{"id":24919,"date":"2025-04-30T19:55:17","date_gmt":"2025-04-30T22:55:17","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/do-neofascismo-brasileiro-a-terceira-via\/"},"modified":"2025-04-30T19:55:17","modified_gmt":"2025-04-30T22:55:17","slug":"do-neofascismo-brasileiro-a-terceira-via","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/do-neofascismo-brasileiro-a-terceira-via\/","title":{"rendered":"Do neofascismo brasileiro \u00e0 \u201cterceira via\u201d"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"900\" height=\"549\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/250430-Bolsonaro-TarcisioB-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/250430-Bolsonaro-TarcisioB-1.jpg 900w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/250430-Bolsonaro-TarcisioB-1-300x183.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/250430-Bolsonaro-TarcisioB-1-768x468.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 900px) 100vw, 900px\"><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Por <strong>Jorge Almeida<\/strong><\/p>\n<p>T\u00edtulo original:<br \/><strong>O fascismo hist\u00f3rico e o neofascismo brasileiro<\/strong><\/p>\n<p>A condena\u00e7\u00e3o de Jair Bolsonaro \u00e0 inelegibilidade e sua prov\u00e1vel condena\u00e7\u00e3o \u00e0 pris\u00e3o como l\u00edder da tentativa de golpe de Estado, abriram a temporada de disputa de seu legado neofascista e de seus votos. Diferentes pol\u00edticos profissionais ligados ao ex-presidente disputam esse espa\u00e7o eleitoral assim como a base de um comportamento pol\u00edtico-ideol\u00f3gico da direita liberal mais tradicional.<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/apoia.se\/outraspalavras\" aria-label=\"MAT\u00c9RIA-1\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/MATERIA-1.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/MATERIA-1.png 681w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-1-300x75.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 681px) 100vw, 681px\" width=\"681\" height=\"171\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>A classe dominante, suas elites pol\u00edticas e intelectuais e suas m\u00eddias voltaram a procurar uma chamada \u201cterceira via\u201d que esteja entre o chamado \u201cbolsonarismo raiz\u201d e a candidatura de Lula da Silva (ou outra por ele indicada), que possa parecer mais \u201climpa\u201d e capaz de ir ao segundo turno para derrotar uma candidatura petista.<\/p>\n<p>J\u00e1 fracassaram duas vezes com essa tentativa, em 2018 e em 2022. Assim, aumenta a possibilidade real de uma converg\u00eancia (ou uma ponte) entre o desejo de uma \u201cterceira via\u201d e um herdeiro, supostamente mais palat\u00e1vel, do eleitorado bolsonarista. At\u00e9 as conven\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias, muita \u00e1gua suja ainda vai rolar por debaixo das tentativas de construir essa ponte.<\/p>\n<p>Nesse sentido, continua atual o esfor\u00e7o de melhor definir o neofascismo brasileiro em suas rela\u00e7\u00f5es e diferen\u00e7as com o fascismo hist\u00f3rico e o neoliberalismo.<\/p>\n<p>Ao tratar da rela\u00e7\u00e3o entre bolsonarismo e fascismo n\u00e3o podemos cair em anacronismos, tentando aplicar superficialmente um conceito daquilo que apareceu historicamente, h\u00e1 cerca de 100 anos, na It\u00e1lia. O Reino da It\u00e1lia era um pa\u00eds do centro do imperialismo, pois, mesmo n\u00e3o sendo o Estado mais importante, era uma das grandes pot\u00eancias naquele per\u00edodo hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso contextualizar, ent\u00e3o, o conceito de fascismo pois, al\u00e9m de terem se passado 100 anos, estamos num pa\u00eds da periferia do capitalismo mundial.<\/p>\n<p>O que foi o fascismo na sua origem e no pa\u00eds onde nasceu e assim se autodenominou \u201cFascismo\u201d? Vamos responder partindo do revolucion\u00e1rio italiano Ant\u00f4nio Gramsci<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-brasileira\/do-neofascismo-brasileiro-a-terceira-via\/#sdfootnote1sym\"><sup>1<\/sup><\/a>, o primeiro entre os marxistas a definir o que \u00e9 \u201cfascismo\u201d.<\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 o fascismo?<\/strong><\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/editoramundareu.com.br\/product\/uma-saida-honrosa\/\" aria-label=\"Banner\u2014Uma-saida-honrosa\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Banner-Uma-saida-honrosa-1.gif\" alt=\"\" width=\"728\" height=\"90\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>Para Gramsci, fascismo \u00e9 um autoritarismo militarista. Mas n\u00e3o \u00e9 somente um bonapartismo ou uma ditadura militar, como tantas outras. N\u00e3o \u00e9 uma extrema-direita qualquer.