{"id":34875,"date":"2025-06-24T21:19:30","date_gmt":"2025-06-25T00:19:30","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/por-que-os-patroes-amam-robos\/"},"modified":"2025-06-24T21:19:30","modified_gmt":"2025-06-25T00:19:30","slug":"por-que-os-patroes-amam-robos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/por-que-os-patroes-amam-robos\/","title":{"rendered":"Por que os patr\u00f5es amam rob\u00f4s?"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1280\" height=\"1110\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/e93bde4d-05be-4421-94bb-06ebe779f06e-1-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/e93bde4d-05be-4421-94bb-06ebe779f06e-1-1.jpg 1280w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/e93bde4d-05be-4421-94bb-06ebe779f06e-1-1-300x260.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/e93bde4d-05be-4421-94bb-06ebe779f06e-1-1-768x666.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1280px) 100vw, 1280px\"><figcaption>Elektro, o rob\u00f4 da Westinghouse apresentado na Feira Mundial de Nova York de 1939. Com 2,13 metros de altura e pesando 120 quilos, <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Elektro\">segundo consta<\/a>, conseguia andar, falar (usando um toca-discos para reproduzir frases gravadas), \u201cfumar\u201d cigarros e inflar bal\u00f5es. \u00c9 considerado o primeiro rob\u00f4 humanoide da hist\u00f3ria<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Por <strong>Chris Tilly<\/strong>, na <a href=\"https:\/\/jacobinlat.com\/2025\/06\/la-automatizacion-no-tiene-por-que-significar-desempleo-y-miseria\/\"><em>Jacobin Am\u00e9rica Latina<\/em><\/a> | Tradu\u00e7\u00e3o: <strong>R\u00f4ney Rodrigues<\/p>\n<p><\/strong>O artigo a seguir \u00e9 uma resenha de <em>Labor\u2019s End: How the Promise of Automation Degraded Work<\/em> [O Fim do Trabalho: Como a Promessa da Automa\u00e7\u00e3o Degradou o Trabalho], de Jason Resnikoff (University of Illinois Press, 2021).<\/p>\n<p>A amea\u00e7a de que a automa\u00e7\u00e3o esteja destruindo um grande n\u00famero de empregos tem sido amplamente debatida recentemente. <em>Think tanks<\/em> respeit\u00e1veis, como a Brookings Institution e o McKinsey Global Institute, previram que a automa\u00e7\u00e3o eliminar\u00e1 dezenas de milh\u00f5es de empregos nos Estados Unidos nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas. A revista <em>The Atlantic<\/em> dedicou oito mil palavras a um artigo intitulado <em>\u201cUm Mundo Sem Trabalho\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>Em seu novo livro, <em>Labor\u2019s End: How the Promise of Automation Degraded Work<\/em> [O Fim do Trabalho: Como a Promessa da Automa\u00e7\u00e3o Degradou o Trabalho], o historiador do trabalho Jason Resnikoff nos lembra que j\u00e1 passamos por isso antes. Entre as d\u00e9cadas de 1940 e 1970, grande parte da intelectualidade estadunidense estava fascinada pela ideia de que a tecnologia eliminaria em pouco tempo a maior parte do trabalho manual. Alguns viam isso como um avan\u00e7o positivo, que acabaria com o trabalho pesado e daria in\u00edcio a uma era de abund\u00e2ncia e supera\u00e7\u00e3o da escassez, enquanto outros o consideravam uma amea\u00e7a iminente, exigindo medidas ousadas para salvaguardar o bem-estar das massas trabalhadoras. Mas todos, com poucas exce\u00e7\u00f5es, viam essa mudan\u00e7a como inevit\u00e1vel.<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/apoia.se\/outraspalavras\" aria-label=\"MAT\u00c9RIA-4\"><img decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/MATERIA-4-4.