{"id":30304,"date":"2025-05-28T16:26:44","date_gmt":"2025-05-28T19:26:44","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/diretor-do-cnpq-analisa-ataque-a-ciencia-nos-eua-e-disputa-global-por-cerebros\/"},"modified":"2025-05-28T16:26:44","modified_gmt":"2025-05-28T19:26:44","slug":"diretor-do-cnpq-analisa-ataque-a-ciencia-nos-eua-e-disputa-global-por-cerebros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/diretor-do-cnpq-analisa-ataque-a-ciencia-nos-eua-e-disputa-global-por-cerebros\/","title":{"rendered":"Diretor do CNPq analisa ataque \u00e0 ci\u00eancia nos EUA e disputa global por c\u00e9rebros"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"684\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Captura-de-Tela-2025-05-28-as-162236-2048x1369-1.png\" alt=\"\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" srcset=\"https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Captura-de-Tela-2025-05-28-as-16.22.36-1024x684.png 1024w, https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Captura-de-Tela-2025-05-28-as-16.22.36-300x200.png 300w, https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Captura-de-Tela-2025-05-28-as-16.22.36-768x513.png 768w, https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Captura-de-Tela-2025-05-28-as-16.22.36-1536x1026.png 1536w, https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Captura-de-Tela-2025-05-28-as-162236-2048x1369-1.png 2048w, https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Captura-de-Tela-2025-05-28-as-16.22.36-272x182.png 272w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><\/p>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o cient\u00edfica dos Estados Unidos, consolidada ao longo do s\u00e9culo XX com a atra\u00e7\u00e3o de cientistas europeus e com forte apoio estatal, est\u00e1 agora em xeque. Para Olival Freire Junior, professor da Universidade Federal da Bahia e diretor cient\u00edfico do CNPq, a pol\u00edtica anticient\u00edfica do governo Trump inaugura uma nova fase: \u201c\u00c9 um elemento novo. O que est\u00e1 em curso n\u00e3o \u00e9 apenas uma reestrutura\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica ou geopol\u00edtica, mas uma interfer\u00eancia direta nos conte\u00fados das pesquisas\u201d, alerta em entrevista ao <strong>Portal Vermelho<\/strong> (leia trechos ao final).<\/p>\n<div>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"956\" height=\"1024\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/olival-.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/olival--956x1024.png 956w, https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/olival--280x300.png 280w, https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/olival--768x823.png 768w, https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/olival-.png 1005w\" sizes=\"auto, (max-width: 956px) 100vw, 956px\"><figcaption><em><sup>Olival Freire Junior<\/sup><\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Freire Jr destaca que nem regimes autorit\u00e1rios do passado, como o franquismo ou a ditadura militar brasileira, ousaram intervir t\u00e3o diretamente no conte\u00fado da produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Hoje, nos Estados Unidos, h\u00e1 restri\u00e7\u00f5es expl\u00edcitas a termos como \u201cequidade\u201d, \u201cimpactos clim\u00e1ticos\u201d e \u201ctransg\u00eanero\u201d, o que tem gerado inseguran\u00e7a e receio entre os pr\u00f3prios pesquisadores norte-americanos.