<\/p>\n<p>O movimento fascista nasceu no momento de uma profunda crise nacional e internacional, posterior \u00e0 Primeira Guerra Mundial, da qual a It\u00e1lia saiu com a dignidade nacional ferida (MAESTRI e CANDREVA, 2001).<\/p>\n<p>Um outro elemento do contexto, fundamental para entender a ascens\u00e3o do fascismo, \u00e9 que a It\u00e1lia vivia uma \u201ccrise de hegemonia\u201d e um ascenso das lutas dos trabalhadores. As classes dominantes n\u00e3o estavam conseguindo governar para garantir seus interesses sob um regime de democracia liberal burguesa.<\/p>\n<p>Segundo Gramsci (2000), hegemonia \u00e9 uma combina\u00e7\u00e3o de dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica com domina\u00e7\u00e3o coercitiva. Ou seja, \u00e9 uma combina\u00e7\u00e3o da capacidade que um determinado grupo social, econ\u00f4mico e pol\u00edtico tem de dirigir aqueles que aceitam sua lideran\u00e7a pol\u00edtica, ideol\u00f3gica e moral; ao mesmo tempo em que tem os instrumentos para agir com for\u00e7a (coer\u00e7\u00e3o) contra os que n\u00e3o aceitam a sua lideran\u00e7a consensualmente. A dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e ideol\u00f3gica se constr\u00f3i a partir da sociedade civil e a coer\u00e7\u00e3o se faz principalmente via Estado.<\/p>\n<p>Ademais, a hegemonia pol\u00edtica e ideol\u00f3gica tamb\u00e9m \u00e9 econ\u00f4mica: precisa se basear no controle dos n\u00facleos fundamentais da estrutura econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Assim, uma classe hegem\u00f4nica \u00e9 aquela que, ao mesmo tempo, garante seus interesses materiais detendo os n\u00facleos fundamentais da economia, tem suas ideias predominando na sociedade civil e controla os setores decisivos do Estado<\/p>\n<p>Se a classe hegem\u00f4nica perde a predomin\u00e2ncia em um desses tr\u00eas planos (ou esferas) da sociedade (estrutura econ\u00f4mica, Sociedade Civil ou Estado) adv\u00e9m uma crise de hegemonia. Seu poder est\u00e1 correndo riscos.<\/p>\n<p>Era isso que estava acontecendo na It\u00e1lia. Havia, de fato, da parte das classes dominantes, a inten\u00e7\u00e3o de dar uma resposta \u00e0 luta do operariado da regi\u00e3o Norte, a mais industrializada da It\u00e1lia, onde estavam sendo constru\u00eddos os Conselhos de F\u00e1brica. Ali, os oper\u00e1rios fabris chegaram a controlar o processo produtivo, inclusive nas empresas mais importantes do pa\u00eds \u2013 como a Fiat, em Turim.<\/p>\n<p>J\u00e1 no Sul, que era a regi\u00e3o predominantemente rural e de produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, ocorria um ascenso do movimento campon\u00eas, que lutava pela terra para quem nela trabalha, com ocupa\u00e7\u00e3o de latif\u00fandios.<\/p>\n<p>Havia realmente uma situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria. Ao mesmo tempo, do ponto de vista eleitoral, o Partido Socialista (PSI) chegou a ter mais de 30% dos votos nas elei\u00e7\u00f5es de 1919.<\/p>\n<p>O fascismo nasce num momento de crise de hegemonia e de possibilidade real de um ascenso da luta oper\u00e1ria e camponesa e da conquista do poder pol\u00edtico por via revolucion\u00e1ria, com amplo apoio popular.<\/p>\n<p>A base original do fascismo italiano foi a chamada \u201cpequena burguesia\u201d urbana que tinha a expectativa de um governo e um regime pol\u00edtico que representasse os seus interesses, de setor m\u00e9dio da popula\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o era nem a classe trabalhadora nem a grande burguesia. Nasce, portanto, de uma quimera pequeno-burguesa de ter um regime econ\u00f4mico, social e pol\u00edtico pr\u00f3prio, acima das principais classes sociais. Mas, a pequena burguesia n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es estruturais e, portanto, pol\u00edticas, de construir um modo de produ\u00e7\u00e3o e um regime pol\u00edtico pr\u00f3prios. No capitalismo, somente as classes fundamentais (burguesia e trabalhadores) t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de dirigir um Estado que expresse seus interesses de classe e estend\u00ea-lo a toda a sociedade.<\/p>\n<p>Por isso, esse movimento fascista vai acabar sendo um instrumento a servi\u00e7o do grande capital e da repress\u00e3o \u00e0s lutas do povo trabalhador, especialmente do operariado e do campesinato. Ser\u00e1 um movimento visceralmente anti-esquerda, especialmente antissocialismo e anticomunismo, que eram as duas principais for\u00e7as de esquerda na It\u00e1lia naquele momento. Ou seja, o fascismo nasce com base na pequena burguesia urbana, mas ser\u00e1 apoiado e financiado pelo grande capital, que passa a ver o movimento como uma alternativa para evitar um processo revolucion\u00e1rio do povo trabalhador na It\u00e1lia.