{"id":35349,"date":"2025-06-27T11:36:08","date_gmt":"2025-06-27T14:36:08","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/soberania-alimentar-como-resistencia-na-palestina\/"},"modified":"2025-06-27T11:36:08","modified_gmt":"2025-06-27T14:36:08","slug":"soberania-alimentar-como-resistencia-na-palestina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/soberania-alimentar-como-resistencia-na-palestina\/","title":{"rendered":"Soberania Alimentar como resist\u00eancia na Palestina"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Foto-Maria-Silva-.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Foto-Maria-Silva--1024x683.jpg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Foto-Maria-Silva--300x200.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Foto-Maria-Silva--768x512.jpg 768w, https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Foto-Maria-Silva-.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>Colheita realizada na Palestina. Foto: Maria Silva<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Por Vitt\u00f3ria Silva Paz Barreto* <\/em><br \/><em>Da P\u00e1gina do MST<\/em><\/p>\n<p>Na atual conjuntura, \u00e9 dif\u00edcil pensar na exist\u00eancia da agricultura e da produ\u00e7\u00e3o em Gaza, onde n\u00e3o h\u00e1 seguran\u00e7a, paz e muito menos terras agricult\u00e1veis. Ap\u00f3s 20 meses de ataques violentos, mais de 56 mil pessoas foram mortas. Na Cisjord\u00e2nia, por\u00e9m, a agricultura ainda \u00e9 uma realidade.<\/p>\n<p>At\u00e9 outubro de 2024, viviam meio milh\u00e3o de judeus na Cisjord\u00e2nia ocupada, e, ap\u00f3s o 7 de outubro de 2023, esse n\u00famero apenas cresceu, junto com a viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 crescente o n\u00edvel de viol\u00eancia no territ\u00f3rio da Cisjord\u00e2nia e Jerusal\u00e9m Oriental, com a intensifica\u00e7\u00e3o da anexa\u00e7\u00e3o de terras, o aumento da posse de armas pelos colonos e das mortes de palestinos. Isso ocorre al\u00e9m do fato de o governo de Israel oferecer subs\u00eddios para fam\u00edlias judias de outras partes do mundo (especialmente EUA e pa\u00edses da Europa) que, sob uma cren\u00e7a de um direito ancestral a essa terra j\u00e1 h\u00e1 muito habitada, v\u00eam para a regi\u00e3o. O n\u00famero de assentamentos tamb\u00e9m aumentou desde o in\u00edcio do governo Netanyahu.<\/p>\n<p>Na Palestina, a agricultura \u00e9 uma forma hist\u00f3rica de resist\u00eancia. Enquanto vemos in\u00fameras not\u00edcias, atualmente, sobre a fome ser usada como arma de guerra, sobre como crian\u00e7as s\u00e3o mortas nas filas de comida e demais atrocidades que acontecem em Gaza, vemos tamb\u00e9m a resist\u00eancia di\u00e1ria existente no povo palestino que vive na Cisjord\u00e2nia.<\/p>\n<p>Apesar de todos os entraves poss\u00edveis impostos pela ocupa\u00e7\u00e3o sionista, a agricultura \u00e9 uma forma de resist\u00eancia e de reconex\u00e3o com o passado e suas ra\u00edzes. Para al\u00e9m da oliveira, \u00e1rvore s\u00edmbolo da resist\u00eancia palestina, a produ\u00e7\u00e3o nacional existe e procura formas de continuar existindo em meio ao controle das For\u00e7as de Ocupa\u00e7\u00e3o Sionistas e dos assentamentos.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m h\u00e1 outras formas de produ\u00e7\u00e3o, como \u00e9 o caso da hidroponia \u2014 t\u00e9cnica que n\u00e3o necessita do uso de solo \u2014, abrindo a possibilidade de se utilizarem outras \u00e1reas onde se vive, inclusive as \u00e1reas urbanas. Al\u00e9m disso, h\u00e1 formas de prolongar a produ\u00e7\u00e3o por meio do beneficiamento de frutas e verduras, que podem ser aproveitadas ap\u00f3s o per\u00edodo de colheita, proporcionando novas formas de inser\u00e7\u00e3o no mercado consumidor.