{"id":28670,"date":"2025-05-19T18:52:35","date_gmt":"2025-05-19T21:52:35","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/ditadura-e-cinema-o-terror-contra-indigenas\/"},"modified":"2025-05-19T18:52:35","modified_gmt":"2025-05-19T21:52:35","slug":"ditadura-e-cinema-o-terror-contra-indigenas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/ditadura-e-cinema-o-terror-contra-indigenas\/","title":{"rendered":"Ditadura e Cinema: O terror contra ind\u00edgenas"},"content":{"rendered":"<figure><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/foto-1.png\" alt=\"\"><figcaption>Cena do filme \u201cArara\u201d, de Jesco von Puttmaker, que mostra cenas da formatura da 1\u00ba Guarda Rural Ind\u00edgena. Cr\u00e9ditos: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Durante as investiga\u00e7\u00f5es da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade em 2012, um novo material veio potencializar o que se sabia sobre a Guarda Rural Ind\u00edgena. Um pequeno rolo de filme em 16mm foi encontrado no antigo Museu do \u00cdndio, no Rio de Janeiro, por Rodrigo Piquet e levado ao pesquisador e organizador da comiss\u00e3o, Marcelo Zelic. Na pel\u00edcula a documenta\u00e7\u00e3o da formatura dos militares da Guarda Rural Ind\u00edgena evidencia um espet\u00e1culo bizarro de padroniza\u00e7\u00e3o, militariza\u00e7\u00e3o e ensino de tortura a c\u00e9u aberto.<\/p>\n<p>A imagem de dois ind\u00edgenas carregando um terceiro em um \u201cpau de arara\u201d, t\u00e9cnica de tortura cl\u00e1ssica do regime militar brasileiro, \u00e9 a \u00fanica imagem fotogr\u00e1fica que se tem dessa modalidade de tortura em toda a hist\u00f3ria da ditadura nacional. O que \u00e9 poss\u00edvel de se encontrar antes do filme s\u00e3o apenas representa\u00e7\u00f5es gr\u00e1ficas do aparato, mas n\u00e3o uma imagem real, muito menos em movimento.<\/p>\n<p>O registro de \u201cArara\u201d \u00e9 de 1970 e de autoria do diretor Jesco Von Puttmaker, um judeu brasileiro que teve que fugir de um campo de concentra\u00e7\u00e3o alem\u00e3o para onde foi levado com seu irm\u00e3o. No longa-metragem brasileiro de 2020, \u201cA Flecha e a Farda\u201d , o diretor Miguel Antunes Ramos mostra como a c\u00e2mera de Jesco segue os gestos militares e registra a identifica\u00e7\u00e3o das fardas por etnia, al\u00e9m dos cabelos compridos dos ind\u00edgenas fugindo ao padr\u00e3o militar.<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/apoia.se\/outraspalavras\" aria-label=\"MAT\u00c9RIA-GERAL\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/MATERIA-GERAL-24.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/MATERIA-GERAL-24.png 681w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-GERAL-300x75.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 681px) 100vw, 681px\" width=\"681\" height=\"171\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<figure><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/foto-2.png\" alt=\"\"><figcaption>Cena do filme \u201cArara\u201d, de Jesco von Puttmaker, que mostra cenas da formatura da 1\u00ba Guarda Rural Ind\u00edgena. Cr\u00e9ditos: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>Outro filme produzido com base na obra de Jesco, o curta-metragem GRIN, com dire\u00e7\u00e3o de Isael e Sueli Maxakali, al\u00e9m do cineasta n\u00e3o-ind\u00edgena Roney Freitas, retrata, atrav\u00e9s de depoimentos, como as marcas da GRIN permanecem vivas nos territ\u00f3rios ind\u00edgenas Maxakali. As feridas deixadas pelo pelot\u00e3o de Pinheiro v\u00e3o de um lado ao outro do treino militar, dos que viraram soldados aos que apanhavam deles, da lembran\u00e7a dos treinos s\u00e1dicos, \u00e0s execu\u00e7\u00f5es de torturas e mortes cru\u00e9is pelo pr\u00f3prio capit\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas al\u00e9m das feridas mal cicatrizadas da ditadura, um evento marcante perpassa a filmagem do m\u00e9dia e obriga o espectador a voltar ao tempo presente. Um pouco antes das filmagens, a paj\u00e9 Daldina Maxakali foi atropelada por um homem em uma moto que lhe negou socorro, deixando que ela morresse na beira da rodovia. O filme prova ent\u00e3o como os maus tratos direcionados \u00e0s comunidades ind\u00edgenas pela ditadura seguem vivos, al\u00e9m do descaso do poder p\u00fablico, c\u00famplice ainda de mortes di\u00e1rias de ind\u00edgenas em todo o territ\u00f3rio brasileiro.