{"id":26215,"date":"2025-05-07T19:42:56","date_gmt":"2025-05-07T22:42:56","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/crise-civilizatoria-a-saida-nao-esta-no-ocidente\/"},"modified":"2025-05-07T19:42:56","modified_gmt":"2025-05-07T22:42:56","slug":"crise-civilizatoria-a-saida-nao-esta-no-ocidente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/crise-civilizatoria-a-saida-nao-esta-no-ocidente\/","title":{"rendered":"Crise civilizat\u00f3ria: A sa\u00edda n\u00e3o est\u00e1 no Ocidente"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"480\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/1456649_616847101760387_5376688510676961618_n.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/1456649_616847101760387_5376688510676961618_n.jpg 640w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/1456649_616847101760387_5376688510676961618_n-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\"><figcaption>M\u00e1scara do povo africano Dogon (Mali). Foto: site Toda Materia<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>Os ideais do Ocidente \u2013 uma v\u00e3 tentativa de reparar a \u201cqueda do homem\u201d<\/strong><br \/>\u201c<em>Se alguma coisa pode definir \u2018o Ocidente\u2019,<\/em><br \/><em>\u00e9 a busca da salva\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria.<\/em><br \/><em>O que distingue a civiliza\u00e7\u00e3o ocidental<\/em><br \/><em>de todas as outras \u00e9 antes a teleologia hist\u00f3rica<\/em><br \/>\u2013 <em>a cren\u00e7a de que a hist\u00f3ria tem<\/em><br \/><em>uma finalidade ou meta intr\u00ednseca \u2013<\/em><br \/><em>do que as tradi\u00e7\u00f5es de democracia e toler\u00e2ncia.\u201d<\/em><br \/>(<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/o-pessimismo-esclarecido-de-john-n-gray\/\">John Gray<\/a>)<\/p>\n<p>\u201c<em>O Ocidente busca em v\u00e3o uma forma<\/em><br \/><em>de agonia digna de seu passado.\u201d<\/em><br \/>(<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Emil_Cioran\">Emil Cioran<\/a>)<\/p>\n<p>Ap\u00f3s esse longo per\u00edodo de permanente conflagra\u00e7\u00e3o do tempo dos imp\u00e9rios, que tratamos no <em><strong><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/uma-autopsia-do-ocidente\/\">texto anterior<\/a><\/strong><\/em>, resultante da expans\u00e3o da <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/como-nasceu-e-germinou-a-civilizacao-patriarcal\/\">nova sociabilidade patriarcal<\/a>, ocorrida na antiguidade, foi que afloraram os ideais do Ocidente. Foi o momento em que gregos, fen\u00edcios e judeus romperam com o entendimento c\u00edclico sobre o mundo e passaram a direcionar os desejos humanos para a raz\u00e3o, a metaf\u00edsica, a a\u00e7\u00e3o e a permanente busca do novo, todos convergindo para a necessidade de <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/a-perigosa-agonia-do-mundo-patriarcal\/\">progresso<\/a>, como meio de alcan\u00e7ar uma reden\u00e7\u00e3o humana na Hist\u00f3ria, face \u00e0 destrutividade vivenciada no tempo da <em>Ordem Imperial<\/em>. Foi nesse contexto que irrompeu o <em>ideal greco-judaico<\/em> que orientou o turbulento processo civilizat\u00f3rio do <em>Ocidente<\/em>, tendo alcan\u00e7ado uma escala planet\u00e1ria no final do s\u00e9culo passado, com a expans\u00e3o da sociabilidade mercadol\u00f3gica, por meio do fen\u00f4meno da <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Globaliza%C3%A7%C3%A3o\">globaliza\u00e7\u00e3o<\/a>, que exportou o modo de viver ocidental para todos os rinc\u00f5es do planeta.<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/apoia.se\/outraspalavras\" aria-label=\"MAT\u00c9RIA-2\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/MATERIA-2-2.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/MATERIA-2-2.png 681w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-2-300x75.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 681px) 100vw, 681px\" width=\"681\" height=\"171\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>Assim como as religi\u00f5es monote\u00edstas, a <a href=\"https:\/\/pt.m.wikipedia.org\/wiki\/Filosofia_da_hist%C3%B3ria\">filosofia<\/a> e sua necessidade de afirmar a <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Filosofia_racionalista\"><em>Raz\u00e3o<\/em><\/a> como elemento fundante da exist\u00eancia do <em>Ser<\/em> e do <em>Universo<\/em> parece ter se tornado um dos principais sintomas da inquieta\u00e7\u00e3o humana ap\u00f3s a profunda desintegra\u00e7\u00e3o civilizat\u00f3ria causada pelas <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Hip%C3%B3tese_Curg%C3%A3\">expans\u00f5es kurgan<\/a> na <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Civiliza%C3%A7%C3%A3o_da_Europa_Antiga\">Europa Antiga<\/a>, conforme abordado no texto anterior. O fil\u00f3sofo Bertrand Russell, ao escrever os tr\u00eas volumes do seu abrangente livro <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Hist%C3%B3ria_da_Filosofia_Ocidental\"><em>Hist\u00f3ria da Filosofia Ocidental<\/em><\/a> (1945), que lhe rendeu um Nobel de Literatura em 1950, parece ter intu\u00eddo o qu\u00e3o conflituosa \u00e9 a filosofia elaborada pelos gregos, que sustenta o modo de pensar do Ocidente. Dizia ele: \u201ca filosofia, conforme entendo a palavra, \u00e9 algo intermedi\u00e1rio entre a teologia e a ci\u00eancia. (\u2026) Mas entre a teologia e a ci\u00eancia existe uma Terra de Ningu\u00e9m, exposta aos ataques de ambos os campos: essa Terra de Ningu\u00e9m \u00e9 a filosofia.\u201d<\/p>\n<p>Para os ideais greco-judaicos e seus suced\u00e2neos romano-crist\u00e3os \u2013 que nunca se harmonizaram e, mesmo assim, sustentaram a din\u00e2mica do Ocidente por mais de 3 mil anos \u2013 s\u00f3 existem duas lentes a partir das quais o mundo humano \u00e9 percebido e, sobretudo, moldado:<\/p>\n<p>1) <strong>a teol\u00f3gica<\/strong>, orientada pelos dogmas da f\u00e9, que atribui o infort\u00fanio humano ao \u201c<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Pecado_original\">pecado original<\/a>\u201d, resultante do desfrute da \u201c<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/%C3%81rvore_da_Ci%C3%AAncia_do_Bem_e_do_Mal\">\u00e1rvore do conhecimento do bem e do mal<\/a>\u201d, imperfei\u00e7\u00e3o a ser sanada com o retorno de um Salvador. Uma perspectiva que, inclusive, tem sua <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Filosofia_da_religi%C3%A3o\">vertente filos\u00f3fica<\/a> que se dedica \u00e0 justifica\u00e7\u00e3o e \u00e0 epistemologia da cren\u00e7a na exist\u00eancia de Deus.<\/p>\n<p>2) e <strong>a teleol\u00f3gica<\/strong>, influenciada pela cren\u00e7a num <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Teleologia\"><em>T\u00e9los<\/em><\/a> guiado pela <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Raz%C3%A3o\"><em>Raz\u00e3o<\/em><\/a>, para a qual s\u00f3 o rem\u00e9dio do <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Estado\">Estado hobbesiano<\/a> (seja ele liberal, marxista, ou mesmo <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Transumanismo\">transumanista<\/a>) poder\u00e1, progressivamente, curar os males humanos e, um dia, alcan\u00e7ar o <em>Fim<\/em> \u2013 ou seja, civiliz\u00e1-los. <em>T\u00e9los<\/em> este que, pelo menos nos \u00faltimos 200 anos, est\u00e1 orientado pela <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Critique_of_Economic_Reason\"><em>Raz\u00e3o econ\u00f4mica<\/em><\/a><em>,<\/em> t\u00e3o bem desmitificada pelo fil\u00f3sofo <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Andr%C3%A9_Gorz\">Andr\u00e9 Gorz<\/a>.