{"id":33390,"date":"2025-06-13T15:55:42","date_gmt":"2025-06-13T18:55:42","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/dostoievski-e-blanchot-o-instante-da-propria-morte\/"},"modified":"2025-06-13T15:55:42","modified_gmt":"2025-06-13T18:55:42","slug":"dostoievski-e-blanchot-o-instante-da-propria-morte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/dostoievski-e-blanchot-o-instante-da-propria-morte\/","title":{"rendered":"Dostoi\u00e9vski e Blanchot: O instante da pr\u00f3pria morte"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"995\" height=\"653\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Screenshot-2025-06-13-at-15-51-16-MV5BN2Q4MTI5MzctY2FmMC00N2JhLWI5ZTItYWExNDEwZDMzZDhlXkEyXkFqcGc_V1_jpg-imagem-JPEG-1000-655-pixels.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Screenshot-2025-06-13-at-15-51-16-MV5BN2Q4MTI5MzctY2FmMC00N2JhLWI5ZTItYWExNDEwZDMzZDhlXkEyXkFqcGc_V1_jpg-imagem-JPEG-1000-655-pixels.png 995w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Screenshot-2025-06-13-at-15-51-16-MV5BN2Q4MTI5MzctY2FmMC00N2JhLWI5ZTItYWExNDEwZDMzZDhlXkEyXkFqcGc@._V1_.jpg-imagem-JPEG-1000-\u00d7-655-pixels-300x197.png 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Screenshot-2025-06-13-at-15-51-16-MV5BN2Q4MTI5MzctY2FmMC00N2JhLWI5ZTItYWExNDEwZDMzZDhlXkEyXkFqcGc@._V1_.jpg-imagem-JPEG-1000-\u00d7-655-pixels-768x504.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 995px) 100vw, 995px\"><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>O instante do encontro entre a vida e a morte, ou melhor, da pr\u00f3pria morte com a morte que vem de fora, \u00e9 intraduz\u00edvel. Maurice Blanchot, membro ativo da Resist\u00eancia Francesa sob a ocupa\u00e7\u00e3o nazista durante a Segunda Grande Guerra, presenciou em 1944 o que para ele se tornou um instante intermin\u00e1vel. O mesmo se passou com Dostoi\u00e9vski, quase cem anos antes, ap\u00f3s se ver enredado pelo poder soberano do czar Nicolau I. Diante de Blanchot, o pelot\u00e3o de fuzilamento nazista; de Dostoi\u00e9vski, as armas enfileiradas das tropas do czar.<\/p>\n<p>Em 1849, Dostoi\u00e9vski foi detido pelas for\u00e7as do imperador russo devido \u00e0 sua participa\u00e7\u00e3o no chamado \u201cC\u00edrculo Petrash\u00e9vski\u201d (grupo de intelectuais revolucion\u00e1rios radicais reunidos em torno da figura de Mikhail Petrash\u00e9vski). Sob a acusa\u00e7\u00e3o de conspirar contra a ordem pol\u00edtica do czar Nicolau I, ele recebeu de dentro da fortaleza russa S\u00e3o Pedro e S\u00e3o Paulo, localizada em S\u00e3o Petersburgo, a condena\u00e7\u00e3o \u00e0 morte por fuzilamento em pra\u00e7a p\u00fablica. Quando reunidos na pra\u00e7a, a execu\u00e7\u00e3o dos prisioneiros foi suspensa. Como se soube depois, tudo n\u00e3o passou de uma grande farsa orquestrada pelo pr\u00f3prio Nicolau I, cujo objetivo era lucrar politicamente com a puni\u00e7\u00e3o implac\u00e1vel dos grupos revolucion\u00e1rios e, ao mesmo tempo, com o gesto final de benevol\u00eancia soberana. No instante da execu\u00e7\u00e3o, as armas j\u00e1 apontadas na dire\u00e7\u00e3o dos prisioneiros, um rufar de tambores: o czar ordenou a retirada das tropas e concedeu o perd\u00e3o da pena capital. Esta foi, ent\u00e3o, convertida em ex\u00edlio, reclus\u00e3o e trabalho for\u00e7ado na Sib\u00e9ria, onde Dostoi\u00e9vski permaneceu por dez anos ininterruptos. Blanchot, por sua vez, por muito pouco conseguiu escapar da execu\u00e7\u00e3o sum\u00e1ria por entre as m\u00e3os do ex\u00e9rcito nazista.