{"id":30168,"date":"2025-05-27T18:31:55","date_gmt":"2025-05-27T21:31:55","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/memoria-as-criancas-banidas-pela-ditadura\/"},"modified":"2025-05-27T18:31:55","modified_gmt":"2025-05-27T21:31:55","slug":"memoria-as-criancas-banidas-pela-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/memoria-as-criancas-banidas-pela-ditadura\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3ria: As crian\u00e7as banidas pela ditadura"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"615\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/prosa_infancia_roubada-1024x615-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/prosa_infancia_roubada-1024x615-1.jpg 1024w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/prosa_infancia_roubada-300x180.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/prosa_infancia_roubada-768x461.jpg 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/prosa_infancia_roubada.jpg 1086w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption>Foto: Arquivo P\u00fablico do Esado de S\u00e3o Paulo \/ Reprodu\u00e7\u00e3o <\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Esta \u00e9 a introdu\u00e7\u00e3o do livro <em><a href=\"https:\/\/www.cartaeditora.com.br\/product-page\/crian%C3%A7as-e-ex%C3%ADlio-mem%C3%B3rias-de-inf%C3%A2ncias-marcadas-pela-ditadura-militar\">Crian\u00e7as e Ex\u00edlio \u2013 Mem\u00f3rias de inf\u00e2ncias marcadas pela ditadura militar <\/a><\/em>(Carta Editora, 2025), organizado por Helena D\u00f3ria Lucas de Oliveira e Nadejda Marques<\/p>\n<div>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"730\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/unnamed-768x1077-1-730x1024-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/unnamed-768x1077-1-730x1024-1.jpg 730w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/unnamed-768x1077-1-214x300.jpg 214w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/unnamed-768x1077-1.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 730px) 100vw, 730px\"><\/figure>\n<\/div>\n<h3><strong>As crian\u00e7as banidas pela ditadura<\/strong><\/h3>\n<p>Utilizar beb\u00eas, crian\u00e7as e adolescentes como alvos para aniquilar os opositores \u00e9 uma estrat\u00e9gia que est\u00e1 presente na longa hist\u00f3ria da ditadura civil-militar brasileira. Infelizmente, esta foi uma das t\u00e1ticas de guerra da doutrina antirrevolucion\u00e1ria aplicadas pelas for\u00e7as militares no per\u00edodo 1964-1985. O objetivo era aniquilar o inimigo, os opositores ao regime ditatorial. Utilizava-se a for\u00e7a militar, em todos seus sentidos e facetas, para manter o poder. N\u00e3o importando se o alvo era um adulto, homens, mulheres, idosos ou beb\u00eas, crian\u00e7as e adolescentes.<\/p>\n<p>Utilizar beb\u00eas, crian\u00e7as e adolescentes como alvos era uma atitude suja e horrenda. Primeiro, pela covardia do m\u00e9todo. Era ultrapassar os limites dos valores humanos. O alvo eram os filhos daqueles considerados inimigos do governo. Para que serve o sequestro, a tortura, a pris\u00e3o e o ex\u00edlio dessas crian\u00e7as? V\u00e1rias delas v\u00e3o responder a essa pergunta nos depoimentos contidos neste livro.<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/apoia.se\/outraspalavras\" aria-label=\"MAT\u00c9RIA-GERAL\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/MATERIA-GERAL-33.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/MATERIA-GERAL-33.png 681w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-GERAL-300x75.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 681px) 100vw, 681px\" width=\"681\" height=\"171\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>\u00c9 repulsivo quando se estabelece uma t\u00e1tica militar que atinge seres humanos nessa faixa et\u00e1ria. Este conceito de guerra tamb\u00e9m aliena a popula\u00e7\u00e3o, escala o \u00f3dio, a viol\u00eancia, cria narrativas erradas e equivocadas. Faz florescer muito ressentimento e joga para baixo da linha do ch\u00e3o a raz\u00e3o, a \u00e9tica, a civiliza\u00e7\u00e3o e o pr\u00f3prio ser humano. Exp\u00f5e a\u00e7\u00f5es demon\u00edacas.<\/p>\n<p>Durante os 21 anos do per\u00edodo de repress\u00e3o, especialmente na fase p\u00f3s-AI-5, imposto em 13 de dezembro de 1968, o governo militar, com apoio de boa parte da sociedade civil, religiosa e empresarial, teve como orienta\u00e7\u00e3o basilar a chamada Doutrina de Seguran\u00e7a Nacional (DSN).<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica dessa guerra suja tinha como miss\u00e3o combater o chamado \u201cinimigo interno\u201d para manter a soberania nacional. Era a guerra contra o fantasma do comunismo. Estrat\u00e9gia da extrema direita vigente at\u00e9 os dias atuais, onde s\u00e3o formatadas hist\u00f3rias que est\u00e3o num patamar pouco civilizado.<\/p>\n<p>A t\u00e9cnica usada pelos generais que estavam no poder combatia toda e qualquer forma de oposi\u00e7\u00e3o, fosse ela originada entre os trabalhadores nas f\u00e1bricas, nos camponeses, nos ribeirinhos, nos movimentos religiosos progressistas, nos estudantes, nas mulheres, na cultura, na comunica\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o, no movimento feminista e at\u00e9 nas crian\u00e7as.