{"id":35069,"date":"2025-06-25T20:21:18","date_gmt":"2025-06-25T23:21:18","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/amazonia-o-colonizador-nao-ve-aquilo-que-nao-e-espelho\/"},"modified":"2025-06-25T20:21:18","modified_gmt":"2025-06-25T23:21:18","slug":"amazonia-o-colonizador-nao-ve-aquilo-que-nao-e-espelho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/amazonia-o-colonizador-nao-ve-aquilo-que-nao-e-espelho\/","title":{"rendered":"Amaz\u00f4nia: O colonizador n\u00e3o v\u00ea aquilo que n\u00e3o \u00e9 espelho"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"990\" height=\"667\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Cult_20231106_Desenhos_rupestres_Interna_1_0.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Cult_20231106_Desenhos_rupestres_Interna_1_0.jpg 990w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Cult_20231106_Desenhos_rupestres_Interna_1_0-300x202.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Cult_20231106_Desenhos_rupestres_Interna_1_0-768x517.jpg 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Cult_20231106_Desenhos_rupestres_Interna_1_0-272x182.jpg 272w\" sizes=\"auto, (max-width: 990px) 100vw, 990px\"><figcaption>Foto: Serra da Capivara\/JC Fagundes<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Em pa\u00edses de hist\u00f3rias oficiais curtas, como os da Am\u00e9rica Latina, o conhecimento tradicional, e tamb\u00e9m a ci\u00eancia, t\u00eam um papel importante para trazer \u00e0 tona as hist\u00f3rias ignoradas e a enorme profundidade cronol\u00f3gica da presen\u00e7a e da ancestralidade das ra\u00edzes culturais desta por\u00e7\u00e3o do planeta. A arqueologia tem um papel importante para ajudar a contar essas hist\u00f3rias e dar visibilidade para lugares onde elas aconteceram. O problema \u00e9 que essas hist\u00f3rias acabam noticiadas como vers\u00f5es diminu\u00eddas da hist\u00f3ria europeia: uma constru\u00e7\u00e3o ind\u00edgena milenar no Amap\u00e1 \u00e9 a \u201cStonehenge da Amaz\u00f4nia\u201d, um pared\u00e3o de pinturas ind\u00edgenas na Col\u00f4mbia \u00e9 a \u201cCapela Sistina dos Antigos\u201d, e \u2013 mais recentemente \u2013 uma cidade ind\u00edgena anterior \u00e0 invas\u00e3o colonial, sob a atual cidade de Santar\u00e9m, foi descrita como a \u201cMeca ou Jerusal\u00e9m Amaz\u00f4nica\u201d.<\/p>\n<p>O que pode parecer uma interessante estrat\u00e9gia de marketing, ao atrair a aten\u00e7\u00e3o a partir de refer\u00eancias mundialmente reconhecidas, acaba agindo como um efeito contr\u00e1rio. As hist\u00f3rias locais, as sabedorias ancestrais, a for\u00e7a e a pot\u00eancia ind\u00edgena de construir modos diversificados de habitar a Amaz\u00f4nia s\u00e3o diminu\u00eddos como vers\u00f5es de hist\u00f3rias j\u00e1 conhecidas. Vers\u00f5es que fortalecem o colonialismo, deslegitimando, diminuindo e apagando o protagonismo dos nativos americanos, os povos ind\u00edgenas, e suas contribui\u00e7\u00f5es para a forma\u00e7\u00e3o das sociedades contempor\u00e2neas. As sociedades desta parte do mundo s\u00e3o apresentadas como se tivessem perdido o \u201cTrem da Hist\u00f3ria\u201d. S\u00e3o classificadas como \u201cProto alguma coisa\u201d, \u201csemi-alguma coisa\u201d, \u201cincipiente\u201d e\/ou \u201csubsistente\u201d, termos que inferiorizam pessoas e per\u00edodos arqueol\u00f3gicos\/hist\u00f3ricos. A quest\u00e3o \u00e9 que, nessa ideia de caminho \u00fanico e linear da humanidade, esse Trem da Hist\u00f3ria \u00e9 desconsiderado como m\u00e1quina do colonialismo, do escravismo e de todas as facetas do atual capitalismo. M\u00e1quina esta que sempre demandou quantidades insustent\u00e1veis de recursos da parcela colonizada. Na viagem onde o norte global senta no vag\u00e3o da primeira classe, o mundo tropical \u00e9 a lenha queimando na caldeira da locomotiva.\u00a0<\/p>\n<p>A ci\u00eancia ocidental e a academia mudaram muito desde o s\u00e9culo XIX, quando muitas \u00e1reas do conhecimento come\u00e7aram a se estruturar, contudo, preconceitos e racismos estruturantes permanecem arraigados tanto nessas \u00e1reas quanto na maneira de se divulgar e de se apresentar contextos arqueol\u00f3gicos e hist\u00f3ricos n\u00e3o ocidentais. Trazer essa reflex\u00e3o nos parece importante, pois \u00e9 uma evid\u00eancia de que ainda precisamos fazer o \u201cnosso dever de casa\u201d, como cientistas ou como comunicadores da ci\u00eancia, n\u00e3o podemos perpetuar propostas racistas que nasceram de um projeto de coloniza\u00e7\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o. Como afirmava o grande intelectual quilombola, Nego Bispo, \u201cNomear \u00e9 Dominar\u201d e quando essa nomea\u00e7\u00e3o acontece de maneira comparativa ao mundo colonizador ocidental, ela serve como instrumento de controle de narrativa, do conhecimento e da pot\u00eancia de outros processos hist\u00f3ricos.