{"id":25989,"date":"2025-05-07T09:50:04","date_gmt":"2025-05-07T12:50:04","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/mst-e-o-unico-a-produzir-sementes-de-hortalicas-agroecologicas-no-brasil\/"},"modified":"2025-05-07T09:50:04","modified_gmt":"2025-05-07T12:50:04","slug":"mst-e-o-unico-a-produzir-sementes-de-hortalicas-agroecologicas-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/mst-e-o-unico-a-produzir-sementes-de-hortalicas-agroecologicas-no-brasil\/","title":{"rendered":"MST \u00e9 o \u00fanico a produzir sementes de hortali\u00e7as agroecol\u00f3gicas no Brasil"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"386\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-1024x386-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-1024x386-1.jpg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-300x113.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-768x289.jpg 768w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-1536x578.jpg 1536w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>Foto: Brenda Vidal\/ O Joio e O Trigo <\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Por Fl\u00e1via Schiochet<br \/>Do O Joio e O Trigo<\/em><\/p>\n<p>De chap\u00e9u e botas, o casal Claudinei Anschau e Carla Schmidt conduz a reportagem do\u00a0<strong>Joio\u00a0<\/strong>pelo lote de 29 hectares numa tarde de mar\u00e7o, apontando em v\u00e1rias dire\u00e7\u00f5es: \u201cAqui \u00e9 ab\u00f3bora. L\u00e1 \u00e9 pepino. Ali \u00e9 girassol e mel\u00e3o. Nesse peda\u00e7o a gente t\u00e1 deixando lanceta, cornich\u00e3o, flor roxa e chirca crescerem pras abelhas.\u201d Os dois se intercalam ao falar, e completam a frase um do outro.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cAli ainda t\u00e1 em pousio, a gente vai plantar no inverno do ano que vem. Esse piquete \u00e9 onde as vacas v\u00eam pastar. Nessa parte, a gente vai semear cenoura em maio e, l\u00e1 por junho ou julho, cebola\u201d, continuam.\u00a0<\/p>\n<p>H\u00e1 dez anos, o casal tem uma produ\u00e7\u00e3o agroecol\u00f3gica no assentamento em Hulha Negra, no extremo sul do Rio Grande do Sul, a 30 quil\u00f4metros de Bag\u00e9. Como eles conseguem lembrar exatamente o que precisa ser feito em cada fatia do lote \u00e9 algo que nem eles sabem responder. \u201cA gente no come\u00e7o at\u00e9 fazia um mapa\u201d, conta Carla, \u201cmas as coisas mudam, depende do clima tamb\u00e9m\u201d, completa Claudinei.\u00a0<\/p>\n<p>No fim do outono, eles v\u00e3o semear cenoura e cebola em 1,5 hectare. Mas n\u00e3o para colher o que vai crescer debaixo da terra. V\u00e3o esperar as plantas darem sementes.\u00a0<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"635\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-1-635x1024-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-1-635x1024-1.jpg 635w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-1-186x300.jpg 186w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-1.jpg 743w\" sizes=\"(max-width: 635px) 100vw, 635px\"><figcaption><em>Para produzir sementes, plantas bianuais (como alho e cebola) s\u00e3o semeadas a partir de bulbos. Foto: Brenda Vidal\/O Joio e O Trigo<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Os Schmidt Anschau s\u00e3o uma das 120 fam\u00edlias que fornecem sementes para a Bionatur, a primeira empresa latinoamericana de sementes agroecol\u00f3gicas. \u00c9 gerida pela Cooperativa Agroecol\u00f3gica Nacional Terra e Vida (Conaterra), do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), e completou 28 anos em janeiro. A unidade de beneficiamento fica em Candiota, a 70 quil\u00f4metros de Bag\u00e9, no Rio Grande do Sul.\u00a0<\/p>\n<p>O n\u00famero de fam\u00edlias fornecedoras varia: come\u00e7ou com 12 e j\u00e1 chegou a 350, distribu\u00eddas em dez estados. Com o estrangulamento de pol\u00edticas p\u00fablicas nos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, o n\u00famero caiu. Atualmente, a produ\u00e7\u00e3o \u00e9 de cerca de quatro toneladas ao ano, e as sementes v\u00eam de assentados e acampados do MST em seis estados \u2013 Rio Grande do Sul, S\u00e3o Paulo, Minas Gerais, Bahia, Rio Grande do Norte e Cear\u00e1 \u2013, mas a distribui\u00e7\u00e3o \u00e9 nacional.