<\/p>\n<p>N\u00e3o que crian\u00e7as fossem protagonistas de uma movimenta\u00e7\u00e3o que pudesse abalar os alicerces dos governantes de farda, desestabilizar o pa\u00eds. Era uma estrat\u00e9gia de preven\u00e7\u00e3o segregacionista que visava acabar com o comunismo. Os beb\u00eas, as crian\u00e7as representavam o futuro de gera\u00e7\u00f5es de opositores aos militares, ao governo linha-dura. E dentro da l\u00f3gica da guerra antirrevolucion\u00e1ria deveriam ser exterminadas para que n\u00e3o pudessem levar adiante, propagar a ideologia comunista.<\/p>\n<h3><strong>AI-5<\/strong><\/h3>\n<p>No ano de 1969, os generais ditadores que tinham o poder da vida e da morte consideravam que o Brasil passava por momentos delicados e precisava de uma mudan\u00e7a radical no modo de governar. Elaboraram o AI-5. O texto de abertura do ato \u2013 que reproduz o pre\u00e2mbulo do AI-1, de 9 de abril de 1964 \u2013 comprova isso.<\/p>\n<p>Diz o ato: \u201cConsiderando que a Revolu\u00e7\u00e3o Brasileira de 31 de mar\u00e7o de 1964 teve, conforme decorre dos Atos com os quais se institucionalizou fundamentos e prop\u00f3sitos que visavam a dar ao pa\u00eds um regime que, atendendo \u00e0s exig\u00eancias de um sistema jur\u00eddico e pol\u00edtico, assegurasse aut\u00eantica ordem democr\u00e1tica, baseada na liberdade, no respeito \u00e0 dignidade da pessoa humana, no combate \u00e0 subvers\u00e3o e \u00e0s ideologias contr\u00e1rias \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es de nosso povo, na luta contra a corrup\u00e7\u00e3o, buscando, deste modo, \u2018os meios indispens\u00e1veis \u00e0 obra de reconstru\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, financeira, pol\u00edtica e moral do Brasil, de maneira a poder enfrentar, de modo direto e imediato, os graves e urgentes problemas de que depende a restaura\u00e7\u00e3o da ordem interna e prest\u00edgio internacional de nossa p\u00e1tria\u2019\u201d.<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/www.fosforoeditora.com.br\/produto\/memoria-de-menina-70435\" aria-label=\"BANNER-outras-palavras-ABRIL-mem\u00f3ria-de-menina\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/BANNER-outras-palavras-ABRIL-memoria-de-menina-2.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/BANNER-outras-palavras-ABRIL-memoria-de-menina-2.jpg 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/BANNER-outras-palavras-ABRIL-memoria-de-menina-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>Assim, o AI-5 \u2013 um dos 17 atos institucionais aplicados pela ditadura \u2013 endureceu o modo de governar, permaneceu vigente por uma d\u00e9cada inteira, fechou o Congresso Nacional e as Assembleias Legislativas nos estados, cassou mais de 170 mandatos de deputados, senadores e vereadores, instituiu a censura, proibiu reuni\u00f5es pol\u00edticas n\u00e3o autorizadas. E institucionalizou a tortura, persegui\u00e7\u00f5es e viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos, permitiu a pris\u00e3o ilegal, desaparecimentos de opositores e o assassinato em nome de um Brasil ideal. Tamb\u00e9m deu legalidade para o sequestro de beb\u00eas e crian\u00e7as.<\/p>\n<p>O endurecimento do sistema ditatorial provocou rea\u00e7\u00e3o da sociedade civil organizada. Mas os generais agiram impiedosamente, de forma a ignorar a \u00e9tica, o respeito ao ser humano, aos direitos do cidad\u00e3o e \u00e0 civilidade. \u201c\u00c0s favas, senhor presidente, neste momento, todos os escr\u00fapulos de consci\u00eancia\u201d, disse o coronel Jarbas Passarinho, ent\u00e3o ministro do Trabalho do general ditador Artur da Costa e Silva, na assinatura do AI-5.<\/p>\n<p>Outro ex-ministro que assinou o ato, Delfim Netto, tamb\u00e9m foi contundente ao apoiar o endurecimento do regime. Disse que estava \u201cplenamente de acordo com a proposi\u00e7\u00e3o que est\u00e1 sendo analisada no Conselho. E, se Vossa Excel\u00eancia me permitisse, direi mesmo que creio que ela n\u00e3o \u00e9 suficiente\u201d.<\/p>\n<p>Crian\u00e7as tamb\u00e9m se tornaram preocupa\u00e7\u00e3o dos militares, assim como os pobres, moradores das periferias. N\u00e3o para promover um futuro promissor, com educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade. Havia um desassossego especial para com aqueles que eram descendentes de opositores ao regime.<\/p>\n<p>Tal inquieta\u00e7\u00e3o colocava numa mesma situa\u00e7\u00e3o os filhos e filhas de militantes progressistas contr\u00e1rios \u00e0 ditadura, que lutaram por democracia e liberdade. Tornava alvo da repress\u00e3o os pequenos brasileiros pobres que viviam em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade nas periferias das grandes cidades.<\/p>\n<p>\u00c0 \u00e9poca, vigiam a chamada Doutrina da Situa\u00e7\u00e3o Irregular (DSI) e o Direito Penal do Menor. A DSI determinava que a educa\u00e7\u00e3o e a recupera\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as envolvidas em delitos seriam realizadas com o encaminhamento delas para reformat\u00f3rios e abrigos. Estava pavimentado o caminho jur\u00eddico para atacar as crian\u00e7as e adolescentes, fossem elas os trombadinhas, praticantes de pequenos delitos, ou os pobres moradores em favelas e ruas, al\u00e9m dos chamados minissubversivos.