<\/p>\n<p>Leia tamb\u00e9m: <a href=\"https:\/\/vermelho.org.br\/2025\/05\/25\/justica-dos-eua-freia-trump-e-impede-expulsao-de-estrangeiros-de-harvard\/\">Justi\u00e7a impede expuls\u00e3o de estrangeiros de Harvard<\/a><br \/><a href=\"https:\/\/vermelho.org.br\/2025\/04\/22\/mais-de-cem-universidades-dos-eua-assinam-carta-aberta-contra-trump\/\">Mais de cem universidades dos EUA assinam carta aberta contra Trump<\/a><br \/><a href=\"https:\/\/vermelho.org.br\/2025\/04\/15\/cortes-de-trump-contra-universidades-revelam-ofensiva-autoritaria-sem-precedentes\/\">Cortes de Trump contra universidades revelam retorno \u00e0 ofensiva autorit\u00e1ria macartista<\/a><\/p>\n<p><strong>A resposta das universidades e o papel do Estado<\/strong><\/p>\n<p>Universidades como Harvard t\u00eam se destacado na resist\u00eancia \u00e0s medidas que atacam a liberdade acad\u00eamica, mas enfrentam limita\u00e7\u00f5es. \u201cBastou o governo americano retirar o financiamento para voc\u00ea ter uma crise sem precedentes. N\u00e3o \u00e9 a anuidade dos estudantes que sustenta essas institui\u00e7\u00f5es\u201d, afirma o professor. Para ele, a crise atual revela o qu\u00e3o crucial foi \u2014 e ainda \u00e9 \u2014 o papel do Estado no financiamento da ci\u00eancia nos EUA.<\/p>\n<p>Apesar de tentativas de apoio por parte do setor privado, como doa\u00e7\u00f5es de ex-alunos e grandes empresas, Freire Jr v\u00ea limites: \u201cEsse problema das universidades americanas vai ter que ser resolvido no \u00e2mbito da pr\u00f3pria sociedade americana\u201d.<\/p>\n<p><strong>Uma disputa global por talentos<\/strong><\/p>\n<p>O enfraquecimento da ci\u00eancia norte-americana abre uma disputa mundial por c\u00e9rebros. A Fran\u00e7a anunciou medidas para atrair pesquisadores, e o Brasil tamb\u00e9m se movimenta. \u201cTodos os pa\u00edses est\u00e3o observando o cen\u00e1rio, pensando como num jogo de xadrez: para onde mover as pe\u00e7as\u201d, diz Olival.<\/p>\n<p>Mas ele ressalta que o desafio vai al\u00e9m da quest\u00e3o salarial: envolve infraestrutura, tradi\u00e7\u00e3o educacional e capacidade de pesquisa colaborativa. \u201cN\u00e3o se trata s\u00f3 de deslocar pesquisadores, mas de preservar redes, bancos de dados e projetos internacionais que s\u00e3o essenciais, por exemplo, na \u00e1rea da sa\u00fade.\u201d<\/p>\n<p><strong>O papel do Brasil: di\u00e1spora cient\u00edfica e novas estrat\u00e9gias<\/strong><\/p>\n<p>O Brasil, segundo Freire, j\u00e1 vinha estruturando uma resposta, mesmo antes do agravamento da crise nos EUA. \u201cCriamos o programa\u00a0<em>Conhecimento Brasil<\/em>\u00a0para fortalecer redes de pesquisadores brasileiros no exterior e tamb\u00e9m apoiar a repatria\u00e7\u00e3o de talentos.\u201d<\/p>\n<p>Com duas frentes \u2014 o apoio a redes de colabora\u00e7\u00e3o e a atra\u00e7\u00e3o de pesquisadores brasileiros \u2014 o programa deve alcan\u00e7ar at\u00e9 1.500 cientistas. \u201c\u00c9 uma pol\u00edtica pensada n\u00e3o como rea\u00e7\u00e3o ao que acontece nos EUA, mas como forma de reconhecer que o Brasil formou uma di\u00e1spora cient\u00edfica qualificada, e que ela pode ser um trunfo para o pa\u00eds.\u201d<\/p>\n<p>Entre as \u00e1reas estrat\u00e9gicas para atra\u00e7\u00e3o de talentos est\u00e3o intelig\u00eancia artificial, transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica e outras que dialogam com os desafios do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p><strong>A China, a Europa e o futuro incerto da ci\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>Questionado sobre a possibilidade de a China se tornar o novo polo global da ci\u00eancia, Freire \u00e9 cauteloso: \u201cH\u00e1 barreiras culturais, lingu\u00edsticas e geopol\u00edticas. Mas mudan\u00e7as hist\u00f3ricas j\u00e1 superaram obst\u00e1culos semelhantes no passado, como mostrou o \u00eaxodo de cientistas europeus para os EUA nos anos 1930 com a ascens\u00e3o do nazismo.