{"id":32723,"date":"2025-06-10T19:58:06","date_gmt":"2025-06-10T22:58:06","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/estaria-lula-preso-na-teia-de-aranha-do-congresso\/"},"modified":"2025-06-10T19:58:06","modified_gmt":"2025-06-10T22:58:06","slug":"estaria-lula-preso-na-teia-de-aranha-do-congresso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/estaria-lula-preso-na-teia-de-aranha-do-congresso\/","title":{"rendered":"Estaria Lula preso na teia de aranha do Congresso?"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"891\" height=\"595\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Screenshot-2025-06-10-at-19-55-30-53411277835_d0f336919b_kwebp-imagem-WEBP-900-600-pixels.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Screenshot-2025-06-10-at-19-55-30-53411277835_d0f336919b_kwebp-imagem-WEBP-900-600-pixels.png 891w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Screenshot-2025-06-10-at-19-55-30-53411277835_d0f336919b_k.webp-imagem-WEBP-900-\u00d7-600-pixels-300x200.png 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Screenshot-2025-06-10-at-19-55-30-53411277835_d0f336919b_k.webp-imagem-WEBP-900-\u00d7-600-pixels-768x513.png 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Screenshot-2025-06-10-at-19-55-30-53411277835_d0f336919b_k.webp-imagem-WEBP-900-\u00d7-600-pixels-272x182.png 272w\" sizes=\"auto, (max-width: 891px) 100vw, 891px\"><figcaption><em>O presidente Lula (PT) no plen\u00e1rio do Congresso Nacional. Foto: Jonas Pereira\/Ag\u00eancia Senado<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Nos primeiros meses de 2023, escrevi uma s\u00e9rie de artigos que intitulei \u201cA Armadilha\u201d, analisando as amea\u00e7as a um bom governo do presidente Lula na sua terceira gest\u00e3o. Um destes artigos centrou-se na rela\u00e7\u00e3o do executivo com o legislativo e apontou o desafio de governar com (ou contra) um Congresso dominado pelo Centr\u00e3o e pela extrema direita bolsonarista. Agora, quando o governo Lula III se encaminha para seus derradeiros momentos, a menos de um ano para ser dada a largada das pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es presidenciais, cabe verificar como ele enfrentou o dito desafio.<\/p>\n<p>A imagem que me vem \u00e0 cabe\u00e7a para descrever o que vejo \u00e9 a de uma mosca (ou borboleta ou outro inseto qualquer) presa em uma teia de aranha. Uma vez capturada, a mosca vai se enredando a cada movimento que faz para se livrar da aranha que se prepara para devor\u00e1-la.<\/p>\n<p>J\u00e1 se sabia que o problema era gigantesco. O Congresso, eleito no mesmo pleito em que o presidente Lula bateu Bolsonaro por menos de 1% dos votos v\u00e1lidos, tem a composi\u00e7\u00e3o mais \u00e0 direita da nossa hist\u00f3ria, s\u00f3 compar\u00e1vel \u00e0 do final do imp\u00e9rio, quando dominavam os latifundi\u00e1rios escravocratas. E o presente Congresso herdou do per\u00edodo Bolsonaro um empoderamento in\u00e9dito na hist\u00f3ria do Brasil. Temeroso de ser levado a um processo de impeachment, Bolsonaro se entregou ao Centr\u00e3o e este tomou as r\u00e9deas do poder e passou a controlar o or\u00e7amento atrav\u00e9s das chamadas emendas obrigat\u00f3rias (individuais, por bancada, por comiss\u00e3o e finalmente por pix e as secretas, controladas pelos presidentes da C\u00e2mara e do Senado) que, ali\u00e1s, foram votadas no final do governo Dilma, outra Presid\u00eancia muito enfraquecidoa.<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/apoia.se\/outraspalavras\" aria-label=\"MAT\u00c9RIA-1\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/MATERIA-1-2.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/MATERIA-1-2.png 681w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-1-300x75.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 681px) 100vw, 681px\" width=\"681\" height=\"171\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>H\u00e1 quem considere que o quadro n\u00e3o \u00e9 novo e que, tanto Lula como Dilma, tiveram que governar com maioria de oposi\u00e7\u00e3o. A diferen\u00e7a com o quadro presente, entretanto, \u00e9 grande, enorme. Nos primeiros governos populares, a extrema direita n\u00e3o existia no Congresso ou na sociedade, enquanto express\u00e3o articulada, muito embora o conservadorismo grassasse entre os parlamentares. Predominava, entre os eleitos do Centr\u00e3o, o fisiologismo, ou seja, a defesa dos interesses materiais e pol\u00edtico-eleitorais de cada um.