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/MATERIA-4-4.png 681w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-4-300x75.png 300w\" sizes=\"(max-width: 681px) 100vw, 681px\" width=\"681\" height=\"171\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>Mais de cinco d\u00e9cadas depois, os Estados Unidos ainda t\u00eam muito trabalho pesado, junto com escassez para muitos, abund\u00e2ncia para alguns e excesso para poucos. E ainda h\u00e1 muito trabalho manual, embora menos relacionado \u00e0 metalurgia e mais com atendimento ao cliente ou presta\u00e7\u00e3o de cuidados.<\/p>\n<p>Em <em>Labor\u2019s End<\/em>, Resnikoff argumenta que isso n\u00e3o deveria nos surpreender. A \u201cautoma\u00e7\u00e3o\u201d, afirma (colocando a palavra entre aspas ao longo do livro para enfatizar seu argumento), nunca consistiu em transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas que economizassem m\u00e3o de obra nos processos de produ\u00e7\u00e3o. Em vez disso, foi uma ideologia usada para ocultar a realidade crua de como as empresas estavam remodelando os locais de trabalho.<\/p>\n<p>Em primeiro plano, havia a vis\u00e3o de uma revolu\u00e7\u00e3o da efici\u00eancia que reduziria drasticamente ou at\u00e9 eliminaria a necessidade de trabalho humano em f\u00e1bricas, escrit\u00f3rios e lares. Nos bastidores, ocorria uma acelera\u00e7\u00e3o do ritmo de trabalho, a desqualifica\u00e7\u00e3o profissional e, em muitos casos, um aumento dos riscos ocupacionais, junto com outros ataques ao poder de negocia\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, como a terceiriza\u00e7\u00e3o para regi\u00f5es com sal\u00e1rios mais baixos.<\/p>\n<p>Os defensores da automa\u00e7\u00e3o venderam a ideia de que superar as limita\u00e7\u00f5es da natureza era o caminho para acabar com o trabalho prec\u00e1rio; seus cr\u00edticos aceitaram essa premissa, mas insistiram em uma distribui\u00e7\u00e3o mais justa dos empregos restantes e da produ\u00e7\u00e3o abundante trazida pelo avan\u00e7o tecnol\u00f3gico. Ambos, assim, desviaram a aten\u00e7\u00e3o das formas como o poder e a pol\u00edtica continuam a determinar a precariza\u00e7\u00e3o e o trabalho digno. Ser\u00e1 que a obsess\u00e3o atual pela automa\u00e7\u00e3o est\u00e1 repetindo esse desvio?<\/p>\n<p>Resnikoff rastreia a palavra \u201cautoma\u00e7\u00e3o\u201d at\u00e9 uma express\u00e3o usada em 1946 por D.S. Harder, vice-presidente de produ\u00e7\u00e3o da Ford. Como acontece com muitos termos de uso comum, outros afirmaram t\u00ea-lo inventado \u2013 particularmente o pioneiro da eletr\u00f4nica John Diebold em seu livro de 1952, <em>Automation: The Advent of the Automatic Factory [Automa\u00e7\u00e3o: O Surgimento da F\u00e1brica Automatizada] <\/em>.<\/p>\n<p>Grande parte da narrativa de <em>Labor\u2019s End<\/em> documenta como um grupo diversificado de figuras influentes abra\u00e7ou o conceito e alguma vers\u00e3o da vis\u00e3o que ele implicava: o soci\u00f3logo Daniel Bell, naturalmente, mas tamb\u00e9m o l\u00edder sindical Walter Reuther (United Auto Workers) e o cientista da computa\u00e7\u00e3o Norbert Wiener; os presidentes John F. Kennedy e Lyndon B. Johnson, mas tamb\u00e9m intelectuais radicais como Herbert Marcuse.<\/p>\n<p>Resnikoff apresenta essa cacofonia de vozes \u2013 junto com um n\u00famero menor de vozes dissidentes \u2013 alternando entre estudos de caso da implementa\u00e7\u00e3o da \u201cautoma\u00e7\u00e3o\u201d (na fabrica\u00e7\u00e3o de autom\u00f3veis, minera\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o, empacotamento de carne, trabalho de escrit\u00f3rio e tarefas dom\u00e9sticas) e debates intelectuais (\u201cA liberdade \u00e9 compat\u00edvel com o capitalismo industrial?