<\/p>\n<p>Naquele momento, o Partido Socialista (PSI) era a principal for\u00e7a da esquerda, a que tinha mais base social nos sindicatos urbanos e no movimento dos camponeses. O Partido Comunista (PCI) era a for\u00e7a mais radical e ativamente revolucion\u00e1ria, por\u00e9m com menor presen\u00e7a nos movimentos de trabalhadores.<\/p>\n<p>Ideologicamente, o fascismo se apresenta como conservador na pauta dos costumes e das rela\u00e7\u00f5es sociais. Carrega marcas do tradicionalismo dominante, do racismo, da misoginia e do patriarcalismo. Mas, politicamente, nas palavras de Gramsci, \u00e9 um \u201csubversivismo reacion\u00e1rio\u201d, que pretende golpear a ordem social para impedir uma transforma\u00e7\u00e3o reformista ou revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Na sua origem, era um movimento nacionalista de fato. N\u00e3o era somente um nacionalismo de palavras, nem um patriotismo ret\u00f3rico (como o neofascismo no Brasil). Foi, efetivamente, um movimento que procurava defender interesses nacionais da burguesia italiana num contexto de conflito interimperialista e quando a It\u00e1lia pretendia ampliar suas col\u00f4nias.<\/p>\n<p>Era, portanto, um nacionalismo de direita, imperialista, tanto na disputa com outras pot\u00eancias imperialistas, como parte de um pa\u00eds que tinha col\u00f4nias na \u00c1frica (especialmente na Eritr\u00e9ia, Som\u00e1lia e L\u00edbia), al\u00e9m de pequenas ilhas no Mediterr\u00e2neo e que, j\u00e1 durante o regime fascista, em 1936, invade e ocupa parcialmente, pela for\u00e7a militar, a Eti\u00f3pia.<\/p>\n<p>No come\u00e7o do governo Mussolini (1922), quando ele ainda governava ao lado de conservadores e liberais, o modelo econ\u00f4mico respeitava um vi\u00e9s liberal. Mas, a partir da consolida\u00e7\u00e3o do regime de Estado centralizado, a tend\u00eancia foi estatizante, no sentido de uma economia regulada e dirigida pelo Estado, com forte protecionismo para defender grandes empresas capitalistas privadas italianas, e estatiza\u00e7\u00f5es de empresas falidas ou invi\u00e1veis economicamente.<\/p>\n<p>O fascismo cl\u00e1ssico, apesar da ret\u00f3rica de estar acima das classes, estava de fato a servi\u00e7o do grande capital e refor\u00e7ava o capitalismo nacional. Mesmo as a\u00e7\u00f5es de interven\u00e7\u00e3o e dirigismo estatal tinham esse objetivo. Trabalhava no sentido de aumentar o arrocho e a explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e a concentra\u00e7\u00e3o de capital e riqueza nas m\u00e3os de uma minoria. Para garantir isso, todo o sindicalismo aut\u00eantico e independente foi proibido e eliminado violentamente. E, em seu lugar, foi institu\u00eddo um sindicalismo corporativista, imposto e controlado pelo Estado.<\/p>\n<p>O regime fascista foi um regime autorit\u00e1rio e centralizado que acabou quebrando as institui\u00e7\u00f5es da democracia liberal burguesa, instituindo um partido \u00fanico (Partido Nacional Fascista) e acabando com a dita independ\u00eancia dos chamados \u201ctr\u00eas poderes\u201d liberais (executivo, legislativo e judici\u00e1rio).<\/p>\n<p>Ao faz\u00ea-lo torna-se um governo ditatorial do poder executivo, dirigido unipessoalmente, com m\u00e3o de ferro, por Benito Mussolini (em comum acordo com o estado maior das for\u00e7as armadas), que acabou se impondo sobre o conjunto das institui\u00e7\u00f5es do Estado e da sociedade.<\/p>\n<p>Outro aspecto essencial, \u00e9 que ele nasceu como uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e paramilitar que atuava na sociedade civil. O fascismo n\u00e3o era simplesmente uma organiza\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria nascida dentro do Estado. Na verdade, nasceu como um movimento fora do Estado, a partir de 1919, e se organizou como um partido que fez disputa pol\u00edtica e ideol\u00f3gica, mas tamb\u00e9m agindo de forma paramilitar, na sociedade civil, antes da tomada do poder estatal. E, a partir do momento em que conquistou o poder pol\u00edtico, continuou agindo por dentro e por fora do Estado (GRAMSCI, 2004).<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, mesmo antes da conquista do poder pol\u00edtico, j\u00e1 atuava de forma legal e ilegal. Usava a legalidade, mas ao mesmo tempo atropelava as leis. Para isso, contava com a cumplicidade do aparelho jur\u00eddico e coercitivo: ju\u00edzes, promotores, policiais e for\u00e7as armadas, para os seus crimes.<\/p>\n<p>Quando conquistou o poder, portanto, o fascismo j\u00e1 agia por dentro e por fora do Estado. Isso permitiu que houvesse uma esp\u00e9cie de fus\u00e3o entre as for\u00e7as fascistas e o pr\u00f3prio aparelho militar burocr\u00e1tico profissional do Estado, centralizado pelo comando do estado maior das for\u00e7as armadas italianas.