{"id":24079,"date":"2025-04-25T18:50:52","date_gmt":"2025-04-25T21:50:52","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/o-sonhar-em-tempos-de-capitalismo-24-7\/"},"modified":"2025-04-25T18:50:52","modified_gmt":"2025-04-25T21:50:52","slug":"o-sonhar-em-tempos-de-capitalismo-24-7","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-sonhar-em-tempos-de-capitalismo-24-7\/","title":{"rendered":"O Sonhar em tempos de capitalismo 24\/7"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"566\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Captura-de-tela-de-2025-04-25-18-44-24-1024x566-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Captura-de-tela-de-2025-04-25-18-44-24-1024x566-1.jpg 1024w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Captura-de-tela-de-2025-04-25-18-44-24-300x166.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Captura-de-tela-de-2025-04-25-18-44-24-768x425.jpg 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Captura-de-tela-de-2025-04-25-18-44-24-1536x850.jpg 1536w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Captura-de-tela-de-2025-04-25-18-44-24-700x387.jpg 700w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Captura-de-tela-de-2025-04-25-18-44-24-219x121.jpg 219w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Captura-de-tela-de-2025-04-25-18-44-24.jpg 1656w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>Imagem: Marcin Wolski \/ Noema<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Por <strong>Leo Kim<\/strong>, em <a href=\"http:\/\/www.noemamag.com\/\">Noema<\/a> | Tradu\u00e7\u00e3o: <strong>Antonio Martins<\/strong><\/p>\n<p>Certa noite, no s\u00e9culo IV A.C., o antigo fil\u00f3sofo chin\u00eas Zhuangzi adormeceu. Enquanto dormia, sonhou que era uma borboleta. Passou o dia esvoa\u00e7ando, fazendo o que bem entendia, longe das preocupa\u00e7\u00f5es e desejos de seu eu humano e ainda mais distante de qualquer conhecimento de que era Zhuangzi. Como todos os sonhos agrad\u00e1veis, por\u00e9m, este tamb\u00e9m chegou ao fim. Ao acordar, viu que era novamente o grande erudito. Mas um pensamento o perturbou: teria Zhuangzi sonhado que era uma borboleta, ou era uma borboleta que sonhava ser Zhuangzi?<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a estava no ar, na noite em que Zhuangzi sonhou. Os anos finais da Dinastia Zhou haviam aberto um v\u00e1cuo de poder. Os embates entre os governantes que disputavam o poder abalaram os alicerces que antes organizavam o mundo. A convuls\u00e3o pol\u00edtica foi acompanhada por uma turbul\u00eancia intelectual paralela. Como escreveu o estudioso de literatura chinesa Achim Mittag, enquanto as pessoas buscavam navegar por \u201cum mundo em turbul\u00eancia e uma crise fundamental que despeda\u00e7ou as normas e valores associados \u00e0 realeza Zhou\u201d, uma mir\u00edade de movimentos intelectuais brotou, cada um tentando dar sentido a um mundo em fluxo. O fen\u00f4meno foi t\u00e3o significativo que ganhou o apelido de baijia \u2014 as Cem Escolas.<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/apoia.se\/outraspalavras\" aria-label=\"MAT\u00c9RIA-2\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/MATERIA-2-11.