<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/apoia.se\/outraspalavras\" aria-label=\"MAT\u00c9RIA-2\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/MATERIA-2-4.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/MATERIA-2-4.png 681w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-2-300x75.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 681px) 100vw, 681px\" width=\"681\" height=\"171\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>Os tr\u00eas exemplos de materialidades espetaculares, deixados\u00a0por sociedades ind\u00edgenas que viveram na Amaz\u00f4nia, mencionados anteriormente, s\u00e3o interessantes para pensar no papel da ci\u00eancia e da divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica para lidar com assimetrias hist\u00f3ricas e regionais.<\/p>\n<h3><strong>Cal\u00e7oene<\/strong><\/h3>\n<p>Nos anos 2000, foram retomadas as pesquisas em uma regi\u00e3o na costa norte do Estado do Amap\u00e1 onde, desde o s\u00e9culo XIX, os s\u00edtios arqueol\u00f3gicos fascinaram viajantes. No Rego Grande, a nova equipe de pesquisa fez descobertas fascinantes. Grandes pedras de granito, pesando mais de uma tonelada, foram extra\u00eddas de pedreiras, carregadas at\u00e9 o local do s\u00edtio e implantadas no solo com diversos alinhamentos e inclina\u00e7\u00f5es. Elas formam uma grande estrutura, de formato mais ou menos circular, com cerca de 30 metros de extens\u00e3o.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"602\" height=\"451\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/imag-10.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/imag-10.jpeg 602w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/image-300x225.jpeg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 602px) 100vw, 602px\"><\/figure>\n<p>S\u00edtio Rego Grande: sabedoria ind\u00edgena milenar na constru\u00e7\u00e3o de um observat\u00f3rio solar (foto Mariana Cabral).<\/p>\n<p>As pesquisas arqueol\u00f3gicas na \u00e1rea mostraram ainda a constru\u00e7\u00e3o de c\u00e2maras funer\u00e1rias, onde pessoas mortas foram enterradas em grandes potes cer\u00e2micos ricamente decorados, caracterizando a \u00e1rea como um cemit\u00e9rio. C\u00e2maras essas que parecem ter sido revisitadas e reorganizadas v\u00e1rias vezes ao longo de s\u00e9culos pelas popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas que as constru\u00edram, com a coloca\u00e7\u00e3o ou rearranjo de mais urnas. Al\u00e9m disso, a equipe constatou tamb\u00e9m que o local n\u00e3o foi utilizado exclusivamente como cemit\u00e9rio. O alinhamento cuidadoso dos monolitos extremamente pesados, que resistiram aos s\u00e9culos, demonstra tamb\u00e9m um sofisticado conhecimento astron\u00f4mico das popula\u00e7\u00f5es nativas que habitavam a regi\u00e3o.<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena que construiu essa estrutura de pedra tinha um conhecimento preciso do movimento solar, alinhando determinados blocos com o nascer do sol do solst\u00edcio de dezembro (inverno amaz\u00f4nico) e seu movimento ao longo da tarde. Constru\u00edram assim um observat\u00f3rio solar, que materializou na pedra a sabedoria refinada de eventos astron\u00f4micos.<\/p>\n<p>As constata\u00e7\u00f5es evidenciam a profundidade hist\u00f3rica milenar do conhecimento minucioso das popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas americanas sobre o mundo que habitam. O ineditismo de megalitos nessa regi\u00e3o da Amaz\u00f4nia gerou uma resposta imediata da m\u00eddia nacional e internacional. A criatividade e originalidade das pessoas que constru\u00edram, por\u00e9m, foi capturada pelo r\u00f3tulo f\u00e1cil de uma refer\u00eancia europeia: Stonehenge da Amaz\u00f4nia. A pot\u00eancia da hist\u00f3ria ind\u00edgena americana se esvaiu em compara\u00e7\u00f5es ligeiras, resumindo a inven\u00e7\u00e3o ind\u00edgena e local em uma vers\u00e3o menor do c\u00e2none ingl\u00eas.<\/p>\n<p>Os poss\u00edveis observat\u00f3rios astron\u00f4micos da Amaz\u00f4nia e do Reino Unido possuem pouco ou quase nada em comum, nem de uma perspectiva hist\u00f3rica, nem tecnol\u00f3gica, nem cultural. Mas, quando colocados em compara\u00e7\u00e3o, o da Amaz\u00f4nia vira uma vers\u00e3o de um marco monumental do velho mundo e informa pouco al\u00e9m disso. A hist\u00f3ria ind\u00edgena das Am\u00e9ricas vira uma vers\u00e3o da hist\u00f3ria da Europa.