<\/p>\n<p>A legisla\u00e7\u00e3o permitia colocar esses pequenos brasileiros e brasileiras diretamente sob a cust\u00f3dia do Estado, cuja pol\u00edtica de atendimento variava entre o total assistencialismo at\u00e9 a completa segrega\u00e7\u00e3o da sociedade. Ficavam submetidos a todo e qualquer tipo de viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos. \u201cNo Brasil, fomos fichados como subversivos\u201d, afirma Nadejda Marques, uma das crian\u00e7as exiladas e uma das hist\u00f3rias descritas nesta obra.<\/p>\n<h3><strong>Perigo para o futuro<\/strong><\/h3>\n<p>Nos anos da ditadura civil-militar no Brasil, o Estado, suas institui\u00e7\u00f5es e seus agentes violaram, de forma massiva e sistem\u00e1tica, direitos humanos e fundamentais de cidad\u00e3os, especialmente daqueles considerados subversivos ou advers\u00e1rios pol\u00edticos do regime oficial.<\/p>\n<p>\u201cContudo, n\u00e3o s\u00f3 adultos foram v\u00edtimas dos crimes ditatoriais cometidos pelo Estado. Crian\u00e7as sofreram igualmente viol\u00eancias m\u00faltiplas. Os depoimentos coletados pela Comiss\u00e3o Nacional da Verdade e outros organismos de pesquisa relatam hist\u00f3rias de terror, sofrimento e trauma de suas inf\u00e2ncias. S\u00e3o relatos de crian\u00e7as que sofreram o terror e o sofrimento gerado por invas\u00e3o dos domic\u00edlios, trauma pelo ex\u00edlio, banimentos, necessidade de viver em clandestinidade ou sob constante vigil\u00e2ncia, comparecimento for\u00e7ados ao Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social (Dops), afastamento for\u00e7ado ou morte dos pais, familiares ou amigos\u201d, destaca o advogado Pedro Affonso D. Hartung, doutor em Direito do Estado pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) e autor do livro Levando os direitos das crian\u00e7as a s\u00e9rio<em>[<\/em><em>1<\/em><em>]<\/em>.<\/p>\n<p>Foi exatamente sob o manto da Doutrina da Situa\u00e7\u00e3o Irregular e do Direito Penal do Menor, hoje revogados, que a ditadura militar avan\u00e7ou sobre beb\u00eas, crian\u00e7as e adolescentes filhos de militantes pol\u00edticos que eram opositores ao regime. Representavam para os militares o perigo futuro no Brasil.<\/p>\n<p>\u201cConstata-se que no per\u00edodo da ditadura civil-militar, o Estado, al\u00e9m de propagar institucionalmente uma cultura repressiva e opressora por meio das pol\u00edticas da Funabem e suas respectivas unidades da Febem, violou de forma grave, massiva e sistem\u00e1tica os direitos fundamentais de crian\u00e7as, em especial filhas de cidad\u00e3os considerados inimigos da ideologia do governo vigente\u201d, observa Hartung.<\/p>\n<p>A Funda\u00e7\u00e3o Nacional do Bem-Estar do Menor (Funabem) foi fundada em 1\u00ba de dezembro de 1964, exatos nove meses ap\u00f3s o golpe de Estado. Era um \u00f3rg\u00e3o normativo com objetivo de criar e colocar em pr\u00e1tica uma pol\u00edtica nacional de bem-estar do menor.<\/p>\n<p>Foi a Funabem que elaborou as diretrizes pol\u00edticas e t\u00e9cnicas com a finalidade de interna\u00e7\u00e3o e reclus\u00e3o de crian\u00e7as e adolescentes. Esses equipamentos podiam ter car\u00e1ter educacional ou terap\u00eautico. Nos estados da federa\u00e7\u00e3o foram criadas as Febem \u2013 Funda\u00e7\u00e3o Estadual para o Bem Estar do Menor \u2013, \u00f3rg\u00e3os executivos respons\u00e1veis pela pr\u00e1tica das orienta\u00e7\u00f5es elaboradas pela Funabem.<\/p>\n<p>Hartung chama a aten\u00e7\u00e3o para o claro objetivo dessas institui\u00e7\u00f5es \u00e0 \u00e9poca, que desenvolviam pol\u00edticas p\u00fablicas e leis manipuladas pelos interesses do governo ditatorial: \u201cA Funabem nasce para responder \u00e0 necessidade que era lidar com crian\u00e7as e adolescentes em conflito com a lei e a falta de parentalidade\u201d.<\/p>\n<p>O conflito para com a lei citado por Hartung \u00e9 entendido como uma situa\u00e7\u00e3o que vai al\u00e9m das crian\u00e7as em situa\u00e7\u00e3o irregular ou carentes. Atinge em cheio os filhos e filhas de opositores da ditadura, potenciais propagadores do comunismo, socialismo e democracia defendida pelos pais. \u201cCrian\u00e7as carentes e abandonadas eram consideradas um perigo moral para a sociedade. E isso tem muita rela\u00e7\u00e3o com os opositores \u00e0 ditadura. Filhos e filhas dos opositores tiveram seu caminho violentado pela ditadura. Os militares utilizaram a legisla\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e9poca como base jur\u00eddica para atuar sobre essas crian\u00e7as e adolescentes, tudo a servi\u00e7o de um modelo maior de sociedade\u201d, explica Hartung ao se referir \u00e0s crian\u00e7as e adolescentes que foram para o ex\u00edlio para escapar de uma puni\u00e7\u00e3o dentro de seu pa\u00eds natal. Ou at\u00e9 mesmo da morte.<\/p>\n<p>Trocando em mi\u00fados, a m\u00e3o pesada dos militares estava sobre beb\u00eas, crian\u00e7as e adolescentes com parentesco em primeiro grau com militantes pol\u00edticos de oposi\u00e7\u00e3o. Criava-se assim uma nova modalidade de viol\u00eancia do Estado. O objetivo era eliminar a propaga\u00e7\u00e3o de ideologia n\u00e3o condizente com os preceitos defendidos pelos militares e em defesa da chamada fam\u00edlia de bem.