{"id":27855,"date":"2025-05-14T19:50:07","date_gmt":"2025-05-14T22:50:07","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/a-universidade-refem-do-produtivismo\/"},"modified":"2025-05-14T19:50:07","modified_gmt":"2025-05-14T22:50:07","slug":"a-universidade-refem-do-produtivismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/a-universidade-refem-do-produtivismo\/","title":{"rendered":"A universidade ref\u00e9m do produtivismo"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1012\" height=\"677\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Sem-titulo-3.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Sem-titulo-3.jpeg 1012w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Sem-titulo-3-300x201.jpeg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Sem-titulo-3-768x514.jpeg 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Sem-titulo-3-272x182.jpeg 272w\" sizes=\"(max-width: 1012px) 100vw, 1012px\"><figcaption>Imagem: SoU_Ci\u00eancia (Unifesp)\/ Meyrele Nascimento <\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Pode-se afirmar que o fundamento que estrutura o meio acad\u00eamico brasileiro \u00e9 o da precariza\u00e7\u00e3o, ou seja, a maior parte dos profissionais que produzem conhecimento cient\u00edfico o fazem em condi\u00e7\u00f5es de extrema dificuldade. N\u00e3o h\u00e1 muitas das condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas para a realiza\u00e7\u00e3o das atividades, seja em termos de estrutura f\u00edsica ou de pessoal, fazendo com que o pesquisador e seus colaboradores encontrem grandes dificuldades para realizar seu trabalho.<\/p>\n<p>Os professores das universidades p\u00fablicas, onde \u00e9 realizada a maior parte das pesquisas, encontram dificuldades como a escassez de tempo para se dedicar \u00e0 pesquisa e \u00e0 extens\u00e3o, combinada a uma extensa carga hor\u00e1ria de aulas. Os professores das institui\u00e7\u00f5es privadas, com poucas exce\u00e7\u00f5es, n\u00e3o s\u00e3o incentivados a fazer pesquisa nem a atuar na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Os t\u00e9cnico-administrativos, al\u00e9m de gastar a maior parte do seu tempo em tarefas operacionais, sofrem com todo tipo de preconceitos e marginaliza\u00e7\u00e3o, tornando praticamente imposs\u00edvel a dedica\u00e7\u00e3o a outras atividades do espa\u00e7o acad\u00eamico, como pesquisa e extens\u00e3o. Os centros de pesquisa p\u00fablicos s\u00e3o poucos e, a despeito de produzirem importantes pesquisas, n\u00e3o conseguem dar conta das necessidades demandadas pela sociedade.<\/p>\n<p>Outro aspecto a ser considerado se refere \u00e0 materializa\u00e7\u00e3o da precariza\u00e7\u00e3o na condi\u00e7\u00e3o dos estudantes. Como os docentes t\u00eam dificuldades de tempo e de estrutura para realizar suas pesquisas, acabam sendo os estudantes os respons\u00e1veis por realizar parte dmerco trabalho, cabendo ao coordenador do projeto se limitar a uma orienta\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica ou simplesmente colocar o nome no artigo final. Esse elemento se manifesta em especial numa divis\u00e3o de tarefas em que a pesquisa dos orientadores \u00e9 dividida em partes que os discentes assumem, independentemente do seu n\u00edvel de forma\u00e7\u00e3o. Com isso, grande parte das disserta\u00e7\u00f5es e teses desenvolvidas no interior dos grupos de pesquisa acabam sendo n\u00e3o o produto do interesse dos pesquisadores em forma\u00e7\u00e3o, mas fragmentos de uma investiga\u00e7\u00e3o cujos resultados est\u00e3o voltados para os interesses e para o curr\u00edculo do docente que coordena o projeto.<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/apoia.se\/outraspalavras\" aria-label=\"MAT\u00c9RIA-3\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/MATERIA-3-2.