{"id":27638,"date":"2025-05-13T17:46:55","date_gmt":"2025-05-13T20:46:55","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/a-grande-historia-de-amor-de-pepe-mujica\/"},"modified":"2025-05-13T17:46:55","modified_gmt":"2025-05-13T20:46:55","slug":"a-grande-historia-de-amor-de-pepe-mujica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/a-grande-historia-de-amor-de-pepe-mujica\/","title":{"rendered":"A grande hist\u00f3ria de amor de Pepe Mujica"},"content":{"rendered":"<p>Primavera de 1973. N\u00e3o eram tempos de amor na America do Sul. Ela n\u00e3o se chamava Ana, mas era assim que seus camaradas e a pol\u00edcia uruguaia a conheciam. Ana, a guerrilheira, detida em uma pris\u00e3o militar feminina, constru\u00edda especialmente para mulheres tupamaras, em algum lugar desconhecido no interior do Uruguai, com uma carta na m\u00e3o, que era de Emiliano, ou Ulpiano, ou seja l\u00e1 qual fosse o seu verdadeiro nome.<\/p>\n<p>Em junho daquele ano, a ditadura rec\u00e9m iniciada no Uruguai anunciou com pompa que havia acabado com o Movimento de Libera\u00e7\u00e3o Nacional, guerrilha conhecida no pa\u00eds e no mundo inteiro como Tupamaros \u2013 o nome era t\u00e3o marcante que at\u00e9 o apelido acabou fazendo parte da sigla: MLN-T. Centenas de jovens revolucion\u00e1rios foram mandados \u00e0 pris\u00e3o, quinze deles se tornaram conhecidos como \u201cref\u00e9ns de guerra\u201d. Um desses ref\u00e9ns era Ulpiano.<\/p>\n<p>Apesar do decreto ditatorial, ainda havia tupamaros soltos e espalhados pelo pa\u00eds. Por isso o regime decidiu criar a figura dos ref\u00e9ns, que passaram a viver sob a seguinte regra: se alguma c\u00e9lula dos Tupamaros voltasse a atuar, um ref\u00e9m seria fuzilado \u2013 ou mais de um, dependendo do caso. O tormento dos ref\u00e9ns da ditadura uruguaia est\u00e1 retratado no filme <em>Uma Noite de 12 Anos<\/em>, de \u00c1lvaro Brechner.<\/p>\n<p>Um carcereiro da pris\u00e3o feminina gostava de chutar as grades da cela de Ana e relembrar as \u00faltimas humilha\u00e7\u00f5es, de diferentes tipos, que impunha a ela e suas companheiras. Ana continuou lendo a carta. Ele insistiu: \u201cvoc\u00ea vai ficar aqui por milhares de anos\u201d. Ela retrucou: \u201cquando eu sair daqui, vou viver a minha vida, e voc\u00ea ser\u00e1 um fantasma\u201d.<\/p>\n<p>Entre as gargalhadas dos demais gendarmes, Ana tentou encontrar algo onde escrever uma resposta. Precisava contar sua verdade, que seu nome n\u00e3o era Ana, que era filha de uma fam\u00edlia de classe alta de Pocitos, bairro nobre de Montevid\u00e9u. Tinha uma irm\u00e3 g\u00eamea, tinha uma fam\u00edlia enorme, tinha saudades, e tamb\u00e9m tinha medo, mas n\u00e3o medo da morte. E queria se encontrar com ele.<\/p>\n<p>Dias depois, seu advogado lhe forneceu papel, caneta e a grande coincid\u00eancia de suas vidas. Ele era casado com a advogada de Ulpiano. Os defensores nada podiam fazer pelos guerrilheiros nos tribunais. Livr\u00e1-los da pris\u00e3o em meio a uma ditadura era impens\u00e1vel. A \u00fanica op\u00e7\u00e3o era servir como um casal de carteiros, trabalhando por um amor que lutava para sobreviver.<\/p>\n<h3>Amor nos tempos da guerrilha<\/h3>\n<p>Ana e Ulpiano foram dois prisioneiros vivendo um t\u00edpico amor tupamaro. O MLN-T surgiu em meados dos Anos 60, fundado por um grupo de estudantes socialistas que queriam fazer a revolu\u00e7\u00e3o no Uruguai, inspirados pelo sucesso da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana.<\/p>\n<p>Diferente das guerrilhas urbanas de outros pa\u00edses, os Tupamaros come\u00e7aram a atuar antes de instalada a ditadura. A vida na clandestinidade impedia que houvesse rela\u00e7\u00f5es fora da organiza\u00e7\u00e3o e saber o verdadeiro nome das pessoas com quem trabalhavam podia colocar a vida delas e a sua pr\u00f3pria em risco. O amor deles nasceu quando ela se chamava Ana e ele Ulpiano, n\u00e3o importava o que diziam os documentos de identidade.<\/p>\n<p>No meio da hist\u00f3ria, tamb\u00e9m houve uma fuga da pris\u00e3o. Ana era uma estudante de arquitetura com talento para a falsifica\u00e7\u00e3o de documentos. Uma dessas identidades falsas permitiu que o camarada de codinome Emiliano passasse a se chamar Ulpiano, para fugir de um mandado de captura. E assim eles se conheceram.<\/p>\n<p>Ana tinha um namorado que tamb\u00e9m era do MLN-T. Se chamava Blanco Katr\u00e1s, e foi capturado pela pol\u00edcia, junto com ela, meses depois daquela falsifica\u00e7\u00e3o. Ana s\u00f3 passou alguns meses na cadeia, mas Blanco terminou sendo executado pela pol\u00edcia uruguaia.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o era o primeiro namorado que eu perdia naquelas condi\u00e7\u00f5es, e j\u00e1 tinha visto muitos outros camaradas morrerem. N\u00e3o h\u00e1 tempo para sentir pena quando voc\u00ea precisa salvar a pr\u00f3pria pele\u201d, disse Ana, anos depois, em um livro que contou sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Libertada em 1971, ela encontrou ref\u00fagio no mesmo por\u00e3o em que estava escondido Ulpiano, que j\u00e1 era, naquele ent\u00e3o, um dos homens mais procurados do pa\u00eds.<\/p>\n<p>A ca\u00e7a aos Tupamaros no Uruguai passou a ser mais intensa nos Anos 70, com a ajuda de agentes do governo dos Estados Unidos. Anos antes, em agosto de 1970, os guerrilheiros sequestraram e assassinaram um agente do Departamento Federal de Investiga\u00e7\u00e3o (FBI, por sua sigla em ingl\u00eas), chamado Dan Mitrione. Ulpiano foi acusado de fazer parte dessa opera\u00e7\u00e3o \u2013 que \u00e9 retratada no filme <em>Estado de S\u00edtio<\/em>, de Konstantinos Costa-Gavras.<\/p>\n<p>Talvez tenha sido por volta de 1971 que Ana e Ulpiano passaram a viver de por\u00e3o em por\u00e3o pelos bairros do centro velho de Montevid\u00e9u. \u201cEles passaram a andar juntos na \u00e9poca mais dura, quando nem sempre havia um teto. \u00c0s vezes, era preciso dormir em p\u00e2ntanos fora do per\u00edmetro urbano da cidade. Talvez a rela\u00e7\u00e3o, digamos, f\u00edsica, n\u00e3o tenha come\u00e7ado nessa \u00e9poca, mas com certeza o carinho m\u00fatuo sim\u201d, relata Henry Engler, um ex-tupamaro, amigo pessoal de Ulpiano.<\/p>\n<h3>Amor nos tempos do c\u00e1rcere<\/h3>\n<p>O pouco que se sabe sobre o come\u00e7o da rela\u00e7\u00e3o \u00e9 que eles se tornaram imprescind\u00edveis um para o outro nos \u00faltimos meses, antes do in\u00edcio da ditadura.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a pris\u00e3o, a rela\u00e7\u00e3o sobreviveu com a ajuda dos advogados-carteiros. Ela revelou seu nome, se chamava Luc\u00eda, Luc\u00eda Topolansky. Disse que sonhava em sair dali e encontr\u00e1-lo. Ele respondeu dizendo que seu nome era Jos\u00e9 Alberto Mujica Cordano.<\/p>\n<figure aria-describedby=\"caption-attachment-212691\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/pepe-lucia.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"517\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/pepe-lucia.jpg 800w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/pepe-lucia-300x194.jpg 300w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/pepe-lucia-768x496.jpg 768w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/pepe-lucia-750x485.jpg 750w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\"><figcaption>Archivo pessoal <br \/>Luc\u00eda e Pepe, anos depois de deixarem de ser Ana e Ulpiano<\/figcaption><\/figure>\n<p>A carta-desabafo de Pepe Mujica, ex-Ulpiano, era a mais bela carta de amor de todos os tempos, segundo as companheiras de pres\u00eddio de Luc\u00eda \u2013 \u201cera toda sentimentalona, como todas as coisas do Pepe\u201d, segundo Mar\u00eda Elia Topolansky, irm\u00e3 g\u00eamea de Luc\u00eda, tamb\u00e9m ex-tupamara. Passou por todas as m\u00e3os e fez sucesso at\u00e9 entre os carcereiros \u2013 \u201cnaqueles anos, cada carta que chegava era para todas\u201d, conta Luc\u00eda.