{"id":31289,"date":"2025-06-03T08:41:44","date_gmt":"2025-06-03T11:41:44","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/destruicao-e-doenca-o-que-o-agro-planta-no-cerrado\/"},"modified":"2025-06-03T08:41:44","modified_gmt":"2025-06-03T11:41:44","slug":"destruicao-e-doenca-o-que-o-agro-planta-no-cerrado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/destruicao-e-doenca-o-que-o-agro-planta-no-cerrado\/","title":{"rendered":"Destrui\u00e7\u00e3o e doen\u00e7a: o que o agro planta no Cerrado"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"289\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/header-microbolsa-agronegocio-cerrado-v1-768x289-1-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/header-microbolsa-agronegocio-cerrado-v1-768x289-1-1.jpg 768w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/header-microbolsa-agronegocio-cerrado-v1-768x289-1-1-300x113.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\"><figcaption><em>O modelo de produ\u00e7\u00e3o do agroneg\u00f3cio tem amea\u00e7ado o Cerrado, segundo maior bioma do Brasil que perdeu mais de 50% da sua cobertura vegetal original, de 1970 a 2018. Foto: Joel Silva<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Por Anelize Moreira*<br \/>De especial para o\u00a0<a href=\"https:\/\/ojoioeotrigo.com.br\/\">Joio<\/a><\/em><\/p>\n<p>A \u00e1rea de lavoura no Brasil triplicou entre 1985 e 2020: de 19 milh\u00f5es para 55 milh\u00f5es de hectares. Todas as proje\u00e7\u00f5es de mercado indicam que o pa\u00eds se consolidar\u00e1 como o maior fornecedor de soja e milho para o mundo. Um relat\u00f3rio da consultoria Agroconsult j\u00e1 prev\u00ea o esgotamento da oferta de novas \u00e1reas para gr\u00e3os em algumas regi\u00f5es do pa\u00eds.\u00a0<\/p>\n<p>Todos os caminhos apontam para o Cerrado. Hoje, segundo a plataforma MapBiomas, 44,2% da \u00e1rea desse bioma brasileiro est\u00e1 coberta pela agropecu\u00e1ria. As proje\u00e7\u00f5es da Agroconsult enxergam longe. E, mesmo sem tecer uma linha sobre a devasta\u00e7\u00e3o do Cerrado, permitem enxergar o futuro: estima-se que at\u00e9 2058 o Mato Grosso triplique a produ\u00e7\u00e3o, enquanto os vizinhos Mato Grosso do Sul, Tocantins e Goi\u00e1s mais do que dobrem.\u00a0<\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 o segundo pa\u00eds com maior \u00e1rea de floresta do mundo e o primeiro em florestas tropicais. O modelo de produ\u00e7\u00e3o do agroneg\u00f3cio tem amea\u00e7ado o Cerrado, segundo maior bioma do Brasil, que\u00a0<strong>perdeu mais de 50%<\/strong>\u00a0da sua cobertura vegetal original, de 1970 a 2018, de acordo com relat\u00f3rio da organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental WWF.<\/p>\n<p>Mais preocupado com o futuro, um relat\u00f3rio do MapBiomas aponta que 99% da devasta\u00e7\u00e3o ocorrida em 2020 no Cerrado foi ilegal. O desmatamento est\u00e1 concentrado nas m\u00e3os de poucos ruralistas. De acordo com o Cadastro Ambiental Rural, o desmatamento foi causado por apenas 1% das propriedades rurais.\u00a0<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"1015\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/graficos-microbolsa-anelize-02-1024x1015-1.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/graficos-microbolsa-anelize-02-1024x1015-1.png 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/graficos-microbolsa-anelize-02-1024x1015-1-300x297.png 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/graficos-microbolsa-anelize-02-1024x1015-1-150x150.png 150w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/graficos-microbolsa-anelize-02-1024x1015-1-768x761.png 768w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>O Cerrado possui 198 milh\u00f5es de hectares distribu\u00eddos por 12 estados e Distrito Federal.<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Guilherme Eidt, da \u00e1rea de pol\u00edticas p\u00fablicas no Instituto Sociedade, Popula\u00e7\u00e3o e Natureza, ressalta que o desmatamento do Cerrado pelo agroneg\u00f3cio pode ter impactos na capacidade h\u00eddrica de abastecimento, na gera\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica e tamb\u00e9m na produ\u00e7\u00e3o de alimentos.