{"id":28754,"date":"2025-05-20T12:00:00","date_gmt":"2025-05-20T15:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/a-historia-de-uma-onca-pintada-resgatada-dos-incendios-e-um-reflexo-das-ameacas-a-amazonia\/"},"modified":"2025-05-20T12:00:00","modified_gmt":"2025-05-20T15:00:00","slug":"a-historia-de-uma-onca-pintada-resgatada-dos-incendios-e-um-reflexo-das-ameacas-a-amazonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/a-historia-de-uma-onca-pintada-resgatada-dos-incendios-e-um-reflexo-das-ameacas-a-amazonia\/","title":{"rendered":"A hist\u00f3ria de uma on\u00e7a-pintada resgatada dos inc\u00eandios \u00e9 um reflexo das amea\u00e7as \u00e0 Amaz\u00f4nia"},"content":{"rendered":"<blockquote>\n<p><em>Essa reportagem foi publicada pelo <a href=\"https:\/\/brasil.mongabay.com\/2025\/05\/reintroducao-inedita-de-onca-pintada-revela-obstaculos-a-conservacao-da-especie-no-brasil\/\">Mongabay<\/a> e republicada em parceria pela Ag\u00eancia P\u00fablica.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Em cerca de seis meses, Xam\u00e3 j\u00e1 percorreu mais de 14 mil hectares de floresta amaz\u00f4nica. Todavia, bastante cauteloso, ele evita circular em \u00e1reas abertas ou perto de planta\u00e7\u00f5es. Esse macho de on\u00e7a-pintada (Panthera onca) parece ser igual a outros milhares de indiv\u00edduos de sua esp\u00e9cie que vivem na Amaz\u00f4nia. Mas n\u00e3o \u00e9. Al\u00e9m do colar GPS que carrega no pesco\u00e7o, \u00e9 um sobrevivente. E sua trajet\u00f3ria traz luz sobre as amea\u00e7as que o maior felino dos Am\u00e9ricas enfrenta no Brasil.<\/p>\n<p><span>Xam\u00e3 foi encontrado quando tinha aproximadamente dois meses de vida em uma propriedade rural na regi\u00e3o de Sinop, no estado do Mato Grosso<\/span> \u2013 uma \u00e1rea no Arco do Desmatamento da Amaz\u00f4nia frequentemente assolada por inc\u00eandios. A suspeita \u00e9 que sua m\u00e3e tenha sido v\u00edtima do fogo ou perdido o filhote ao tentar fugir das chamas.<\/p>\n<p>Ao ser resgatado, Xam\u00e3 foi levado inicialmente para o Hospital Veterin\u00e1rio da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT). O filhote pesava pouco mais de 10 kg, estava desnutrido e desidratado. L\u00e1 recebeu os primeiros atendimentos, e exames mostraram que, embora debilitado, apresentava boa sa\u00fade. Al\u00e9m disso, era extremamente arredio. Ou seja, apesar do ocorrido, ele ainda preservava seus instintos naturais, o de ser um animal de vida selvagem, algo fundamental para uma poss\u00edvel reintrodu\u00e7\u00e3o na natureza.<\/p>\n<p><span>O resgate de Xam\u00e3 despertou a aten\u00e7\u00e3o da Prote\u00e7\u00e3o Animal Mundial, que viu ali uma oportunidade de usar sua hist\u00f3ria para alertar os brasileiros sobre o impacto da expans\u00e3o agropecu\u00e1ria sobre a fauna silvestre.<\/span><\/p>\n<p>\u201cPor ser um animal que tinha tido pouqu\u00edssimo contato com seres humanos, ele era um bom candidato para ser reintroduzido. Logo acionamos nossos parceiros para identificar quem poderia fazer sua reabilita\u00e7\u00e3o\u201d, conta J\u00falia Trevisan, bi\u00f3loga e coordenadora de vida silvestre da Prote\u00e7\u00e3o Animal Mundial.