{"id":31470,"date":"2025-06-03T16:11:24","date_gmt":"2025-06-03T19:11:24","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/literatura-dos-arrabaldes-mulheres-de-ururai\/"},"modified":"2025-06-03T16:11:24","modified_gmt":"2025-06-03T19:11:24","slug":"literatura-dos-arrabaldes-mulheres-de-ururai","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/literatura-dos-arrabaldes-mulheres-de-ururai\/","title":{"rendered":"Literatura dos Arrabaldes: Mulheres de Urura\u00ed"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"580\" height=\"326\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/CAPA-HOME-12-580x326-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/CAPA-HOME-12-580x326-1.jpg 580w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/CAPA-HOME-12-580x326-1-300x169.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px\"><figcaption>Arte publicada pela <a href=\"https:\/\/azmina.com.br\/\">AzMina<\/a><\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"606\" height=\"797\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/imag-10.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/imag-10.png 606w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/image-228x300.png 228w\" sizes=\"auto, (max-width: 606px) 100vw, 606px\"><\/figure>\n<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Andrio Candido acaba de lan\u00e7ar um novo livro. O rebento se chama <em>A Caminhada<\/em>, seu segundo livro solo e o primeiro de prosa; o primog\u00eanito, <em>Dente de Le\u00e3o<\/em>, de 2017, \u00e9 de poesia. Assim como o anterior, o livro foi publicado de forma independente. Com mais de 20 anos de atua\u00e7\u00e3o no meio cultural como poeta, ator, produtor, educador e roteirista, Andrio nos leva a crer que o t\u00edtulo do livro tenha rela\u00e7\u00e3o com sua trajet\u00f3ria de vida. E tem mesmo, mas, suas narrativas perif\u00e9ricas tem um arcabou\u00e7o ficcional de tamanha elabora\u00e7\u00e3o que faz de <em>A<\/em> <em>Caminhada<\/em> muito mais do que um testemunho de vida.<\/p>\n<p>Tal op\u00e7\u00e3o o difere do cantor e poeta Edvaldo Santana, que no seu livro <em>Sou da quebrada mas sou das antigas- S\u00e3o Miguel de Urura\u00ed<\/em> (Lavra Editora, 2024) faz uma autobiografia sua e de seu territ\u00f3rio que \u00e9 o mesmo de Andrio C\u00e2ndido. Outro recurso narrativo usado por Andrio para ficcionar seu mundo foi a constru\u00e7\u00e3o de personagens femininos. Nos cinco textos do livro, quatro tem protagonistas mulheres e no \u00fanico onde isso n\u00e3o acontece, a personagem mulher \u00e9 o piv\u00f4 de uma desaven\u00e7a que define a trama.<\/p>\n<p>As hist\u00f3rias de <em>A Caminhada<\/em> se desenrolam em espa\u00e7os familiares ao autor. Al\u00e9m do contexto geral da periferia da Zona Leste de S\u00e3o Paulo, especialmente o bairro de S\u00e3o Miguel, ele explora a favela e seus becos, a escola de samba e a escola p\u00fablica de ensino formal, o terreiro de religi\u00e3o de matriz africana e o servi\u00e7o de medida socioeducativa. A exalta\u00e7\u00e3o da ancestralidade ind\u00edgena do territ\u00f3rio Urura\u00ed onde tudo se passa, completa o sentido de pertencimento que o livro exala.<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/apoia.se\/outraspalavras\" aria-label=\"MAT\u00c9RIA-2\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/MATERIA-2.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/MATERIA-2.png 681w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-2-300x75.