{"id":31069,"date":"2025-06-02T05:00:00","date_gmt":"2025-06-02T08:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/agronejo-como-o-sertanejo-virou-braco-cultural-do-agro-e-foi-usado-pela-direita\/"},"modified":"2025-06-02T05:00:00","modified_gmt":"2025-06-02T08:00:00","slug":"agronejo-como-o-sertanejo-virou-braco-cultural-do-agro-e-foi-usado-pela-direita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/agronejo-como-o-sertanejo-virou-braco-cultural-do-agro-e-foi-usado-pela-direita\/","title":{"rendered":"Agronejo: como o sertanejo virou bra\u00e7o cultural do agro e foi usado pela direita"},"content":{"rendered":"<p>\u201c<strong>EU, EU SOU ROCEIRO<\/strong>, com muito orgulho, do interior. Eu sou boiadeira, sou puro sangue, do mato, eu sou. O amarelo \u00e9 a <a href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/?s=soja\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">soja<\/a>, o verde \u00e9 o pasto, o azul aben\u00e7oa o branco das cabe\u00e7a (sic) de <a href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/?s=gado\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">gado<\/a>\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Lan\u00e7ada em setembro de 2022, a m\u00fasica \u201cHino agro\u201d, inspirada no canto entoado nos jogos da sele\u00e7\u00e3o brasileira de futebol, virou hit poucos dias antes do primeiro turno das elei\u00e7\u00f5es presidenciais daquele ano. Quase tr\u00eas anos depois, a can\u00e7\u00e3o de Ana Castela, L\u00e9o &amp; Raphael e Dj Chris j\u00e1 acumulou mais de 20 milh\u00f5es de visualiza\u00e7\u00f5es no Youtube e mais de 42 milh\u00f5es de reprodu\u00e7\u00f5es no Spotify.<\/p>\n<p>A adapta\u00e7\u00e3o da vers\u00e3o original cantada nos est\u00e1dios, no entanto, tem outro tipo de campo como cen\u00e1rio. Na letra e no clipe, o gramado das partidas de futebol \u00e9 substitu\u00eddo por men\u00e7\u00f5es e imagens de gado, tratores, cavalos e picapes. A celebra\u00e7\u00e3o da sele\u00e7\u00e3o canarinho d\u00e1 lugar \u00e0 exalta\u00e7\u00e3o ao <a href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/?s=agroneg%C3%B3cio\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">agroneg\u00f3cio<\/a>.\u00a0<\/p>\n<figure>\n<div>\n<\/div><figcaption>\u201cHino agro\u201d, can\u00e7\u00e3o de Ana Castela, L\u00e9o &amp; Raphael e Dj Chris que exalta o agroneg\u00f3cio, j\u00e1 acumulou mais de 20 milh\u00f5es de visualiza\u00e7\u00f5es no Youtube e mais de 42 milh\u00f5es de reprodu\u00e7\u00f5es no Spotify <\/figcaption><\/figure>\n<p>Batizado de \u201cagronejo\u201d, esse estilo musical une tradi\u00e7\u00e3o sertaneja a elementos de pop, funk e eletr\u00f4nico e tem como marcas o refor\u00e7o da identidade rural e as refer\u00eancias expl\u00edcitas \u2013 e n\u00e3o mais sutis \u2013 ao poder do agroneg\u00f3cio. Agora, o agro aparece como protagonista: forte, moderno e s\u00edmbolo de um Brasil que busca cravar seu espa\u00e7o como pot\u00eancia pol\u00edtica e cultural.\u00a0<\/p>\n<p>O setor, por sua vez, encontra no agronejo uma forma eficaz de comunicar que \u201co agro venceu\u201d, analisa o economista Rafael Zincone, pesquisador da Universidade Federal Fluminense. \u201c[A mensagem \u00e9 que] ganha-se dinheiro no campo, mas se ostenta tamb\u00e9m nas praias, nas capitais. \u00c9 uma esp\u00e9cie de contraponto: antes, havia um imagin\u00e1rio da vergonha de ser caipira. Hoje, \u00e9 o contr\u00e1rio. Eles mostram que t\u00eam orgulho, porque o campo agora \u00e9 sin\u00f4nimo de lucro e status\u201d, explica.