{"id":31975,"date":"2025-06-06T10:18:13","date_gmt":"2025-06-06T13:18:13","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/sob-a-pressao-do-avanco-da-soja-pampa-ja-e-o-segundo-bioma-mais-devastado-do-brasil\/"},"modified":"2025-06-06T10:18:13","modified_gmt":"2025-06-06T13:18:13","slug":"sob-a-pressao-do-avanco-da-soja-pampa-ja-e-o-segundo-bioma-mais-devastado-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/sob-a-pressao-do-avanco-da-soja-pampa-ja-e-o-segundo-bioma-mais-devastado-do-brasil\/","title":{"rendered":"Sob a press\u00e3o do avan\u00e7o da soja, Pampa j\u00e1 \u00e9 o segundo bioma mais devastado do Brasil"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"541\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/image-2-30.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/image-2-30.jpg 800w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/image-2-30-300x203.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/image-2-30-768x519.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\"><figcaption><em>O agr\u00f4nomo \u00c1lvaro Delatorre alerta que toda a biodiversidade \u2013 e a etnobiodiversidade tamb\u00e9m \u2013 est\u00e1 amea\u00e7ada pelo avan\u00e7o da soja que desconsidera completamente as condi\u00e7\u00f5es desses ecossistemas \u2013 Foto: Katia Marko<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Por Katia Marko<br \/>Do Brasil de Fato **<\/em><\/p>\n<p>Com o avan\u00e7o das lavouras de soja, o Pampa est\u00e1 sob amea\u00e7a. Se o bioma sempre conviveu com certo equil\u00edbrio com a pecu\u00e1ria, com a soja \u00e9 diferente. A variedade de gram\u00edneas nativas forma, abaixo do solo, um emaranhado de ra\u00edzes, quase como se fosse um colch\u00e3o. \u201cQuando se destr\u00f3i isso para plantar soja ocorre um processo de areniza\u00e7\u00e3o\u201d, avisa o engenheiro agr\u00f4nomo \u00c1lvaro Delatorre.<\/p>\n<p>\u201cO Pampa tem mais de tr\u00eas mil esp\u00e9cies. S\u00e3o, por exemplo, 70 tipos de cactos, 450 de gram\u00edneas, mais de 150 de leguminosas, 100 de mam\u00edferos, 50 de anf\u00edbios e por a\u00ed vai. O que vemos \u00e9 que toda essa biodiversidade \u2013 e a etnobiodiversidade tamb\u00e9m \u2013 est\u00e1 amea\u00e7ada pelo avan\u00e7o da soja que desconsidera completamente as condi\u00e7\u00f5es desses ecossistemas\u201d, enfatiza Delatorre, reparando que o Pampa j\u00e1 \u00e9 o segundo bioma mais devastado do pa\u00eds, abaixo apenas da Mata Atl\u00e2ntica.\u00a0<\/p>\n<p>Integrante do Setor de Produ\u00e7\u00e3o do MST\/RS, Delatorre contou ao Brasil de Fato RS que o movimento est\u00e1 empenhado em salvar as paisagens campestres que atraem, emocionam e inspiram a cultura, as tradi\u00e7\u00f5es e a hist\u00f3ria dos ga\u00fachos. Mas as not\u00edcias que ele traz n\u00e3o s\u00e3o nada boas. Acompanhe:<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"534\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/image-2-31.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/image-2-31.jpg 800w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/image-2-31-300x200.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/image-2-31-768x513.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\"><figcaption><em>Para o MST, o Bioma Pampa come\u00e7a a ganhar certa relev\u00e2ncia e uma reflex\u00e3o com o advento dos assentamentos na regi\u00e3o \/ Foto: Mariza Rigo<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Brasil de Fato RS \u2013 Qual a import\u00e2ncia e qual a situa\u00e7\u00e3o atual do Bioma Pampa que n\u00e3o est\u00e1 apenas no Rio Grande do Sul, mas tamb\u00e9m na Argentina e no Uruguai e que, entre 1985 e 2022, sofreu grandes perdas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00c1lvaro Delatorre \u2013<\/strong>\u00a0Para n\u00f3s, sobretudo para o MST, o Bioma Pampa come\u00e7a a