\u201d, \u201cA classe trabalhadora ainda \u00e9 o agente da mudan\u00e7a industrial?\u201d), todos reformulados pela convic\u00e7\u00e3o de que o trabalho manual estava rapidamente se tornando coisa do passado.<\/p>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<p><em>Labor\u2019s End<\/em> oferece quatro contribui\u00e7\u00f5es especialmente not\u00e1veis para nossa compreens\u00e3o do trabalho nos EUA no final do s\u00e9culo XX, cada uma lan\u00e7ando luz sobre o trabalho atual. Primeiro, Resnikoff descreve habilmente o engano perpetrado pelos industriais americanos, que prometeram redu\u00e7\u00e3o da carga de trabalho gra\u00e7as \u00e0 tecnologia, mas na realidade aceleraram o ritmo de trabalho.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 uma ideia nova; o livro de Harry Braverman de 1974, <em>Labor and Monopoly Capital [Trabalho e Capital Monopolista]<\/em>, que mudou o rumo do debate, j\u00e1 expunha isso contundentemente, e Resnikoff cita v\u00e1rios trabalhos de historiadores do trabalho alinhados para construir seus estudos de caso. Mas este livro faz um excelente trabalho ao contrastar a ret\u00f3rica grandiloquente de executivos como Diebold com relatos em primeira m\u00e3o de oper\u00e1rios levados ao limite da exaust\u00e3o e funcion\u00e1rios administrativos lutando contra ansiedade, t\u00e9dio ou ambos.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, o livro estabelece conex\u00f5es provocativas entre o debate sobre automa\u00e7\u00e3o do final do s\u00e9culo XX e discuss\u00f5es duradouras sobre o trabalho ao longo da hist\u00f3ria dos EUA e do mundo. Thomas Jefferson e Alexander Hamilton travaram um famoso debate sobre a melhor forma de combinar prosperidade econ\u00f4mica com democracia e liberdade nos rec\u00e9m-independentes Estados Unidos da Am\u00e9rica.<\/p>\n<p>Jefferson, ironicamente um grande propriet\u00e1rio de terras e escravista, argumentava que a liberdade s\u00f3 poderia ser garantida em uma \u201crep\u00fablica de pequenos propriet\u00e1rios\u201d composta por pequenos agricultores e produtores independentes com recursos mais ou menos iguais, sob um governo limitado guiado pela delibera\u00e7\u00e3o entre esses pequenos propriet\u00e1rios.<\/p>\n<p>Hamilton insistia que o progresso econ\u00f4mico dependia da industrializa\u00e7\u00e3o e, portanto, de um governo maior que nutrisse e regulasse a ind\u00fastria, enquanto Jefferson temia que o desenvolvimento industrial levasse \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o do poder econ\u00f4mico e \u00e0 r\u00e9plica das \u201cf\u00e1bricas sat\u00e2nicas\u201d brit\u00e2nicas, criando uma classe trabalhadora miser\u00e1vel, ignorante e viciada.<\/p>\n<p>Karl Marx, naturalmente, via a resolu\u00e7\u00e3o desse conflito na tomada coletiva dos meios de produ\u00e7\u00e3o pela classe trabalhadora; e nas lutas trabalhistas militantes americanas dos anos 1930 e 1940, amplos setores da classe trabalhadora apoiaram alguma vers\u00e3o da receita de Marx para construir o poder dos trabalhadores.<\/p>\n<p>A ideologia da automa\u00e7\u00e3o, postula Resnikoff, sugeria alternativamente que a solu\u00e7\u00e3o estava em usar novas tecnologias dispon\u00edveis que eliminariam todos esses empregos manufatureiros empobrecidos e transformariam os trabalhadores em funcion\u00e1rios de escrit\u00f3rio limpos e agrad\u00e1veis.<\/p>\n<p>Mas Resnikoff argumenta que a automa\u00e7\u00e3o prometia resolver um dilema filos\u00f3fico ainda mais antigo. Arist\u00f3teles, ao observar que seres humanos precisam realizar trabalhos tediosos e dif\u00edceis para sobreviver, concluiu (refletindo a estrutura da sociedade grega antiga, dividida entre cidad\u00e3os e escravos) que aqueles de \u201cnatureza aristocr\u00e1tica\u201d, aptos a tomar decis\u00f5es importantes e ter pensamentos criativos, deveriam ser poupados de trabalhos indignos, enquanto seus inferiores, mais adequados ao trabalho \u00e1rduo, deveriam se especializar nisso.