{"id":29356,"date":"2025-05-22T18:49:44","date_gmt":"2025-05-22T21:49:44","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/quando-a-universidade-flerta-com-o-capacitismo\/"},"modified":"2025-05-22T18:49:44","modified_gmt":"2025-05-22T21:49:44","slug":"quando-a-universidade-flerta-com-o-capacitismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/quando-a-universidade-flerta-com-o-capacitismo\/","title":{"rendered":"Quando a universidade flerta com o capacitismo"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"750\" height=\"375\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/1f7159979b20d341ec0401bd67f0f4ef.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/1f7159979b20d341ec0401bd67f0f4ef.jpg 750w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/1f7159979b20d341ec0401bd67f0f4ef-300x150.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px\"><figcaption>Imagem: Shutterstock<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>\u201cO inconsciente \u00e9 o discurso do Outro.\u201d<br \/><\/strong><em><strong>(LACAN, \u00c9crits)<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>1. A ironia do epis\u00f3dio<\/strong><\/p>\n<p>Em um encontro recente de um grupo de estudos, discut\u00edamos um momento central da <em>Fenomenologia do Esp\u00edrito<\/em> de Hegel: a figura do senhor e do escravo. Fal\u00e1vamos sobre autonomia e as formas pelas quais a consci\u00eancia busca afirmar-se na rela\u00e7\u00e3o com o outro. No plano te\u00f3rico, reflet\u00edamos sobre como, na luta por reconhecimento, um dos sujeitos tende a negar o outro, transformando-o em instrumento de sua autoafirma\u00e7\u00e3o \u2014 uma nega\u00e7\u00e3o que, paradoxalmente, acaba minando a pr\u00f3pria possibilidade de ser reconhecido.<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/apoia.se\/outraspalavras\" aria-label=\"MAT\u00c9RIA-4\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/MATERIA-4-10.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/MATERIA-4-10.png 681w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-4-300x75.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 681px) 100vw, 681px\" width=\"681\" height=\"171\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>Conduzindo a leitura a partir do \u00a7178, buscava compartilhar n\u00e3o apenas um conte\u00fado filos\u00f3fico, mas tamb\u00e9m parte do trabalho que venho desenvolvendo em minha disserta\u00e7\u00e3o, que trata precisamente das contradi\u00e7\u00f5es imanentes na dial\u00e9tica hegeliana. O ambiente at\u00e9 ent\u00e3o era de escuta e troca respeitosa. Eu havia preparado a exposi\u00e7\u00e3o com o cuidado de abrir espa\u00e7o para coment\u00e1rios e interpreta\u00e7\u00f5es divergentes, propondo um olhar que considerava a desigualdade entre as figuras do senhor e do escravo como algo estruturado n\u00e3o apenas em uma progress\u00e3o hist\u00f3rica linear, mas tamb\u00e9m como uma assimetria sincr\u00f4nica inscrita na pr\u00f3pria l\u00f3gica do reconhecimento.<\/p>\n<p>O que deveria ser uma conversa filos\u00f3fica sobre essas estruturas de poder e consci\u00eancia se converteu, ironicamente, na encena\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica do que est\u00e1vamos estudando. Ao apresentar meu argumento \u2014 que abordava a assimetria entre senhor e escravo a partir de uma leitura sincr\u00f4nica da luta de vida e morte e suas consequ\u00eancias para a constitui\u00e7\u00e3o da desigualdade entre as figuras \u2014 fui interpelado n\u00e3o apenas com discord\u00e2ncia te\u00f3rica, mas com um gesto de deslegitima\u00e7\u00e3o pessoal. Um colega, ao inv\u00e9s de discutir o conte\u00fado da ideia, questionou de modo agressivo a minha capacidade de formular argumentos, insinuando, conforme interpretei, que a minha neurodiverg\u00eancia comprometia a compreens\u00e3o te\u00f3rica.<\/p>\n<p>Foi nesse momento que o participante A. interrompeu com uma fala cortante: <em>\u201cVoc\u00ea est\u00e1 errado!