<\/p>\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o escolhida para essa tarefa foi o On\u00e7afari, uma refer\u00eancia internacional na reintrodu\u00e7\u00e3o de on\u00e7as-pintadas: em 2016, realizou a primeira soltura bem-sucedida, no mundo, de duas f\u00eameas, as irm\u00e3s \u00f3rf\u00e3s Isa e Fera, e ao longo da \u00faltima d\u00e9cada j\u00e1 fez v\u00e1rias outras, tanto na Amaz\u00f4nia quanto no Pantanal.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s cinco meses no hospital de Sinop, m\u00e9dicos veterin\u00e1rios atestaram que Xam\u00e3 estava apto a viajar \u2013 com a ajuda de reposi\u00e7\u00e3o nutricional, ele quase triplicou o peso, chegando a 27,5 kg. Durante todo esse per\u00edodo, houve um cuidado extremo para que se reduzisse ao m\u00e1ximo a intera\u00e7\u00e3o humana com o animal e assim evitar o chamado imprinting, termo usado para descrever o apego com seus cuidadores.<\/p>\n<p>Come\u00e7ava ent\u00e3o uma longa jornada, de mais de 700 km, por terra, entre o Mato Grosso e o Par\u00e1. O destino era um recinto de reabilita\u00e7\u00e3o enorme, no meio da mata, constru\u00eddo pelo On\u00e7afari e usado anteriormente por duas on\u00e7as, as irm\u00e3s Vivara e Pandora, as primeiras a serem reintroduzidas pela ONG no bioma amaz\u00f4nico.<\/p>\n<p>Contudo, dessa vez o desafio seria bem maior. \u201cPelo conhecimento t\u00e9cnico que j\u00e1 t\u00ednhamos, eu fiquei bastante receoso porque o Xam\u00e3 era muito novo. Era realmente muito arriscado. Ap\u00f3s a soltura dentro do recinto, que tem 15 mil m2, voc\u00ea praticamente n\u00e3o iria mais v\u00ea-lo. Era muito grande para um bicho t\u00e3o pequeno. N\u00e3o daria para saber se ele morreu, foi picado por uma cobra. Ele era um filhote!\u201d, relembra o bi\u00f3logo Leonardo Sartorello, coordenador do Programa de Reintrodu\u00e7\u00e3o do On\u00e7afari.<\/p>\n<figure><figcaption>Recinto no Par\u00e1 onde Xam\u00e3 viveu antes de ser reintroduzido na natureza<\/figcaption><\/figure>\n<h3><strong>Ap\u00f3s quase dois anos, a t\u00e3o aguardada soltura<\/strong><\/h3>\n<p>Para Sartorello, o per\u00edodo inicial foi o pior. Xam\u00e3 estava de jejum durante a viagem e depois ficou quase seis dias sem comer, algo preocupante para um filhote. Mas pouco a pouco, ele foi se alimentando novamente, quando lhe eram deixados peda\u00e7os de carne de frango e de boi.<\/p>\n<p>Para acompanhar a sua adapta\u00e7\u00e3o, havia c\u00e2meras dentro e no entorno do recinto. Elas ajudavam a equipe do On\u00e7afari a avaliar seu progresso. Com o passar do tempo, foi poss\u00edvel ver que ele estava explorando mais o territ\u00f3rio. Em algumas \u00e1reas, por\u00e9m, ele demorou mais de um ano para se aproximar.<\/p>\n<p>Mas um dos fatores determinantes para a defini\u00e7\u00e3o do momento certo para a reintrodu\u00e7\u00e3o de Xam\u00e3 foi a sua habilidade de ca\u00e7a. Quando as primeiras presas vivas foram soltas no recinto, ele levava entre 10 e 15 minutos para abat\u00ea-las. Quando adquiriu mais experi\u00eancia, o bote certeiro ocorria em menos de dois minutos. \u201cQuando solt\u00e1vamos uma queixada no final do processo, voc\u00ea escutava o bicho dar dois gritos e acabava\u201d, relata o bi\u00f3logo. \u201cEra sinal de que ele estava abatendo direito. Estava pegando a base do cr\u00e2nio, mordendo o pesco\u00e7o e acabando com o bicho na hora. E isso era muito bom.