{"id":32702,"date":"2025-06-11T00:05:54","date_gmt":"2025-06-11T03:05:54","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/o-que-e-um-bom-livro-para-um-jornalao\/"},"modified":"2025-06-11T00:05:54","modified_gmt":"2025-06-11T03:05:54","slug":"o-que-e-um-bom-livro-para-um-jornalao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-que-e-um-bom-livro-para-um-jornalao\/","title":{"rendered":"O que \u00e9 um bom livro para um jornal\u00e3o?"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"963\" height=\"586\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/5053350034350911106.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/5053350034350911106.jpg 963w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/5053350034350911106-300x183.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/5053350034350911106-768x467.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 963px) 100vw, 963px\"><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>T\u00edtulo original: <strong><em>Do que a linguagem silencia quando o mundo se acaba \u2014 Sobre a lisa dos melhores livros brasileiros de literatura do s\u00e9culo XXI<\/em><\/strong><\/p>\n<h3>I.<\/h3>\n<p>Diversos debates interessantes e acalorados t\u00eam surgido a partir da lista de melhores livros brasileiros do s\u00e9culo 21 da Folha de S\u00e3o Paulo. Um dos t\u00f3picos mais quentes, ao lado das cr\u00edticas \u00e0 hegemonia editorial t\u00edpica do neoliberalismo progressista, \u00e9 a mudan\u00e7a na correla\u00e7\u00e3o de peso entre forma e conte\u00fado \u2014 com este \u00faltimo se sobrepondo \u00e0 primeira. Walnice Nogueira Galv\u00e3o \u00e9 uma das muitas vozes que reconhecem, em tom de lamento, o predom\u00ednio do conte\u00fado sobre a forma na literatura contempor\u00e2nea, como se, nesse processo, o liter\u00e1rio perdesse algo de sua especificidade.<\/p>\n<p>\u201cEssa hipertrofia do significado, em detrimento do significante, pode estar implicando uma inclina\u00e7\u00e3o da literatura mais para o lado do entretenimento e menos para o lado da arte.\u201d A vit\u00f3ria do conte\u00fado sobre a forma resultaria, assim, numa perda de for\u00e7a est\u00e9tica ou, ao menos, num desequil\u00edbrio que compromete o conjunto da experi\u00eancia. Esse descompasso, apontado por muita gente s\u00e9ria, est\u00e1 longe de se restringir ao campo da literatura \u2014 sendo lamentado por vozes diversas, de cr\u00edticos renomados a f\u00e3s de filmes da Marvel. O que revela, ali\u00e1s, a amplitude e a resson\u00e2ncia do diagn\u00f3stico.<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/apoia.se\/outraspalavras\" aria-label=\"MAT\u00c9RIA-3\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/MATERIA-3-1.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/MATERIA-3-1.png 681w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-3-300x75.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 681px) 100vw, 681px\" width=\"681\" height=\"171\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>As raz\u00f5es para esse fen\u00f4meno s\u00e3o diversas e tem recebido muitos nomes, a depender do contexto: identitarismo, redu\u00e7\u00e3o do horizonte de expectativas, ruptura definitiva com os marcos do modernismo, capitalismo autof\u00e1gico, realismo capitalista. Alguns, inclusive, sa\u00edram de moda \u2014 como p\u00f3s-modernismo. Em comum a todos eles, a compreens\u00e3o de que a dimens\u00e3o comunit\u00e1ria da vida sofre um profundo processo de regress\u00e3o em contexto neoliberal, o que incide de forma radical sobre a linguagem, estreitando o horizonte da literatura enquanto forma espec\u00edfica.