\u00a0<\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria da Bionatur n\u00e3o foi linear. A cooperativa mudou, experimentou e se organizou de formas diferentes em quase tr\u00eas d\u00e9cadas. Agora, est\u00e1 numa esp\u00e9cie de fim de entressafra, pronta para come\u00e7ar a dar novos frutos. \u201cN\u00f3s estamos adequando nosso portf\u00f3lio \u00e0 quest\u00e3o comercial, porque n\u00e3o vamos sobreviver produzindo semente adaptada a um local s\u00f3\u201d, explica Alcemar Inhaia, presidente da Conaterra. O objetivo da Bionatur \u00e9, at\u00e9 2027, produzir oito toneladas de sementes por ano.\u00a0<\/p>\n<p>Para isso, uma segunda f\u00e1brica est\u00e1 sendo projetada na Bahia, para descentralizar o beneficiamento e receber a produ\u00e7\u00e3o dos estados do nordeste, centro-oeste e norte.<\/p>\n<p>Uma semente produzida no Rio Grande do Sul pode ir para qualquer lugar do Brasil. Mas, dependendo da esp\u00e9cie, ela n\u00e3o vai se adaptar a um clima diferente.<\/p>\n<p>Um exemplo \u00e9 o Coentro Verd\u00e3o, uma variedade plantada pelos assentados do MST tanto na Bahia quanto no Rio Grande do Sul. A venda dessas sementes ser\u00e1 nos biomas pr\u00f3ximos, porque \u00e9 onde a planta vai se desenvolver melhor. Mas isso n\u00e3o vale para qualquer semente. \u201cUma vez levamos uma alface aqui do sul para o nordeste. O ciclo dela para dar flor \u00e9 de cinco meses. Naquele calor, as flores sa\u00edram em 20 dias, a planta mal tinha se formado\u201d, relembra Inhaia.\u00a0<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"402\" height=\"817\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-2.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-2.jpg 402w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-2-148x300.jpg 148w\" sizes=\"(max-width: 402px) 100vw, 402px\"><\/figure>\n<h2>A semente vale mais<\/h2>\n<p>A especialidade da cooperativa s\u00e3o as sementes de hortali\u00e7as, mais delicadas e, muitas vezes, menores que as de leguminosas e frutas. Uma semente de alface, por exemplo, \u00e9 t\u00e3o pequena e leve que pode ser confundida com um cisco. Para produzir o pend\u00e3o com as flores, as folhas da verdura j\u00e1 amargaram e murcharam.\u00a0<\/p>\n<p>Esse ciclo mais longo requer manter a planta sadia por mais tempo. E o pre\u00e7o pago ao agricultor reflete isso: o quilo da semente \u00e9 mais valorizado. \u201cUm quilo de sementes de coentro \u00e9 comprado a R$ 8 pelas empresas sementeiras multinacionais. A gente paga R$ 18\u201d, compara Daniel da Silva, diretor da Bionatur.<\/p>\n<p>O processo de colheita tem algumas particularidades. Nem sempre a madureza se d\u00e1 ao mesmo tempo. Para colher as sementes de cenoura e cebola, por exemplo, as ra\u00edzes e os bulbos subterr\u00e2neos j\u00e1 passaram do ponto adequado para consumo. A cenoura fica fibrosa e a cebola come\u00e7a a apodrecer.<\/p>\n<p>Em frutas, as sementes est\u00e3o prontas quando o fruto come\u00e7a a mudar de cor. Depois de abrir todas, a quantidade de polpa precisa de um destino. Uma parte \u00e9 consumida pela fam\u00edlia, outra parte pode virar lavagem para porcos ou ra\u00e7\u00e3o para galinhas.\u00a0<\/p>\n<p>Depois de extra\u00eddas, elas precisam secar. As culturas de ver\u00e3o costumam ser \u00famidas, como ab\u00f3bora, mel\u00e3o e melancia. Para separar da mucilagem, aquela subst\u00e2ncia viscosa que entremeia a polpa, elas ficam de molho em \u00e1gua por cerca de 12 horas. O que boiar \u00e9 descartado. Depois, s\u00e3o enxaguadas e secas \u00e0 sombra. As de inverno \u2013 como salsa, coentro, cenoura e cebola \u2013 secam sobre um pano para permitir a ventila\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m \u00e0 sombra.\u00a0<\/p>\n<p>Esses processos nem sempre interessam aos agricultores. A voca\u00e7\u00e3o para o trabalho meticuloso parece intr\u00ednseco \u00e0 agroecologia, mas a produ\u00e7\u00e3o de sementes foi narrada como uma miss\u00e3o por v\u00e1rios camponeses. \u201cUm p\u00e9 de alface, para comercializar, em 30, 40 dias, d\u00e1 pra vender. Para a semente, \u00e9 5 meses\u201d, compara Inhaia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do manejo agroecol\u00f3gico ser livre de agrot\u00f3xicos e fertilizantes qu\u00edmicos no campo, o tratamento para armazenamento e transporte tamb\u00e9m \u00e9 bastante diferente do convencional. Em vez de fungicida, as agroecol\u00f3gicas costumam adicionar cinzas \u00e0s sementes para controle de fungos e bact\u00e9rias.\u00a0<\/p>\n<h2>Tomate e alface sem royalties<\/h2>\n<p>A Bionatur \u00e9 mantenedora de 29 varietais de dom\u00ednio p\u00fablico, como cebola, cenoura, couve, alface, tomate, ab\u00f3bora, rabanete e berinjela, e tamb\u00e9m guarda mais de 40 esp\u00e9cies crioulas, entre hortali\u00e7as, gr\u00e3os e forrageiras, trocadas ativamente com redes de outros estados e doadas a interessados, sejam do campo ou da cidade.