\u201d<\/em> A assertividade agressiva, leia-se, n\u00e3o foi apenas uma forma de discord\u00e2ncia \u2014 foi uma tentativa expl\u00edcita de desqualifica\u00e7\u00e3o. O tom e o conte\u00fado da interven\u00e7\u00e3o n\u00e3o se dirigiram ao argumento em si, mas insinuaram que minha leitura era a de um diletante, sugerindo que n\u00e3o tinha sequer legitimidade como ponto de partida para o debate.<\/p>\n<p>A ironia \u00e9 profunda: est\u00e1vamos tratando de um dos n\u00facleos centrais da filosofia hegeliana \u2014 a rela\u00e7\u00e3o entre reconhecimento, domina\u00e7\u00e3o e autonomia \u2014 e o que se encenou foi justamente a tentativa de um sujeito se afirmar anulando o outro. Ao dizer <em>\u201cVoc\u00ea est\u00e1 errado!\u201d<\/em> sem media\u00e7\u00e3o argumentativa, o colega A. n\u00e3o apenas recusou o di\u00e1logo, mas assumiu uma posi\u00e7\u00e3o de autoridade que buscava encerrar a discuss\u00e3o por decreto, e n\u00e3o por elabora\u00e7\u00e3o conceitual. Mais do que discordar, ele tentou me rebaixar \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de objeto: algu\u00e9m a ser corrigido, silenciado, superado.<\/p>\n<p><strong>2. O paralelismo com a dial\u00e9tica do senhor e do escravo<\/strong><\/p>\n<p>A cena vivida durante aquele encontro reproduz, de forma quase did\u00e1tica, as estruturas da dial\u00e9tica hegeliana que est\u00e1vamos justamente examinando. Na <em>Fenomenologia do Esp\u00edrito<\/em>, a rela\u00e7\u00e3o entre senhor e escravo nasce de uma luta por reconhecimento em que, ao final, um dos sujeitos \u2014 o que prefere preservar a vida em vez de arrisc\u00e1-la \u2014 se submete, tornando-se servo. O senhor, por sua vez, acredita alcan\u00e7ar a afirma\u00e7\u00e3o plena de si ao dominar o outro, transformando-o em coisa, em instrumento. No entanto, esse dom\u00ednio revela-se contradit\u00f3rio: o reconhecimento que o senhor busca vem de um sujeito que ele mesmo rebaixou \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de n\u00e3o-consci\u00eancia. \u00c9 uma vit\u00f3ria vazia, baseada na nega\u00e7\u00e3o do outro como sujeito.<\/p>\n<p>Essa estrutura dial\u00e9tica ajuda a iluminar o que se passou naquele epis\u00f3dio. O colega A. que interveio de forma agressiva ao afirmar \u201c<em>Voc\u00ea est\u00e1 errado!<\/em>\u201d buscava, simbolicamente, ocupar o lugar de senhor do discurso. Ao inv\u00e9s de propor uma contraposi\u00e7\u00e3o, ele tentou invalidar minha posi\u00e7\u00e3o desde sua base, ou seja, como se eu n\u00e3o estivesse sequer em condi\u00e7\u00f5es de ocupar o espa\u00e7o da interlocu\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se tratava de um dissenso produtivo, mas de um gesto de exclus\u00e3o, cujo fundamento era menos conceitual e mais identit\u00e1rio: marcar a diferen\u00e7a (neste caso, minha neurodiverg\u00eancia) como um sinal de menoridade intelectual.<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/cursos.institutoconfucio.com.br\/\" aria-label=\"Arte 1_banner site outras palavras_IC na Unesp_728x90\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Arte-1_banner-site-outras-palavras_IC-na-Unesp_728x90-2.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Arte-1_banner-site-outras-palavras_IC-na-Unesp_728x90-2.png 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Arte-1_banner-site-outras-palavras_IC-na-Unesp_728x90-300x37.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>Contudo, se seguimos a l\u00f3gica da dial\u00e9tica, podemos perceber que a tentativa de se afirmar como senhor exige, paradoxalmente, a nega\u00e7\u00e3o do outro como sujeito reconhecedor. Isso exp\u00f5e a fragilidade de sua posi\u00e7\u00e3o. Ao tentar se colocar como autoridade que invalida o pensamento do outro, o colega A. acabou por demonstrar que sua autoafirma\u00e7\u00e3o dependia precisamente da minha exist\u00eancia como algo a ser subjugado \u2014 como um espelho a ser escurecido para que ele pudesse brilhar. Trata-se, na pr\u00e1tica, de uma depend\u00eancia invertida: ele precisa do \u201cerro\u201d do outro para consolidar sua \u201cverdade\u201d.