<\/p>\n<blockquote>\n<h4><strong>\u201cPara n\u00f3s a ditadura nunca acabou\u201d Sueli Maxacali<\/strong><\/h4>\n<\/blockquote>\n<h3>O Reformat\u00f3rio Krenak<\/h3>\n<p>Al\u00e9m da guarda, outros aparelhos de controle foram institu\u00eddos na regi\u00e3o do munic\u00edpio de Resplendor (MG) durante o regime militar. A cadeia Krenak, chamada eufemisticamente de \u201creformat\u00f3rio\u201d, era uma casa com alguns c\u00f4modos e um cub\u00edculo, onde os ind\u00edgenas \u201cdesobedientes\u201d eram trancafiados, muitas vezes por tempo indeterminado. O cub\u00edculo, parte mais temida da cadeia, era um min\u00fasculo anexo \u00e0 casa onde os prisioneiros eram colocados em solit\u00e1ria e onde uma goteira caia incessantemente na testa de quem ia parar l\u00e1, em um exerc\u00edcio cl\u00e1ssico de tortura.<\/p>\n<p>A cadeia Krenak era usada por membros da GRIN para todo tipo de pris\u00e3o arbitr\u00e1ria, sendo as desculpas mais comuns: a embriaguez, a vadiagem, a prostitui\u00e7\u00e3o, a sa\u00edda do Posto Ind\u00edgena sem autoriza\u00e7\u00e3o, envolvimento na luta de terra e a \u201cperturba\u00e7\u00e3o das autoridades\u201d. Considerada hoje por muitos inclusive como um equivalente de um campo de concentra\u00e7\u00e3o, a cadeia tinha por objetivo dominar o modo de vida ind\u00edgena, al\u00e9m de afast\u00e1-los de suas terras, deixando-as livres para a espolia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em seu livro \u201cOs Fuzis e as Flechas\u201d Rubens Valente conta como uma comunidade Krenak da regi\u00e3o foi expulsa de suas terras por um enxame de \u201cbaratinhas\u201d trazidas pelos brancos, e sobre como quando voltaram passaram a ser tratados tal qual os encarcerados do \u201creformat\u00f3rio\u201d (p.77).<\/p>\n<blockquote>\n<h4>\u201cOs Krenaks se tornaram, em amarga ironia, prisioneiros em sua pr\u00f3pria terra\u201dRubens Valente em \u201cOs Fuzis e as Flechas\u201d<\/h4>\n<\/blockquote>\n<p>Como se j\u00e1 n\u00e3o bastassem as violentas arbitrariedades cometidas pelos GRIN no exerc\u00edcio de seu poder, a cadeia se tornou uma nova ferramenta de pr\u00e1ticas de sadismo. Em2012 descobriu-se que ao menos 100 ind\u00edgenas passaram pela cadeia e que a maioria n\u00e3o tinha nem documento e nem acusa\u00e7\u00e3o formalizada. As condena\u00e7\u00f5es eram feitas por Pinheiro e seus subordinados de acordo com o seu humor.<\/p>\n<p>\u00c9 importante lembrar da participa\u00e7\u00e3o da Vale do Rio Doce nesse processo tamb\u00e9m. N\u00e3o \u00e9 \u00e0toa que diversos profissionais passaram a se referir \u00e0 ditadura brasileira como \u201cditadura empresarial-militar\u201d. A mesma mineradora que d\u00e9cadas depois iria contaminar completamente o Watu (como os Krenaks chamam o Rio Doce, a quem consideram seu av\u00f4), foi a empresa que emprestou seus trens para o transporte de pessoas para as cadeias ind\u00edgenas.<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/editoramundareu.com.br\/manjuba\/\" aria-label=\"Banner fixo\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Banner-fixo-3.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Banner-fixo-3.png 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Banner-fixo-300x37.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<blockquote>\n<h4>\u201cDesde a cria\u00e7\u00e3o do reformat\u00f3rio, a gente enxergava o rio como algo que nos protegia, que sempre manteve vivo o povo Krenak, tanto pela quest\u00e3o alimentar quanto pela quest\u00e3o espiritual. Hoje a gente tem medo de algo que sempre nos protegeu\u201dGeovani Krenak em reportagem do CIMI por Marina Oliveira<\/h4>\n<\/blockquote>\n<p>Segundo o cap\u00edtulo \u201cViola\u00e7\u00f5es de Direitos Humanos dos Povos Ind\u00edgenas\u201d, do relat\u00f3rio final da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade (CNV) , o general Oscar Geronymo Bandeira de Melo, presidente da Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio (Funai) entre 1970 e 1974, \u00e9 indicado como criador do reformat\u00f3rio Krenak. Segundo o documento o general teria sido respons\u00e1vel por manter o local como \u201cinstala\u00e7\u00e3o prisional pela Funai e local de tortura, morte e desaparecimento for\u00e7ado de ind\u00edgenas\u201d.