<\/p>\n<p>Os governos populares puderam, apesar de muitos problemas, controlar vota\u00e7\u00f5es importantes atrav\u00e9s da compra de votos, primeiro pelo mecanismo chamado de \u201cmensal\u00e3o\u201d e depois pelo dito \u201cpetrol\u00e3o\u201d. Como disse o ministro da Justi\u00e7a de Lula no seu primeiro mandato, \u201cnada que n\u00e3o tivesse sido feito por todos os governos no Brasil, o chamado \u201ccaixa dois\u201d\u201d. O problema \u00e9 que a justi\u00e7a, sempre leniente com os governos de direita, usou e abusou de suas prerrogativas para acuar os governos de Lula e, sobretudo, de Dilma. Do mesmo modo, a grande m\u00eddia aproveitou a chance e malhou os presidentes, o PT e a esquerda sem dar descanso.<\/p>\n<p>O pre\u00e7o pago pelos dois presidentes de esquerda e pelo PT foi enorme. De defensores da \u00e9tica na pol\u00edtica, se transformaram, aos olhos do eleitorado, em corruptos de carteirinha. Contraditoriamente, os corrompidos, deputados e senadores do Centr\u00e3o ficaram muito menos visados, embora alguns tenham sido tamb\u00e9m enquadrados pelos tribunais.<\/p>\n<p>No presente mandato, a situa\u00e7\u00e3o ficou muito pior devido ao j\u00e1 mencionado empoderamento do Congresso. O controle de significativa e crescente parcela do or\u00e7amento ficou nas m\u00e3os daqueles que no passado recebiam favores (ou mesadas) do governo em troca de votos. O poder do executivo passou a ser dividido com os presidentes da C\u00e2mara, Arthur Lira e do Senado, Rodrigo Pacheco e, atualmente, Hugo Motta e Davi Alcolumbre. Lira e Alcolumbre se mostraram os mais ousados na chantagem do executivo, enquanto Motta afia as garras e, na compara\u00e7\u00e3o com os outros, Pacheco parece at\u00e9 um cavalheiro republicano.<\/p>\n<p>Com menos recursos e poderes para comprar os votos no varejo, o governo se rendeu ao Centr\u00e3o e buscou cooptar os partidos fisiol\u00f3gicos (Republicanos, Uni\u00e3o Democr\u00e1tica, MDB, outros) entregando Minist\u00e9rios para seus indicados. N\u00e3o funcionou. Os partidos do Centr\u00e3o aceitaram os Minist\u00e9rios, mas n\u00e3o entregaram os votos que o governo necessitava. A cada vota\u00e7\u00e3o, a maioria dos deputados e (em menor grau) dos senadores da base do governo votou contra o executivo. Em longa entrevista recente, o presidente de um desses partidos apontou a raz\u00e3o das infidelidades. Segundo ele, Lula s\u00f3 entregou Minist\u00e9rios de menor import\u00e2ncia (leia-se de menor or\u00e7amento) para os aliados e reservou os fil\u00e9s para o PT. A queixa se estendeu \u00e0 aus\u00eancia de autonomia para os ministros nomearem quem eles quisessem, tendo que conviver com indica\u00e7\u00f5es do PT em segundo e terceiro escal\u00f5es. Os gulosos pr\u00f3ceres do Centr\u00e3o queriam Minist\u00e9rios polpudos e de \u201cporteira fechada\u201d. E n\u00e3o se pode esquecer que mesmo os partidos ditos de esquerda, como o PDT e o PSB, nunca garantiram a totalidade de seus votos aos projetos do governo.<\/p>\n<p>Nestes dois anos e meio, este conv\u00edvio dif\u00edcil foi ainda turvado por esc\u00e2ndalos: mais uma vez o fantasma da corrup\u00e7\u00e3o entre os aliados (n\u00e3o s\u00f3 os do Centr\u00e3o, j\u00e1 que o \u00faltimo e mais retumbante teve como centro o PDT) veio assombrar um governo petista. Para o eleitor comum, o fato de que as den\u00fancias n\u00e3o incriminam o presidente nem os ministros do PT n\u00e3o interessa muito. A leitura \u00e9 que o governo \u00e9 (ou continua) corrupto e ponto final, ainda mais com o hist\u00f3rico da Lava Jato ainda fresco na mem\u00f3ria coletiva.<\/p>\n<p>Entre par\u00eanteses, a esquerda, e o PT em particular, consideram que a anula\u00e7\u00e3o das condena\u00e7\u00f5es da Lava Jato (puxadas pelo nefando S\u00e9rgio Moro et caterva) pelo STF limpou a sua imagem frente ao eleitorado. Ledo engano. A grande maioria continua acreditando na verdade das condena\u00e7\u00f5es e ignorando a narrativa petista que culpa os abusos dos tribunais e da imprensa pelas acusa\u00e7\u00f5es. A materialidade de muitas das provas e confiss\u00f5es torna a narrativa petista fr\u00e1gil e pouco cred\u00edvel. O eleitorado prefere acreditar que, \u201ccomo sempre no Brasil, os corruptos sempre se safam\u201d. E parecem pouco se importar com o fato de que Bolsonaro e os bolsonaristas molharam as m\u00e3os sem corar de vergonha em in\u00fameros esc\u00e2ndalos durante o seu governo. Na melhor das hip\u00f3teses, a atitude mais generalizada entre os eleitores parece ser a de considerar que os pol\u00edticos s\u00e3o todos (esquerda e direita) iguais no quesito corrup\u00e7\u00e3o, \u201cfarinha do mesmo saco\u201d, o que tornaria o tema eleitoralmente neutro em uma elei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/www.acasocultural.com\/\" aria-label=\"banner\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/banner.