<\/p>\n<p>O discurso da automa\u00e7\u00e3o sugere, mais uma vez, que podemos nos livrar dos <em>morlocks<\/em> (trabalhadores subterr\u00e2neos) e nos tornar todos<em> elois <\/em>(a elite superficial). Enquanto executivos como Diebold insinuavam que isso aconteceria quase espontaneamente, pessimistas como Reuther e Willard Wirtz, secret\u00e1rio do Trabalho de Kennedy, insistiam que uma transi\u00e7\u00e3o bem-sucedida exigiria pol\u00edticas nacionais s\u00f3lidas para requalifica\u00e7\u00e3o e redistribui\u00e7\u00e3o dos dividendos da produtividade.<\/p>\n<p>Enquanto isso, conservadores tradicionalistas mantiveram-se fi\u00e9is ao esquema de Arist\u00f3teles, argumentando que o caminho para uma boa sociedade n\u00e3o estava em transcender o trabalho, mas em retornar a valores e hierarquias testados pelo tempo e abandonados na corrida pela modernidade.<\/p>\n<p>Um terceiro presente de<em> Labor\u2019s End<\/em> \u00e9 mostrar que grande parte da Nova Esquerda dos anos 1960 acreditou na narrativa de que a automa\u00e7\u00e3o levaria r\u00e1pida e inexoravelmente \u00e0 evapora\u00e7\u00e3o do trabalho industrial. As evid\u00eancias de Resnikoff incluem os escritos do neomarxista Marcuse, mas tamb\u00e9m do ecoanarquista Murray Bookchin e do intelectual socialista afro-americano Carl Boggs.<\/p>\n<p>Ainda mais convincente \u00e9 a imagem dos l\u00edderes do Students for a Democratic Society, Todd Gitlin e Tom Hayden, mobilizando seus membros para organizar as massas de trabalhadores deslocados, apenas para concluir, nas palavras frustradas de Gitlin, que \u201cfalhamos, e continuamos falhando, em demonstrar o impacto quantitativo da robotiza\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Por fim, Resnikoff estabelece paralelos interessantes entre as vis\u00f5es da esquerda sobre o futuro do trabalho e as cr\u00edticas feministas ao trabalho dom\u00e9stico. Em <em>A M\u00edstica Feminina<\/em>, a feminista liberal Betty Friedan afirmava que, embora o trabalho dom\u00e9stico j\u00e1 tivesse sido significativo, a automa\u00e7\u00e3o do lar havia usurpado a maioria dessas tarefas, deixando as donas de casa presas a um trabalho vazio.<\/p>\n<p>Por outro lado, a te\u00f3rica feminista radical Shulamith Firestone via a automa\u00e7\u00e3o como a poss\u00edvel salva\u00e7\u00e3o das mulheres. Defendia uma revolu\u00e7\u00e3o que \u201credistribu\u00edsse igualmente as tarefas pesadas, mas que finalmente as eliminasse completamente\u201d por meio da \u201crobotiza\u00e7\u00e3o\u201d das tarefas dom\u00e9sticas, incluindo a pr\u00f3pria maternidade.<\/p>\n<p>Em outras palavras, ambas autoras assumiam que a automa\u00e7\u00e3o poderia acabar com a necessidade de realizar tarefas dom\u00e9sticas pesadas. Claro, outro paralelo ideol\u00f3gico (que Resnikoff n\u00e3o menciona) \u00e9 que, mais uma vez, conservadores culturais e religiosos insistiam que a realiza\u00e7\u00e3o das mulheres n\u00e3o estava em automatizar tarefas dom\u00e9sticas para libert\u00e1-las para atividades mais estimulantes, mas em aceitar seu papel \u201cnatural\u201d.<\/p>\n<p>Os conservadores n\u00e3o foram os \u00fanicos dissidentes. Uma das teses mais fascinantes de<em> Labor\u2019s End<\/em> \u2013 mais um esbo\u00e7o que um argumento plenamente desenvolvido \u2013 \u00e9 que os principais l\u00edderes negros dos direitos civis, em vez de se distra\u00edrem com a perspectiva de que a automa\u00e7\u00e3o erradicasse os maus empregos, exigiram que a sociedade americana investisse mesmo nas tarefas mais humildes com valor social e recompensas econ\u00f4micas.