<\/p>\n<p>Contudo, era um movimento dirigido por um chefe com imagem forte. Pois a ideologia fascista tamb\u00e9m acredita em solu\u00e7\u00f5es que partam de um \u201cgrande l\u00edder\u201d que se apresenta como um guia personalista e \u201csalvador da p\u00e1tria\u201d. Da\u00ed porque Mussolini se autodenominava \u201cDuce\u201d, ou \u201cCondutor\u201d, um l\u00edder que \u00e9 um chefe incontest\u00e1vel.<\/p>\n<p>Outra caracter\u00edstica fundamental do fascismo \u00e9 que ele n\u00e3o tem limites morais que possam inibir as suas a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e seus crimes de todo tipo.<\/p>\n<p>\u00c9 importante ressaltar tamb\u00e9m que, no caso da It\u00e1lia, Gramsci identificou dois \u201ctipos\u201d de fascismo. Um, original e mais ideol\u00f3gico, era o movimento fascista, chamado de \u201c<em>Fasci Italiani di Combattimento<\/em>\u201d, que depois se transformou no Partido Nacional Fascista. Em paralelo, existiam as organiza\u00e7\u00f5es paramilitares montadas por latifundi\u00e1rios no sul da It\u00e1lia, sem um programa ideol\u00f3gico bem definido, por\u00e9m formadas para promover repress\u00e3o direta ao movimento campon\u00eas. Mas, ambos conflu\u00edram nos mesmos objetivos gerais.<\/p>\n<p>Esse processo, em seu conjunto dial\u00e9tico, acabou gerando uma unifica\u00e7\u00e3o de todas as fra\u00e7\u00f5es das classes e elites dominantes da It\u00e1lia, seja o grande capital industrial, o capital financeiro e os latifundi\u00e1rios. Sejam os pol\u00edticos propriamente fascistas, outros pol\u00edticos da direita conservadora e, tamb\u00e9m, setores da igreja cat\u00f3lica, assim como o comando das for\u00e7as armadas.<\/p>\n<p>No final das contas, a It\u00e1lia, que era uma democracia burguesa com um regime de monarquia constitucional parlamentarista, viu o pr\u00f3prio rei apoiando esse processo e indicando Mussolini como primeiro-ministro, que teve a sua aprova\u00e7\u00e3o pelo parlamento.<\/p>\n<p>No come\u00e7o, Mussolini era o chefe de um governo conservador liberal. Era um fascista chefiando um governo de direita conservadora, e num regime de democracia liberal representativa, sob a forma de uma monarquia constitucional parlamentarista. Como chefe desse governo, ele foi transformando o pr\u00f3prio governo num governo fascista e, finalmente, o pr\u00f3prio regime em uma ditadura fascista.<\/p>\n<p><strong>* * *<\/strong><\/p>\n<p>Em s\u00edntese, o fascismo hist\u00f3rico \u00e9 um movimento de autoritarismo militarista; a servi\u00e7o do grande capital e para reprimir as lutas do povo; antissocialista e anticomunista; que surge em momento de crise de hegemonia; liderado por um l\u00edder \u201cSalvador da p\u00e1tria\u201d. Tem uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-partid\u00e1ria e paramilitar na sociedade civil. Promove a repress\u00e3o direta das massas; \u00c9 conservador na pauta dos costumes e nas rela\u00e7\u00f5es sociais, racista, xen\u00f3fobo e mis\u00f3gino; \u00e9 nacionalista e imperialista. N\u00e3o tem limites morais. Age por dentro e por fora do Estado: legal e ilegalmente. Tem a cumplicidade do aparelho jur\u00eddico coercitivo. Pretende subverter a ordem;. Ao chegar no poder, instaura um regime de Estado centralizado, com tend\u00eancia estatizante, de partido \u00fanico, ditatorial e antipopular.<\/p>\n<p>No caso italiano, a ascens\u00e3o do fascismo esteve ligada a um contexto no qual havia um sentimento de derrota nacional na I Guerra Mundial; ascenso da luta dos oper\u00e1rios e dos camponeses e avan\u00e7o eleitoral do PSI; frustra\u00e7\u00e3o da pequena burguesia; crise de hegemonia e do Bloco Hist\u00f3rico; alian\u00e7a da burguesia industrial com os latifundi\u00e1rios; modera\u00e7\u00e3o, vacila\u00e7\u00e3o e crise do PSI; e um PCI revolucion\u00e1rio, por\u00e9m ainda relativamente com menor for\u00e7a no movimento oper\u00e1rio e campon\u00eas do que o PSI e que comete erros. Surgem problemas para a alian\u00e7a oper\u00e1ria e camponesa e a efetiva\u00e7\u00e3o da Frente \u00danica antifascista; o fascismo ocupa o espa\u00e7o aberto pela crise e lidera uma alternativa. No governo, o fascismo mostra sua cara e instaura a ditadura. Segu-se uma dura constru\u00e7\u00e3o da resist\u00eancia e, finalmente, a derrota do fascismo ocorre na converg\u00eancia da derrota da It\u00e1lia na segunda da Guerra, a resist\u00eancia e o rompimento da classe dominante e elite conservadora com Mussolini.