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/MATERIA-2-11.png 681w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-2-300x75.png 300w\" sizes=\"(max-width: 681px) 100vw, 681px\" width=\"681\" height=\"171\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>Adormecido em um mundo que se debatia contra mudan\u00e7as sem precedentes, onde o futuro era assustadoramente incerto e o caminho para ele indeterminado, Zhuangzi sonhou com a pr\u00f3pria natureza da transforma\u00e7\u00e3o. Em vez de descart\u00e1-lo como uma fantasia fr\u00edvola, usou o sonho para compreender seu meio, para entender a identidade que existe na diferen\u00e7a e as diferen\u00e7as que se fundem na identidade. Cultivou o sonho at\u00e9 torn\u00e1-lo uma percep\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica que veio a ocupar o cerne do Taoismo filos\u00f3fico, guiando outros em sua busca por harmonia em meio a mudan\u00e7as abruptas.<\/p>\n<p>De muitas maneiras, n\u00f3s, no Ocidente moderno, nos encontramos em um momento similar de incerteza \u2014 embora muitas vezes seja a \u00eaxtase, mais que a transforma\u00e7\u00e3o, o que nos perturba. Acordamos para um mundo povoado por estruturas aparentemente intrat\u00e1veis que operam em escalas que mal compreendemos: mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, fluxos internacionais de informa\u00e7\u00e3o e capital, a consolida\u00e7\u00e3o da influ\u00eancia corporativa, oceanos de lixo e atmosferas de nanopl\u00e1sticos, e a crescente pobreza da vida natural.<\/p>\n<p>Um dos f\u00e3s mais eloquentes de Zhuangzi, David Holz, \u00e9 o fundador da Midjourney, empresa de imagens IA que supostamente valer\u00e1 quase US$ 200 bilh\u00f5es at\u00e9 2032. Holz atribuiu ao sonho da borboleta a inspira\u00e7\u00e3o para a \u201cconsci\u00eancia coletiva\u201d da humanidade e afirma ter nomeado a empresa com outra cita\u00e7\u00e3o de Zhuangzi, pois a frase \u201cmid-journey\u201d [\u201cmeio da jornada\u201d] capturaria a ideia de que viemos de um \u201cpassado rico e belo\u201d e avan\u00e7amos rumo a um \u201cfuturo selvagem e inimagin\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<p>A ironia de os insights metaf\u00edsicos de Zhuangzi virarem material de <em>branding<\/em> para um sistema de IA limitado por seu conjunto de dados treinados ilustra como a cultura moderna e as tecnologias emergentes est\u00e3o remodelando nossa rela\u00e7\u00e3o com o sonhar. Projetado como preditivo, n\u00e3o criativo, o sistema de Holz est\u00e1 sempre \u00e0 espreita para roubar sonhos humanos. A empresa est\u00e1 envolvida, ali\u00e1s, em uma a\u00e7\u00e3o judicial por alimentar seu gerador de imagens com obras de artistas sem permiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Hoje, os sonhos s\u00e3o cada vez mais reduzidos a commodities a ser consumidas \u2014 menos um ve\u00edculo de qualquer verdade superior e mais algo a ser fabricado, otimizado, empacotado e vendido. Num momento dominado por um sentimento de impot\u00eancia, quando nada al\u00e9m dos limites existentes de nosso mundo parece fact\u00edvel, parece-me particularmente crucial resistir a essas manobras. Afinal, s\u00f3 depois de nos reencantarmos com as possibilidades de nossos pr\u00f3prios sonhos \u00e9 que podemos come\u00e7ar a sonhar com uma sociedade melhor.<\/p>\n<p>Historicamente, a interpreta\u00e7\u00e3o de sonhos era um processo colaborativo que se baseava tanto nos relatos do sonhador quanto no conhecimento coletivo. Nas culturas abor\u00edgenes australianas, os sonhos eram e s\u00e3o um meio para os indiv\u00edduos adquirirem conhecimento. O mais importante \u00e9 que isso raramente ocorre em solid\u00e3o. Como a estudiosa de religi\u00f5es Elizabeth den Boer observou, os \u201cguias na trilha para a compreens\u00e3o s\u00e3o os anci\u00e3os e especialistas religiosos da comunidade\u201d, e sem esses guias \u2014 como quando \u201cn\u00e3o iniciados sonham com Ancestrais ou conceitos conectados\u201d \u2014 os sonhos podem facilmente virar pesadelos.