{"id":35510,"date":"2025-06-27T19:49:19","date_gmt":"2025-06-27T22:49:19","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/convite-a-desbravar-a-obra-de-byung-chul-han\/"},"modified":"2025-06-27T19:49:19","modified_gmt":"2025-06-27T22:49:19","slug":"convite-a-desbravar-a-obra-de-byung-chul-han","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/convite-a-desbravar-a-obra-de-byung-chul-han\/","title":{"rendered":"Convite a desbravar a obra de Byung-Chul Han"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"886\" height=\"592\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Screenshot-2025-06-27-at-19-47-14-byung-chul-han-the-philosopher-who-lives-life-backwards-we-v0-jF1JlP2_BixTsRxIJ839ag3KwQAw23rVUAakAjyONOIwebp-imagem-WEBP-1200-801-pixels-Redimensionada-73.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Screenshot-2025-06-27-at-19-47-14-byung-chul-han-the-philosopher-who-lives-life-backwards-we-v0-jF1JlP2_BixTsRxIJ839ag3KwQAw23rVUAakAjyONOIwebp-imagem-WEBP-1200-801-pixels-Redimensionada-73.png 886w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Screenshot-2025-06-27-at-19-47-14-byung-chul-han-the-philosopher-who-lives-life-backwards-we-v0-jF1JlP2_BixTsRxIJ839ag3KwQAw23rVUAakAjyONOI.webp-imagem-WEBP-1200-\u00d7-801-pixels-Redimensionada-73-300x200.png 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Screenshot-2025-06-27-at-19-47-14-byung-chul-han-the-philosopher-who-lives-life-backwards-we-v0-jF1JlP2_BixTsRxIJ839ag3KwQAw23rVUAakAjyONOI.webp-imagem-WEBP-1200-\u00d7-801-pixels-Redimensionada-73-768x513.png 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Screenshot-2025-06-27-at-19-47-14-byung-chul-han-the-philosopher-who-lives-life-backwards-we-v0-jF1JlP2_BixTsRxIJ839ag3KwQAw23rVUAakAjyONOI.webp-imagem-WEBP-1200-\u00d7-801-pixels-Redimensionada-73-272x182.png 272w\" sizes=\"(max-width: 886px) 100vw, 886px\"><figcaption>Foto: Ronald Patrick\/El Pais<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Por <strong>Josh Cohen<\/strong>, no <a href=\"https:\/\/aeon.co\/essays\/thought-tinkering-the-korean-german-philosopher-byung-chul-han\"><em>Aeon<\/em><\/a> | Tradu\u00e7\u00e3o: <strong>R\u00f4ney Rodrigues<\/strong><\/p>\n<p>Conheci Byung-Chul Han no final da d\u00e9cada passada, enquanto escrevia um livro sobre os prazeres e descontentamentos da inatividade. Minhas primeiras pesquisas sobre nossa cultura de excesso de trabalho e est\u00edmulo perp\u00e9tuo logo me levaram ao livro <em>A Sociedade do Cansa\u00e7o<\/em> de Han, publicado originalmente em alem\u00e3o em 2010. As descri\u00e7\u00f5es de Han sobre a cultura neoliberal de exaust\u00e3o me atingiram com aquela rara, mas inconfund\u00edvel, mistura de gratid\u00e3o e ressentimento que surge quando o pensamento de algu\u00e9m expressa com precis\u00e3o e plenitude nossas pr\u00f3prias intui\u00e7\u00f5es hesitantes.<\/p>\n<p>No cerne da concep\u00e7\u00e3o de Han sobre uma sociedade do cansa\u00e7o (<em>M\u00fcdigkeitsgesellschaft<\/em>) est\u00e1 um novo paradigma de domina\u00e7\u00e3o. O trabalhador da sociedade industrial internaliza o imperativo de trabalhar mais na forma da culpa do superego. O superego de Sigmund Freud, um supervisor hostil que nos persegue de dentro, surge quando a psique infantil internaliza a figura do pai proibitivo. Em outras palavras, o superego tem origem em figuras externas a n\u00f3s, de modo que, quando nos diz o que fazer, \u00e9 como se ouv\u00edssemos uma ordem de outra pessoa. J\u00e1 a sociedade do desempenho de nosso tempo, argumenta Han, n\u00e3o funciona com a culpa do superego, mas com a positividade do ideal do ego \u2013 n\u00e3o um \u201cvoc\u00ea deve\u201d, mas um \u201cvoc\u00ea pode\u201d. O ideal do ego \u00e9 aquela imagem de nossa pr\u00f3pria perfei\u00e7\u00e3o, outrora refletida em nosso eu infantil pelo olhar admirador dos pais. Ele vive em n\u00f3s n\u00e3o como um outro perseguidor, mas como uma vers\u00e3o elevada de n\u00f3s mesmos, uma voz de incentivo implac\u00e1vel a fazer e ser mais.