ganhar certa relev\u00e2ncia e uma reflex\u00e3o com o advento dos assentamentos na regi\u00e3o. Mais de 50% das fam\u00edlias assentadas no estado est\u00e3o no Pampa. S\u00e3o seis mil fam\u00edlias. At\u00e9 ent\u00e3o, o Pampa tinha como caracter\u00edstica socioambiental a predomin\u00e2ncia do latif\u00fandio, da pecu\u00e1ria familiar, que tem uma import\u00e2ncia significativa. Tamb\u00e9m agricultores familiares que cumpriram uma fun\u00e7\u00e3o em outras d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Eram posteiros das fazendas que faziam a seguran\u00e7a do latif\u00fandio, das \u00e1reas de sesmarias doadas pela coroa do Brasil e, com o tempo, adquiriram (seu peda\u00e7o de terra) por usucapi\u00e3o. Temos ainda comunidades quilombolas e ind\u00edgenas. O assentado, esta categoria social, surge na d\u00e9cada de 1990, embora na d\u00e9cada de 1980 j\u00e1 houvesse alguns assentamentos, caso da col\u00f4nia Nova Esperan\u00e7a, por exemplo\u2026<\/p>\n<blockquote>\n<p>O Pampa n\u00e3o tem zoneamento clim\u00e1tico para soja, mas o Banco do Brasil financia o plantio<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>BdF RS \u2013 S\u00e3o quantos assentamentos no Bioma Pampa?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Delatorre \u2013<\/strong>\u00a0Temos mais de 50% dos nossos assentamentos no bioma, considerando-se que ele tamb\u00e9m tem aquela faixa de transi\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a regi\u00e3o das Miss\u00f5es, que \u00e9 considerado Pampa. \u00c9 um ambiente novo e inusitado para as fam\u00edlias, porque, na maioria, elas v\u00eam do Norte do estado.<\/p>\n<p>O Pampa tem mais de tr\u00eas mil esp\u00e9cies. S\u00e3o, por exemplo, 70 tipos de cactos, 450 de gram\u00edneas, mais de 150 de leguminosas, 100 de mam\u00edferos, 50 de anf\u00edbios e por a\u00ed vai. O que vemos \u00e9 que toda essa biodiversidade \u2013 e a etnobiodiversidade tamb\u00e9m \u2013 est\u00e1 amea\u00e7ada pelo avan\u00e7o da soja que desconsidera completamente as condi\u00e7\u00f5es desses ecossistemas.<\/p>\n<p>No Pampa, temos um ecossistema que s\u00e3o os butiazais, temos banhados, at\u00e9 afloramento de rocha temos. A diversidade de gram\u00edneas forma, por baixo do solo, um emaranhado de ra\u00edzes, funcionando como um colch\u00e3o. E quando se destr\u00f3i isso para plantar soja ocorre um processo de areniza\u00e7\u00e3o. A simbiose que as esp\u00e9cies do campo nativo fazem \u00e9 completamente destru\u00edda. O processo de areniza\u00e7\u00e3o est\u00e1 acontecendo em algumas regi\u00f5es do Alegrete.<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"576\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/image-2-32.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/image-2-32.jpg 800w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/image-2-32-300x216.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/image-2-32-768x553.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\"><figcaption><em>\u201cTemos mais de 50% dos nossos assentamentos no bioma, considerando-se que ele tamb\u00e9m tem aquela faixa de transi\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a regi\u00e3o das Miss\u00f5es, que \u00e9 considerado Pampa\u201d \/ Foto: Mariza Rigo<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>BdF RS \u2013 Sempre se falou dos biomas do Cerrado, da Mata Atl\u00e2ntica, Amaz\u00f4nia, mas a vis\u00e3o do Pampa como um bioma e a import\u00e2ncia dele para todo o ecossistema \u00e9 mais recente. Tanto \u00e9 assim que o pr\u00f3prio presidente Lula disse que somente agora soube que o Pampa \u00e9 um bioma tamb\u00e9m\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Delatorre \u2013<\/strong>\u00a0O processo de destrui\u00e7\u00e3o est\u00e1 muito avan\u00e7ado. J\u00e1 \u00e9 o segundo bioma mais destru\u00eddo no pa\u00eds. Nos idos de 2014\/2015, o pessoal da Emater dizia que em Bag\u00e9 havia dois mil hectares com soja e que isso representava uma \u00e1rea pequena, porque predominavam ainda as caracter\u00edsticas do bioma. Hoje, em algumas regi\u00f5es, estamos com quase 50% do Pampa tomado pela soja.