuo, essa hist\u00f3ria parece, antes, talvez, a reitera\u00e7\u00e3o de uma ideia de desconhecimento m\u00fatuo como um autocultivo. Uma esp\u00e9cie, ela tamb\u00e9m, de impress\u00e3o de recome\u00e7o do zero a cada nova gera\u00e7\u00e3o, no Brasil?<\/p>\n<p>S\u00e3o problemas muito dif\u00edceis e para os quais n\u00e3o h\u00e1 respostas un\u00edvocas. Mesmo porque rela\u00e7\u00f5es culturais \u2013 ponhamos assim em termos bem gerais \u2013 n\u00e3o s\u00e3o est\u00e1veis, n\u00e3o se desenvolvem cumulativamente num sentido un\u00edvoco e de aperfei\u00e7oamento das partes interlocutoras. E, claro, n\u00e3o est\u00e3o acima dos conflitos sociais, pol\u00edticos, econ\u00f4micos e mesmo lingu\u00edsticos. O Brasil, esse subcontinente falante da \u00faltima flor do L\u00e1cio, cercado por todos os lados de uma das l\u00ednguas mais faladas mundialmente, o espanhol. A prop\u00f3sito, uma das express\u00f5es mais din\u00e2micas nas rela\u00e7\u00f5es entre o Brasil e seus vizinhos mais pr\u00f3ximos \u00e9 a esp\u00e9cie de l\u00edngua livre, o \u201cportunhol\u201d, cada vez usada com menos constrangimento em nossas intera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O que pensaria disso um Manuel Bandeira, por exemplo, que, al\u00e9m de poeta, foi tradutor e professor de literatura hispano-americana na Universidade do Brasil, de 1943 a 1956? Bandeira, ali\u00e1s, j\u00e1 atuava desde os anos 1930 como mediador com \u201clos hermanos\u201d na vida cultural do Rio de Janeiro, ent\u00e3o capital federal do Brasil. \u00c9 conhecida sua amizade com Alfonso Reyes, escritor e embaixador do M\u00e9xico no Brasil de 1930 a 1936. Mas, sem querer jogar lenha na fogueira, o papel desempenhado por Bandeira junto aos escritores hispano-americanos n\u00e3o teve reciprocidade equivalente. Depois, j\u00e1 no per\u00edodo da Segunda Guerra e do dom\u00ednio de Pablo Neruda, os escritores hisp\u00e2nicos passariam a ser recebidos por An\u00edbal Machado, na Visconde de Piraj\u00e1, em Ipanema. Bandeira, sempre presente, mas mais discreto, pois n\u00e3o faz poesia pol\u00edtica. De Reyes, ele deixou a lembran\u00e7a no c\u00e9lebre poema \u201cRond\u00f3 dos Cavalinhos\u201d (\u201cAlfonso Reyes partindo,\/ E tanta gente ficando\u201d).<\/p>\n<p>Bernardo Ricupero \u00e9, sem d\u00favida, o intelectual brasileiro da nossa gera\u00e7\u00e3o melhor preparado e equipado para lidar com quest\u00f5es das interpreta\u00e7\u00f5es latino-americanas. Ele acaba de lan\u00e7ar sua tese de livre-doc\u00eancia, defendida em 2021 no Departamento de Ci\u00eancia Pol\u00edtica da Universidade de S\u00e3o Paulo, em livro: <em>Entre Ariel, Caliban e Pr\u00f3spero: dilemas da identidade (latino) americana pensados a partir do Brasil<\/em>. E o que est\u00e3o fazendo as personagens da \u00faltima pe\u00e7a de William Shakespeare, <em>A Tempestade<\/em>, encenada em 1611, aqui ao Sul do Novo Mundo? Como mostra Ricupero, h\u00e1 bons ind\u00edcios da associa\u00e7\u00e3o da ilha deserta da pe\u00e7a \u00e0 Am\u00e9rica, especialmente um naufr\u00e1gio em Bermudas de um navio da Companhia da Virg\u00ednia, a cujos investidores o bardo ingl\u00eas estava ligado por interesses. Para n\u00e3o lembrar do ensaio seminal \u201cDos canibais\u201d, de Michel Montaigne, que sugere que Caliban seria um nativo americano (Caliban seria um anagrama da palavra espanhola canibal, usada para se referir aos grupos ind\u00edgenas Cara\u00edbas). Para al\u00e9m disso, por\u00e9m, <em>A Tempestade<\/em> acabou se convertendo numa alegoria para pensar a Am\u00e9rica, e muito especialmente o confronto entre a Am\u00e9rica que foi se tornando \u201clatina\u201d com uma outra Am\u00e9rica, a \u201csax\u00e3\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 essa hist\u00f3ria fascinante da viagem das ideias, suas circula\u00e7\u00f5es e ressignifica\u00e7\u00f5es, que o livro publicado