<\/p>\n<h3><strong>II<\/strong>.<\/h3>\n<p><em>Enquanto o mundo explode, o desejo obsceno de pureza. Nos relacionamentos, a busca \u00e9 por clareza contratual: \u201cquais s\u00e3o suas inten\u00e7\u00f5es nesse app?\u201d Investimento de baixo risco como substituto inf\u00e9rtil do amor. Na arte, o desejo de coincid\u00eancia entre autor e obra \u2014 eliminando toda e qualquer dist\u00e2ncia entre sujeito e linguagem. Escrever como quem n\u00e3o tem dinheiro para pagar um bom advogado de defesa. A busca por uma linguagem que n\u00e3o nos traia: luminosamente est\u00e9ril.<\/em><\/p>\n<p><em>Das coisas que a linguagem n\u00e3o pode fazer quando o mundo se acaba: o desejo por uma linguagem em que tudo esteja \u00e0s claras n\u00e3o deixa de ser uma esp\u00e9cie verborr\u00e1gica de sil\u00eancio.<\/em><\/p>\n<h3><strong>III<\/strong>.<\/h3>\n<p>Tudo isso faz sentido. Mas eu gostaria de tomar um atalho, pois acredito ser poss\u00edvel aprender algo com a hist\u00f3ria da recep\u00e7\u00e3o da literatura negra no Brasil \u2014 desde sempre acusada de ser mal escrita ou de comportar algum tipo de insufici\u00eancia. Para nossa tradi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica, a literatura negra sempre deixou algo a desejar em termos de equil\u00edbrio entre forma e conte\u00fado, com a balan\u00e7a pendendo para o segundo polo da equa\u00e7\u00e3o. A hist\u00f3ria da literatura negra \u00e9 contada como a hist\u00f3ria de sua insufici\u00eancia, a hist\u00f3ria da pr\u00f3pria falta inscrita na linguagem.<\/p>\n<p>E quando eu digo sempre, quero dizer <em>SEMPRE<\/em>. S\u00edlvio Romero acusava Machado de Assis de ser um escritor pouco vigoroso por ser mulato e epil\u00e9tico. Jos\u00e9 Ver\u00edssimo dizia que Cruz e Souza balbuciava palavras sem sentido, como um preto deslumbrado com a civiliza\u00e7\u00e3o. Lu\u00eds Gama era visto como um poeta sem destreza po\u00e9tica \u2014 assim como Solano Trindade e S\u00e9rgio Vaz. Lima Barreto, at\u00e9 hoje, \u00e9 acusado de escrever mal. Carolina de Jesus, nem se fala. E at\u00e9 mesmo Concei\u00e7\u00e3o Evaristo j\u00e1 foi apontada como uma escritora que foca mais no conte\u00fado do que na forma.<\/p>\n<p>Curioso paradoxo: sendo a literatura dos meus irm\u00e3os e irm\u00e3s t\u00e3o simples e pobre, por que o que ela demanda em humana pureza jamais se alcan\u00e7a?<\/p>\n<h3><strong>IV<\/strong>.<\/h3>\n<p>Fa\u00e7amos uma pausa, para desfazer qualquer mal-entendido: s\u00f3 digo o que digo \u2014 nada al\u00e9m. O que n\u00e3o digo: que esse retorno a certo tipo de linguagem representativa n\u00e3o seja, de fato, uma quest\u00e3o fundamental do nosso tempo. Pra ser o mais direto poss\u00edvel: n\u00e3o estou dizendo que defender a verdade da forma liter\u00e1ria faz do leitor um branco racista. Inclusive, muitos intelectuais e artistas negros \u2014 como Toni Morrison, James Baldwin e, entre n\u00f3s, Allan da Rosa \u2014 j\u00e1 o reconheceram. O debate \u00e9 quente, e n\u00e3o \u00e9 de hoje. E \u00e9 justamente por ser decisivo que as coisas s\u00e3o um bocado mais complexas.<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/armasdacritica.boitempoeditorial.com.br\/\" aria-label=\"ADC30_Engels_anuncio_OP\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/ADC30_Engels_anuncio_OP.