<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/lojahucitec.com.br\/\" aria-label=\"CANCER\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/CANCER-1-3.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/CANCER-1-3.png 10920w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/CANCER-1-300x37.png 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/CANCER-1-1024x127.png 1024w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/CANCER-1-768x95.png 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/CANCER-1-1536x190.png 1536w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/CANCER-1-2048x253.png 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 10920px) 100vw, 10920px\" width=\"10920\" height=\"1350\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<h3><strong>Serra\u00eda de la Lindosa<\/strong><\/h3>\n<figure><\/figure>\n<p>Painel principal do s\u00edtio Cerro Azul (foto Claide Moraes).<\/p>\n<p>Mais recentemente, no final do ano de 2020, outro s\u00edtio ind\u00edgena na Amaz\u00f4nia ganhou visibilidade internacional. O jornal ingl\u00eas <em>The Guardian<\/em> estampou em suas p\u00e1ginas algumas fotos maravilhosas da Amaz\u00f4nia colombiana para anunciar a descoberta da \u201cCapela Sistina dos Antigos\u201d, o que, segundo a mat\u00e9ria, era a descoberta de arte rupestre numa das regi\u00f5es mais remotas do mundo. A mat\u00e9ria antecedeu a divulga\u00e7\u00e3o de um document\u00e1rio produzido pelo tamb\u00e9m brit\u00e2nico <em>Channel 4<\/em>. O t\u00edtulo do document\u00e1rio era ainda mais pitoresco \u2013 \u00a0<em>Jungle Mystery: Lost Kingdoms of the Amazon.<\/em> Em ambos os casos faz-se refer\u00eancia a elementos ocidentais para apresentar locais e hist\u00f3rias n\u00e3o ocidentais. Em si, compara\u00e7\u00f5es nem sempre s\u00e3o negativas, elas podem nos trazer elementos de compreens\u00e3o, mas o que queremos destacar \u00e9 a maneira como foram e s\u00e3o realizadas essas compara\u00e7\u00f5es: os contextos ind\u00edgenas americanos s\u00e3o retratados como varia\u00e7\u00f5es de contextos europeus, perdendo qualquer possibilidade de existirem como uma hist\u00f3ria pr\u00f3pria e relevante em si.<\/p>\n<p>Repetindo um estilo comum em document\u00e1rios sobre arqueologia, a narrativa tenta comunicar uma ideia de que est\u00e1 sendo registrado um instant\u00e2neo de descobertas que ir\u00e3o mudar completamente a forma como conhecemos o assunto, flertando muito mais com a fic\u00e7\u00e3o do que com a realidade das pesquisas. O uso de outro artif\u00edcio comum, de tornar o assunto excitante, para um p\u00fablico ocidental ou sob influ\u00eancia do ocidente, \u00e9 a apresenta\u00e7\u00e3o dos tr\u00f3picos como um lugar in\u00f3spito, selvagem e perigoso. Surpreendentemente, o document\u00e1rio presta um servi\u00e7o importante, al\u00e9m de mostrar algumas das maravilhas feitas pelas popula\u00e7\u00f5es do passado, alerta para a situa\u00e7\u00e3o de fragilidade e perigo pela qual passam muitas das comunidades ind\u00edgenas da Am\u00e9rica do Sul; destaca a import\u00e2ncia de suas lutas pelo direito de continuar existindo; a maneira anti\u00e9tica que as comunidades tradicionais frequentemente s\u00e3o abordadas pela ci\u00eancia e a acelerada destrui\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia. Mas, de modo geral, al\u00e9m da Capela Sistina, dos perigos e mist\u00e9rios da floresta com suas on\u00e7as, sucuris e outros seres extremamente mortais; pouco resta da mensagem.<\/p>\n<p>Que se fale em reinos e que se evoque a genialidade de Michelangelo Buonarroti para atrair um p\u00fablico de espectadores europeus, t\u00e3o familiarizados com o assunto, \u00e9 compreens\u00edvel como propaganda. A quest\u00e3o \u00e9 que a divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica local passou a repetir os mesmos termos, e dessa vez para um p\u00fablico que se apoiar\u00e1 em refer\u00eancias distantes, formado por pessoas que jamais poder\u00e3o ver ao vivo a prova da genialidade de Michelangelo ou que muitas vezes nunca ouviram falar dele, mas que a partir de agora ter\u00e3o uma imagem distorcida da pr\u00f3pria hist\u00f3ria, a de que a valoriza\u00e7\u00e3o da arte ind\u00edgena s\u00f3 ganha pleno reconhecimento se ela for como \u201ca obra de Michelangelo\u201d. Oportunidade perdida de contar sobre a hist\u00f3ria ind\u00edgena em uma das regi\u00f5es de maior diversidade lingu\u00edstica e cultural do planeta.