<\/p>\n<p>Assim, Martin Luther King Jr. apoiou os trabalhadores do saneamento de Memphis em greve em 1968, argumentando que \u201ctodo trabalho tem dignidade\u201d. Na mesma \u00e9poca, o l\u00edder da National Welfare Rights Organization, Johnnie Tillmon, instou o presidente a proclamar que \u201co trabalho das mulheres \u00e9 trabalho real\u201d e afirmou que m\u00e3es deveriam receber um sal\u00e1rio digno por \u201cfazer o trabalho que j\u00e1 fazemos: criar os filhos e cuidar do lar\u201d.<\/p>\n<p>O livro de Resnikoff \u00e9 bem fundamentado e respaldado por amplas evid\u00eancias, mas \u00e0s vezes exagera. Talvez o exagero mais s\u00e9rio seja sua insinua\u00e7\u00e3o de que, pelo menos em grande parte, os gerentes instalaram novos equipamentos rotulados como \u201cautoma\u00e7\u00e3o\u201d simplesmente para alterar os velhos m\u00e9todos de produ\u00e7\u00e3o e impor acelera\u00e7\u00e3o, e que o aumento da efici\u00eancia nunca esteve na agenda.<\/p>\n<p>Em algumas passagens, ele admite que houve ganhos reais de produtividade \u2013 \u201cSim, a introdu\u00e7\u00e3o de m\u00e1quinas poderia reduzir a quantidade de m\u00e3o de obra necess\u00e1ria para produzir bens\u201d, reconhece na conclus\u00e3o -, mas essas concess\u00f5es podem passar despercebidas diante da enxurrada de argumentos contr\u00e1rios.<\/p>\n<p>No entanto, os aumentos de produtividade s\u00e3o reais e generalizados. Pense nas telecomunica\u00e7\u00f5es. Um experimento mental sugere que se cada chamada telef\u00f4nica (ou por Skype\/Zoom) exigisse que um ou mais operadores fizessem conex\u00f5es manuais em uma central, hoje far\u00edamos muito menos chamadas ou uma grande parte da for\u00e7a de trabalho global teria que trabalhar como operadores telef\u00f4nicos.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 preciso recorrer a um experimento mental quando minha pr\u00f3pria experi\u00eancia basta. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, passei de trabalhar em uma central telef\u00f4nica semiautomatizada (pressionando bot\u00f5es para direcionar chamadas) nos anos 1980, a visitar<em> call centers<\/em> com roteamento autom\u00e1tico nos anos 1990, a usar um discador autom\u00e1tico, Skype nos anos 2000 e Zoom nos anos 2010.<\/p>\n<p>O mesmo ocorre com a ind\u00fastria manufatureira. Como medida simples da produtividade no setor, podemos observar o valor agregado ajustado pela infla\u00e7\u00e3o por trabalhador manufatureiro ao longo do tempo, combinando dados do Bureau of Labor Statistics e do Bureau of Economic Analysis. Segundo meus c\u00e1lculos, essa medida da produ\u00e7\u00e3o por trabalhador manufatureiro mais que dobrou entre 1947 e 1974, e dobrou novamente entre 1974 e 1997.<\/p>\n<p>Parte disso se deve a mudan\u00e7as na composi\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria manufatureira (menos confec\u00e7\u00e3o de roupas e mais fabrica\u00e7\u00e3o de microchips ao longo do tempo, conforme mudava a divis\u00e3o global do trabalho), e parte pode dever-se \u00e0 acelera\u00e7\u00e3o que Resnikoff destaca, mas a maior parte reflete sem d\u00favida tecnologias mais produtivas. Na montagem de autom\u00f3veis, o exemplo favorito de Resnikoff, rob\u00f4s assumiram uma parcela crescente do trabalho antes feito por humanos desde os anos 1980. Padr\u00f5es similares s\u00e3o observados na siderurgia e minera\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o, onde tecnologias completamente novas \u2013 minas a c\u00e9u aberto e mini-usinas sider\u00fargicas, respectivamente \u2013 levaram a not\u00e1veis ganhos de efici\u00eancia (embora em cada caso apenas para produtos de menor qualidade).