\u201d<\/p>\n<p>Outro divisor de \u00e1guas para estabelecer que o jovem felino estava pronto era sua intera\u00e7\u00e3o com outras on\u00e7as-pintadas, que passavam pr\u00f3ximo \u00e0 grade do recinto. Quando chegou ali, era poss\u00edvel ver pelos primeiros v\u00eddeos que Xam\u00e3 demonstrava um comportamento de submiss\u00e3o frente a outros machos. Algumas vezes abaixava, ficava deitado e at\u00e9 virava de barriga para cima. J\u00e1 nas \u00faltimas filmagens obtidas pelas armadilhas fotogr\u00e1ficas, ele encarava os poss\u00edveis rivais e n\u00e3o se sentia mais intimidado.<\/p>\n<p>Em outubro de 2024, chegou ent\u00e3o a hora t\u00e3o esperada.\u00a0Ap\u00f3s quase 24 meses, a porta do recinto foi aberta, no processo chamado de soltura branda, em que o animal deixa o espa\u00e7o no qual viveu por um longo per\u00edodo quando quiser. Xam\u00e3 levou mais de 12 horas para dar os primeiros passos rumo \u00e0 vida completamente livre. Em nenhum instante voltou atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Foi atrav\u00e9s do monitoramento pelo colar GPS, programado para enviar a localiza\u00e7\u00e3o da on\u00e7a doze vezes por dia, que conseguiu-se calcular o seu deslocamento de mais de 14 mil hectares desde a abertura de seu recinto. A bateria do equipamento deve funcionar aproximadamente por um ano, quando o sinal por sat\u00e9lite ir\u00e1 parar de funcionar e a fun\u00e7\u00e3o VHF, por antena, ser\u00e1 ativada \u2013 com pouca utilidade, por\u00e9m, em uma floresta t\u00e3o grande como a Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Apesar da grande movimenta\u00e7\u00e3o inicial, nos \u00faltimos dois meses Xam\u00e3 parece ter se estabilizado em uma \u00e1rea, situada a cerca de 15 km do recinto. \u201cAcredito que seja um lugar que ele tenha gostado mais, com boa oferta de alimento e sem muita disputa com outros machos\u201d, diz o coordenador do On\u00e7afari.<\/p>\n<figure><figcaption>Pata de Xam\u00e3<\/figcaption><\/figure>\n<h3><strong>Uma hist\u00f3ria de sucesso, mas muitas outras sem final feliz<\/strong><\/h3>\n<p>O Brasil \u00e9 considerado o pa\u00eds com a maior concentra\u00e7\u00e3o de on\u00e7as-pintadas do mundo, por isso mesmo, um hotspot fundamental para a conserva\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie. Em um passado distante, esses felinos eram observados desde os Estados Unidos at\u00e9 o sul da Argentina. Entretanto, acabaram sendo extintos em muitos pa\u00edses.<\/p>\n<p>Atualmente, estima-se que a popula\u00e7\u00e3o de on\u00e7as em territ\u00f3rio brasileiro beire os 10 mil indiv\u00edduos: entre 250 e 300 na Mata Atl\u00e2ntica, pouco menos de 500 na Caatinga, 3.500 a 4 mil no Pantanal e o restante espalhado na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Mas, em qualquer um desses biomas, elas est\u00e3o amea\u00e7adas. Em alguns mais do que outros, e talvez por diferentes raz\u00f5es. A hist\u00f3ria da reintrodu\u00e7\u00e3o de Xam\u00e3 \u00e9 um sucesso, mas outras v\u00edtimas de inc\u00eandios n\u00e3o tiveram a mesma sorte. \u00c9 o caso de Amanaci e Gaia.<\/p>\n<p>Em 2024, mais uma vez o Pantanal enfrentou um per\u00edodo de estiagem severo. O n\u00edvel da \u00e1gua do Rio Paraguai, o principal do bioma, atingiu recordes de baixa hist\u00f3ricos. A vegeta\u00e7\u00e3o seca, combinada com ventos fortes, foi o estopim perfeito para que os inc\u00eandios se propagassem por v\u00e1rias regi\u00f5es. \u00c1reas inteiras foram devastadas pelo fogo. O solo preto ficou coberto pelas cinzas. E animais foram encontrados carbonizados. Entre eles, a on\u00e7a Gaia, uma f\u00eamea que era monitorada h\u00e1 dez anos pelo On\u00e7afari.