<\/p>\n<p>A perspectiva teol\u00f3gica certamente irrompeu primeiro e, assim, talvez tenha contribu\u00eddo para forjar e refor\u00e7ar a perspectiva teleol\u00f3gica. O Ocidente tem seus prim\u00f3rdios vinculados ao nascimento do <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Juda%C3%ADsmo\">juda\u00edsmo<\/a>, dezoito s\u00e9culos antes da Era Crist\u00e3, conforme consta nos registros do <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/G%C3%AAnesis\">G\u00eanesis<\/a>, no primeiro livro do <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Pentateuco\">Pentateuco<\/a>, que narra o longo p\u00e9riplo que vai desde uma suposta cria\u00e7\u00e3o do mundo, passando por <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Abel\">Abel<\/a>, <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/No%C3%A9\">No\u00e9<\/a> e <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Abra%C3%A3o\">Abra\u00e3o<\/a>, at\u00e9 a partida de <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Jos%C3%A9_(filho_de_Jacob)\">Jos\u00e9<\/a> para o Egito, isto \u00e9, desde o presumido <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Ad%C3%A3o_e_Eva\">nascimento do homem<\/a> para a liberdade at\u00e9 a sua expuls\u00e3o do <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Jardim_do_%C3%89den\">Jardim do \u00c9den<\/a>, quando se instala a trag\u00e9dia da sua <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Escravatura\">escravid\u00e3o<\/a>.<\/p>\n<p>Esse momento inicial do juda\u00edsmo parece ter sido um dos principais gatilhos que desencadeou o processo de cria\u00e7\u00e3o de uma nova vis\u00e3o de mundo que parece ter sedimentado irremediavelmente a separa\u00e7\u00e3o <em>Homem<\/em> e <em>Natureza<\/em>, como bem relatou o escritor franc\u00eas <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Jacques_Attali\">Jacques Attali<\/a> no livro <em>Os judeus, o dinheiro e o mundo<\/em> (Futura, 2002), uma das mais completas e consistentes obras acerca dos tr\u00eas mil anos da conflituosa e sofrida hist\u00f3ria das intermin\u00e1veis peregrina\u00e7\u00f5es do povo judeu. Vale frisar aqui que, segundo o longo relato registrado nas 646 p\u00e1ginas desse livro, a \u00edntima rela\u00e7\u00e3o dos judeus com a atividade comercial parece ter sido fruto de uma imposi\u00e7\u00e3o por sobreviv\u00eancia diante de circunst\u00e2ncias de vida sempre muito adversas. Attali destaca essa profunda ruptura cultural na seguinte passagem:<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201c<em>Pela primeira vez, uma cosmogonia n\u00e3o se v\u00ea como c\u00edclica: n\u00e3o fixa como seu alvo o retorno da mesma coisa. Ela estabelece um sentido para o progresso; faz da Alian\u00e7a com Deus a flecha do tempo; atribui ao homem a escolha de seu destino: o livre-arb\u00edtrio. Assim \u00e9 colocada a fun\u00e7\u00e3o da economia: quadro material do ex\u00edlio e meio de reinven\u00e7\u00e3o do para\u00edso perdido. Doravante, a humanidade tem um objetivo: superar seu erro. Ela disp\u00f5e de um meio para alcan\u00e7\u00e1-lo: fazer o tempo frutificar.<\/em><\/p>\n<p><em>Mas, conta o G\u00eanesis, tudo perde o rumo, gera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s gera\u00e7\u00e3o. Em vez de trabalharem para reinventar um novo Jardim da Del\u00edcias, os homens afastam-se dele por seus conflitos e ambi\u00e7\u00f5es.\u201d<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A partir de ent\u00e3o, foi nesse compasso que sempre predominou uma vis\u00e3o de cunho teol\u00f3gico de que, ap\u00f3s o ser humano ter experimentado da <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/%C3%81rvore_da_Ci%C3%AAncia_do_Bem_e_do_Mal\">\u00c1rvore do Conhecimento<\/a>, ele se viu expulso do <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Para%C3%ADso\">para\u00edso<\/a> e condenado a ter que prover seu sustento pelo trabalho incessante, normalmente em prol dos privil\u00e9gios de uma minoria. Combinada tamb\u00e9m com vis\u00f5es <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Teleologia\">teleol\u00f3gicas<\/a> (a ideia de que a hist\u00f3ria tem uma finalidade) e <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Escatologia\">escatol\u00f3gicas<\/a> (e tamb\u00e9m ter\u00e1 um fim) por tr\u00e1s das cren\u00e7as <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Milenarismo\">milenaristas<\/a> (a convic\u00e7\u00e3o de que o tempo \u00e9 linear e, portanto, a hist\u00f3ria \u00e9 regida por um <em>Princ\u00edpio<\/em> e um <em>Fim<\/em>), o animal humano passou, assim, a ter que suportar uma vida irremediavelmente conflituosa como pre\u00e7o de uma longa espera por reden\u00e7\u00e3o, em algum lugar no futuro. Da\u00ed em diante, o mundo humano, dito \u201c<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Civilidade\">civilizado<\/a>\u201d, fragmentou-se entre classes sociais, \u00e9tnicas e religiosas, tornando-se um permanente e inesgot\u00e1vel palco de guerras, massacres, genoc\u00eddios e destrui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/elefanteeditora.com.br\/loja\/\" aria-label=\"ELEFANTE-final\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/ELEFANTE-final.gif\" alt=\"\" width=\"728\" height=\"90\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>Paralelamente ao alvorecer das religi\u00f5es monote\u00edstas, os primeiros esbo\u00e7os de uma <a href=\"https:\/\/pt.m.wikipedia.org\/wiki\/Filosofia_da_hist%C3%B3ria\">filosofia<\/a> sobre a exist\u00eancia e o funcionamento do mundo nascia no Antigo Egito e na Mesopot\u00e2mia, entre 3.000 a 1.200 a.C.. Por volta do s\u00e9culo VI a. C., uma explos\u00e3o criativa ocorre na <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Gr%C3%A9cia_Antiga\">Gr\u00e9cia Antiga<\/a> e uma <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Filosofia_da_Gr%C3%A9cia_Antiga\">filosofia do Ocidente<\/a> come\u00e7a a ser formulada pela inventividade de alguns not\u00e1veis gregos, que vai de Tales de Mileto a Arist\u00f3teles, tendo inspirado todo o chamado <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Per%C3%ADodo_helen%C3%ADstico\">per\u00edodo helen\u00edstico<\/a>. Posteriormente, expoentes como Santo Agostinho promoveram a <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Neoplatonismo_e_Cristianismo\">fus\u00e3o<\/a> do cristianismo com o neoplatonismo, que influenciou o longo <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Filosofia_medieval\">per\u00edodo medieval<\/a>. Nessa esteira, muitas outras correntes de pensamento, como a retomada <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Renascimento\">renascentista<\/a> que projetou a supremacia europeia sobre o resto do mundo, o <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Racionalismo\">racionalismo<\/a> (de Descartes, Bacon, Leibniz, Hegel e tantos outros), o <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Positivismo\">positivismo<\/a> (de Henri de Saint-Simon e Auguste Comte), o <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Iluminismo\">iluminismo<\/a> (de Voltaire a Lenin), e mais recentemente, o <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Transumanismo\">transumanismo<\/a> que emanou do Vale do Sil\u00edcio nos anos 1980, foram determinantes para conserva\u00e7\u00e3o do intermin\u00e1vel projeto de aprimoramento da condi\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>Foi nessa cad\u00eancia que o <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/a-perigosa-agonia-do-mundo-patriarcal\/\">mito do progresso<\/a>, ideal-mestre do Ocidente, capturou a imagina\u00e7\u00e3o humana sempre em busca de um <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Novo_Homem\">Novo Homem<\/a> e de um <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Novo_Mundo\">Novo Mundo<\/a>, racionalizado e livre das supostas imperfei\u00e7\u00f5es e impurezas da natureza humana. Talvez imaginando ser poss\u00edvel, nesse ritmo, reparar a \u201c<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Queda_do_homem\">queda do homem<\/a>\u201d, esse ideal de progresso acabou por ampli\u00e1-la e fortalecer cada vez mais o padr\u00e3o cultural de conviv\u00eancia patriarcal, com uma vis\u00e3o hierarquizada e fragmentada do mundo, por meio da sofistica\u00e7\u00e3o dos seus instrumentos de apropria\u00e7\u00e3o, dom\u00ednio e controle da realidade.<\/p>\n<h3><strong>O \u201cesp\u00edrito do tempo\u201d e sua amb\u00edgua seta do aprimoramento civilizat\u00f3rio<\/strong><\/h3>\n<p>Todos os experimentos do Ocidente visando conter o <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/um-saida-avampirizacao-do-planeta\/\">conflito humano<\/a> fracassaram e sucumbiram, deixando para tr\u00e1s um incalcul\u00e1vel rastro de destrui\u00e7\u00e3o de recursos naturais e de vidas humanas. Foi assim com o cristianismo e, na sequ\u00eancia, com o secularismo dos Estados-na\u00e7\u00e3o. J\u00e1 est\u00e1 sendo assim neste turbulento in\u00edcio do s\u00e9culo XXI com o <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Critique_of_Economic_Reason\">mercado<\/a> <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Transumanismo\">transumanista<\/a>, o novo <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Leviat%C3%A3_(livro)\">Leviat\u00e3<\/a> emergente patrocinado pelo neoliberalismo totalizante (que sob a tutela do deus-mercado est\u00e1 desconstituindo o Estado-na\u00e7\u00e3o) iniciado nos anos 1970. Felizmente, esse ideal de moldar as realidades segundo uma imagem de mundo ocidental \u00e9 uma quimera irrealiz\u00e1vel.<\/p>\n<p>Concomitantemente a esses eventos fundantes do <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Mundo_ocidental\">mundo ocidental<\/a>, surgiram a <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Hist%C3%B3ria_da_ci%C3%AAncia\">ci\u00eancia<\/a> e o ideal de <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Hist%C3%B3ria_da_democracia\">democracia<\/a>, os \u00fanicos vetores cognitivos de natureza n\u00e3o-patriarcal que ainda conseguem fazer algum contraponto ao avan\u00e7o da normaliza\u00e7\u00e3o da apropria\u00e7\u00e3o patriarcal levada a cabo pela filosofia ocidental, como identificou o neurobi\u00f3logo chileno <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/maturana-sem-cooperacao-e-alteridade-nao-ha-futuro\/\">Humberto Maturana<\/a>, nos seguintes termos:<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201c<em>A ci\u00eancia e a filosofia como modos diversos de lidar com o objeto surgem junto com a democracia, no processo que d\u00e1 origem ao emocionar da objetiva\u00e7\u00e3o. Contudo, como tanto a democracia quanto a ci\u00eancia s\u00e3o rupturas matr\u00edsticas da rede de conversa\u00e7\u00f5es patriarcais, ambas enfrentam uma cont\u00ednua oposi\u00e7\u00e3o patriarcal. Esta as destr\u00f3i totalmente, ou as distorce, submergindo-as numa classe de formalismo filos\u00f3fico hier\u00e1rquico.\u201d<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A hist\u00f3ria da filosofia mostra, portanto, que o Ocidente \u00e9 o resultado das ideias de homens que, influenciando-se e contrapondo-se uns aos outros, presos \u00e0 teia recursiva da cultura patriarcal europeia, tentaram moldar a realidade segundo suas cosmovis\u00f5es e, assim, deixaram um enorme legado de ideologias e estruturas que sustentam e movimentam, at\u00e9 hoje, a engrenagem da conflituosa hist\u00f3ria ocidental. Inclusive, a natureza patriarcal impl\u00edcita na filosofia (e, sobretudo, nas religi\u00f5es monote\u00edstas), torna-se autoevidente tamb\u00e9m pelo fato de quase n\u00e3o existirem mulheres entre os grandes insignes da intelectualidade do Ocidente. O homem (com a mulher em um plano inferior e subserviente) tornou-se \u201ca medida de todas as coisas\u201d, como vaticinou o fil\u00f3sofo grego <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Prot%C3%A1goras\">Prot\u00e1goras<\/a> (490 a. C.).<\/p>\n<p>O animal humano, mesmo com o esfor\u00e7o dos ideais greco-judaicos de conceber por meio da filosofia e da religi\u00e3o um <em>ethos<\/em> amparado numa suposta ordem racional existente no mundo, que pudesse reparar a sua \u201c<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Queda_do_homem\">queda<\/a>\u201d, parece ter ampliado ainda mais seu afastamento da Natureza, isolando-se irreparavelmente do seu verdadeiro lugar no mundo natural. O escritor brit\u00e2nico <a href=\"https:\/\/www.newstatesman.com\/politics\/2021\/07\/west-isn-t-dying-its-ideas-live-china\">John Gray<\/a> sintetizou bem esse dilema quando disse: \u201cSe voc\u00ea busca as origens da \u00e9tica, olhe as vidas de outros animais. As ra\u00edzes da \u00e9tica est\u00e3o nas virtudes animais. Os humanos n\u00e3o podem viver bem sem as virtudes que partilham com seus parentes animais.\u201d<\/p>\n<p>O Ocidente \u00e9, portanto, o conjunto de ideais que deu um significado e moveu o mundo humano em dire\u00e7\u00e3o a uma suposta necessidade de <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Civiliza%C3%A7%C3%A3o\">aprimoramento civilizat\u00f3rio<\/a>, para escapar da insuport\u00e1vel barb\u00e1rie que configurou o longo per\u00edodo das <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Hip%C3%B3tese_Curg%C3%A3\">conquistas kurgan<\/a> respons\u00e1veis pela destrui\u00e7\u00e3o das culturas origin\u00e1rias em vastas regi\u00f5es no entorno do Mediterr\u00e2neo, por imp\u00e9rios que se digladiavam permanentemente entre si. O Ocidente, e apenas ele, tornou-se o motor e o <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Zeitgeist\">\u201cesp\u00edrito da hist\u00f3ria\u201d<\/a>, confirmando o postulado de Hegel: \u201ca hist\u00f3ria universal vai do leste para oeste, pois a Europa \u00e9 o fim da hist\u00f3ria universal, e a \u00c1sia \u00e9 o come\u00e7o\u201d. Uma ironia da <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Complexidade\">complexidade do real<\/a>, Hegel identificou a seta do aprimoramento civilizat\u00f3rio seguindo de leste para oeste, contr\u00e1ria aos atributos de uma realidade que sempre apontou mais para o Oriente do que para o Ocidente. Hegel na verdade foi assertivo em sua representa\u00e7\u00e3o fiel sobre a rota regressiva de um Ocidente guiado pela apropria\u00e7\u00e3o, cada vez mais distante de um Oriente que buscou libertar o homem da impossibilidade do apoderamento e do dom\u00ednio da realidade.