neste in\u00edcio de 2025 pela editora Alameda nos conta. Um livro erudito, original, bem documentado e bem escrito. Um desses casos, infelizmente n\u00e3o muito comuns, de um grande tema contando num grande livro. Atento ao preceito de que a recep\u00e7\u00e3o das ideias revela mais sobre os receptores e seus contextos diferentes do que os supostamente originais, Ricupero reconstitui um s\u00e9culo de apropria\u00e7\u00f5es e conflitos interpretativos que, como tamb\u00e9m argumenta consistentemente, estariam na base de uma politiza\u00e7\u00e3o da identidade latino-americana. Antes de eu entrar mais no livro \u2013 e sairmos molhados dessa travessia com tempestades \u2013, por\u00e9m, deixe-me explicar o porqu\u00ea de minha afirma\u00e7\u00e3o anterior sobre Bernardo ser tarimbado como poucos para nos guiar nessa aventura intelectual.<\/p>\n<p>Bernardo Ricupero dedicou toda a sua forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica \u2013 ali\u00e1s toda ela realizada com base no Departamento de Ci\u00eancia Pol\u00edtica da USP, onde leciona \u2013 \u00e0 Am\u00e9rica Latina. Sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado estuda a \u201cnacionaliza\u00e7\u00e3o\u201d do marxismo no Brasil em Caio Prado J\u00fanior, sem perder de vista o processo, digamos, funcionalmente equivalente no Peru, como Jos\u00e9 Carlos Mari\u00e1tegui. A disserta\u00e7\u00e3o foi publicada em 2000 com o t\u00edtulo de <em>Caio Prado Jr. e a nacionaliza\u00e7\u00e3o do marxismo no Brasil<\/em>.<\/p>\n<p>Sua tese de doutorado, tamb\u00e9m orientada por Gildo Mar\u00e7al Brand\u00e3o (uma das pessoas a quem o livro \u00e9 dedicado), toma mais diretamente a compara\u00e7\u00e3o como um problema te\u00f3rico-metodol\u00f3gico, e coloca em escrut\u00ednio contrapont\u00edstico o romantismo no Brasil tendo em vista a Argentina. Publicado como livro em 2004, <em>O romantismo e a ideia de na\u00e7\u00e3o no Brasil (1830-1870) <\/em>mostra como independ\u00eancia liter\u00e1ria, historiografia nacional, mesti\u00e7agem e sil\u00eancio cauteloso sobre a escravid\u00e3o s\u00e3o alguns dos elementos assentados pelo romantismo brasileiro na constru\u00e7\u00e3o social da ideia de na\u00e7\u00e3o. \u00c9 importante ler Jos\u00e9 de Alencar em contraponto a autores como Echeverr\u00eda, Sarmiento, Alberdi, condutores da ideia de na\u00e7\u00e3o na Argentina.<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/rosalux.org.br\/fundacao-rosa-luxemburgo-lanca-versao-digital-de-livro-sobre-tarifa-zero\/\" aria-label=\"LANC\u0327AMENTO TARIFA ZERO 02\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/LANCAMENTO-TARIFA-ZERO-02-1.gif\" alt=\"\" width=\"1456\" height=\"180\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>Esse <em>background<\/em>, que tamb\u00e9m se multiplica em disciplinas e orienta\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas sobre a Am\u00e9rica Latina nas duas \u00faltimas d\u00e9cadas, adensa o debate do marxismo acad\u00eamico uspiano, ao qual Bernardo Ricupero tamb\u00e9m se filia. No conjunto, seus trabalhos sugerem que, para que se possa apreender os efeitos pol\u00edticos m\u00fatuos entre processos ideol\u00f3gicos e estruturas de poder, n\u00e3o devemos nos deter na constata\u00e7\u00e3o da importa\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es e ideias que marcam as sociedades de matriz colonial. Mas, partindo desse mesmo mecanismo social, prop\u00f5e a partir de Roberto Schwarz, sobretudo, qualificar as rela\u00e7\u00f5es dial\u00e9ticas, ainda que negativas, entre importa\u00e7\u00e3o e apropria\u00e7\u00e3o social, que podem singulariz\u00e1-las. Assim, a perspectiva comparativa entre sociedades de matriz colonial imp\u00f5e-se como recurso metodol\u00f3gico na defini\u00e7\u00e3o do sentido pol\u00edtico assumido pelas ideias e pelas institui\u00e7\u00f5es em cada sociedade. Impasses de ordem marco-sociol\u00f3gica e econ\u00f4mica ocupam os lugares da dualidade nessa perspectiva que Bernardo vem contribuindo para renovar.