\u201d<\/p>\n<p>Por fim, ele ressalta que o cen\u00e1rio \u00e9 fluido e complexo: \u201cEstamos vivendo um tempo sem respostas seguras. O que vemos \u00e9 um mundo em transi\u00e7\u00e3o, e ainda n\u00e3o sabemos qual ser\u00e1 sua nova configura\u00e7\u00e3o cient\u00edfica\u201d.<\/p>\n<p>Leia os principais trechos da entrevista: <\/p>\n<p><strong>Vermelho: Qual o impacto dessas medidas do governo Trump para a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica dos Estados Unidos, considerando a hist\u00f3ria importante em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o desde antes da Segunda Guerra de absor\u00e7\u00e3o\/capta\u00e7\u00e3o de cientistas?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Olival Freire Junior: Se voc\u00ea olhar a curva, por exemplo, do n\u00famero de pr\u00eamios Nobel nos Estados Unidos, h\u00e1 um verdadeiro desequil\u00edbrio dos anos 40 para frente. Um n\u00famero significativo desses premiados foram pessoas que se deslocaram para os Estados Unidos na d\u00e9cada de 30. Mas n\u00e3o s\u00f3 isso, o mundo da Segunda Guerra \u00e9 um mundo em que os Estados Unidos sa\u00edram com uma vantagem tecnol\u00f3gica inequ\u00edvoca, porque era o dom\u00ednio das armas at\u00f4micas. E tinha tamb\u00e9m o dom\u00ednio do radar. E ao longo de todo o per\u00edodo desde a Segunda Guerra, e mesmo depois com o fim da Guerra Fria, essa hegemonia da ci\u00eancia norte-americana era algo inconteste. Mais recentemente, voc\u00ea tem a ascens\u00e3o da China, anteriormente voc\u00ea teve a ascens\u00e3o do Jap\u00e3o, a ascens\u00e3o da Coreia e a recupera\u00e7\u00e3o da for\u00e7a da ci\u00eancia europeia. Mas ningu\u00e9m duvida da hegemonia da ci\u00eancia e da tecnologia norte-americana no mundo. Ent\u00e3o \u00e9 esse o cen\u00e1rio que est\u00e1 posto em quest\u00e3o. <\/p>\n<p>Eu diria que \u00e9 um mundo em transforma\u00e7\u00e3o, porque com a pol\u00edtica de tarifas que o governo americano vem adotando, voc\u00ea est\u00e1 tendo uma reorganiza\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio em escala mundial. Eu diria que \u00e9 poss\u00edvel que a gente venha a ter uma reorganiza\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m, da capacidade cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica de cada pa\u00eds. Ent\u00e3o \u00e9 esse mundo em transi\u00e7\u00e3o que n\u00f3s estamos vivendo. <\/p>\n<p>Agora, o que est\u00e1 acontecendo especificamente nos Estados Unidos tem uma outra dimens\u00e3o que \u00e9 diferente, estranha de tudo isso que eu j\u00e1 te falei. O que \u00e9 que a gente precisa chamar aten\u00e7\u00e3o? \u00c9 que essas outras transforma\u00e7\u00f5es que eu fiz refer\u00eancia, todas elas tinham por base um cen\u00e1rio em que a liberdade para pesquisa cient\u00edfica era assegurada, n\u00e3o importa qual fosse o regime. Se voc\u00ea pegar mesmo no caso da ditadura militar brasileira, que perseguiu cientistas, n\u00f3s n\u00e3o temos registro de uma interfer\u00eancia direta nos conte\u00fados. Se voc\u00ea pegar a pol\u00edtica franquista, tamb\u00e9m teve alguma coisa desse tipo. A Espanha desenvolveu a \u00e1rea de f\u00edsica nuclear, independente de saber se a f\u00edsica nuclear era uma f\u00edsica cat\u00f3lica ou n\u00e3o. Eu peguei esses dois exemplos s\u00f3 para ilustrar, mas eu poderia te citar v\u00e1rios outros exemplos que v\u00e3o na mesma dire\u00e7\u00e3o, t\u00e1 certo? E o que n\u00f3s estamos vendo hoje nos Estados Unidos \u00e9 uma