<\/p>\n<p>Talvez tenha chegado o momento de encerrarmos essa marcha da insensatez, j\u00e1 que o sonho do Ocidente exauriu n\u00e3o s\u00f3 todas as suas possibilidades de realiza\u00e7\u00e3o na Hist\u00f3ria como est\u00e1 exaurindo a pr\u00f3pria Hist\u00f3ria. A prop\u00f3sito, vale lembrar outro elucidativo <em>insight<\/em> de Gray, para quem \u201ca hist\u00f3ria das ideias obedece \u00e0 lei da ironia\u201d. Diz ele: \u201cHegel escreve em algum lugar que a humanidade s\u00f3 se contentar\u00e1 quando estiver vivendo num mundo constru\u00eddo por si mesma. Ao contr\u00e1rio, argumento a favor de uma mudan\u00e7a que se afaste do solipsismo humano. Os humanos n\u00e3o podem salvar o mundo, mas isso n\u00e3o \u00e9 raz\u00e3o para desespero. Ele n\u00e3o precisa de salva\u00e7\u00e3o. Felizmente, os humanos nunca viver\u00e3o num mundo constru\u00eddo por si mesmos.\u201d<\/p>\n<p>A irrup\u00e7\u00e3o da cultura de domina\u00e7\u00e3o patrocinada pelas <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Hip%C3%B3tese_Kurgan\">ondas de expans\u00e3o kurgan<\/a>, e o posterior nascimento do ideal do Ocidente, n\u00e3o foram o resultado de um ato deliberado da vontade humana ou um mero acaso fortuito da evolu\u00e7\u00e3o e sim uma possibilidade, dentre infinitas, que encontrou as circunst\u00e2ncias favor\u00e1veis \u00e0 sua emerg\u00eancia, conforme explicado no texto anterior. As cosmovis\u00f5es do Oriente, guiadas pela recusa do desejo (mitos contemplativos dos s\u00e2nscritos <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Upanishads\"><em>Upanishads<\/em><\/a>), praticamente foram engolidas pelas do Ocidente, que se aferrou ao desejo como motor da Hist\u00f3ria (mitos dominadores da epopeia de <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Gilgam%C3%A9s\"><em>Gilgam\u00e9s<\/em><\/a>). Como bem intuiu o desesperan\u00e7ado Emil Cioran: \u201cO Oriente se interessou pelas flores e pela ren\u00fancia. N\u00f3s lhe opomos as m\u00e1quinas e o esfor\u00e7o, e esta melancolia galopante \u2013 \u00faltimo sobressalto do Ocidente.\u201d Estamos na verdade perdendo aquele Oriente cujo atributo era neutralizar o Ocidente, mostrando aos homens que h\u00e1 vida al\u00e9m da apropria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h3><em><strong>Hist\u00f3ria<\/strong><\/em><strong> e <\/strong><em><strong>Civiliza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/em><strong>: vetores de conserva\u00e7\u00e3o do mundo ocidental<\/strong><\/h3>\n<p>O Ocidente \u00e9 a tentativa, sempre recorrente e frustrada, de moldar a <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Hist%C3%B3ria_da_humanidade\"><em>Hist\u00f3ria<\/em><\/a> e a <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Civiliza%C3%A7%C3%A3o\"><em>Civiliza\u00e7\u00e3o<\/em><\/a> segundo uma vis\u00e3o dominadora e hier\u00e1rquica de mundo, um projeto que j\u00e1 perdura por mais de tr\u00eas mil anos; uma meta irrealiz\u00e1vel, pois n\u00e3o tem lastro na <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/pos-capitalismo\/as-complexidades-nos-salvarao-da-distopia\/\">complexidade do mundo real<\/a>. Ele est\u00e1 refletido nas muitas formas de domina\u00e7\u00e3o e controle da realidade que a humanidade j\u00e1 experimentou sob sua tutela e que forjaram a no\u00e7\u00e3o de Hist\u00f3ria. O Ocidente foi o <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Per%C3%ADodo_helen%C3%ADstico\">per\u00edodo helen\u00edstico<\/a> moldado pela cultura grega. O Ocidente foi o cristianismo que governou o mundo de <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Constantino\">Constantino<\/a> at\u00e9 a <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Revolu%C3%A7%C3%A3o_Francesa\">Revolu\u00e7\u00e3o Francesa<\/a>. O Ocidente foi o Estado-na\u00e7\u00e3o secularizado \u2013 o sonho iluminista de criar um \u201cEstado da Raz\u00e3o\u201d \u2013 que fatiou o planeta em unidades soberanas altamente militarizadas, desde o <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Primeiro_Imp%C3%A9rio_Franc%C3%AAs\">imp\u00e9rio napole\u00f4nico<\/a> at\u00e9 o hoje decadente <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Imperialismo_americano\">imp\u00e9rio americano<\/a>. O Ocidente \u00e9 a atual fantasia da constru\u00e7\u00e3o de um <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Multipolaridade\">novo mundo multipolar<\/a>, que se pretende democr\u00e1tico, multicultural e pacificado, sob os ditames da l\u00f3gica do novo <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/capitalismo-de-vigilancia-caminho-ao-abismo\/\">capitalismo de hipervigil\u00e2ncia<\/a>. Enfim, o Ocidente \u00e9 o perene conflito humano, em andamento desde a sua \u201cqueda\u201d.<\/p>\n<p>O conflito humano \u00e9 t\u00e3o constitutivo do processo hist\u00f3rico que a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de Hist\u00f3ria, enquanto importante ramo da ci\u00eancia, nasce com os historiadores gregos <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Her%C3%B3doto\">Her\u00f3doto<\/a> e <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Tuc%C3%ADdides\">Tuc\u00eddides<\/a>, cujas principais obras s\u00e3o, respectivamente, o registro das <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/w\/index.php?title=Special%3ASearch&amp;search=Guerras+M%C3%A9dicas&amp;wprov=acrw1_0\">Guerras M\u00e9dicas<\/a> entre Gr\u00e9cia e P\u00e9rsia (499\u2013449 a.C.) e da <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/w\/index.php?title=Special%3ASearch&amp;search=Guerra+do+Peloponeso&amp;wprov=acrw1_0\">Guerra do Peloponeso<\/a> entre Atenas e Esparta (431 a 404 a.C.). At\u00e9 mesmo antes de Her\u00f3doto, por volta de 850 a.C., o conflito humano j\u00e1 estava posto no que \u00e9 considerado o primeiro e principal relato mitol\u00f3gico da condi\u00e7\u00e3o humana, a <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/w\/index.php?title=Special%3ASearch&amp;search=Guerra+de+Troia&amp;wprov=acrw1_0\">Guerra de Tr\u00f3ia<\/a> registrada nos poemas \u00e9picos de Homero.