{"id":27617,"date":"2025-05-13T19:25:48","date_gmt":"2025-05-13T22:25:48","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/brasilia-65-por-uma-historia-de-quem-a-ergueu\/"},"modified":"2025-05-13T19:25:48","modified_gmt":"2025-05-13T22:25:48","slug":"brasilia-65-por-uma-historia-de-quem-a-ergueu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/brasilia-65-por-uma-historia-de-quem-a-ergueu\/","title":{"rendered":"Bras\u00edlia, 65: Por uma hist\u00f3ria de quem a ergueu"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"860\" height=\"570\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/imagem.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/imagem.jpeg 860w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/imagem-300x199.jpeg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/imagem-768x509.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 860px) 100vw, 860px\"><figcaption> Foto: Arquivo P\u00fablico \u2013 DF<br \/>\n<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Bras\u00edlia completa 65 anos em 2025. Consolidou-se, no imagin\u00e1rio coletivo nacional, a ideia de uma cidade criada pela aud\u00e1cia e hero\u00edsmo de Juscelino Kubistchek, sob os tra\u00e7os inovadores e modernistas de Niemeyer e L\u00facio Costa. De um Cerrado long\u00ednquo e desabitado, fariam surgir um novo pa\u00eds, voltado para o futuro, industrializado, menos desigual, abandonando s\u00e9culos de coloniza\u00e7\u00e3o e subdesenvolvimento. A nova capital seria a vitrine do Brasil para o mundo. Segundo Helena Bomeny (2002), essa \u00e9 a perspectiva historiogr\u00e1fica oficial, hegem\u00f4nica e do senso comum sobre Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>Essa imagem de Bras\u00edlia que se consolidou entre n\u00f3s \u00e9 a de uma cidade sem povo, sem trabalhadores ou pessoas comuns, despida de contradi\u00e7\u00f5es e problemas, petrificada em 21 de abril de 1960. \u00c9 como se integrasse um fen\u00f4meno apartado do tempo hist\u00f3rico. Pouco ou nada se sabe ou se discute a respeito das identidades e experi\u00eancias das dezenas de milhares de trabalhadores que a constru\u00edram, da nova sociedade que se constituiu p\u00f3s-inaugura\u00e7\u00e3o, as continuidades e rupturas ao longo dessas seis d\u00e9cadas. Tampouco se conhecem os contrastes e a vida atual da regi\u00e3o metropolitana com a terceira maior popula\u00e7\u00e3o (IBGE, 2023), e a segunda maior favela do pa\u00eds (Farias; Montes, 2022).<\/p>\n<p>\u00c9 uma vers\u00e3o hist\u00f3rica compartilhada, difundida e comemorada publicamente a cada anivers\u00e1rio da cidade. Para Vesentini (1993), essa percep\u00e7\u00e3o de euforia patri\u00f3tica recorrentemente identificada com a inaugura\u00e7\u00e3o da capital, em 21 de abril de 1960, n\u00e3o passa de uma \u201cimagem id\u00edlica e fantasiosa\u201d. Por isso mesmo, a hist\u00f3ria da constru\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia pode e deve ser contada afastando-se da vers\u00e3o hegem\u00f4nica, oficial e do senso comum. H\u00e1 d\u00e9cadas, historiadores, antrop\u00f3logos, ge\u00f3grafos, soci\u00f3logos e arquitetos t\u00eam apresentado contribui\u00e7\u00f5es significativas para o que classificamos de uma Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia desde baixo. Contrariando o senso comum e a vis\u00e3o oficial ou oficiosa, o foco est\u00e1 nos oper\u00e1rios e nas pessoas comuns, na diversidade de sujeitos hist\u00f3ricos respons\u00e1veis por construir a cidade em pouco mais de tr\u00eas anos.<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/apoia.se\/outraspalavras\" aria-label=\"MAT\u00c9RIA-GERAL\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/MATERIA-GERAL-16.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/MATERIA-GERAL-16.png 681w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-GERAL-300x75.