<\/p>\n<p><strong>:: Leia tamb\u00e9m: <a href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/2025\/06\/ditadura-bolsonaro-lula-sertanejo-politica\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Da ditadura \u00e0 democracia, de Bolsonaro a Lula: o vaiv\u00e9m do sertanejo na pol\u00edtica<\/a> ::<\/strong><\/p>\n<p>O jornalista Andr\u00e9 Piunti, especialista em m\u00fasica sertaneja, avalia que o crescimento do g\u00eanero nos \u00faltimos anos passa diretamente por sua presen\u00e7a em rodeios e festas agropecu\u00e1rias financiados pelo agroneg\u00f3cio nas \u00faltimas d\u00e9cadas. \u201cSem rodeios e festas, a m\u00fasica sertaneja n\u00e3o teria o tamanho que tem hoje. Tocar nesses eventos \u00e9 fundamental para a carreira dos artistas\u201d, afirma.\u00a0<\/p>\n<p>Segundo ele, tanto as produtoras musicais quanto o setor agropecu\u00e1rio entenderam que aquele espa\u00e7o atende aos interesses de todos. \u201cFunciona porque \u00e9 todo mundo junto. \u00c9 a cultura com a m\u00fasica, com as festas, com os shows, com as provas\u201d.<\/p>\n<p>Em <a href=\"https:\/\/youtu.be\/GRf0H_4Krzs?si=uxxBonbUjJBgc89t&amp;t=78\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">entrevista \u00e0 jornalista Mar\u00edlia Gabriela<\/a>, em 2010, o cantor sertanejo Chit\u00e3ozinho relembrou o momento em que o agroneg\u00f3cio passou a ocupar um lugar central no financiamento de shows e rodeios: \u201cO agroneg\u00f3cio ajudou a gente, mas foi s\u00f3 na d\u00e9cada de 1980, quando come\u00e7aram a acontecer as grandes exposi\u00e7\u00f5es de gado\u201d, afirmou. \u201cA m\u00fasica sertaneja ficou marcada como a m\u00fasica desse movimento rural do Brasil que deu e d\u00e1 certo at\u00e9 hoje\u201d.<\/p>\n<div data-elementor-type=\"section\" data-elementor-id=\"77670\" data-elementor-post-type=\"elementor_library\">\n<div data-id=\"17a659f\" data-element_type=\"container\" data-settings='{\"background_background\":\"classic\"}'>\n<div>\n<div data-id=\"386385d\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"heading.default\">\n<div>\n<h2>ASSINE NOSSA NEWSLETTER<\/h2>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div data-id=\"6546917\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"html.default\">\n<div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n<\/p><\/div>\n<div data-id=\"8c2e333\" data-element_type=\"widget\" data-settings='{\"button_width\":\"20\",\"step_next_label\":\"Next\",\"step_previous_label\":\"Previous\",\"button_width_mobile\":\"20\",\"step_type\":\"number_text\",\"step_icon_shape\":\"circle\"}' data-widget_type=\"form.default\">\n<div>\n<div>\n<div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<label for=\"form-field-email\"><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\tEmail\t\t\t\t\t\t\t<\/label><\/p><\/div>\n<div>\n\t\t\t\t\t<button type=\"submit\"><br \/>\n\t\t\t\t\t\t<span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<i aria-hidden=\"true\"><\/i>\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span>Submit<\/span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/span><br \/>\n\t\t\t\t\t<\/button>\n\t\t\t\t<\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<h2>O agroneg\u00f3cio \u2018moderno\u2019 e o investimento na autoimagem<\/h2>\n<p>O aprofundamento da conex\u00e3o entre agroneg\u00f3cio e sertanejo come\u00e7ou a se consolidar a partir da virada dos anos 1990 para os anos 2000, quando um e outro viram seu poder e influ\u00eancia crescerem paulatinamente.