<\/p>\n<p>Da\u00ed em diante, n\u00e3o s\u00f3 os acontecimentos mais relevantes da Hist\u00f3ria, mas tamb\u00e9m os principais marcos que delimitaram a sua progress\u00e3o em etapas hist\u00f3ricas (<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Periodiza%C3%A7%C3%A3o_da_hist%C3%B3ria\">periodiza\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria<\/a>), est\u00e3o invariavelmente atrelados aos mais agudos conflitos da humanidade. \u00c9 o caso, por exemplo, da <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/w\/index.php?title=Special%3ASearch&amp;search=Guerra+dos+Cem+Anos&amp;wprov=acrw1_0\">Guerra dos Cem Anos<\/a> entre Inglaterra e Fran\u00e7a (1337-1453), que marca a passagem da Idade M\u00e9dia para a Idade Moderna, e da sangrenta <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Revolu%C3%A7%C3%A3o_Francesa\">Revolu\u00e7\u00e3o Francesa<\/a> (1789), que inaugurou a atual Idade Contempor\u00e2nea. Como bem identificou Hobsbawm, \u201ca hist\u00f3ria \u00e9 o registro dos crimes e loucuras da humanidade\u201d. E n\u00e3o poder\u00edamos esperar algo diferente se a cultura que permeou toda a trajet\u00f3ria humana nos \u00faltimos seis mil anos foi a cultura patriarcal europeia, seguida e refor\u00e7ada pelos ideais do Ocidente. No fundo, essa <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Periodiza%C3%A7%C3%A3o_da_hist%C3%B3ria#Periodiza%C3%A7%C3%A3o_cl%C3%A1ssica_(euroc%C3%AAntrica)\">periodiza\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica <\/a>(euroc\u00eantrica) que se estabeleceu da Hist\u00f3ria se parece mais com uma representa\u00e7\u00e3o digna dos progressivos saltos que o Ocidente deu para sedimentar a sua cultura de apropria\u00e7\u00e3o e autodestrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00e1 a consci\u00eancia da ideia de <em>Civiliza\u00e7\u00e3o<\/em> emergiu bem mais tarde do que a no\u00e7\u00e3o de Hist\u00f3ria. O soci\u00f3logo alem\u00e3o Norbert Elias (1897-1990) foi talvez quem melhor identificou, num abrangente estudo condensado em dois volumes (<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/O_Processo_Civilizat%C3%B3rio\"><em>O processo civilizador<\/em><\/a>, 1939), os mecanismos de \u201ccontrole social\u201d e \u201cautocontrole\u201d que induziram o comportamento humano e forjaram o longo processo civilizador. Para Elias, o processo civilizat\u00f3rio teve uma primeira fase inconsciente que ele chama de \u201cfase primitiva\u201d e que durou at\u00e9 o final da Idade M\u00e9dia. Foi s\u00f3 em 1530 que o termo <em>Civiliza\u00e7\u00e3o<\/em> surgiu, intimamente vinculado ao contexto de forma\u00e7\u00e3o do Estado, por meio da obra <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/De_civilitate_morum_puerilium\"><em>De civilitate morum puerilium<\/em><\/a> (<em>Da civilidade em crian\u00e7as<\/em>), escrita pelo te\u00f3logo e fil\u00f3sofo humanista Erasmo de Roterd\u00e3, que teve enorme repercuss\u00e3o \u00e0 \u00e9poca. \u201cA ideia de civiliza\u00e7\u00e3o\u201d, diz Elias, \u201cexpressa a consci\u00eancia que o Ocidente tem de si mesmo\u201d. Ou seja, o processo civilizador \u00e9 a marcha expansiva e irrefre\u00e1vel dos ideais do Ocidente, oriundos dos ideais greco-judaicos \u2013 em especial o <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/a-perigosa-agonia-do-mundo-patriarcal\/\">mito do progresso<\/a> \u2013 que emergiram nas cercanias do Mediterr\u00e2neo por volta de doze s\u00e9culos antes de Cristo.<\/p>\n<p>Elias chega \u00e0 conclus\u00e3o de que \u201cs\u00f3 quando as tens\u00f5es entre e dentro de Estados forem dominadas \u00e9 que poderemos esperar nos tornar mais realmente civilizados.\u201d O processo civilizador est\u00e1, portanto, intimamente vinculado \u00e0 premissa de que foi com a forma\u00e7\u00e3o e o amadurecimento do Estado secular que se conseguiu melhorias na condi\u00e7\u00e3o humana. De fato, foi por meio do Estado, entidade detentora da soberania e do monop\u00f3lio da for\u00e7a, que as puls\u00f5es de morte que marcaram a chamada Idade das Trevas (s\u00e9culos IV a XVI) foram atenuadas, pelo menos at\u00e9 a \u00e9poca em que Elias publicou sua obra, em 1939.<\/p>\n<p>No entanto, ap\u00f3s a inaudita escalada de guerras e genoc\u00eddios patrocinados por agentes do Estado, a partir do segundo quartel do s\u00e9culo XX, seguida do neoliberalismo totalizante que aflorou nos anos 1980, tamb\u00e9m patrocinado pelo Estado, n\u00e3o poder\u00edamos ratificar a validade dessa premissa agora neste in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, em que, com a expans\u00e3o do capitalismo financeiro impulsionado pelos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos, o Estado-na\u00e7\u00e3o vem sendo gradualmente desconstitu\u00eddo face \u00e0 sua absor\u00e7\u00e3o pela din\u00e2mica tecnomercadol\u00f3gica, hoje globalizada, que ignora fronteiras, democracias, diplomacias, direitos humanos e <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Planetary_boundaries\">limites ambientais<\/a>.<\/p>\n<h3><strong>Ainda \u00e9 poss\u00edvel a emerg\u00eancia de uma nova ruptura cultural, agora restauradora?<\/strong><\/h3>\n<p>Olhando para o Ocidente a partir da perspectiva aqui adotada, podemos identificar na longa hist\u00f3ria de 300 mil anos do <em>Homo sapiens<\/em> pelo menos tr\u00eas fases culturais distintas e interligadas, que demonstram como o modo humano de perceber e se relacionar com o mundo pode estar suscet\u00edvel a profundas rupturas culturais. S\u00e3o elas:<\/p>\n<p>1) <strong>o viver matr\u00edstico<\/strong>, que provavelmente teria prevalecido em 98% do tempo da longa hist\u00f3ria do <em>Homo sapiens<\/em>. Sua sociabilidade estava centrada numa coopera\u00e7\u00e3o n\u00e3o-hier\u00e1rquica, herdada de suas ancestralidades, repassada de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, em que o viver se sustentava na legitimidade do outro (os eventuais conflitos patriarcais certamente existiam, mas n\u00e3o constitu\u00edam a regra, e sim a exce\u00e7\u00e3o) e na integra\u00e7\u00e3o com o cont\u00ednuo transformar da natureza (o que Maturana chamou de \u201c<a href=\"https:\/\/repositorio.ufsm.br\/bitstream\/handle\/1\/6787\/HOMEROSCHLICHTING.pdf\">biologia do amor<\/a>\u201d \u2013 o leg\u00edtimo outro na conviv\u00eancia), que talvez corresponda \u00e0 nost\u00e1lgica lembran\u00e7a do <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Jardim_do_%C3%89den\">Jardim do \u00c9den<\/a>, criada pela tradi\u00e7\u00e3o judaica. At\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o havia muitas diferen\u00e7as comportamentais entre os primatas homin\u00eddeos e os demais animais que coabitavam o planeta.<\/p>\n<p>2) <strong>o viver patriarcal europeu<\/strong>, a partir da ruptura cultural possivelmente causada pelas <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Hip%C3%B3tese_Kurgan\">invas\u00f5es kurgan<\/a>, referentes \u00e0s <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Migra%C3%A7%C3%B5es_indo-europeias\">migra\u00e7\u00f5es indo-europeias<\/a> dos povos pastores guerreiros vindos do Leste, h\u00e1 cerca de sete ou seis mil anos \u2013 que corresponderia \u00e0 \u201c<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Queda_do_homem\">queda do homem<\/a>\u201d relatada pelas religi\u00f5es abra\u00e2micas \u2013, na qual sobreveio a sociabilidade de domina\u00e7\u00e3o em que o viver humano passou a se sustentar na nega\u00e7\u00e3o do outro e no dom\u00ednio da natureza, refor\u00e7ando a percep\u00e7\u00e3o hobbesiana de que estar\u00edamos, desde sempre, condenados a uma de vida \u201csolit\u00e1ria, pobre, s\u00f3rdida, embrutecida e curta\u201d (Thomas Hobbes, em <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Leviat%C3%A3_(livro)\"><em>Leviat\u00e3<\/em><\/a>, de 1651).