<\/p>\n<p>Como se v\u00ea, estamos em m\u00e3os h\u00e1beis para a navega\u00e7\u00e3o por mares turbulentos \u2013 do s\u00e9culo XVII de Shakespeare \u00e0 longa passagem do XIX ao XX, dos meados dos anos 1950 at\u00e9 os anos 1980 do s\u00e9culo passado, temporalidade coberta no livro de que ora nos ocupamos. \u00c9 muito impressionante a quantidade e a diversidade de mat\u00e9ria textual levantada e analisada na pesquisa ao longo dos anos. Quantas leituras e releituras a subsidiam? Quantos escritores usaram personagens retirados do trabalho do dramaturgo ingl\u00eas como met\u00e1foras para entenderem o que seria pr\u00f3prio \u00e0 Am\u00e9rica Latina e o que seria comum a toda uma Am\u00e9rica? Que eu saiba, tendo escrito eu mesmo meu doutorado sobre Ronald de Carvalho, autor de <em>O espelho de Ariel <\/em>(1922), est\u00e3o todos l\u00e1 no livro de Bernardo, ainda que com \u00eanfases e pap\u00e9is diferentes na economia interna explicativa do livro. Jos\u00e9 Enrique Rod\u00f3, Roberto Fern\u00e1ndez Retamar e Richard Morse, que a mobilizaram diretamente, formam n\u00e3o apenas o eixo da an\u00e1lise, mas tamb\u00e9m suas viradas na longa dura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m desses autores, h\u00e1 os que com eles dialogam sem necessariamente trazerem as met\u00e1foras shakespearianas t\u00e3o direta ou centralmente: Eduardo Prado, Joaquim Nabuco, Ruy Barbosa, Manoel de Oliveira Lima, Jos\u00e9 Ver\u00edssimo, Manoel Bomfim, Oswald de Andrade, Jos\u00e9 Vasconcellos, Rub\u00e9n Dar\u00edo, Paul Groussac, Francisco Garcia Calder\u00f3n, Pedro Henr\u00edquez Ure\u00f1a, Jos\u00e9 Vasconcelos, Alfonso Reyes, Emir Rodr\u00edguez Monegal e Leopoldo Zea s\u00e3o alguns deles. \u00c9 um repert\u00f3rio de autores e ideias muito impressionante e que, mesmo nem sempre referidos uns aos outros, permite a Bernardo Ricupero explorar o que chama de uma \u201ccerta intertextualidade\u201d entre eles.<\/p>\n<p>Identidade \u00e9 rela\u00e7\u00e3o. Politizar identidades \u00e9 desnaturalizar rela\u00e7\u00f5es. O foco, nunca perdido no livro, \u00e9 a hist\u00f3ria das ideias sobre a identidade latino-americana em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 norte-americana, especialmente vista do Brasil, <em>ma non troppo<\/em>. Como disse, \u00e9 a trinca Rod\u00f3-Retamar-Morse que estrutura a massa de material prim\u00e1rio e a an\u00e1lise do autor. O uruguaio Jos\u00e9 Enrique Rod\u00f3, quando o s\u00e9culo XX se abria e os Estados Unidos emergiam como pot\u00eancia, identificou latinos com o espiritualismo do g\u00eanio alado Ariel, contraposto ao materialismo do \u201cescravo selvagem e deformado\u201d Caliban, supostamente mais pr\u00f3ximo de anglo-sax\u00f5es. Ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, Roberto Fern\u00e1ndez Retamar reivindica a revolta de Caliban contra o senhor da ilha, Pr\u00f3spero, para a Am\u00e9rica Latina que enfrentava o desafio do imperialismo norte-americano. J\u00e1 no final do s\u00e9culo XX, momento em que a autoestima dos Estados Unidos era crescentemente colocada em quest\u00e3o, o norte-americano Richard Morse defendeu que Pr\u00f3spero, identificado com seu pa\u00eds, olhasse para o espelho de seus vizinhos como forma de lidar com suas d\u00favidas e incertezas.