\u00a0<\/p>\n<h3><strong>A cidade dos Tapaj\u00f3<\/strong><\/h3>\n<p>E nem s\u00f3 de m\u00eddia internacional \u00e9 feita essa cont\u00ednua refer\u00eancia das obras ind\u00edgenas a hist\u00f3rias de outros continentes. Recentemente, a m\u00eddia veiculou com grande destaque o resultado de d\u00e9cadas de pesquisa arqueol\u00f3gica na cidade de Santar\u00e9m.\u00a0 \u201c[A]ntes da chegada dos europeus, Santar\u00e9m era uma Meca ou uma Jerusal\u00e9m amaz\u00f4nica\u201d, afirmam reportagens diversas.<\/p>\n<p>As not\u00edcias apresentam os extensos s\u00edtios arqueol\u00f3gicos da \u00e1rea central e portu\u00e1ria de Santar\u00e9m (Aldeia e Porto), hoje ocultos sob o peso da urbanidade e de onde j\u00e1 foram retiradas algumas das mais belas cer\u00e2micas ind\u00edgenas da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"602\" height=\"899\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/image-1-1.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/image-1-1.jpeg 602w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/image-1-201x300.jpeg 201w\" sizes=\"auto, (max-width: 602px) 100vw, 602px\"><\/figure>\n<p>Pessoa ind\u00edgena representada em pe\u00e7a de cer\u00e2mica (foto Maur\u00edcio de Paiva).<\/p>\n<p>Em uma trajet\u00f3ria cheia de vers\u00f5es, onde nos falta a das construtoras e construtores originais, estes s\u00edtios j\u00e1 tiveram outros nomes: Ocara-a\u00e7u, a principal cidade Tapaj\u00f3, onde hoje est\u00e1 assentada a cidade de Santar\u00e9m. Ocara-a\u00e7u, o termo em l\u00edngua geral que continuou a ser mencionado em textos hist\u00f3ricos, articula duas palavras de origem tupi: ocara, a pra\u00e7a central de uma aldeia, e a\u00e7u, de tamanho de grande, o que sugere uma impress\u00e3o de grandeza que esse lugar gerou entre visitantes. Lugar que o colonialismo dos invasores europeus a partir do s\u00e9culo 16, tratou de apagar, se utilizando da viol\u00eancia e do genoc\u00eddio praticados pelas\u00a0tropas de resgate e proselitismo religioso. Corpos mumificados, que materializavam a import\u00e2ncia de cultos aos antepassados foram queimados, locais simb\u00f3licos foram profanados e incendiados,\u00a0figuras agentivas jogadas nas \u00e1guas, festas e celebra\u00e7\u00f5es tradicionais foram proibidas e combatidas. Desta forma, a manuten\u00e7\u00e3o do ordenamento do cotidiano local e, de maneira ampla, da cultura regional foi desestruturada.<\/p>\n<p>Como narrado meticulosamente nos documentos da igreja cat\u00f3lica que chegaram at\u00e9 n\u00f3s, desde o in\u00edcio do estabelecimento das miss\u00f5es religiosas na regi\u00e3o de Santar\u00e9m o objetivo era claro: em nome de uma nova ordem, profanar e acabar com todas as pr\u00e1ticas cerimoniais dos ind\u00edgenas. Em v\u00e1rios momentos em que a convers\u00e3o pela f\u00e9 n\u00e3o foi eficiente, expedi\u00e7\u00f5es punitivas foram executadas para castigar os ind\u00edgenas. Em outras situa\u00e7\u00f5es, se abandonaram as tentativas de convers\u00e3o e foram adotados o genoc\u00eddio e a escraviza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Parte dos marcos arquitet\u00f4nicos desta profana\u00e7\u00e3o podem ser claramente observados na Santar\u00e9m de hoje. Navegando pelos rios Tapaj\u00f3s e Amazonas atualmente, \u00e9 poss\u00edvel avistar de longe a impon\u00eancia da Igreja Matriz e suas duas torres. Propositalmente situada no mesmo lugar onde, em 1542, os invasores europeus Francisco de Orellana e Gaspar de Carvajal davam not\u00edcia do avistamento de uma cidade ind\u00edgena, de umas das mais aguerridas e populosas na\u00e7\u00f5es com as quais eles se depararam. Marco de grande povoa\u00e7\u00e3o ind\u00edgena que hoje se encontra escondido abaixo do concreto e do asfalto da cidade. A hist\u00f3ria que se passou onde viria a ser a cidade de Santar\u00e9m, como em praticamente todas as antigas aldeias que passaram pelo processo de coloniza\u00e7\u00e3o, tinha como objetivo apagar e destruir refer\u00eancias culturais e religiosas n\u00e3o crist\u00e3s.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Se com a igreja cat\u00f3lica a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi f\u00e1cil, como parte da m\u00e1quina colonial estatal, a coisa ainda ficaria pior no per\u00edodo pombalino. Como parte do apagamento hist\u00f3rico colonizador, a Vila dos Tapaj\u00f3s, sua vizinha Vila dos Borari e v\u00e1rios outros centros da regi\u00e3o foram renomeados com os nomes portugueses que prevalecem at\u00e9 os dias atuais. Os religiosos foram expulsos e as l\u00ednguas nativas proibidas de serem faladas. Desde ent\u00e3o, a prov\u00edncia dos Tapaj\u00f3, ou Ocara-a\u00e7u, passou a existir apenas nas men\u00e7\u00f5es do bairro perif\u00e9rico da Aldeia,\u00a0 para onde a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena que resistiu a tanta viol\u00eancia foi empurrada.