<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"848\" height=\"584\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-11.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-11.png 848w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-300x207.png 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-768x529.png 768w\" sizes=\"(max-width: 848px) 100vw, 848px\"><\/figure>\n<p>Antes de ser uma empresa, a Bionatur \u00e9 um banco de sementes. Essa fun\u00e7\u00e3o de abastecer os agricultores assentados com material gen\u00e9tico pr\u00f3prio se mant\u00e9m. \u201cA formalidade nos garante a seguran\u00e7a de resguardar as variedades\u201d, resume Silva, diretor da Bionatur. O que a cooperativa fez foi dar um passo al\u00e9m: adaptar-se \u00e0 regra do jogo para enfrentar o\u00a0<em>status quo<\/em>.<\/p>\n<p>Uma semente entra em dom\u00ednio p\u00fablico depois de 15 a 18 anos de seu registro no Minist\u00e9rio da Agricultura e Pecu\u00e1ria (Mapa), a depender da esp\u00e9cie. S\u00e3o variedades cadastradas como cria\u00e7\u00e3o de um melhorista ou instituto de pesquisa. Passado este per\u00edodo, n\u00e3o \u00e9 mais preciso pagar\u00a0<em>royalties\u00a0<\/em>para multiplicar a semente para a venda.\u00a0<\/p>\n<p>A exclusividade da Bionatur n\u00e3o est\u00e1 nas variedades do portf\u00f3lio, e sim no manejo: os agricultores t\u00eam acompanhamento da equipe t\u00e9cnica para produzir de forma agroecol\u00f3gica, mantendo simultaneamente v\u00e1rias culturas. Al\u00e9m disso, todos os campos de produ\u00e7\u00e3o de sementes s\u00e3o certificados como org\u00e2nicos pela Rede Ecovida de Agroecologia, uma organiza\u00e7\u00e3o que re\u00fane grupos, associa\u00e7\u00f5es e cooperativas de agricultores, ONGs e associa\u00e7\u00f5es de consumidores.\u00a0<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"848\" height=\"562\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-1-5.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-1-5.png 848w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-1-300x199.png 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-1-768x509.png 768w\" sizes=\"(max-width: 848px) 100vw, 848px\"><\/figure>\n<p>S\u00f3 de sementes de tomates, a Bionatur mant\u00e9m cerca de 30 variedades; a maior parte, crioulas. Uma delas foi \u201cformalizada\u201d em 2017: o tomate Bio Feliciana, selecionado e cultivado pela agricultora Lourdes Feliciana da Silva por mais de 30 anos. Feliciana \u00e9 assentada no munic\u00edpio de Piratini, a 160 quil\u00f4metros de Bag\u00e9.\u00a0<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"555\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-2-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-2-1.jpg 1000w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-2-1-300x167.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-2-1-768x426.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\"><figcaption><em>Tomate Bio Feliciana, registrado em 2017 pela Bionatur, \u00e9 uma variedade adaptada para sistemas agroecol\u00f3gicos e org\u00e2nicos. Foto: Brenda Vidal\/ O Joio e O Trigo <\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Para registrar uma semente, \u00e9 preciso selecionar por v\u00e1rios ciclos as que apresentam as mesmas caracter\u00edsticas. \u201cForam uns cinco anos de pesquisa e adapta\u00e7\u00e3o, porque esse tomate tinha uma variabilidade bastante grande. Precisava selecionar as plantas com caracter\u00edsticas que garantam que ela n\u00e3o vai ter muita doen\u00e7a, que o ciclo vai ser longo, e que ela produziria em qualquer lugar do Brasil. E produz mesmo, muito tomate\u201d, detalha Inhaia.\u00a0<\/p>\n<p>O tomate Bio Feliciana \u00e9 do tipo cereja gra\u00fado. Seu sabor equilibra o doce e o \u00e1cido, e a variedade se adapta bem a sistemas de cultivo agroecol\u00f3gicos e org\u00e2nicos. Variedades mais pr\u00f3ximas da origem crioula costumam ser mais r\u00fasticas.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cGeralmente as crioulas produzem mais haste, tronco, biomassa. As variedades desenvolvidas para a agricultura comercial s\u00e3o selecionadas para ter menos estrutura e fruto maior. A\u00ed a planta acaba ficando fr\u00e1gil, \u00e9 mais atacada por fungo, bact\u00e9rias. Isso diminui a nutri\u00e7\u00e3o da planta e tamb\u00e9m a impede de cumprir sua parte no solo\u201d, detalha Silva, diretor da Bionatur.