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/MATERIA-3-2.png 681w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-3-300x75.png 300w\" sizes=\"(max-width: 681px) 100vw, 681px\" width=\"681\" height=\"171\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>Os discentes, a despeito da enorme responsabilidade que acabam assumindo, inclusive eventualmente de doc\u00eancia, recebem bolsas cujos valores n\u00e3o condizem com suas necessidades vitais e mesmo de apoio \u00e0s suas pesquisas. Em meio \u00e0 necessidade de aquisi\u00e7\u00e3o de bibliografia, de viagem para pesquisas e eventos, al\u00e9m de necessidades primordiais, como se alimentar e pagar aluguel, os valores pagos pelas bolsas v\u00e3o sendo corro\u00eddos pela infla\u00e7\u00e3o sem que haja qualquer pol\u00edtica de reajuste permanente. Um fator ainda mais degradante se refere ao fato de que, em um cen\u00e1rio de crise econ\u00f4mica e desemprego, para esses pesquisadores em forma\u00e7\u00e3o a bolsa muitas vezes n\u00e3o est\u00e1 ligada a um projeto de vida e carreira como pesquisador, mas apenas \u00e0 necessidade imediata de sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Em meio a isso, se coloca a supervaloriza\u00e7\u00e3o da titula\u00e7\u00e3o, onde a obten\u00e7\u00e3o do doutorado n\u00e3o \u00e9 encarada como uma fase da forma\u00e7\u00e3o do pesquisador, mas um objeto de poder que pode ser utilizado como uma forma de distin\u00e7\u00e3o dentro do ambiente acad\u00eamico. Nas universidades o t\u00edtulo de doutor pode representar tamb\u00e9m o ponto mais elevado dentro da burocracia universit\u00e1ria, ocupando cargos de dire\u00e7\u00e3o ou mesmo a reitoria. O docente doutor pode orientar pesquisadores de todos os n\u00edveis de forma\u00e7\u00e3o, pleitear todos os tipos de financiamento e acessar todos os cargos e \u00f3rg\u00e3os dispon\u00edveis na institui\u00e7\u00e3o. Muitos doutores fazem quest\u00e3o n\u00e3o apenas de ressaltar sua titula\u00e7\u00e3o, mas de destacar que isso os torna especiais e, por isso, mais importantes que todos os demais profissionais que atuam na institui\u00e7\u00e3o, inclusive em compara\u00e7\u00e3o at\u00e9 mesmo com t\u00e9cnico-administrativos que possuem doutorado. Essa rela\u00e7\u00e3o de poder e deten\u00e7\u00e3o de <em>status<\/em> \u00e9 uma demonstra\u00e7\u00e3o de que \u201co capital universit\u00e1rio se obt\u00e9m e se mant\u00e9m por meio da ocupa\u00e7\u00e3o de posi\u00e7\u00f5es que permitem dominar outras posi\u00e7\u00f5es e seus ocupantes\u201d.<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/mercadovsdemocracia\/a-universidade-refem-do-produtivismo\/#sdfootnote1sym\"><sup>1<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Para que seja relevante, o t\u00edtulo de doutor dos pesquisadores precisa estar acompanhado de uma rede de financiamento e alian\u00e7as que possibilitem \u00e0 institui\u00e7\u00e3o obter mais e mais recursos. Em fun\u00e7\u00e3o disso, n\u00e3o importa a relev\u00e2ncia da pesquisa ou o papel que possui o pesquisador em sua \u00e1rea, mas somente a capacidade que ele tem de obter recursos, sejam p\u00fablicos ou privados, e as redes de contatos em que est\u00e1 inserido. Para a maior parte das institui\u00e7\u00f5es vale mais a pena ter um pesquisador que, embora sem grandes contribui\u00e7\u00f5es em sua \u00e1rea de pesquisa, possua amigos influentes em outras universidades e centros de pesquisa.<\/p>\n<p>Essa necessidade de busca por financiamento impacta na escolha do que \u00e9 produzido na institui\u00e7\u00e3o, ainda que a pesquisa seja irrelevante em sua \u00e1rea do conhecimento ou apresente uma baixa qualidade te\u00f3rica e metodol\u00f3gica. O crit\u00e9rio passa pela publicidade que a pesquisa possa alcan\u00e7ar e pela sua capacidade de ser vendida ao mercado. Esse processo tem rela\u00e7\u00e3o direta com a crise na qual se encontra o sistema capitalista, que:<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201c[\u2026] reflete-se numa crise dos valores burgueses, da moralidade, da religi\u00e3o, da pol\u00edtica e da filosofia. O pessimismo que aflige \u00e0 burguesia e aos seus ide\u00f3logos neste per\u00edodo se manifesta na pobreza de seus pensamentos, na trivialidade de sua arte e no vazio de seus valores espirituais. Expressa-se no espantalho filos\u00f3fico p\u00f3s-modernista, que se imagina superior a toda filosofia anterior, quando, na realidade, \u00e9 absolutamente inferior\u201d.