<\/p>\n<p>Da\u00ed em diante, a despeito da resist\u00eancia de diversos povos origin\u00e1rios que comp\u00f5em a sociedade santarena e de uma abundante materialidade da presen\u00e7a ind\u00edgena na regi\u00e3o que remonta h\u00e1 mais de 12 mil anos, a hist\u00f3ria local \u00e9 de apagamento. Mais de uma dezena de povos reivindicam direitos origin\u00e1rios na regi\u00e3o de Santar\u00e9m, mas ainda sofrem os reflexos dos s\u00e9culos de combate de suas pr\u00e1ticas culturais, da proibi\u00e7\u00e3o da continuidade de uso de suas l\u00ednguas maternas e de sua nega\u00e7\u00e3o nos documentos oficiais. E o pior \u00e9 que agora eles s\u00e3o frequentemente acusados de serem \u201cfalsos \u00edndios\u201d exatamente por terem tido direitos e pr\u00e1ticas culturais negados. Neste sentido, associar de forma comparativa os registros de sua exist\u00eancia pr\u00e9-colonial \u00e0 Jerusal\u00e9m do mundo ocidental, um marco importante tamb\u00e9m para o cristianismo, \u00e9 profanar mais uma vez a materialidade origin\u00e1ria de pr\u00e1ticas genuinamente nativas americanas, referenciando a hist\u00f3ria ind\u00edgena pela l\u00f3gica do invasor crist\u00e3o europeu. Dupla profana\u00e7\u00e3o: diminui a cria\u00e7\u00e3o ind\u00edgena e ainda ativa o cristianismo \u2013 for\u00e7a destruidora na Am\u00e9rica colonial \u2013 como refer\u00eancia.<\/p>\n<h3><strong>Apagando hist\u00f3rias<\/strong><\/h3>\n<p>Com suas ra\u00edzes profundas no s\u00e9culo XIX, hoje em dia, o colonialismo interno segue sendo o principal mantenedor destas a\u00e7\u00f5es delet\u00e9rias, agindo de maneira disfar\u00e7ada ou velada, se utilizando de par\u00e2metros \u201ccient\u00edficos\u201d que n\u00e3o condizem com as formas de ordenamento do cotidiano ind\u00edgena, na tentativa de perpetuar suas pol\u00edticas excludentes e preconceituosas.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Na Am\u00e9rica do Sul, somos todos pa\u00edses com popula\u00e7\u00f5es majoritariamente miscigenadas, resultantes das m\u00e1quinas coloniais inauguradas pelo grupo de Crist\u00f3v\u00e3o Colombo em 1492.<\/p>\n<p>Como na\u00e7\u00f5es, somos o resultado destas viol\u00eancias coloniais. Mesmo que a arqueologia reivindique algumas dezenas de milhares de anos de hist\u00f3ria das pessoas ind\u00edgenas em territ\u00f3rio americano, os europeus deram a eles mesmos a falsa premissa de fundadores da hist\u00f3ria do novo mundo. O que aconteceu antes temos dificuldade de situar e muitas vezes \u00e9 chamado de pr\u00e9-hist\u00f3ria. Sem refletir muito, \u201cpr\u00e9-hist\u00f3ria\u201d pode at\u00e9 parecer adequado. Ainda mais pensando que compartilhamos como esp\u00e9cie humana nossa origem na Eva mitocondrial de 200 mil anos, origin\u00e1ria da \u00c1frica, nosso ber\u00e7o ancestral. Mas qual seria o nome \u201cEva\u201d se a \u201cpr\u00e9-hist\u00f3ria\u201d n\u00e3o fosse contada pelo mundo branco ocidental?<\/p>\n<p>Num mundo plural, teria que haver espa\u00e7o para que narrativas ind\u00edgenas tamb\u00e9m pudessem ser apresentadas para falar de suas trajet\u00f3rias e para nomear seus lugares significativos. E se tivesse espa\u00e7o para Eva ser nomeada pelos yanomami, ou se pudesse ser uma mulher <em>Okoymoyana<\/em> (do povo da cobra grande) como conta a tradi\u00e7\u00e3o dos povos Caribe da margem norte da Amaz\u00f4nia Brasileira?<\/p>\n<p>Davi Kopenawa conta que:<\/p>\n<blockquote>\n<p>No in\u00edcio, nenhum ser humano vivia ali. <em>Omama<\/em> e seu irm\u00e3o <em>Yoasi<\/em> viviam sozinhos. Nenhuma mulher existia ainda. Os dois irm\u00e3os s\u00f3 vieram a conhecer a primeira mulher muito mais tarde, quando Omama pescou a filha de <em>T\u00ebp\u00ebr\u00eb-sik\u0268<\/em> num grande rio. No in\u00edcio <em>Omama<\/em> copulava na dobra do joelho de seu irm\u00e3o <em>Yoasi<\/em>. Com o passar do tempo, a panturrilha deste ficou gr\u00e1vida, e foi assim que <em>Omama<\/em> primeiro teve um filho. Por\u00e9m, n\u00f3s habitantes da floresta, n\u00e3o nascemos assim. N\u00f3s sa\u00edmos, mais tarde, da vagina da esposa de <em>Omama<\/em>, <em>T\u2019u\u00ebyoma<\/em>, a mulher que ele tirou da \u00e1gua. Os xam\u00e3s fazem descer sua imagem desde sempre. Chamam-na tamb\u00e9m de <em>Paonakare<\/em>. Era um ser peixe que se deixou capturar na forma de uma mulher. Assim \u00e9. Se <em>Omama<\/em> n\u00e3o tivesse pescado no rio, talvez os humanos continuassem a copular atr\u00e1s do joelho! (KOPENAWA; ALBERT, 2015, p. 82).