<\/p>\n<p>Por enquanto, o tomate Bio Feliciana \u00e9 a \u00fanica semente de propriedade intelectual da Bionatur \u2013 as demais variedades foram desenvolvidas pela\u00a0Embrapa\u00a0ou pela Universidade Federal de S\u00e3o Carlos (UFSCar), e a Bionatur det\u00e9m a licen\u00e7a de comercializa\u00e7\u00e3o. Mas, ao registrar o tomate Bio Feliciana, a Bionatur optou por abdicar dos\u00a0<em>royalties<\/em>. Ou seja, quem quiser, pode multiplicar as sementes do Bio Feliciana para vender, sem pagar tributo \u00e0 cooperativa.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, a Bionatur tem trabalhado para registrar sua segunda variedade pr\u00f3pria, o alface Bio Rainha, nos mesmos moldes.<\/p>\n<h2>Do calote \u00e0 nacionaliza\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Claudinei e Carla s\u00e3o filhos de agricultores assentados pelo MST. Os pais de ambos fugiram da fam\u00edlia para se juntarem aos acampamentos do movimento, nos anos 1980. Os Anschau s\u00e3o do noroeste do estado, e os Schmidt, do sul.\u00a0<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"566\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-2-2-1024x566-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-2-2-1024x566-1.jpg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-2-2-300x166.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-2-2-768x424.jpg 768w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-2-2.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>Claudinei Anschau e Carla Schmidt no campo de mel\u00e3o imperial, em Hulha Negra. Foto: Brenda Vidal\/O Joio e O Trigo <\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>As primeiras fam\u00edlias vieram no final dos anos 1980; a maior parte, do norte do estado. Atualmente, 1.700 fam\u00edlias vivem em 57 assentamentos nas cidades de Candiota, Hulha Negra e Pinheiro Machado, a regi\u00e3o com mais assentados do estado.<\/p>\n<p>Claudinei e Carla se conheceram no in\u00edcio dos anos 2010, e se mudaram para um lote no assentamento de Hulha Negra em 2014. \u201cSe voc\u00eas conhecessem em 2014, n\u00e3o queriam nem de presente. Era um lote de fundo, tr\u00eas metros de altura s\u00f3 de chirca e vassoura branca, n\u00e3o tinha estrada at\u00e9 aqui. Em 20 anos, passaram no m\u00ednimo umas 20 fam\u00edlias\u201d, relembra Claudinei.\u00a0<\/p>\n<p>Na verdade, a perman\u00eancia de agricultores em toda a regi\u00e3o do extremo-sul foi desafiadora por d\u00e9cadas. A regi\u00e3o de Bag\u00e9 havia sido forte na produ\u00e7\u00e3o de trigo at\u00e9 os anos 1970. \u201cNa \u00e9poca, era milho e trigo, o b\u00e1sico, mas eram pequenos agricultores. Tamb\u00e9m produziam outras coisas, como batata, mandioca e ab\u00f3boras para subsist\u00eancia\u201d, recorda o agricultor nativo da regi\u00e3o, Lu\u00eds Fl\u00e1vio Soares Abreu, conhecido como Kiki.\u00a0<\/p>\n<p>A concentra\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria e a moderniza\u00e7\u00e3o da agricultura no estado causaram um \u00eaxodo rural que, s\u00f3 na d\u00e9cada de 1970, deslocou mais de 1,2 milh\u00e3o de pessoas do campo para a cidade. A m\u00e3e e os irm\u00e3os de Kiki, inclusos. \u201cFicamos eu e meu pai. Os dois que restam no campo ainda\u201d. Ele tem 61 anos e uma filha professora.\u00a0<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"669\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-2-3.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-2-3.jpg 1000w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-2-3-300x201.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-2-3-768x514.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\"><figcaption><em>Lu\u00eds Fl\u00e1vio Soares Abreu, o Kiki, agricultor nativo da regi\u00e3o do Pampa. Foto: Brenda Vidal\/O Joio e O Trigo <\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Na d\u00e9cada seguinte, surgem movimentos de luta por direitos sociais, como o MST. No Rio Grande do Sul, a ocupa\u00e7\u00e3o da Fazenda Annoni foi um marco. Sete mil pessoas de 33 munic\u00edpios vizinhos a Sarandi, no noroeste do estado, ocuparam a fazenda em 1985. A press\u00e3o funcionou: em 1993, todas as fam\u00edlias j\u00e1 estavam assentadas. Parte delas ficou na pr\u00f3pria fazenda. E outra parte, foi para o extremo-sul em 1989, nos primeiros assentamentos em Candiota e Hulha Negra.\u00a0<\/p>\n<p>Chegaram sem entender o solo e o clima, o que plantar e como trabalhar a terra. O solo \u00e9 duro, o inverno, seco, e as ferramentas de trabalho \u00e0 \u00e9poca, inexistentes. Arar e revirar os campos eram a partir da for\u00e7a humana. Que esp\u00e9cies plantar e em que per\u00edodo, aprenderam aos poucos.