<\/p>\n<p>Impulsionado pelo boom das commodities no mercado global e pela crise cambial de 1999, assim como pelo processo gradual de desindustrializa\u00e7\u00e3o da economia brasileira a partir da d\u00e9cada de 1990, o agroneg\u00f3cio passou a ser considerado o pilar da pol\u00edtica econ\u00f4mica e do com\u00e9rcio exterior do pa\u00eds. \u00a0<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, o agro buscava se consolidar como um setor coeso e politicamente influente, argumenta o antrop\u00f3logo Caio Pompeia em seu<a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/ha\/a\/xjhwQdTB5jVzgPqjnSCfGvQ\/abstract\/?lang=pt\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"> artigo \u201c\u2018O agro \u00e9 tudo\u2019: simula\u00e7\u00f5es no aparato de legitima\u00e7\u00e3o do agroneg\u00f3cio<\/a>\u201d. O termo agroneg\u00f3cio, derivado do <em>agribusiness<\/em>, criado nos Estados Unidos nos anos 1950 com a inten\u00e7\u00e3o de abranger todo o sistema de produ\u00e7\u00e3o de alimentos, ganha for\u00e7a no Brasil justamente nos anos 1990, impulsionado em grande parte pela Abag (Associa\u00e7\u00e3o Brasileira do Agroneg\u00f3cio) e outras associa\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/p>\n<figure>\n<div>\n<\/div><figcaption>Ao som de versos que comparam o valor de um pasto ao de uma Ferrari, o videoclipe de \u201cOs menino da pecu\u00e1ria\u201d exibe dados grandiosos do agroneg\u00f3cio na tela<\/figcaption><\/figure>\n<p>Aproveitando a conjuntura econ\u00f4mica favor\u00e1vel ao agroneg\u00f3cio, o setor passa a investir na constru\u00e7\u00e3o de uma imagem moderna, de forma a afastar percep\u00e7\u00f5es negativas associadas a problemas hist\u00f3ricos como trabalho an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o, grilagem de terra e rela\u00e7\u00e3o com a ditadura militar, analisa o cientista social Caique Carvalho, que estuda a rela\u00e7\u00e3o entre o sertanejo e o agroneg\u00f3cio no Brasil. Na tentativa de se consolidar tamb\u00e9m como for\u00e7a cultural, encontrou na m\u00fasica sertaneja um \u201clink identificativo\u201d, define ele.<\/p>\n<p>A consolida\u00e7\u00e3o dessa conex\u00e3o acontece no mesmo momento em que o sertanejo come\u00e7a a ganhar proje\u00e7\u00e3o nacional, tornando-se, ao longo dos anos seguintes, o g\u00eanero mais popular do Brasil. Segundo dados da Crowley Broadcast Analysis, empresa especializada no monitoramento de emissoras de r\u00e1dio, em 2004 apenas tr\u00eas faixas sertanejas figuravam entre as dez mais tocadas. Vinte anos depois, o cen\u00e1rio se inverteu: em 2024, todas as m\u00fasicas no Top 10 eram do g\u00eanero, que tamb\u00e9m dominou a lista das 100 mais tocadas, com 91 can\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Paralelamente, estat\u00edsticas sobre a contribui\u00e7\u00e3o do agroneg\u00f3cio para o PIB (Produto Interno Bruto) e a gera\u00e7\u00e3o de empregos tornaram-se instrumentos centrais de sua legitima\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. \u201cAo evidenciarem a participa\u00e7\u00e3o do <em>agribusiness<\/em> (como no\u00e7\u00e3o) na economia nacional, muito superior \u00e0 da agricultura tomada isoladamente, esses atores t\u00eam conseguido angariar credibilidade perante parte da opini\u00e3o p\u00fablica e, com isso, obter maior potencial de convencimento e press\u00e3o sobre o Estado\u201d, afirma Pompeia em seu artigo.<\/p>\n<h2>Um agro mais jovem<\/h2>\n<p>No in\u00edcio da d\u00e9cada de 2010, o agroneg\u00f3cio passou a expressar com mais clareza o desejo de reformular a pr\u00f3pria imagem. Em uma carta pol\u00edtica redigida em parceria com a Fiesp (Federa\u00e7\u00e3o das Ind\u00fastrias do Estado de S\u00e3o Paulo) e a Abag, o setor declarava a inten\u00e7\u00e3o de promover uma \u201cvis\u00e3o triunfalista dos agroneg\u00f3cios\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Essa estrat\u00e9gia se materializou em campanhas publicit\u00e1rias como a pouca lembrada \u201cMovimento Sou Agro\u201d e a bem-sucedida \u201cAgro \u00e9 Tech\u201d, promovida e veiculada pelo Grupo Globo de Comunica\u00e7\u00e3o, e na associa\u00e7\u00e3o com cantores sertanejos para divulgar carnes, insumos agr\u00edcolas e tratores, entre outros produtos agropecu\u00e1rios.