<\/p>\n<p>Mais ainda, essa tentativa de nega\u00e7\u00e3o revela a perman\u00eancia de uma l\u00f3gica escravizante, no sentido hegeliano, no interior da vida acad\u00eamica. Quando o reconhecimento m\u00fatuo \u00e9 substitu\u00eddo por jogos de domina\u00e7\u00e3o intelectual, n\u00e3o h\u00e1 avan\u00e7o no saber, apenas o giro est\u00e9ril da hierarquia. Ao inv\u00e9s de uma cr\u00edtica que se dirige ao argumento, o que se pratica \u00e9 a objetifica\u00e7\u00e3o do sujeito que argumenta \u2014 um gesto que desfigura por completo o horizonte universal que Hegel concebe como o destino do esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Nesse contexto, a fala \u201c<em>Voc\u00ea est\u00e1 errado!<\/em>\u201d n\u00e3o \u00e9 apenas uma diverg\u00eancia: ela \u00e9 performativa. Ela tenta restabelecer uma diferen\u00e7a hier\u00e1rquica no campo do pensamento, onde um fala e o outro apenas escuta (e se cala). Assim como o senhor hegeliano pretende que sua verdade seja reconhecida sem risco e sem trabalho, o colega A. quis impor uma autoridade sem elaborar uma argumenta\u00e7\u00e3o \u2014 sua postura, ainda que mobilizada por um repert\u00f3rio conceitual, era menos filos\u00f3fica do que teatral, encenando o poder como superioridade discursiva.<\/p>\n<p>Mas, como nos mostra Hegel, essa encena\u00e7\u00e3o \u00e9 inst\u00e1vel. O verdadeiro saber emerge n\u00e3o da nega\u00e7\u00e3o do outro, mas da media\u00e7\u00e3o entre consci\u00eancias que se reconhecem mutuamente como capazes de pensamento e elabora\u00e7\u00e3o. O epis\u00f3dio mostra, portanto, n\u00e3o apenas uma falha \u00e9tica, mas uma falha reflexiva: a recusa do outro como sujeito destr\u00f3i as condi\u00e7\u00f5es mesmas do saber dial\u00e9tico.<\/p>\n<p><strong>3. A contradi\u00e7\u00e3o do capacitismo acad\u00eamico<\/strong><\/p>\n<p>O que se revelou naquele epis\u00f3dio n\u00e3o foi apenas uma atitude isolada de desrespeito ou vaidade intelectual, mas a express\u00e3o de uma estrutura mais ampla e persistente: o capacitismo no ambiente acad\u00eamico. E aqui a an\u00e1lise hegeliana oferece um recurso fundamental para desvelar a contradi\u00e7\u00e3o interna dessa pr\u00e1tica de exclus\u00e3o, pois ela mostra como todo gesto de domina\u00e7\u00e3o implica, paradoxalmente, uma forma de depend\u00eancia e de empobrecimento do pr\u00f3prio sujeito que domina.<\/p>\n<p>O colega A., ao tentar se impor como mais \u201ccapaz\u201d, como autoridade leg\u00edtima no debate, s\u00f3 p\u00f4de faz\u00ea-lo por meio da nega\u00e7\u00e3o do outro \u2014 uma nega\u00e7\u00e3o que se baseou na minha diferen\u00e7a como marcador de inferioridade. Mas essa tentativa de superioridade \u00e9 contradit\u00f3ria desde o in\u00edcio: ela depende da redu\u00e7\u00e3o do outro a um estado de n\u00e3o-reciprocidade. Ou seja, ele s\u00f3 p\u00f4de se afirmar deslegitimando previamente aquele de quem esperava obter reconhecimento \u2014 mas reconhecimento obtido por anula\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 verdadeiro reconhecimento. \u00c9 vazio, unilateral, espelhado apenas em si mesmo.<\/p>\n<p>Trata-se de um movimento t\u00edpico do senhor na dial\u00e9tica hegeliana: ele deseja ser reconhecido como absoluto, mas destr\u00f3i a condi\u00e7\u00e3o de possibilidade desse reconhecimento ao tratar o outro como objeto. Da mesma forma, o capacitismo acad\u00eamico busca consolidar um padr\u00e3o de intelig\u00eancia, raz\u00e3o e compet\u00eancia que se define pela exclus\u00e3o de tudo o que n\u00e3o se conforma ao ideal neurot\u00edpico. Pessoas neurodivergentes, nesse contexto, uma vez que n\u00e3o possuem uma fala t\u00e3o \u201cl\u00f3gica\u201d ou linear, s\u00e3o tratadas como exce\u00e7\u00e3o, ru\u00eddo, ou at\u00e9 amea\u00e7a \u00e0 \u201cpureza\u201d do discurso filos\u00f3fico \u2014 e, por isso, precisam ser corrigidas, invalidadas, ou simplesmente silenciadas.