<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/mercadovsdemocracia\/a-universidade-refem-do-produtivismo\/#sdfootnote2sym\"><sup>2<\/sup><\/a><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Muitas das pesquisas se tornam meras repeti\u00e7\u00f5es umas das outras, com pequenas varia\u00e7\u00f5es, dentro de grupos de pesquisas ou como parte de redes. Produz-se uma grande quantidade de teses, disserta\u00e7\u00f5es e artigos que basicamente discutem os mesmos assuntos, apresentando pequenas mudan\u00e7as nos objetos ou nos problemas a serem discutidos. N\u00e3o h\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o efetiva em ensaiar novas metodologias e perspectivas, mas somente em chegar a um produto, o que obviamente \u00e9 garantido por uma metodologia conhecida e utilizada de forma repetida e recorrente. N\u00e3o se trata aqui de experimentos variados que levam a um novo conhecimento, podendo contribuir inclusive para uma renova\u00e7\u00e3o daquele campo de pesquisa, mas de um conhecimento pronto que basicamente vai sendo repetido \u00e0 exaust\u00e3o e, dessa forma, garantir a produ\u00e7\u00e3o em grande escala de disserta\u00e7\u00f5es, teses e artigos.<\/p>\n<p>Uma consequ\u00eancia dessa repeti\u00e7\u00e3o de m\u00e9todos e procedimentos \u00e9 um completo desd\u00e9m pelo debate te\u00f3rico. Evita-se produzir reflex\u00f5es que exijam a leitura aprofundada de cl\u00e1ssicos e um denso debate epistemol\u00f3gico, e que poderiam apontar para novas interpreta\u00e7\u00f5es ou mesmo para constru\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas inovadoras. O caminho mais comum \u00e9 partir de algum referencial pronto, normalmente algum autor ou um campo da moda na Europa ou nos Estados Unidos, e aplicar na pesquisa. Muitos pesquisadores apenas se alongam em cita\u00e7\u00f5es que, com sorte, talvez fa\u00e7am sentido dentro da l\u00f3gica do texto. Como consequ\u00eancia, a ci\u00eancia \u201cse converter numa rotina de simples absor\u00e7\u00e3o e arquivamento de ideias, de mera repeti\u00e7\u00e3o de procedimentos conhecidos e sancionados, dos quais apenas se esperam os resultados seguros e rendosos que n\u00e3o podem faltar\u201d.<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/mercadovsdemocracia\/a-universidade-refem-do-produtivismo\/#sdfootnote3sym\"><sup>3<\/sup><\/a> Torna-se, assim, praticamente imposs\u00edvel a constru\u00e7\u00e3o de um referencial te\u00f3rico que apresente inova\u00e7\u00f5es e novos olhares para os objetos de pesquisa.<\/p>\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o acaba se mostrando mais grave na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, onde se estruturou uma avalia\u00e7\u00e3o quantitativa do trabalho realizado, embasada num sistema de controle que inicia nos projetos em andamento, passa pelas orienta\u00e7\u00f5es e trabalhos em eventos, chegando \u00e0 publica\u00e7\u00e3o de artigos e livros, exigindo uma coer\u00eancia tem\u00e1tica e metodol\u00f3gica que \u00e9 medida n\u00e3o por crit\u00e9rios te\u00f3ricos e metodol\u00f3gicos ou pela relev\u00e2ncia para a \u00e1rea de conhecimento, mas, em \u00faltima inst\u00e2ncia, por palavras-chave ou n\u00famero de cita\u00e7\u00f5es. Os pesquisadores, as institui\u00e7\u00f5es a que est\u00e3o vinculados, os peri\u00f3dicos e os livros s\u00e3o categorizados e ranqueados, sendo sua classifica\u00e7\u00e3o um crit\u00e9rio determinante na defini\u00e7\u00e3o da distribui\u00e7\u00e3o de recursos. Entende-se que essa \u201cado\u00e7\u00e3o do modo quantitativo de avalia\u00e7\u00e3o das produ\u00e7\u00f5es cientificas, e o fato de que ele passa ser visto como razo\u00e1vel, decorre do processo de mercantiliza\u00e7\u00e3o ao qual a ci\u00eancia est\u00e1 sujeita no capitalismo\u201d.