<\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia era levar essas crian\u00e7as para as Febem, onde passariam por per\u00edodos de interna\u00e7\u00e3o for\u00e7ada, segrega\u00e7\u00e3o, reeduca\u00e7\u00e3o. Ainda poderiam ser colocadas para ado\u00e7\u00e3o, embora tivessem fam\u00edlia com capacidade financeira\/educacional e estrutura para sustent\u00e1-las.<\/p>\n<p>Uma sa\u00edda encontrada pelos familiares dos militantes de esquerda foi levar suas crian\u00e7as para o exterior. Algumas foram trocadas junto com militantes pol\u00edticos por diplomatas que haviam sido capturados pela resist\u00eancia armada. Outras j\u00e1 nasceram no ex\u00edlio. Mas muitas cresceram longe dos pais \u2013 presos, mortos ou desaparecidos \u2013 em uma dezena de pa\u00edses pelo planeta.<\/p>\n<p>Muitas dessas hist\u00f3rias permaneceram invisibilizadas por d\u00e9cadas e agora est\u00e3o contadas em primeira pessoa neste livro. Algumas dessas crian\u00e7as aparecem em fotografias dos grupos de militantes trocados pelo embaixador Ehrenfried Von Hollebem, em dezembro de 1970, e pelo embaixador su\u00ed\u00e7o Enrico Bucher, em janeiro de 1971.<\/p>\n<p>Um dos casos envolve a fam\u00edlia de Zuleide do Nascimento e seus irm\u00e3os Samuel, Ernesto e Lu\u00eds Carlos, que foram levados inicialmente para a Arg\u00e9lia junto a 40 presos pol\u00edticos. J\u00e1 Tatiana Piola e duas irm\u00e3s foram exiladas junto com 70 outros ativistas de oposi\u00e7\u00e3o ao regime.<\/p>\n<p>\u201cA exig\u00eancia do governo militar \u00e9 que dever\u00edamos sair do pa\u00eds, sermos banidos pois \u00e9ramos \u2018persona non grata\u2019. A imagem que guardo desse fato \u00e9 de estarmos dentro de um avi\u00e3o sendo escoltados por militares armados. Lembro deles perfilados, dentro do avi\u00e3o que nos levou de S\u00e3o Paulo para o Rio de Janeiro, onde encontrar\u00edamos os outros companheiros, completando a lista dos quarenta. Isso ocorreu no m\u00eas de junho de 1970 e fomos enviados para Arg\u00e9lia, onde permanecemos por aproximadamente trinta dias; e de l\u00e1, me recordo do medo que eu tinha ao ver as mulheres com burca\u201d, lembra Zuleide do Nascimento.<\/p>\n<p>A m\u00fasica cantada no dia da partida do pa\u00eds natal ficou gravada na cabe\u00e7a da ga\u00facha Tatiana Piola: \u201cCom idade de 8 anos, eu era banida do Brasil juntamente com meus familiares, todos pertencentes \u00e0quela lista de 70 pessoas que partiriam do pa\u00eds sem destino conhecido. Tenho lembran\u00e7a do voo de avi\u00e3o militar de Porto Alegre ao aeroporto do Gale\u00e3o no Rio de Janeiro onde nos juntar\u00edamos aos demais. Lembro tamb\u00e9m do dia em que partimos e todos cantavam \u2018est\u00e1 chegando a hora\u2019 a famosa marchinha de carnaval\u201d.<\/p>\n<p>A mem\u00f3ria distante dos pequenos exilados tem a capacidade de mexer com a sensibilidade de quem escuta ou l\u00ea suas narrativas. Danilo Curtis Alvarenga cita um terremoto presenciado em Santiago, no Chile. \u201cDe repente come\u00e7ou um barulho como se uma frota de tratores estivesse passando na rua, Patr\u00edcia j\u00e1 ia reclamar de mais um esbarr\u00e3o na mesa, mas reparou que est\u00e1vamos todos distante dela, o ch\u00e3o come\u00e7ou a trepidar, foi quando o Billy e a Patr\u00edcia gritaram: \u00c9 terremoto!\u201d \u2013 pois j\u00e1 estavam informados da possibilidade desses eventos no Chile.<\/p>\n<p>\u00c9 de Danilo tamb\u00e9m outra recorda\u00e7\u00e3o impactante, que demonstra que o cruel tratamento dado aos adultos era o mesmo para as crian\u00e7as. \u201cN\u00e3o me lembro como, mas soube de uma fala do ministro de seguran\u00e7a do Brasil: Filho de peixe, peixinho \u00e9, declarou, querendo dizer que os filhos dos exilados e banidos pol\u00edticos tamb\u00e9m eram considerados exilados e banidos. Sendo assim, para mim ficou que eu, aos oito anos de idade, estava banido e sendo considerado um terrorista para o povo brasileiro, que n\u00e3o podia pisar em terras brasileiras\u201d.<\/p>\n<h3><strong>O slogan marqueteiro<\/strong><\/h3>\n<p>Os militares criaram uma campanha publicit\u00e1ria para ridicularizar a sa\u00edda de intelectuais, pol\u00edticos e militantes progressistas do Brasil na d\u00e9cada de 1970, rumo ao ex\u00edlio. Elaboraram o slogan <em>Brasil, ame-o ou deixe-o<\/em>, que atacava diretamente quem precisou sair do pa\u00eds, sem planejamento, sem futuro, para salvar suas pr\u00f3prias vidas e a de seus filhos. Adesivos com a frase foram distribu\u00eddos aos milh\u00f5es, propagandas eram veiculadas nos intervalos de programas televisivos, nas r\u00e1dios, nos jornais e revistas.<\/p>\n<p>Essas crian\u00e7as exiladas eram vistas como elementos perigosos para o governo militar. Ganharam a pecha de <em>persona non grata <\/em>da ditadura. Assim, foram banidas do Brasil. Passaram a ser tratadas como ap\u00e1tridas, filhas de subversivos ou miniterroristas.