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/banner.jpg 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/banner-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>Tenho lido muitas an\u00e1lises, indicando que Lula n\u00e3o tem alternativa a n\u00e3o ser fazer o que est\u00e1 fazendo, algo do tipo entregar os an\u00e9is para n\u00e3o perder os dedos. Esta t\u00e1tica de fazer concess\u00f5es sem fim ao Congresso de direita, inclusive com os partidos de esquerda votando com a direita em v\u00e1rios projetos (\u201cpara o governo n\u00e3o ser derrotado\u201d), \u00e9 explicada pela estrat\u00e9gia de buscar promover um crescimento econ\u00f4mico vigoroso, com distribui\u00e7\u00e3o de renda e pleno emprego, junto com mais e mais programas sociais beneficiando mais e mais eleitores.<\/p>\n<p>Na teoria, esta estrat\u00e9gia permitiria atravessar o deserto \u00e1rido deste governo e chegar \u00e0s elei\u00e7\u00f5es de 2026 com suficiente popularidade para reeleger Lula e ganhar for\u00e7a no Congresso e governos estaduais para o Lula IV governar em melhores condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 assim que a banda est\u00e1 tocando.<\/p>\n<p>Para come\u00e7ar, temos que avaliar que desenvolvimento est\u00e1 sendo promovido e depois olhar para o impacto pol\u00edtico eleitoral dos resultados. Para resumir, n\u00e3o h\u00e1 propriamente um programa de governo, mas sim uma sequ\u00eancia de medidas que perpetuam pol\u00edticas que j\u00e1 existiam e que tem por fim essencialmente um resultado eleitoral. Uma das raras propostas de mudan\u00e7a estrutural, a reforma tribut\u00e1ria, n\u00e3o passou de uma simplifica\u00e7\u00e3o do sistema, mesmo assim com uma tal quantidade de privil\u00e9gios e isen\u00e7\u00f5es, que o imposto simplificado manteve a taxa\u00e7\u00e3o entre as mais altas do mundo. E a tentativa de cobrar mais impostos dos rentistas vem sendo desmontada pelo Congresso.<\/p>\n<p>O executivo parece atolado em suas contradi\u00e7\u00f5es internas e amarrado pela correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as extremamente desfavor\u00e1vel no Congresso. E n\u00e3o se v\u00ea neste governo nem um p\u00e1lido arremedo da press\u00e3o que a sociedade civil e os movimentos sociais foram capazes de fazer na oposi\u00e7\u00e3o, durante os anos Sarney, Collor, Itamar e FHC. Lula III enfrenta a direitalha do Congresso com suas parcas for\u00e7as parlamentares e uma constante negocia\u00e7\u00e3o com o Centr\u00e3o, sem o contrapeso que o presidente Petro pode dispor na sociedade colombiana.<\/p>\n<p>Como chegamos a esta situa\u00e7\u00e3o? \u00c9 preciso rever o caminho da nossa esquerda ao longo do tempo e como ela foi se transformando de revolucion\u00e1ria em reformista, de reformista em populista e de populista em eleitoreira.<\/p>\n<p>A esquerda sempre colocou como objetivo a tomada do poder atrav\u00e9s de uma revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que levasse uma representa\u00e7\u00e3o das classes oprimidas para um governo que teria como miss\u00e3o a revolu\u00e7\u00e3o social. Os modelos hist\u00f3ricos das revolu\u00e7\u00f5es francesa, russa e chinesa apontavam para a necessidade da viol\u00eancia para chegar ao poder, usando as liberdades democr\u00e1ticas (ditas \u201cburguesas) apenas como t\u00e1tica. Em todos os casos, as mudan\u00e7as se fizeram com a cria\u00e7\u00e3o de regimes ditatoriais e em grandes sacrif\u00edcios para as massas populares, sobretudo nos regimes de ditadura \u201cdo proletariado\u201d.