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 681px) 100vw, 681px\" width=\"681\" height=\"171\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<h3><strong>Hist\u00f3rias do pa\u00eds periferia<\/strong><\/h3>\n<p><em>A Caminhada<\/em> abre com o conto <em>If\u00e9<\/em>, express\u00e3o da l\u00edngua Iorub\u00e1 que designa um reduto sagrado, segundo minha leiga compreens\u00e3o. E faz sentido. A narrativa conta a hist\u00f3ria de dois irm\u00e3os (Jorge e Jer\u00f4nimo) de fam\u00edlias distintas e que foram adotados pela m\u00e3e de santo do terreiro, a M\u00e3e Mocinha. De temperamentos bem diferentes, os dois t\u00eam profunda lealdade um com o outro. At\u00e9 que uma prima (B\u00e1rbara) chega para morar com eles quando todos estavam na flor da juventude. N\u00e3o demorou para que os dois ficassem encantados pela guria. Por\u00e9m, enquanto um ficava em devaneios de amor, o outro foi \u00e0s vias de fato. O autor anuncia uma trag\u00e9dia que n\u00e3o se consuma literariamente. Fica para o leitor criar o desfecho.<\/p>\n<p><em>O batismo na Favela<\/em> \u00e9 um conto mais longo onde o autor desenvolve a trama em ritmo acelerado e tenso. Roma, uma bela jovem de quebrada, negra, filha \u00fanica de Patr\u00edcia uma m\u00e3e solo. A mina \u00e9 tipo a vedete da favela, como diria Carolina Maria de Jesus, por\u00e9m, mais discreta do que a personagem criada pela a autora de <em>Quarto de despejo <\/em>num samba que comp\u00f4s na d\u00e9cada de 1960. Apesar de todos os conselhos da m\u00e3e, Roma se envolve com um rapaz de car\u00e1ter duvidoso rec\u00e9m-chegado na Vila. O cara \u00e9 um promissor vagabundo que engana a m\u00e3e e a filha sobre suas inten\u00e7\u00f5es com a garota. Usu\u00e1rio de drogas, ele consegue despistar seu v\u00edcio perante Roma.<\/p>\n<p>O casal seguia levando uma vida normal de namorados quando retorna \u00e0 favela o chefe do tr\u00e1fico que tamb\u00e9m \u00e9 presidente da escola de samba da qual Roma se tornou a rainha da bateria. N\u00e3o demorou para o presidente se encantar pela passista. A trama se desenrola com muita tens\u00e3o no ritmo do carnaval que est\u00e1 para chegar. Se no conto anterior a trag\u00e9dia n\u00e3o \u00e9 relatada, neste, o desfecho \u00e9 narrado com a descri\u00e7\u00e3o pormenorizada da crueldade que um ser humano \u00e9 capaz de fazer com o outro e consigo mesmo.<\/p>\n<p>O terceiro conto tem um t\u00edtulo que que \u00e9 uma par\u00e1frase: <em>Alice no pa\u00eds periferia<\/em>. A hist\u00f3ria se passa numa escola p\u00fablica e tem um jogo de flashbacks a partir de um ponto de observa\u00e7\u00e3o que \u00e9 o teto da escola onde fica uma caixa d\u2019\u00e1gua sobre a qual Alice se confronta com seus dem\u00f4nios. Por uma circunst\u00e2ncia inusitada ela se envolve com Lucas, o garoto mais bonito e desejado da Escola. H\u00e1 uma trama rocambolesca por meio da qual os dois fogem da escola e no calor da experi\u00eancia ins\u00f3lita acabam por ter uma rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Certo dia, Lucas convida Alice para uma festa regada a bebidas e drogas, numa vibe que est\u00e1 mais para balada de playboy do que para um rol\u00ea de quebrada. N\u00e3o deu outra; al\u00e9m de embriagada e drogada, a jovem foi violentada sexualmente. Alice segue introspectiva agora n\u00e3o mais no alto da laje da escola, mas, no leito do hospital. Por\u00e9m, a hist\u00f3ria n\u00e3o acaba por a\u00ed. O desfecho \u00e9 bem interessante.<\/p>\n<p><em>M\u00f3 viagem<\/em> \u00e9 o conto mais longo do livro e mais consistente tamb\u00e9m. A hist\u00f3ria \u00e9 relatada por uma adolescente que cumpre medida socioeducativa de meio aberto. A protagonista, Cleideanne que prefere ser chamada apenas de Anne, conta para a psic\u00f3loga do SMSE- Servi\u00e7o de Medida Socioeducativa a situa\u00e7\u00e3o que a enquadrou. A conversa das duas \u00e9 muito instigante, algo que s\u00f3 quem vive esse universo dos adolescentes em conflito com lei (ou a lei em conflito com os adolescentes) poderia elaborar. A Dra. Carla consegue tirar da jovem mais do que um relato fazendo com que Anne reconhe\u00e7a a raz\u00e3o de seu envolvimento, aparentemente involunt\u00e1rio, com o crime que resultou na sua apreens\u00e3o. O conto fala de cumplicidade e confian\u00e7a numa rela\u00e7\u00e3o de sororidade intergeracional, mostrando que \u00e9 poss\u00edvel ter um resultado positivo no servi\u00e7o de medida socioeducativa.