<\/p>\n<p>O Bioma Pampa n\u00e3o tem zoneamento clim\u00e1tico para plantar soja. O Banco do Brasil financia soja no bioma, o que n\u00e3o \u00e9 recomendado tecnicamente. \u00c9 um desrespeito diante do que chamamos etnoagrobiodiversidade. A introdu\u00e7\u00e3o da soja \u00e9 uma invas\u00e3o dos territ\u00f3rios. A pecu\u00e1ria familiar tradicional sofre em fun\u00e7\u00e3o disso, as comunidades quilombolas sofrem, as aldeias ind\u00edgenas sofrem, os agricultores familiares sofrem. \u00c9 tudo em favor de uma commoditie que n\u00e3o ret\u00e9m imposto \u2013 est\u00e1 respaldada pela Lei Kandir \u2013 e n\u00e3o gera riqueza localmente.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Crime contra a natureza tem que ser enquadrado como crime hediondo<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>S\u00e3o necess\u00e1rias duas a\u00e7\u00f5es. Uma delas \u00e9 fiscalizat\u00f3ria. Crime contra a natureza tem que ser enquadrado como crime hediondo. Outra \u00e9 a exist\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas pensando cadeias produtivas que afetem o m\u00ednimo poss\u00edvel essa realidade do Pampa. E a\u00ed temos a pecu\u00e1ria de corte como experi\u00eancia relevante, tamb\u00e9m a produ\u00e7\u00e3o leiteira que \u00e9 hist\u00f3rica na regi\u00e3o, as frutas nativas, os butiazais, que podem se transformar numa cadeia produtiva \u2013 j\u00e1 existem experi\u00eancias de industrializa\u00e7\u00e3o de butiazeiro, fazendo suco, extrato \u2013 e temos a riqueza dos fitoter\u00e1picos do bioma.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso uma a\u00e7\u00e3o do Estado, infraestrutura, investimento, assist\u00eancia t\u00e9cnica. \u00c9 preciso levar em considera\u00e7\u00e3o as caracter\u00edsticas dos ecossistemas que comp\u00f5em o Pampa. Esta \u00e9 a luta e n\u00e3o d\u00e1 para deixar por conta \u00fanica e exclusivamente do mercado.<\/p>\n<p><strong>BdF RS \u2013 O que isso tem a ver com as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Delatorre \u2013\u00a0<\/strong>Segundo alguns pesquisadores, a Terra tem uma defasagem de quase tr\u00eas trilh\u00f5es de \u00e1rvores. Significa dizer que cada pessoa do planeta deveria plantar 400 \u00e1rvores para a gente compensar o que foi destru\u00eddo nos \u00faltimos 50 anos. O Bioma Pampa \u00e9 afetado por conta disso. Seu regime de chuvas \u00e9 menor do que o de outros locais. \u00c9 claro que as secas acontecem ciclicamente no bioma, mas, at\u00e9 ent\u00e3o, ocorriam com uma margem de 10 anos.<\/p>\n<blockquote>\n<p>A Terra tem uma defasagem de quase tr\u00eas trilh\u00f5es de \u00e1rvores<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Dizemos que, no debate da quest\u00e3o clim\u00e1tica, est\u00e1 no centro a quest\u00e3o agr\u00e1ria. Al\u00e9m da posse e da propriedade da terra, temos outro componente que \u00e9 a quest\u00e3o ambiental. E o ambiente, assim como a posse e a propriedade da terra, s\u00e3o quest\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o ambiental se converte em um problema de ordem pol\u00edtica porque afeta as popula\u00e7\u00f5es de forma diferente. Assim como a posse e a propriedade da terra afetam tamb\u00e9m, produzindo os sem-terra. A concentra\u00e7\u00e3o da terra no Brasil produz uma contradi\u00e7\u00e3o que \u00e9 o sem-terra e o problema clim\u00e1tico tamb\u00e9m produz uma grande contradi\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o os desalojados, que s\u00e3o os despossu\u00eddos, e, sobretudo, produz outra contradi\u00e7\u00e3o que \u00e9 a devasta\u00e7\u00e3o dos ecossistemas. Quando a gente extingue uma esp\u00e9cie, por a\u00e7\u00e3o do capital, a humanidade morre um pouco. E isso que est\u00e1 colocado.