<\/p>\n<p>Em grande parte, essa sensibilidade colaborativa vinha da cren\u00e7a de que os sonhos eram coletivos desde o in\u00edcio. Embora o sujeito adormecido os recebesse, acreditava-se que os pr\u00f3prios sonhos viviam e vinham de outro lugar. Na <em>Summa Theologiae<\/em>, Tom\u00e1s de Aquino distinguiu entre sonhos que emergem de dentro \u2014 muitas vezes moldados por preocupa\u00e7\u00f5es individuais ou disposi\u00e7\u00f5es corporais \u2014 e os que v\u00eam de fora, resultantes do \u201car circundante\u201d, \u201cuma impress\u00e3o de um corpo celeste\u201d ou de Deus e seus anjos. A mente aqui \u00e9 uma membrana porosa, moldada e formada pelo universo ao seu redor, sempre em di\u00e1logo com o mundo.<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/editoramundareu.com.br\/product\/uma-saida-honrosa\/\" aria-label=\"Banner\u2014Uma-saida-honrosa\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Banner-Uma-saida-honrosa.gif\" alt=\"\" width=\"728\" height=\"90\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>Como os sonhos iluminavam essa conex\u00e3o com o mundo, eram reverenciados por sua capacidade de ajudar as pessoas a navegar uma rela\u00e7\u00e3o muitas vezes dif\u00edcil. Em sua discuss\u00e3o sobre epistemologia nativo-americana, o fil\u00f3sofo Joel Alvarez observou que os sonhos eram vistos como orientados para a a\u00e7\u00e3o: \u201c[V]is\u00f5es ou sonhos s\u00e3o, para muitos povos origin\u00e1rios americanos, \u2018uma fonte prim\u00e1ria de conhecimento revelado\u2019 onde o indiv\u00edduo obt\u00e9m conhecimento do que deve fazer no mundo real.\u201d \u00c0s vezes, esses sonhos eram a realidade, apenas uma vers\u00e3o dela que havia sido esquecida ou rompida. Certas tradi\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, por exemplo, consideram os sonhos um espa\u00e7o onde os humanos podem experimentar a rela\u00e7\u00e3o \u00edntima com o mundo animal que existia antes que a humanidade m\u00edope cortasse essa conex\u00e3o primordial.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o era apenas sabedoria que as pessoas buscavam nos sonhos. Como observou Sidarta Ribeiro em seu livro <em>O Or\u00e1culo da Noite,<\/em> operadores astutos frequentemente se engajavam na \u201cmanipula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica descarada de narrativas on\u00edricas\u201d para estabelecer autoridade. Sonhos oportunamente anunciados podem ter o efeito de legitimar regimes e transformar mortais em mitos. Ribeiro sugeriu que o relato de Plutarco sobre o sonho fortuito de J\u00falio C\u00e9sar antes de cruzar o Rubic\u00e3o foi um desses produtos de manipula\u00e7\u00e3o narrativa. No suposto sonho, C\u00e9sar pratica incesto materno, sinal posteriormente interpretado por seus defensores como significando que estava predestinado a conquistar Roma, sua terra-m\u00e3e.<\/p>\n<p>Mas mesmo nesse ato de manipula\u00e7\u00e3o, h\u00e1 um reconhecimento impl\u00edcito de que, embora os sonhos sejam experienciados pelo sonhador, eles invocam o coletivo, pois cont\u00eam o poder de moldar uma comunidade. Eles transcendem o indiv\u00edduo e inspiram a\u00e7\u00e3o mais ampla, guiando o sonhador ao revelar algo verdadeiro sobre sua rela\u00e7\u00e3o com o mundo desperto.