interfer\u00eancia nos conte\u00fados. Ent\u00e3o se a sua linha de pesquisa tem a tem\u00e1tica, por exemplo, de equidades, se a sua linha de pesquisa est\u00e1 discutindo impactos clim\u00e1ticos, coisas desse tipo, a palavra em si, j\u00e1 \u00e9 objeto de restri\u00e7\u00e3o. Inclusive chegando a express\u00f5es rid\u00edculas, que \u00e9 aquela confus\u00e3o que eles fizeram com a express\u00e3o em ingl\u00eas transg\u00eanero e transg\u00eanico. Portanto, eu diria que \u00e9 um elemento novo, \u00e9 um elemento que impacta na produ\u00e7\u00e3o cultural norte-americana. Os Estados Unidos t\u00eam uma for\u00e7a cultural n\u00e3o apenas na \u00e1rea estritamente de tecnologia, mas na \u00e1rea do pensamento social, do pensamento cr\u00edtico, e \u00e9 isso que est\u00e1 posto em quest\u00e3o, gerando, portanto, um cen\u00e1rio bastante inseguro e, digamos assim, um cen\u00e1rio de um receio generalizado entre cientistas norte-americanos quanto ao futuro de suas pesquisas. Esse \u00e9 o tipo de informa\u00e7\u00e3o que est\u00e1 chegando.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Vermelho: Por outro lado, existe uma rea\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria elite, das grandes empresas que precisam dessa produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica para inovar. O senhor n\u00e3o acredita que esse ambiente que est\u00e1 se criando tem dura\u00e7\u00e3o curto, como foram os recuos do tarifa\u00e7o?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Olival Freire Junior: Essa \u00e9 a interroga\u00e7\u00e3o que eu diria que ningu\u00e9m tem uma resposta clara. Porque \u00e9 uma interroga\u00e7\u00e3o an\u00e1loga ao seguinte\u2026 Esse efeito financeiro que voc\u00ea est\u00e1 se referindo tamb\u00e9m est\u00e1 acontecendo na economia. \u00c9 uma reorganiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica que vai trazer preju\u00edzos para a sociedade norte-americana? Muito possivelmente. Qual vai ser o tempo de rea\u00e7\u00e3o a isso? \u00c9 um terreno cujas respostas n\u00e3o s\u00e3o seguras. Eu diria que isso \u00e9 o tempo que n\u00f3s estamos vivendo.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Vermelho: A gente sabe que ser cientista dessas universidades de elite, pesquisar nesses ambientes nos Estados Unidos implica em sal\u00e1rios e em bolsas muito altas, que s\u00e3o dif\u00edceis de serem cobertas por outros pa\u00edses. O Brasil e a pr\u00f3pria Europa dificilmente dariam conta de garantir recursos t\u00e3o importantes.\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Olival Freire Junior: E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o sal\u00e1rio. \u00c9 tamb\u00e9m a infraestrutura dispon\u00edvel para pesquisa.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Vermelho: A Fran\u00e7a est\u00e1 se colocando para disputar esses cientistas, o Brasil querendo fazer alguma coisa\u2026 Como voc\u00ea avalia isso, Olival?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Olival Freire Junior: Veja, as pondera\u00e7\u00f5es sobre o problema de sal\u00e1rio, o problema da infraestrutura s\u00e3o importantes. O que eu posso te dizer \u00e9 que hoje muitos pa\u00edses do mundo est\u00e3o estudando esse problema. A Fran\u00e7a anunciou aquelas medidas iniciais, mas voc\u00ea v\u00ea que as medidas n\u00e3o foram tamb\u00e9m \u00e0 altura do problema. Eu diria que h\u00e1 uma enorme complexidade. Porque, veja, n\u00f3s estamos falando de uma hegemonia na ci\u00eancia que foi constru\u00edda da d\u00e9cada de 1930 para c\u00e1 com uma guerra mundial no meio. Uma guerra fria. Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma coisa que foi constru\u00edda da noite para o dia. \u00c9 um cen\u00e1rio que eu diria que vem de 1935, \u00e0 altura dos 1970. \u00c9 um cen\u00e1rio de quatro d\u00e9cadas. Mas volto a dizer, com duas guerras pelo meio, uma guerra quente e uma guerra fria. <\/p>\n<p>Acho que os outros pa\u00edses est\u00e3o examinando qual \u00e9 o exato impacto da restri\u00e7\u00e3o \u00e0 pesquisa, mesmo porque, a gente n\u00e3o pode pensar s\u00f3 em problema de deslocamento de pesquisadores. Tem muitas pesquisas hoje que s\u00e3o feitas em colabora\u00e7\u00e3o. Por exemplo, na \u00e1rea da sa\u00fade. Muitas das pesquisas norte-americanas s\u00e3o feitas envolvendo situa\u00e7\u00f5es de sa\u00fade fora dos Estados Unidos. Ou, ao contr\u00e1rio, uma das vacinas mais r\u00e1pidas e mais eficazes contra o coronav\u00edrus foi produzida em solo americano, e usada no mundo inteiro. <\/p>\n<p>Eu estou dizendo isso para voc\u00ea entender que, uma decis\u00e3o dos Estados Unidos de sair de um organismo multilateral, uma Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade, qual vai ser o impacto disso? Desse controle de epidemias e mesmo situa\u00e7\u00f5es de pandemia, esse \u00e9 um problema que hoje est\u00e1 sendo debatido no mundo inteiro.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Vermelho: Quando eu penso em pa\u00edses que teriam condi\u00e7\u00f5es de fazer esse enfrentamento, eu imagino que a China seria este. S\u00f3 que a China, ao mesmo tempo, tem as barreiras culturais, lingu\u00edsticas\u2026 Voc\u00ea acha poss\u00edvel que isso ocorra?<\/strong><\/p>\n<p>Olival Freire Junior: N\u00e3o, n\u00e3o te antecipo nenhuma conjectura. Porque como voc\u00ea mesmo apontou, s\u00e3o cen\u00e1rios complexos. Esses cen\u00e1rios podem ser modificados? Podem. A t\u00edtulo de hip\u00f3tese, eu sou capaz de te citar, por exemplo, que se voc\u00ea pega l\u00e1 o final dos anos 1920 e in\u00edcio dos anos 1930, os europeus que estavam na linha de frente da pesquisa em matem\u00e1tica ou em f\u00edsica, iam aos Estados Unidos para fazer uma palestra, para passar um m\u00eas, dois meses, tr\u00eas meses, t\u00e1 certo? Eles n\u00e3o cogitavam de se mudar para os Estados Unidos. Com a ascens\u00e3o do nazismo, isso mudou dramaticamente. A figura ic\u00f4nica da ci\u00eancia do s\u00e9culo XX, que \u00e9 o Einstein, visita os Estados Unidos de um lado para o outro, mas chega 1933 e ele sai da Alemanha, e a\u00ed ele transita por alguns pa\u00edses que esbo\u00e7am acolh\u00ea-lo, mas onde \u00e9 que ele foi parar? Foi parar nos Estados Unidos. Ent\u00e3o, poder\u00e1 haver uma mudan\u00e7a desse tipo, inclusive superando essas barreiras culturais. N\u00e3o acho imposs\u00edvel. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o quero fazer nenhuma previs\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Vermelho: Pensando em termos do que a Europa est\u00e1 fazendo para atrair esses cientistas, com um investimento em ci\u00eancia bem menor que os Estados Unidos, em termos de PIB, voc\u00ea acha que ter\u00e1 consequ\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p>Olival Freire Junior: Mas tem uma tradi\u00e7\u00e3o, porque ci\u00eancia voc\u00ea n\u00e3o pode pensar s\u00f3 em termos de valores financeiros. Voc\u00ea tem que pensar tamb\u00e9m em infraestrutura e infraestrutura de pessoas. A Europa tem uma tradi\u00e7\u00e3o educacional que \u00e9 imbat\u00edvel. A qualidade da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica europeia bate longe na qualidade da educa\u00e7\u00e3o norte-americana. Lembre-se, por exemplo, que boa for\u00e7a da ci\u00eancia norte-americana hoje s\u00e3o aqueles cientistas que fazem a educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica em outro pa\u00eds\u2026 muitas vezes pa\u00edses europeus, pa\u00edses asi\u00e1ticos, brasileiros tamb\u00e9m\u2026 Fazem a gradua\u00e7\u00e3o e v\u00e3o para l\u00e1 j\u00e1 na fase ou do doutorado ou j\u00e1 no est\u00e1gio de p\u00f3s-doutorado.