<\/p>\n<p>Hoje, os exilados tentam curar traumas e cicatrizar feridas e se esfor\u00e7am para mostrar aos brasileiros as dificuldades e as agruras que uma ditadura imp\u00f5e a todos, \u00e0s futuras gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cPensar sobre esse emaranhado de desmem\u00f3rias tem me feito considerar que essa velha inf\u00e2ncia teceu, a finas tramas, uma esp\u00e9cie de para sempre. Assim como os felizes para sempre que ancoram finais de diversos contos infantis, minha inf\u00e2ncia foi, tamb\u00e9m, esquecida para sempre. E, acredito que esse esquecimento foi necess\u00e1rio e, at\u00e9 mesmo vital por um determinado per\u00edodo, pois o n\u00e3o lembrar possibilitou o seguir em frente. Por\u00e9m, assim como a semente que germina em solo inf\u00e9rtil e encontra formas de romper muros, revisitar o esquecimento e buscar as condi\u00e7\u00f5es prop\u00edcias para desaguar o sil\u00eancio \u00e9 fundamental pelo mesmo motivo. Ou seja, para seguir \u2013 de fato \u2013 em frente. Porque \u00e9 preciso lembrar para poder esquecer\u201d, explica Marcia Curi Vaz Galv\u00e3o, que inicialmente foi viver na Argentina e Espanha.<\/p>\n<p>Muitas fam\u00edlias foram dizimadas ou desestruturadas pelos \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o. Crian\u00e7as perderam seus pais, que terminaram presos, torturados, mortos ou desaparecidos. Sozinhos passaram pelo Juizado de Menores antes de deixar o Brasil. O maior temor era que tamb\u00e9m tivessem um desaparecimento for\u00e7ado, que fossem adotadas ou mesmo assassinadas.<\/p>\n<p>Filho do agricultor e l\u00edder campon\u00eas Francisco Juli\u00e3o, Anacleto Juli\u00e3o de Paula Cr\u00easpo demonstra todo o temor vivido ainda em terras brasileiras, quando a sociedade e a repress\u00e3o militar amea\u00e7avam sua fam\u00edlia de morte. \u201cEm uma ocasi\u00e3o amea\u00e7aram-nos, escrevendo em carv\u00e3o, nos muros de nossa casa, que matariam toda a fam\u00edlia enforcada nas \u00e1rvores de nosso pr\u00f3prio quintal. Eram amea\u00e7as muito concretas. Incont\u00e1veis cartas nos chegavam sem trazer remetente ou assinatura. Uma dessas cartas an\u00f4nimas, no entanto, se referia a mim, ent\u00e3o com n\u00e3o mais que 10 anos de idade\u201d.<\/p>\n<p>Anacleto conta ainda que sozinhos em Cuba ele e os irm\u00e3os tentaram manter la\u00e7os com o Brasil e seus familiares. Mas nada adiantou. \u201cFomos \u00e0 embaixada su\u00ed\u00e7a, que se encarregava dos interesses da ditadura brasileira em Cuba, na inten\u00e7\u00e3o de requerer nosso passaporte. Informaram-nos que, no Brasil, \u00e9ramos <em>persona non grata<\/em>, que l\u00e1, n\u00e3o nos queriam. Dali em diante, o \u00fanico v\u00ednculo que ainda pudemos conservar com o Brasil, al\u00e9m da afei\u00e7\u00e3o \u00e0s mem\u00f3rias, eram as desgastadas certid\u00f5es de nascimento que hav\u00edamos levado conosco, corro\u00eddas nas bordas e deterioradas nas dobras\u201d.<\/p>\n<p>Isabel Maria Gomes da Silva, filha do l\u00edder oper\u00e1rio e sindicalista Virg\u00edlio Gomes da Silva \u2013 um dos expoentes da A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional (ALN) e de Ilda Martins da Silva, descreve que ela e seus irm\u00e3os foram levados a unidades da Febem antes de partirem para o ex\u00edlio.<\/p>\n<p>\u201cMinhas primeiras lembran\u00e7as remontam aos tr\u00eas ou quatro anos de idade, j\u00e1 em Cuba. Tamb\u00e9m n\u00e3o guardo mem\u00f3rias do ano em que vivemos no Chile, nem da jornada para chegar, atravessando fronteiras, Paraguai, Argentina, Chile at\u00e9 o destino final: Cuba. Tr\u00eas anos antes havia sido arrancada do colo da minha m\u00e3e com apenas tr\u00eas meses, levada para um \u2018Juizado de menores\u2019 onde meus irm\u00e3os Vlademir e Virg\u00edlio, de 8 e 7 anos, respectivamente, cuidaram de mim, mas disto tomei conhecimento muito tempo depois\u201d, relata Isabel. O pai, Virg\u00edlio, foi preso e morreu no dia 29 de setembro de 1969, depois de uma longa sess\u00e3o de tortura.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de uma dessas passagens pela Febem paulista vem de Gregorio Gomes da Silva, um dos irm\u00e3os de Isabel. Ele conta que em 1969, junto com Isabel, que na \u00e9poca tinha 4 meses de idade; e Vladimir e Virg\u00edlio, com 8 e 7 anos respectivamente, registram in\u00fameras passagens em circunst\u00e2ncias delicadas no chamado Juizado de Menores.<\/p>\n<p>\u201cEles relatam que foram levados, n\u00e3o lembro quantas vezes, a passar o dia em umas casas grandes, bacanas, onde eram bem tratados (talvez tenha sido uma \u00fanica vez). Com certeza n\u00e3o tinham a no\u00e7\u00e3o sobre a possibilidade de serem entregues em ado\u00e7\u00e3o, mas tinham medo de serem separados. Contam que dormiam amarrados nos p\u00e9s do ber\u00e7o onde dormia minha irm\u00e3 ca\u00e7ula (Isa) [para evitar que a beb\u00ea fosse levada]\u201d.<\/p>\n<p>Sofrer maus tratos no Juizado de Menores em S\u00e3o Paulo tamb\u00e9m \u00e9 lembran\u00e7a de Luis Carlos Max do Nascimento, sobrinho do oper\u00e1rio Manuel Dias do Nascimento, o Neto, de Osasco, militante da Vanguarda Popular Revolucion\u00e1ria (VPR). Ele ficou exilado em Cuba, depois.