<\/p>\n<p>Os agricultores locais, como a fam\u00edlia de Kiki, trabalhavam para as grandes empresas sementeiras ou de monocultivo. Por gera\u00e7\u00f5es, trabalharam a terra com esterco de animal, aduba\u00e7\u00e3o verde, pousio e variedades plantadas juntas. Eles n\u00e3o sabiam \u00e0 \u00e9poca, mas sua forma de produzir era agroecol\u00f3gica. \u201cA\u00ed, n\u00f3s, que est\u00e1vamos aqui, nos incorporamos ao movimento [sem terra]. J\u00e1 se discutia a agroecologia, e a gente ficava meio assim. A\u00ed come\u00e7amos a compreender o que era e que n\u00f3s tamb\u00e9m faz\u00edamos isso. N\u00e3o por consci\u00eancia, mas por uma necessidade\u201d, relembra Kiki.<\/p>\n<p>As primeiras oportunidades de trabalho chegaram pelas empresas produtoras de sementes, que j\u00e1 estavam instaladas no Pampa ga\u00facho.\u00a0<\/p>\n<p>A localiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa: os dias mais longos e as esta\u00e7\u00f5es demarcadas s\u00e3o ideais para o ciclo das hortali\u00e7as. Assim, elas cumprem seu ciclo completo de desenvolvimento na terra: brotam, crescem, d\u00e3o flores, frutos e produzem sementes.\u00a0<\/p>\n<p>Isso significa economia para a produ\u00e7\u00e3o comercial: em latitudes mais pr\u00f3ximas \u00e0 Linha do Equador, a cenoura nem chega a florescer. Nessas localidades, a raiz precisa ser colhida e submetida a cerca de 40 dias de vernaliza\u00e7\u00e3o, um per\u00edodo em que fica em uma c\u00e2mara fria para que a planta complete seu desenvolvimento. O processo encarece a produ\u00e7\u00e3o e n\u00e3o compete com a produtividade do clima e fotoper\u00edodo no Pampa. L\u00e1, um hectare rende 800 quilos de sementes de cenoura e 350 quilos de sementes de cebola num ano sem granizo, nem seca.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"473\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-2-4-1024x473-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-2-4-1024x473-1.jpg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-2-4-300x139.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-2-4-768x355.jpg 768w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-2-4.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>A regi\u00e3o do Pampa re\u00fane as condi\u00e7\u00f5es para o ciclo completo de hortali\u00e7as como a cenoura e a cebola, que precisam de dias mais longos e per\u00edodos de temperatura baixa para produzirem sementes. Foto: Brenda Vidal\/O Joio e O Trigo<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<h2><strong>Cebola, cenoura e salsa<\/strong><\/h2>\n<p>Sem estradas de acesso, sem luz, e ainda morando em barracas de lona preta, os assentados passaram a produzir sementes para as grandes empresas da regi\u00e3o. No in\u00edcio, eram cebola, cenoura e salsa. Foram cerca de tr\u00eas anos neste arranjo, at\u00e9 as empresas alegarem problemas de germina\u00e7\u00e3o e pararem de pagar. E n\u00e3o devolveram as sementes aos agricultores, que poderiam ser usadas para produzir alimentos.\u00a0<\/p>\n<p>Depois do calote, 12 fam\u00edlias se reuniram para come\u00e7ar a produ\u00e7\u00e3o por conta pr\u00f3pria. Em 1997, abriram um setor de sementes dentro da cooperativa de leite que existia \u00e0 \u00e9poca, no Assentamento Conquista da Fronteira, em Hulha Negra. Desde o in\u00edcio, a ideia era produzir sementes de hortali\u00e7as de forma agroecol\u00f3gica. No ano seguinte, colhiam a primeira safra sob o nome Bionatur.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cEra prec\u00e1ria a situa\u00e7\u00e3o. As pessoas colavam manualmente os sach\u00eas de sementes em casa, \u00e0 luz do lampi\u00e3o, porque n\u00e3o tinha luz el\u00e9trica\u201d, diz Kiki. Uma dessas fam\u00edlias era H\u00e9lio Anschau e Lucia Baches Anschau, os pais de Claudinei.\u00a0<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o circulava entre os agricultores familiares, como um banco de sementes, agregando tamb\u00e9m forrageiras, gr\u00e3os, flores e plantas ornamentais.\u00a0<\/p>\n<p>Nos anos 2000, a Bionatur se mudou para as depend\u00eancias do Centro de Educa\u00e7\u00e3o Popular e Pesquisa em Agroecologia (CEPPA), no assentamento Ro\u00e7a Nova, em Candiota, cidade vizinha a Hulha Negra. A localiza\u00e7\u00e3o facilitou a log\u00edstica de receber e enviar sementes.