<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/apoia.se\/outraspalavras\" aria-label=\"MAT\u00c9RIA-5\"><img decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/MATERIA--11.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/MATERIA--11.png 681w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-5-300x75.png 300w\" sizes=\"(max-width: 681px) 100vw, 681px\" width=\"681\" height=\"171\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>Com esse triunfo da positividade, a aspereza do chefe exigente d\u00e1 lugar \u00e0 suavidade (um termo-chave em Han) do treinador que incentiva sem cessar. Nessa perspectiva, a depress\u00e3o \u00e9 o mal-estar definitivo da sociedade do desempenho: o efeito de sempre nos sentirmos irremediavelmente atr\u00e1s de nosso pr\u00f3prio ideal do ego, esgotando-nos no processo.<\/p>\n<p>A figura do sujeito do desempenho d\u00e1 origem a algumas das evoca\u00e7\u00f5es mais v\u00edvidas de Han sobre a debilita\u00e7\u00e3o ps\u00edquica e corporal:<\/p>\n<p>\u201cO sujeito do desempenho, exausto e depressivo, desgasta-se a si mesmo\u2026 Ele est\u00e1 cansado, esgotado por si mesmo e em guerra consigo. Totalmente incapaz de se exteriorizar, de sair de si, de depender do Outro, do mundo, ele cerra os dentes sobre si mesmo; paradoxalmente, isso leva o eu a se esvaziar e se tornar oco. Ele se consome numa corrida de ratos que trava contra si pr\u00f3prio.\u201d<\/p>\n<p>Ao reler essa passagem agora, lembro-me de como ela me pareceu chocantemente verdadeira na primeira leitura. Ela me transportou de volta aos primeiros anos de minha vida acad\u00eamica profissional, ao zumbido permanente de frustra\u00e7\u00e3o ansiosa no fundo, enquanto a pesquisa \u2013 ao mesmo tempo a primeira e a mais distante prioridade profissional, o sinal indiscut\u00edvel de realiza\u00e7\u00e3o no trabalho \u2013 era eternamente subordinada \u00e0s demandas cotidianas de aulas, corre\u00e7\u00f5es e reuni\u00f5es de comit\u00ea. Nas poucas horas fora dessas obriga\u00e7\u00f5es, eu voltava a trabalhar em um artigo e rapidamente percebia que precisava consultar mais uma d\u00fazia de fontes antes de come\u00e7ar a escrever. De repente, eu notava o qu\u00e3o cansado estava; incapaz tanto de trabalhar quanto de me abster, ficava suspenso em um estado de vig\u00edlia exausta. Aquele eu do desempenho esvaziado, \u201cem guerra consigo mesmo\u201d, era dolorosamente familiar.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica de Han \u00e0 vida contempor\u00e2nea centra-se em seu fetiche de transpar\u00eancia; a compuls\u00e3o \u00e0 autoexposi\u00e7\u00e3o impulsionada pelas redes sociais e pela cultura ef\u00eamera da celebridade; a redu\u00e7\u00e3o do ser a uma s\u00e9rie de dados positivos; e a hostilidade concomitante \u00e0 opacidade e \u00e0 estranheza do humano. Isso talvez explique por que a reflex\u00e3o autobiogr\u00e1fica mal aparece nos escritos de Han: ele certamente receia tornar-se apenas mais uma voz tentando se fazer ouvir no meio da cacofonia de opini\u00f5es.