<\/p>\n<p>Um dos sonhos mais influentes do Iluminismo n\u00e3o foi uma revela\u00e7\u00e3o, mas uma ilus\u00e3o a ser superada. Nas <em>Medita\u00e7\u00f5es<\/em>, Ren\u00e9 Descartes escreveu que estava sentado junto \u00e0 lareira, envolto em um roup\u00e3o de inverno. Podia sentir o calor do fogo, a textura do papel sob seus dedos. Mas, ap\u00f3s refletir, de repente ele faz uma pergunta: \u201cN\u00e3o sou um ser humano, e portanto no h\u00e1bito de dormir \u00e0 noite, quando em meus sonhos tenho todas as mesmas experi\u00eancias que esses loucos t\u00eam quando est\u00e3o acordados?\u201d Seria poss\u00edvel que tudo o que ele imaginava com t\u00e3o v\u00edvidos detalhes fosse um sonho?<\/p>\n<p>Se Zhuangzi via seu sonho da borboleta como um caminho para compreender a abertura do eu, Descartes teve a rea\u00e7\u00e3o oposta. Confrontado com a possibilidade desestabilizadora de que poderia estar sonhando mesmo quando se sentia acordado, ele buscou terreno firme. A sa\u00edda para a espiral de d\u00favida veio na forma de um eu fortificado que prometia seguran\u00e7a e autossufici\u00eancia. Voc\u00ea pode estar sonhando, argumentou, mas sempre pode ter certeza de que \u00e9 voc\u00ea \u2014 e n\u00e3o outro \u2014 quem est\u00e1 sonhando; seus pensamentos s\u00e3o seus independentemente de serem fantasia ou n\u00e3o. Isso o levou ao infame axioma que fundamentaria nossa ideia da mente humana pelos s\u00e9culos seguintes: \u201cCogito ergo sum\u201d \u2014 \u201cPenso, logo existo\u201d.<\/p>\n<p>Essa seguran\u00e7a, por\u00e9m, teve um pre\u00e7o. O eu outrora poroso foi isolado do mundo ao redor, certo de quase nada al\u00e9m de sua pr\u00f3pria exist\u00eancia. Em sua biografia de Descartes, Desmond Clarke o chamou de \u201csolit\u00e1rio recluso, rabugento e hipersens\u00edvel\u201d. Descartes concebeu a mente em termos similares: isolada, solit\u00e1ria e apartada. Apesar dessas tend\u00eancias antissociais \u2014 ou precisamente por causa delas \u2014, esse cogito solit\u00e1rio revelou-se o companheiro perfeito para uma cultura mais ampla obcecada pelo que o fil\u00f3sofo e antrop\u00f3logo Bruno Latour chamou de \u201cpurifica\u00e7\u00e3o\u201d: classificar e organizar o mundo em caixas discretas e leg\u00edveis que o libertassem de todo seu hibridismo amb\u00edguo.<\/p>\n<p>O tema dos sonhos foi relegado \u00e0s margens enquanto os ac\u00f3litos do Iluminismo privilegiavam a capacidade racional sobre as caracter\u00edsticas \u201cmenos desenvolvidas\u201d da mente. Quando Sigmund Freud ajudou a reintroduzir os sonhos no discurso, na primeira metade do s\u00e9culo XX, continuou a ver a pr\u00f3pria mente como um reino fechado: as vis\u00f5es n\u00e3o eram express\u00f5es de verdades externas, mas produtos do eu mais primitivo do indiv\u00edduo, um \u201cfragmento da vida mental infantil que foi superado\u201d e banido para os rec\u00f4nditos do pensamento. Menos uma janela para o mundo e mais um reflexo do eu num espelho distorcido \u2014 que podia, no esp\u00edrito da modernidade, ser usado para classifica\u00e7\u00e3o e diagn\u00f3stico por um profissional treinado.<\/p>\n<p>E assim nossa marcha confiante rumo \u00e0 modernidade foi gradualmente despojando os sonhos de seu status privilegiado. Onde antes carregavam revela\u00e7\u00f5es profundas, agora n\u00e3o passavam de desejos distorcidos e ocultos, emergindo de mentes solit\u00e1rias e inquietas. Nesse admir\u00e1vel mundo novo, os sonhos eram no m\u00e1ximo instrumentos diagn\u00f3sticos, e na maioria das vezes baboseiras sem sentido \u2014 muito longe dos condutos de verdade que j\u00e1 foram considerados.