<\/p>\n<p>Ao inv\u00e9s de pensar esses autores como \u201cmomentos decisivos\u201d, ao modo da <em>Forma\u00e7\u00e3o da literatura brasileira<\/em>, de Antonio Candido, Ricupero acaba se aproximando do historiador das ideias pol\u00edticas John G. A. Pocock. Como notou Maria Ligia Prado no excelente pref\u00e1cio ao livro, Ricupero parece inspirado na ideia de \u201cmomento maquiaveliano\u201d para organizar o texto e a an\u00e1lise em tr\u00eas partes: \u201co momento Ariel (em que a quest\u00e3o central \u00e9 a cultura)\u201d e Jos\u00e9 Enrique Rod\u00f3 constitui o centro do debate; o \u201cmomento Caliban (em que a pol\u00edtica assume um lugar proeminente)\u201d, com o cubano Roberto Fern\u00e1ndez Retamar; e o \u201cmomento Pr\u00f3spero (voltado especialmente para pensar a modernidade)\u201d, em que se destaca a heresia de Richard Morse. <em>The Machiavellian Moment<\/em> (1975) me pareceu uma aproxima\u00e7\u00e3o, de fato, muito acertada, pois o sentido dado por Pocock \u00e0 ideia de \u201cmomento\u201d envolve a combina\u00e7\u00e3o entre tempo e espa\u00e7o distintos (em que o historiador trata em seu livro: o espa\u00e7o e o tempo do republicanismo da Floren\u00e7a do Renascimento) e suas reverbera\u00e7\u00f5es (no caso, nos tr\u00eas s\u00e9culos seguintes, quando desempenha papel estrutural na constitui\u00e7\u00e3o do republicanismo ingl\u00eas e norte-americano), acrescento eu.<\/p>\n<p>N\u00e3o puxarei mais esse fio, mas aviso leitoras e leitores que o livro \u00e9 riqu\u00edssimo como montagem te\u00f3rica e metodol\u00f3gica em torno dessa ideia de \u201cmomentos\u201d, bem como em termos de estrat\u00e9gia narrativa, que, ademais, permite ao autor simultaneamente pensar e pesar o diacr\u00f4nico e o sincr\u00f4nico nas apropria\u00e7\u00f5es de <em>A tempestade <\/em>e, desse modo, discutir o que \u00e9 comum e o que \u00e9 diferente na identidade latino-americana face \u00e0 norte-americana ou estadunidense. E, nela, na diferen\u00e7a, sobretudo, o que h\u00e1 de comum e perene, e o que h\u00e1 de particular em cada momento e tamb\u00e9m entre os autores, afinal, t\u00e3o distintos. Na apresenta\u00e7\u00e3o, Ricupero faz quest\u00e3o de chamar a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que, no livro, os tr\u00eas momentos acabaram por ter tamanhos muito diferentes, com franca concentra\u00e7\u00e3o no momento Ariel. Tudo bem, as raz\u00f5es apontadas, inclusive as contingentes, envolvidas na feitura de um livro dessa envergadura, s\u00e3o inteiramente defens\u00e1veis; mas, se fosse preciso, eu lembraria a ele que todo desenvolvimento acaba sendo desigual, mas combinado, n\u00e3o \u00e9 mesmo?<\/p>\n<p>Uma grande conquista do livro, que merece a aten\u00e7\u00e3o de todos n\u00f3s especialistas, diz respeito ao car\u00e1ter relativamente aberto da an\u00e1lise diacr\u00f4nica planejada. Num dos enunciados te\u00f3rico-metodol\u00f3gicos centrais \u2013 embora discretamente formulado no livro, como, ali\u00e1s, \u00e9 discreta toda a discuss\u00e3o desse n\u00edvel, j\u00e1 que s\u00e3o os textos forjados em torno de Ariel, Caliban e Pr\u00f3spero que protagonizam o enredo do livro, e n\u00e3o as particularidades e picuinhas acad\u00eamicas \u2013, Bernardo afirma: \u201cA hist\u00f3ria se manifestaria na ambival\u00eancia, sendo tamb\u00e9m a dimens\u00e3o a partir da qual o texto se inseriria na hist\u00f3ria\u201d. Ele ressoa outro historiador das ideias, Reinhart Koselleck, a quem tamb\u00e9m recorre, neste caso explicitamente, para trabalhar a ideia de \u201ccamadas de significa\u00e7\u00e3o\u201d presentes num conceito e qualificar o que nele se manifesta tanto como perman\u00eancia quanto como mudan\u00e7a. E mais: \u201cAtrai-me tamb\u00e9m como o historiador alem\u00e3o destaca a rela\u00e7\u00e3o entre hist\u00f3ria dos conceitos e hist\u00f3ria social, no sentido de que os conceitos podem tanto funcionar como \u2018fatores causais como indicadores de mudan\u00e7a hist\u00f3rica\u2019\u201d.