<\/p>\n<p>Nascido em Seul em 1959, Han, quando crian\u00e7a, mexia com fios e produtos qu\u00edmicos em seu quarto, imitando o pai engenheiro civil, que trabalhara em grandes projetos p\u00fablicos na Coreia do Sul. Mas esses experimentos terminaram ap\u00f3s ele causar uma explos\u00e3o qu\u00edmica no quarto que quase o cegou, deixando-lhe cicatrizes f\u00edsicas que carrega at\u00e9 hoje. Ele acabou estudando metalurgia.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, a leitura e o pensamento de Han o levaram cada vez mais para a Europa e para o estudo da filosofia. Aos 22 anos, ele deixou a Coreia do Sul rumo \u00e0 Alemanha, dizendo aos pais que continuaria seus estudos cient\u00edficos (\u201celes n\u00e3o teriam me permitido estudar filosofia\u201d, contou ao <em>El Pa\u00eds<\/em> em 2023). Han chegou \u00e0 Alemanha quase sem conhecimento do idioma. Mas, ao longo dos anos, realizou uma not\u00e1vel autotransforma\u00e7\u00e3o: de estudante coreano de metalurgia e tecn\u00f3filo a fil\u00f3sofo e cr\u00edtico social alem\u00e3o emigrado. Agora, como disse a um entrevistador do <em>Der Zeit<\/em>, sua \u201cmexedice\u201d se d\u00e1 com o material do pensamento, n\u00e3o com \u201cfios ou ferros de solda\u201d. A met\u00e1fora transmite a ideia do pensar como um ambiente mais que uma atividade, uma concep\u00e7\u00e3o tipicamente alem\u00e3 da voca\u00e7\u00e3o do pensador.<\/p>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<p>A afinidade de Han com o pensamento e a cultura alem\u00e3 \u00e9 profunda, especialmente no que diz respeito ao status amb\u00edguo da Alemanha como, ao mesmo tempo, lar filos\u00f3fico do Iluminismo e de sua cr\u00edtica abrangente. Ele est\u00e1 profundamente enraizado na tradi\u00e7\u00e3o da Escola de Frankfurt, desenvolvendo para a era do capitalismo digital um novo cap\u00edtulo de sua investiga\u00e7\u00e3o sobre a \u201cdial\u00e9tica do Esclarecimento\u201d \u2013 aquela perturbadora intera\u00e7\u00e3o entre progresso e atavismo, entre cria\u00e7\u00e3o criativa e explos\u00e3o traum\u00e1tica, que moldou a transi\u00e7\u00e3o para a modernidade.<\/p>\n<p>Essas pequenas revela\u00e7\u00f5es sobre o homem e sua vida reverberam em seu pensamento e prosa. O \u201cmexedor\u201d \u00e9 uma figura l\u00fadica, que traz elementos qu\u00edmicos e for\u00e7as f\u00edsicas a novos e imprevis\u00edveis tipos de contato. Mas, para o menino Han, a brincadeira terminou em horror, que se transfere diretamente para a atividade posterior do pensar: \u201cPensar tamb\u00e9m \u00e9 mexer, e o pensar pode produzir explos\u00f5es. Pensar \u00e9 a atividade mais perigosa, talvez mais perigosa que a bomba at\u00f4mica\u201d.<\/p>\n<p>Han esclarece que seu pr\u00f3prio pensamento \u00e9 perigoso n\u00e3o porque incite viol\u00eancia, mas porque revela um mundo \u201cimplac\u00e1vel, louco e absurdo\u201d. Ele escreve a partir da experi\u00eancia do que T.W. Adorno chama de \u201cvida danificada\u201d, no subt\u00edtulo de <em>Minima Moralia<\/em> (1951) \u2013 livro que Han cita frequentemente \u2013, ou seja, a desintegra\u00e7\u00e3o, sob o capitalismo consumerista avan\u00e7ado, das formas e institui\u00e7\u00f5es culturais e a concomitante deforma\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia individual e das rela\u00e7\u00f5es pessoais.