<\/p>\n<h3>Comiss\u00e3o Nacional Ind\u00edgena da Verdade e Marco Temporal<\/h3>\n<p>A recente vit\u00f3ria dos povos Krenak e Guarani Kaiow\u00e1 perante a justi\u00e7a, com o reconhecimento de viola\u00e7\u00f5es ocorridas no per\u00edodo militar contra seus povos, trouxe uma nova esperan\u00e7a aos ind\u00edgenas que lutam pela prote\u00e7\u00e3o de suas comunidades. Pela primeira vez desde a sua cria\u00e7\u00e3o em 2002, a Comiss\u00e3o da Anistia fez um reconhecimento coletivo de danos causados pela ditadura aos ind\u00edgenas das duas etnias e fez um pedido de desculpas p\u00fablico a ambas, al\u00e9m de aprovarem recomenda\u00e7\u00f5es a \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos de modo a impedir que esse tipo de viola\u00e7\u00f5es se repitam.<\/p>\n<p>\u201cQueria me ajoelhar perante o senhor. Estou muito emocionada, mas, em nome do Brasil, do Estado brasileiro, quero pedir desculpas. E que o senhor leve esse pedido de desculpas a todo seu povo, em nome da Comiss\u00e3o de Anistia e do Estado brasileiro\u201d, disse, de joelhos, a presidenta da comiss\u00e3o, a advogada En\u00e9a de Stutz e Almeida\u201d. Conforme registrado por Alex Rodrigues para a Ag\u00eancia Brasil.<\/p>\n<p>Mas mesmo assim muitos ind\u00edgenas continuam insatisfeitos, j\u00e1 que esse reconhecimento foi feito para apenas duas etnias e ainda falta muito o que se investigar sobre os ataques \u00e0 ind\u00edgenas feitos pela ditadura militar. Por isso muitos apoiam a cria\u00e7\u00e3o de uma Comiss\u00e3o Nacional Ind\u00edgenas da Verdade, j\u00e1 que foram eles tamb\u00e9m os mais afetados pelo regime.<\/p>\n<p>Paralelo a isso, grupos ind\u00edgenas pressionam tamb\u00e9m contra as tentativas de imposi\u00e7\u00e3o de um marco temporal \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o de suas terras e uma Comiss\u00e3o Nacional Ind\u00edgena da Verdade poderia ajudar diversos povos a provarem que foram obrigados a sair de seus territ\u00f3rios por motivos de persegui\u00e7\u00e3o, por exemplo, e contrapor a argumenta\u00e7\u00e3o simplista de que eles s\u00f3 poderiam ser donos das terras que ocupavam em 1988, quando foi promulgada a constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tempos hist\u00f3ricos e momentos pol\u00edticos distintos se misturam quando pensamos na quest\u00e3o ind\u00edgena e poder\u00edamos sem erro dizer que esses povos s\u00e3o perseguidos desde a coloniza\u00e7\u00e3o, mas atualizar o debate segundo as normas de ataque tra\u00e7adas pela ditadura empresarial-militar nos ajuda a entender o que est\u00e1 em jogo nas empreitadas atuais de tentativa de invas\u00e3o de terras ind\u00edgenas e deslegitima\u00e7\u00e3o jur\u00eddica desses povos sobre suas aldeias. O agressivo projeto de coloniza\u00e7\u00e3o das florestas brasileiras continua vivo e mais do que nunca precisamos de ferramentas para enfrent\u00e1-lo.<\/p>\n<p>A Ditadura Nunca Acabou: O Filme GRIN e a Atualiza\u00e7\u00e3o da Viol\u00eancia Contra os Ind\u00edgenas<\/p>\n<p>O filme \u201cGRIN\u201d \u00e9 um m\u00e9dia-metragem que recupera a hist\u00f3ria do filme \u201cArara\u201d de Jesco Von Puttkamer encontrado no antigo Museu do \u00cdndio do Rio de Janeiro em 2012, e disseminado por Marcelo Zelic. Al\u00e9m disso, o filme entrevista os sobreviventes do cruel experimento da Guarda Rural Ind\u00edgena e mostra a atualiza\u00e7\u00e3o das viol\u00eancias sofridas pelos Maxakali.<\/p>\n<p>A seguir, as entrevistas feitas com os tr\u00eas diretores do filme, Sueli e Isael Maxakali, al\u00e9m do cineasta n\u00e3o-ind\u00edgena Roney Freitas, aprofundam o processo de pesquisa e realiza\u00e7\u00e3o do filme. Para que a oralidade de Sueli e Isael Maxakali n\u00e3o se perdessem, suas entrevistas foram mantidas em \u00e1udio, enquanto a de Roney foi transcrita.<\/p>\n<p>\u00c9 importante lembrar que a grava\u00e7\u00e3o das entrevistas sofreu com muitos problemas t\u00e9cnicos, especialmente de conex\u00e3o com a internet da aldeia de Isael e Sueli, e por isso algumas partes podem parecer soltas na fala dos realizadores. Ainda assim as entrevistas foram mantidas na \u00edntegra para que nada se perca da avalia\u00e7\u00e3o dos dois sobre esse importante documento hist\u00f3rico que \u00e9 o filme \u201cGRIN\u201d.<\/p>\n<h4>Ou\u00e7a:<\/h4>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Entrevista_Isael_Final.mp3\">Entrevista <\/a><\/strong>com Isael Maxakali<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Entrevista_Sueli_Final.mp3\"><strong>Entrevista<\/strong><\/a> com Sueli Maxakali<\/p>\n<h4><strong>Entrevista com Roney Freitas<\/strong><\/h4>\n<p><strong>Juli \u2013 <\/strong>Eu queria come\u00e7ar falando sobre o curta-metragem que voc\u00ea fez junto com o Isael e a Sueli Maxacali, o GRIN. Esse filme traz bastante informa\u00e7\u00e3o sobre a quest\u00e3o ind\u00edgena na ditadura, que ainda \u00e9 um assunto bem apagado, n\u00e9? N\u00e3o sei se voc\u00ea concorda. Agora nos \u00faltimos anos tem se falado mais, principalmente agora em 2024 por conta dos 60 anos do golpe, mas ainda parece apagado, dada a propor\u00e7\u00e3o do assunto.