<\/p>\n<p>Luis Carlos conta sobre a deten\u00e7\u00e3o junto com dois irm\u00e3os na Febem. \u201cSamuel, por ser maiorzinho, foi levado para um centro de menores infratores. L\u00e1 ele sofreu maus tratos\u201d. Luis Carlos e a irm\u00e3 Zuleide foram levados para uma unidade com crian\u00e7as menores de 7 anos de idade. \u201cL\u00e1 tinha at\u00e9 crian\u00e7as de ber\u00e7o. Sofremos press\u00f5es psicol\u00f3gicas, tiraram nossos pertences, nos vestiram com a roupa do sistema, cortaram o cabelo de Zuleide de forma brutal e at\u00e9 roubaram seu brinquinho de ouro, presente de nossa av\u00f3. Eles sabiam que \u00e9ramos parentes de presos pol\u00edticos. Lembro que foi muito dolorosa e sentida a separa\u00e7\u00e3o de minha av\u00f3, \u00e9ramos muito pr\u00f3ximos\u201d, desabafa. Eles tamb\u00e9m foram trocados pelo embaixador alem\u00e3o Ehrenfried Von Holleben, em junho de 1970. No M\u00e9xico, o Brasil disputava a Copa do Mundo de futebol e levou a ta\u00e7a. Era o tricampeonato mundial utilizado pelo general Em\u00edlio Garrastazu M\u00e9dici para vangloriar seu governo ditatorial e encobrir o terror praticado pelos agentes do estado no pa\u00eds.<\/p>\n<p>O medo de sofrer qualquer tipo de sev\u00edcia era enorme por quem passou por uma dessas unidades de interna\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria. Mas assim como no ex\u00edlio, nessas entidades os filhos dos presos pol\u00edticos pela ditadura receberam ajuda de quem estava mais pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>\u201cFomos colocados em camas com outras crian\u00e7as. Os len\u00e7\u00f3is estavam molhados e cheiravam \u00e0 urina. Uma senhora me amea\u00e7ava dizendo que por ser filha de terroristas era odiada por todos. Senti muito medo e me escondia embaixo das camas para n\u00e3o ser vista. Tinha uma garota mais velha que me adotou e protegeu. Foi um momento muito tenso. Estava longe dos meus irm\u00e3os e vulner\u00e1vel a ataques\u201d, revela \u00c2ngela Telma Lucena Imperatrice, filha de Ant\u00f4nio Raymundo de Lucena, militante da VPR, morto a tiros pela repress\u00e3o em Atibaia, interior de S\u00e3o Paulo, em 20 de fevereiro de 1970. Ela foi levada para morar em Cuba por muitos anos com o irm\u00e3o, Adilson. \u201cFoi um horror para mim [ser levado para essas institui\u00e7\u00f5es]\u201d, explica Adilson Oliveira Lucena, irm\u00e3o de \u00c2ngela Telma.<\/p>\n<p>\u201cCaminhando um pouco mais em minhas lembran\u00e7as, minha mente me leva agora para o \u2018Juizado de Menores\u2019. Desse lugar eu guardo o dia em que cortaram o meu cabelo: eu tinha cabelos bem compridos. Certo dia, uma das encarregadas de cuidar de n\u00f3s sentou-me numa cadeira, fez uma tran\u00e7a no meu cabelo, ao lado havia outra mulher, falando para cortar o meu cabelo e entregar a ela, porque queria fazer uma peruca e esse fato me fez ficar muito doente, de tristeza. Ficamos sob a guarda do Juizado de Menores por volta de um m\u00eas ou pouco mais que isso e sa\u00edmos de l\u00e1 ap\u00f3s muita luta de minha av\u00f3, para que f\u00f4ssemos liberados, evitando assim sermos adotados por outras fam\u00edlias, sendo que minha av\u00f3 havia sido inclu\u00edda na lista dos quarenta prisioneiros pol\u00edticos trocados pelo embaixador alem\u00e3o\u201d, conta hoje Zuleide do Nascimento.<\/p>\n<h3><strong>Jeitinho e fuga<\/strong><\/h3>\n<p>O cerco \u00e0s crian\u00e7as vinha at\u00e9 mesmo sobre os rec\u00e9m-nascidos. Os militares chegaram a ficar de plant\u00e3o na porta de um hospital em S\u00e3o Paulo, depois que uma militante deu \u00e0 luz Camila T. S. Bianchi. A mulher seria levada a um hosp\u00edcio e a menina para ado\u00e7\u00e3o em uma unidade de interna\u00e7\u00e3o de beb\u00eas e crian\u00e7as ligada \u00e0 Funabem ou a alguma institui\u00e7\u00e3o religiosa ou civil que mantinha apoio \u00e0 repress\u00e3o nos anos de chumbo. Mas a fam\u00edlia conseguiu um \u201cjeitinho\u201d de escapar. Foram para a Argentina.<\/p>\n<p>\u201cDia e noite, dois militares permaneciam no hospital aguardando a breve recupera\u00e7\u00e3o da ces\u00e1rea [da minha m\u00e3e] para nos levarem. No entanto, foi oferecida uma boa quantia em dinheiro para um dos militares que facilitou a nossa sa\u00edda do hospital e [a emiss\u00e3o] da minha certid\u00e3o de nascimento. Fui registrada sem o nome do meu pai. Permanecemos escondidas, uns dois ou tr\u00eas meses, at\u00e9 a recupera\u00e7\u00e3o da cirurgia e partimos para a Argentina\u201d, diz. No ex\u00edlio, Camila, a m\u00e3e, o pai e a irm\u00e3 viveram por sete anos na clandestinidade.<\/p>\n<p>\u201cMinha m\u00e3e foi detida no hospital e a avisaram que a internariam em um hosp\u00edcio-pris\u00e3o e eu seria levada para outro lugar. Depois, j\u00e1 na Argentina, com quatro anos, sofri uma tentativa de sequestro por parte de militares argentinos. Outra vez, aos 5 ou 6 anos na Argentina, precisei me esconder em um arm\u00e1rio da escola para n\u00e3o ser levada pelos militares que procuravam por n\u00f3s\u201d, relembra as agruras sofridas na ditadura aqui e no pa\u00eds vizinho.<\/p>\n<h3><strong>Insetos e cachorros<\/strong><\/h3>\n<p>Camila revela que a clandestinidade e o medo sempre estiveram presentes em sua vida de crian\u00e7a, o que fazia a fam\u00edlia se isolar cada vez mais. Sem amigos, os insetos foram seus \u00fanicos e poucos companheiros.