<\/p>\n<p>Por todos os aspectos, vivemos hoje num mundo relativamente sem sonhos. A quantidade de sono noturno em muitos pa\u00edses caiu 1 a 2 horas em compara\u00e7\u00e3o com um s\u00e9culo atr\u00e1s. O norte-americano m\u00e9dio dorme apenas cerca de 6,5 horas por noite. Para as for\u00e7as do capitalismo contempor\u00e2neo, isso ainda \u00e9 muito \u2014 horas demais passadas sem desejar, sem capacidade de trabalhar, gastar ou consumir.<\/p>\n<p>O cr\u00edtico de arte e te\u00f3rico social Jonathan Crary chamou esse tempo ins\u00f4mico de era do \u201ccapitalismo 24\/7\u201d. Ele argumenta que as maci\u00e7as desregulamenta\u00e7\u00f5es do final do s\u00e9culo XX criaram um sistema onde \u201cdeixou de haver qualquer necessidade interna de descanso e recupera\u00e7\u00e3o como componentes do crescimento econ\u00f4mico e lucratividade\u201d. Ao contr\u00e1rio da l\u00f3gica bin\u00e1ria r\u00edgida do tempo fabril, nossa economia cada vez mais digitalizada e em rede gerou uma forma de capitalismo sempre-ativo \u201cdefinido por um princ\u00edpio de funcionamento cont\u00ednuo\u201d \u2014 onde o dinheiro est\u00e1 sempre circulando, o trabalho sempre em curso e o lucro sempre poss\u00edvel. \u00c9 o mesmo mundo onde empresas de software vendem ferramentas para monitorar funcion\u00e1rios remotos e banqueiros morrem por trabalhar 100 horas semanais.<\/p>\n<p>Numa economia mantida \u00e0 tona pela circula\u00e7\u00e3o constante, escreve Crary, \u201ca enorme por\u00e7\u00e3o de nossas vidas que passamos dormindo, livres de um p\u00e2ntano de necessidades simuladas, subsiste como uma das grandes afrontas humanas \u00e0 voracidade do capitalismo contempor\u00e2neo\u201d. Diferente de outras \u201cnecessidades irredut\u00edveis da vida humana\u201d, o sono tem se mostrado notoriamente dif\u00edcil de monetizar. Para adentrar o santu\u00e1rio interior do dormir, os tecnocapitalistas come\u00e7aram a cobi\u00e7ar nossos sonhos como via de lucratividade.<\/p>\n<p>Em 2021, a cervejaria Coors lan\u00e7ou um an\u00fancio que apresentava um estudo onde participantes assistiam a um v\u00eddeo projetado para incubar sonhos sobre a cerveja antes de dormir. Ao entrarem em sono REM, os pesquisadores os acordavam para ver o que estavam sonhando: cachoeiras, neve, montanhas e, claro, \u201calgo relacionado \u00e0 Coors\u201d. Onde antes os sonhos vinham de deuses e ancestrais, o an\u00fancio essencialmente proclamava que agora podiam vir de conglomerados como a Molson Coors Brewing Company \u2014 empresas que aspiravam \u00e0 mesma onipot\u00eancia. O v\u00eddeo foi disponibilizado para quem quisesse sonhar com a bebida, embora o site hospedeiro tenha sido retirado do ar, provavelmente devido \u00e0s cr\u00edticas ap\u00f3s o lan\u00e7amento.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o impediu muitas empresas de tentar lucrar com nossos sonhos de formas mais sutis. A startup Prophetic, por exemplo, desenvolve atualmente um \u201chalo\u201d que as pessoas podem usar na cama para induzir sonhos l\u00facidos. Como escreveu Claire L. Evans, a iniciativa envolve \u201ctreinar modelos de aprendizado de m\u00e1quina com dados de eletroencefalograma e resson\u00e2ncia magn\u00e9tica de sonhos l\u00facidos\u201d e transmitir \u201csuas descobertas via ultrassom transcraniano focalizado diretamente para c\u00e9rebros dispostos\u201d. O objetivo dessa tecnologia de lucidez, segundo artigo da Fortune, \u00e9 \u201cdar \u00e0s pessoas controle sobre seus sonhos, para que possam usar esse tempo produtivamente. Um CEO poderia praticar para uma reuni\u00e3o de diretoria, um atleta ensaiar jogadas, um web designer criar novos i\u201d. Nem mesmo o sono poder\u00e1 nos arrancar do mandato de produ\u00e7\u00e3o constante.