<\/p>\n<p>Amanaci n\u00e3o morreu, mas nunca mais voltar\u00e1 ao Pantanal. Precisar\u00e1 passar o resto da vida em cativeiro. H\u00e1 quatro anos, em 2020, ela tamb\u00e9m se viu diante dos inc\u00eandios florestais. Quando foi resgatada por bombeiros em uma casa, na regi\u00e3o de Pocon\u00e9, no Mato Grosso, tinha queimaduras de segundo e terceiro graus nas quatro patas.<\/p>\n<p>Amanaci foi levada para o NEX No Extinction, uma institui\u00e7\u00e3o situada no estado de Goi\u00e1s, especializada no acolhimento, atendimento e reabilita\u00e7\u00e3o de felinos resgatados. L\u00e1 a f\u00eamea passou por dois meses intensos de tratamento, que incluiu aplica\u00e7\u00e3o de c\u00e9lulas-tronco para ajudar no processo de cicatriza\u00e7\u00e3o das feridas causadas pelo fogo. Entretanto, seus tend\u00f5es sofreram les\u00f5es irrevers\u00edveis e ela nunca mais conseguiria ca\u00e7ar, o que impossibilitaria sua sobreviv\u00eancia na vida selvagem.<\/p>\n<p>Desde que foi fundado, no ano 2000, o NEX j\u00e1 recebeu 78 on\u00e7as-pintadas. Atualmente abriga ali 27 indiv\u00edduos. O custo para a manuten\u00e7\u00e3o \u00e9 alto, ainda mais para uma organiza\u00e7\u00e3o que depende de doa\u00e7\u00f5es, sem ajuda nenhuma governamental. O gasto mensal com cada indiv\u00edduo gira em torno de R$ 4 mil (US$ 700). Em um ano, beira os R$ 50 mil (US$ 9 mil). Sem contar despesas extras inesperadas, como procedimentos cir\u00fargicos, por exemplo. \u201cCada on\u00e7a come, em m\u00e9dia, entre 3 e 5 kg de carne por dia\u201d, revela Daniela Gianni, coordenadora de projetos e atividades do instituto.<\/p>\n<figure><figcaption>Brigadista em \u00e1rea do Pantanal sul-matogrossense destru\u00edda pelo fogo em 2024<\/figcaption><\/figure>\n<h3><strong>Desmatamento, ca\u00e7a e tr\u00e1fico<\/strong><\/h3>\n<p>Enquanto os inc\u00eandios, intensificados pelos efeitos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e agravados pelo desmatamento impulsionado pela agropecu\u00e1ria, t\u00eam sido uma grave amea\u00e7a \u00e0s on\u00e7as-pintadas do Pantanal, em outros biomas seus inimigos s\u00e3o outros.<\/p>\n<p>Na fronteira do Brasil com o a Argentina, os vizinhos Parque Nacional do Igua\u00e7u e Parque Nacional Iguaz\u00fa abrigam a maior popula\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie no bioma Mata Atl\u00e2ntica. Quase extinta d\u00e9cadas atr\u00e1s, gra\u00e7as \u00e0 atua\u00e7\u00e3o de dois projetos de conserva\u00e7\u00e3o \u2013 o brasileiro On\u00e7as do Igua\u00e7u e o argentino Proyecto Yaguaret\u00e9, houve um aumento no n\u00famero desses felinos na regi\u00e3o. Mesmo assim, eles continuam vulner\u00e1veis ao impacto dos seres humanos.<\/p>\n<p>\u201cNa Mata Atl\u00e2ntica, as principais amea\u00e7as s\u00e3o a redu\u00e7\u00e3o do habitat e a perda de conectividade da floresta, que pode levar \u00e0 perda de diversidade gen\u00e9tica. Com popula\u00e7\u00f5es muito isoladas e pequenas, existe uma maior chance de acontecerem problemas gen\u00e9ticos, sem a introdu\u00e7\u00e3o de novos animais para a reprodu\u00e7\u00e3o\u201d, explica a bi\u00f3loga Yara Barros, coordenadora executiva do On\u00e7as do Igua\u00e7u.