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Agora, a mais nova onda do capital \u00e9 o cr\u00e9dito de carbono<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Por exemplo, o veado campeiro \u00e9 uma das esp\u00e9cies em extin\u00e7\u00e3o no Pampa. \u00c9 isso que est\u00e1 em jogo. O capital n\u00e3o entra no Bioma Pampa para preservar. Ele entra para se reproduzir. O capitalismo s\u00f3 existe porque existe o capital em movimento antes sendo reproduzido. Agora, a mais nova onda do capital \u00e9 o cr\u00e9dito de carbono. Ele se apropria de um processo natural que \u00e9 feito em fun\u00e7\u00e3o da fotoss\u00edntese e transforma o carbono em cr\u00e9dito que ser\u00e1 negociado nas bolsas internacionais. Cinquenta por cento da \u00e1gua doce do planeta est\u00e1 na m\u00e3o de 50 grandes empresas transnacionais. A \u00e1gua n\u00e3o \u00e9 fruto do trabalho humano. E o carbono n\u00e3o \u00e9 fruto do trabalho humano. \u00c9 uma a\u00e7\u00e3o da natureza.<\/p>\n<p>O capital construiu a sua hegemonia e a \u00e1rvore passou a ser um problema. Quando se estimula as pessoas a plantar, elas v\u00e3o plantar o mais distante poss\u00edvel da casa. O mato virou um componente alheio aquela realidade e, portanto, tem que destruir o mato. Tenho ouvido muitas fam\u00edlias falarem que \u00e9 o fim dos tempos. O mundo vai acabar, o Armagedon vai chegar. E esse paradigma prevaleceu implantado pelo capital. Ele criou na subjetividade das pessoas a ideia de que a destrui\u00e7\u00e3o \u00e9 inerente ao ser humano.<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"580\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/image-2-33.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/image-2-33.jpg 800w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/image-2-33-300x218.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/image-2-33-768x557.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\"><figcaption><em>\u201cO plano \u00e9 plantar \u00e1rvores e produzir alimentos saud\u00e1veis. Na medida que voc\u00ea toma consci\u00eancia deste paradigma, vai fazer luta\u201d \/ Foto: Mariza Rigo<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>BdFRS \u2013 Em 2020, o MST lan\u00e7ou o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2020\/09\/25\/campanha-do-mst-propoe-caminhos-ambientais-e-sociais-para-o-brasil\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Plano Nacional Plantar \u00c1rvores, Produzir Alimentos Saud\u00e1veis<\/a>\u00a0em todo Brasil. O objetivo \u00e9 plantar 100 milh\u00f5es de \u00e1rvores em dez anos nas escolas do campo, cooperativas, centros de forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, pra\u00e7as, avenidas e nas cidades, fortalecer a produ\u00e7\u00e3o de alimentos saud\u00e1veis nas \u00e1reas de assentamentos e acampamentos do MST e denunciar o modelo destrutivo do agroneg\u00f3cio e seus impactos ao meio ambiente\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Delatorre \u2013<\/strong>\u00a0O MST com seu plano vem para desconstruir esta dimens\u00e3o que virou quase cultural, da destrui\u00e7\u00e3o da mata porque \u00b4ela atrapalha`. Essa subjetividade foi criada por conta da a\u00e7\u00e3o do capital. Queremos desconstruir isso, queremos retomar essa simbiose, esse metabolismo socioambiental entre o ser humano e a natureza, de tal forma que a gente se sinta a natureza. Esta \u00e9 a ideia.