<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/mercadovsdemocracia\/a-universidade-refem-do-produtivismo\/#sdfootnote4sym\"><sup>4<\/sup><\/a><\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/rosalux.org.br\/curso-online-gratuito-o-legado-revolucionario-de-rosa-luxemburgo\/\" aria-label=\"curso rosa luxemburgo\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/curso-rosa-luxemburgo-1.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/curso-rosa-luxemburgo-1.png 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/curso-rosa-luxemburgo-300x37.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>Esse cen\u00e1rio de press\u00e3o pela produtividade est\u00e1 associado \u00e0s mudan\u00e7as na forma de organiza\u00e7\u00e3o do trabalho, na medida em que o capitalismo necessita cada vez mais que a t\u00e9cnica e a tecnologia garantam a diminui\u00e7\u00e3o nos custos de produ\u00e7\u00e3o. No sistema capitalista, \u201ca grande ind\u00fastria tem de incrementar extraordinariamente a for\u00e7a produtiva do trabalho por meio da incorpora\u00e7\u00e3o de enormes for\u00e7as naturais e das ci\u00eancias da natureza ao processo de produ\u00e7\u00e3o\u201d.<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/mercadovsdemocracia\/a-universidade-refem-do-produtivismo\/#sdfootnote5sym\"><sup>5<\/sup><\/a> Cabe \u00e0 pesquisa um papel decisivo nesse processo, na medida em que possibilita a incorpora\u00e7\u00e3o de novas tecnologias ao processo produtivo, exigindo-se resultados r\u00e1pidos, inovadores e com impactos pr\u00e1ticos. Como parte do processo de \u201creorganiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, a esfera de natureza simb\u00f3lico-cultural altera-se, para constituir-se de valores e signos pr\u00f3prios da produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, no contexto de tecnifica\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica e da cultura\u201d.<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/mercadovsdemocracia\/a-universidade-refem-do-produtivismo\/#sdfootnote6sym\"><sup>6<\/sup><\/a> Consequentemente, diante de dificuldades estruturais, de press\u00e3o pela produtividade, e de avalia\u00e7\u00f5es com crit\u00e9rios arbitr\u00e1rios, criam-se formas de garantir dados estat\u00edsticos de produ\u00e7\u00e3o. Nesse sentido:<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201c[\u2026] a press\u00e3o produtivista gera o efeito perverso do agir instrumental e do abandono do essencial (o <em>processo<\/em> em si, gerador de conhecimento e enriquecedor da forma\u00e7\u00e3o intelectual) pelo aparente, isto \u00e9, o resultado espelhado na pontua\u00e7\u00e3o. Em outras palavras, privilegia-se a quantidade sem se importar com a qualidade\u201d.<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/mercadovsdemocracia\/a-universidade-refem-do-produtivismo\/#sdfootnote7sym\"><sup>7<\/sup><\/a><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Esse problema se manifesta no com\u00e9rcio de publica\u00e7\u00f5es. O mercado das revistas acad\u00eamicas e as parcerias com empresas fazem com que se deixe de lado a possibilidade de produ\u00e7\u00e3o de conhecimentos que possam ter um car\u00e1ter socialmente refletido e que apontem para uma perspectiva minimamente cr\u00edtica. Construiu-se um complexo sistema de indicadores e estat\u00edsticas que mede n\u00e3o a qualidade ou a import\u00e2ncia do conhecimento produzido, mas a quantidade de textos que o pesquisador produz. N\u00e3o importa o conte\u00fado desses textos, se repetem integralmente