<\/p>\n<p>Na Cisjord\u00e2nia, h\u00e1 um forte controle de Israel sobre a agricultura, as terras, o modelo de produ\u00e7\u00e3o, os cultivos e a comercializa\u00e7\u00e3o. Sessenta e cinco por cento das terras est\u00e3o sob controle israelense. Assim, al\u00e9m de conviver com a domina\u00e7\u00e3o, h\u00e1 o fator do limite das terras e da livre circula\u00e7\u00e3o pelo territ\u00f3rio e, muitas vezes, tamb\u00e9m da falta de recursos para investir na produ\u00e7\u00e3o. Isso resulta nos seguintes dados: atualmente, apenas 26% da popula\u00e7\u00e3o da Palestina tem a agricultura como sua principal fonte de renda, e 22% da popula\u00e7\u00e3o ainda vive nas \u00e1reas rurais.<\/p>\n<p>Existe uma divis\u00e3o dos territ\u00f3rios dentro da Cisjord\u00e2nia em zonas A, B e C, desde o Acordo de Oslo, em 1993, numa fracassada tentativa (para o povo palestino) de diplomacia. Sendo assim, apenas a Zona C \u00e9 de controle militar total israelense, e as zonas A e B est\u00e3o sob administra\u00e7\u00e3o palestina. Mas isso n\u00e3o significa que, nas zonas de administra\u00e7\u00e3o palestina, estejam livres do dom\u00ednio israelense.<\/p>\n<p>Para ter acesso a terras cultiv\u00e1veis sob controle sionista, os agricultores palestinos precisam pedir permiss\u00e3o \u00e0 IOF para poderem acess\u00e1-las, ainda assim com restri\u00e7\u00f5es e sob vigil\u00e2ncia \u2014 portanto, em situa\u00e7\u00e3o de enorme perigo. A agricultura \u00e9 tamb\u00e9m uma alternativa frente \u00e0s altas taxas de desemprego, ou \u00e0 alternativa de trabalhar em col\u00f4nias israelenses, sofrendo in\u00fameras formas de viol\u00eancia, por um sal\u00e1rio muito abaixo da m\u00e9dia e sob condi\u00e7\u00f5es extremamente precarizadas.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 justamente pelo fato de a m\u00e3o de obra palestina ser mais barata para Israel que a manuten\u00e7\u00e3o do desemprego e da falta de acesso a outras alternativas \u00e9 deliberadamente mantida. Al\u00e9m disso, a agricultura, por si s\u00f3 \u2014 por preservar o passado e pr\u00e1ticas ancestrais \u2014, \u00e9 alvo de um projeto de apagamento da cultura e identidade do povo.<\/p>\n<p>Ainda que haja resist\u00eancia por meio de uma economia agr\u00edcola, que corresponde a 6% do PIB (mas que, em 1967, correspondia a 67%), a maior parte das frutas e verduras consumidas na Cisjord\u00e2nia vem de Israel. Ou seja, s\u00e3o vendidas por um pre\u00e7o muito mais caro, competem com a produ\u00e7\u00e3o local e s\u00e3o alimentos produzidos com alto uso de qu\u00edmicos.<\/p>\n<p>Sair com os produtos para comercializa\u00e7\u00e3o significa que, diariamente, os agricultores precisam passar pelos <em>checkpoints<\/em> israelenses com suas produ\u00e7\u00f5es \u2014 sem garantia de que o produto chegar\u00e1 ao destino final. Ou seja, a dificuldade existe desde o acesso \u00e0s sementes at\u00e9 o fim da cadeia produtiva.<\/p>\n<p>A longa hist\u00f3ria de resist\u00eancia palestina em torno da agricultura demonstra a for\u00e7a da resist\u00eancia popular e coletiva. As cooperativas sempre foram fortes entre os agricultores palestinos, mas houve uma queda alarmante ap\u00f3s a Nakba, em 1948. O n\u00famero de cooperativas caiu 87%. Ainda assim, a for\u00e7a do modelo cooperativista e da agricultura familiar, t\u00e3o presente na sociedade palestina, nos fornece muitas informa\u00e7\u00f5es sobre a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica tamb\u00e9m \u2014 atrav\u00e9s da mentalidade coletiva como componente hist\u00f3rico da economia e da resist\u00eancia (ambas interligadas).