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/ADC30_Engels_anuncio_OP.jpg 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/ADC30_Engels_anuncio_OP-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p><em>V\u00eas, ign\u00f3bil leitor, os tediosos volteios que preciso dar por conta desse maldito desejo de prever tudo, de dizer tudo, sem falhas? N\u00e3o existe espa\u00e7o para indu\u00e7\u00f5es, n\u00e3o ditos, sil\u00eancios ou sutilezas: eu preciso dizer, com todas as letras, que tu n\u00e3o \u00e9s racista, pois, caso contr\u00e1rio, melindrado, n\u00e3o me ler\u00e1s. \u00c9 essa desconfiada nostalgia por um Grande Outro desaparecido que encolhe os limites da linguagem. Observem e contemplem: desconfio das nuances da linguagem por desconfiar de ti, e n\u00e3o dela, obtuso leitor. Da \u00faltima vez que confiei em ti, recortaste trechos da minha fala para dizer que eu estava querendo lacrar na internet. Os escritores n\u00e3o confiam na linguagem porque voc\u00eas judicializaram a porra toda. Que chances t\u00eam as met\u00e1foras nesse mundo?<\/em><\/p>\n<h3><strong>V<\/strong>.<\/h3>\n<p>\u201cO imp\u00e9rio do conte\u00fado sobre a forma produz uma arte descompensada, como um triste sintoma de nosso tempo.\u201d Decerto. Ficamos combinados assim. Mas a esse dado se sobrep\u00f5em outros, como certa negatividade elementar no trato negro com a est\u00e9tica, que tende a ser lida como falta ou insufici\u00eancia por um olhar moldado em tradi\u00e7\u00f5es cr\u00edticas mais acad\u00eamicas. Um trato com a linguagem que \u00e9 de outra ordem \u2014 de quem almeja fazer outras coisas com a l\u00edngua. Espanc\u00e1-la e desrespeit\u00e1-la, por exemplo. Maltratar a l\u00edngua como quem se utiliza de um trapo, pois n\u00e3o est\u00e1 nela o que se diz. Afinal, a quem interessa sua civilidade? Guimar\u00e3es Rosa a ama. Machado de Assis, ao contr\u00e1rio, faz dela sua escrava branca.<\/p>\n<p>Uma linguagem que se d\u00e1 desde a falta, desde a aus\u00eancia, marcada pela urg\u00eancia dos que n\u00e3o desejam civilizar-se. \u201cA viol\u00eancia colonial tornou est\u00e9ril qualquer tipo de comunica\u00e7\u00e3o e discurso baseado no reconhecimento rec\u00edproco\u201d1. Falar desde a falta implica uma rela\u00e7\u00e3o completamente distinta entre forma e conte\u00fado \u2014 que ser\u00e1 inevitavelmente lida como falta, caso as lentes n\u00e3o sejam alteradas. N\u00e3o se trata de fazer boa ou m\u00e1 literatura, mas de algo muito maior que isso: aquele m\u00ednimo outro que Marcos Queir\u00f3z identifica na \u201cpo\u00e9tica da crueza\u201d dos revolucion\u00e1rios haitianos. Escrever com sangue nos olhos, para evitar o sangue nas m\u00e3os \u2014 como s\u00f3 os mortos em vida s\u00e3o capazes de realizar plenamente.<\/p>\n<p>Durante muito tempo, Carolina Maria de Jesus foi esculhambada como uma n\u00e3o escritora. Os interditos foram diversos: n\u00e3o publicaram suas cr\u00f4nicas e poemas (diagn\u00f3stico: mais conte\u00fado do que forma), publicaram seu di\u00e1rio n\u00e3o como arte, mas como relato ex\u00f3tico (diagn\u00f3stico: mais conte\u00fado do que forma), negaram ao di\u00e1rio a condi\u00e7\u00e3o de literatura (diagn\u00f3stico: mais conte\u00fado do que forma) e, ap\u00f3s o sucesso, disseram que era obra de Aud\u00e1lio Dantas, jornalista branco e homem. Ainda hoje Carolina \u00e9 vista com desconfian\u00e7a.<\/p>\n<p>Ironicamente, os tr\u00eas primeiros livros da lista da Folha seguem em alguma medida o paradigma de Quarto de Despejo. Ao escrever para al\u00e9m (ou aqu\u00e9m) do liter\u00e1rio, sua obra se consolidou como uma das mais importantes do s\u00e9culo.<\/p>\n<h3><strong>VI<\/strong>.<\/h3>\n<p>Achille Mbembe deu a letra, mas voc\u00eas n\u00e3o quiseram ouvir. O neoliberalismo reduz todos os corpos \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de mat\u00e9ria descart\u00e1vel para o capital. Bem-vindes: somos agora todos negros, ainda que alguns mais negros do que outros. O devir negro do mundo \u00e9 tamb\u00e9m um ser de linguagem. Quem diria que todos voc\u00eas, que se julgavam a salvo, teriam que aprender a escrever desde a falta?