<\/p>\n<blockquote>\n<p><em>Temos a meta de plantar 100 milh\u00f5es de \u00e1rvores no Brasil. E sete milh\u00f5es no RS<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>N\u00e3o \u00e9 plantar \u00e1rvore por plantar. O plantar \u00e1rvore tem um sentido e n\u00f3s precisamos criar uma cultura ambiental. S\u00f3 essa cultura vai fazer com que a gente lute tamb\u00e9m contra a destrui\u00e7\u00e3o. Ou seja, quem n\u00e3o faz reciclagem do lixo na sua casa, quem usa veneno para produzir alimento, quem desmata n\u00e3o vai lutar contra a destrui\u00e7\u00e3o da Mata Atl\u00e2ntica, da Amaz\u00f4nia, do Bioma Pampa. Porque a luta se converte em uma pr\u00e1tica social consciente. Se eu n\u00e3o reciclo, se n\u00e3o preservo, se n\u00e3o zelo pela \u00e1gua que consumo eu n\u00e3o tenho nenhuma perspectiva de lutar contra quem faz.<\/p>\n<p>N\u00e3o tem como a gente pensar em um mundo melhor se a dimens\u00e3o ambiental n\u00e3o estiver colocada. Nosso plano vem com essa perspectiva. Temos a meta de plantar 100 milh\u00f5es de \u00e1rvores no Brasil e, aqui no Rio Grande do Sul, sete milh\u00f5es. Mas n\u00e3o \u00e9 algo que tem que ser feito mecanicamente. Tem que estar imbu\u00eddo do prop\u00f3sito de tocar as mentes e os cora\u00e7\u00f5es das pessoas para que percebam o que est\u00e1 acontecendo. L\u00e1 na igreja a gente dizia: ver, julgar e agir. Isto \u00e9 dial\u00e9tico. A gente olha a realidade e faz o julgamento para separar o joio do trigo, para saber quais s\u00e3o as contradi\u00e7\u00f5es sociais que aquele modelo imp\u00f5e. Mas tamb\u00e9m a gente age e s\u00f3 \u00e9 capaz de ver e de julgar, se for capaz de agir, e agir de forma diferente.<\/p>\n<blockquote>\n<p><em>O campon\u00eas que reproduz a l\u00f3gica do capital, est\u00e1 num processo de autoflagela\u00e7\u00e3o e n\u00e3o sabe<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O plano \u00e9 plantar \u00e1rvores e produzir alimentos saud\u00e1veis. Na medida que voc\u00ea toma consci\u00eancia deste paradigma, vai fazer luta. Vai ter uma participa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 constrangida e sim ativa, consciente. Vou para a mobiliza\u00e7\u00e3o porque eu fa\u00e7o diferente e sou capaz de interpretar o que est\u00e1 acontecendo de maneira diferente. Sou capaz de ver, julgar e agir.<\/p>\n<p>A companheira que produz mel e que faz tudo para preservar o ambiente natural sabe que as abelhas s\u00e3o um sinalizador. Que os agrot\u00f3xicos matam a abelha facilmente. Ela tem consci\u00eancia disso porque est\u00e1 fazendo diferente. Agora, o campon\u00eas ou camponesa que reproduz na sua pr\u00e1tica cotidiana uma l\u00f3gica que \u00e9 a l\u00f3gica do capital, est\u00e1 num processo de autoflagela\u00e7\u00e3o e n\u00e3o sabe disso. Ser\u00e1 engolido pelo capital logo que poss\u00edvel, vai ser desconstitu\u00eddo, vai ser desterritorializado.<\/p>\n<p><strong>BdF RS \u2013 Tens outros exemplos \u2013 falaste agora da produtora de mel \u2013 de pr\u00e1ticas em sintonia com a preserva\u00e7\u00e3o do Bioma Pampa?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Delatorre \u2013<\/strong>\u00a0Considero, por exemplo, que quem faz produ\u00e7\u00e3o leiteira manejando o campo nativo, ou seja, respeitando aquele ecossistema, est\u00e1 tendo uma atitude. Temos muita gente que faz. E, no caso do leite, \u00e9 o manejo do campo nativo. Como obter a produ\u00e7\u00e3o sem lavrar o campo nativo e botar monocultivo de aveia. \u00c9 uma racionalidade t\u00e9cnica que acaba tendo uma racionalidade econ\u00f4mica, e uma racionalidade ambiental. Quem faz pecu\u00e1ria de corte respeitando a din\u00e2mica do ecossistema. Quem faz apicultura\u2026<\/p>\n<p>Na experi\u00eancia da Bionatur \u2013 ainda que haja a\u00ed uma interven\u00e7\u00e3o humana, mas em pequena escala e em \u00e1reas menores \u2013 voc\u00ea est\u00e1 respeitando essa condi\u00e7\u00e3o. Por lei, todos os assentados t\u00eam que deixar 20% da \u00e1rea como APP (\u00e1rea de prote\u00e7\u00e3o permanente). Quando a APP \u00e9 coletiva, a gest\u00e3o coletiva dessa \u00e1rea permite um pouco mais de controle sobre a interfer\u00eancia do capital.