<\/p>\n<p>Outro problema enfrentado pelos felinos que vivem no Parque Nacional do Igua\u00e7u s\u00e3o os atropelamentos e a proximidade com propriedades rurais, gerando poss\u00edveis conflitos com agricultores e produtores de animais. \u201cEsses conflitos com seres humanos tamb\u00e9m s\u00e3o consequ\u00eancia da perda de habitat e o maior contato entre eles e as on\u00e7as, j\u00e1 que as propriedades est\u00e3o chegando cada vez mais perto das florestas\u201d, afirma Yara.<\/p>\n<p>Roberto Cabral, analista ambiental do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renov\u00e1veis (Ibama), \u00f3rg\u00e3o ligado ao Minist\u00e9rio do Meio Ambiente, acrescenta ainda que esses poss\u00edveis conflitos impulsionam a ca\u00e7a por retalia\u00e7\u00e3o. \u201cE, se for ver, tudo \u00e9 um grande ciclo. As pessoas na zona rural ca\u00e7am capivara, jacar\u00e9, paca, cateto, queixada e veado, que s\u00e3o as presas das on\u00e7as-pintadas. Com menos presas dispon\u00edveis, elas acabam direcionando suas ca\u00e7adas para comer novilho, por exemplo, e a\u00ed os seres humanos n\u00e3o aceitam perder nenhum bezerro para uma on\u00e7a.\u201d<\/p>\n<figure><figcaption>Xam\u00e3 em 2024, j\u00e1 reintroduzido na floresta amaz\u00f4nica<\/figcaption><\/figure>\n<h3><strong>A demanda chinesa e uma legisla\u00e7\u00e3o branda demais<\/strong><\/h3>\n<p>No outro extremo brasileiro, ao norte do pa\u00eds, a execu\u00e7\u00e3o de programas de conserva\u00e7\u00e3o da on\u00e7a-pintada em meio \u00e0 imensid\u00e3o da floresta amaz\u00f4nica, com seus 5,4 milh\u00f5es de km2, \u00e9 certamente bem mais complicada, e as amea\u00e7as s\u00e3o mais desafiadoras. Elas tamb\u00e9m envolvem a ca\u00e7a, e ainda o tr\u00e1fico internacional.<\/p>\n<p>Em 2022, uma reportagem da Mongabay mostrou como era poss\u00edvel encontrar facilmente peles de on\u00e7as-pintadas e jaguatiricas em mercados de Iquitos, no Peru, nas margens do Rio Amazonas. E n\u00e3o era s\u00f3. Comerciantes vendiam cabe\u00e7as desses animais e joias feitas com dentes e garras.<\/p>\n<p>Segundo a mat\u00e9ria, a demanda por esse tipo de produto se intensificou na \u00faltima d\u00e9cada, estimulada pela procura dos chineses. A suspeita \u00e9 que, como restaram poucos tigres selvagens na \u00c1sia, e em muitos pa\u00edses esses animais ganharam novas legisla\u00e7\u00f5es para proteg\u00ea-los, o mercado ilegal decidiu apostar nos \u201ctigres americanos\u201d.<\/p>\n<p>\u201cA demanda chinesa, tanto pela raridade da on\u00e7a como para sua substitui\u00e7\u00e3o aos tigres, j\u00e1 \u00e9 uma amea\u00e7a tamb\u00e9m. Embora n\u00e3o seja a de maior import\u00e2ncia no presente, apresenta potencial de se tornar uma das principais no futuro\u201d, alerta Cabral.