<\/p>\n<p>Mas esse padr\u00e3o \u00e9 insustent\u00e1vel: ele se baseia na nega\u00e7\u00e3o da diversidade real das formas de pensar, de elaborar conceitos e de produzir saber. Ao tentar garantir sua hegemonia, o capacitismo se revela uma forma de empobrecimento epist\u00eamico, pois fecha o espa\u00e7o acad\u00eamico \u00e0 pluralidade de experi\u00eancias cognitivas e existenciais que podem enriquecer a reflex\u00e3o. Ao tentar se purificar, ele se esteriliza.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a contradi\u00e7\u00e3o central: o capacitismo busca afirmar um ideal de raz\u00e3o plena e universal, mas o faz por meio da exclus\u00e3o de subjetividades que poderiam contribuir justamente para ampliar a compreens\u00e3o da raz\u00e3o como um processo encarnado, situado e m\u00faltiplo. Ele quer parecer forte, mas revela sua fragilidade ao n\u00e3o tolerar a diferen\u00e7a. Quer parecer justo, mas se sustenta em crit\u00e9rios de valida\u00e7\u00e3o que ignoram a historicidade e a conting\u00eancia do saber.<\/p>\n<p>No epis\u00f3dio vivido, essa contradi\u00e7\u00e3o se atualizou com toda sua viol\u00eancia simb\u00f3lica. O colega A. buscava reafirmar-se como sujeito epist\u00eamico ao me reduzir a um tra\u00e7o cl\u00ednico, como se a minha diferen\u00e7a cognitiva fosse uma esp\u00e9cie de defici\u00eancia argumentativa. Mas, como nos ensina Hegel, toda afirma\u00e7\u00e3o que exige a nega\u00e7\u00e3o do outro como sujeito \u00e9 inst\u00e1vel, e cedo ou tarde colapsa. O que \u00e9 preciso, ent\u00e3o, \u00e9 romper com essa l\u00f3gica e afirmar um novo modo de conviv\u00eancia acad\u00eamica \u2014 um modo que reconhe\u00e7a a alteridade n\u00e3o como obst\u00e1culo, mas como fonte.<\/p>\n<p><strong>4. Como o escravo tentou \u201cmatar o senhor\u201d<\/strong><\/p>\n<p>A ironia dial\u00e9tica que atravessa o epis\u00f3dio vivido no grupo de estudos n\u00e3o se esgota na tentativa de nega\u00e7\u00e3o da minha posi\u00e7\u00e3o como interlocutor v\u00e1lido. Ela se intensifica quando percebemos que o gesto do colega, ao tentar me rebaixar, se constituiu tamb\u00e9m como uma tentativa de invers\u00e3o de posi\u00e7\u00f5es: ele, ao negar meu lugar de enuncia\u00e7\u00e3o e autoridade no contexto do grupo \u2014 posi\u00e7\u00e3o conquistada pelo ac\u00famulo de estudo, pelo exerc\u00edcio de media\u00e7\u00e3o do debate e pela produ\u00e7\u00e3o efetiva de conhecimento (inclusive em forma de disserta\u00e7\u00e3o em andamento) \u2014, pretendia ocupar esse mesmo lugar discursivo. Trata-se, nesse sentido, de um movimento que mimetiza a l\u00f3gica de um \u201cescravo\u201d que tenta \u201cmatar o senhor\u201d.<\/p>\n<p>No entanto, essa tentativa se d\u00e1, curiosamente, por meio de um gesto que n\u00e3o rompe com a estrutura dial\u00e9tica de domina\u00e7\u00e3o, mas apenas inverte seus polos. Em vez de buscar o reconhecimento m\u00fatuo, ele opta pela nega\u00e7\u00e3o direta \u2014 <em>\u201cVoc\u00ea est\u00e1 errado!\u201d<\/em> \u2014 como modo de apagar a autonomia do outro e, assim, afirmar a pr\u00f3pria. Mas, como mostra Hegel, o reconhecimento que se obt\u00e9m pela via da nega\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 verdadeiro. Ele \u00e9 prec\u00e1rio, porque sustentado na exclus\u00e3o. Aquele que pretende \u201cmatar o senhor\u201d para assumir seu lugar, sem modificar a estrutura da rela\u00e7\u00e3o, apenas perpetua a l\u00f3gica de depend\u00eancia: segue sendo escravo, agora de um desejo de valida\u00e7\u00e3o que precisa eliminar o outro para existir.