<\/p>\n<p>3) <strong>o viver patriarcal ocidental<\/strong>, no qual, ap\u00f3s o quase total apagamento das viv\u00eancias, s\u00edmbolos e rituais que caracterizavam as cosmovis\u00f5es associadas \u00e0s <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Deusa-m%C3%A3e\">culturas matr\u00edsticas pr\u00e9-patriarcais<\/a> da <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Civiliza%C3%A7%C3%A3o_da_Europa_Antiga\">Europa Antiga<\/a>, passou a vigorar o entendimento de que o homem \u00e9 um ser que precisa progredir de sua suposta <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/B%C3%A1rbaros\">inf\u00e2ncia b\u00e1rbara e selvagem<\/a> para uma vida dita <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Civilidade\">civilizada<\/a>. Irrompe o ideal do Ocidente \u2013 o ideal greco-judaico, por volta de 1.300 anos a. C., na tentativa de dar uma explica\u00e7\u00e3o racional e transcendente \u00e0 l\u00f3gica da domina\u00e7\u00e3o, da apropria\u00e7\u00e3o e da hierarquia (o termo vem do grego <em>hiero<\/em> + <em>arquia<\/em>, \u201cgoverno sagrado\u201d) j\u00e1 instalada pelo viver patriarcal europeu e, assim, impor uma ordem ao mundo por meio de dom\u00ednios e controles subjetivos, adotados sobretudo nos \u00e2mbitos da religi\u00e3o e da filosofia. Estamos at\u00e9 hoje aprisionados a esta fase da cultura ocidental e, provavelmente, a ela ainda ficaremos submetidos pelas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas. A quest\u00e3o agora \u00e9 saber se sairemos (e como sairemos) desta fase que tem se revelado terminal para a humanidade.<\/p>\n<p>Os ideais do Ocidente podem representar, considerando essas tr\u00eas longas grada\u00e7\u00f5es culturais, uma resposta ao insuport\u00e1vel viver patriarcal europeu, uma forma de supera\u00e7\u00e3o para escapar da suposta agressividade inata do homem hobbesiano, pressuposto sob o qual se assenta a <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Mundo_ocidental\">vis\u00e3o de mundo ocidental<\/a>. O condicionamento cultural a esse ide\u00e1rio \u00e9 t\u00e3o forte que mesmo aqueles momentos mais agudos do curso civilizat\u00f3rio n\u00e3o foram suficientes para frear e reverter esse processo de teologiza\u00e7\u00e3o e racionaliza\u00e7\u00e3o do mundo humano. Tr\u00eas exemplos bem representativos dessa pris\u00e3o cognitiva foram: o desastroso s\u00e9culo XIV (s\u00f3 a <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Peste_Negra\">Peste Negra<\/a>, herdada da ignor\u00e2ncia que reinava na Idade M\u00e9dia, e as <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Conquistas_e_invas%C3%B5es_mong%C3%B3is\">invas\u00f5es mong\u00f3is<\/a> dizimaram metade da popula\u00e7\u00e3o da Europa e 2\/3 da popula\u00e7\u00e3o da China, respectivamente); o tr\u00e1gico s\u00e9culo XX (duas <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Guerra_mundial\">guerras mundiais<\/a> e os muitos <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Totalitarismo\">totalitarismos de Estado<\/a> eliminaram entre duas e tr\u00eas centenas de milh\u00f5es de pessoas); e, agora, este ag\u00f4nico s\u00e9culo XXI, que j\u00e1 nasce marcado pelo colapso ambiental e pela amea\u00e7a das conflagra\u00e7\u00f5es nuclear e algor\u00edtmica. Esses exemplos hist\u00f3ricos demonstram por si s\u00f3 que o projeto do Ocidente \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 um absurdo irrealiz\u00e1vel, mas a engrenagem que arrastar\u00e1 a humanidade para a sua autodestrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma das reflex\u00f5es que tem ocupado muitos analistas geopol\u00edticos diante dos eventos globais disruptivos desse primeiro quarto do s\u00e9culo XXI \u00e9 a ideia de que o Ocidente est\u00e1 num irrefre\u00e1vel decl\u00ednio, referindo-se especialmente aos pa\u00edses que abra\u00e7am o Atl\u00e2ntico e que sempre dominaram e moldaram os rumos da civiliza\u00e7\u00e3o, desde o imp\u00e9rio <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/P%C3%A9rsia\">Persa<\/a> (550-330 a.C.) passando pelo <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Imp%C3%A9rio_Romano\">Romano<\/a> (27-395 d.C.), <a href=\"https:\/\/pt.m.wikipedia.org\/wiki\/Sacro_Imp%C3%A9rio_Romano-Germ%C3%A2nico\">Sacro Imp\u00e9rio Romano-Germ\u00e2nico<\/a> (800-1806), <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Imp%C3%A9rio_Brit%C3%A2nico\">Brit\u00e2nico<\/a> (1583\u20131783) e agora o decadente imp\u00e9rio <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Imperialismo_americano\">Americano<\/a> (1803-2001). Os liberais que se situam no campo mais \u00e0 direita do espectro pol\u00edtico observam este fen\u00f4meno com bastante preocupa\u00e7\u00e3o, pois n\u00e3o conseguem conceber a continuidade do inst\u00e1vel curso civilizat\u00f3rio que n\u00e3o seja guiada por uma na\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica que fa\u00e7a o papel de <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Pol%C3%ADcia_global\">policial do mundo<\/a> e, assim, continue assegurando a ilus\u00f3ria ideia-for\u00e7a da <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Progresso_(filosofia)\">salva\u00e7\u00e3o pelo progresso<\/a>, principal atributo do Ocidente, refletida na <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/tres-narrativas-para-uma-nova-epoca-historica\/\">vis\u00e3o tecnoecon\u00f4mica de mundo<\/a> dominante. J\u00e1 aqueles do campo das esquerdas tendem a celebrar o fim da hegemonia estadunidense, apostando que uma nova ordem multipolar, mais democr\u00e1tica, tolerante e pacificada, estaria sendo gestada pela expans\u00e3o dos novos mercados emergentes sob a tutela dos BRICS, liderados pelo avan\u00e7o Russo-Chin\u00eas, como sa\u00edda redentora para o fim dos hegemonismos e para o alcance de uma desejada emancipa\u00e7\u00e3o humana, agora em escala planet\u00e1ria.<\/p>\n<p>No entanto, o fluxo dos cada vez mais conturbados acontecimentos geopol\u00edticos em andamento tem demonstrado que esse j\u00e1 celebrado mundo multipolar talvez n\u00e3o se revele o mar de rosas que poder\u00e1 encerrar as agonias dos ideais do Ocidente. Como bem advertiu, recentemente, o fil\u00f3sofo pol\u00edtico brit\u00e2nico <a href=\"https:\/\/www.newstatesman.com\/politics\/2021\/07\/west-isn-t-dying-its-ideas-live-china\">John Gray<\/a>, \u00e9 recomend\u00e1vel ter cautela no experimento Russo-Chin\u00eas, uma vez que \u201ctanto a China quanto a R\u00fassia \u2013 rivais declaradas do Ocidente \u2013 s\u00e3o governadas por ideias que derivam de fontes ocidentais.\u201d Na verdade, o Ocidente parece bem pr\u00f3ximo de alcan\u00e7ar o seu paroxismo neste primeiro quarto do s\u00e9culo XX. A humanidade est\u00e1 adentrando na fase mais f\u00fanebre do Ocidente, como bem observou Gray: \u201cembora o liberalismo ocidental possa estar em grande parte extinto, as ideias ocidentais iliberais est\u00e3o moldando o futuro. O Ocidente n\u00e3o est\u00e1 morrendo, mas vivo nas tiranias que agora o amea\u00e7am. Incapazes de compreender essa realidade paradoxal, nossas elites ficam olhando fixamente enquanto o mundo que consideravam natural desliza para as sombras.