<\/p>\n<p>\u201cAs ventanias e os insetos foram amigos sempre presentes em minha vida. Eu imaginava que os insetos me viam pequenina como eles, desse jeito eu conversava, cantava, brincava e me divertia com essas criaturas. Gostava de v\u00ea-los bem de pertinho, descobrir seus detalhes, seus corpos, antenas, asas, perninhas, prestava aten\u00e7\u00e3o em como andavam, voavam, corriam, saltavam, como se escondiam e entravam na terra. As menos amig\u00e1veis eram as aranhas e as taturanas que queimavam minha pele com seus pelos coloridos, mas eram muito atraentes e interessantes. Foram os amiguinhos da minha inf\u00e2ncia, os mais admir\u00e1veis e encantadores. At\u00e9 hoje sou vidrada neles e muito grata\u201d, confessa.<\/p>\n<p>Daniel Carvalho de Souza \u00e9 hoje presidente do Conselho da A\u00e7\u00e3o da Cidadania e produtor de cinema documental. Saiu exilado do Brasil para o Chile em 1971, aos seis anos. Tamb\u00e9m passou por quatro outros pa\u00edses \u2013 Su\u00e9cia, Inglaterra, Canad\u00e1 e M\u00e9xico \u2013 antes de retornar ao pa\u00eds em 1979, com a Anistia. Lembra numa mistura de saudade e alegria que nesse tempo a fam\u00edlia teve 32 cachorros em suas v\u00e1rias casas nesses cinco pa\u00edses. Sua estat\u00edstica pessoal tamb\u00e9m exp\u00f5e o sofrimento e as dificuldades enfrentados no ex\u00edlio. \u201cEu estava com 14 anos, dos quais sete de clandestinidade e sete de ex\u00edlio. Ao todo foram quatro idiomas, cinco pa\u00edses e oito escolas, e me dei ao trabalho de contar quantos cachorros: 32, incluindo a Mel, que n\u00e3o \u00e9 vira-lata. Foi uma inf\u00e2ncia clandestina, exilada e incomum, mas faria tudo de novo\u201d.<\/p>\n<p>As fam\u00edlias nem sempre contavam para as crian\u00e7as sobre o perigo que estavam correndo no Brasil antes de irem para o ex\u00edlio. \u201cNa minha fam\u00edlia, por exemplo, n\u00e3o chegava para mim esse temor, de modo expl\u00edcito. Eu via minha m\u00e3e falando baixinho com minha irm\u00e3 de mais idade, espiando pela janela. E n\u00e3o lembro se eu compreendia essas a\u00e7\u00f5es como algo perigoso que estava acontecendo\u201d, diz Helena D\u00f3ria Lucas de Oliveira.<\/p>\n<h3><strong>Lugar nenhum<\/strong><\/h3>\n<p>Mais de uma d\u00e9cada antes dos Tit\u00e3s Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer, S\u00e9rgio Britto, Charles Gavin e Tony Bellotto criarem a m\u00fasica \u201cLugar nenhum\u201d, Rog\u00e9rio Tosca j\u00e1 vivenciava o que os versos <em>N\u00e3o sou brasileiro \/ N\u00e3o sou estrangeiro \/ N\u00e3o sou de nenhum lugar queriam dizer.<\/em> Ele foi para o ex\u00edlio no Chile e depois do golpe militar rumou para o Panam\u00e1 e depois para Cuba. Sempre foi alvo de confus\u00e3o sobre sua nacionalidade, seu sotaque, sua apar\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cO ex\u00edlio tem umas coisas loucas. No Chile eu era El brasile\u00f1o, no Panam\u00e1 e em Cuba eu era El chileno e, aqui no Brasil, eu sou o cubano. \u00c0s vezes essas coisas s\u00e3o engra\u00e7adas, outras n\u00e3o tanto. Em rela\u00e7\u00e3o ao meu sotaque, no Chile eu passava por chileno, em Cuba, nos primeiros anos tamb\u00e9m acontecia essa confus\u00e3o\u201d, analisa.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de sotaques e apar\u00eancias, o ex\u00edlio tamb\u00e9m promove confus\u00f5es de cheiros, cores e sabores na mem\u00f3ria de quem enfrentou anos for\u00e7ados fora do Brasil. O famoso arroz com feij\u00e3o foge do prato nas refei\u00e7\u00f5es caseiras, o sorvete n\u00e3o \u00e9 de chocolate. Nem mesmo os estudos de matem\u00e1tica e os c\u00e1lculos s\u00e3o realizados como qualquer brasileiro faz. \u00c9 o que mostra Silvia Sette Whitaker Ferreira:<\/p>\n<p>\u201cPara mim, a comida com gostinho de casa \u00e9 a francesa, mas o sorvete com sabor de inf\u00e2ncia \u00e9 o chilen\u00edssimo chirimoya alegre, chirimoya com laranja; \u00e9 em franc\u00eas que eu fa\u00e7o contas, adoro a simpatia e o bom humor do brasileiro, n\u00e3o sei em que l\u00edngua eu sonho, e montanha (ah, a cordilheira [dos Andes]\u2026) \u00e9 o meu lugar preferido. Continuo com aquela sensa\u00e7\u00e3o, l\u00e1 no fundo, de ser estrangeira em todo lugar, mas acho que ela sempre vai me acompanhar, \u00e9 parte de mim. Carrego comigo lembran\u00e7as boas e ruins. A injusti\u00e7a est\u00e1 no mundo todo. A luta contra ela, e os amigos e companheiros, por sorte, tamb\u00e9m\u201d, expressa.<\/p>\n<p>Neste livro, as mais de quatro dezenas de depoimentos lan\u00e7am novas luzes sobre os subterr\u00e2neos do regime militar de 1964 e o modus operandi sem limites dos generais para tentar derrotar seus opositores. Comprova que a viol\u00eancia do Estado reca\u00eda sobre os adultos, militantes pol\u00edticos, intelectuais, artistas, enfim, qualquer cidad\u00e3o que levantasse a voz contra o governo golpista. Mas deixa claro que os filhos desses opositores tamb\u00e9m foram alvo dessa guerra suja.