<\/p>\n<p>Sendo, ent\u00e3o, uma forma n\u00e3o apenas de resistir, mas de desafiar a ocupa\u00e7\u00e3o sionista, um exemplo dessa for\u00e7a foi quando, entre 1987 e 1989, foram plantadas 500 mil \u00e1rvores em todo o territ\u00f3rio palestino, durante a Primeira Intifada. Os chamados \u201cJardins da Vit\u00f3ria\u201d foram iniciativas populares de agricultura familiar e cria\u00e7\u00e3o de animais, baseadas na solidariedade. Nesse per\u00edodo, foram criadas agroind\u00fastrias administradas pelas cooperativas dos bairros.<\/p>\n<p>Assim, al\u00e9m do total de \u00e1rvores plantadas, os Jardins da Vit\u00f3ria garantiram a fonte de renda de milhares de fam\u00edlias palestinas. Essa iniciativa \u00e9 um exemplo de como a economia na Palestina \u00e9 uma economia de resist\u00eancia, que desafia a l\u00f3gica da ocupa\u00e7\u00e3o israelense e da fragmenta\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios e da popula\u00e7\u00e3o palestina.<\/p>\n<p>Apesar do estado de Israel vender uma imagem externa de economia verde e sustent\u00e1vel, \u00e9 na promo\u00e7\u00e3o do <em>apartheid<\/em> que revela sua verdadeira face \u2014 promovendo o <em>greenwashing<\/em>. A ideia de um Israel sustent\u00e1vel, que visa manter poder geopol\u00edtico, \u00e9 ben\u00e9fica e lucrativa para o regime, ao mesmo tempo que restringe o acesso dos palestinos \u00e0s terras e \u00e0 \u00e1gua, mais um fator que dificulta a agricultura local.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o de usinas de energias renov\u00e1veis em terras palestinas \u2014 como pain\u00e9is solares e turbinas e\u00f3licas \u2014 define o chamado \u201ccolonialismo verde\u201d, que ignora as mudan\u00e7as socioecon\u00f4micas da popula\u00e7\u00e3o local, constituindo mais uma forma de controle territorial.<\/p>\n<p>Enquanto 65% das terras est\u00e3o sob o controle de Israel, a empresa israelense Mekorot possui monop\u00f3lio da explora\u00e7\u00e3o da \u00e1gua na regi\u00e3o. A empresa construiu tubula\u00e7\u00f5es que levam as \u00e1guas dos territ\u00f3rios de administra\u00e7\u00e3o palestina at\u00e9 os assentamentos israelenses, passando por debaixo da terra colonizada, levando a \u00e1gua para os colonos e cobrando caro do povo palestino pelo seu consumo, quando permitem o acesso controlado.<\/p>\n<p>A fome \u00e9 usada como arma de guerra, bem como o controle das terras e das \u00e1guas tamb\u00e9m o \u00e9. Essas s\u00e3o formas de manuten\u00e7\u00e3o da opress\u00e3o do povo que resiste, limitando cada vez mais os bens naturais, em busca do apagamento da luta e da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>A imposi\u00e7\u00e3o de monocultivos e de uso de pesticidas \u2014 al\u00e9m de causar mudan\u00e7as no ecossistema \u2014 s\u00e3o formas de Israel atingir tamb\u00e9m diretamente a soberania alimentar desse povo. Isso muda a cultura alimentar da popula\u00e7\u00e3o, empobrecendo o card\u00e1pio, aumentando os pre\u00e7os e diminuindo a variedade de alimentos para o consumo, especialmente de alimentos saud\u00e1veis e agroecol\u00f3gicos. A restri\u00e7\u00e3o \u00e0s terras, a obstru\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio local, o quilo da carne custando em torno de 350 d\u00f3lares e o atual cerceamento das ajudas humanit\u00e1rias: tudo isso nos mostra o que de fato \u00e9 o projeto sionista e suas formas de transformar tudo em arma contra o povo palestino.