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 681px) 100vw, 681px\" width=\"681\" height=\"171\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>Trata-se de uma Hist\u00f3ria que rompe o tabu e o silenciamento a respeito das condi\u00e7\u00f5es de trabalho e vida no canteiro de obras. Uma Hist\u00f3ria que aborda o conjunto das \u201cexperi\u00eancias\u201d daqueles trabalhadores, a partir do conceito desenvolvido por E. P. Thompson (1987). H\u00e1 farta documenta\u00e7\u00e3o e pesquisas reveladoras da explora\u00e7\u00e3o do trabalho, das identidades e viv\u00eancias dos candangos. Por exemplo, boletins de ocorr\u00eancia da pol\u00edcia est\u00e3o repletos de registros de acidentes e mortes de trabalhadores.<\/p>\n<p>H\u00e1 15 anos pesquisando os boletins de ocorr\u00eancia policial registrados entre 1957 e o in\u00edcio da d\u00e9cada de 1960, descobrimos registros como o de 13 de abril de 1960. Uma semana antes da inaugura\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia, o oper\u00e1rio Jos\u00e9 Leone de Brito morreu v\u00edtima de um desabamento, durante a constru\u00e7\u00e3o da capital. N\u00e3o foi um fato isolado, como revela a s\u00e9rie documental produzida pela pol\u00edcia que atuava no canteiro de obras. No entanto, na historiografia hegem\u00f4nica, os acidentes e mortes de trabalhadores seguem silenciados.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Br1-768x1024-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Br1-768x1024-1.jpg 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Br1-225x300.jpg 225w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Br1.jpg 960w\" sizes=\"auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px\"><figcaption>Boletim de ocorr\u00eancia de 13.04.1960 registra acidente de trabalho com morte, ba uma semana da inaugura\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia. Fonte: ARQUIVO P\u00daBLICO DO DISTRITO FEDERAL (ARPDF, 1960)<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00c9 patente a tentativa de apagar as identidades de pelos menos 64 mil pessoas que, de acordo com o Censo Experimental de 1959, viviam no canteiro de obras (IBGE, 1959). Aquelas dezenas de milhares de trabalhadores eram migrantes, vindos de todas as regi\u00f5es do pa\u00eds, mas principalmente de Goi\u00e1s, Minas Gerais e Bahia. Eram homens, solteiros, entre 20 e 59 anos de idade, com atividades ligadas \u00e0 constru\u00e7\u00e3o civil, como pedreiros, carpinteiros, marceneiros e eletricistas.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso de Afonso Pereira de Souza, natural de Santa Quit\u00e9ria, no Cear\u00e1. Tinha 21 anos quando foi contratado pela Construtora Planalto, em novembro de 1958. Segundo a ficha funcional, foi demitido alguns meses depois, em abril de 1959, por n\u00e3o ser mais necess\u00e1ria a sua for\u00e7a de trabalho. Essa foi uma causa comum de demiss\u00e3o, encontrada em muitas fichas funcionais. A justificativa demonstra o qu\u00e3o inst\u00e1veis e prec\u00e1rias eram as rela\u00e7\u00f5es trabalhistas estabelecidas com as empresas privadas e a Novacap, estatal criada para construir Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>Conforme Gustavo Lins Ribeiro (2008), o movimento de chegada e sa\u00edda de trabalhadores foi ditado pelo ritmo das obras, mas havia m\u00e3o de obra dispon\u00edvel em excesso. Foi um dos motivos para o surgimento das primeiras \u201cinvas\u00f5es\u201d, e levou \u00e0 cria\u00e7\u00e3o das primeiras cidades-sat\u00e9lites, para onde foram empurrados os candangos.<\/p>\n<p>Outro dado revelado pelo documento \u00e9 o fato de Afonso muito provavelmente ser analfabeto ou ter pouca escolaridade, j\u00e1 que n\u00e3o assinou o pr\u00f3prio nome. Segundo o Censo Experimental de 1959 do IBGE, o total de alfabetizados no canteiro de obras era de 55,6%, percentual superior \u00e0 m\u00e9dia nacional da \u00e9poca (IBGE, 1959). Ainda assim, Afonso provavelmente integrava a massa dos outros 45% dos oper\u00e1rios migrantes analfabetos que criaram uma cidade do zero.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"586\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Br2.