<\/p>\n<p>Paradoxalmente, o fato de n\u00e3o terem sido atingidos pelas armas de fogo, conseguindo escapar no momento final, os fizeram para sempre cativos dos efeitos provocados pela certeza desse instante em que a sensa\u00e7\u00e3o do encontro com a morte se fez presente. Para os dois escritores, a impossibilidade de representa\u00e7\u00e3o de um tempo que se situa de certo modo <em>fora<\/em> do tempo acabou por instigar pela via da narrativa liter\u00e1ria o testemunho de uma profunda transforma\u00e7\u00e3o. O car\u00e1ter testemunhal materializado na escrita, registro concreto do evento limiar, responde pela sobreviv\u00eancia daquilo que, n\u00e3o podendo existir, encontra na palavra um lugar de morada, ainda que inst\u00e1vel e para sempre provis\u00f3ria.<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/poeticas\/dostoievski-e-blanchot\/#_ftn1\">[1]<\/a>\u00a0\u00a0<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/apoia.se\/outraspalavras\" aria-label=\"MAT\u00c9RIA-2\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/MATERIA-2-3.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/MATERIA-2-3.png 681w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-2-300x75.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 681px) 100vw, 681px\" width=\"681\" height=\"171\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>Pelo menos em dois de seus romances, <em>Crime e Castigo<\/em> e <em>O idiota<\/em>, Dostoi\u00e9vski toma de empr\u00e9stimo a fala de seus personagens para mais uma vez tentar narrar a experi\u00eancia da iminente execu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Rask\u00f3lnikov, em <em>Crime e Castigo<\/em>:<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cOnde foi\u201d, pensou Rask\u00f3lnikov, enquanto caminhava adiante, \u201conde foi que eu li que um homem condenado \u00e0 morte, uma hora antes de morrer, fala ou pensa que, se fosse obrigado a viver em algum lugar elevado, num penhasco, e numa \u00e1rea muito estreita, onde s\u00f3 tivesse espa\u00e7o para apoiar os p\u00e9s, e em redor s\u00f3 houvesse abismos, o oceano, a escurid\u00e3o eterna, a solid\u00e3o eterna e uma tempestade eterna, e tivesse de ficar de p\u00e9, assim, num espa\u00e7o de um <em>archin<\/em> a vida inteira, mil anos, a eternidade, ainda seria melhor viver desse jeito do que morrer j\u00e1! Bastava viver, viver, viver! N\u00e3o importa como, mas apenas viver!\u2026 Como isso \u00e9 verdadeiro! Meu Deus, como isso \u00e9 verdadeiro!<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/poeticas\/dostoievski-e-blanchot\/#_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A refer\u00eancia liter\u00e1ria de Rask\u00f3lnikov, a do protagonista do romance <em>O idiota, o <\/em>Pr\u00edncipe M\u00edchkin, personagem que tamb\u00e9m narra experi\u00eancia semelhante, e a do pr\u00f3prio Dostoi\u00e9vski, que se debateu com o mist\u00e9rio da morte no instante de sua condena\u00e7\u00e3o, remonta ao livro de Victor Hugo, <em>O \u00faltimo dia de um condenado<\/em>. Esse fato crucial na vida do escritor russo \u00e9 mais um daqueles casos em que a literatura e sua capacidade de dizer o indiz\u00edvel empresta sua voz no momento agudo em que o real traum\u00e1tico \u2013 para Dostoi\u00e9vski, \u201cum terror m\u00edstico\u201d \u2013 produz um rasgo na rede simb\u00f3lica e imagin\u00e1ria do sujeito. Segundo o registro do bi\u00f3grafo Joseph Frank:\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n<blockquote>\n<p>Liov, que estava com ele no pat\u00edbulo, escreveu entre 1859 e 1861 que \u201cDostoi\u00e9vski estava bastante agitado, lembrou-se de <em>O \u00faltimo dia na vida de um condenado<\/em>, de Victor Hugo e, aproximando-se de Spi\u00e9chniev, disse: <em>Nous serons avec le Christ<\/em>.