<\/p>\n<p>A minha gera\u00e7\u00e3o criou-se no culto aos processos revolucion\u00e1rios de tomada do poder. Com a derrota do reformismo populista do governo de Jo\u00e3o Goulart e o advento do regime militar por 21 anos, a luta pela liberdade e democracia prevaleceu sobre a luta pela revolu\u00e7\u00e3o social. Com a derrota da oposi\u00e7\u00e3o guerrilheira, que tinha uma estreita base social na cidade e no campo, os sobreviventes abandonaram a busca pela tomada do poder pela luta armada e abriu-se espa\u00e7o para uma luta pol\u00edtica de massas pela redemocratiza\u00e7\u00e3o. Esta luta foi vitoriosa, inclusive com os movimentos pac\u00edficos de oper\u00e1rios, estudantes, intelectuais e artistas (com pouca ades\u00e3o do campesinato) e setores da burguesia que foram rompendo com um regime militar tornado inconveniente. Tudo culminou com o maior movimento de massas da nossa hist\u00f3ria, as Diretas J\u00e1, que levou muitos milh\u00f5es \u00e0s ruas em todo o pa\u00eds e selou a partida dos militares do poder. Foi uma vit\u00f3ria da n\u00e3o viol\u00eancia, mas o que estava em jogo era a forma de governo e n\u00e3o o predom\u00ednio de uma classe e de um sistema econ\u00f4mico e social, o capitalismo.<\/p>\n<p>Todo este impulso pol\u00edtico acabou canalizado para o processo eleitoral da Constituinte, mas o voto conservador mostrou a sua resili\u00eancia, ajudado pela legisla\u00e7\u00e3o eleitoral herdada do regime militar e o Centr\u00e3o acabou limitando os avan\u00e7os na nova Constitui\u00e7\u00e3o. Esta avan\u00e7ou muito nos quesitos das garantias pol\u00edticas da liberdade e democracia, mas muito menos nos direitos sociais. Toda a pol\u00eamica entorno ao tema da Reforma Agr\u00e1ria acabou, na ess\u00eancia, reafirmando o direito de propriedade. Foi considerado um grande avan\u00e7o a inclus\u00e3o do conceito do direito social \u00e0 terra, mas o mesmo nunca foi devidamente regulamentado.<\/p>\n<p>A esquerda reformada, aglutinada no PT, carregou consigo os sobreviventes da luta armada e da luta clandestina e muitos continuaram buscando radicalizar as transforma\u00e7\u00f5es sociais atrav\u00e9s dos movimentos de massas. Esta vis\u00e3o de um partido centrado na mobiliza\u00e7\u00e3o social e na luta de classes prevaleceu na d\u00e9cada de 80. No entanto, mesmo neste per\u00edodo, o PT esteve dividido entre o reformismo e o sonho revolucion\u00e1rio. Ocorre que o partido nunca chegou a abrir o debate sobre como chegar ao poder, se pela via eleitoral ou se pela via armada.<\/p>\n<p>Esta indefini\u00e7\u00e3o levou o PT a usar o espa\u00e7o eleitoral, inicialmente, mais como ocasi\u00e3o de propagandear suas ideias e propostas, importando pouco o sucesso eleitoral ou, pelo menos, n\u00e3o tendo neste o objetivo central. No entanto, a inten\u00e7\u00e3o de avan\u00e7ar nos espa\u00e7os eleitorais se manifestou desde o come\u00e7o. J\u00e1 em 1982, o PT se recusa a fazer uma alian\u00e7a eleitoral com o Brizola, no que foi facilitado pelo chamado voto vinculado, que impedia as coliga\u00e7\u00f5es. Mas o PT foi buscar um candidato a governador dentro do PDT, o ex-deputado Lis\u00e2neas Maciel, tentando se apresentar com um perfil menos radical e mais eleitoralmente \u201camplo\u201d. Todo o resto da chapa do PT tinha uma cara mais petista, radical e sect\u00e1ria.<\/p>\n<p>Esta ambival\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o aos processos eleitorais e seu papel em uma estrat\u00e9gia de chegada ao poder se espelhou na elei\u00e7\u00e3o presidencial de 1989. Lula vai para o segundo turno contra Collor (com 0,5% de votos a mais do que Brizola e 1% em rela\u00e7\u00e3o a Covas), mas o PT n\u00e3o adotou a estrat\u00e9gia reformista que cobrava uma alian\u00e7a pragm\u00e1tica com as for\u00e7as simbolizadas pelos candidatos populistas, reformistas e de centro derrotados no primeiro turno (Brizola, Covas e Ulisses). O PT preferiu manter uma proposta de governo \u201cpuro sangue\u201d, mais radicalizada, e acabou derrotado por Collor.<\/p>\n<p>O movimento que derrubou Collor foi puxado pelo PT, mas todas as for\u00e7as reformistas se aliaram nas manifesta\u00e7\u00f5es, tal como havia ocorrido na campanha das Diretas J\u00e1. Entretanto, o convite de Itamar Franco para formar um governo reformista-populista incluindo PT, PSB, PSDB e PMDB foi recusado pelo PT, a principal for\u00e7a de esquerda no pa\u00eds. Sem alternativa de apoio para governar, Itamar comp\u00f4s uma alian\u00e7a de centro, onde o PSB demarcava o limite \u00e0 esquerda e o PFL o limite \u00e0 direita, incluindo o PSDB (ent\u00e3o no centro esquerda) e o PMDB (ent\u00e3o no centro direita).