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cDas 12 principais bacias hidrogr\u00e1ficas no Brasil, oito delas t\u00eam suas nascentes no Cerrado. Fica clara nesta correla\u00e7\u00e3o de desmatamento a redu\u00e7\u00e3o de vaz\u00e3o dos fluxos d\u2019\u00e1gua. Temos evid\u00eancias do impacto para a crise h\u00eddrica, mas tamb\u00e9m para a seguran\u00e7a alimentar e nutricional, \u00e0 medida que voc\u00ea tem uma menor oferta de \u00e1gua para a produ\u00e7\u00e3o de alimentos, porque muitas vezes a capacidade de irriga\u00e7\u00e3o em algumas regi\u00f5es est\u00e1 muito direcionada para a produ\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>commodities<\/em>\u201d, analisa Eidt.<\/p>\n<p>Um estudo do IBGE mostra que\u00a0<strong>97,4% da \u00e1gua consumida no pa\u00eds vai para as atividades ligadas ao agroneg\u00f3cio<\/strong>. J\u00e1 o consumo domiciliar de \u00e1gua\u00a0<em>per capita<\/em>\u00a0pelas fam\u00edlias brasileiras foi de 116 litros por dia, na m\u00e9dia nacional de 2017. O Centro-Oeste, onde se concentra a maior produ\u00e7\u00e3o de gr\u00e3os, registrou o maior consumo de \u00e1gua, com\u00a0<strong>1.511,9 litros para cada R$ 1 gerado para economia da regi\u00e3o<\/strong>. Quer dizer, enquanto fechamos a torneira para economizar \u00e1gua, o setor agropecu\u00e1rio esbanja o uso do recurso natural.<\/p>\n<p>O Brasil tem investido na produ\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>commodities<\/em>\u00a0agr\u00edcolas em detrimento de uma agricultura diversificada e que atende pequenos produtores. Por\u00e9m, \u00e9 poss\u00edvel ter um territ\u00f3rio conservado, com produtividade, mas com impacto socioambiental menor.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cHoje \u00e9 poss\u00edvel produzir no Brasil e garantir as mesmas rentabilidades em termos do que o pr\u00f3prio agroneg\u00f3cio coloca sem precisar avan\u00e7ar em \u00e1reas de floresta. Com o uso inteligente dos sistemas agr\u00edcolas, com uma perspectiva agroecol\u00f3gica, \u00e9 poss\u00edvel garantir que esses eventos clim\u00e1ticos extremos, por exemplo, tenham uma regula\u00e7\u00e3o, um impacto menor, aumentem a capacidade adaptativa das popula\u00e7\u00f5es nos territ\u00f3rios e a mitiga\u00e7\u00e3o de muitas dessas mudan\u00e7as no clima\u201d, conclui Eidt.\u00a0<\/p>\n<p>De 2000 at\u00e9 2020, 76% dessa expans\u00e3o da agricultura se deu sobre vegeta\u00e7\u00e3o nativa do Cerrado na regi\u00e3o do Matopiba \u2013 um pol\u00edgono que abrange Maranh\u00e3o, Tocantins, Piau\u00ed e Bahia. Nos demais estados, esse percentual da expans\u00e3o da agricultura \u00e9 inferior a 10%.\u00a0<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"575\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/agropecuaria-cerrado-joel-silva-1536x863-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/agropecuaria-cerrado-joel-silva-1536x863-1-1024x575.jpg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/agropecuaria-cerrado-joel-silva-1536x863-1-300x169.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/agropecuaria-cerrado-joel-silva-1536x863-1-768x432.jpg 768w, https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/agropecuaria-cerrado-joel-silva-1536x863-1.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>Atualmente, a agropecu\u00e1ria ocupa 44,2% do Cerrado e, n\u00e3o por acaso, esse avan\u00e7o est\u00e1 relacionado \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o ambiental. Foto: Joel Silva<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<h2>Adoecimento da terra<\/h2>\n<p>Os dados da\u00a0Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Alimenta\u00e7\u00e3o e a Agricultura\u00a0(FAO)\u00a0ajudam a entender um outro aspecto negativo relacionado ao agroneg\u00f3cio: desde a abertura de fronteiras, nos anos 1990, cresce de maneira constante o uso de venenos agr\u00edcolas. Nos \u00faltimos quatro anos, foram liberados mais de dois mil agrot\u00f3xicos no Brasil \u2013 1.517 s\u00f3 nos tr\u00eas primeiros anos de governo Bolsonaro.