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>As palavras de Kopenawa nos ajudam a entender que existem muitas formas de explicar a cria\u00e7\u00e3o do mundo e que algumas delas v\u00e3o enfatizar rela\u00e7\u00f5es dial\u00f3gicas entre as pessoas e o que chamamos de mundo da natureza, ao inv\u00e9s das rela\u00e7\u00f5es de dom\u00ednio ou explora\u00e7\u00e3o que caracterizam a hist\u00f3ria ocidental sobre a evolu\u00e7\u00e3o humana.\u00a0 Essa narrativa encontra eco tamb\u00e9m no modo como muitas popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas na Amaz\u00f4nia explicam o mundo.<\/p>\n<p>Um de n\u00f3s, Jaime Xamen Waiwai, conta aqui uma das hist\u00f3rias de cria\u00e7\u00e3o que ele aprendeu entre seu povo, os Waiwai, habitantes do interfl\u00favio da margem norte do rio Amazonas.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Baseado nas epistemologias do meu povo Waiwai,\u00a0 tudo come\u00e7a com a rela\u00e7\u00e3o de homens e florestas, n\u00e3o existiam mulheres. Os primeiros de n\u00f3s eram dois g\u00eameos, Mawari e Woxi. Mawari e Woxi eram os melhores para fazer flecha. Suas habilidades atra\u00edram mulheres, por\u00e9m estas n\u00e3o eram mulheres como eles. Para contar essa hist\u00f3ria, precisamos traduzir n\u00e3o apenas as palavras da l\u00edngua Waiwai para o portugu\u00eas, mas tamb\u00e9m traduzir ideias, em um movimento de dentro para fora, desta forma aprenderemos\u00a0 sobre as epistemologias Waiwai. Nessa hist\u00f3ria, os g\u00eameos pescam com suas flechas duas mulheres de outro povo, o povo da anaconda, que vive debaixo do rio, os <em>Okomoyana<\/em>.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>No in\u00edcio, eles n\u00e3o tinham nenhuma experi\u00eancia de se relacionar. As duas mulheres disseram que eram filhas de <em>Okoymo yana<\/em>. Elas ainda n\u00e3o estavam prontas para ser mulheres, seus \u00fateros estavam cheios de peixes. Piranha, mandi, poraqu\u00ea e muitos outros. Para se tornarem\u00a0 mulheres elas tiveram que passar pela <em>Umawa<\/em>, a casa da transforma\u00e7\u00e3o, a casa comunal tradicional dos povos Waiwai. Al\u00ed elas tiraram uma parte do corpo e assim Mawari e Woxi se casam.<\/p>\n<p>Assim, surgiram as primeiras fam\u00edlias, depois os dois irm\u00e3os se separaram, Mawari subiu e Woxi desceu o rio. Isso \u00e9 o que \u00e9 sabido sobre os parentes ind\u00edgenas, que desde ent\u00e3o cresceram e se dispersaram. Foi assim que o nosso povo se criou, o que somos hoje \u00e9 a mistura disso.<\/p>\n<p>Depois de muito tempo esses povos s\u00e3o contactados, s\u00e3o colonizados e aldeados, povos que nem tinham no\u00e7\u00e3o do que \u00e9 cristianismo. Esses povos estavam articulados com seres de mundos diferentes, os chamados <em>kakinaw<\/em> (donos da natureza). Viver \u00e9 negociar em todos esses mundos.<\/p>\n<p>Essa maneira de organizar a vida \u00e9 modificada, chegaram os mission\u00e1rios e disseram que esses lugares eram cheios de maldade, palcos do diabo e essas pr\u00e1ticas n\u00e3o eram humanas. Aos poucos os povos foram mudando os pensamentos e as hist\u00f3rias foram ocupadas por outros seres.<\/p>\n<p>Longe de ser a \u201cpr\u00e9-hist\u00f3ria\u201d de todos, ela tem sido apenas dos que dominaram o discurso e o transformaram em documentos oficiais. Al\u00e9m disso, a maneira como o termo vem sendo empregado para o continente europeu e os outros continentes difere enormemente. Na Europa, a pr\u00e9-hist\u00f3ria \u00e9 o palco de muitos humanos, o in\u00edcio da hist\u00f3ria dessas humanidades, na Am\u00e9rica Latina, \u201cpr\u00e9-hist\u00f3ria\u201d \u00e9 quase todo mundo antes dos colonizadores. Nesse cen\u00e1rio os colonizadores se tornam o grande marco civilizat\u00f3rio enquanto os processos hist\u00f3ricos dos povos origin\u00e1rios s\u00e3o simplesmente ignorados. A face mais perigosa desta situa\u00e7\u00e3o \u00e9 que ela transforma trajet\u00f3rias ancestrais em n\u00e3o-hist\u00f3rias. E como j\u00e1 dizia Em\u00edlia Viotti Costa, \u201cUm povo sem mem\u00f3ria \u00e9 um povo sem hist\u00f3ria. E um povo sem hist\u00f3ria est\u00e1 fadado a cometer, no presente e no futuro, os mesmos erros do passado.