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Em carta enviada da pris\u00e3o para o irm\u00e3o Mikhail logo ap\u00f3s o desfecho da farsa macabra no centro da pra\u00e7a Semenovski \u2013 e a consequente convers\u00e3o da pena \u2013, Dostoi\u00e9vski diz:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Quando olho para o meu passado e penso em quanto tempo perdi com nada, quanto tempo perdi em futilidades, erros, ociosidade, incapacidade de viver; como lhe dei pouco valor, quantas vezes pequei contra meu cora\u00e7\u00e3o e minha alma \u2014 ent\u00e3o meu cora\u00e7\u00e3o sangra. A vida \u00e9 uma d\u00e1diva, a vida \u00e9 felicidade, cada minuto pode ser uma eternidade de felicidade! <em>Si jeunesse savait<\/em>! Agora, ao mudar minha vida, renas\u00e7o numa nova forma, Irm\u00e3o! Juro que n\u00e3o vou perder a esperan\u00e7a e manterei minha alma e meu cora\u00e7\u00e3o puros. Renascerei para melhor. Essa \u00e9 toda a minha esperan\u00e7a, todo o meu consolo!<\/p>\n<p>Vida \u00e9 vida em qualquer lugar a vida est\u00e1 em n\u00f3s mesmos, n\u00e3o no exterior. Terei seres humanos ao meu redor [na Sib\u00e9ria], e ser um homem entre homens e continuar a s\u00ea-lo sempre, n\u00e3o perder o \u00e2nimo e n\u00e3o desistir, a despeito do infort\u00fanio que possa ocorrer \u2014 isso \u00e9 a vida, essa \u00e9 a tarefa dela, cheguei \u00e0 consci\u00eancia disso. Essa ideia entrou em minha carne e em meu sangue.<\/p>\n<p>Mas ainda tenho o meu cora\u00e7\u00e3o e a mesma carne e o mesmo sangue, que tamb\u00e9m podem viver, sofrer, desejar e lembrar, e isso, afinal, tamb\u00e9m \u00e9 vida. <em>On voit le soleil!<\/em><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/poeticas\/dostoievski-e-blanchot\/#_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Joseph Frank n\u00e3o deixa de destacar que esta \u00faltima frase, \u201cV\u00ea-se o sol\u201d, remete a um fragmento da obra de Hugo, quando o \u201chomem condenado\u201d, enquanto aguarda a execu\u00e7\u00e3o na guilhotina, reafirma a vida diante de sua iminente extin\u00e7\u00e3o. Era essa uma das vozes que invadiu o esp\u00edrito do escritor na experi\u00eancia de sua pr\u00f3pria condena\u00e7\u00e3o \u00e0 morte.<\/p>\n<p>\u00daltimo livro de Maurice Blanchot, a narrativa <em>O instante da minha morte<\/em> foi publicada pela primeira vez em 1994, cinquenta anos depois de sua \u201cexperi\u00eancia inexperienciada\u201d<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/poeticas\/dostoievski-e-blanchot\/#_ftn4\">[4]<\/a> de quase morte. O evento narrado se situa no contexto da chegada dos Pa\u00edses Aliados em solo franc\u00eas e das seguidas derrotas do ex\u00e9rcito alem\u00e3o, que lutava \u201cem v\u00e3o com uma ferocidade in\u00fatil\u201d. Um \u201cjovem homem\u201d \u00e9 capturado por soldados liderados por um \u201ctenente nazi\u201d e logo posto contra um muro branco, sob o alvo das armas que aguardavam a ordem de disparo. No entanto, a intrus\u00e3o dos ru\u00eddos da guerra no interior da cena cuja dura\u00e7\u00e3o infinita demorava no cora\u00e7\u00e3o do personagem, adiou sua execu\u00e7\u00e3o: a batalha que se aproximava perturbou a determina\u00e7\u00e3o assassina do \u201ctenente nazi\u201d desviando sua aten\u00e7\u00e3o. O jovem homem conseguiu, enfim, se afastar.