<\/p>\n<p><strong>O neofascismo brasileiro<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9, portanto, importante compreender esse processo e verificar que existem caracter\u00edsticas semelhantes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quilo que acontece no Brasil hoje. Por exemplo: o mundo viveu uma crise no p\u00f3s-Primeira Guerra Mundial e agora tamb\u00e9m. Em ambos os momentos houve um enfraquecimento das democracias liberais. Mas, a atual, sendo uma crise estrutural do capitalismo (M\u00c9SZ\u00c1ROS, 2002; ALMEIDA, 2023.b), traz suas especificidades. Portanto, existem situa\u00e7\u00f5es nacionais e hist\u00f3ricas particulares bem diferentes que precisam ser reconhecidas para compreendermos nossa realidade sem cair num anacronismo. A utiliza\u00e7\u00e3o de fatos que aconteceram num determinado momento hist\u00f3rico e num outro espa\u00e7o territorial-estatal, n\u00e3o deve ser empregada para interpretar dogmaticamente a realidade que vivemos hoje.<\/p>\n<p>No Brasil, desenvolveu-se um movimento que tem caracter\u00edsticas fascistas. Tem sido capitaneado por Jair Bolsonaro, que sempre foi um militar com perfil autorit\u00e1rio e anticomunista. Teve a inten\u00e7\u00e3o de dar um golpe, contando com a participa\u00e7\u00e3o das For\u00e7as Armadas para constituir uma ditadura sob seu comando. Uma vontade que, provavelmente, ele n\u00e3o tirou da cabe\u00e7a antes, durante e depois de sua passagem pela Presid\u00eancia da Rep\u00fablica: a vontade de ser um \u201cDuce\u201d.<\/p>\n<p>As concep\u00e7\u00f5es conservadoras, anti-esquerda, antissocialistas e anticomunistas est\u00e3o presentes numa difusa organiza\u00e7\u00e3o e capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o de massas que, entretanto, n\u00e3o \u00e9 exatamente um partido organizado de forma paramilitar, como Mussolini montou na It\u00e1lia.<\/p>\n<p>A vis\u00e3o conservadora dos costumes, o machismo e o racismo tamb\u00e9m est\u00e3o presentes. A base social, que contribuiu para sua ascens\u00e3o e at\u00e9 sua chegada ao governo pela via eleitoral, tamb\u00e9m tem um forte peso dentro da chamada classe m\u00e9dia. Esses s\u00e3o elementos semelhantes ao que ocorreu na It\u00e1lia.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, existem algumas diferen\u00e7as fundamentais. Em primeiro lugar, esse fascismo brasileiro atual, n\u00e3o \u00e9 nacionalista, nem imperialista, nem estatizante. Ao contr\u00e1rio, o seu \u201cpatriotismo\u201d \u00e9 apenas ret\u00f3rico, pois seu governo foi, efetivamente, entreguista, privatista e neoliberal, submisso aos interesses imperialistas de v\u00e1rios pa\u00edses. No contexto mundial, o Brasil \u00e9 um para\u00edso do grande capital, n\u00e3o s\u00f3 dos EUA, mas de diversos pa\u00edses, europeus e asi\u00e1ticos (Jap\u00e3o e China) que, de fato, t\u00eam constru\u00eddo e reproduzido rela\u00e7\u00f5es depend\u00eancia do nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>Esse fascismo brasileiro tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 estatizante. Ao contr\u00e1rio, ele \u00e9 privatizante. \u00c9 um fascismo neoliberal. Portanto, nesse aspecto, diferente daquele italiano.<\/p>\n<p>Por isso, \u00e9 um \u201cneofascismo\u201d. Um novo tipo de fascismo, que est\u00e1 adequado a uma nova realidade hist\u00f3rica, regional e nacional, na qual estamos cem anos depois do nascimento do fascismo na It\u00e1lia.<\/p>\n<p>Estamos num per\u00edodo em que j\u00e1 houve uma grande expans\u00e3o e mudan\u00e7as no capitalismo imperialista mundial. Por outro lado, existem tamb\u00e9m as caracter\u00edsticas particulares da depend\u00eancia de um pa\u00eds perif\u00e9rico que \u00e9 o Brasil. Portanto, \u00e9 um \u201cneofascismo\u201d.<\/p>\n<p>Assim sendo, tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 correto chamar Bolsonaro e o movimento que ele ainda lidera de \u201cprotofascista\u201d. Porque ele n\u00e3o \u00e9 \u201cproto\u201d, n\u00e3o \u00e9 algo anterior ao fascismo. Ele j\u00e1 \u00e9 fascista, mesmo sendo um fascista remodelado pelas circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas e pol\u00edticas. Ou seja, ele n\u00e3o vai se transformar num movimento t\u00edpico do fascismo hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, temos aqui um contexto hist\u00f3rico, uma correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as entre as classes e fra\u00e7\u00f5es de classes e um processo diferente do que ocorreu na It\u00e1lia.<\/p>\n<p>Como vimos, Mussolini chegou ao governo como primeiro ministro indicado pelo rei e apoiado pelo parlamento. Ele formou o minist\u00e9rio e passou a ser o chefe de governo. Depois, foi controlando o governo e, finalmente, deu o golpe completo, transformando o pr\u00f3prio Estado num regime de ditadura fascista.