<\/p>\n<p>O PT mirava a elei\u00e7\u00e3o de 1994, que estava pr\u00f3xima, e preferiu ficar na oposi\u00e7\u00e3o, contando com o agravamento da crise econ\u00f4mica deixada pelo per\u00edodo Collor para ganhar o pleito com uma candidatura mais radical no seu reformismo. O Plano Real e o controle da infla\u00e7\u00e3o mudaram o quadro e o PSDB ganhou de lavada no primeiro turno, naquele ano e em 1998.<\/p>\n<p>Ao longo dos anos 90, o PT come\u00e7ou a guinada em dire\u00e7\u00e3o ao centro que levou a frente de esquerda (PT, PSB, PDT e PCdoB) \u00e0 vit\u00f3ria em 2002. Por outro lado, o PSDB, apesar de manter algumas propostas reformistas (come\u00e7o da reforma agr\u00e1ria, programas sociais), foi caminhando para a direita, adotando no governo um programa econ\u00f4mico neoliberal.<\/p>\n<p>Nestes anos, o PT formulou programas baseando-se em comiss\u00f5es que envolveram organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil, movimentos sociais e militantes. Os programas foram, de modo geral, bastante aprofundados e t\u00e3o radicais quanto era exigido pela realidade dos mais variados temas. No entanto, as campanhas presidenciais foram filtrando boa parte dos elementos mais radicais das propostas, frustrando tanto os especialistas que as formularam como a milit\u00e2ncia que com elas se identificava. Pouco a pouco, a orienta\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o do partido passou a ser a convers\u00e3o das propostas na dire\u00e7\u00e3o de conte\u00fados mais palat\u00e1veis pelo eleitorado. A divis\u00e3o entre a milit\u00e2ncia de base que, inserida nos movimentos sociais buscava radicalizar as mobiliza\u00e7\u00f5es e as estrat\u00e9gias eleitorais predominantes na dire\u00e7\u00e3o, visando ganhar deputados, senadores, vereadores, prefeitos, governadores e, sobretudo, a presid\u00eancia da Rep\u00fablica foi se ampliando, com crescente predom\u00ednio desta \u00faltima.<\/p>\n<p>A transforma\u00e7\u00e3o do PT em um partido populista cl\u00e1ssico, com sucessivas concess\u00f5es \u00e0s classes dominantes em seus programas, permitiu que ele chegasse ao governo (mas n\u00e3o ao poder), sobretudo depois que Lula lan\u00e7ou a Carta aos Brasileiros, no segundo turno de 2002, documento que apontava para a manuten\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica econ\u00f4mica de FHC. No entanto, o resultado das elei\u00e7\u00f5es para o Congresso indicava que a direita seguia poderosa e Lula teve que governar em minoria.<\/p>\n<p>Esta dicotomia poderia ter sido resolvida se o PT tivesse uma vis\u00e3o populista reformista coerente. Lula e o PT n\u00e3o tiraram as consequ\u00eancias dos resultados eleitorais, onde o voto do partido para a C\u00e2mara ficou nos 25%, o da esquerda como um todo em uns 30%. Lula vence por uns 3,5% de margem sobre Serra, um voto marcado mais pela rejei\u00e7\u00e3o ao segundo governo FHC do que propriamente lulista e muito menos petista. O PT, se assumisse uma estrat\u00e9gia reformista, teria feito um governo em alian\u00e7a com as for\u00e7as de centro, em particular o PSDB e o PMDB. Para fazer a gest\u00e3o que fez, cheia de concess\u00f5es a for\u00e7as conservadoras e at\u00e9 da direita, como o agroneg\u00f3cio, ele n\u00e3o precisava de um governo puro sangue de esquerda, muito pelo contr\u00e1rio. Mas o PT preferiu uma constante guerrilha com a m\u00eddia e o Congresso, insistindo em testar propostas mais radicais, em geral para satisfazer a base do partido. Perdeu em quase todos os casos e, pouco a pouco, foi abandonando estes \u201cgestos\u201d mais \u00e0 esquerda e governando cada vez mais \u00e0 direita.<\/p>\n<p>O modus operandi do PT tamb\u00e9m foi se modificando ao longo deste per\u00edodo, quando sua pr\u00e1tica vai se tornando cada vez mais centrada em ganhar elei\u00e7\u00f5es e menos em fortalecer movimentos sociais. As campanhas eleitorais j\u00e1 n\u00e3o dirigidas por quadros pol\u00edticos, mas pelos cada vez mais incontorn\u00e1veis marqueteiros. A mensagem passa a ser menos importante do que a forma adotada para transmiti-la. Os temas priorit\u00e1rios passam a ser definidos pelas pesquisas de opini\u00e3o, assim como o comportamento dos candidatos. Com isso, o PT e o resto da esquerda parlamentar v\u00e3o se dissolvendo na gel\u00e9ia geral do eleitoralismo.