<\/p>\n<p><strong>Roney \u2013 <\/strong>Tem um outro document\u00e1rio tamb\u00e9m que \u00e9 mais recente, \u201cA Flecha e a Farda\u201d do Miguel Antunes Ramos, que \u00e9 bem interessante. Ele fez uma disserta\u00e7\u00e3o de mestrado, que \u00e9 tamb\u00e9m um pouco o processo desse filme, e a gente conversou muito porque, como o GRIN foi um dos primeiros a tratar desse material (o filme \u201cArara\u201d descoberto em 2012), ele chegou at\u00e9 a utilizar o GRIN como pesquisa mesmo, como refer\u00eancia, e em algum momento ele at\u00e9 pediu o filme para passar para os povos com quem ele estava trabalhando. Se voc\u00ea n\u00e3o viu ainda eu recomendo, porque eu acho que ele complementa a ideia dessas realiza\u00e7\u00f5es\u2026 tem outras tamb\u00e9m, n\u00e9? Tem umas que v\u00e3o falar do Relat\u00f3rio Figueiredo. Porque isso tudo veio junto com a a\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o da Verdade e com as descobertas do falecido Marcelo Zelic e conforme o Zelic foi pesquisando para contribuir ali na pasta da Comiss\u00e3o da Verdade nas quest\u00f5es ind\u00edgenas, nos crimes acontecidos no campo, ele foi disseminando esse material.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o eu fui um dos que recebeu o material do filme \u201cArara\u201d, assim como v\u00e1rios outros cineastas. Em paralelo foram sendo feitas v\u00e1rias coisas, entre elas essa a\u00ed que eu comentei. Eu estou comentando disso, porque eu acho interessante que tenham surgido v\u00e1rios, assim como a gente tem a produ\u00e7\u00e3o de filmes sobre a Shoah, por exemplo, a gente tem muita refer\u00eancia cinematogr\u00e1fica de crimes relacionados ao Holocausto, porque \u00e9 importante a gente ter essa mem\u00f3ria do que a humanidade j\u00e1 fez e do que n\u00e3o pode ser repetido, at\u00e9 mesmo para colocar em perspectiva quest\u00f5es contempor\u00e2neas.<\/p>\n<p>E eu acho que a ideia da GRIN e dos acontecimentos relacionados no per\u00edodo espec\u00edfico da ditadura tem que ter essa produ\u00e7\u00e3o incessante mesmo, seja novos artigos, novos filmes\u2026 retomar de novo a quest\u00e3o da GRIN, por exemplo, por outros povos. No caso, \u201dA Flecha e a Farda\u201d vai tratar dos Xerente e Krah\u00f4, se n\u00e3o engano, principalmente esses povos, o GRIN fez seu recorte com os Tikm\u0169\u2019\u0169n (Maxakali). H\u00e1 \u00e9poca da pesquisa do GRIN teve um document\u00e1rio mais jornal\u00edstico, que foi de pesquisa jornal\u00edstica mesmo, para uma mat\u00e9ria da P\u00fablica que acompanhou os Krenak. Ent\u00e3o tem todos esses materiais assim, desde esses mais recentes\u2026 e acho \u00f3timo que que tenha mais.<\/p>\n<p><strong>Juli \u2013 <\/strong>E como \u00e9 que voc\u00ea chegou nesse assunto? Nesse tema especificamente? Voc\u00ea j\u00e1 pesquisava sobre isso? Algu\u00e9m te convidou para fazer algo nesse sentido? Como que foi?<\/p>\n<p><strong>Roney \u2013 <\/strong>Eu estava ministrando uma oficina de document\u00e1rio na Biblioteca Roberto Santo e a\u00ed tinha uma das pessoas que participou da oficina, que era uma pesquisadora Kariri, a Rosi Ara\u00fajo, e ela tava muito\u2026 ela tamb\u00e9m \u00e9 ativista do campo ind\u00edgena, ela \u00e9 ind\u00edgena Kariri, e ela estava muito por dentro do que estava acontecendo. E entre as discuss\u00f5es com todos os alunos ali da oficina, ela tomou a iniciativa de vir direto e falar \u201colha, acho que precisa ser feito um filme sobre isso aqui\u201d. Ela queria que algu\u00e9m falasse sobre esse recorte da quest\u00e3o da ditadura e as mortes dentro do campo ind\u00edgena que estava sendo contabilizado na \u00e9poca. Muito com a ajuda do Marcelo Zelic, que chegou a esse n\u00famero projetado de mais de 8.000 mortes. A Paula Berbert tamb\u00e9m coloca na disserta\u00e7\u00e3o dela, uma disserta\u00e7\u00e3o sobre a Guarda Rural Ind\u00edgena. Ent\u00e3o tem esses dados a\u00ed.