<\/p>\n<p>E n\u00e3o \u00e9 que n\u00f3s, os fodidos, sa\u00edmos na frente? Tr\u00eas dos nossos no topo da lista. Por qu\u00ea? Ora, essa \u00e9 f\u00e1cil: sabemos algo que voc\u00eas n\u00e3o sabem. \u201cSeu filho quer ser preto, ah, que ironia.\u201d Mas mesmo que ele n\u00e3o quisesse, n\u00e3o teria pra onde correr. Estamos todos fodidos. Agora, aguenta.<\/p>\n<h3><strong>VII<\/strong>.<\/h3>\n<p>Se a arte est\u00e1 mais certa do que sua cr\u00edtica \u2014 ou seja, se n\u00e3o se trata de pregui\u00e7a generalizada ou de uma nova \u201cregress\u00e3o da audi\u00e7\u00e3o\u201d, mas de um dado material objetivo a ser transfigurado esteticamente \u2014 talvez a pergunta fundamental seja: <em>por que as formas de recusa radical, ou de maior densidade formal, se tornaram sistematicamente incapazes de dar conta da experi\u00eancia de dissolu\u00e7\u00e3o do mundo contempor\u00e2neo?<\/em> Ora veja: n\u00e3o \u00e9 que os escritores desaprenderam a escrever, ou estejam sem tempo para experimentar \u2014 o que, convenhamos, n\u00e3o deixa de ser verdade. S\u00e3o, na verdade, os antigos par\u00e2metros liter\u00e1rios \u2014 ainda modernos \u2014 que perderam seu prazo de validade na alvorada do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>Sei que podes apresentar-me uma infinidade de exemplos contr\u00e1rios, diligente leitor, e eu provavelmente concordaria com todos eles. Mesmo na famigerada lista da Folha encontramos diversos exemplares da boa e velha densidade formal. Mas isso n\u00e3o deixa de ser uma forma de fugir do problema. Precisamos levar a s\u00e9rio a bola cantada por Roberto Schwarz no final dos anos 1990, quando afirmou que os pressupostos da cr\u00edtica dial\u00e9tica talvez estivessem desaparecendo \u2014 pressupostos cujo princ\u00edpio era a coincid\u00eancia entre radicalidade est\u00e9tica e verdade hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Nesse admir\u00e1vel mundo novo, celebra-se a for\u00e7a art\u00edstica e cr\u00edtica de <em>Torto Arado<\/em>, enquanto MC Poze \u00e9 preso e o Estado cria uma lei anti-Oruam. Nesses casos, o poder subversivo parece ter mudado de lado, pagando-nos com um piparote, sem l\u00e1grimas ou adeus.<\/p>\n<h3><strong>VIII<\/strong>.<\/h3>\n<p>Mas o que significa falar em <strong>pot\u00eancia est\u00e9tica<\/strong> nesse caso? Certamente n\u00e3o \u00e9 aquela que se aprende nas discuss\u00f5es acad\u00eamicas. Tampouco \u00e9 aquela que reconhecemos como matriz dos nossos esfor\u00e7os civilizat\u00f3rios. Os progressistas adoram um pobre como \u00c9douard Louis: culto, refinado, de esquerda, falante de franc\u00eas e gato. A pot\u00eancia do funk, por outro lado, \u00e9 formada por uma legi\u00e3o de irrecuper\u00e1veis que abra\u00e7am o capitalismo enquanto ecoam os discursos mais fundamentalistas de seus pastores, espalhando aos quatro ventos que Papa Francisco era comunista.<\/p>\n<p>A pot\u00eancia do funk n\u00e3o \u00e9 uma recusa do capitalismo, nem uma ades\u00e3o irrestrita a par\u00e2metros civilizat\u00f3rios ou ideais iluministas de alta civiliza\u00e7\u00e3o. Ningu\u00e9m vai ouvir Beethoven quando o funk vencer \u2014 e nem sequer conseguimos mais fingir que algu\u00e9m ainda se importa com isso. \u00c9 o fim da aventura \u201chumana\u201d na Terra. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o se trata de uma pot\u00eancia que os conservadores abra\u00e7am. Ao contr\u00e1rio: eles soltam seus c\u00e3es \u2014 Senado, PM, Alexandre de Moraes e Geraldo Alckmin. A diferen\u00e7a com a esquerda, nesse caso, \u00e9 menos de princ\u00edpio do que de tom. A direita quer prender, matar, torturar. A esquerda, domesticar: curr\u00edculo acad\u00eamico, circuito Sesc, <em>feat<\/em> com Caetano Veloso.<\/p>\n<p>Eu mesmo, j\u00e1 domesticado, n\u00e3o sou l\u00e1 muito f\u00e3 de Trap. Nenhum artista do g\u00eanero me comove esteticamente, e consigo reunir uma boa quantidade de argumentos para justificar minha recusa em termos de valor. Mas a m\u00fasica de Oruam me incomoda muito menos do que o fato de que, nesse caso, meu ju\u00edzo est\u00e9tico coincide com o da Pol\u00edcia Militar, cuja fun\u00e7\u00e3o social \u00e9 matar a mim e ao menor. Portanto, ainda que eu n\u00e3o goste e critique seus limites, n\u00e3o farei disso motivo de orgulho, como se meu acesso limitado, restrito e ilus\u00f3rio ao mundo da elite cultural me colocasse acima das regras do capitalismo suicid\u00e1rio. N\u00e3o se iludam: entre salvar Oruam ou Drummond, eu n\u00e3o hesitaria duas vezes. Assim como sei quem voc\u00eas atirariam aos c\u00e3es na primeira oportunidade.<\/p>\n<h3><strong>IX<\/strong>.<\/h3>\n<p>Tem como escapar? Tem como escapar. Davi Kopenawa escreve como a floresta nos odeia. Como a floresta odeia aos livros impressos no cad\u00e1ver da floresta. Como a floresta odeia aquilo que em n\u00f3s desaprendeu a sonhar. A radicalidade de uma linguagem que n\u00e3o \u00e9 mais humana.<\/p>\n<p>\u00c9 porque a linguagem da hist\u00f3ria nos foi surrupiada que inventamos o Preto Velho enquanto informante etnogr\u00e1fico al\u00e9m do branco tempo. Para entend\u00ea-lo, contudo, tem que saber incorporar. Saber\u00e3o os intelectuais dan\u00e7ar?<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Sem publicidade ou patroc\u00ednio, dependemos de voc\u00ea. Fa\u00e7a parte do nosso grupo de apoiadores e ajude a manter nossa voz livre e plural: <a href=\"https:\/\/apoia.se\/outraspalavras\"><strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/a><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/poeticas\/o-que-e-um-bom-livro-para-um-jornalao\/\">O que \u00e9 um bom livro para um jornal\u00e3o?<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/aprovado-na-camara-projeto-que-amplia-cotas-em-concursos-federais-segue-para-o-senado\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Aprovado na C\u00e2mara, projeto que amplia cotas em co...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/80-anos-de-nana-vasconcelos-e-seu-legado-sao-celebrados-em-show-na-caixa-cultural-recife\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">80 anos de Nan\u00e1 Vasconcelos e seu legado s\u00e3o celeb...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/reforma-tributaria-isentara-impostos-de-alguns-alimentos-veja-lista\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Reforma tribut\u00e1ria isentar\u00e1 impostos de alguns ali...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/departamento-de-justica-dos-eua-divulgou-menos-de-1-dos-arquivos-do-caso-epstein\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/bdf-20250718-203943-fdf434-1536x864-1-150x150.webp') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Departamento de Justi\u00e7a dos EUA divulgou menos de ...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Boletim Outras Palavras Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site Assinar Loading&#8230; Assinar Loading&#8230; Agradecemos! 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