<\/p>\n<p>Em vez de elaborar um argumento que me confrontasse no plano das ideias, o colega A. preferiu uma nega\u00e7\u00e3o performativa: tentou neutralizar meu pensamento antes mesmo que ele pudesse ser discutido. Isso revela algo importante \u2014 n\u00e3o era apenas o conte\u00fado da minha fala que o incomodava, mas a pr\u00f3pria minha presen\u00e7a como sujeito de pensamento. O problema, ent\u00e3o, n\u00e3o era filos\u00f3fico, era pol\u00edtico. Ele n\u00e3o discordava do que eu dizia; ele rejeitava que fosse eu quem estivesse dizendo.<\/p>\n<p>Ao agir assim, ele encenou um gesto de nega\u00e7\u00e3o radical, mas que, no fundo, revela uma profunda depend\u00eancia: seu impulso de superioridade estava fundado na tentativa de me reduzir \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de objeto \u2014 o que, paradoxalmente, mostra que sua pr\u00f3pria posi\u00e7\u00e3o precisava da minha como contraponto a ser negado. Sua afirma\u00e7\u00e3o dependia da minha exclus\u00e3o, mas isso s\u00f3 torna evidente o quanto ele estava, estruturalmente, preso a mim. Como o senhor hegeliano, que precisa do escravo para se ver reconhecido \u2014 e, ao mesmo tempo, o nega como sujeito \u2014, o colega A. ficou aprisionado \u00e0 sua pr\u00f3pria contradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mais do que isso, ao tentar me apagar como \u201csenhor\u201d, ele n\u00e3o se tornou senhor. Ao contr\u00e1rio: reproduziu a l\u00f3gica da servid\u00e3o, pois se mostrou incapaz de sair da nega\u00e7\u00e3o como princ\u00edpio. N\u00e3o produziu sentido, n\u00e3o mediou conflito, n\u00e3o avan\u00e7ou na constru\u00e7\u00e3o do saber. Apenas reproduziu um gesto de exclus\u00e3o j\u00e1 muito conhecido por pessoas neurodivergentes na vida acad\u00eamica. E, nesse gesto, revelou a si mesmo como algu\u00e9m que ainda n\u00e3o alcan\u00e7ou a autonomia do pensamento, que ainda n\u00e3o atravessou o trabalho necess\u00e1rio para se tornar verdadeiramente sujeito.<\/p>\n<p>Assim, o epis\u00f3dio deixa claro: o que se tentou apagar n\u00e3o foi apenas um argumento, mas uma subjetividade inteira \u2014 uma trajet\u00f3ria, um corpo, uma experi\u00eancia de pensamento. Mas tamb\u00e9m mostra que, ao tentar \u201cmatar o senhor\u201d, o colega A. n\u00e3o conquistou a liberdade. Apenas reiterou o ciclo da servid\u00e3o.<\/p>\n<p>A ironia dial\u00e9tica que atravessou o epis\u00f3dio no grupo de estudos n\u00e3o se esgota na tentativa de me deslegitimar enquanto condutor da discuss\u00e3o. Ela se adensa quando lemos a situa\u00e7\u00e3o \u00e0 luz da an\u00e1lise de Jean Hyppolite sobre a dial\u00e9tica do senhor e do escravo. Para Hyppolite (2003, p. 395), o que est\u00e1 em jogo nessa rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas uma oposi\u00e7\u00e3o entre dois indiv\u00edduos, mas o processo hist\u00f3rico e formativo da subjetividade. A luta de vida e morte entre as consci\u00eancias \u00e9, na verdade, uma <em>batalha pela constitui\u00e7\u00e3o do sujeito<\/em>, e esse sujeito s\u00f3 emerge no atravessamento da negatividade \u2014 n\u00e3o como dado, mas como produ\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e existencial.<\/p>\n<p>No contexto vivido, o colega A. que me interpelou agressivamente \u2014 com a afirma\u00e7\u00e3o \u201c<em>Voc\u00ea est\u00e1 errado!<\/em>\u201d \u2014 buscava simbolicamente ocupar o lugar de senhor do discurso. Ao tentar rebaixar minha posi\u00e7\u00e3o, ele n\u00e3o apenas rejeitava um argumento; ele se insurgia contra a legitimidade da minha pr\u00f3pria subjetividade como produtor de saber. E aqui o paralelismo com Hegel, via Hyppolite, torna-se evidente: o sujeito que busca se afirmar anulando o outro, em vez de reconhecer nele um igual, age ainda dentro da l\u00f3gica do \u201cescravo\u201d \u2014 aquele que <em>n\u00e3o \u00e9 capaz de sustentar a negatividade<\/em> e por isso tenta elimin\u00e1-la.