\u00a0<\/p>\n<p>A pandemia intensificou essa aproxima\u00e7\u00e3o: enquanto faziam shows em <em>lives<\/em> para milh\u00f5es de pessoas, os artistas promoviam, ao mesmo tempo, os produtos de seus patrocinadores do setor.<\/p>\n<p>Em um evento da Associa\u00e7\u00e3o Nacional dos Distribuidores de Insumos Agr\u00edcolas e Veterin\u00e1rios em 2023, o presidente da ABMRA (Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Marketing Rural e Agro), <a href=\"https:\/\/abmra.org.br\/agro-precisa-ampliar-a-comunicacao-e-dialogar-com-as-novas-geracoes-diz-presidente-da-abmra\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Ricardo Nicodemos,\u00a0 afirmou<\/a> que o agroneg\u00f3cio dominava a comunica\u00e7\u00e3o \u201cdentro de uma bolha\u201d, com uma estrutura que inclu\u00eda emissoras de TV, programas de r\u00e1dio, revistas e portais especializados. No entanto, ele apontava que o desafio era romper essa bolha e alcan\u00e7ar as novas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"638\" height=\"340\" src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/agro-pop.jpg\" alt=\"Campanha \u201cAgro \u00e9 Tech\u201d, promovida e veiculada pelo Grupo Globo (Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Youtube)\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/agro-pop.jpg 638w, https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/agro-pop-300x160.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 638px) 100vw, 638px\"><figcaption>Campanha \u201cAgro \u00e9 Tech\u201d, promovida e veiculada pelo Grupo Globo (Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Youtube)<\/figcaption><\/figure>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o tem fundamento. Pesquisa realizada pela pr\u00f3pria ABMRA em 2022 indicou que 30% dos brasileiros tinham uma vis\u00e3o desfavor\u00e1vel do setor. Entre eles, 51% eram jovens entre 15 e 29 anos. Para Nicodemos, essa rejei\u00e7\u00e3o \u00e9 alimentada pelo distanciamento f\u00edsico e simb\u00f3lico do p\u00fablico urbano, al\u00e9m da aus\u00eancia de uma narrativa mais pr\u00f3xima. \u201cSem contar sua hist\u00f3ria e sem se comunicar com a popula\u00e7\u00e3o urbana, o setor convive com mitos e vira ref\u00e9m de ataques de detratores daqui e do exterior\u201d, afirma na <a href=\"https:\/\/static.poder360.com.br\/2022\/10\/percepcoes-sobre-o-agro-todos-a-uma-so-voz-2022.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">carta de abertura do estudo.<\/a><\/p>\n<p>\u00c9 a\u00ed que entra o agronejo, uma vertente do sertanejo universit\u00e1rio que eleva a propaganda do campo a um novo patamar. Se nas can\u00e7\u00f5es de rodeio dos anos 1990 ou nas baladas dos anos 2000 o sucesso agropecu\u00e1rio aparecia de forma indireta, agora a mensagem \u00e9 escancarada: o agroneg\u00f3cio \u00e9 s\u00edmbolo de poder, riqueza e identidade.<\/p>\n<p>Na m\u00fasica \u201cTipo Yellowstone\u201d, L\u00e9o e Raphael cantam: \u201cCabe\u00e7a de gado, n\u00f3is tem mais de mil. Corre prova de la\u00e7o em todo o Brasil. Sicredi ligando, tem cr\u00e9dito, viu? N\u00f3is vive a s\u00e9rie que voc\u00ea assistiu. Tipo Yellowstone, n\u00f3is tem camionete, tem fazenda e usa camisa da Tommy [Hilfiger]\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>J\u00e1 em \u201cFazendinha Session\u201d, a dupla Us Agroboy exalta a juventude rural como integrante da elite econ\u00f4mica: \u201cMinha munheca j\u00e1 t\u00e1 