<\/p>\n<p>Han escreve como se estivesse nos escombros de uma explos\u00e3o quase fatal \u2013 ao mesmo tempo o inc\u00eandio em seu quarto de inf\u00e2ncia e a explos\u00e3o mais generalizada das formas de vida anteriores. E o dano \u00e9 irrepar\u00e1vel: \u201cO tempo em que existia algo como o Outro acabou\u201d, escreve ele em <em>A Expuls\u00e3o do Outro<\/em> (2016). A voz liter\u00e1ria de Han \u00e9 melanc\u00f3lica no sentido estritamente freudiano de estar selada em seu pr\u00f3prio luto, transmitindo uma convic\u00e7\u00e3o absoluta na entrega do eu e do mundo a um curso de destrui\u00e7\u00e3o t\u00e3o inevit\u00e1vel quanto irrevers\u00edvel.<\/p>\n<p>A m\u00fasica \u00e9 central para a identifica\u00e7\u00e3o de Han com a tradi\u00e7\u00e3o cultural alem\u00e3. Ele j\u00e1 contou sobre seu prazer em cantar <em>Winterreise<\/em> (1827) de Franz Schubert, um ciclo de can\u00e7\u00f5es cuja beleza est\u00e1 inextricavelmente ligada \u00e0 sua desola\u00e7\u00e3o. Enlutado por um amor perdido, o cantor vagueia por uma paisagem noturna de inverno, dilacerado pela solid\u00e3o enquanto anseia por uma morte que n\u00e3o vem. Talvez n\u00e3o seja uma m\u00e1 aproxima\u00e7\u00e3o do Han que emerge das p\u00e1ginas de seus livros, caminhando abatido pelo inverno da civiliza\u00e7\u00e3o, atento aos vest\u00edgios de tudo o que se perdeu: a continuidade do tempo, o gr\u00e3o da beleza, as tens\u00f5es do eros, a substancialidade do ser.<\/p>\n<p>Talvez os outros prazeres pessoais aos quais Han aludiu em entrevistas \u2013 cuidar de seu jardim, boa comida em restaurantes sofisticados, uma sociabilidade um tanto hesitante \u2013 devam ser vistos no contexto dessas perdas: uma determina\u00e7\u00e3o em se agarrar ao mundo da sensa\u00e7\u00e3o refinada que est\u00e1 sendo t\u00e3o inexoravelmente erodido pela vida virtual. N\u00e3o estou sugerindo que os livros de Han sejam explicitamente lacrimosos. Seu tom manifesto \u00e9 mais de raiva contida, tornada melanc\u00f3lica pela aus\u00eancia de qualquer v\u00e1lvula de escape ou rem\u00e9dio para ela. Sob seu olhar, os setores pol\u00edtico, financeiro e tecnol\u00f3gico s\u00e3o ladr\u00f5es aos quais entregamos voluntariamente nossas vidas e nossos eus, junto com qualquer capacidade de dissenso ou resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Como seus predecessores da Escola de Frankfurt, Han v\u00ea a penetra\u00e7\u00e3o do capitalismo nos recantos mais profundos da vida ps\u00edquica e cultural como a chave para esse fen\u00f4meno. <em>A Sociedade do Cansa\u00e7o<\/em> insiste que o poder hoje n\u00e3o opera por meio de repress\u00e3o e persegui\u00e7\u00e3o, mas pelos meios astutos e insidiosos da \u201cautoexplora\u00e7\u00e3o\u201d. Num regime autoadministrado desse tipo, a revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 quase literalmente impens\u00e1vel: \u201cBurnout e revolu\u00e7\u00e3o s\u00e3o mutuamente exclusivos\u201d, escreve ele mais tarde, em <em>Capitalismo e Puls\u00e3o de Morte<\/em> (2019).<\/p>\n<p>As investiga\u00e7\u00f5es de Han sobre as diferentes regi\u00f5es da experi\u00eancia contempor\u00e2nea \u2013 incluindo trabalho, tempo, amor e arte \u2013 resultam em um projeto de pensamento notavelmente consistente, uma cr\u00edtica implac\u00e1vel \u00e0s priva\u00e7\u00f5es espirituais e pol\u00edticas do capitalismo digital. A quest\u00e3o perturbadora para quem l\u00ea amplamente a obra de Han \u00e9 se essa consist\u00eancia tenazmente sustentada acaba se tornando um sintoma daquilo que critica. Isto \u00e9: a negatividade ininterrupta das descri\u00e7\u00f5es de Han, sua relut\u00e2ncia em encontrar algo al\u00e9m de perda e degrada\u00e7\u00e3o nas formas da experi\u00eancia contempor\u00e2nea, acaba reproduzindo a l\u00f3gica unidimensional do pr\u00f3prio capitalismo digital?