<\/p>\n<p>A partir dessa provoca\u00e7\u00e3o da Rosi Ara\u00fajo, eu vi que era realmente algo que estava no momento de a gente fazer algo e at\u00e9 para saber, para conhecer, porque n\u00e3o sabia nada a respeito. A\u00ed, atrav\u00e9s da Rosie que eu entrei em contato com o Marcelo Zelic, que estava aqui em S\u00e3o Paulo. E ele falou da hist\u00f3ria dele, da descoberta no antigo Museu do \u00cdndio, que hoje ele foi renomeado, mas no Museu do \u00cdndio, ligado \u00e0 Funai, ele achou o material do Jesco Von Puttkamer e a\u00ed ele passou esse material digitalizado, assim como ele passou v\u00e1rias refer\u00eancias de pesquisa, passou o relat\u00f3rio Figueiredo, tamb\u00e9m digitalizado, e a\u00ed a gente viu que era um mar mesmo, muita coisa. A rela\u00e7\u00e3o entre a ditadura e a quest\u00e3o ind\u00edgena.<\/p>\n<p>E tinha muito dessa produ\u00e7\u00e3o do jornalista Andr\u00e9 Campos da revista P\u00fablica, que ele estava fazendo mat\u00e9rias sobre os Krenak, porque tamb\u00e9m estava muito ligado ao Reformat\u00f3rio Agr\u00edcola Krenak, por isso que ele partiu da\u00ed. E a rela\u00e7\u00e3o dos Krenak \u00e9 fundamental, tanto que recentemente quem teve mais respostas de poss\u00edvel indeniza\u00e7\u00e3o foi esse povo. E tamb\u00e9m porque acho que mais conseguiu juntar esses materiais, porque n\u00e3o s\u00f3 tinha a quest\u00e3o da guarda sobre eles, mas tamb\u00e9m a quest\u00e3o do reformat\u00f3rio. Inclusive o nosso filme, o GRIN, ele contribuiu nesse sentido porque o tradutor das entrevistas, o Douglas Campelo, que \u00e9 um antrop\u00f3logo, ele trabalhou muito tempo com os Maxakali, e ele percebeu que ajudaria a gente divulgar essas entrevistas traduzidas para as comiss\u00f5es estaduais que estavam acontecendo, e a\u00ed somou a ajuda, dentro desse material, em defesa tamb\u00e9m do que aconteceu com os Krenak.<\/p>\n<p>Mas indo mais cronologicamente. A Rosi Ara\u00fajo ent\u00e3o teve essa ponte. Ela acompanhou esse in\u00edcio mais no campo da pesquisa at\u00e9 a gente fechar. E a\u00ed eu acabei tomando mais a frente tamb\u00e9m por ter a disponibilidade para acompanhar e levar mais a frente esse projeto e fazer mais recortes dentro disso. E a\u00ed ent\u00e3o, como eu vi que o Krenak era fundamental, era tamb\u00e9m totalmente relacionado com os Maxakali, que de longa data tem rela\u00e7\u00e3o com os Krenak, com os Borun. E eu vi que tinha menos coisas sobre os Maxakali ligado \u00e0 Guarda Rural. Ao mesmo tempo, eu vi, nesse in\u00edcio dos anos 2000, 2010 pra frente, que estava tendo uma pot\u00eancia cinematogr\u00e1fica, uma for\u00e7a de produ\u00e7\u00e3o dos cineastas Maxakali. Ent\u00e3o isso tamb\u00e9m ajudou a selecionar, a perceber que, como \u00e9 uma quest\u00e3o, tanto do n\u00e3o-ind\u00edgena, quanto do ind\u00edgena, era muito \u00f3bvio que tinha que ter uma co-dire\u00e7\u00e3o ind\u00edgena. E a\u00ed saber que tinha uma produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica e tinham cineastas como Isael Maxakali, de larga produ\u00e7\u00e3o, foi meio que imediato tamb\u00e9m a escolha de buscar o Isael para apresentar esse material e esse desejo de falar sobre isso, esse projeto.<\/p>\n<p>E a\u00ed foi uma sincronicidade, porque ele j\u00e1 estava tamb\u00e9m querendo falar sobre isso. Porque quando estava todo mundo descobrindo isso e recebendo esses materiais, vendo as not\u00edcias, a not\u00edcia que saiu na Folha\u2026 teve outros antrop\u00f3logos que foram fazer oitivas na aldeia em que o Isael morava, ent\u00e3o isso j\u00e1 estava sendo discutido. E a\u00ed quando cheguei com a possibilidade de j\u00e1 fazer por conta de um (edital) Pr\u00eamio Est\u00edmulo, a\u00ed foi essa sincronicidade, que tanto ele quanto a Sueli, tiveram interesse e toparam. E a\u00ed o filme se refez no sentido de se atravessar pelo modo Maxakali, na realiza\u00e7\u00e3o dele, ent\u00e3o teve v\u00e1rias etapas. Essa foi a etapa da co-dire\u00e7\u00e3o, que teve interfer\u00eancia na est\u00e9tica tamb\u00e9m e no recorte final, em como abordar.<\/p>\n<p>Eu trabalhei no campo mais do testemunho da v\u00edtima dessa situa\u00e7\u00e3o. No testemunho do ocorrido, os idosos queriam falar e ainda num momento delicado porque, entre os idosos que queriam falar, o Tot\u00f3 Maxakali, que recentemente, \u00e0 \u00e9poca do filme, estava em luto por conta da Daldina Maxakali, filha dele que faleceu, ent\u00e3o tinha\u2026 tinha essa resson\u00e2ncia do luto sobre todos aqueles depoimentos, o que acho que ampliou a sensibilidade de receber essas falas, porque tava exatamente vivendo aquilo. A gente atravessava uma aldeia e outra e eles comentavam que, onde a pessoa morre, na cultura Maxakali, aquele territ\u00f3rio passa a ser do Maxakali, daquele indiv\u00edduo ali que faleceu. E tem que ter uma organiza\u00e7\u00e3o assim, desse ser ali numa transforma\u00e7\u00e3o em encantado na forma de canto.