\u201d<\/p>\n<p>Essa multipolaridade, que foi desencadeada ap\u00f3s o fim da Guerra Fria (1947-1991) e da colossal ilus\u00e3o do <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Fim_da_hist%C3%B3ria\"><em>Fim da hist\u00f3ria<\/em><\/a> (Queda do Muro de Berlim, em 1989, e dissolu\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, em 1991), \u00e9 configurada por uma desorienta\u00e7\u00e3o global sem nenhuma perspectiva de consenso civilizat\u00f3rio e est\u00e1 refletida nos crescentes dist\u00farbios clim\u00e1ticos e convuls\u00f5es geopol\u00edticas e geoecon\u00f4micas das tr\u00eas \u00faltimas d\u00e9cadas. Para quem ainda consegue nutrir uma vis\u00e3o otimista de futuro, esse inst\u00e1vel mundo multipolar provavelmente ser\u00e1 s\u00f3 uma fase transit\u00f3ria para uma <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/pos-capitalismo\/para-superar-a-agonia-da-civilizacao-patriarcal\/\">ruptura civilizat\u00f3ria<\/a> que possa nos desviar do colapso. Mas a verdade \u00e9 que as consequ\u00eancias dessa transi\u00e7\u00e3o ainda s\u00e3o muito desconhecidas. O m\u00e1ximo que se pode afirmar \u00e9 que ela se consumar\u00e1, com ou sem a humanidade, talvez ainda neste imponder\u00e1vel s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso agora, portanto, apostar numa <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/a-iera-da-emergencia-i-e-as-possiveis-saidas\/\">nova emerg\u00eancia<\/a>, a possibilidade de ruptura civilizat\u00f3ria que possa nos desviar do <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Altera%C3%A7%C3%B5es_clim%C3%A1ticas_e_colapso_civilizacional\">colapso socioambiental<\/a> e das amea\u00e7as nuclear e tecnol\u00f3gica. Se queremos ter um futuro reconhec\u00edvel, devemos abrir m\u00e3o dos ideais do Ocidente que alimentam e amplificam nossa dimens\u00e3o egoica. N\u00e3o temos muitas escolhas diante do abismo civilizat\u00f3rio que se avizinha. Ou sucumbimos junto com o Ocidente, que j\u00e1 se encontra numa avan\u00e7ada fase agonizante, ou abrimos m\u00e3o de seus ideais antr\u00f3picos e restauramos as ancestralidades que permitiram aos homin\u00eddeos coabitarem a Terra por milh\u00f5es de anos.<\/p>\n<h3><strong>Democracia, alteridade e toler\u00e2ncia \u2013 \u201ccunhas\u201d restauradoras do humano<\/strong><\/h3>\n<p>Se a longa evolu\u00e7\u00e3o dos primatas homin\u00eddeos que deram origem ao humano datam de milh\u00f5es de anos, sem que tenha havido uma ruptura cultural similar \u00e0 que pode ter ocorrido no neol\u00edtico (considerando a <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Hip%C3%B3tese_Kurgan\">hip\u00f3tese das invas\u00f5es kurgan<\/a>, sustentada por Maturana, Gimbutas e outros), o brev\u00edssimo tempo de aproximadamente seis mil\u00eanios da cultura europeia de apropria\u00e7\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o, que forjou a ilus\u00e3o do Ocidente de moldar o mundo segundo seus ideais greco-judaicos, \u00e9 insignificante demais para imaginarmos que temos algum privil\u00e9gio evolutivo ou divino. Portanto, \u00e9 uma miragem conceber que alcan\u00e7aremos algum <em>T\u00e9los<\/em> ou alguma reden\u00e7\u00e3o dos males causados pelo conflituoso modo de viver ocidental, cujo tempo de dura\u00e7\u00e3o \u00e9 inexpressivo diante dos milh\u00f5es de anos de forma\u00e7\u00e3o do humano.<\/p>\n<p>Nessa perspectiva, parece mais razo\u00e1vel pensar que a <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Natureza_humana\">humanidade<\/a> \u00e9, mais do que qualquer outra coisa, um conceito <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Anthropocene\">antropoc\u00eantrico<\/a>, criado e alimentado no curso do longo sonho Ocidental. No \u00e2mbito da teologia, a humanidade est\u00e1 atrelada \u00e0 exist\u00eancia de Deus, a partir da qual ela foi divinizada. No \u00e2mbito da teleologia, a humanidade est\u00e1 associada a uma suposta natureza humana racional, com um <em>Fim<\/em> em si mesma. Tudo o mais que comp\u00f5e o universo ficou em segundo plano, a servi\u00e7o dessa \u201chumanidade\u201d, que, inclusive, op\u00f5e radicalmente a condi\u00e7\u00e3o humana \u00e0 sua inarred\u00e1vel condi\u00e7\u00e3o animal, como bem ressaltou o antrop\u00f3logo franc\u00eas <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/terraeantropoceno\/cem-anos-morin-filosofo-da-complexidade\/\">Edgar Morin<\/a>: \u201ca disjun\u00e7\u00e3o homem\/animal \u00e9 t\u00e3o profunda em nossa cultura que esquecemos que somos ao mesmo tempo e indissoluvelmente animais e humanos.\u201d<\/p>\n<p>Da\u00ed o nosso profundo condicionamento cognitivo ao <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Anthropocene\">antropocentrismo<\/a> gerado no seio dos ideais do Ocidente, que est\u00e3o nos arrastando para o abismo. Portanto, precisamos de uma nova metamorfose cognitiva para podemos restaurar nossa ancestralidade perdida. Por isso, vale apostar que o ocaso do Ocidente neste s\u00e9culo XXI e as mudan\u00e7as culturais nele implicadas podem representar a derradeira fase do desvio da cultura patriarcal europeia, o encerramento de seis mil\u00eanios de agonia ocidental e o retorno ao curso natural da <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/pos-capitalismo\/as-complexidades-nos-salvarao-da-distopia\/\">complexidade do real<\/a>, que \u00e9 cooperativa, consensual, adaptativa e n\u00e3o-hier\u00e1rquica.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 brechas que podem sugerir que h\u00e1 uma possibilidade, ainda que muito improv\u00e1vel, desse retorno ancestral. Os ideais de <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Democracia\">democracia<\/a>, <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Alterity\">alteridade<\/a> e <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Toleration\">toler\u00e2ncia<\/a>, embora conceitualmente desenvolvidos e experimentados no curso do projeto civilizador do Ocidente \u2013 uma vez que constitu\u00edam o fundamento-guia da <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Cidade-estado\">cidade-estado<\/a> (ou da <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/P%C3%B3lis\">p\u00f3lis<\/a>), do <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Cristianismo\">cristianismo<\/a> e do <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Liberalismo\">liberalismo<\/a>, respectivamente \u2013, nunca fizeram parte dos seus atributos. Eles representam apenas uma nostalgia do modo de viver em coexist\u00eancia observado nas <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Deusa-m%C3%A3e\">culturas matr\u00edsticas pr\u00e9-patriarcais<\/a> da <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Civiliza%C3%A7%C3%A3o_da_Europa_Antiga\">Europa Antiga<\/a>, como sustentava Maturana: \u201cacredito que essa nostalgia pelo respeito rec\u00edproco constitui o fundamento emocional do qual surgiu a democracia na Gr\u00e9cia, como uma cunha que abriu uma fenda em nossa cultura patriarcal\u201d.<\/p>\n<p>A democracia ateniense, a alteridade crist\u00e3 e a toler\u00e2ncia liberal emergiram em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 cultura patriarcal ocidental, que passou a aceit\u00e1-las, por\u00e9m dentro da sua l\u00f3gica de apropria\u00e7\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, limitando-as, negando-as e, nos momentos de profunda agonia civilizat\u00f3ria como o atual, suprimindo-as, por meio das <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/como-o-patriarcado-engole-a-democracia\/\">conversa\u00e7\u00f5es patriarcais recorrentes<\/a> (que valorizam a guerra, competi\u00e7\u00e3o, luta, hierarquias, autoridade, poder, procria\u00e7\u00e3o, crescimento, controle e outras formas de apropria\u00e7\u00e3o), que moldam o modo de vida do mundo ocidental. Vale lembrar que, segundo Maturana, \u201cconversa\u00e7\u00f5es s\u00e3o redes de coordena\u00e7\u00f5es de coordena\u00e7\u00f5es comportamentais consensuais entrela\u00e7adas com o emocionar\u201d.