<\/p>\n<p>Os depoimentos mostram que as crian\u00e7as eram submetidas precocemente ao afastamento da fam\u00edlia e dos pais, a partidas for\u00e7adas, desterritorializa\u00e7\u00e3o e um leque de supl\u00edcios e viol\u00eancias. \u201cS\u00e3o traumas forjados pelo ex\u00edlio, com rompimento de la\u00e7os sociais, emocionais e comunit\u00e1rios. As crian\u00e7as foram testemunhas de extrema viol\u00eancia. [Os militares usaram a] l\u00f3gica de guerra e [a] pr\u00e1tica de quase genoc\u00eddio\u201d, aponta o advogado Pedro Affonso D. Hartung.<\/p>\n<h3><strong>Trai\u00e7\u00e3o da confian\u00e7a dos brasileiros<\/strong><\/h3>\n<p>A l\u00f3gica de guerra dos militares foi cruel com as crian\u00e7as na ditadura. Diante da inoc\u00eancia infantil, o mundo adulto militar agiu de forma truculenta, desrespeitosa e humilhante. Aqueles que deveriam cuidar das crian\u00e7as agiram de forma a trair a confian\u00e7a de todo o povo brasileiro.<\/p>\n<p>Importante lembrar ainda que no Brasil a ditadura militar tamb\u00e9m sequestrou beb\u00eas, crian\u00e7as e adolescentes filhos de opositores ao regime. Essas crian\u00e7as foram apropriadas, ou adotadas conforme a legisla\u00e7\u00e3o, por fam\u00edlias de militares ou por fam\u00edlias ligadas aos militares, outro crime dos militares que permaneceu oculto por mais de 60 anos.<\/p>\n<p>O livro <em>Cativeiro sem fim[2]<\/em> denuncia esta barbaridade ocorrida nas d\u00e9cadas de 1960, 1970 e 1980 em v\u00e1rios estados brasileiros. Foram 19 casos, sendo 11 deles registrados na regi\u00e3o onde houve a guerrilha do Araguaia. S\u00e3o filhos de guerrilheiros, de camponeses, de militantes de esquerda ou de pessoas simpatizantes das for\u00e7as progressistas que lutavam por democracia e liberdade.<\/p>\n<p>Paralelamente, o ex\u00edlio dos pequenos se transformou num longo tempo congelado de vida, de isolamento da fam\u00edlia, de parentes, do pa\u00eds e da vida cotidiana, principalmente para as crian\u00e7as, como \u00e9 poss\u00edvel sentir nos depoimentos descritos nesta obra.<\/p>\n<p>O ex\u00edlio despertou sentimentos contradit\u00f3rios de culpa, perda de sentidos e de refer\u00eancias. Essas crian\u00e7as exiladas, banidas, fugitivas, refugiadas, imigrantes, ap\u00e1tridas, subversivas, miniterroristas s\u00e3o v\u00edtimas de um sistema totalit\u00e1rio. E estavam simplesmente fugindo da morte, lutando pela vida.<\/p>\n<p>Evidente que toda a situa\u00e7\u00e3o produziu consequ\u00eancias psicol\u00f3gicas nefastas em todos durante suas jornadas fora do nosso ch\u00e3o. Neste livro est\u00e3o importantes registros com a mais crua e simples informa\u00e7\u00e3o, fatos da vida desses pequenos cidad\u00e3os, considerados <em>persona non grata<\/em> pela ditadura.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as viveram em muitos pa\u00edses. Escaparam das consequ\u00eancias sinistras de um golpe militar de estado no Brasil, mas vivenciaram e sofreram com as agruras de outros golpes na Argentina, no Chile, na Guin\u00e9 Bissau. Imergiram em outras culturas, enfrentaram barreiras da l\u00edngua, falta de um emprego, desilus\u00f5es, inexist\u00eancia dos pais e familiares, dist\u00e2ncia dos amigos. Ficaram sem um governo para proteg\u00ea-los. Mas se autoajudaram e juntas reconstru\u00edram a vida no exterior. Voltaram para um pa\u00eds que mal reconheciam ou desconheciam totalmente. Se reinventaram e s\u00e3o exemplo de persist\u00eancia, lealdade ao Brasil, que os militares tanto pregavam e n\u00e3o praticaram.<\/p>\n<p>Passados 60 anos do golpe de 1964, a mem\u00f3ria do regime militar brasileiro est\u00e1 submetida a diferentes disputas e tens\u00f5es. As mem\u00f3rias infantis sobre o per\u00edodo de ex\u00edlio abrem uma nova p\u00e1gina na hist\u00f3ria desse per\u00edodo grotesco e revelam hist\u00f3rias, fatos e informa\u00e7\u00f5es nunca antes divulgados.<\/p>\n<p>Assim, este livro mant\u00e9m viva a mem\u00f3ria sobre um dos per\u00edodos mais cru\u00e9is e sangrentos da vida pol\u00edtica do Brasil. Sob outro olhar traz \u00e0 tona lembran\u00e7as do arb\u00edtrio, persegui\u00e7\u00e3o, tortura, morte e suas consequ\u00eancias sobre os brasileiros e a sociedade.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de uma celebra\u00e7\u00e3o de piedade \u00e0s v\u00edtimas da ditadura militar, mas uma rememora\u00e7\u00e3o da palavra, uma mem\u00f3ria que transforma o presente, conforme aponta Jeanne Marie Gagnebin em <em>Lembrar, escrever, esquecer[3]<\/em>, ao demonstrar que n\u00e3o \u00e9 revanchismo, mas sim mostrar as narrativas, fatos e casos que ficaram escondidos, adormecidos por d\u00e9cadas. As novas gera\u00e7\u00f5es de brasileiros, o mundo, precisam saber o que a ditadura militar fez com os pequenos brasileiros.<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p>1 HARTUNG, Pedro Affonso D. Levando os direitos das crian\u00e7as a s\u00e9rio \u2013 a absoluta prioridade dos direitos fundamentais e melhor interesse da crian\u00e7a. S\u00e3o Paulo. Thomson Reuters Brasil, 2022.<\/p>\n<p>2 REINA, Eduardo. Cativeiro sem fim \u2013 as hist\u00f3rias dos beb\u00eas, crian\u00e7as e adolescentes sequestrados pela ditadura militar no Brasil. S\u00e3o Paulo. Alameda, 2019.<\/p>\n<p>3 GAGNEBIN, Jeanne Marie. Lembrar, escrever, esquecer. S\u00e3o Paulo. Editora 34, 2006.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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