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Br2.png 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Br2-300x229.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px\"><figcaption>Ficha funcional do oper\u00e1rio cearense Afonso Pereira de Souza. Fonte: ARQUIVO P\u00daBLICO DO DISTRITO FEDERAL (ARPDF)<\/figcaption><\/figure>\n<\/p>\n<p>A bebida, os bares e a zona do baixo meretr\u00edcio eram os espa\u00e7os de sociabilidade e divers\u00e3o, nas poucas horas livres de que dispunham os trabalhadores. Mas a Guarda Especial de Bras\u00edlia (GEB) exercia controle r\u00edgido e reprimia o consumo de \u00e1lcool com brutalidade e viol\u00eancia. Os oper\u00e1rios tentavam burlar, consumindo inclusive nos acampamentos e no hor\u00e1rio de trabalho. Muitos acabavam presos, como revela o inestim\u00e1vel conjunto documental dos boletins de ocorr\u00eancia. Pris\u00f5es por vadiagem, com\u00e9rcio ilegal de bebida alco\u00f3lica e desordens causadas pelo consumo excessivo de \u00e1lcool est\u00e3o entre as acusa\u00e7\u00f5es contra aqueles que n\u00e3o se adequavam \u00e0 disciplina exigida no canteiro de obras.<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/www.fosforoeditora.com.br\/produto\/nihonjin-70416\" aria-label=\"banner outras palavras_ 02257\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/banner-outras-palavras_-02257.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/banner-outras-palavras_-02257.jpg 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/banner-outras-palavras_-02257-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"472\" height=\"566\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Br3.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Br3.png 472w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Br3-250x300.png 250w\" sizes=\"auto, (max-width: 472px) 100vw, 472px\"><figcaption>Boletim de ocorr\u00eancia de 08.01.1959 registra pris\u00e3o de oper\u00e1rio por embriaguez em alojamento. Fonte: ARQUIVO P\u00daBLICO DO DISTRITO FEDERAL (ARPDF)<\/figcaption><\/figure>\n<p>O caso do pedreiro baiano Jo\u00e3o de Souza e Silva \u00e9 um dos muitos registros de embriaguez. Ele foi preso em janeiro de 1959, sob a acusa\u00e7\u00e3o de estado de embriaguez e, como consequ\u00eancia, ter provocado dist\u00farbios nos alojamentos das obras do IAPB, o antigo Instituto de Aposentadoria e Pens\u00f5es dos Banc\u00e1rios (IAPB). A documenta\u00e7\u00e3o revela que se repetia, em Bras\u00edlia, a tentativa de controle social de trabalhadores observada ao longo da hist\u00f3ria, em diferentes momentos e lugares.<\/p>\n<p>As condi\u00e7\u00f5es de explora\u00e7\u00e3o do trabalho \u00e0s quais os oper\u00e1rios eram submetidos tamb\u00e9m s\u00e3o reveladas pela documenta\u00e7\u00e3o. No recibo de pagamento do servente de pedreiro C\u00edcero Marques Ara\u00fajo consta que ele cumpriu 47 horas de jornada, de 29 a 31 de janeiro de 1959. Foram 32 horas normais e 15 horas extras. Numa conta simples, dividindo as 32 horas pelos 3 dias, ele cumpriu 10,6 horas regulares de jornada di\u00e1ria. Se dividirmos as 15 horas extras discriminadas no recibo, pelos mesmos 3 dias, somam-se mais 5 horas di\u00e1rias. Ou seja, C\u00edcero cumpriu, em cada um desses tr\u00eas dias, 15 horas de trabalho na constru\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia. O recebimento dessas horas extras para aumentar o sal\u00e1rio certamente foi o principal atrativo de natureza econ\u00f4mica da migra\u00e7\u00e3o (Ribeiro, 2008).<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"937\" height=\"573\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Br4.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Br4.png 937w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Br4-300x183.png 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Br4-768x470.