<\/p>\n<p>A vida interna do partido tamb\u00e9m vai ficando cada vez mais parecida com a dos partidos em geral, com manipula\u00e7\u00e3o de elei\u00e7\u00f5es internas, distribui\u00e7\u00e3o de cargos, cria\u00e7\u00e3o de verdadeiras \u201ccapitanias\u201d sob controle de dirigentes inamov\u00edveis. A milit\u00e2ncia de base envelheceu e se aposentou ou se decepcionou e se afastou. \u00c9 claro que continuam presentes nas fileiras do PT militantes de base ativos em seus movimentos, mas enquanto for\u00e7a pol\u00edtica interna eles perderam o embate e, hoje, os tra\u00e7os que definem o partido s\u00e3o outros: a luta pela reelei\u00e7\u00e3o em todos os n\u00edveis, o que garante um espa\u00e7o de privil\u00e9gios para uns poucos e o abandono cada vez mais escancarado de uma vis\u00e3o de transforma\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o a hist\u00f3ria se repete. A rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as pol\u00edtica limitou o reformismo do governo que acabou mantendo as grandes linhas da economia herdadas do neoliberalismo pessedebista, temperado com programas sociais importantes frente \u00e0s car\u00eancias dos mais pobres, mas sem tocar nas quest\u00f5es essenciais, em particular a \u00eanfase no apoio ao agroneg\u00f3cio em franca expans\u00e3o enquanto a agricultura familiar foi perdendo espa\u00e7os.<\/p>\n<p>Com o PT no governo, os movimentos sociais (uma base essencial para suas vit\u00f3rias eleitorais) foram sendo desmobilizados, quer pela convoca\u00e7\u00e3o de muitos dirigentes para compor a burocracia de Estado, quer pelo mecanismo de coopta\u00e7\u00e3o pela participa\u00e7\u00e3o de seus representantes nos in\u00fameros conselhos (consultivos) criados pelo governo. As lutas reivindicat\u00f3rias foram substitu\u00eddas por negocia\u00e7\u00f5es nos gabinetes e os movimentos se desarmaram ao longo dos 14 anos da esquerda no governo. O resultado vis\u00edvel foi a quase indiferen\u00e7a ao impeachment de Dilma e \u00e0 pr\u00f3pria pris\u00e3o do Lula, reduzida \u00e0s apaixonadas manifesta\u00e7\u00f5es dos poucos milhares que assistiram ao desfecho dram\u00e1tico no sindicato de S\u00e3o Bernardo.<\/p>\n<p>O PT e a esquerda em geral n\u00e3o se deram conta da armadilha deixada pelo sistema eleitoral herdado do regime militar, que deu um peso desproporcional ao voto dos \u201crinc\u00f5es\u201d, politicamente mais atrasados, criando um descompasso entre a vota\u00e7\u00e3o para presidente e a vota\u00e7\u00e3o para o Congresso, problema que persiste at\u00e9 hoje. No entanto, a depend\u00eancia dos mais pobres dos programas sociais gerou uma mudan\u00e7a no apoio eleitoral do PT e do pr\u00f3prio Lula, com os rinc\u00f5es fidelizados (at\u00e9 recentemente) e o voto urbano, inclusive das bases oper\u00e1rias, se perdendo. E com a entrada do pentecostalismo na pol\u00edtica atraindo os setores mais pobres da popula\u00e7\u00e3o para um voto conservador.<\/p>\n<p>Voltando ao tema da proposta do governo Lula III, temos que concluir que n\u00e3o temos um programa de reformas econ\u00f4micas e sociais sendo executado. As iniciativas do governo est\u00e3o totalmente centradas na busca de popularidade e votos e toda e qualquer considera\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica sobre os rumos do pa\u00eds j\u00e1 foi sacrificada.<\/p>\n<p>Por outro lado, a proposta de desenvolvimento adotada pelos governos populares ficou intocada, no essencial. A esquerda continua buscando o crescimento econ\u00f4mico tal como ele sempre foi, apenas visando, em bom reformismo, uma melhor distribui\u00e7\u00e3o de renda. Este desenvolvimentismo tosco ignorou a nova realidade mundial que vem impondo a necessidade de se reorientar a economia para enfrentar os novos desafios da sustentabilidade. A quest\u00e3o ambiental, em particular, continuou sendo vista como um empecilho ao desenvolvimento e deixada de lado a cada impasse.<\/p>\n<p>Para neutralizar inimigos ou atrair aliados, o governo esquece tudo: as crises ambientais que nos afligem e anunciam amea\u00e7as catastr\u00f3ficas, a desindustrializa\u00e7\u00e3o da economia, a fragiliza\u00e7\u00e3o dos direitos sociais, e a uberiza\u00e7\u00e3o do trabalho, o esgotamento paulatino e inescap\u00e1vel das fontes f\u00f3sseis de energia, entre outros.