<\/p>\n<p>Uma das inova\u00e7\u00f5es mais estranhas recentes da ind\u00fastria do turismo e lazer \u00e9 a experi\u00eancia de arte imersiva, onde os espectadores s\u00e3o convidados a ficar de p\u00e9 ou relaxar em espa\u00e7os escuros e cavernosos ladeados por telas gigantes, nas quais s\u00e3o projetadas reprodu\u00e7\u00f5es digitalmente manipuladas de grandes pinturas. As pinceladas de Vincent van Gogh ou Claude Monet, os blocos de cor de Piet Mondrian, as paisagens derretidas de Salvador Dal\u00ed \u2013 todos flutuam pelas telas, ganhando vida e se desintegrando em pilhas virtuais no ch\u00e3o, antes de se erguerem em redemoinhos para se combinarem e recombinarem nas paredes.<\/p>\n<p>Ao visitar uma dessas atra\u00e7\u00f5es depois de ler Han, ela parecer\u00e1 muito mais sinistra do que um mero exerc\u00edcio elaborado de truques <em>kitsch<\/em>, pois ele acredita que os sintomas culturais do capitalismo digital degradam efetivamente a pr\u00f3pria natureza da experi\u00eancia. Han frequentemente invoca a distin\u00e7\u00e3o de Walter Benjamin entre os dois sentidos de experi\u00eancia concentrados nas palavras alem\u00e3s <em>Erfahrung<\/em> e <em>Erlebnis<\/em>. <em>Erfahrung<\/em> denota uma experi\u00eancia do que a filosofia chama de negativo \u2013 aquilo que \u00e9 irreduzivelmente outro para a consci\u00eancia. Como um encontro com o novo e desconhecido, Erfahrung \u00e9 intrinsecamente transformadora, escreve Han em <em>A Sociedade Paliativa <\/em>(2020), \u201cum processo doloroso de transforma\u00e7\u00e3o que cont\u00e9m um elemento de sofrimento, de passar por algo\u201d.<\/p>\n<p>A arte pode provocar tal experi\u00eancia. Um poema, pe\u00e7a ou pintura pode ser o que Franz Kafka chamou de \u201co machado para o mar congelado dentro de n\u00f3s\u201d, questionando nossos modos de ver, pensar e sentir, at\u00e9 mesmo nosso modo de viver. \u00c9 o tipo de encontro a que Mark Rothko pode ter se referido quando observou que \u201cmuitas pessoas desmoronam e choram diante de minhas pinturas\u2026\u201d Vistas atrav\u00e9s da sensibilidade de Han, as pinturas de Rothko parecem cortar diretamente atrav\u00e9s dos artif\u00edcios suaves da vida digital, restabelecendo o contato com as realidades tr\u00eamulas da vida corporal e espiritual das quais estamos exilados h\u00e1 tanto tempo.<\/p>\n<p>Para que uma obra de arte tenha esse efeito, ela deve de alguma forma nos resistir, causar uma perturba\u00e7\u00e3o em nossos modos familiares de linguagem e percep\u00e7\u00e3o. Ser receptivo a esse tipo de perturba\u00e7\u00e3o requer certas condi\u00e7\u00f5es experienciais b\u00e1sicas; devemos estar em um ambiente que permita a demora, uma perman\u00eancia sem pressa em sua presen\u00e7a. O paradoxo da demora \u00e9 que ela promove uma intimidade que transmite a estranheza irreduz\u00edvel da obra de arte. Quando uma pintura nos atrai, descobrimos que ela nos escapa quanto mais tentamos nos aproximar. \u00c9 por isso que podemos nos encontrar contemplando-a por tanto tempo, muitas vezes em uma esp\u00e9cie de estupefa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>Van Gogh Imersivo<\/em>, segundo seus criadores, nos coloca dentro das pinturas, em uma nova proximidade t\u00e1til com sua composi\u00e7\u00e3o e textura. Mas faz isso aniquilando o que Han, em O<em> Aroma do Tempo <\/em>(2009), chama de \u201cgravita\u00e7\u00e3o temporal\u201d dos originais, desancorando-os de qualquer localiza\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o ou tempo. Uma pintura deriva seu significado da rela\u00e7\u00e3o fixa entre seus elementos texturais e crom\u00e1ticos espaciais, digamos, desta faixa espessa de amarelo com aquele tra\u00e7o subjacente de preto. Isso \u00e9 o que chamamos de sua composi\u00e7\u00e3o. Digitalizar uma pintura \u00e9 decomp\u00f4-la, priv\u00e1-la de base.