<\/p>\n<p>Policial ambiental exibe pele de on\u00e7a-pintada apreendida no mercado de Iquitos, no Peru. Foto: Sharon Guynup<\/p>\n<p>Com o mercado asi\u00e1tico em expans\u00e3o na Amaz\u00f4nia, aumenta o interesse daqueles que enxergam nele uma oportunidade de gera\u00e7\u00e3o de renda extra \u2013 como os ca\u00e7adores que entram na floresta para matar on\u00e7as-pintadas. Recentemente uma dessas hist\u00f3rias ganhou as manchetes brasileiras. Den\u00fancias levaram equipes das Pol\u00edcias Militar e Ambiental a uma casa no munic\u00edpio de Santo Ant\u00f4nio do I\u00e7\u00e1, no interior do Amazonas, a 880 km da capital Manaus. L\u00e1 elas se depararam com um filhote de on\u00e7a, com aproximados oito meses de idade, sendo criado como um bicho de estima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De acordo com o homem que cuidava do animal, ele teria sa\u00eddo para ca\u00e7ar e achado o felino sozinho, a\u00ed \u201cdecidiu adot\u00e1-lo\u201d. Acredita-se que a m\u00e3e tenha sido morta.<\/p>\n<p>\u201cEsse papo de que foi para o mato e encontrou o filhote \u00e9 a coisa mais esdr\u00faxula que as pessoas podem falar\u201d, afirma Leonardo Sartorello. \u201cH\u00e1 25 anos eu trabalho com on\u00e7a-pintada no meio do mato e eu nunca encontrei um filhote. E essa turma encontra filhote f\u00e1cil.\u201d<\/p>\n<p>No caso de Santo Ant\u00f4nio de I\u00e7\u00e1, o filhote, batizado de Golias, foi apreendido. Muito dificilmente ter\u00e1 chance de ser reintroduzido na natureza. Foi muito domesticado, n\u00e3o tem medo nenhum de seres humanos. Seu destino foi o NEX.<\/p>\n<p>O que faz com que ca\u00e7adores como o do Amazonas e de outras partes do pa\u00eds n\u00e3o se sintam intimidados em tirar a vida de um animal t\u00e3o majestoso como uma on\u00e7a-pintada \u00e9 a branda legisla\u00e7\u00e3o brasileira, denunciam ambientalistas, representantes de organiza\u00e7\u00f5es de prote\u00e7\u00e3o animal e at\u00e9 autoridades do governo.<\/p>\n<p>A lei de crime ambiental no Brasil prev\u00ea pena para a ca\u00e7a de animais silvestres, sem autoriza\u00e7\u00e3o do \u00f3rg\u00e3o ambiental competente, de tr\u00eas meses a um ano de pris\u00e3o. J\u00e1 a multa para a atividade de ca\u00e7a irregular \u00e9 de R$ 5 mil por animal (US$ 880).<\/p>\n<p>\u201cA puni\u00e7\u00e3o n\u00e3o ajuda. Um homem que matou quatro on\u00e7as-pintadas em 2023 pagou a\u00ed R$ 20 mil [US$ 3.500] e acabou. Vai responder ao processo em liberdade\u201d, critica o coordenador do On\u00e7afari.<\/p>\n<figure><figcaption>Inc\u00eandio no Pantanal de Mato Grosso em 2023<\/figcaption><\/figure>\n<h3><strong>Processo de reintrodu\u00e7\u00e3o \u00e9 longo e caro<\/strong><\/h3>\n<p>Embora o retorno de Xam\u00e3 \u00e0 natureza seja muito celebrado, um processo de reintrodu\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 simples, pelo contr\u00e1rio, envolve a parceria de diversas organiza\u00e7\u00f5es e o trabalho de muitos profissionais, al\u00e9m de ser longo e caro, ressalta Daniela Gianni, do NEX. Segundo ela, o custo at\u00e9 a soltura fica entre R$ 800 mil a R$ 1 milh\u00e3o (US$ 140 mil a US$ 180 mil). E a soltura pode n\u00e3o dar certo. \u00c9 sempre uma inc\u00f3gnita. O animal pode se adaptar bem de volta \u00e0 vida livre, mas pode precisar ser recapturado.<\/p>\n<p>\u201cA burocracia \u00e9 gigante, o custo \u00e9 alt\u00edssimo e o governo n\u00e3o custeia nada\u201d, diz Daniela. \u201cPara a soltura, a sa\u00fade do animal tem que estar 100% e a \u00e1rea precisa ser mapeada. E, ao final do treinamento, um relat\u00f3rio minucioso precisa ser apresentado para passar pela aprova\u00e7\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os ambientais. \u00c9 um trabalho que leva no m\u00ednimo tr\u00eas anos. Al\u00e9m disso, dependemos da \u00edndole do animal. \u00c0s vezes, a burocracia \u00e9 tanta que o tempo para ele ser solto passa e acabamos tendo que fazer um retrabalho para que aprenda a viver em cativeiro\u201d, revela.