<\/p>\n<p>Como isso pode ser consistente com as evid\u00eancias que Resnikoff re\u00fane, mostrando que quando novos equipamentos foram instalados, o n\u00famero de trabalhadores aumentou ou permaneceu inalterado? A resposta tem duas partes. A primeira baseia-se na observa\u00e7\u00e3o dos economistas de que a instala\u00e7\u00e3o de equipamentos mais eficientes pode ter efeitos tanto de \u201csubstitui\u00e7\u00e3o\u201d quanto de \u201cprodu\u00e7\u00e3o\u201d sobre a quantidade de m\u00e3o de obra empregada. Os efeitos de substitui\u00e7\u00e3o referem-se \u00e0 substitui\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra por m\u00e1quinas, levando a uma redu\u00e7\u00e3o no n\u00famero de trabalhadores empregados.<\/p>\n<p>Mas os efeitos de produ\u00e7\u00e3o consideram que, quando equipamentos reduzem o custo de produ\u00e7\u00e3o, os pre\u00e7os dos produtos tendem a cair e os consumidores compram mais, aumentando o n\u00famero de empregados. Se os efeitos de produ\u00e7\u00e3o superam os de substitui\u00e7\u00e3o, a ado\u00e7\u00e3o de m\u00e1quinas que substituem m\u00e3o de obra leva a um aumento do emprego. A segunda parte da resposta \u00e9 que novas tecnologias sempre envolvem uma curva de aprendizado. No in\u00edcio desse processo, novos sistemas falham frequentemente e m\u00e1quinas quebram, mas com o tempo, trabalhadores e gerentes aprendem a fazer a tecnologia funcionar eficientemente (ou, caso contr\u00e1rio, a ger\u00eancia geralmente a abandona).<\/p>\n<p>Embora a rejei\u00e7\u00e3o de Resnikoff \u00e0 produtividade baseada em tecnologia seja equivocada, seu argumento de que empresas usaram novas m\u00e1quinas para alterar descri\u00e7\u00f5es de cargos e impor acelera\u00e7\u00e3o \u00e9 muito correto. Empresas h\u00e1 muito aplicam uma esp\u00e9cie de \u201cdoutrina do choque\u201d, usando mecaniza\u00e7\u00e3o para justificar a reescrita das normas trabalhistas.<\/p>\n<p>Essa realidade acabou provocando aumento do descontento dos trabalhadores, levando Resnikoff a terminar sua hist\u00f3ria no in\u00edcio e meados dos anos 1970. Naqueles anos, trabalhadores de base, cansados da acelera\u00e7\u00e3o, degrada\u00e7\u00e3o e desqualifica\u00e7\u00e3o que acompanhavam a automa\u00e7\u00e3o, mostraram seu descontentamento atrav\u00e9s de ondas de greves, sabotagens e aliena\u00e7\u00e3o generalizada.<\/p>\n<p>Entre o fato evidente de que o trabalho nas f\u00e1bricas (junto com trabalho administrativo e, claro, trabalho dom\u00e9stico) n\u00e3o estava desaparecendo e o fato agora claro de que a automa\u00e7\u00e3o n\u00e3o levava a melhores empregos e trabalhadores mais felizes, a m\u00edstica da automa\u00e7\u00e3o se desfez.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o seria o \u00faltimo ato da ideologia da automa\u00e7\u00e3o. Resnikoff descreve nosso momento atual como a terceira onda do discurso da automa\u00e7\u00e3o (a segunda ocorreu do final dos anos 1980 ao in\u00edcio dos 1990). Por minha parte, pesquiso como mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas est\u00e3o transformando empregos no varejo, e atualmente a imprensa especializada est\u00e1 repleta de cita\u00e7\u00f5es que ecoam as de <em>Labor\u2019s End<\/em>, como esta (do RIS [Retail Info Systems] News): \u201cA maioria dos varejistas que adotam automa\u00e7\u00e3o enfrentam risco de rejei\u00e7\u00e3o pelos empregados. [\u2026] Empresas devem tranquilizar e comunicar claramente o que oferecem: uma nova e emocionante jornada que exigir\u00e1 o comprometimento dos empregados\u201d.