\u00a0<\/p>\n<p>Em 2005, criaram uma nova cooperativa, a Conaterra, para gerir a Bionatur. Discuss\u00f5es internas no MST definiram que a estrat\u00e9gia para nacionalizar a produ\u00e7\u00e3o era aumentar o n\u00famero de fam\u00edlias produtoras. A decis\u00e3o tamb\u00e9m servia como uma resposta \u00e0 rec\u00e9m-publicada Lei de Biosseguran\u00e7a, que dispensou a necessidade de an\u00e1lises de sa\u00fade e meio ambiente para a aprova\u00e7\u00e3o de um organismo transg\u00eanico. As sementes eram centrais na discuss\u00e3o sobre soberania alimentar e autonomia do agricultor, e sua produ\u00e7\u00e3o de forma agroecol\u00f3gica foi definida como prioridade para todo o movimento, do Oiapoque ao Chu\u00ed.\u00a0<\/p>\n<p>Os assentamentos trabalhavam de forma local, conduzindo suas produ\u00e7\u00f5es de sementes e trocando entre si. Mas logo se percebeu que, sem uma coordena\u00e7\u00e3o central, a nacionaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o iria adiante.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cTem que ter algu\u00e9m orientando, porque n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 pegar a semente e multiplicar. Tradicionalmente, os agricultores conhecem milho, feij\u00e3o e arroz. Tu larga em qualquer lugar e ela vai se multiplicar. Agora, como se multiplicam alface, r\u00facula, almeir\u00e3o?\u201d, questiona Inhaia. A escolha de sementes tamb\u00e9m era estrat\u00e9gica: era preciso variedade, e ofertar um mix que competisse com a produ\u00e7\u00e3o comercial das multinacionais.<\/p>\n<p>Outra quest\u00e3o para acertar era a rotatividade da equipe t\u00e9cnica da Bionatur. A extens\u00e3o rural para a agroecologia \u00e9 mais detalhista e integrada. A frequ\u00eancia de visitas dos t\u00e9cnicos agr\u00f4nomos da Bionatur, inclusive, \u00e9 maior, chegando a seis por ano, tr\u00eas vezes mais que a extens\u00e3o rural convencional, em muitos casos. \u201cN\u00f3s trabalhamos com todo o sistema complexo do lote, desde a produ\u00e7\u00e3o de frutas, flores, animais, mel, sementes. Tudo isso est\u00e1 interligado\u201d, relata Violeta Cavalheiro, t\u00e9cnica da Bionatur.\u00a0<\/p>\n<p>A maturidade veio ap\u00f3s o lan\u00e7amento do Programa de Aquisi\u00e7\u00e3o de Alimentos (PAA), em 2003. A Bionatur passou a acessar a modalidade de doa\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea em 2007. Dali at\u00e9 2010, registrou os maiores volumes de produ\u00e7\u00e3o, variedades de sementes e n\u00famero de fam\u00edlias fornecedoras. At\u00e9 hoje, 8 em cada 10 sementes vendidas s\u00e3o para o mercado institucional.\u00a0<\/p>\n<p>Em 2013, com a Opera\u00e7\u00e3o Agro Fantasma, que investigava supostos desvios no PAA, o acesso ao programa se tornou mais burocr\u00e1tico. Foi criada uma modalidade espec\u00edfica, o PAA Sementes, e exigido um intermediador para fazer a solicita\u00e7\u00e3o. Uma cooperativa ou associa\u00e7\u00e3o s\u00f3 poderia comprar sementes de outra se, por exemplo, uma prefeitura, assist\u00eancia t\u00e9cnica ou \u00f3rg\u00e3o do governo solicitasse.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cAs sementes fazem parte de um campo de disputa muito profundo pelas empresas transnacionais, pelo agroneg\u00f3cio. Qualquer coisa que fortale\u00e7a uma semente que n\u00e3o \u00e9 a industrial, voc\u00ea t\u00e1 brigando com todo um sistema regulat\u00f3rio\u201d, analisa Naiara Bittencourt, da assessoria da Diretoria de Pol\u00edtica Agr\u00edcola e Informa\u00e7\u00f5es da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a desmobilizou a atua\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias associa\u00e7\u00f5es de agricultores. Mas n\u00e3o a Bionatur: como j\u00e1 atuava de forma comercial, a dificuldade n\u00e3o foi enfrentar a burocracia, mas ter destinat\u00e1rio para as sementes.\u00a0<\/p>\n<p>Quando Michel Temer assumiu a presid\u00eancia ap\u00f3s o\u00a0<em>impeachment\u00a0<\/em>de Dilma Rousseff, todas as modalidades do PAA tiveram diminui\u00e7\u00e3o de or\u00e7amento. No governo de Jair Bolsonaro, o programa foi rebatizado e o or\u00e7amento, extinto. Por anos, o PAA operou com emenda parlamentar.<\/p>\n<p>Foi o per\u00edodo mais minguado para a cooperativa: diminu\u00edram as vendas e a compra da produ\u00e7\u00e3o de sementes dos assentados. A recupera\u00e7\u00e3o veio em 2023, com a recria\u00e7\u00e3o da compra de sementes pela modalidade de doa\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea, retirando uma s\u00e9rie de burocracias criadas ap\u00f3s a Opera\u00e7\u00e3o Agro Fantasma. A demanda voltou a crescer, bem a tempo de mitigar os estragos das enchentes que assolaram o Rio Grande do Sul em 2024.