o que foi escrito antes ou mesmo se n\u00e3o tem alguma relev\u00e2ncia, mas sim as cita\u00e7\u00f5es que faz e as que possa vir a obter. Os textos podem n\u00e3o apresentar nenhuma contribui\u00e7\u00e3o para sua \u00e1rea do conhecimento, mas tornam-se importantes dentro da realidade paralela do mundo acad\u00eamico, import\u00e2ncia essa completamente subjetiva e que somente faz sentido para um grupo espec\u00edfico de profissionais. O objetivo desses artigos produzidos em grande quantidade n\u00e3o \u00e9 a apresenta\u00e7\u00e3o de reflex\u00f5es realizadas a partir de uma pesquisa com efetiva contribui\u00e7\u00e3o para seu campo de estudo ou a interven\u00e7\u00e3o para a solu\u00e7\u00e3o de um problema da sociedade, mas a obten\u00e7\u00e3o de resultados que sejam mensur\u00e1veis por um sistema de avalia\u00e7\u00e3o definido com crit\u00e9rios arbitr\u00e1rios e desconhecido pela esmagadora maioria das pessoas de fora da universidade.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio, de precariza\u00e7\u00e3o do trabalho da pesquisa e de atribui\u00e7\u00e3o de pouca relev\u00e2ncia ao conte\u00fado que se produz, a ades\u00e3o aos modismos acaba sendo o caminho seguido por pesquisadores em qualquer n\u00edvel de forma\u00e7\u00e3o. Os pesquisadores acabam ou adotando os temas mais comuns do momento ou incorporando m\u00e9todos e teorias mais utilizados por seus pares, na medida em que isso facilita tanto a obten\u00e7\u00e3o de recursos e bolsas, como a publica\u00e7\u00e3o em revistas. O pesquisador deixa de ser um profissional que procura novos caminhos para seu trabalho, onde poderia encontrar saberes ainda pouco conhecidos e nada explorados, para permanecer estagnado em um lugar lotado e totalmente desgastado. Outro aspecto tem rela\u00e7\u00e3o com o fato de esses m\u00e9todos, teorias e objetos de moda normalmente expressarem interesses privados que, mesmo quando n\u00e3o influem de forma direta sobre o financiamento da pesquisa, determinam a import\u00e2ncia que se deve dar ao trabalho do pesquisador.<\/p>\n<p>Essa busca por estar na moda e em harmonia com os temas e teorias dominantes nos meios acad\u00eamicos tamb\u00e9m tem como consequ\u00eancia o fato de se evitar quaisquer pol\u00eamicas. Se h\u00e1 diverg\u00eancias te\u00f3ricas, deve-se ou faz\u00ea-las da forma mais cordial poss\u00edvel ou at\u00e9 mesmo evitar torn\u00e1-las p\u00fablicas, embora a produ\u00e7\u00e3o do conhecimento necessite do debate e da cr\u00edtica para apontar n\u00e3o apenas limita\u00e7\u00f5es do trabalho realizado, como indicar poss\u00edveis caminhos a serem seguidos. Nos diversos campos, dominam teorias, temas e m\u00e9todos quase consensuais, parecendo que todos falam a mesma coisa, ainda que com pequenas varia\u00e7\u00f5es na forma. O meio acad\u00eamico atualmente existente, com raras e marginalizadas exce\u00e7\u00f5es, n\u00e3o \u00e9 constitu\u00eddo por um espa\u00e7o de debate aberto e saud\u00e1vel, mas por um comodismo que aceita passivamente os modismos dominantes e a precariza\u00e7\u00e3o estrutural.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, algumas vozes t\u00eam se levantando para denunciar os problemas enfrentados pelos pesquisadores, enfatizando especialmente cortes de verbas para fomento, dificuldades estruturais e a amea\u00e7a de perda de bolsas. Contudo, de forma geral, essas cr\u00edticas n\u00e3o apresentam uma an\u00e1lise da l\u00f3gica perversa do meio acad\u00eamico e do fato de que sua precariza\u00e7\u00e3o n\u00e3o se limita a um projeto de governo, mas constitui-se em uma estrat\u00e9gia diretamente ligada aos interesses do capital, que tem como objetivo a completa transforma\u00e7\u00e3o do conhecimento em mercadoria. Deve-se ressaltar que:<\/p>\n<p>\u201c[\u2026] as atividades intelectuais de produ\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia e da tecnologia n\u00e3o se constituem processos aut\u00f4nomos, independentes da realidade concreta onde se efetivam. A ci\u00eancia revela-se historicamente como instrumento de poder. Ela passa a atuar junto \u00e0s for\u00e7as produtivas de forma cada vez mais decisiva, ampliando cada vez mais sua pot\u00eancia econ\u00f4mica\u201d.