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Vermelho: Voc\u00ea falou da insufici\u00eancia do que est\u00e1 sendo anunciado. De como a Europa ainda tem limites para absorver esses cientistas que est\u00e3o pesquisando nos Estados Unidos.<\/strong><\/p>\n<p>Olival Freire Junior: Mas n\u00e3o s\u00f3 a Europa\u2026 mas outros pa\u00edses tamb\u00e9m. Os pa\u00edses aqui na Am\u00e9rica Latina, os asi\u00e1ticos, eu diria que \u00e9 um cen\u00e1rio em movimento. Est\u00e1 todo mundo\u2026 como no jogo de xadrez\u2026 pensando para onde mover as pe\u00e7as.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Vermelho: Voc\u00ea poderia especificar o que imagina que precisa ser feito para a atra\u00e7\u00e3o de cientistas?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Olival Freire Junior: Voc\u00ea mesmo citou o exemplo da Fran\u00e7a buscando atrair cientistas. mas essa n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica forma\u2026 Tem que tamb\u00e9m pensar em formas de redes e pensar tamb\u00e9m na preserva\u00e7\u00e3o de certos projetos, que hoje j\u00e1 s\u00e3o projetos colaborativos que n\u00e3o deveriam ser amea\u00e7ados. Tem coisas que n\u00e3o podem ser interrompidas. Voc\u00ea n\u00e3o pode somente pensar em deslocar uma pessoa de um lado para o outro. Por exemplo, base de dados. A pesquisa em sa\u00fade, hoje, depende fortemente da base de dados. Por exemplo, preservar essas bases de dados \u00e9 um grande desafio para a civiliza\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o o problema n\u00e3o se reduz a um deslocamento de pesquisadores entre pa\u00edses, embora esse seja um item importante.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Vermelho: Olival, como voc\u00ea observa isto que est\u00e1 acontecendo em Harvard, com maior impacto? Porque \u00e9 uma universidade que deveria ter uma subsist\u00eancia pr\u00f3pria diante da for\u00e7a que tem.<\/strong><\/p>\n<p>Olival Freire Junior: Primeiro, \u00e9 preciso entender que a for\u00e7a dessas universidades americanas depende de um financiamento\u2026 isso \u00e9 importante. Ningu\u00e9m acha que \u00e9 o custo da anuidade que cobre os custos das universidades americanas. Eu digo isso porque volta e meia aparece um no Brasil que diz assim, cobra anuidade que resolve o problema de financiamento das universidades brasileiras. Isso \u00e9 uma doce ilus\u00e3o. Bastou o governo americano retirar o financiamento para voc\u00ea ter uma crise sem precedentes. Agora, isso posto, at\u00e9 agora, a Harvard est\u00e1 se destacando como a universidade que est\u00e1 fazendo o enfrentamento ao ataque \u00e0 autonomia universit\u00e1ria. Eu diria que est\u00e1 num papel mais interessante, mais correto em termos de liberdade acad\u00eamica, por exemplo, do que foi a Universidade de Columbia, que tamb\u00e9m \u00e9 uma grande universidade.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Vermelho: Num primeiro momento se falou que Harvard recebeu apoio de empresas, gente que valoriza muito a universidade come\u00e7ou a fazer grandes doa\u00e7\u00f5es, para fazer o enfrentamento. Seria vi\u00e1vel fazer investimentos em pesquisas nos Estados Unidos a partir de outros pa\u00edses? Outros pa\u00edses financiarem pesquisas ali devido \u00e0 sua import\u00e2ncia?