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s entregamos toda a nossa semente de cebola para os produtores que perderam suas lavouras. Agora, estamos enviando mais de R$ 300 mil em kits com umas 20 variedades para esses agricultores plantarem\u201d, detalha Violeta Cavalheiro, t\u00e9cnica da Bionatur.\u00a0<\/p>\n<h2>Sistema formal e eros\u00e3o gen\u00e9tica<\/h2>\n<p>A reprodu\u00e7\u00e3o vegetal \u00e9 generosa por natureza: a colheita de sementes de um hectare de rabanete enche uma bombona de 20 litros no Pampa ga\u00facho \u2013 esse volume vai semear centenas de outros campos.\u00a0<\/p>\n<p>O agricultor precisa de duas coisas: terra e sementes. A primeira foi transformada em propriedade privada h\u00e1 s\u00e9culos. Mas as sementes, at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, eram insumos de uso comum.\u00a0<\/p>\n<p>A primeira lei que regulamenta a venda de sementes no Brasil \u00e9 a 4.727, de 1965, com o objetivo de garantir uma padroniza\u00e7\u00e3o. Mesma d\u00e9cada em que a Revolu\u00e7\u00e3o Verde mudou a produ\u00e7\u00e3o no campo com seu pacote tecnol\u00f3gico \u2013 fertilizantes qu\u00edmicos, agrot\u00f3xicos e maquin\u00e1rio agr\u00edcola.\u00a0<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"837\" height=\"765\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-2-5.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-2-5.png 837w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-2-300x274.png 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-2-768x702.png 768w\" sizes=\"(max-width: 837px) 100vw, 837px\"><\/figure>\n<p>As sementes foram fundamentais nesse processo. As mesmas ind\u00fastrias que desenvolveram o pacote tecnol\u00f3gico, passaram a trabalhar na sele\u00e7\u00e3o de variedades com maior produtividade. Isso, e ciclos de vida mais curtos, s\u00e3o as caracter\u00edsticas desejadas comercialmente at\u00e9 hoje.\u00a0<\/p>\n<p>Se antes cada agricultor tinha sua \u201cbiblioteca\u201d pr\u00f3pria de sementes, que j\u00e1 estavam adaptadas \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de clima e solo de sua regi\u00e3o, a press\u00e3o por aumento de produ\u00e7\u00e3o, a lei exigindo padr\u00e3o e o surgimento das cultivares das ind\u00fastrias sementeiras fez muitos agricultores deixarem de guardar, trocar ou vender sementes pr\u00f3prias. Passaram a usar as das sementeiras multinacionais, fossem elas variedades selecionadas ou h\u00edbridas.\u00a0<\/p>\n<p>No primeiro caso, os agricultores at\u00e9 conseguem guardar as sementes e produzir em anos seguintes. Mas conforme passam as safras, novas combina\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas fazem com que as plantas percam o padr\u00e3o das caracter\u00edsticas iniciais \u2013 esse processo, chamado de segrega\u00e7\u00e3o, \u00e9 natural. No segundo caso, o vigor h\u00edbrido, que traz mais produtividade para a planta, diminui a cada ciclo, e novas sementes precisam ser compradas para manter o mesmo n\u00edvel de produtividade.<\/p>\n<p>Duas d\u00e9cadas ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o Verde come\u00e7ar, os pesquisadores e melhoristas j\u00e1 percebiam a diminui\u00e7\u00e3o acentuada de variabilidade gen\u00e9tica. Iraj\u00e1 Antunes, engenheiro agr\u00f4nomo especializado em melhoramento vegetal da Embrapa Clima Temperado, relata que nos anos 1980, come\u00e7ou um movimento internacional para coleta e preserva\u00e7\u00e3o de materiais gen\u00e9ticos crioulos.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cCom o advento dessa agricultura que eu chamo de sint\u00e9tica, a agricultura moderna, o processo de eros\u00e3o gen\u00e9tica estava muito acelerado\u201d, diz. \u201cE quanto mais diverso for um ecossistema, mais resili\u00eancia ele ter\u00e1. No momento de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas que estamos vivendo, necessitamos cada vez mais da diversidade gen\u00e9tica nos campos\u201d.<\/p>\n<p>Segundo os especialistas ouvidos pelo\u00a0<strong>Joio<\/strong>, essa diversidade n\u00e3o tem sido incentivada em pol\u00edticas p\u00fablicas al\u00e9m do PAA Sementes, que consideram insuficiente. E a legisla\u00e7\u00e3o brasileira tampouco ajuda.