<\/p>\n<p>Como Hyppolite (2003, p. 298) analisa, quando o senhor acredita dominar o outro, mas torna-se escravo do seu pr\u00f3prio individualismo, ou seja, ignora o trabalho que transforma o mundo na socialidade e forma verdadeiramente a consci\u00eancia de si. O senhor permanece abstrato, vazio de media\u00e7\u00e3o; o escravo, ao enfrentar o negativo \u2014 o medo, a obedi\u00eancia, o trabalho \u2014, produz-se como sujeito real. No epis\u00f3dio, ao evitar a media\u00e7\u00e3o argumentativa, ao n\u00e3o elaborar uma cr\u00edtica conceitual e recorrer a uma exclus\u00e3o simb\u00f3lica, o colega A. mostrou-se prisioneiro da abstra\u00e7\u00e3o do senhor \u2014 ou melhor, da tentativa de parecer senhor sem ter passado pelo processo formativo da consci\u00eancia.<\/p>\n<p>Ele pretendia eliminar a diferen\u00e7a \u2014 minha diferen\u00e7a \u2014 como obst\u00e1culo. Mas, como ensina Hyppolite (2003, pp. 307-308), verdadeira individua\u00e7\u00e3o n\u00e3o reside nem na pura submiss\u00e3o nem na rebeldia inconsequente, mas em uma s\u00edntese que supera a oposi\u00e7\u00e3o entre o sujeito e o mundo. Portanto, a diferen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 um ru\u00eddo no processo dial\u00e9tico, \u00e9 seu pr\u00f3prio motor. Toda subjetividade s\u00f3 se constitui na rela\u00e7\u00e3o com a alteridade. Ao tentar suprimir essa alteridade, o colega A. n\u00e3o a anulou, apenas bloqueou sua pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o como sujeito pensante. Sua a\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi um gesto de for\u00e7a, mas uma demonstra\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia estrutural: ele precisava me reduzir \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de objeto para parecer sujeito \u2014 e, com isso, reconduziu a cena \u00e0 l\u00f3gica do reconhecimento assim\u00e9trico, onde n\u00e3o h\u00e1 verdade do esp\u00edrito, apenas encena\u00e7\u00e3o de poder.<\/p>\n<p>Em <em>G\u00eanese e Estrutura da Fenomenologia do Esp\u00edrito de Hegel<\/em>, Hyppolite insiste que o movimento do esp\u00edrito n\u00e3o \u00e9 jamais de anula\u00e7\u00e3o pura, mas de supera\u00e7\u00e3o (<em>Aufhebung<\/em>) \u2014 uma s\u00edntese que conserva a diferen\u00e7a ao mesmo tempo que a eleva. Na pr\u00e1tica acad\u00eamica, isso se traduz no reconhecimento do outro como portador de uma experi\u00eancia singular que precisa ser ouvida e incorporada \u00e0 constru\u00e7\u00e3o coletiva do saber. Quando isso \u00e9 recusado, quando a negatividade do outro \u00e9 lida como amea\u00e7a e n\u00e3o como possibilidade, o esp\u00edrito \u00e9 impedido de se realizar.<\/p>\n<p>A tentativa de me apagar, portanto, n\u00e3o foi apenas simb\u00f3lica \u2014 foi epistemol\u00f3gica. Foi a tentativa de interromper um movimento de pensamento que n\u00e3o cabia no modelo normativo do saber. Mas, como a leitura de Hyppolite nos ajuda a ver, essa tentativa fracassa porque s\u00f3 h\u00e1 saber verdadeiro quando h\u00e1 enfrentamento da alteridade. O colega A. que tentou \u201cmatar o senhor\u201d n\u00e3o se tornou senhor. Continuou cativo de um desejo de afirma\u00e7\u00e3o que depende da exclus\u00e3o \u2014 e, portanto, permaneceu fora do campo do reconhecimento m\u00fatuo, onde o saber efetivamente se forma.<\/p>\n<p><strong>5. A objetifica\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o acad\u00eamico<\/strong><\/p>\n<p>O epis\u00f3dio vivido, embora aparentemente pontual, revela uma l\u00f3gica de funcionamento mais ampla e profundamente arraigada no espa\u00e7o acad\u00eamico: a da objetifica\u00e7\u00e3o estrutural de sujeitos que fogem ao ideal normativo do saber. Quando o colega A. buscou reduzir minha presen\u00e7a intelectual \u00e0 minha neurodiverg\u00eancia, ele n\u00e3o apenas exerceu um ataque pessoal \u2014 ele reiterou um dispositivo de exclus\u00e3o epistemol\u00f3gica que marca, h\u00e1 s\u00e9culos, o funcionamento das institui\u00e7\u00f5es do saber. Esse dispositivo se chama <em>capacitismo<\/em>.