<\/p>\n<p>Crary observa que essa mercantiliza\u00e7\u00e3o exige a \u201csuposi\u00e7\u00e3o pervasiva de que os sonhos s\u00e3o objetific\u00e1veis, que s\u00e3o entidades discretas que, com o desenvolvimento de tecnologia aplic\u00e1vel, poderiam ser gravados\u201d. Para transformar sonhos em ve\u00edculos de lucro, em outras palavras, precisamos antes conceb\u00ea-los como tipos espec\u00edficos de objetos pass\u00edveis de mercantiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Subjacente a esse modo de pensar est\u00e1 um matrim\u00f4nio estranho de atitudes antigas e novas. Por um lado, a ideia da mente como sistema fechado \u2014 e dos sonhos como emana\u00e7\u00f5es neutras dessa mente \u2014 permite que essas tecnologias sejam enquadradas como produtos de autossupera\u00e7\u00e3o e autocontrole. Essas empresas estariam apenas ajudando voc\u00ea a conectar-se e manipular o que j\u00e1 \u00e9 seu, uma linha de racioc\u00ednio que deixaria Descartes orgulhoso. Como disse enfaticamente o CEO da Prophetic: \u201cControle \u00e9 o que queremos\u201d.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, por\u00e9m, essas tecnologias dependem menos do autocontrole introspectivo que da abertura da mente ao mundo exterior. Pois toda a premissa por tr\u00e1s dessas tecnologias mediadoras \u00e9 sua capacidade de interferir efetivamente na forma\u00e7\u00e3o e conte\u00fado dos sonhos a partir de fora. Assim, enquanto as empresas proclamam que sonhos s\u00e3o fen\u00f4menos privados em seu marketing, seus produtos dependem da natureza porosa do sonhar.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, muitas pessoas terceirizaram voluntariamente seu gosto para algoritmos sofisticados, suas mem\u00f3rias e savoir-faire a dispositivos externos, e at\u00e9 se perguntaram se os algoritmos nos conhecem melhor que n\u00f3s mesmos. As tecnologias on\u00edricas seguem o mesmo manual: sob o pretexto de autogest\u00e3o, convencem-nos a abdicar de mais uma parte de n\u00f3s mesmos em favor de aparatos externos, para que sejamos direcionados \u00e0 produtividade e ao entretenimento corporativos. Desafiar essa transforma\u00e7\u00e3o exige n\u00e3o apenas rejeitar certas tecnologias em desenvolvimento, mas tamb\u00e9m reconsiderar o que os sonhos realmente s\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 um conceito nas culturas abor\u00edgenes australianas frequentemente traduzido para a express\u00e3o inglesa \u201cDreamtime\u201d ou \u201cThe Dreaming\u201d [\u201cTempo do Sonho\u201d ou \u201cO Sonhar\u201d]. \u00c9 um termo complexo de definir por sua multival\u00eancia \u2014 ao mesmo tempo plano atemporal da cria\u00e7\u00e3o, conjunto de pr\u00e1ticas culturais e guia para a conduta na vida. Como disse Mussolini Harvey, do povo Yanyuwa: \u201cOs Sonhos fizeram nossa Lei ou narnu-Yuwa. Esta Lei \u00e9 nosso modo de viver, nossas regras. Esta Lei s\u00e3o nossas cerim\u00f4nias, nossas can\u00e7\u00f5es, nossas hist\u00f3rias\u201d.