cansada de assinar carteira de trabalho, n\u00f3is d\u00e1 trabalho no Paran\u00e1. E o agro, como \u00e9 que t\u00e1? N\u00e3o para, n\u00e3o para, n\u00e3o para, n\u00e3o para. Vinte e poucos anos, vinte e tantas liga\u00e7\u00f5es perdidas. A gerente da Sicredi querendo ser minha amiga. Quem \u00e9 esse agroboy que tem mais de uma milha? \u00c9 eu, \u00e9 claro que \u00e9 eu\u201d. Raphael ainda emenda: \u201cN\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que PIB come\u00e7a com P (pecu\u00e1ria), sertanejo come\u00e7a com S, S de soja\u201d.<\/p>\n<h2>Sem lugar para diverg\u00eancias<\/h2>\n<p>No fim dos anos 1980, ainda era comum o lan\u00e7amento de m\u00fasicas que criticavam o modelo agr\u00edcola dominante e defendiam a reforma agr\u00e1ria, como \u201cQuero terra\u201d, do cantor Dalvan, e \u201cGrande esperan\u00e7a (reforma agr\u00e1ria)\u201d, de Chico Rey &amp; Paran\u00e1 e Mary Terezinha.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Hoje, em uma cena sertaneja dominada pelo agronejo, no entanto, as can\u00e7\u00f5es n\u00e3o apenas celebram o agro que venceu, mas tamb\u00e9m ajudam a construir uma narrativa em que n\u00e3o h\u00e1 margem para cr\u00edticas ao modelo de produ\u00e7\u00e3o do agroneg\u00f3cio ou a seus aliados, como o ex-presidente Jair Bolsonaro.<\/p>\n<p>Historicamente, <a href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/2025\/06\/ditadura-bolsonaro-lula-sertanejo-politica\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">o g\u00eanero j\u00e1 esteve associado a diferentes projetos pol\u00edticos ao longo do tempo<\/a>, e sua trajet\u00f3ria acompanha tanto as mudan\u00e7as sociais do pa\u00eds quanto as estrat\u00e9gias da ind\u00fastria musical, dizem\u00a0especialistas ouvidos pela reportagem. Segundo eles, a aproxima\u00e7\u00e3o recente com o bolsonarismo e com setores da extrema direita deve ser entendida como parte de um processo de alinhamento a for\u00e7as que compartilham afinidades econ\u00f4micas, simb\u00f3licas e territoriais com o agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Para o pesquisador Caique Carvalho, a inser\u00e7\u00e3o do g\u00eanero na ind\u00fastria cultural <em>mainstream <\/em>limita a presen\u00e7a de temas como a reforma agr\u00e1ria ou as dificuldades da vida no campo, assuntos que batem de frente com os interesses do setor. \u201cQuando a m\u00fasica sertaneja se transforma nesse mercado eloquente a partir desse processo de [maior] circula\u00e7\u00e3o, ela constr\u00f3i um elo [com o agroneg\u00f3cio] que gera depend\u00eancia e restringe a autonomia tanto da arte quanto do artista\u201d, afirma.<\/p>\n<figure>\n<div>\n<\/div><figcaption>Hegemonia do agronejo n\u00e3o deixa margem para que as can\u00e7\u00f5es que tratem de temas como a reforma agr\u00e1ria, presente na m\u00fasica \u201cGrande esperan\u00e7a\u201d, dos anos 1980<\/figcaption><\/figure>\n<p>Carvalho lembra o exemplo da cantora Mar\u00edlia Mendon\u00e7a, morta em 2021 em um acidente a\u00e9reo. Ao aderir \u00e0 <a href=\"https:\/\/noticiasdatv.uol.com.br\/noticia\/celebridades\/sertaneja-marilia-mendonca-foi-contra-bolsonaro-em-2018-e-recebeu-ataques-91066\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">campanha \u201c#Elen\u00e3o\u201d<\/a>, protesto que se opunha \u00e0 candidatura de Bolsonaro \u00e0 presid\u00eancia em 2018, ela declarou, em um v\u00eddeo publicado nas redes sociais, que sua postura n\u00e3o era quest\u00e3o de op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, mas sim de bom senso. \u201cA gente n\u00e3o precisa desse retrocesso, eu sou uma mulher que batalhou bastante dentro do sertanejo para quebrar todo o preconceito de um mercado completamente machista.