<\/p>\n<p>O capacitismo n\u00e3o \u00e9 apenas uma forma de preconceito individual contra pessoas com defici\u00eancia ou neurodiverg\u00eancia. Ele \u00e9, antes de tudo, um sistema de valores que define quem \u00e9 reconhecido como portador leg\u00edtimo de raz\u00e3o, como sujeito de enuncia\u00e7\u00e3o, e quem deve ser \u201ctolerado\u201d, \u201creeducado\u201d ou silenciado. Trata-se de uma racionalidade excludente que vincula capacidade cognitiva a um ideal de neutralidade, objetividade e desempenho intelectual que exclui formas de pensar marcadas pela diferen\u00e7a \u2014 seja ela sensorial, afetiva, expressiva ou comportamental.<\/p>\n<p>Ao tentar me invalidar com base em minha neurodiverg\u00eancia, o colega A. agiu como operador dessa l\u00f3gica: em vez de se engajar com a argumenta\u00e7\u00e3o proposta, ele tentou me desqualificar como sujeito pensante. N\u00e3o \u00e9 apenas um desacordo; \u00e9 uma nega\u00e7\u00e3o da legitimidade da minha voz. E como mostra Axel Honneth, na esteira de Hegel, a aus\u00eancia de reconhecimento n\u00e3o \u00e9 uma falha superficial na conviv\u00eancia social \u2014 \u00e9 uma viol\u00eancia ontol\u00f3gica. O sujeito que n\u00e3o \u00e9 reconhecido \u00e9, de fato, impedido de se constituir plenamente enquanto tal. O que est\u00e1 em jogo \u00e9 o pr\u00f3prio acesso \u00e0 dignidade.<\/p>\n<p>Honneth (2003, p. 30) observa que a luta por reconhecimento \u00e9 uma luta por visibilidade, por valida\u00e7\u00e3o da identidade, por pertencimento aos espa\u00e7os de produ\u00e7\u00e3o de sentido. Quando o reconhecimento \u00e9 negado \u2014 sobretudo em espa\u00e7os como a universidade \u2014, ocorre uma forma de invisibiliza\u00e7\u00e3o ativa. O sujeito n\u00e3o \u00e9 apenas ignorado: ele \u00e9 sistematicamente lido como ru\u00eddo, como exce\u00e7\u00e3o, como falha em rela\u00e7\u00e3o a um suposto padr\u00e3o. Essa leitura \u00e9 um tipo de <em>reifica\u00e7\u00e3o<\/em>, termo que Honneth recupera da tradi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica: transformar algu\u00e9m em coisa, em fun\u00e7\u00e3o, em marcador cl\u00ednico \u2014 e n\u00e3o em sujeito.<\/p>\n<p>A academia, marcada por um ideal iluminista de racionalidade abstrata e autoconsistente, resiste historicamente ao reconhecimento da diversidade cognitiva como leg\u00edtima forma de saber. O capacitismo se esconde sob exig\u00eancias aparentemente neutras \u2014 clareza, objetividade, linearidade \u2014 que n\u00e3o reconhecem que o pensamento pode se dar em outros ritmos, por outros caminhos, com outras expressividades. A pr\u00f3pria ideia de \u201cconduzir bem um grupo de estudos\u201d, por exemplo, costuma estar associada a uma performance comunicativa muito espec\u00edfica, que exclui modos mais sens\u00edveis, n\u00e3o lineares, ou intensamente afetivos de articula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim, o gesto do colega A. foi apenas a express\u00e3o de uma norma t\u00e1cita: de que h\u00e1 um modelo \u201ccerto\u201d de intelectualidade, e que os que escapam a esse modelo devem ser corrigidos ou removidos do lugar de fala. Isso, para al\u00e9m de ser injusto, \u00e9 epistemicamente empobrecedor. A universidade, ao se fechar \u00e0 diferen\u00e7a, torna-se menos capaz de pensar. E mais: ao negar o reconhecimento, ela impede que o saber seja um espa\u00e7o verdadeiramente comum.<\/p>\n<p>A objetifica\u00e7\u00e3o que sofri naquele momento \u00e9, portanto, um sintoma. E, como todo sintoma, aponta para uma patologia mais funda: a dificuldade da academia em lidar com a alteridade que n\u00e3o pode ser facilmente integrada sem a desconstru\u00e7\u00e3o de seus pr\u00f3prios par\u00e2metros de valida\u00e7\u00e3o. Como o escravo da dial\u00e9tica hegeliana que s\u00f3 se reconhece ao trabalhar o mundo e, nesse processo, transforma a si mesmo, pessoas neurodivergentes n\u00e3o s\u00e3o \u201centraves\u201d ao pensamento. S\u00e3o seus motores ocultos. Aqueles que, justamente por viverem \u00e0 margem dos formatos hegem\u00f4nicos, trazem perguntas novas, ritmos pr\u00f3prios, caminhos alternativos para o saber.