\u00a0<\/p>\n<p>A Ag\u00eancia Internacional para Pesquisa sobre C\u00e2ncer informou, ap\u00f3s in\u00fameras pesquisas, que o glifosato, por exemplo, um agrot\u00f3xico amplamente utilizado no Brasil, mas proibido em pelo menos 21 pa\u00edses, foi comprovado como carcinog\u00eanico para animais mam\u00edferos e provavelmente para humanos. No Brasil, a\u00a0Anvisa\u00a0decidiu, no ano passado, manter a libera\u00e7\u00e3o da subst\u00e2ncia, bastante usada nas lavouras de cana-de-a\u00e7\u00facar, de soja, trigo e milho.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da contamina\u00e7\u00e3o do solo e da \u00e1gua, os agrot\u00f3xicos colocam em risco a biodiversidade e a produ\u00e7\u00e3o de alimentos. Segundo o 1\u00ba Relat\u00f3rio<a href=\"https:\/\/www.bpbes.net.br\/produto\/polinizacao-producao-de-alimentos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">\u00a0Tem\u00e1tico de Poliniza\u00e7\u00e3o, Polinizadores e Produ\u00e7\u00e3o de Alimentos no Brasil<\/a>, das\u00a0191 plantas cultivadas ou silvestres utilizadas para a produ\u00e7\u00e3o de alimentos no Brasil, 114 (60%) dependem da visita de polinizadores, como as abelhas. Para se ter ideia, em apenas tr\u00eas meses de 2019, meio bilh\u00e3o de abelhas foram encontradas mortas no Brasil pelo uso de veneno. \u00c9 o que aponta o levantamento da Ag\u00eancia P\u00fablica e da Rep\u00f3rter Brasil.<\/p>\n<p>Mas a contamina\u00e7\u00e3o n\u00e3o acaba no campo. Al\u00e9m de contaminar frutas, legumes e hortali\u00e7as, res\u00edduos de agrot\u00f3xicos chegam nos alimentos ultraprocessados.\u00a0<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/idec.org.br\/noticia\/estudo-detecta-agrotoxicos-em-27-produtos-ultraprocessados\" target=\"_blank\">Um estudo do\u00a0Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec)<\/a>\u00a0analisou 27 produtos consumidos no Brasil e, em 13 deles, h\u00e1 presen\u00e7a de glifosato, entre outros agrot\u00f3xicos, em bolachas e salgadinhos, por exemplo.<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"1024\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/carrossel-idec-2.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/carrossel-idec-2-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/carrossel-idec-2-300x300.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/carrossel-idec-2-150x150.jpg 150w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/carrossel-idec-2-768x768.jpg 768w, https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/carrossel-idec-2.jpg 1080w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><\/figure>\n<p><em>Estamos destruindo o meio ambiente e a biodiversidade, mas estamos plantando o que nas lavouras brasileiras?<\/em><\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/commodities-joel-silva.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/commodities-joel-silva-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/commodities-joel-silva-300x169.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/commodities-joel-silva-768x432.jpg 768w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/commodities-joel-silva-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/commodities-joel-silva.jpg 1800w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>Ao privilegiar a produ\u00e7\u00e3o de\u00a0commodities\u00a0que que servem como mat\u00e9ria-prima para os ultraprocessados ou para ra\u00e7\u00e3o animal, o Brasil faz uma op\u00e7\u00e3o por um modelo que adoece a popula\u00e7\u00e3o. Foto: Joel Silva<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<h2>Ambientes saud\u00e1veis, corpos saud\u00e1veis<\/h2>\n<p>Um estudo da Faculdade de Sa\u00fade P\u00fablica (FSP) aponta que, quanto maior o consumo de dietas com menor impacto ambiental, a probabilidade de ter sobrepeso e obesidade \u00e9 24% menor. O levantamento faz parte do doutorado do pesquisador Leandro Cacau, e um\u00a0<a href=\"https:\/\/www.mdpi.com\/2072-6643\/13\/11\/3691\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">artigo<\/a>\u00a0a esse respeito foi publicado em outubro na revista cient\u00edfica\u00a0<em>Nutrients.