\u201d Pouco depois, a artista apagou a postagem ap\u00f3s ser alvo de xingamentos e amea\u00e7as \u00e0 sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Mesmo quem n\u00e3o \u00e9 do g\u00eanero sofre repres\u00e1lias. Tamb\u00e9m dependente das estruturas geridas pelo agroneg\u00f3cio para fazer seus shows, Jo\u00e3o Gomes, cantor de piseiro, estilo derivado do forr\u00f3, teve sua <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/ma\/maranhao\/eleicoes\/2022\/noticia\/2022\/09\/14\/show-de-joao-gomes-ganha-novo-local-no-maranhao-apos-recusa-de-sindicato-por-declaracao-contra-bolsonaro-no-rock-in-rio.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">participa\u00e7\u00e3o cancelada em um festival em Imperatriz <\/a>(MA) ap\u00f3s puxar coro contra o ent\u00e3o presidente Bolsonaro em sua apresenta\u00e7\u00e3o no Rock in Rio, em setembro de 2022.\u00a0<\/p>\n<p>Dirigentes do Sindicato Rural de Imperatriz, que administra o local do evento, publicaram um v\u00eddeo em que justificavam o cancelamento. \u201cN\u00f3s negamos [o show] em virtude do comportamento dele de tratar mal a figura do nosso presidente Bolsonaro\u201d. A apresenta\u00e7\u00e3o foi realizada em outro local.<\/p>\n<p>Para o historiador Gustavo Alonso, autor do livro \u201cCowboys do asfalto\u201d, a liga\u00e7\u00e3o entre sertanejo, agroneg\u00f3cio e pol\u00edtica, no entanto, n\u00e3o \u00e9 uma simples manipula\u00e7\u00e3o de um pelo outro, mas sim um reflexo profundo das din\u00e2micas sociais, econ\u00f4micas, culturais e pol\u00edticas do Brasil.\u00a0<\/p>\n<p>Ele afirma que a m\u00fasica sertaneja, em sua natureza \u201cantropof\u00e1gica\u201d, absorve e expressa essas transforma\u00e7\u00f5es e contradi\u00e7\u00f5es sociais. \u201cUma leitura puramente economicista que liga diretamente o agroneg\u00f3cio ao surgimento ou sucesso do sertanejo seria simplista.\u201d<\/p>\n<div data-elementor-type=\"container\" data-elementor-id=\"75228\" data-elementor-post-type=\"elementor_library\">\n<div data-id=\"5e8db1e6\" data-element_type=\"container\">\n<div>\n<div data-id=\"36eb6c91\" data-element_type=\"container\">\n<div>\n<div data-id=\"6f52f515\" data-element_type=\"container\">\n<div data-id=\"65d9f401\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"divider.default\">\n<div>\n<div>\n\t\t\t<span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t<\/span>\n\t\t<\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div data-id=\"134a1245\" data-element_type=\"container\">\n<div>\n<div data-id=\"10fe55fe\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n<div>\n<p>Leia tamb\u00e9m<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div data-id=\"3c9495ae\" data-element_type=\"widget\" data-settings='{\"template_id\":\"75221\",\"columns\":1,\"row_gap\":{\"unit\":\"px\",\"size\":10,\"sizes\":[]},\"_skin\":\"post\",\"columns_tablet\":\"2\",\"columns_mobile\":\"1\",\"edit_handle_selector\":\"[data-elementor-type=\"loop-item\"]\",\"row_gap_tablet\":{\"unit\":\"px\",\"size\":\"\",\"sizes\":[]},\"row_gap_mobile\":{\"unit\":\"px\",\"size\":\"\",\"sizes\":[]}}' data-widget_type=\"loop-grid.post\">\n<div>\n<div>\n\t\t<\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/2025\/06\/agronejo-braco-cultural-agro-direita\/\">Agronejo: como o sertanejo virou bra\u00e7o cultural do agro e foi usado pela direita<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/\">Rep\u00f3rter Brasil<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/como-o-brasil-construiu-a-rede-que-fiscaliza-o-dinheiro-publico\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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