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Olival Freire Junior: Tem barreiras que o pr\u00f3prio estado americano pode contrapor\u2026 n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel, mas \u00e9 mais problem\u00e1tico. Agora veja, claro que outros pa\u00edses, ao enviarem estudantes ou financiarem a ida de pesquisadores aos Estados Unidos, isso tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de financiar a ci\u00eancia norte-americana. Mas eu diria que esse problema dessas grandes universidades americanas, ele vai ter que ser resolvido no \u00e2mbito da sociedade americana. O papel do Estado \u00e9 inelimin\u00e1vel. As empresas sempre financiaram essas universidades norte-americanas, especialmente depois da segunda guerra, mas esse apoio nunca foi suficiente. O apoio estatal era t\u00e3o importante, que agora que ele est\u00e1 sendo retirado \u00e9 que voc\u00ea est\u00e1 vendo o qu\u00e3o importante era.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Vermelho: Em entrevista, o ministro Alexandre Padilha fala sobre as inten\u00e7\u00f5es do Brasil. Como voc\u00ea enxerga as medidas que se apontam? Porque o governo j\u00e1 vinha desenvolvendo pol\u00edticas para atrair cientistas\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Olival Freire Junior: N\u00f3s estamos estudando essas coisas no governo, mas eu prefiro n\u00e3o antecipar conjecturas. Veja s\u00f3\u2026 n\u00f3s firmamos desde 2023 o programa chamado Conhecimento Brasil, pelo qual n\u00f3s apoiamos, primeiro o programa em redes, com redes de pesquisadores brasileiros que est\u00e3o no exterior e que n\u00e3o voltaram ao Brasil, e grupos brasileiros. E n\u00f3s estamos apoiando 600 desses grupos. Muitos est\u00e3o nos Estados Unidos. A segunda linha de financiamento do conhecimento do Brasil \u00e9 a repatria\u00e7\u00e3o. Esse, n\u00f3s vamos apoiar alguma coisa da ordem de 800, 900 pessoas para repatriar. Uma parte fundamental tamb\u00e9m de brasileiros que tiveram forma\u00e7\u00e3o nos Estados Unidos. O resultado final dessa sele\u00e7\u00e3o est\u00e1 para sair dentro de mais uma semana. Mas essas foram as motiva\u00e7\u00f5es para essas pol\u00edticas, n\u00e3o tem a ver com a crise mais recente que voc\u00ea est\u00e1 se referindo na sociedade americana. Eles foram motivados por outro aspecto. O Brasil constituiu uma di\u00e1spora cient\u00edfica, que \u00e9 um trunfo da ci\u00eancia brasileira e que a gente precisa aprender a lidar com ela\u2026 E estamos aprendendo.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Vermelho: Tem \u00e1reas preferenciais, Olival, de pesquisadores que seriam interessantes a atrair?<\/strong><\/p>\n<p>Olival Freire Junior: S\u00e3o exatamente as \u00e1reas que a gente est\u00e1 priorizando no pr\u00f3prio pa\u00eds: intelig\u00eancia artificial, transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica e \u00e1reas desse tipo.\u00a0<\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/vermelho.org.br\/2025\/05\/28\/diretor-do-cnpq-analisa-ataque-a-ciencia-nos-eua-e-disputa-global-por-cerebros\/\">Diretor do CNPq analisa ataque \u00e0 ci\u00eancia nos EUA e disputa global por c\u00e9rebros<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/vermelho.org.br\/\">Vermelho<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/guerra-dos-eua-afasta-ira-da-copa-e-expoe-hipocrisia-da-fifa\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Captura-de-Tela-2026-03-11-as-152101-2048x1156-1-150x150.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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