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>\u201cOs indiv\u00edduos que seguem mais esse modelo de dieta mais saud\u00e1vel t\u00eam menores valores de press\u00e3o arterial, perfil lip\u00eddico, colesterol total, LDL colesterol, que seria o colesterol vil\u00e3o. Eles tamb\u00e9m possuem maior resist\u00eancia \u00e0 insulina do que aqueles que n\u00e3o seguem esse modelo de dieta ou que t\u00eam baixa ades\u00e3o\u201d, explica Cacau.<\/p>\n<p>O estudo mostra que uma alimenta\u00e7\u00e3o mais baseada em frutas, verduras, legumes, cereais integrais e oleaginosas \u2013 e menos em carnes vermelhas, latic\u00ednios, tub\u00e9rculos, a\u00e7\u00facares de adi\u00e7\u00e3o e gorduras animais \u2013 \u00e9 saud\u00e1vel ao planeta e para o corpo.<\/p>\n<p>Para Cacau, \u00e9 importante que se promova os sistemas alimentares sustent\u00e1veis priorizando o consumo de mais vegetais e menos carnes. \u201cTanto na produ\u00e7\u00e3o, na pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o dos animais, na produ\u00e7\u00e3o de ra\u00e7\u00e3o de alimentos, na produ\u00e7\u00e3o da soja, de milho. Tudo isso tem um impacto ambiental muito consider\u00e1vel, muito importante. Uma dieta mais sustent\u00e1vel seria de fato uma dieta com mais vegetais.\u201d<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a na dieta da popula\u00e7\u00e3o brasileira nos \u00faltimos 30 anos fez com que os impactos ambientais da alimenta\u00e7\u00e3o no pa\u00eds tamb\u00e9m aumentassem. Entre os anos de 1987 a 2018, houve um aumento de 21% na emiss\u00e3o de gases de efeito estufa, 17% na pegada ecol\u00f3gica e 22% na pegada h\u00eddrica. Os dados fazem parte do estudo de Jacqueline Tereza da Silva e outros autores, publicado em novembro de 2021 na revista\u00a0<a href=\"https:\/\/www.thelancet.com\/journals\/lanplh\/article\/PIIS2542-5196(21)00254-0\/fulltext\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>The Lancet Planetary Health<\/em><\/a>.<\/p>\n<p>O estudo tamb\u00e9m afirma que o aumento da emiss\u00e3o de gases poluentes relacionado \u00e0 compra de alimentos indica que o Brasil est\u00e1 indo na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria ao que foi estabelecido no Acordo de Paris, que fixa metas por pa\u00eds para a redu\u00e7\u00e3o nas emiss\u00f5es.\u00a0<\/p>\n<p>O \u00fanico caminho para brecar esse crescimento das doen\u00e7as e dos ultraprocessados \u00e9 via pol\u00edticas p\u00fablicas de incentivo \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de alimentos saud\u00e1veis. Mas ser\u00e1 que \u00e9 nessa dire\u00e7\u00e3o que estamos indo?<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"687\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/matopiba-colheita-soja-fellipe-abreu.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/matopiba-colheita-soja-fellipe-abreu-1024x687.jpg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/matopiba-colheita-soja-fellipe-abreu-300x201.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/matopiba-colheita-soja-fellipe-abreu-768x516.jpg 768w, https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/matopiba-colheita-soja-fellipe-abreu.jpg 1080w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>Colheita de soja na regi\u00e3o da Bahia do Matopiba. Foto: Fellipe Abreu<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<h2>O Brasil virou um fazend\u00e3o<\/h2>\n<p>O agroneg\u00f3cio tem o discurso de que, sem o seu modelo agr\u00edcola, o mundo pode passar fome. As proje\u00e7\u00f5es a longo prazo sobre o agroneg\u00f3cio, feitas pelo Minist\u00e9rio da Agricultura, Pecu\u00e1ria e Abastecimento, apontam para a redu\u00e7\u00e3o das \u00e1reas de arroz e feij\u00e3o e o aumento da \u00e1rea de planta\u00e7\u00f5es de\u00a0<em>commodities<\/em>\u00a0de soja e milho. A expectativa \u00e9 de que a \u00e1rea de soja, por exemplo, dobre nos pr\u00f3ximos anos, passando dos 23,5 milh\u00f5es de hectares, registrados em 2009\/2010, para 48,9 milh\u00f5es em 2030\/31.