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Sei \u2013 saberia mesmo eu \u2013 que aquele que os Alem\u00e3es j\u00e1 tinham na mira, n\u00e3o esperando sen\u00e3o a ordem final, experimentou ent\u00e3o um sentimento de extraordin\u00e1ria leveza, uma esp\u00e9cie de beatitude (nada, por\u00e9m, que se parecesse com felicidade) \u2013 alegria soberana? O encontro da morte com a morte?<\/p>\n<p>No seu lugar, n\u00e3o tentarei analisar este sentimento de leveza. De repente, ele era talvez invenc\u00edvel. Morto \u2013 imortal. Talvez o \u00eaxtase. Ou antes o sentimento de compaix\u00e3o pela humanidade sofredora, a felicidade de n\u00e3o ser imortal nem eterno. Doravante, ficou ligado \u00e0 morte, por uma amizade sub-rept\u00edcia.<\/p>\n<p>[\u2026]<\/p>\n<p>Permanecia, todavia, como no momento em que o fuzilamento estava iminente, o sentimento de leveza que n\u00e3o conseguirei traduzir: liberto da vida? o infinito que se abre? Nem felicidade, nem infelicidade. Nem a aus\u00eancia de temor e j\u00e1 o passoal\u00e9m. Sei, imagino que este sentimento inanalis\u00e1vel mudou o que lhe restava de exist\u00eancia. Como se a morte fora dele n\u00e3o pudesse doravante sen\u00e3o combater a morte nele. \u201cEstou vivo. N\u00e3o, voc\u00ea est\u00e1 morto.\u201d<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/poeticas\/dostoievski-e-blanchot\/#_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O ato de \u201cinscri\u00e7\u00e3o\u201d do instante de quase morte no relato de Blanchot exp\u00f5e um limiar indissol\u00favel entre o testemunho e a fic\u00e7\u00e3o. \u00c0 voz do narrador, o homem que rememora o vivido muitos anos depois, juntam-se a experi\u00eancia narrada, o jovem homem na mira das armas dos soldados enfileirados<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/poeticas\/dostoievski-e-blanchot\/#_ftn6\">[6]<\/a>, e a presen\u00e7a ausente do pr\u00f3prio autor, que endere\u00e7a ao p\u00fablico sua escrita liter\u00e1ria. O homem sabe \u2013 \u201ctalvez\u201d ainda saiba o que se passou \u2013 ao mesmo tempo em que imagina (\u201cSei, imagino\u2026\u201d) o que teria se passado na pele do jovem homem. O teor testemunhal da escrita de Blanchot nos faz saber que o jovem homem que um dia ele realmente foi e aquele \u201coutro\u201d que ele ainda o \u00e9 est\u00e3o, a despeito de um desencontro irremedi\u00e1vel, condenados a se refletirem indefinidamente. Um n\u00e3o pode jamais substituir o outro; e a s\u00edntese conjuntiva operada pelo Eu deve sempre fracassar: \u201cEstou vivo. N\u00e3o, voc\u00ea est\u00e1 morto.\u201d<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/circuito.ubueditora.com.br\/\" aria-label=\"circuito3anos-banner_outraspalavras\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/circuito3anos-banner_outraspalavras-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/circuito3anos-banner_outraspalavras-1.jpg 729w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/circuito3anos-banner_outraspalavras-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 729px) 100vw, 729px\" width=\"729\" height=\"90\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>O des\/encontro dessas linhas temporais no corpo da narrativa e o seu fracasso em decidir-se ora sobre uma (fic\u00e7\u00e3o), ora sobre outra (autofic\u00e7\u00e3o), testemunha a presen\u00e7a irredut\u00edvel de \u201cum sentimento inanalis\u00e1vel\u201d. Algo de indistinto, um \u201cinstante indivis\u00edvel\u201d que resiste no \u00e2mago de todo ato testemunhal, como sugere Derrida, permanece entre as linhas do texto e alimenta o jogo indeterminado, indecid\u00edvel, que atravessa a escrita de Blanchot. O que passou n\u00e3o passa no esp\u00edrito do escritor: \u201cApenas permanece o sentimento de leveza que \u00e9 a morte mesma ou, dizendo mais precisamente, o instante da minha morte doravante sempre em inst\u00e2ncia.