<\/p>\n<p>A maior parte do debate atual sobre tecnologia e trabalho parte dos mesmos pressupostos err\u00f4neos que Resnikoff questiona em seu livro: mudan\u00e7a tecnol\u00f3gica se desenvolve de forma aut\u00f4noma e se espalha inexoravelmente; tecnologia e suas aplica\u00e7\u00f5es ao trabalho s\u00e3o apol\u00edticas.<\/p>\n<p>No entanto, h\u00e1 uma diferen\u00e7a importante entre o discurso sobre automa\u00e7\u00e3o em meados do s\u00e9culo XX e o atual: o otimismo inicial foi substitu\u00eddo por apreens\u00e3o generalizada. Em vez de \u201cOs rob\u00f4s est\u00e3o chegando e logo a vida ser\u00e1 melhor para todos\u201d, o refr\u00e3o predominante hoje \u00e9 \u201cOs rob\u00f4s est\u00e3o chegando e trar\u00e3o grandes disrup\u00e7\u00f5es, ent\u00e3o precisamos descobrir como nos adaptar\u201d.<\/p>\n<p>As principais propostas de adapta\u00e7\u00e3o envolvem requalifica\u00e7\u00e3o profissional em massa (defendida por economistas ortodoxos e pol\u00edticos liberais que os seguem) ou ataques a imigrantes e concorrentes estrangeiros que supostamente est\u00e3o roubando \u201cnossos\u201d empregos (o menu pol\u00edtico da direita trumpista); ambas op\u00e7\u00f5es s\u00e3o profundamente equivocadas.<\/p>\n<p>O problema com ambas narrativas sobre rob\u00f4s, como alerta Resnikoff, \u00e9 que assumem que rob\u00f4s avan\u00e7am independentemente do que fa\u00e7amos, quando na verdade s\u00e3o atores humanos que controlam quais tecnologias s\u00e3o desenvolvidas, quais s\u00e3o usadas e como. Ver isso claramente nos permite romper com um conjunto de op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas empobrecidas e come\u00e7ar a articular uma vis\u00e3o progressista de como remodelar o trabalho.<\/p>\n<p>King estava certo ao insistir que todos os empregos devem ser dignos. Podemos fazer isso elevando os padr\u00f5es m\u00ednimos de sal\u00e1rios e condi\u00e7\u00f5es de trabalho, ampliando a voz dos trabalhadores atrav\u00e9s de sindicatos e outras organiza\u00e7\u00f5es, e redefinindo cargos para aproveitar ampla gama de habilidades e abranger tarefas variadas.<\/p>\n<p>Na Alemanha, por exemplo, a maioria dos trabalhadores do varejo recebe dois anos de forma\u00e7\u00e3o, est\u00e1 qualificada para realizar quase qualquer tarefa em uma loja e beneficia-se de contrato nacional negociado entre o sindicato do varejo e a associa\u00e7\u00e3o industrial, situa\u00e7\u00e3o bem diferente da dos EUA.<\/p>\n<p>Tillmon estava certa ao exigir sal\u00e1rios para o trabalho de cuidado, socialmente valioso mas n\u00e3o remunerado. Na verdade, dever\u00edamos estender essa demanda a outros trabalhos socialmente valiosos, como constru\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria, E tamb\u00e9m dever\u00edamos emular King na defesa de uma renda anual garantida adequada, tomando medidas para separar renda de sua depend\u00eancia do trabalho ou propriedade, dando aos trabalhadores respaldo para recusar os piores empregos e insistir em algo melhor.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria contada em <em>Labor\u2019s End<\/em> nos ajuda a combater o racioc\u00ednio falacioso sobre automa\u00e7\u00e3o e a advogar por mudan\u00e7as no local de trabalho em busca de maior poder, dignidade e prosperidade dos trabalhadores. A an\u00e1lise incisiva de Resnikoff desvia nosso olhar dos \u201cespelhos brilhantes\u201d das novas tecnologias e o redireciona para onde deve estar: a classe trabalhadora.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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