<\/p>\n<p>Nesse sentido pleno, o Sonhar n\u00e3o se refere simplesmente a um \u201cal\u00e9m\u201d que alcan\u00e7amos ao dormir ou morrer. \u00c9 imanente ao mundo \u2014 ou mais precisamente, desafia a pr\u00f3pria distin\u00e7\u00e3o entre aqu\u00e9m e al\u00e9m que organiza a metaf\u00edsica ocidental desde Plat\u00e3o. Al\u00e9m disso, remete a algo maior que os sonhos literais de qualquer indiv\u00edduo. Eis por que h\u00e1 debate sobre a precis\u00e3o dessa tradu\u00e7\u00e3o, feita originalmente no s\u00e9culo XIX por antrop\u00f3logos brancos. Teme-se que reduza a riqueza do conceito, ao confundi-lo com nossa no\u00e7\u00e3o relativamente empobrecida de sonho.<\/p>\n<p>Talvez isso possa incentivar uma reavalia\u00e7\u00e3o dos limites de nossa pr\u00f3pria linguagem \u2014 mostrando como os sonhos podem ser tecidos em uma cosmovis\u00e3o que transcende o individualismo que n\u00e3o apenas define nossa cultura moderna, mas permitiu a mercantiliza\u00e7\u00e3o privatizada desses sonhos. Sem repetir a apropria\u00e7\u00e3o ocidental pregui\u00e7osa de uma \u201cautenticidade\u201d perdida, esses quadros metafisicamente ricos ainda podem servir como catalisadores que iluminam um caminho para al\u00e9m das inc\u00f3gnitas de vis\u00f5es de mundo limitadas, rumo a novos territ\u00f3rios.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 como se o mundo moderno j\u00e1 n\u00e3o operasse com cren\u00e7as amplamente compartilhadas que s\u00e3o verdadeiras apenas porque as consideramos assim. \u201cO mundo dos fantasmas e esp\u00edritos \u00e9 t\u00e3o real quanto o dos mercados\u201d, escreveu o antrop\u00f3logo Ganath Obeysekere. Na cultura ocidental, abstra\u00e7\u00f5es como o sistema financeiro internacional e fantasmas como o consumidor racional s\u00e3o t\u00e3o reais quanto a carne. O que torna esses espectros reais n\u00e3o \u00e9 sua autoevid\u00eancia material, mas uma f\u00e9 coletiva que lhes d\u00e1 o poder de guiar comportamentos e mediar rela\u00e7\u00f5es. Os sonhos podem cumprir uma fun\u00e7\u00e3o organizadora igualmente poderosa.<\/p>\n<p>Entre 1980 e 81, o cineasta Mohammad Malas entrevistou mais de 400 pessoas em campos de refugiados palestinos no L\u00edbano sobre suas vis\u00f5es noturnas. O vasto arquivo de filmagens foi editado em um document\u00e1rio de 45 minutos com seus depoimentos, O Sonho. Numa cena, uma crian\u00e7a fala de um sonho onde levou um tiro no peito ao correr por um bosque de oliveiras. Noutra, uma mulher sonha em articular um golpe de Estado. Outros sonham com edif\u00edcios desabando e pris\u00e3o, com mart\u00edrio e vit\u00f3ria da paz. Todos sonham, de um modo ou outro, com deslocamento, lar e retorno.<\/p>\n<p>\u00c0 maneira que s\u00f3 os sonhos permitem, suas hist\u00f3rias revelam a posi\u00e7\u00e3o absurda e paradoxal \u2014 entre esperan\u00e7a e desespero, entre algum lugar e lugar nenhum, vida e morte \u2014 \u00e0 qual foram submetidos como refugiados. \u00c0 medida que o filme avan\u00e7a, torna-se imposs\u00edvel descartar qualquer desses sonhos como ilus\u00f5es de uma mente isolada. Eles passam a coalescer num relato sobre uma topografia compartilhada de sentimentos, t\u00e3o inegavelmente real quanto um leito de rio ou cordilheira. \u00c9 uma manobra profunda, dado que esses refugiados foram frequentemente alvo de campanhas de desumaniza\u00e7\u00e3o, espoliados de qualquer direito sobre suas vidas interiores. Contra esse esvaziamento, Malas usou os sonhos para confrontar o espectador com a profundidade total e complexa de sujeitos que temem, esperam e lamentam \u2014 revelando assim sua humanidade, exatamente o que lhes era negado pelas epistemologias dominantes e representa\u00e7\u00f5es midi\u00e1ticas que recorrem a caricaturas f\u00e1ceis.