\u201d<\/p>\n<p><strong>* * *<\/strong><\/p>\n<p>A resson\u00e2ncia entre os relatos de Dostoi\u00e9vski e de Blanchot s\u00e3o incalcul\u00e1veis, valendo tamb\u00e9m para o primeiro a constata\u00e7\u00e3o de que \u201co sentimento inanalis\u00e1vel mudou o que lhe restava de exist\u00eancia.\u201d Atrav\u00e9s da escrita, a unicidade de cada um dos dois acontecimentos extrapola o instante para sempre inalcan\u00e7\u00e1vel e alcan\u00e7a, ao menos, a capacidade de um dizer pass\u00edvel de universaliza\u00e7\u00e3o. Um encontro poss\u00edvel entre os dois se realiza na medida em que o intraduz\u00edvel exige, como condi\u00e7\u00e3o de possibilidade, o esfor\u00e7o de sua tradu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Notas:<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/poeticas\/dostoievski-e-blanchot\/#_ftnref1\">[1]<\/a> \u2013 Ver a reflex\u00e3o de Jacques Derrida sobre a narrativa de Blanchot: <em>Demorar. Maurice Blanchot.<\/em> Florian\u00f3pilis: Editora Ufsc, 2015.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/poeticas\/dostoievski-e-blanchot\/#_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> \u2013 Crime e Castigo. S\u00e3o Paulo: Todavia, 2019.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/poeticas\/dostoievski-e-blanchot\/#_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> \u2013 Frank, Joseph. Dostoi\u00e9vski: Um escritor em seu tempo. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2018.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/poeticas\/dostoievski-e-blanchot\/#_ftnref4\">[4]<\/a> \u2013 Conceito desenvolvido por Jacques Derrida em sua leitura seminal do texto de Blanchot: \u201cO que pode significar uma experi\u00eancia inexperienciada? Como experiment\u00e1-la? Enfim morrer vai se tornar poss\u00edvel \u2013 tanto quanto interdito. Todo vivente tem uma rela\u00e7\u00e3o imposs\u00edvel com a morte; no instante da morte, o imposs\u00edvel vai se tornar poss\u00edvel como imposs\u00edvel.\u201d <em>Demorar: Maurice Blanchot.<\/em> Trad. Carla Rodrigues e Fl\u00e1via Tr\u00f3coli. Florian\u00f3polis: Ed. Ufsc, 2015. A leitura que segue \u00e9 inspirada no ensaio de Derrida.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/poeticas\/dostoievski-e-blanchot\/#_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> \u2013 <em>L\u2019instant de ma mort. Maurice Blanchot.<\/em> Paris: Gallimard, 2002. Tradu\u00e7\u00e3o minha.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/poeticas\/dostoievski-e-blanchot\/#_ftnref6\">[6]<\/a> \u2013 No in\u00edcio da narrativa os soldados s\u00e3o nomeados como soldados alem\u00e3es. No entanto, logo ap\u00f3s a suspens\u00e3o da ordem de fogo contra o jovem homem, o leitor \u00e9 \u201cinformado\u201d que, na verdade, tratava-se de um ex\u00e9rcito russo, liderado pelo general Vlassov, traidor que se juntou aos alem\u00e3es durante a guerra. Num franc\u00eas \u201canormal\u201d, um dos homens enfileirados concede a salva\u00e7\u00e3o ao jovem homem, fazendo-lhe sinal para desaparecer ap\u00f3s dizes: \u201cN\u00f3s, n\u00e3o alem\u00e3es, russos.\u201d Mais uma trai\u00e7\u00e3o: desta vez o soldado russo traindo o \u201ctenente nazi\u201d alem\u00e3o e o general Vlassov.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Sem publicidade ou patroc\u00ednio, dependemos de voc\u00ea. 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