<\/p>\n<p>No Brasil, isso n\u00e3o aconteceu. O que tivemos foi um presidente neofascista num governo de direita e extrema-direita, de composi\u00e7\u00e3o com liberais, conservadores e pol\u00edticos oportunistas de direita que j\u00e1 tinham participado de outros governos, inclusive os do Partido dos Trabalhadores (PT). Alguns participando, ao mesmo tempo, do governo federal de Bolsonaro e de governos estaduais da direita liberal ou governados por partidos considerados de \u201ccentro-esquerda\u201d, como o PT.<\/p>\n<p>Um governo onde alguns dos mais notoriamente neofascistas acabaram sendo afastados, por Bolsonaro, de espa\u00e7os-chave que foram entregues a outras for\u00e7as da direita tradicional. Inclusive os dois ministros portadores do discurso neofascista mais enf\u00e1tico, como o da Educa\u00e7\u00e3o (Abraham Weintraub) e o das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores (Ernesto Ara\u00fajo), que foram exonerados. Ou seja, Bolsonaro \u00e9 um neofascista, mas seu governo n\u00e3o chegou a ser \u201cneofascista\u201d (ALMEIDA, 2023.c).<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o regime continuou sendo uma democracia liberal representativa, apesar de mais carregada de autoritarismo e arbitrariedades do que normalmente \u00e9 a democracia com \u201cas caracter\u00edsticas brasileiras\u201d. Arbitrariedades que foram se intensificando desde o processo da Lava Jato, do golpe do impeachment de Dilma Rousseff e das condena\u00e7\u00f5es e pris\u00e3o de Lula da Silva para afast\u00e1-lo da disputa presidencial em 2018.<\/p>\n<p><strong>A tutela militar civil burguesa<\/strong><\/p>\n<p>Finalmente, Bolsonaro n\u00e3o contou com um cheque em branco das classes dominantes nem da maioria dos comandantes militares para chefiar uma ditadura. N\u00e3o contou com um judici\u00e1rio absolutamente submisso. N\u00e3o teve o parlamento a seus p\u00e9s. Nem uma grande m\u00eddia em seu favor pessoal. Ao contr\u00e1rio, houve um processo de tutela do seu governo. Uma tutela militar, civil burguesa (ALMEIDA, 2023.c).<\/p>\n<p>Apesar de seus desejos de ser um Mussolini ou um Napole\u00e3o Bonaparte n\u00e3o havia condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas para isso. Queria ser um \u201cDuce\u201d, mas foi tutelado.<\/p>\n<p>As classes dominantes n\u00e3o aceitaram suas ambi\u00e7\u00f5es pessoais e nem precisavam disso porque, no Brasil, n\u00e3o houve uma crise de hegemonia. N\u00e3o havia a ascens\u00e3o de um movimento popular em condi\u00e7\u00f5es de chegar ao poder pol\u00edtico por uma via revolucion\u00e1ria, nem tampouco a um governo popular reformista radical por uma via eleitoral. N\u00e3o ao ponto de as fra\u00e7\u00f5es burguesas hegem\u00f4nicas abrirem m\u00e3o de um regime de democracia liberal por um regime de ditadura fascista comandada pelo \u201cDuce\u201d Bolsonaro.<\/p>\n<p>Isso porque as chamadas \u201cesquerda\u201d e \u201ccentro-esquerda\u201d predominantes no Brasil, que poderiam chegar (e realmente chegaram ao governo pela via eleitoral), n\u00e3o t\u00eam uma perspectiva que v\u00e1 al\u00e9m dos limites da ordem social burguesa e de um programa social-liberal e da manuten\u00e7\u00e3o da depend\u00eancia ao capital imperialista.<\/p>\n<p>Enfim, a grande burguesia j\u00e1 tinha dado o golpe que era do seu interesse num determinado momento (o <em>impeachment<\/em> de Dilma Rousseff). E n\u00e3o queria nem precisava ser governada ditatorialmente por um aventureiro.<\/p>\n<p>O fundamental, para o grande capital, j\u00e1 estava sendo feito sem precisar um golpe militar para continuar o servi\u00e7o.<\/p>\n<p>Assim, um golpe militar propriamente dito n\u00e3o foi um projeto que unificasse as fra\u00e7\u00f5es hegem\u00f4nicas da burguesia brasileira e internacional, nem as elites pol\u00edticas, do Judici\u00e1rio, das For\u00e7as Armadas e, muito menos, da grande m\u00eddia empresarial.<\/p>\n<p>Essa m\u00eddia \u2013 especialmente seus \u00f3rg\u00e3os mais tradicionais e org\u00e2nicos do grande capital \u2014 colocou-se em sua maioria em oposi\u00e7\u00e3o a Bolsonaro. Mas, como regra geral, apoiou sua pol\u00edtica econ\u00f4mica, procurando diferenciar os que considerava \u201cbons\u201d e os \u201cmaus\u201d dentro do governo.