\u201d E se, pautados apenas numa vers\u00e3o que segue errando, estivermos tamb\u00e9m deixando de pensar nos acertos do passado?<\/p>\n<p>Quando os europeus chegaram, a estimativa \u00e9 que 10 milh\u00f5es de ind\u00edgenas viviam na Amaz\u00f4nia. Uma hist\u00f3ria de rela\u00e7\u00f5es de pelo menos 13 mil anos. Depois do exterm\u00ednio da maior parcela desses 10 milh\u00f5es, a Amaz\u00f4nia s\u00f3 voltou a ter 10 milh\u00f5es de habitantes nos anos 1970. Uma parte desses novos 10 milh\u00f5es n\u00e3o sabe viver com a Amaz\u00f4nia. Cinquenta anos n\u00e3o foram suficientes para entender como \u00e9 poss\u00edvel viver com a Amaz\u00f4nia, mas foram suficientes para destru\u00ed-la ao ponto de alerta de n\u00e3o retorno.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>No mundo dos documentos oficiais, um povo que tem \u201cpr\u00e9-hist\u00f3ria\u201d ao inv\u00e9s de hist\u00f3ria tem seus direitos negados. Os que sabem escrever a hist\u00f3ria, mas n\u00e3o sabem viver com a Amaz\u00f4nia, aprenderam a usar grilos para envelhecer documentos e criar novos direitos, os dos grileiros de terras.<\/p>\n<p>N\u00e3o por coincid\u00eancia, estes dois assuntos, hist\u00f3ria e direitos, v\u00eam sendo manipulados com muita artimanha ao longo dos s\u00e9culos que nos separam do in\u00edcio da invas\u00e3o europeia. Um dos expoentes mais representativos do racismo europeu do s\u00e9culo XIX, Carl Friedrich Philipp von Martius, m\u00e9dico e naturalista, conhecido por contribui\u00e7\u00f5es para os registros bot\u00e2nicos da Am\u00e9rica do Sul, mesmo alertando para sua falta de especialidade no assunto, teceu suas opini\u00f5es sobre hist\u00f3ria e direito dos nativos brasileiros. Em suas pr\u00f3prias palavras podemos ler o seguinte:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Quem, de perto e sem preven\u00e7\u00e3o, observar o homem americano, deve concordar que o seu estado actual est\u00e1 muito longe de ser o natural, alegre e infantil, que uma voz interior nos diz deve ter sido o come\u00e7o da historia humana e que o documento mais antigo nos confirma como tal. Si o estado actual daqueles selvagens fosse o primitivo, daria-nos ele uma ideia attrahente, ainda que um pouco humilhante, da marcha evolutiva da humanidade [\u2026].<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Palavras que hoje nos soam chocantes certamente ecoavam sem nenhum espanto no debate acad\u00eamico do s\u00e9culo XIX e, sem sombra de d\u00favidas, influenciaram muito os tomadores de decis\u00e3o sobre os direitos dos ind\u00edgenas. Ao concluir sua avalia\u00e7\u00e3o sobre \u201cO Estado de Direito entre os Aut\u00f3ctones do Brasil\u201d, Martius, de forma irrespons\u00e1vel, ou talvez propositalmente direcionada, indagou: \u201conde est\u00e3o os monumentos da sua arte, de sua sciencia; onde os ensinamentos da sua f\u00e9 ou os exemplos de feitos heroicos de fidelidade a uma patria amada?\u201d. Ao fazer isso, intencionava desobrigar o colonizador de considerar a import\u00e2ncia da contribui\u00e7\u00e3o nativa para a humanidade. Inten\u00e7\u00e3o essa que se reproduz hoje com a cont\u00ednua compara\u00e7\u00e3o das obras ind\u00edgenas com Stonehenge, a Capela Sistina e Jerusal\u00e9m.<\/p>\n<p>Ironicamente, a hist\u00f3ria conecta von Martius, a Igreja da Matriz, Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o em sua pra\u00e7a central em Santar\u00e9m e os ind\u00edgenas da regi\u00e3o. Martius n\u00e3o relatou esta passagem menos gloriosa de suas aventuras, mas esteve de cara com a morte num princ\u00edpio de naufr\u00e1gio nas proximidades de Santar\u00e9m.<\/p>\n<p>Mais de 200 anos depois desse naufr\u00e1gio, um crucifixo doado por Martius \u00e0 Igreja Matriz de Santar\u00e9m, marca o evento e como ele atribuiu \u00e0 igreja a sua sobreviv\u00eancia. Na pra\u00e7a Rodrigues dos Santos, logo acima, entre a Matriz e o bairro da Aldeia, \u00e9 de onde vem os principais exemplares de cer\u00e2micas tapaj\u00f4nicas, hoje espalhados em diversas cole\u00e7\u00f5es e museus do Brasil e de outros pa\u00edses.<\/p>\n<p>Uma obra da administra\u00e7\u00e3o municipal de Santar\u00e9m iniciou a constru\u00e7\u00e3o de um camel\u00f3dromo no que pode ter sido um dos cemit\u00e9rios e pra\u00e7a de cerim\u00f4nias do assentamento ind\u00edgena milenar da localidade, talvez um dos maiores da Amaz\u00f4nia. A obra n\u00e3o cumpriu o que a lei brasileira exige para o licenciamento ambiental e foi embargada pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico. Desde ent\u00e3o, o Poder P\u00fablico de Santar\u00e9m, o Minist\u00e9rio P\u00fablico e Instituto do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional travam um embate para saber de quem \u00e9 a culpa do dano, a responsabilidade de repara\u00e7\u00e3o e o cuidado com o patrim\u00f4nio arqueol\u00f3gico remexido, concretado e esquecido pela Santar\u00e9m atual.