<\/p>\n<p>O comum e o pr\u00f3prio. As perman\u00eancias e as mudan\u00e7as. A mat\u00e9ria viva dos livros ressuscitados por Bernardo Ricupero \u2013 e uso a express\u00e3o n\u00e3o apenas por estar escrevendo esta resenha num feriad\u00e3o de P\u00e1scoa, mas porque ela cabe perfeitamente ao caso, me parece, de t\u00e3o esquecidos que esses livros estavam, e talvez mesmo desconhecidos das novas gera\u00e7\u00f5es de intelectuais brasileiros. A meu ver, parte destes se deixou levar muito unilateralmente pela politiza\u00e7\u00e3o das identidades apenas no plano interno, fazendo o trabalho sem d\u00favida necess\u00e1rio de revirar os escombros da identidade nacional e mostrar o tanto de viol\u00eancias e apagamentos que foram produzidos para sustent\u00e1-la no projeto de constru\u00e7\u00e3o do Estado-na\u00e7\u00e3o que durou quase dois s\u00e9culos no Brasil. Mas j\u00e1 vivemos tempos de desacoplamento entre essas esferas. \u00c9 preciso, agora mais do que nunca, correr atr\u00e1s da compreens\u00e3o das din\u00e2micas transnacionais e globais que nos definem, juntam e separam. E, num momento em que os Estados Unidos passam por transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de ordem carism\u00e1tica e populista t\u00e3o incrivelmente discrepantes de tudo o que eles escreveram sobre si mesmos e em que muitos acreditaram, ler <em>Entre Ariel, Caliban e Pr\u00f3spero<\/em> n\u00e3o deixar\u00e1 tamb\u00e9m, ao que parece, de ser uma forma de nos prepararmos para o futuro bem pr\u00f3ximo. Mas e este \u201centre\u201d, o que ser\u00e1 ele?<\/p>\n<p>Petr\u00f3polis-RJ, 19 de abril de 2025<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, contribua com um PIX para <strong>outrosquinhentos@outraspalavras.net<\/strong> e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico.<\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/descolonizacoes\/a-tempestuosa-identidade-latino-americana-no-brasil\/\">A tempestuosa identidade (latino-)americana no Brasil<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/setor-audiovisual-pressiona-congresso-por-mudancas-na-regulacao-do-streaming\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Setor audiovisual pressiona Congresso por mudan\u00e7as...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/fatores-culturais-e-falhas-na-estrutura-local-dificultam-controle-do-ebola-na-africa-explica-medica\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Fatores culturais e falhas na estrutura local difi...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/sul21.com.br\/opiniao\/2025\/08\/sapatao-com-orgulho-nossa-existencia-nao-pede-licenca-por-isabela-luzardo\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Sapat\u00e3o com orgulho: nossa exist\u00eancia n\u00e3o pede lic...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/www.pragmatismopolitico.com.br\/2025\/07\/jugabet-cl-casino-online-lider-en-chile-en-2025.html\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/www.pragmatismopolitico.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/1.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Por qu\u00e9 JugaBet.cl podr\u00eda convertirse en el casino...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Imagem: -J. Hondius (1607) Boletim Outras Palavras Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site Assinar Loading&#8230; Assinar Loading&#8230; Agradecemos! Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura! Este texto foi originalmente publicado no Blog da Biblioteca Virtual do Pensamento Social (BVPS), com o t\u00edtulo \u201cE depois de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":24076,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-24075","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-uncategorized"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24075","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24075"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24075\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/24076"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24075"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24075"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24075"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}