\u00a0<\/p>\n<p>De acordo com os dados do Minist\u00e9rio da Agricultura, Pecu\u00e1ria e Abastecimento, as lavouras que devem<strong>\u00a0perder \u00e1rea<\/strong>\u00a0entre os anos 2020-2030 s\u00e3o:<\/p>\n<p>ARROZ- um milh\u00e3o de hectares \/ FEIJ\u00c3O<a>\u00a0<\/a>\u2013 um milh\u00e3o de hectares \/MANDIOCA \u2013 222 mil hectares<\/p>\n<p>E as que devem\u00a0<strong>expandir \u00e1rea<\/strong>\u00a0e produ\u00e7\u00e3o campo s\u00e3o as\u00a0<em>commodities<\/em>\u00a0como:<\/p>\n<p>CANA+um milh\u00e3o de hectares\/ MILHO+7,3 milh\u00f5es de hectares\/ SOJA+10,3 milh\u00f5es de hectares\/ TRIGO+375 mil hectares.<\/p>\n<p>Ou seja, nos pr\u00f3ximos anos, as principais \u00e1reas agr\u00edcolas n\u00e3o est\u00e3o destinadas a plantar o que comp\u00f5e o prato do brasileiro e, consequentemente, levar a ter sa\u00fade. Se de um lado sobra incentivo do Brasil \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>commodities\u00a0<\/em>principalmente para exporta\u00e7\u00e3o,\u00a0de outro os agricultores familiares que s\u00e3o respons\u00e1veis pela produ\u00e7\u00e3o de alimentos t\u00eam cada vez menos espa\u00e7o para plantar.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Para demonstrar os desafios para acessar a terra por agricultores familiares, fomos atr\u00e1s de entender como as pol\u00edticas agr\u00e1rias avan\u00e7aram nos \u00faltimos governos. De acordo com o Instituto Nacional de Coloniza\u00e7\u00e3o e Reforma Agr\u00e1ria (Incra), existem 9.433 assentamentos criados ou reconhecidos pelo \u00f3rg\u00e3o. O \u00f3rg\u00e3o informou ao\u00a0<strong>Joio<\/strong>\u00a0que 5.092 fam\u00edlias foram homologadas como benefici\u00e1rias da Reforma Agr\u00e1ria no balan\u00e7o de 2021 \u2013 por\u00e9m, o\u00a0MST\u00a0afirma que n\u00e3o houve nenhuma desapropria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A Reforma Agr\u00e1ria ganhou for\u00e7a no governo Lula. O pico ocorreu em 2006, quando 136 mil fam\u00edlias foram assentadas em terras improdutivas. O ritmo diminuiu nos \u00faltimos governos: no \u00faltimo ano do governo Dilma, em 2015, foram assentadas 26.335 mil fam\u00edlias; no governo Temer, em 2016, o n\u00famero despencou para 1.686 fam\u00edlias assentadas.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"951\" height=\"581\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/fam-assen2021.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/fam-assen2021.png 951w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/fam-assen.2021-300x183.png 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/fam-assen.2021-768x469.png 768w\" sizes=\"(max-width: 951px) 100vw, 951px\"><\/figure>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"933\" height=\"591\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/fam-assent-ano.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/fam-assent-ano.png 933w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/fam.-assent.-ano-300x190.png 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/fam.-assent.-ano-768x486.png 768w\" sizes=\"(max-width: 933px) 100vw, 933px\"><\/figure>\n<h2>Titula Brasil: Dividir para enfraquecer<\/h2>\n<p>No primeiro semestre de 2021, o governo federal instituiu o Titula Brasil, um programa que \u201cabre a porteira\u201d, transferindo as atribui\u00e7\u00f5es de titula\u00e7\u00e3o da terra aos munic\u00edpios,\u00a0<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/ojoioeotrigo.com.br\/2021\/11\/agronegocio-boom-inedito-mercado-financeiro\/\" target=\"_blank\">facilitando a grilagem e aumentando a press\u00e3o na compra de terras pelo agroneg\u00f3cio<\/a>. At\u00e9 o governo Temer, era ilegal vender terras da Reforma Agr\u00e1ria \u2013 com esse programa, as fam\u00edlias assentadas passam a receber a posse da terra.