<\/p>\n<p>Veja, j\u00e1 citei quatro ou cinco experi\u00eancias que mostram que isso \u00e9 poss\u00edvel. Um sistema de produ\u00e7\u00e3o leiteira silvipastoril, onde se leva em considera\u00e7\u00e3o as \u00e1rvores nativas, est\u00e1 a favor da natureza ainda que haja uma interven\u00e7\u00e3o. Na regi\u00e3o das Miss\u00f5es, uma zona de transi\u00e7\u00e3o, temos produ\u00e7\u00e3o leiteira a partir do sistema silvipastoril. Existe uma racionalidade t\u00e9cnica e econ\u00f4mica porque, al\u00e9m do leite ele tem mel e, esporadicamente, pode se valer da madeira produzida ali para recuperar o chiqueiro, renovar o cercamento\u2026<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"552\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/image-2-34.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/image-2-34.jpg 800w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/image-2-34-300x207.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/image-2-34-768x530.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\"><figcaption><em>\u201cNa regi\u00e3o das Miss\u00f5es, uma zona de transi\u00e7\u00e3o, temos produ\u00e7\u00e3o leiteira a partir do sistema silvipastoril\u201d \/ Foto: Mariza Rigo<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>BdF RS \u2013 Mas isso tudo demanda trabalho e a gente fica pensando: por que vou ter tanto trabalho se arrendando a minha terra para plantar soja ganho um valor mensal que me sustenta\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Delatorre \u2013<\/strong>\u00a0Este agricultor que arrendou para a soja, na primeira condi\u00e7\u00e3o que tiver ele vende a terra para o fazendeiro. Ent\u00e3o h\u00e1 um processo de desterritorializa\u00e7\u00e3o do campon\u00eas em fun\u00e7\u00e3o desse sistema. As comunidades quilombolas, as aldeias ind\u00edgenas, enfim, dessas diferentes identidades socioculturais, mas em que todas h\u00e1 o trabalho da fam\u00edlia e sua rela\u00e7\u00e3o com o ambiente natural, est\u00e3o amea\u00e7adas pela l\u00f3gica do capital.<\/p>\n<blockquote>\n<p>O agricultor que arrendou para a soja, depois vai vender a terra para o fazendeiro<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Quando a gente conquista um assentamento, o capital olha e diz o seguinte: \u00b4N\u00e3o vou entregar de m\u00e3o beijada. O que fa\u00e7o pra reconquistar esse territ\u00f3rio?` A\u00ed come\u00e7a com o arrendamento, depois do arrendamento vem a titula\u00e7\u00e3o, e com a titula\u00e7\u00e3o o agricultor vende. Mas n\u00e3o podemos ter uma perspectiva de curto prazo. No curto prazo, a racionalidade do agricultor \u00e9 essa que voc\u00ea falou: eu n\u00e3o trabalho, eu arrendo e, quando arrendo pra soja, \u00e9 o outro que trabalha e eu ganho sem trabalhar. \u00c9 uma racionalidade de curto prazo, porque a m\u00e9dio e longo prazo, o fazendeiro vai comprar a terra dele.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a gente construiu aqui no Rio Grande do Sul o viveiro da reforma agr\u00e1ria Zec\u00e3o. Fica na escola Educar. E por que na escola? Porque a escola \u00e9 um ambiente irradiador de uma vis\u00e3o de agricultura. Eu gostaria que todos os camponeses do estado fossem agr\u00f4nomos, agr\u00f4nomas, t\u00e9cnicos agr\u00edcolas, veterin\u00e1rios, zootecnistas, engenheiros florestais. Estar\u00edamos em outro patamar. Em abril do ano que vem vamos inaugurar o viveiro da reforma agr\u00e1ria popular do Bioma Pampa.<\/p>\n<p><strong>BdF RS \u2013 Vai ser onde?