<\/p>\n<p>A aposta do governo est\u00e1 toda colocada em aumentar o PIB, a renda e o emprego, seja como for. E as estat\u00edsticas parecem indicar que est\u00e1 ganhando. Este sucesso, entretanto, n\u00e3o est\u00e1 sendo convertido em aumento de apoio ao governo. O PIB aumenta (contra a torcida da oposi\u00e7\u00e3o, da grande m\u00eddia e das redes sociais) moderadamente, mas o aumento deste \u00edndice n\u00e3o significa por si s\u00f3 melhores condi\u00e7\u00f5es de vida para a popula\u00e7\u00e3o e sim mais lucros para os rentistas e capitalistas, sobretudo os do agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Os \u00edndices favor\u00e1veis t\u00eam dependido do crescimento das exporta\u00e7\u00f5es agropecu\u00e1rias e de min\u00e9rios, sem efeito para a popula\u00e7\u00e3o. O emprego cresce, sobretudo, na economia informal (com\u00e9rcio e servi\u00e7os) e a renda, inclusive a que depende dos programas sociais, est\u00e1 sendo corro\u00edda pela infla\u00e7\u00e3o de alimentos (para a qual o governo n\u00e3o tem proposta) e pelos gastos nos BETs, o que j\u00e1 torna endividados 75% dos brasileiros adultos. Por outro lado, os servi\u00e7os p\u00fablicos de educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade est\u00e3o sucateados, a fila do INSS duplicou desde o advento de Lula III e o problema de seguran\u00e7a se agrava dia a dia e a popula\u00e7\u00e3o acha, erradamente, que a culpa \u00e9 do governo federal.<\/p>\n<p>A tentativa de tratar a perda de popularidade como um problema de comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 um equ\u00edvoco grave. Por mais brilhantes que tenham sido as mensagens de alguns deputados e deputadas defendendo narrativas insustent\u00e1veis, o resultado foi p\u00edfio, desde o caso das blusinhas, o do pix, o das aposentadorias e o do IOF.<\/p>\n<p>Para fechar o caix\u00e3o s\u00f3 falta lembrar que o governo apostou na lideran\u00e7a ambientalista internacional, a ser capitalizada na COP30. No entanto, est\u00e1 vendo ser desmentida a narrativa da diminui\u00e7\u00e3o dos desmatamentos com o an\u00fancio recente do aumento exponencial das queimadas em 2024, com efeitos ainda mais delet\u00e9rios. Tamb\u00e9m est\u00e1 pegando mal, entre os ambientalistas aqui e no resto do mundo, a press\u00e3o bruta, do governo, da Petrobras e do pr\u00f3prio Lula sobre o Ibama e sobre a ministra Marina Silva, visando liberar a explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo na Margem Equatorial. O an\u00fancio da ades\u00e3o do Brasil ao bloco negacionista OPEP+ deixou os admiradores do Lula em toda parte boquiabertos e desapontados. E, apesar de n\u00e3o ter sido uma proposta governamental, est\u00e1 claro que o governo e o PT negociaram com Alcolumbre a aprova\u00e7\u00e3o do PL dito \u201cda devasta\u00e7\u00e3o\u201d, o que derruba praticamente todo o licenciamento ambiental. Depois de ter deixado Marina exposta na cova das hienas do Senado, v\u00e1rios membros do governo e do PT, inclusive o pr\u00f3prio presidente, se solidarizaram com Marina, repudiando os ataques mis\u00f3ginos e racistas, mas sem explicar como foi que a deixaram nesta situa\u00e7\u00e3o, lutando sozinha contra a barb\u00e1rie. E a solidariedade se resume \u00e0 forma do embate dos senadores com a ministra, sem uma palavra sobre os elementos substantivos do lit\u00edgio.<\/p>\n<p>E, por fim, mas n\u00e3o por \u00faltimo, a COP30 pode ter que ser deslocada para outro pa\u00eds devido \u00e0s prec\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es de infraestrutura de Bel\u00e9m para receber 50 mil pessoas para o evento. Ou, pior ainda, fazer o evento sem condi\u00e7\u00f5es e sucumbir em um desastre organizativo sob o olhar da imprensa nacional e internacional.<\/p>\n<p>O governo de coaliz\u00e3o de mentirinha tem a maioria da base se preparando para desembarcar e montar uma chapa de direita ou de extrema direita, com ou sem a fam\u00edlia Bolsonaro \u00e0 frente. Cada movimento do governo est\u00e1 sendo derrubado no Congresso, nas redes sociais e na m\u00eddia convencional. Tudo isso sem rea\u00e7\u00e3o da sociedade onde grassa a desmobiliza\u00e7\u00e3o e o des\u00e2nimo.<\/p>\n<p>Enquanto isso, os partidos de esquerda est\u00e3o se voltando para as elei\u00e7\u00f5es do ano que vem, sem um programa a apresentar que mobilize a sociedade. O que ocupa o espa\u00e7o s\u00e3o as disputas pelas candidaturas a governador ou senador. E, se Lula resolver pedir o bon\u00e9 e ir para casa, a esquerda vai se estra\u00e7alhar na escolha do candidato substituto.