\u00a0<\/p>\n<p>A Constitui\u00e7\u00e3o garante \u00e0s fam\u00edlias assentadas na Reforma Agr\u00e1ria o direito \u00e0 titula\u00e7\u00e3o definitiva por duas vias: o t\u00edtulo de dom\u00ednio ou a Concess\u00e3o do Direito Real de Uso (CDRU). O Titula Brasil oferece apenas o t\u00edtulo de dom\u00ednio, que d\u00e1 o direito ao pequeno agricultor de se tornar um propriet\u00e1rio da terra, mas tamb\u00e9m pode fazer com que ele adquira gastos que n\u00e3o tinha antes, e para se livrar da d\u00edvida, acaba tendo que negociar essa terra com o agroneg\u00f3cio. Os movimentos do campo defendem que a terra continue sendo p\u00fablica.\u00a0<\/p>\n<p>De acordo com o Incra, em 2021 foram emitidos 87.700 t\u00edtulos em \u00e1reas da Reforma Agr\u00e1ria e \u00e1reas de pequenos agricultores. Apesar dos n\u00fameros, no mesmo ano se acirrou a disputa pelo fim da demarca\u00e7\u00e3o de terras ind\u00edgenas e houve conflitos fundi\u00e1rios.\u00a0<\/p>\n<p>Kelli Mafort, do assentamento M\u00e1rio Lago e da coordena\u00e7\u00e3o nacional do\u00a0MST, ressalta que esse programa mexe com o sonho das fam\u00edlias de ter terra. \u201cEles pensam: \u2018Nossa, eu vou ter de papel passado a minha terra. Eu posso vender essa terra!\u2019 At\u00e9 o \u2018gado\u2019 do Bolsonaro fica perdido. \u2018Mas Bolsonaro n\u00e3o \u00e9 contra a Reforma Agr\u00e1ria? Por que est\u00e1 indo l\u00e1 oferecer esses t\u00edtulos?\u2019 O que ele quer \u00e9 trabalhar essa disputa na base dos movimentos sociais, que \u00e9 muito parecido com o que ele est\u00e1 fazendo com o movimento ind\u00edgena. Ent\u00e3o, [para Bolsonaro] \u00e9 tipo assim: \u2018Os meus ind\u00edgenas s\u00e3o a favor da minera\u00e7\u00e3o\u2019.\u201d<\/p>\n<p>De acordo com o Incra, na gest\u00e3o Bolsonaro, de 2019 a 2021, foram expedidos 277.915 t\u00edtulos para fam\u00edlias em assentamentos e glebas p\u00fablicas federais. J\u00e1 o\u00a0MST\u00a0diz que o \u00f3rg\u00e3o ficou sem or\u00e7amento para as pol\u00edticas de Reforma Agr\u00e1ria desde 2019 e, por isso, n\u00e3o houve novos assentamentos.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cHoje, o assentado consegue preservar sua terra mesmo que tenha eucalipto e cana do lado, porque a comunidade existe, porque tem escola, tem uma parte social. Se isso for descaracterizado, um vende, outro vende, e tal, o que vai acontecer com aquele que fala \u2018N\u00e3o, n\u00e3o quero vender\u2019?\u201d, questiona a coordenadora do\u00a0MST. \u201cN\u00f3s sabemos a hist\u00f3ria no nosso pa\u00eds: quando os propriet\u00e1rios querem comprar uma terra, \u00e9 na viol\u00eancia.\u201d\u00a0<\/p>\n<p>Na pr\u00f3xima e \u00faltima reportagem da s\u00e9rie, iremos aprofundar as quest\u00f5es sobre a rela\u00e7\u00e3o entre o consumo de ultraprocessados e o risco do desenvolvimento de doen\u00e7as cr\u00f4nicas.\u00a0<\/p>\n<p><em>*Assistente de produ\u00e7\u00e3o: Alice Azara<\/em><\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/2025\/06\/03\/destruicao-e-doenca-o-que-o-agro-planta-no-cerrado-2\/\">Destrui\u00e7\u00e3o e doen\u00e7a: o que o agro planta no Cerrado<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/\">MST<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/segundo-dia-do-julgamento-do-bolsonaro-moraes-dara-voto\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/posse_tst_fcpzzb_abr_20220519_0045_0-e1742872023874-5-150x150.webp') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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Foto: Joel Silva Por Anelize Moreira*De especial para o\u00a0Joio A \u00e1rea de lavoura no Brasil triplicou entre 1985 e 2020: de 19 milh\u00f5es para 55 milh\u00f5es [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[1835,5345,18,191,209],"tags":[],"class_list":["post-31289","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cerrado","category-combate-ao-agronegocio","category-meio-ambiente","category-noticias","category-reportagens-especiais"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31289","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=31289"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31289\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=31289"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=31289"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=31289"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}