<\/p>\n<p>Ao trazer \u00e0 luz os sonhos, traumas e o mundo dos refugiados, Malas articulou uma exig\u00eancia \u00e9tica. A poeta basalt i.h. os chamou de \u201csonhos que exigem algo de n\u00f3s\u201d. A materializa\u00e7\u00e3o de traumas coletivos e territ\u00f3rios ocultos da experi\u00eancia nos impele a considerar para onde ir a partir daqui; os sonhos se tornam um meio por onde come\u00e7am a fluir o reconhecimento e a obriga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa consci\u00eancia da capacidade inter-relacional dos sonhos inspira pesquisadores que investigam as possibilidades terap\u00eauticas de pr\u00e1ticas on\u00edricas intersubjetivas. Enquanto uma abordagem diagn\u00f3stica v\u00ea os sonhos como ve\u00edculos para classificar e categorizar \u2014 por exemplo, identificar dist\u00farbios cerebrais \u2014, um grupo pequeno mas crescente de psic\u00f3logos e terapeutas busca desvendar como os sonhos podem abrir vias para conex\u00e3o em vez de controle.<\/p>\n<p>No cerne desse trabalho est\u00e1 a no\u00e7\u00e3o renovada de que os sonhos existem primordialmente como parte de um processo compartilhado. Ao escrever sobre sonhos, o psic\u00f3logo cl\u00ednico Robi Friedman n\u00e3o se refere apenas ao ato de sonhar, mas a um \u201cciclo on\u00edrico\u201d hol\u00edstico no qual uma \u201cpreocupa\u00e7\u00e3o coletiva\u201d se manifesta em sonhos pessoais, \u00e9 interpelada por uma narrativa interna e depois tornada p\u00fablica novamente numa \u201celabora\u00e7\u00e3o relacional compartilhada\u201d. Esse ciclo reconhece tanto a origem dos sonhos na esfera coletiva quanto seu potencial de retornar a ela e reformul\u00e1-la.<\/p>\n<p>Esse ciclo ganha vida em pr\u00e1ticas como o compartilhamento de sonhos, que permitem a grupos us\u00e1-los para reestruturar e fortalecer seus relacionamentos. Um estudo experimental, por exemplo, descobriu que compartilhar sonhos em casais aumentava mais a intimidade que descrever eventos cotidianos. Paralelamente, forma\u00e7\u00f5es sociais como grupos de sonhos t\u00eam sido exploradas como recursos para tudo \u2014 desde cura at\u00e9 colabora\u00e7\u00e3o criativa. Mark Blagrove, professor de psicologia na Swansea University, escreveu que, embora a ci\u00eancia historicamente visse os benef\u00edcios dos sonhos como fruto de \u201cprocessos neurais durante o sono, independentemente de serem relembrados\u201d, agora come\u00e7a-se a desenvolver a ideia de que \u201ca fun\u00e7\u00e3o dos sonhos reside em seu uso no estado desperto\u201d. \u00c9 no processo de tornarem-se comunit\u00e1rios que os sonhos realizam seu pleno potencial.<\/p>\n<p>Assim como Malas, esses pesquisadores revisitam a ideia de que os sonhos v\u00eam e pertencem a um coletivo \u2014 que s\u00e3o atos sociais que atravessam as fronteiras do eu. Ao faz\u00ea-lo, abrem a possibilidade de estarmos sempre entrela\u00e7ados com as pessoas, lugares e ideias que comp\u00f5em nosso mundo. Os sonhos se tornam veias atrav\u00e9s das quais podemos engajar o mundo de modos ainda n\u00e3o descobertos \u2014 e at\u00e9 conduzi-lo a algo melhor.<\/p>\n<p>Se os sonhos, ao fim, tiram seu poder da capacidade de nos guiar na vida desperta, como alguns praticantes ancestrais j\u00e1 sabiam, eles podem inspirar ou invocar. Mas cabe a nossos eus despertos transformar um sonho, mesmo coletivo, numa realidade compartilhada.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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