<\/p>\n<p>A igreja de Santar\u00e9m e o crucifixo de Martius acabam celebrados pela hist\u00f3ria oficial como verdadeiros representantes da Jerusal\u00e9m amaz\u00f4nica, no entanto, as centenas de hectares de terra preta com vest\u00edgios milenares das popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas seguem invisibilizadas. Esses milhares, milh\u00f5es de vest\u00edgios, falam de uma hist\u00f3ria completamente diferente, que n\u00e3o existe em fun\u00e7\u00e3o do Ocidente, que n\u00e3o deve ser adjetivada ou comparada com o que era feito em outros continentes. As hist\u00f3rias aqui s\u00e3o auto suficientes, elas t\u00eam que ser valorizadas por elas mesmas e n\u00e3o por semelhan\u00e7as com as refer\u00eancias crist\u00e3s ocidentais.<\/p>\n<h3><strong>Impactos atuais de um colonialismo estrutural<\/strong><\/h3>\n<p>Aqui podemos conectar alguns pontos que permeiam a defini\u00e7\u00e3o de direitos ao longo dos tempos. Uma ideia de uma hist\u00f3ria \u00fanica, com uma trajet\u00f3ria tamb\u00e9m \u00fanica, separa escolhidos e esquecidos por Deus. Uns t\u00eam vaga garantida na primeira classe desse trem da hist\u00f3ria \u00fanica, outros degeneram e continuar\u00e3o queimando como lenha na caldeira de sua locomotiva.<\/p>\n<p>Infelizmente essa ideia de mundo n\u00e3o ficou sepultada no s\u00e9culo XIX. A eugenia, o olhar voltado para o norte civilizat\u00f3rio como caminho de solu\u00e7\u00e3o e toda a sorte de apagamentos continuam moldando as Am\u00e9ricas miscigenadas. Como na\u00e7\u00f5es miscigenadas e como reivindicado pelos movimentos ind\u00edgenas, a m\u00e3e da Am\u00e9rica Latina \u00e9 ind\u00edgena. O mundo da eugenia, quando muito, se esfor\u00e7a em tornar essa m\u00e3e ind\u00edgena esquecida em mais uma imagem de Eva. O medo, a falta de referencial e o apagamento tornou repetitiva uma narrativa sulamericana: \u201cmeu av\u00f4 era europeu e minha av\u00f3 era ind\u00edgena\u201d, o resumo discreto da viol\u00eancia hist\u00f3rica sobre as mulheres ind\u00edgenas, roubadas, violadas, apagadas. Desse av\u00f4 \u00e9 comum saber a nacionalidade, a regi\u00e3o e at\u00e9 a cidade de origem. Ele tem documento, tem sobrenome, tem hist\u00f3ria. A av\u00f3 frequentemente \u00e9 ind\u00edgena gen\u00e9rica, n\u00e3o se sabe a sua etnia, que l\u00edngua falava e de onde foi retirada, ela se tornou imemorial, pr\u00e9-hist\u00f3ria, sem hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Nesse mundo sem hist\u00f3ria, alguns se sentem no direito de estabelecer Marcos Temporais. Os agentes dos grilos e pap\u00e9is querem substituir trajet\u00f3rias milenares e est\u00e3o amparados por injusti\u00e7as centen\u00e1rias que, desatentos, n\u00f3s ajudamos a legitimar. Num mundo em que monumentos e s\u00edtios arqueol\u00f3gicos s\u00e3o no m\u00e1ximo vers\u00f5es selvagens de Stonehenges, Capelas Sistinas e Jerusal\u00e9ns, Nunes Marques, ministro do Supremo Tribunal Federal, ao emitir seu parecer e voto sobre o Marco Temporal, \u201cavaliou que, sem o marco temporal, a \u2018soberania e independ\u00eancia nacional\u2019 estariam em risco.\u201d (Fonte: Ag\u00eancia C\u00e2mara de Not\u00edcias). No trem dessa hist\u00f3ria, os mais nacionais de todos, se tornam a amea\u00e7a da soberania de seu ch\u00e3o milenar.<\/p>\n<p>Essa m\u00e3e da Am\u00e9rica Latina foi e segue sendo frequentemente violentada. Essa parte dura da hist\u00f3ria tem que ser relembrada para deixar de ser continuamente repetida. Essa m\u00e3e n\u00e3o viveu em Jerusal\u00e9m, n\u00e3o pintou a Capela Sistina e tampouco erigiu Stonehenge. Se existem duas Jerusal\u00e9m no mundo, talvez uma, que n\u00e3o \u00e9 muito original, n\u00e3o tenha necessidade de ser preservada. Por outro lado, se soub\u00e9ssemos que Ocara-a\u00e7u representa um lugar de povos que sabem viver com a Amaz\u00f4nia e que esse lugar \u00e9 \u00fanico, ter\u00edamos a chance de construir outras hist\u00f3rias. Jamais teremos o direito de encontrar uma Machu Picchu na Europa. Ent\u00e3o, n\u00e3o violentemos mais uma vez a nossa m\u00e3e.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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