<\/p>\n<p>A \u201cmosca\u201d est\u00e1 se debatendo, inclusive com muito \u201cfogo amigo\u201d atingindo a Janja ou o Haddad, e a cada arranco fica mais enrolado na teia.<\/p>\n<p>No quadro presente, estamos reduzidos a um est\u00e9ril debate dentro da esquerda sobre a inconveni\u00eancia (\u00e0s vezes qualificada de erro t\u00e1tico ou at\u00e9 de trai\u00e7\u00e3o) de se criticar o Lula ou o governo, \u201cdando for\u00e7a ao bolsonarismo\u201d. E se a esquerda no governo n\u00e3o tem mais proposta nem programa para o pa\u00eds, a que est\u00e1 fora dele tamb\u00e9m n\u00e3o tem, sen\u00e3o de forma fragmentada.<\/p>\n<p>Os movimentos identit\u00e1rios t\u00eam seus programas espec\u00edficos at\u00e9 bem claros, bem como os ambientalistas. Falta, contudo, uma vis\u00e3o de conjunto das exig\u00eancias do momento hist\u00f3rico, da humanidade e do nosso. E sem uma vis\u00e3o clara do futuro que nos amea\u00e7a e das propostas urgentes a serem implementadas para minorar as cat\u00e1strofes em perspectiva, o eleitorado vai votar em quem for mais h\u00e1bil em prometer o c\u00e9u uma vez no executivo federal e em quem for mais esperto em prometer uma obra municipal qualquer, com recursos das emendas parlamentares.<\/p>\n<p>E, para terminar, o que o Lula poderia ter feito em seu governo? Ignorar o Congresso e mobilizar as massas para pression\u00e1-lo? N\u00e3o creio que, com tal postura, Lula durasse muito tempo sem ser impichado, mas a alternativa posta em pr\u00e1tica neste governo tamb\u00e9m leva para o desastre e perda das elei\u00e7\u00f5es. No entanto, faria muita diferen\u00e7a cair defendendo pol\u00edticas importantes e claras para o povo ou cair enrolado como mosca na teia de aranha, desacreditado e s\u00f3.<\/p>\n<p>Neste quadro calamitoso n\u00e3o existem sa\u00eddas, sobretudo se centradas no eixo exclusivo de uma vit\u00f3ria eleitoral. Sem um partido pol\u00edtico capaz de polarizar o processo de formula\u00e7\u00e3o de uma proposta de desenvolvimento sustent\u00e1vel, com participa\u00e7\u00e3o da sociedade civil, a \u00fanica possibilidade \u00e9 a mobiliza\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma desta sociedade civil.<\/p>\n<p>Um dos fatos pol\u00edticos mais importantes da atualidade \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o milhares de grupos de interesse, cobrindo todos os aspectos da vida econ\u00f4mica, social, cultural e pol\u00edtica nestas \u00faltimas d\u00e9cadas, espalhados por todo os territ\u00f3rios do pa\u00eds. Propostas aprofundadas e bem elaboradas abundam, embora ainda segmentadas. Est\u00e1 na hora de se buscar a articula\u00e7\u00e3o de todos estes grupos fragmentados na constru\u00e7\u00e3o de um projeto de pa\u00eds, come\u00e7ando pela ado\u00e7\u00e3o de um programa de desenvolvimento que abandone o modelo dominante e responda aos desafios das crises que nos assolam e se avolumam a cada ano que passa. Um programa deste tipo implica na busca da ruptura com o sistema capitalista, apontando para um regime socialista e democr\u00e1tico. Todo este processo, mesmo se ele conseguir se organizar, dificilmente dar\u00e1 conta de ganhar as elei\u00e7\u00f5es de 2026, mas precisamos romper o impasse em que nos encontramos hoje, presos na teia de lutar para manter um governo dito de esquerda, mas que perpetua o modelo social e econ\u00f4mico dominante, com todo o seu coro de impactos desastrosos.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso aprender que n\u00e3o basta ir para o governo, \u00e9 preciso ter o apoio pol\u00edtico necess\u00e1rio para fazer o que \u00e9 preciso. \u00c9 uma ilus\u00e3o achar que se pode ganhar elei\u00e7\u00f5es com estrat\u00e9gias eleitoreiras e governar com uma agenda \u201coculta\u201d radicalizada.<\/p>\n<p>Como dizia Mujica, \u201cm\u00e1s importante que vencer es convencer\u201d.<\/p>\n<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Foto: Jonas Pereira\/Ag\u00eancia Senado Boletim Outras Palavras Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site Assinar Loading&#8230; Assinar Loading&#8230; Agradecemos! Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura! 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