<\/p>\n<p>Desde sempre, o governo Bolsonaro foi tutelado: uma tutela militar civil, burguesa, por dentro do pr\u00f3prio governo e de fora para dentro. Uma parte dos militares, que participavam da tutela militar nos cargos do governo, romperam e passaram a agir por fora (ALMEIDA, 2023.c). O grande capital, na medida em que foi conseguindo seus objetivos estruturais (como as reformas neoliberais, privatiza\u00e7\u00f5es etc), passou a focar na melhora do clima pol\u00edtico-institucional, para enfrentar a prolongada crise econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Parte da tutela parlamentar entrou no governo, via Centr\u00e3o. Por outro lado, as fra\u00e7\u00f5es principais da classe dominante, da elite pol\u00edtica, da grande m\u00eddia e do judici\u00e1rio preferiam uma candidatura da chamada \u201cterceira via\u201d para 2022. Mas Bolsonaro foi um empecilho a uma \u201cterceira via\u201d com for\u00e7a eleitoral e a disputa acabou levando \u00e0 vit\u00f3ria apertada de Lula no segundo turno (ALMEIDA, 2023.c). Houve a fracassada aventura golpista de 8 de Janeiro de 2023 (ALMEIDA, 2023.a) com a digitais de Bolsonaro. Devido aos crimes que cometeu, ele recebeu duas condena\u00e7\u00f5es \u00e0 inelegibilidade pelo TSE. E est\u00e1, provavelmente, a caminho da cadeia por seu papel dirigente na tentativa de golpe de Estado.<\/p>\n<p>Enfim, o Estado \u00e9 burgu\u00eas e, apesar da escalada autorit\u00e1ria, continuou sendo liberal democr\u00e1tico representativo, n\u00e3o sendo um ente monol\u00edtico que obedece a um comando \u00fanico e sem contradi\u00e7\u00f5es. N\u00e3o houve uma ditadura pol\u00edtica, estrito senso. Houve uma tutela com conflitos, negocia\u00e7\u00f5es e acordos \u2013 alguns dos quais n\u00e3o transparentes. E funcionou \u2013 no sentido de garantir os interesses comuns das fra\u00e7\u00f5es hegem\u00f4nicas da classe dominante, \u00e9 claro.<\/p>\n<p>Naquilo que \u00e9 essencial \u00e0 hegemonia burguesa, governo, parlamento, judici\u00e1rio, pol\u00edcias, Minist\u00e9rio P\u00fablico, For\u00e7as Armadas e grande m\u00eddia agiram no mesmo sentido. E, apesar da grave crise, a hegemonia burguesa continuou forte.<\/p>\n<p>Mas, um movimento neofascista passou a ter vida pr\u00f3pria no Brasil, independente de Bolsonaro e de sua lideran\u00e7a pessoal direta.<\/p>\n<p><strong>S\u00edntese do neofascismo brasileiro<\/strong><\/p>\n<p>Como vimos, o neofascismo brasileiro tem caracter\u00edsticas do fascismo hist\u00f3rico assim como particularidades. Como o hist\u00f3rico, \u00e9 um movimento de autoritarismo militarista; a servi\u00e7o do grande capital e para reprimir as lutas do povo; antissocialista e anticomunista; liderado por um l\u00edder \u201cSalvador da p\u00e1tria\u201d; conservador na pauta dos costumes e nas rela\u00e7\u00f5es sociais, racista, xen\u00f3fobo e mis\u00f3gino; tem uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica difusa e articulada, com a\u00e7\u00f5es abertas na sociedade civil e conspirativas que cumpre, de certo modo, um papel de partido; e tem embri\u00f5es de uma estrutura paramilitar. Mas, n\u00e3o tem uma organiza\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria nem uma organiza\u00e7\u00e3o paramilitar pr\u00f3pria; pontualmente, promove a repress\u00e3o direta das massas; n\u00e3o tem limites morais; age por dentro e por fora do Estado, legal e ilegalmente; tem a cumplicidade de uma parte do aparelho jur\u00eddico coercitivo; pretende subverter a ordem.<\/p>\n<p>Entretanto, surgiu num momento de crise econ\u00f4mica, pol\u00edtica e institucional, mas n\u00e3o de crise de hegemonia. Ao contr\u00e1rio, a hegemonia burguesa estava (est\u00e1) forte e n\u00e3o corria nem corre riscos conjunturais. N\u00e3o \u00e9 estatizante \u2013 ao contr\u00e1rio, sua pol\u00edtica econ\u00f4mica \u00e9 radicalmente neoliberal; seu nacionalismo \u00e9 ret\u00f3rico e manipulativo dos s\u00edmbolos nacionais, como o verde e amarelo. Por\u00e9m, de fato, \u00e9 um movimento entreguista aberto a todo tipo de presen\u00e7a econ\u00f4mica de capitais estrangeiros. Tem uma pol\u00edtica externa oposta a uma soberania nacional e ampliou a presen\u00e7a de capitais imperialistas de v\u00e1rias origens. Finalmente, apesar dos desejos do seu l\u00edder, n\u00e3o conseguiu um dom\u00ednio do neofascismo no governo nem, muito menos, transformar o regime pol\u00edtico numa ditadura fascista.<\/p>\n<p><strong>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/strong><\/p>\n<p>Portanto, n\u00e3o h\u00e1 uma incompatibilidade entre fascismo em geral e liberalismo econ\u00f4mico. Isso se expressa no neofascismo neoliberal.<\/p>\n<p>Tampouco h\u00e1 um impedimento para uma aproxima\u00e7\u00e3o entre setores do neofascismo e uma direita liberal e\/ou conservadora tradicional que atenue os elementos mais toscos e delirantes do bolsonarismo e crie condi\u00e7\u00f5es para uma alternativa mais consensual entre as diversas fra\u00e7\u00f5es da classe dominante e de suas elites pol\u00edticas e militares. E que possa ter for\u00e7a pol\u00edtica e demonstrar viabilidade eleitoral. Essa \u00e9, hoje, a vontade pol\u00edtica da chamada \u201cterceira via\u201d.