<\/p>\n<p>Sob o dom\u00ednio do capitalismo digital, o pr\u00f3prio tempo \u00e9 separado de qualquer \u201ctens\u00e3o narrativa ou teleol\u00f3gica\u201d, ou seja, de qualquer prop\u00f3sito ou significado discern\u00edvel, e assim, como as pinturas digitais em um show imersivo, ele \u201cse desintegra em pontos que zunem sem qualquer senso de dire\u00e7\u00e3o\u201d. Nesse regime temporal, n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de <em>Erfahrung<\/em>, que depende de um senso de <em>continuum<\/em> narrativo e dura\u00e7\u00e3o. H\u00e1 apenas a prolifera\u00e7\u00e3o de sua contraparte p\u00e1lida, <em>Erlebnis<\/em>: o evento discreto que \u201cdivertir em vez de transformar\u201d, como Han diria mais tarde em <em>A Sociedade Paliativa<\/em>.<\/p>\n<p>O cerne da escrita de Han \u00e9, sobretudo, filos\u00f3fico. A vida social e cultural s\u00e3o ocasi\u00f5es para abordar quest\u00f5es metaf\u00edsicas. Assim, os sintomas superficiais da cultura digital s\u00e3o secund\u00e1rios em rela\u00e7\u00e3o a suas premissas ontol\u00f3gicas. Como Martin Heidegger, sobre cujo conceito de Stimmung (estado de \u00e2nimo) ele escreveu sua tese de doutorado em 1994 (al\u00e9m de uma introdu\u00e7\u00e3o a Heidegger em 1999), Han busca desenterrar a metaf\u00edsica subjacente de nossa cultura contempor\u00e2nea. Em particular, e novamente como Heidegger, Han se preocupa com a maneira que o ambiente de uma cultura hiperacelerada condiciona a rela\u00e7\u00e3o fundamental entre consci\u00eancia e mundo.<\/p>\n<p><em>A Sociedade do Cansa\u00e7o<\/em> cristalizou a cr\u00edtica \u00e0 l\u00f3gica de autoexplora\u00e7\u00e3o do capitalismo contempor\u00e2neo que Han vem elaborando desde ent\u00e3o. Antes disso, sua produ\u00e7\u00e3o era significativamente mais diversificada; havia livros sobre morte, filosofia do Extremo Oriente e um estudo sobre o conceito de poder na tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica continental. No entanto, <em>O Que \u00c9 Poder?<\/em> (2005) \u00e9 intrigante por esbo\u00e7ar uma no\u00e7\u00e3o n\u00e3o coercitiva de poder que prenuncia de modo quase prof\u00e9tico sua concep\u00e7\u00e3o da sociedade do cansa\u00e7o do capitalismo digital.<\/p>\n<p>Como o poder frequentemente envolve coer\u00e7\u00e3o, argumenta Han, houve uma tend\u00eancia a v\u00ea-los como insepar\u00e1veis. Mas \u00e9 apenas quando o poder \u00e9 pobre em media\u00e7\u00e3o, sentido como alheio a nossas vidas e interesses, que ele recorre \u00e0 viol\u00eancia amea\u00e7ada ou real. J\u00e1 quando o poder est\u00e1 no \u201cponto mais alto de media\u00e7\u00e3o\u201d \u2013 quando parece falar a partir do reconhecimento das necessidades e desejos de seus s\u00faditos \u2013 \u00e9 mais prov\u00e1vel que receba o consentimento volunt\u00e1rio desses s\u00faditos. Pode-se conceber, portanto, um poder que n\u00e3o tenha san\u00e7\u00f5es \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o, mas que ainda assim se torna absoluto pela plena identifica\u00e7\u00e3o dos s\u00faditos com ele.<\/p>\n<p>Quanto menos ele depende da amea\u00e7a de medidas punitivas para se sustentar, mais o poder se maximiza. \u201cUm poder absoluto\u201d, escreve Han, \u201cseria aquele que nunca se tornasse aparente, que nunca apontasse para si mesmo, que antes se misturasse completamente ao que vai sem dizer.