<\/p>\n<p>Eles falavam que, conforme eles passavam em v\u00e1rias regi\u00f5es entre uma aldeia e outra, eles ouviam cantos de mortos. E eram todos relatos tamb\u00e9m ent\u00e3o, dessas viol\u00eancias entre fazendas, porque as terras deles est\u00e3o nessa situa\u00e7\u00e3o hoje, \u00e9 muito tempo de contato e est\u00e3o entre os povos com as menores demarca\u00e7\u00f5es de terra e entre fazendas, em conflito com fazendeiros. E \u00e9 mais uma roupagem, a Guarda Rural Ind\u00edgena, desse aspecto, que \u00e9 uma negocia\u00e7\u00e3o entre fazendeiros tamb\u00e9m para impedir o nomadismo, porque eles s\u00e3o um povo n\u00f4made.<\/p>\n<p>E s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es que at\u00e9 hoje existem, ent\u00e3o \u00e9 uma crian\u00e7a que, por exemplo, vai pescar no rio e corre risco, ou mesmo toma tiro, porque entrou numa propriedade. E a pesca pros Maxakali \u00e9 uma experi\u00eancia feminina e as mulheres v\u00e3o com as crian\u00e7as. Ent\u00e3o tem muito isso, medo de ir a m\u00e3e e as crian\u00e7as para pescar e sofrer viol\u00eancia. Ent\u00e3o o que a Daldina sofreu, de algum modo, estava totalmente relacionado, porque \u00e9 uma outra roupagem, uma outra face, dessas viol\u00eancias que a gente estava ali abordando. Ent\u00e3o, acho que isso \u00e9 o que o GRIN, no seu momento, conseguiu captar em rela\u00e7\u00e3o ao diferencial entre os outros materiais.<\/p>\n<p><strong>Juli \u2013 <\/strong>Eu ia te perguntar justamente isso da Daldina. Ela morreu um pouco antes de voc\u00eas chegarem. Ou seja, quando voc\u00eas chegaram l\u00e1, voc\u00eas j\u00e1 sabiam desse evento ou ficaram sabendo quando chegaram?<\/p>\n<p><strong>Roney \u2013 <\/strong>O filme teve v\u00e1rias etapas, primeiro eu fui na aldeia me apresentar, falar sobre o projeto e ver se seria poss\u00edvel realizar ele. E a\u00ed, quando saiu o edital eu fui avisar eles que a gente ia fazer o filme. Um pouco depois aconteceu a morte da Daldina e a\u00ed suspendeu tudo. A gente jogou, acho que duas semanas assim, foram uns quase 20 dias que a gente teve que, obviamente, jogar pra frente toda a produ\u00e7\u00e3o esperando um m\u00ednimo luto, um tempo ali. E quando a gente chegou, j\u00e1 estava nesse outro momento deles quererem fazer manifesta\u00e7\u00f5es, ainda em rela\u00e7\u00e3o ao caso que n\u00e3o estava solucionado, porque ela foi largada sem socorro. A\u00ed eu cheguei nesse outro momento em que j\u00e1 estava nesse outro ponto, com alguma a\u00e7\u00e3o ali j\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o ao caso, n\u00e3o estava imediato do acontecido. Ent\u00e3o tinha ali um roteiro das pessoas que teria que entrevistar, mas todo o resto de como ia cruzar essas falas foi muito a partir dessas a\u00e7\u00f5es de manifesta\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Daldina. O filme foi todo atravessado a partir dessa situa\u00e7\u00e3o que se colocou.<\/p>\n<p><strong>Juli \u2013 <\/strong>Claro. E quando voc\u00eas fizeram o filme quem voc\u00eas acharam que seria o p\u00fablico alvo? Para quem seria esse filme? Quem teria interesse nele?<\/p>\n<p><strong>Roney \u2013 <\/strong>Seria legal voc\u00ea perguntar isso pro Isael, assim, no que ele pensou. Mas a Sueli ela co-realiza todas as produ\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m do Isael e a\u00ed acho que, de novo citando a disserta\u00e7\u00e3o da Paula Berbert, a gente percebe ali que ela queria que os <em>\u00e3yuhuk<\/em>, a gente, o estrangeiro, o n\u00e3o ind\u00edgena, recebesse esse filme, que \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de flecha, um modo tamb\u00e9m de continuar nas lutas, para entender obviedades, que pra eles s\u00e3o obviedades, e que \u00e0s vezes precisa a gente parar e pensar que, como por exemplo ela cita na disserta\u00e7\u00e3o, que a ditadura nunca acabou. Eu comento isso porque eu, por exemplo, achei que o filme ia tratar mais recortadamente de um per\u00edodo, a ditadura. Mas a\u00ed o filme mesmo acaba mostrando, atrav\u00e9s dela junto com Isael, que s\u00e3o ecos de viol\u00eancia que perpassam. A ditadura \u00e9 s\u00f3 uma roupagem dessas viol\u00eancias.