<\/p>\n<p>Portanto, no atual momento ag\u00f4nico em que a humanidade ingressa numa <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/para-abrir-espaco-a-transicao-de-epoca\/\">crise existencial<\/a>, decorrente desse longo processo de embate Homem <em>versus<\/em> Natureza, patrocinado pelos ideais ocidentais, \u00e9 preciso vislumbrar a possibilidade de encerrar esse longu\u00edssimo condicionamento cognitivo para frearmos o <a href=\"https:\/\/editoraelefante.com.br\/o-que-e-essencial-compreender-sobre-o-colapso-socioambiental-em-curso\/\">colapso socioambiental iminente<\/a>. Isso s\u00f3 ser\u00e1 culturalmente poss\u00edvel, se restaurarmos as conversa\u00e7\u00f5es (entrela\u00e7amento de emo\u00e7\u00f5es e linguagens que sustentam uma cultura e seu modo de viver) que refor\u00e7am a democracia, a alteridade e a toler\u00e2ncia, desapropriando-as dos ideais ocidentais. Por isso, precisamos de transforma\u00e7\u00f5es culturais numa perspectiva de restaura\u00e7\u00e3o e n\u00e3o de salva\u00e7\u00e3o pela apropria\u00e7\u00e3o como sempre fez o Ocidente.<\/p>\n<p>Imp\u00f5e-se, assim, apostarmos que o ciclo anti-vida do Ocidente se encerrar\u00e1 antes que ele arraste consigo as sociedades e todas as formas e condi\u00e7\u00f5es de vida e habitabilidade planet\u00e1ria que ainda nos sustentam. Por isso, como n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel antever se restar\u00e1 humanidade ap\u00f3s esse irrefre\u00e1vel decesso do Ocidente, talvez seja pertinente n\u00e3o considerar a cautela ocidental de aguardar o voo crepuscular da <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Coruja_de_Atena\">Coruja de Minerva<\/a> e sim antecipar aut\u00f3psias como esta que possam alertar da premente necessidade de substituirmos a fantasia da salva\u00e7\u00e3o ocidental pela sensatez da restaura\u00e7\u00e3o das nossas ancestralidades. Parece residir nisso \u2013 e talvez somente nisso \u2013 a nossa, ainda que muito remot\u00edssima e imponder\u00e1vel, possibilidade de futuro.<\/p>\n<p>Teremos a necess\u00e1ria abertura cognitiva e, sobretudo, tempo para tal restaura\u00e7\u00e3o cultural?<\/p>\n<p>\u201c<em>Todos n\u00f3s saboreamos o mal do Ocidente.<\/em><br \/><em>Sabemos demasiado da arte, do amor, da religi\u00e3o,<\/em><br \/><em>da guerra, para acreditar ainda em alguma coisa;<\/em><br \/><em>e depois, tantos s\u00e9culos foram gastos nisso\u2026<\/em><br \/><em>A \u00e9poca do acabamento na plenitude est\u00e1 terminada.<\/em><br \/><em>A mat\u00e9ria dos poemas? Extenuada.<\/em><br \/><em>Amar? At\u00e9 a plebe repudia o \u201csentimento\u201d.<\/em><br \/><em>A piedade? Esquadrinhe as catedrais.<\/em><br \/><em>Nelas s\u00f3 se ajoelham os ineptos.<\/em><br \/><em>Quem ainda deseja combater? O her\u00f3i est\u00e1 superado;<\/em><br \/><em>s\u00f3 a carnificina impessoal continua na moda.<\/em><br \/><em>Somos fantoches clarividentes,<\/em><br \/><em>capazes apenas de fazer caretas ante o irremedi\u00e1vel.<\/em><br \/><em><strong>O Ocidente? Um poss\u00edvel sem futuro.<\/strong><\/em>\u201d<br \/><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Emil_Cioran\">Emil Cioran<\/a> (1952)<\/p>\n<p><em>NOTA<\/em>: Registro aqui meu agradecimento aos colaboradores do <em>Outras Palavras<\/em>, o pacifista <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/author\/rubenbauernaveira\/\">Ruben Bauer Naveira<\/a> e o pesquisador da Unicamp <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/author\/luizmarques\/\">Luiz Marques<\/a>, que se dispuseram a fazer uma leitura preliminar deste texto, cujo tema \u00e9 muito abrangente e controverso. Suas impress\u00f5es, mesmo com alguma diverg\u00eancia, foram muito \u00fateis.<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Leitura recomendada<\/strong><\/p>\n<p>ATTALI, Jacques. Os judeus, o dinheiro e o mundo. Rio de Janeiro: Record, 2001.<\/p>\n<p>ATTALI, Jacques. Uma breve hist\u00f3ria do futuro. S\u00e3o Paulo: Novo S\u00e9culo Editora, 2008.<\/p>\n<p>ATTALI, Jacques. 1492: os acontecimentos que marcaram o in\u00edcio da era moderna. S\u00e3o Paulo: Novo Fronteira, 1992.<\/p>\n<p>BRAUDEL, Fernand. Escritos sobre a hist\u00f3ria. 2.ed. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 2005.<\/p>\n<p>BRAUDEL, Fernand. Hist\u00f3ria e ci\u00eancias sociais. A longa dura\u00e7\u00e3o. <em>In<\/em>: Revista de Hist\u00f3ria, Vol. 30, n\u00ba 62, abril-junho, 1965.<\/p>\n<p>CIORAN, E. M. Hist\u00f3ria e utopia. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2011.<\/p>\n<p>CIORAN, E. M. Silogismos da Amargura. Lisboa: Letra Livre, 2009.<\/p>\n<p>EISLER, Riane. O c\u00e1lice e a espada: nosso passado, nosso futuro. S\u00e3o Paulo: Palas Athena, 2007.<\/p>\n<p>ELIAS, Norbert. O processo civilizador: uma hist\u00f3ria dos costumes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.<\/p>\n<p>ELIAS, Norbert. O processo civilizador: forma\u00e7\u00e3o do estado e civiliza\u00e7\u00e3o. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.<\/p>\n<p>GEE, Henry. Uma hist\u00f3ria (muito) curta da vida na Terra: 4,6 bilh\u00f5es de anos em doze cap\u00edtulos. S\u00e3o Paulo. Fosforo Editora, 2024.<\/p>\n<p>GRAY, John. A anatomia de Gray. Rio de Janeiro: Record, 2011.<\/p>\n<p>GRAY, John. Missa negra \u2013 religi\u00e3o apocal\u00edptica e o fim das utopias. Rio de Janeiro: Record, 2008.<\/p>\n<p>GRAY, John. The new leviathans \u2013 thoughts after liberalism. London: Allen Lane, 2023.<\/p>\n<p>MARQUES, Luiz. Capitalismo e colapso ambiental. Campinas: Editora da Unicamp, 2018.<\/p>\n<p>MARQUES, Luiz. O dec\u00eanio decisivo: propostas para uma pol\u00edtica de sobreviv\u00eancia. S\u00e3o Paulo: Editora Elefante, 2023.<\/p>\n<p>MATURANA, Humberto R. Conversa\u00e7\u00f5es matr\u00edsticas e patriarcais. In: ______; VERDEN-Z\u00d6LLER, G. Amar e brincar: fundamentos esquecidos do humano. S\u00e3o Paulo: Palas Athena, 2004.<\/p>\n<p>MATURANA, Humberto R. Emo\u00e7\u00f5es e linguagem na educa\u00e7\u00e3o e na pol\u00edtica. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998.<\/p>\n<p>MORIN, Edgar. Rumo ao abismo? Ensaio sobre o destino da humanidade. Rio de Janeiro, Brasil: Bertrand Brasil, 2010.<\/p>\n<p>RUSSELL, Bertrand. Hist\u00f3ria da Filosofia Ocidental. S\u00e3o Paulo: Companhia Editora Nacional, 1957.<\/p>\n<p>RUSSELL, Bertrand. Hist\u00f3ria do Pensamento Ocidental. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002.<\/p>\n<p>SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e representa\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Editora UNESP, 2005.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Sem publicidade ou patroc\u00ednio, dependemos de voc\u00ea. 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