<\/p>\n<p>O livro termina com uma dramaturgia: <em>Ururay livre<\/div>\n<\/div>\n<p>Na atualidade a protagonista \u00e9 Lua, crian\u00e7a negra que est\u00e1 no nono ano do ensino fundamental e se v\u00ea diante de um texto sobre uma lenda ind\u00edgena que ela logo identifica como racista. Confrontada pela professora, ela foi buscar a verdadeira hist\u00f3ria dos ind\u00edgenas. Com a ajuda do pai ela encontra os poetas do Sarau Marginaliaria (coletivo do qual o autor faz parte) que contam a hist\u00f3ria de Urura\u00ed territ\u00f3rio no qual os Guaianazes e outros povos origin\u00e1rios viviam. Entre uma cena e outra, personagens hist\u00f3ricos e atuais comp\u00f5em uma trama envolvente e educativa na qual um negro escravizado Akuna e sua irm\u00e3 Matamba cruzam a trama enriquecendo ainda mais o contexto hist\u00f3rico ao qual o autor se baseou para compor a pe\u00e7a.<\/p>\n<h3><strong>Mulheres que resistem e reexistem<\/strong><\/h3>\n<p>Como foi dito, as mulheres s\u00e3o as protagonistas no livro de Andrio C\u00e2ndido. Mesmo quando n\u00e3o s\u00e3o as personagens que fazem a hist\u00f3ria andar, elas t\u00eam um papel decisivo. Mas s\u00e3o mulheres que sofrem. B\u00e1rbara, a prima que estabelece um tri\u00e2ngulo amoroso com Jorge e Jer\u00f4nimo, foi a \u00fanica sobrevivente de um acidente de carro que vitimou o resto de sua fam\u00edlia; Roma, a bela passista teve seu destino marcado por dois homens nefastos; Alice foi estuprada; Anne se meteu numa enrascada por estar ao lado de um jovem traficante. Finalmente Lua, a crian\u00e7a se sente agredida pelo racismo exposto num texto trabalhado em sala de aula.<\/p>\n<p>Apesar do sofrimento, s\u00e3o mulheres que resistem. B\u00e1rbara foi resiliente diante da trag\u00e9dia que viveu e foi acolhida por M\u00e3e Mocinha; Roma acreditou que poderia curar o homem que amava do v\u00edcio nas drogas. Talvez ela quisesse viver o amor que sua m\u00e3e, Patr\u00edcia n\u00e3o teve; Alice, apesar do trauma vivido, reagiu; Anne se encontrou com a ajuda de Carla a psic\u00f3loga; Lua conseguiu com que Clara, sua professora, se reconhecesse como mulher negra ao buscar na hist\u00f3ria a verdadeira origem dos ind\u00edgenas t\u00e3o mau representados na lenda que leu em voz alta para os colegas de classe.<\/p>\n<p><a><\/a> S\u00e3o mulheres que enfrentam o patriarcado que estrutura a sociedade e que se manifesta tamb\u00e9m no contexto perif\u00e9rico. <em>A caminhada<\/em> acaba por elaborar uma fic\u00e7\u00e3o na qual, para as mulheres, n\u00e3o h\u00e1 outra coisa a se fazer do que sofrer, resistir e ser celebrada como guerreira. Por\u00e9m, no \u00faltimo texto, a personagem feminina, ainda crian\u00e7a, assim como sua jovem professora, desviam o curso da trag\u00e9dia cotidiana na qual as mulheres n\u00e3o vivem, apenas aguentam. \u00c9 pertinente que essas duas personagens apare\u00e7am no texto que celebra a ancestralidade ind\u00edgena e negra de S\u00e3o Miguel, territ\u00f3rio sagrado de Urura\u00ed.<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Nota:<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/poeticas\/literatura-dos-arrabaldes-mulheres-de-ururai\/#sdfootnote1anc\">1<\/a> O autor usa o y na palavra Urara\u00ed diferenciando da forma como escrevo que leva em conta outras refer\u00eancias ao termo.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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