<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/mercadovsdemocracia\/a-universidade-refem-do-produtivismo\/#sdfootnote8sym\"><sup>8<\/sup><\/a><\/p>\n<p>O Estado, diante das varia\u00e7\u00f5es no modo e nas rela\u00e7\u00f5es produ\u00e7\u00f5es, adapta as pol\u00edticas educacionais e de pesquisa aos interesses do capital, priorizando ora investimentos com recursos p\u00fablicos, ora a entrega da educa\u00e7\u00e3o \u00e0 gest\u00e3o privada, com ou sem recursos do Estado. Portanto, a despeito de todas as media\u00e7\u00f5es poss\u00edveis, em \u00faltima inst\u00e2ncia, a educa\u00e7\u00e3o sob o capitalismo \u00e9 funcional \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de valores de troca e \u00e0 explora\u00e7\u00e3o do trabalho. Com isso, a possibilidade de avan\u00e7o na produ\u00e7\u00e3o do conhecimento mostra-se incapaz de romper as barreiras da sua mercantiliza\u00e7\u00e3o, exigindo das organiza\u00e7\u00f5es trabalhadores a\u00e7\u00f5es que se coloquem no sentido de romper essa bolha perversa.<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Notas<\/strong>:<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/mercadovsdemocracia\/a-universidade-refem-do-produtivismo\/#sdfootnote1anc\">1<\/a> BOURDIEU, Pierre. Homo academicus. 2\u00aa Florian\u00f3polis: Editora da UFSC, 2011, p. 115.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/mercadovsdemocracia\/a-universidade-refem-do-produtivismo\/#sdfootnote2anc\">2<\/a> Alan Woods. Reformismo ou revolu\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Editora Marxista, 2009, p. 67.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/mercadovsdemocracia\/a-universidade-refem-do-produtivismo\/#sdfootnote3anc\">3<\/a> \u00c1lvaro Vieira Pinto. Ci\u00eancia e exist\u00eancia: problemas de filosofia da pesquisa cient\u00edfica. 3\u00aa ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985, p. 255.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/mercadovsdemocracia\/a-universidade-refem-do-produtivismo\/#sdfootnote4anc\">4<\/a> Marcos Barbosa de Oliveira. A mercantiliza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia: fun\u00e7\u00f5es, disfun\u00e7\u00f5es e alternativas. S\u00e3o Paulo: Scientiae Studia, 2023, p. 38.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/mercadovsdemocracia\/a-universidade-refem-do-produtivismo\/#sdfootnote5anc\">5<\/a> Karl Marx. O capital: cr\u00edtica da economia pol\u00edtica. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2013, p. 460.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/mercadovsdemocracia\/a-universidade-refem-do-produtivismo\/#sdfootnote6anc\">6<\/a> Valdemar Sguissardi; Jo\u00e3o Reis Silva Jr. Novas faces da educa\u00e7\u00e3o superior no Brasil: reforma do Estado e mudan\u00e7a na produ\u00e7\u00e3o. 2\u00aa ed. S\u00e3o Paulo: Cortez; Bragan\u00e7a Paulista: USF, 2001, p. 80.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/mercadovsdemocracia\/a-universidade-refem-do-produtivismo\/#sdfootnote7anc\">7<\/a> Antonio Oza\u00ed da Silva. A corrida pelo Lattes. In: Waldir Jos\u00e9 Rampinelli; Valdir Alvim; Gilmar Rodrigues (Org.). Universidade: a democracia amea\u00e7ada. S\u00e3o Paulo: Xam\u00e3, 2005, p. 89.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/mercadovsdemocracia\/a-universidade-refem-do-produtivismo\/#sdfootnote8anc\">8<\/a> Maria de Lourdes Pinto de Almeida. A pesquisa acad\u00eamica no s\u00e9culo XXI. Campinas: Mercado de Letras, 2012, p. 93.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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