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 937px) 100vw, 937px\"><figcaption>Recibo de pagamento de sal\u00e1rio de oper\u00e1rio. Fonte: ARQUIVO P\u00daBLICO DO DISTRITO FEDERAL (ARPDF)<\/figcaption><\/figure>\n<p>As horas extras podiam se estender em jornadas de dois, tr\u00eas ou mais dias seguidos de trabalho. As chamadas \u201cviradas\u201d podiam ser de vinte e quatro horas ou mais, e ocorrer at\u00e9 tr\u00eas vezes por semana, incluindo domingos e feriados. Elas ajudaram a estabelecer o que ficou conhecido como \u201critmo Bras\u00edlia\u201d: a necessidade de acelerar as obras para entreg\u00e1-las a tempo da inaugura\u00e7\u00e3o, em 21 de abril de 1960. Essa imposi\u00e7\u00e3o ditou o volume de horas extras e foi respons\u00e1vel pelo aumento dos sal\u00e1rios. Como consequ\u00eancia, ampliou consideravelmente os riscos e o n\u00famero de acidentes e mortes, especialmente a partir de 1959.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 um acaso, portanto, que essa Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia desde baixo seja negligenciada ou esteja silenciada tamb\u00e9m em livros did\u00e1ticos de Hist\u00f3ria. E n\u00e3o nos referimos a manuais escolares antigos, dos tempos da ditadura. S\u00e3o as cole\u00e7\u00f5es recentes, atualizadas segundo a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), avaliadas e aprovadas pelo Programa Nacional do Livro e do Material Did\u00e1tico (PNLD).<\/p>\n<p>Por exemplo, a cole\u00e7\u00e3o <em>Hist\u00f3ria Sociedade &amp; Cidadania<\/em>, de Alfredo Boulos J\u00fanior (2022), para o 9\u00ba ano do Ensino Fundamental. Est\u00e1 entre os manuais escolares de refer\u00eancia e mais utilizados na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, em escolas p\u00fablicas e privadas. E o que ele apresenta sobre os oper\u00e1rios que constru\u00edram Bras\u00edlia?<\/p>\n<p>Segundo o autor, os candangos eram \u201cmilhares de pessoas humildes e desconhecidas, vindas de v\u00e1rios cantos do pa\u00eds\u201d, que trabalharam \u201cmuito\u201d, durante um curto per\u00edodo (Boulos J\u00fanior, 2022, p.216). N\u00e3o h\u00e1 qualquer men\u00e7\u00e3o \u00e0s p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de trabalho, moradia, higiene, alimenta\u00e7\u00e3o, \u00e0s identidades reais daquelas pessoas. O livro simplesmente apaga qualquer tra\u00e7o de identidade, silencia a respeito da explora\u00e7\u00e3o da m\u00e3o-de-obra, da exclus\u00e3o social e espacial dos candangos. O autor segue a historiografia oficial e do senso comum, ao \u201cobscurecer a atua\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, e o grau com que contribu\u00edram com esfor\u00e7os conscientes, no fazer-se da hist\u00f3ria\u201d (Thompson, 1987, p. 13).<\/p>\n<p>E como um corol\u00e1rio a repetir outros livros did\u00e1ticos e a refor\u00e7ar o ensino tradicional de Hist\u00f3ria, a \u00fanica fotografia apresentada serve apenas para ilustrar o texto. A foto cl\u00e1ssica, de Marcel Gautherot, mostra trabalhadores pendurados durante a concretagem do Congresso Nacional. O livro n\u00e3o enseja qualquer problematiza\u00e7\u00e3o ou atividade a partir dessa imagem. H\u00e1 silenciamento sobre o que a historiografia, outros documentos, e a pr\u00f3pria fotografia utilizada revelam, contrariando pressupostos da did\u00e1tica e do uso de fontes documentais no ensino de Hist\u00f3ria. A imagem \u00e9 apenas um acess\u00f3rio est\u00e9tico.<\/p>\n<p>Passados 65 anos da inaugura\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia, \u00e9 poss\u00edvel estabelecer alguns consensos hist\u00f3ricos e historiogr\u00e1ficos. Um deles \u00e9 o sil\u00eancio reiterado sobre a decisiva participa\u00e7\u00e3o popular para construir a capital. No entanto, h\u00e1 fartura de fontes documentais e conhecimento suficiente para revis\u00e1-la e estabelecer uma Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia desde baixo. Mas como transpor a barreira da \u201cvontade pol\u00edtica\u201d, a mesma usada como justificativa para a transfer\u00eancia da capital, e que tanto domina as rela\u00e7\u00f5es de poder em Bras\u00edlia, e estabelecer novas perspectivas historiogr\u00e1ficas e de ensino desse tema?