<\/p>\n<p>A Prote\u00e7\u00e3o Animal Mundial, uma das respons\u00e1veis financeiras pela reintrodu\u00e7\u00e3o do jovem macho na Amaz\u00f4nia, transformou sua trajet\u00f3ria em um document\u00e1rio: Xam\u00e3 \u2013 No Rastro da On\u00e7a. O filme mostra a conex\u00e3o direta entre a trag\u00e9dia do filhote e o avan\u00e7o do agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p>\u201cEm 2022, ano em que o Xam\u00e3 foi resgatado, o Mato Grosso foi o estado que mais queimou no pa\u00eds. A \u00e1rea queimada foi equivalente a quase o tamanho da Dinamarca. A gente perde uma gera\u00e7\u00e3o inteira na floresta\u201d, destaca J\u00falia Trevisan.<\/p>\n<p>Ela salienta que nem sempre a associa\u00e7\u00e3o entre a produ\u00e7\u00e3o alimentar e seu impacto sobre os animais silvestres \u00e9 clara para a popula\u00e7\u00e3o. O document\u00e1rio escancara essa rela\u00e7\u00e3o entre o agroneg\u00f3cio e n\u00e3o apenas o desmatamento e as queimadas, mas tamb\u00e9m a contamina\u00e7\u00e3o por agrot\u00f3xicos, os atropelamentos de animais silvestres e a defauna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cMesmo que a hist\u00f3ria do Xam\u00e3 tenha tido um final feliz, sabemos que muitos outros animais ir\u00e3o passar por isso e esse \u00e9 um problema grande no Brasil\u201d, refor\u00e7a J\u00falia. \u201cAlgo pouco percebido \u00e9 que a fauna impactada n\u00e3o representa somente o animal que morre ou viver\u00e1 para sempre em cativeiro, mas a fauna silvestre exerce fun\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas, participa da din\u00e2mica de seu ecossistema, ao dispersar sementes, controlar presas ou ciclar nutrientes, por exemplo. A aus\u00eancia desses animais ir\u00e1 provocar um impacto maior ainda na sa\u00fade das florestas e do clima.\u201d<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/stf-derruba-leis-que-proibiam-linguagem-neutra-em-escolas-e-reparticoes-publicas\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">STF derruba leis que proibiam linguagem neutra em ...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/trump-reduz-tarifas-sobre-carne-bovina-tomates-bananas-e-cafe\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/rubio-e-vieira-2048x1360-1-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Trump reduz tarifas sobre carne bovina, tomates, b...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/mudancas-climaticas-o-que-pensam-os-jovens-indigenas-presentes-no-atl\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Mudan\u00e7as clim\u00e1ticas: o que pensam os jovens ind\u00edge...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/ufu-abre-inscricoes-para-curso-online-gratuito-sobre-direitos-humanos-e-educacao-midiatica\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">UFU abre inscri\u00e7\u00f5es para curso online gratuito sob...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Essa reportagem foi publicada pelo Mongabay e republicada em parceria pela Ag\u00eancia P\u00fablica. 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