<\/p>\n<p><strong>6. Conclus\u00e3o: Superar o ciclo do senhor e do escravo<\/strong><\/p>\n<p>A dial\u00e9tica do senhor e do escravo, quando aplicada \u00e0 realidade acad\u00eamica, revela-se mais do que uma estrutura de domina\u00e7\u00e3o entre sujeitos; ela exp\u00f5e a luta por reconhecimento dentro de um sistema que, muitas vezes, permanece cativo de seus pr\u00f3prios padr\u00f5es de exclus\u00e3o. O epis\u00f3dio vivido no grupo de estudos n\u00e3o \u00e9 um caso isolado, mas um reflexo da dificuldade estrutural da academia em integrar as diferen\u00e7as cognitivas como formas leg\u00edtimas de pensamento.<\/p>\n<p>A verdadeira supera\u00e7\u00e3o dessa din\u00e2mica n\u00e3o est\u00e1 na reafirma\u00e7\u00e3o da superioridade de um sobre o outro, mas na cria\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o de reconhecimento m\u00fatuo. Como a dial\u00e9tica de Hegel nos ensina, a verdadeira emancipa\u00e7\u00e3o s\u00f3 se d\u00e1 quando o sujeito se reconhece na alteridade do outro, e vice-versa. \u00c9 a partir desse reconhecimento, e n\u00e3o da subordina\u00e7\u00e3o, que o esp\u00edrito se realiza.<\/p>\n<p>Em vez de reduzir a diferen\u00e7a a um obst\u00e1culo a ser superado, a academia precisa aprender a acolher a diversidade como um potencial para enriquecer o debate. Para aqueles que, como eu, carregam a marca da neurodiverg\u00eancia, o saber n\u00e3o \u00e9 um territ\u00f3rio a ser conquistado mediante a corre\u00e7\u00e3o de falhas. Ao contr\u00e1rio, somos sujeitos de pensamento que, por meio de nossas experi\u00eancias distintas, trazemos contribui\u00e7\u00f5es valiosas para o campo intelectual.<\/p>\n<p>Assim, ao inv\u00e9s de perpetuar a l\u00f3gica de exclus\u00e3o e objetifica\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso avan\u00e7ar para uma academia onde a diversidade seja celebrada e onde todos os corpos e mentes possam encontrar seu lugar leg\u00edtimo no processo de produ\u00e7\u00e3o do saber. A verdadeira liberdade acad\u00eamica vir\u00e1 quando abandonarmos a ideia de um sujeito universal, homog\u00eaneo e racional, em favor de uma multiplicidade de vozes e perspectivas que, juntas, constroem um saber mais profundo e mais humano.<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong>:<\/p>\n<p>HEGEL, G. <strong>Fenomenologia do Esp\u00edrito.<\/strong> 9. ed. Petr\u00f3polis, RJ: Vozes; Bragan\u00e7a Paulista, SP: Editora Universit\u00e1ria S\u00e3o Francisco, 2014.<\/p>\n<p>HYPPOLITE, J. <strong>G\u00eanese e estrutura<\/strong><strong>da Fenomenologia do Esp\u00edrito de Hegel.<\/strong> 2. Ed. S\u00e3o Paulo: Discurso Editorial, 2003.<\/p>\n<p>HONNETH, A. <strong>A luta por reconhecimento:<\/strong> a gram\u00e1tica moral dos conflitos sociais. 2. Ed. S\u00e3o Paulo: Ed. 34, 2003.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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A ironia do epis\u00f3dio Em um encontro recente de um grupo de estudos, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":29357,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[6710,6711,5599,6712,6713,6714,6715],"tags":[],"class_list":["post-29356","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-capacitismo","category-capacitismo-na-universidade","category-descolonizacoes","category-fenomenologia-do-espirito","category-hegel","category-neurodivergencia","category-o-senhor-e-o-escravo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29356","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29356"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29356\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/29357"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29356"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29356"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29356"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}