<\/p>\n<p>Certamente existe o receio, de parte da sociedade, de gerar frustra\u00e7\u00e3o coletiva, ao constatar que a cidade ut\u00f3pica, imaginada h\u00e1 s\u00e9culos, n\u00e3o foi fruto apenas da \u201cvontade pol\u00edtica\u201d de JK. Seria a desconstru\u00e7\u00e3o de um mito e o rebaixamento de um dos her\u00f3is pol\u00edticos nacionais. Mas o fato \u00e9 que Bras\u00edlia foi constru\u00edda com a participa\u00e7\u00e3o fundamental de trabalhadores e pessoas comuns, e desde ent\u00e3o h\u00e1 um processo de silenciamento desses sujeitos hist\u00f3ricos.<\/p>\n<p>Seguiremos homenageando o hero\u00edsmo de JK, em detrimento do papel relevante desempenhado por Jos\u00e9 Leone de Brito, C\u00edcero Marques, Jo\u00e3o de Souza e Silva, Afonso Pereira de Souza e dezenas de milhares de oper\u00e1rios e pessoas comuns que ergueram a capital? Mergulharemos no presente da capital, na favela do <em>Sol Nascente<\/em>, para reconstruir as origens desse passado marcado por exclus\u00e3o social, urbana e de mem\u00f3ria? Ou caminharemos pela Pra\u00e7a dos Tr\u00eas Poderes, de m\u00e3os dadas com o senso comum e as vendas dos olhos de T\u00eamis, refor\u00e7ando a fantasiosa imagem de capital da esperan\u00e7a sem povo?<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>ARQUIVO P\u00daBLICO DO DISTRITO FEDERAL (ARPDF). Fundo Novacap. <strong>Livro de Ocorr\u00eancias<\/strong> <strong>(1959-1960)<\/strong>, Bras\u00edlia (DF).<\/p>\n<p>ARQUIVO P\u00daBLICO DO DISTRITO FEDERAL (ARPDF). Fundo Novacap. <strong>Fichas Funcionais<\/strong>, Bras\u00edlia (DF).<\/p>\n<p>BOMENY, H.. Utopias de cidade: as capitais do modernismo. In: GOMES, \u00c2ngela de Castro (Org.). <strong>O Brasil de JK<\/strong>. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2002, p.201-223.<\/p>\n<p>BOULOS J\u00daNIOR, Alfredo. <strong>Hist\u00f3ria Sociedade &amp; Cidadania<\/strong>: 9\u00ba ano. 5 ed. \u2013 S\u00e3o Paulo: FTD, 2022.<\/p>\n<p>FARIAS, J.; MONTES, H.. Sol Nascente: Censo 2022 em uma das maiores favelas do pa\u00eds. <strong>Ag\u00eancia de Not\u00edcias IBGE<\/strong>, 24 de outubro de 2022. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/agenciadenoticias.ibge.gov.br\/agencia-noticias\/2012-agencia-de-noticias\/noticias\/35253-sol-nascente-censo-2022-em-uma-das-maiores-favelas-do-pais\"><u>https:\/\/agenciadenoticias.ibge.gov.br\/agencia-noticias\/2012-agencia-de-noticias\/noticias\/35253-sol-nascente-censo-2022-em-uma-das-maiores-favelas-do-pais<\/u><\/a>. Acesso em: 15 dez. 2023.<\/p>\n<p>INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTAT\u00cdSTICA (IBGE). <strong>Censo Experimental de Bras\u00edlia<\/strong>: Popula\u00e7\u00e3o, Habita\u00e7\u00e3o. IBGE, Rio de Janeiro, 17 de maio de 1959. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/biblioteca.ibge.gov.br\/visualizacao\/livros\/liv14652.pdf\"><u>https:\/\/biblioteca.ibge.gov.br\/visualizacao\/livros\/liv14652.pdf<\/u><\/a>. Acesso em: 4 set. 2024.<\/p>\n<p>INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTAT\u00cdSTICA (IBGE). <strong>Censo Demogr\u00e1fico 2022<\/strong>: Popula\u00e7\u00e3o e domic\u00edlios \u2013 primeiros resultados, 2023. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/biblioteca.ibge.gov.br\/visualizacao\/livros\/liv102011.pdf\"><u>https:\/\/biblioteca.ibge.gov.br\/visualizacao\/livros\/liv102011.pdf<\/u><\/a>. Acesso em: 28 jun. 2023.<\/p>\n<p>RIBEIRO, G. L.. <strong>O Capital da Esperan\u00e7a<\/strong> \u2013 A experi\u00eancia dos trabalhadores na constru\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia. Bras\u00edlia: Editora da Universidade de Bras\u00edlia, 2008.<\/p>\n<p>THOMPSON, E. P.. <strong>A Forma\u00e7\u00e3o da Classe Oper\u00e1ria Inglesa<\/strong>(3 volumes). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.<\/p>\n<p>VESENTINI, J. W.. <strong>A capital da geopol\u00edtica<\/strong>. Editora \u00c1tica, 1993.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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