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de soberania alimentar vem para contrapor a ideia de seguran\u00e7a alimentar, sendo, de acordo com o site da Via Campesina, \u201co direito dos povos a alimentos saud\u00e1veis e culturalmente adequados, produzidos por meio de m\u00e9todos ecologicamente corretos e sustent\u00e1veis, e seu direito de definir seus pr\u00f3prios sistemas de alimenta\u00e7\u00e3o e agricultura\u201d. Sendo assim, a luta por soberania alimentar pelo povo palestino \u00e9 uma forma de desafiar o pr\u00f3prio sistema sionista, e todo o processo a partir da l\u00f3gica solid\u00e1ria e coletiva de organiza\u00e7\u00e3o, indo al\u00e9m da no\u00e7\u00e3o de apenas o alimento em si, mas de todo o contexto pol\u00edtico, econ\u00f4mico e social.<\/p>\n<p>Para que se desenvolva plenamente uma agricultura baseada na transi\u00e7\u00e3o agroecol\u00f3gica e no cooperativismo, rumo \u00e0 soberania alimentar, ser\u00e1 necess\u00e1rio, antes, conquistar a liberta\u00e7\u00e3o do povo palestino. N\u00e3o h\u00e1 desenvolvimento socioecon\u00f4mico dentro de uma l\u00f3gica de invas\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o. No entanto, a continuidade da resist\u00eancia por meio das pr\u00e1ticas descritas neste texto, bem como da manuten\u00e7\u00e3o de toda uma cultura e identidade que os sionistas buscam apagar, \u00e9 o caminho da liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A agricultura local palestina \u00e9 uma forma de luta pela autodetermina\u00e7\u00e3o de um povo que vive sob coloniza\u00e7\u00e3o sionista, que n\u00e3o deixa de lutar e resistir a todos os tipos de imposi\u00e7\u00f5es colocadas a ele. Lutar pelo direito de produzir, de promover um com\u00e9rcio local, de criar uma economia pr\u00f3pria, em meio a uma coloniza\u00e7\u00e3o, \u00e9 um ato de for\u00e7a sem igual.<\/p>\n<p>Lutar pela soberania alimentar enquanto do outro lado do muro o mesmo povo morre de fome ou morre tentando acessar a comida \u00e9 um ato de coragem e uma forma de demonstrar que o povo palestino n\u00e3o vai cessar na sua luta di\u00e1ria at\u00e9 que a Palestina esteja livre da ocupa\u00e7\u00e3o sionista e do imperialismo, al\u00e9m de ser uma forma de pautar um projeto popular de sociedade pautado no anti-imperialismo, na solidariedade e na autonomia dos povos.<\/p>\n<p><em> *Mestra em Hist\u00f3ria pela UFPE e militante do Setor de Internacionalismo do MST<\/em><\/p>\n<p><em>**Editado por Fernanda Alc\u00e2ntara<\/em><\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/2025\/06\/27\/soberania-alimentar-como-resistencia-na-palestina\/\">Soberania Alimentar como resist\u00eancia na Palestina<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/\">MST<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/abono-salarial-esta-liberado-para-os-nascidos-em-fevereiro\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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Foto: Maria Silva Por Vitt\u00f3ria Silva Paz Barreto* Da P\u00e1gina do MST Na atual conjuntura, \u00e9 dif\u00edcil pensar na exist\u00eancia da agricultura e da produ\u00e7\u00e3o em Gaza, onde n\u00e3o h\u00e1 seguran\u00e7a, paz e muito menos terras agricult\u00e1veis. Ap\u00f3s 20 meses de ataques violentos, mais de 56 mil pessoas foram mortas. 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