<\/p>\n<p>Mas de in\u00edcio eu estava querendo contribuir com o material como documento, come\u00e7ou com essa objetividade, que eu comentei no come\u00e7o, que gerou documenta\u00e7\u00e3o para somar \u00e0 busca da indeniza\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos Krenak. Virou documento mesmo. Porque era isso que precisava, de um registro at\u00e9 do modo mais cru pensado em est\u00e9tica. Que \u00e9 uma c\u00e2mera parada na frente de um idoso que fala. N\u00e3o tinha muito mais elabora\u00e7\u00e3o na perspectiva de que era importante isso, ouvir o idoso na sua vers\u00e3o da hist\u00f3ria pra gente entender. E ent\u00e3o era pra todos os p\u00fablicos ao mesmo tempo. E para al\u00e9m dessa objetividade, de contribuir com a Comiss\u00e3o\u2026 a federal j\u00e1 estava acabando, mas com as comiss\u00f5es estaduais, era de ter um relato da hist\u00f3ria pelo ponto de vista do ind\u00edgena, do Maxakali, no caso. E isso aconteceu porque eles queriam falar, ent\u00e3o eles queriam falar, mas tamb\u00e9m trazer o registro para eles mesmos.<\/p>\n<p>O Isael fala que ele queria clarear, no sentido de iluminar esses ocorridos com o povo dele. E \u00e9 a\u00ed quando a gente v\u00ea a extens\u00e3o disso no \u201cN\u0169h\u0169 y\u00e3g m\u0169 y\u00f5g h\u00e3m: essa terra \u00e9 nossa!\u201d (filme seguinte de Isael e Sueli Maxakali) a gente v\u00ea que \u00e9 pra gente, n\u00e3o ind\u00edgena, e tamb\u00e9m pra eles. E ainda sobre p\u00fablico, esse filme, a pr\u00e9 estreia dele mesmo foi na aldeia, mas as primeiras pr\u00e9 estreias foram em escolas. Eu acho que esse \u00e9 o p\u00fablico tamb\u00e9m, eu sempre pensei no filme como material para as escolas. Eu acho que tem que estar sempre sendo discutido isso, ent\u00e3o tamb\u00e9m fizemos exibi\u00e7\u00f5es em museus e espa\u00e7os de rememora\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica.<\/p>\n<p><strong>Juli \u2013 <\/strong>E o GRIN, ele tem esse efeito tamb\u00e9m de repovoar o nosso imagin\u00e1rio da ditadura. Porque ele ainda \u00e9 muito branco, ainda \u00e9 muito ligado \u00e0 resist\u00eancias acad\u00eamicas e masculinas muitas vezes tamb\u00e9m. E a\u00ed eu acho que o filme tem um impacto bem forte, assim, dessa imagem ind\u00edgena sobre o regime e uma outra linguagem para contar essa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>Roney \u2013 <\/strong>Aproveitando ainda o termo linguagem, uma coisa que eu achava important\u00edssima era o filme todo ser falado em Maxakali. Porque os outros materiais que at\u00e9 ent\u00e3o a gente estava vendo eram todos em portugu\u00eas, que \u00e9 uma segunda l\u00edngua de todos os povos que estavam ali falando, n\u00e3o era a melhor express\u00e3o. Ent\u00e3o era toda uma condu\u00e7\u00e3o do Isael nesse sentido, \u00e9 muito o que eu falei, que o filme foi atravessado pelo modo Maxakali e era essa a dificuldade da nossa equipe inicialmente, enquanto a gente estava levantando o projeto, a de se permitir atravessar por esses modos do povo Maxakali.<\/p>\n<p>E da\u00ed \u00e9 aquilo, a gente tinha um plano, uma lista de pessoas que a gente ia entrevistar, mas tudo foi atravessado pela morte da Daldina. Era uma morte recente, esse luto ainda sendo vivido, ent\u00e3o essa carga ficou realmente muito forte. E quando tem aquele ritual, por exemplo, da No\u00eamia, que \u00e9 um ritual em que o esp\u00edrito da pr\u00f3pria Daldina, fica ali cantando, \u00e9 muito forte esse momento.Tanto que na pr\u00e9 estreia do filme na aldeia, a gente percebeu que trouxe uma tristeza, junto com a felicidade do \u00eaxito da conclus\u00e3o do filme. Por isso s\u00f3 foi poss\u00edvel exibir o filme inteiro na aldeia uma vez s\u00f3.<\/p>\n<p>Teve uma imediata recep\u00e7\u00e3o da tristeza, daquele ritual e daquele luto todo de novo na aldeia, o que tamb\u00e9m acabava entrando em quest\u00f5es mais da pr\u00f3pria cultura, em tabus da pr\u00f3pria cultura Maxakali, de que n\u00e3o se pode trazer para a aldeia a pessoa que morreu. A pessoa fica onde faleceu, porque sen\u00e3o vai adoecer outras pessoas, pode trazer a tristeza de novo para a aldeia. Por exemplo, a Sueli viu um primeiro corte e a\u00ed, quando chegou nesse ponto ela n\u00e3o queria mais ver. Nesse ponto, digo, nesse ritual da Daldina, nesse momento triste do ritual que eles cantam para ela. Ela sempre achava muito forte.