\u00a0<\/p>\n<p>Em 1997, a Lei de Prote\u00e7\u00e3o de Cultivares (9.456) passou a reconhecer o direito \u00e0 propriedade intelectual. Em 2003, a Lei de Sementes e Mudas (10.711) complementa o arcabou\u00e7o legal com normas para a produ\u00e7\u00e3o, beneficiamento e comercializa\u00e7\u00e3o, cria o Registro Nacional de Sementes (Renasem) e traz uma s\u00e9rie de padr\u00f5es que as sementes precisam apresentar, comprovados por laudos em laborat\u00f3rio, como vigor, germina\u00e7\u00e3o e pureza. \u00c9, tamb\u00e9m, a primeira vez que uma legisla\u00e7\u00e3o reconhece as sementes crioulas.<\/p>\n<p>\u201cDe um modo geral, a lei 10.711 foi boa por trazer a defini\u00e7\u00e3o de semente crioula, s\u00f3 que deveria ter sido feito de outra forma, para a prote\u00e7\u00e3o da biodiversidade. A l\u00f3gica \u00e9 a de mercado, muito empresarial. E o agricultor vira um consumidor, quando ele deveria ser o protagonista\u201d, critica Katya Isaguirre-Torres, professora de Direito Agr\u00e1rio e Direito Ambiental da Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR).<\/p>\n<p>As crioulas s\u00e3o dispensadas de cadastro no Renasem \u2013 tamb\u00e9m por isso, n\u00e3o h\u00e1 nenhum banco de dados sobre a quantidade existente no Brasil. Tampouco h\u00e1 um mapeamento oficial de bancos ou casas de sementes comunit\u00e1rias. \u00c9 da natureza da din\u00e2mica camponesa tradicional que esses arranjos sejam locais, descentralizados e din\u00e2micos.<\/p>\n<p>\u201cHoje, como est\u00e1 estruturada a normativa brasileira, especialmente a Lei de Sementes e Mudas, permite-se que exista um mercado de sementes crioulas, que exista um mercado da agricultura familiar, contanto que ele fique ensimesmado, nele mesmo\u201d, observa Naiara Bittencourt, da Conab.\u00a0<\/p>\n<p>Se a perda das variedades crioulas \u00e9 um ponto de aten\u00e7\u00e3o, o mesmo vale para varietais. \u201cE quando a semente cai em dom\u00ednio p\u00fablico, quem \u00e9 que vai manter essa reserva? Porque, se n\u00e3o for mais lucrativo, a empresa vai deixar de produzir semente e a gente vai ter uma eros\u00e3o gen\u00e9tica\u201d, alerta Katya.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio de lacunas institucionais e amea\u00e7a \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade, experi\u00eancias como a da Bionatur mostram um caminho poss\u00edvel \u2013 e h\u00edbrido.<\/p>\n<p>Com um p\u00e9 fincado no campo agroecol\u00f3gico e o outro no sistema formal comercial de sementes, a Bionatur agora enfrenta tr\u00eas desafios, e eles est\u00e3o encadeados. O primeiro \u00e9 garantir assist\u00eancia t\u00e9cnica especializada para os produtores de todo o Brasil. Com isso, aumenta a produ\u00e7\u00e3o e o estoque de sementes. E, por fim, a comercializa\u00e7\u00e3o de um maior volume aumenta a renda no campo. Kiki, o mais velho da turma olha para isso com otimismo: \u201cA cooperativa \u00e9 jovem. Tem muito pra construir e s\u00f3 vai melhorar\u201d.<\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/2025\/05\/07\/mst-e-o-unico-a-produzir-sementes-de-hortalicas-agroecologicas-no-brasil\/\">MST \u00e9 o \u00fanico a produzir sementes de hortali\u00e7as agroecol\u00f3gicas no Brasil<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/\">MST<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/sul21.com.br\/opiniao\/2025\/09\/cretinismo-parlamentar-e-a-blindagem-do-poder-por-erick-kayser\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Cretinismo parlamentar e a blindagem do poder (por...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/navios-aguardam-condicoes-seguras-para-retomar-travessia-pelo-estreito-de-ormuz\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/moscow_stars-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Navios aguardam \u2018condi\u00e7\u00f5es seguras\u2019 para retomar t...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/moraes-troca-prisao-de-militares-por-curso-de-democracia-e-trabalho-comunitario\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Moraes troca pris\u00e3o de militares por curso de demo...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/usp-promove-ato-em-defesa-da-soberania-nacional-com-apoio-de-mais-de-160-entidades\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">USP promove ato em defesa da soberania nacional co...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foto: Brenda Vidal\/ O Joio e O Trigo Por Fl\u00e1via SchiochetDo O Joio e O Trigo De chap\u00e9u e botas, o casal Claudinei Anschau e Carla Schmidt conduz a reportagem do\u00a0Joio\u00a0pelo lote de 29 hectares numa tarde de mar\u00e7o, apontando em v\u00e1rias dire\u00e7\u00f5es: \u201cAqui \u00e9 ab\u00f3bora. 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