<\/p>\n<p>Diz a lenda que a ternura das palavras de Mujica amoleceu as restri\u00e7\u00f5es que havia para correspond\u00eancia entre presos, e assim eles puderam trocar mais cartas que os demais casais tupamaros separados entre pris\u00f5es.<\/p>\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o durou exatamente os doze anos, at\u00e9 que eles finalmente se reencontraram com a sa\u00edda da pris\u00e3o, a \u00fanica da qual eles n\u00e3o puderam fugir.<\/p>\n<h3>Amor nos tempos da liberdade<\/h3>\n<p>No dia 14 de mar\u00e7o de 1985, Luc\u00eda e sua irm\u00e3 g\u00eamea deixaram a cadeia e foram para a enorme casa da fam\u00edlia. No mesmo dia, Jos\u00e9 Mujica \u2013 ou Pepe, apelido pelo qual era conhecido \u2013 foi libertado, depois de onze anos na solit\u00e1ria, \u201cconversando com os ratos e agarrado na esperan\u00e7a\u201d segundo ele mesmo.<\/p>\n<p>\u201cNo dia seguinte, Luc\u00eda foi embora da casa dos nossos pais, foi morar com o Pepe, e nunca mais voltou\u201d, conta Mar\u00eda Elia Topolansky.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, eles viveram juntos em uma ch\u00e1cara de um bairro de classe baixa, na periferia de Montevid\u00e9u. Come\u00e7aram cultivando flores e vendendo no mercado municipal, mas sem esquecer os ideais pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Ambos formaram parte do grupo fundador do Movimento de Participa\u00e7\u00e3o Popular (MPP), constitu\u00eddo majoritariamente por ex-tuparamos. O partido se tornou um dos mais importantes da Frente Ampla uruguaia, e entre seus membros est\u00e1 o atual presidente do pa\u00eds, Yamand\u00fa Orsi.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s do MPP, Pepe se candidatou e se elegeu deputado em 1995. Em 2000, ele passou a ser senador, e Luc\u00eda deputada. Em 2005, ela se elegeu senadora, e nesse mesmo momento, 30 anos depois do come\u00e7o da rela\u00e7\u00e3o, 20 anos depois de come\u00e7arem a viver juntos, decidiram formalizar o matrim\u00f4nio, que durou outros 20 anos.<\/p>\n<p>Cinco anos depois do casamento, Pepe assumiu como presidente do Uruguai.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>PS.: a melhor forma de mergulhar na hist\u00f3ria de amor de Pepe Mujica e Luc\u00eda Topolansky, e tamb\u00e9m na hist\u00f3ria dos Tupamaros, \u00e9 mergulhar na hist\u00f3ria dela, escrita pelos jornalistas e historiadores uruguaios Nelson Caula e Alberto Silva, autores do livro <em>Ana, La Guerrillera<\/em>, que traz detalhes de tudo o que se contou neste texto e muito outros epis\u00f3dios sobre a luta do MLN-T, a vida na clandestinidade e a disputa pol\u00edtica travada no Uruguai antes, durante e depois da sua mais recente ditadura.<\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/operamundi.uol.com.br\/historia\/a-grande-historia-de-amor-de-pepe-mujica\/\">A grande hist\u00f3ria de amor de Pepe Mujica<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/operamundi.uol.com.br\/\">Opera Mundi<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/requintes-de-tortura-por-negligencia-do-estado-um-preso-morre-a-cada-19-horas-em-sao-paulo\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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