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p>ALMEIDA, Jorge. 2022: ano da consolida\u00e7\u00e3o da bipolariza\u00e7\u00e3o imperialista. In: <em>Turbul\u00eancias e Desafios: o Brasil e o mundo na crise do capitalismo<\/em>. In: ALMEIDA, Jorge; ANDRADE, Elizi\u00e1rio, 251-259. S\u00e3o Paulo: Editora Dial\u00e9tica, 2023.b.<\/p>\n<p>ALMEIDA, Jorge. 8 de janeiro: amea\u00e7as e oportunidades. <em>Outras Palavras<\/em>, 2023.a. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-brasileira\/8-de-janeiro-ameacas-e-oportunidades\/\">https:\/\/outraspalavras.net\/crise-brasileira\/8-de-janeiro-ameacas-e-oportunidades\/<\/a><\/p>\n<p>ALMEIDA, Jorge; ANDRADE, Elizi\u00e1rio. <em>Turbul\u00eancias e Desafios: o Brasil e o mundo na crise do capitalismo<\/em>. S\u00e3o Paulo: Editora Dial\u00e9tica, 2023.c.<\/p>\n<p>M\u00c9SZ\u00c1ROS, Istv\u00e1n. <em>Para al\u00e9m do capital<\/em>. S\u00e3o Paulo, Boitempo Editorial, 2002.<\/p>\n<p>GRAMSCI, Antonio. <em>Cadernos do C\u00e1rcere<\/em>. Rio de Janeiro, Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2000.<\/p>\n<p>GRAMSCI, Antonio. <em>Escritos pol\u00edticos<\/em>, vol 2. Rio de Janeiro, Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2004.<\/p>\n<p>MAESTRI, Mario e CANDREVA, Luigi. <em>Antonio Gramsci: Vida e Obra de um comunista revolucion\u00e1rio<\/em>. Ed. Express\u00e3o Popular, S\u00e3o Paulo, 2001.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-brasileira\/do-neofascismo-brasileiro-a-terceira-via\/#sdfootnote1anc\">1<\/a> Seguimos nesta se\u00e7\u00e3o com base nos v\u00e1rios artigos publicados por Gramsci durante a ascens\u00e3o do fascismo na It\u00e1lia, que est\u00e3o reunidos na colet\u00e2nea, <em>Escritos Pol\u00edticos<\/em>, Volume 2, Rio de Janeiro, Editora Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira (2004). Especialmente: <em>O povo dos macacos; Socialistas e fascistas; Subversivismo reacion\u00e1rio; Os l\u00edderes e as massas; Os arditi del Popolo; Golpe de estado; Os dois Fascismos; Legalidade; Li\u00e7\u00f5es: As origens do gabinete Mussolini<\/em>.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, seja nosso apoiador e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico: <strong><a href=\"https:\/\/apoia.se\/outraspalavras\">apoia.se\/outraspalavras<\/a><\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-brasileira\/do-neofascismo-brasileiro-a-terceira-via\/\">Do neofascismo brasileiro \u00e0 \u201cterceira via\u201d<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/russia-doa-mais-de-460-toneladas-de-oleo-a-cuba-por-meio-do-programa-mundial-de-alimentos\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">R\u00fassia doa mais de 460 toneladas de \u00f3leo a Cuba po...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/rs-tem-alerta-para-tempestades-com-granizo-e-ventania-apos-chuvas-no-natal\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">RS tem alerta para tempestades com granizo e venta...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/pcdob-passa-a-ter-1o-comite-central-com-50-de-mulheres-e-reelege-luciana-santos\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/mortos-desap_richard-silva-1024x682-1-150x150.jpeg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">PCdoB passa a ter 1\u00ba Comit\u00ea Central com 50% de mul...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/plano-de-golpe-saiba-qual-foi-a-participacao-de-cada-um-dos-34-denunciados\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Plano de golpe: saiba qual foi a participa\u00e7\u00e3o de c...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Boletim Outras Palavras Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site Assinar Loading&#8230; Assinar Loading&#8230; Agradecemos! Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura! Por Jorge Almeida T\u00edtulo original:O fascismo hist\u00f3rico e o neofascismo brasileiro A condena\u00e7\u00e3o de Jair Bolsonaro \u00e0 inelegibilidade e sua prov\u00e1vel condena\u00e7\u00e3o \u00e0 pris\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":24920,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-24919","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-uncategorized"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24919","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24919"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24919\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/24920"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24919"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24919"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24919"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}