<\/p>\n<p>Tem aquela cena da foto still, n\u00e3o sei se voc\u00ea est\u00e1 lembrada, mas \u00e9 uma foto borrada. Era uma tentativa de retratar de modo sint\u00e9tico algo que \u00e9 muito complexo deles, que \u00e9 que quando voc\u00ea morre, voc\u00ea tem uma imagem, <em>koxuk<\/em>, que \u00e9 a mesma palavra para fantasma, mas que voc\u00ea precisa organizar isso em forma de canto. Por isso precisaram fazer um ritual para que ela conseguisse essa transforma\u00e7\u00e3o em encantado. Eu acho isso tamb\u00e9m muito po\u00e9tico. Ao mesmo tempo tem um complexidade mais metaf\u00edsica que nem ousaria falar, mas essa ideia de vira\u00e7\u00e3o em oposi\u00e7\u00e3o a uma poss\u00edvel perturba\u00e7\u00e3o da imagem fantasma. E como trazer isso? A gente ficou pensando como minimamente pincelar. E a\u00ed a gente foi ent\u00e3o, numa busca de imagem, mas uma imagem meio fantasmag\u00f3rica ao mesmo tempo e borrada, que ao mesmo tempo fosse a pr\u00f3pria express\u00e3o feminina.<\/p>\n<p><strong>Juli: <\/strong>Tem mais alguma coisa que voc\u00ea gostaria de falar que eu n\u00e3o perguntei?<\/p>\n<p><strong>Roney: <\/strong>N\u00e3o, acho que s\u00f3 indicar um livro que voc\u00ea acha em PDF e se chama \u201cDesaguar em Cinema\u201d. Ele \u00e9 um livro com organiza\u00e7\u00e3o da Amaranta Cesar, que \u00e9 do CachoeiraDoc. Que foi a grande estreia do filme em festivais, que \u00e9 um festival potente de discuss\u00e3o de imagens para mobilizar coisas e imagens que se acreditam como for\u00e7as mobilizadoras.<\/p>\n<p>A Ros\u00e2ngela assistiu o GRIN ali e, como ela \u00e9 uma pesquisadora muito aprofundada assim, dentro da cultura Maxakali, ela trouxe mais nuances de interpreta\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio filme. A nuance, por exemplo, de interpreta\u00e7\u00e3o da m\u00fasica. Afinal, a m\u00fasica final do filme \u00e9 uma m\u00fasica que eles, assim que assistiram, quiseram cantar. \u00c9 uma m\u00fasica que fala de transforma\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o acho que \u00e9 um texto que ajuda a enxergar o filme. \u00c9 o \u00faltimo cap\u00edtulo do livro, chamado \u201cCampos, Luto e resist\u00eancia Tikm\u0169\u2019\u0169n (Maxakali) no filme GRIN\u201d do Bernard Belis\u00e1rio e da Ros\u00e2ngela de Tugny.<\/p>\n<p>Este texto inclui a parte 2 e 3 da s\u00e9rie de<em>Sobre Terras e Mentes: O Ataque Militar aos Territ\u00f3rios e Culturas Ind\u00edgenas<\/em>, resultado da terceira edi\u00e7\u00e3o do edital <a href=\"https:\/\/memorialdaresistenciasp.org.br\/edital-memorias-do-presente\/\">Mem\u00f3rias do Presente: Comunica\u00e7\u00e3o em Direitos Humanos<\/a>, que teve como tema <em>60 anos do Golpe: Arquivos para a resist\u00eancia<\/em>. <strong><a href=\"https:\/\/memorialdaresistenciasp.org.br\/noticias\/os-alvos\/\">Leia a primeira aqui.<\/a><\/strong><\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, seja nosso apoiador e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico: <strong><a href=\"https:\/\/apoia.se\/outraspalavras\">apoia.se\/outraspalavras<\/a><\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/historia-e-memoria\/ditadura-e-cinema-o-terror-contra-indigenas\/\">Ditadura e Cinema: O terror contra ind\u00edgenas<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/reuniao-bilderberg-reune-elites-do-atlantico-norte-em-meio-a-fissuras-na-otan-e-agressao-ao-ira\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Reuni\u00e3o Bilderberg re\u00fane elites do Atl\u00e2ntico Norte...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/gleisi-rechaca-terrorismo-fiscal-e-delirios-da-folha-sobre-hiperinflacao\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Gleisi recha\u00e7a terrorismo fiscal e del\u00edrios da Fol...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/e-o-maior-ato-ja-feito-no-brasil-em-apoio-a-palestina-manifestacao-em-sao-paulo-reforca-onda-de-criticas-a-israel-pelo-mundo\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">\u2018\u00c9 o maior ato j\u00e1 feito no Brasil em apoio \u00e0 Pales...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/tiro-nas-costas-armas-sem-pericia-as-pontas-soltas-da-operacao-que-matou-posseiros-no-pa\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Tiro nas costas, armas sem per\u00edcia: as pontas solt...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cena do filme \u201cArara\u201d, de Jesco von Puttmaker, que mostra cenas da formatura da 1\u00ba Guarda Rural Ind\u00edgena. Cr\u00e9ditos: Reprodu\u00e7\u00e3o Boletim Outras Palavras Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site Assinar Loading&#8230; Assinar Loading&#8230; Agradecemos! Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura! 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