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Delatorre \u2013<\/strong>\u00a0Em Santana do Livramento, na \u00e1rea da Cooperforte. E por que em uma cooperativa? Porque a cooperativa tamb\u00e9m vai dar a parcela de contribui\u00e7\u00e3o dela no processo. Ela se prop\u00f5e a fazer a gest\u00e3o do viveiro que vai levar em conta as caracter\u00edsticas do Bioma Pampa. Ent\u00e3o, teremos duas alternativas com o viveiro. Uma \u00e9 a restaura\u00e7\u00e3o. Sua a\u00e7\u00e3o \u00e9 para devolver \u00e0quele territ\u00f3rio essas caracter\u00edsticas do ecossistema. A outra \u00e9 a restitui\u00e7\u00e3o ou reposi\u00e7\u00e3o. Se eu implanto, por exemplo, um olival, estou fazendo uma reposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tenho dito que a gente tem que pautar a quest\u00e3o ambiental junto \u00e0s prefeituras. Quando acontece uma cat\u00e1strofe ambiental, as pessoas vivem na cidade. O estado e a federa\u00e7\u00e3o s\u00e3o abstra\u00e7\u00f5es. Se precisar \u00e1gua para os bichos, \u00e9 a prefeitura de Santana do Livramento que vai levar. Se vier um vendaval e destelhar as casas, como aconteceu aqui em Nova Santa Rita, foi a prefeitura que mobilizou recursos para atender essas comunidades empobrecidas. Levou lona, telhas.<\/p>\n<blockquote>\n<p><em>Hoje, a prefeitura de S\u00e3o Paulo recolhe seis vezes mais IPTU do que o Brasil recolhe de ITR<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>As prefeituras \u00e9 que v\u00e3o pagar o pato. Elas \u00e9 que v\u00e3o sofrer as consequ\u00eancias do clima. Elas, ent\u00e3o, t\u00eam que criar um grande movimento, e tem que passar o debate pelos cons\u00f3rcios, pela Famurs (Federa\u00e7\u00e3o dos Munic\u00edpios\/RS). Eu disse ao presidente da Famurs: voc\u00eas t\u00eam uma responsabilidade pol\u00edtica. Falei bem assim. N\u00e3o querem conversar sobre isso porque v\u00e3o se dar conta de quem faz a destrui\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n<p><strong>BdF RS \u2013 Meter a m\u00e3o no vespeiro\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Delatorre \u2013<\/strong>\u00a0Eu falei para ele: \u00e9 s\u00f3 atualizar o ITR (Imposto Territorial Rural). Hoje, a prefeitura de S\u00e3o Paulo recolhe seis vezes mais IPTU do que o Brasil recolhe de ITR. No mesmo ano, o prefeito de S\u00e3o Paulo recolhe R$ 9 bilh\u00f5es de IPTU, enquanto o Brasil recolhe R$ 1,5 bilh\u00e3o de ITR.<\/p>\n<p>Os prefeitos t\u00eam que mexer nisso, porque boa parte do ITR vai ficar nos munic\u00edpios. Eles v\u00e3o poder pegar esse dinheiro e fazer uma pol\u00edtica de amparo aos problemas clim\u00e1ticos que vir\u00e3o. E ser\u00e3o mais frequentes. Este \u00e9 o papel do plano. Vem para tirar a nossa turma da zona de conforto. N\u00e3o queremos que os crimes ambientais sejam naturalizados e que as cat\u00e1strofes sejam esquecidas. Vem para despertar o MST para esta pauta ambiental que \u00e9 mais do que falar em agroecologia.<\/p>\n<p>\u00a0O MST quando diz plantar \u00e1rvore, produzir alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel, faz uma inflex\u00e3o e coloca a quest\u00e3o ambiental no centro do debate. \u00c9 preciso criar f\u00f3runs, semin\u00e1rios. As pessoas se sentem sozinhas, mas n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que n\u00e3o tenha entidades na cidade, universidades que topem conversar sobre o assunto. Olhem para o que est\u00e1 acontecendo, enxerguem a natureza, pelo amor de Deus.\u00a0<\/p>\n<p>*<em>Editador por Ayrton Centeno<\/em><\/p>\n<p><em>**Texto publicado originalmente em 2023<\/em><\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/2025\/06\/06\/sob-a-pressao-do-avanco-da-soja-pampa-ja-e-o-segundo-bioma-mais-devastado-do-brasil-2\/\">Sob a press\u00e3o do avan\u00e7o da soja, Pampa j\u00e1 \u00e9 o segundo bioma mais devastado do Brasil<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/\">MST<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/iof-moraes-suspende-decisoes-do-congresso-e-de-lula-e-convoca-conciliacao\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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