\u201d \u00c9 exatamente isso que acontece na sociedade do cansa\u00e7o do capitalismo digital, onde o poder do capital consiste n\u00e3o em seu poder de oprimir, mas na rendi\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria dos s\u00faditos \u00e0 pr\u00f3pria explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Han recorre \u00e0 concep\u00e7\u00e3o do te\u00f3logo germano-americano Paul Tillich de poder como ipsoc\u00eantrico, ou seja, como ele mesmo coloca, centrado em \u201cum eu cuja intencionalidade consiste em querer-a-si-mesmo\u201d, cultivando e refor\u00e7ando seu pr\u00f3prio status. Deus \u00e9 a encarna\u00e7\u00e3o suprema do poder porque, nas palavras de G.W.F. Hegel, \u201cele \u00e9 o poder de ser Si mesmo\u201d. Essa vontade de persistir na pr\u00f3pria exist\u00eancia, de se agarrar \u00e0 pr\u00f3pria identidade, \u00e9 a premissa b\u00e1sica do modo de ser ocidental. Podemos discerni-la em a\u00e7\u00e3o no narcisismo vazio das redes sociais e na cultura da autoexposi\u00e7\u00e3o na qual todos somos instados a participar. A autoexplora\u00e7\u00e3o \u00e9, em certo sentido, uma variante distorcida do <em>cogito<\/em> cartesiano: sou visto, logo existo. Ao me tornar perpetuamente vis\u00edvel, posso me esvaziar, perder os \u00faltimos vest\u00edgios de minha interioridade. Mas, ao me agarrar aos ossos nus de uma autoimagem, alguma forma de minha exist\u00eancia sobrevive.<\/p>\n<p>O fundamento b\u00e1sico dessa eros\u00e3o da experi\u00eancia significativa, argumenta Han, \u00e9 sentido no n\u00edvel da temporalidade. O tempo acelerado do capitalismo digital efetivamente abole a pr\u00e1tica da \u201cdemora contemplativa\u201d. A vida \u00e9 sentida n\u00e3o como um <em>continuum<\/em> temporal, mas como um ac\u00famulo descont\u00ednuo de sensa\u00e7\u00f5es aglomeradas umas sobre as outras. Uma das consequ\u00eancias mais flagrantes desse novo regime temporal \u00e9 a atomiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais, \u00e0 medida que as outras pessoas s\u00e3o reduzidas a part\u00edculas intercambi\u00e1veis no mesmo amontoado sensorial. A confian\u00e7a entre as pessoas, fundamentada tanto na suposi\u00e7\u00e3o de continuidade e confiabilidade m\u00fatuas quanto no sentido de conhecer o outro como singular e distinto, \u00e9 inexoravelmente corro\u00edda: \u201cPr\u00e1ticas sociais como prometer, fidelidade ou comprometimento, que s\u00e3o pr\u00e1ticas temporais no sentido de que se comprometem com um futuro e, assim, limitam o horizonte do futuro, fundamentando assim a dura\u00e7\u00e3o, est\u00e3o perdendo toda sua import\u00e2ncia.\u201d<\/p>\n<p>Essa corros\u00e3o da fidelidade e do compromisso \u00e9 especialmente evidente, argumenta Han, na conduta do amor e dos relacionamentos. O amor repousa sobre uma disposi\u00e7\u00e3o para arriscar o n\u00e3o saber, j\u00e1 que o tempo muda tanto os amantes quanto o mundo de maneiras que eles n\u00e3o podem antecipar. Nesse aspecto, o amor \u00e9 a experi\u00eancia exemplar do negativo, uma recusa do conhecimento conceitual e categ\u00f3rico.<\/p>\n<p>Como Han o concebe, o amor nada tem a ver com o acoplamento sentimental e confort\u00e1vel promovido pela cultura de consumo, no qual o objeto amado \u00e9 reduzido a uma proje\u00e7\u00e3o narcisista do eu. \u00c9 antes um encontro com a alteridade radical, com a dor e a loucura \u2013 ambas impl\u00edcitas na palavra paix\u00e3o \u2013 que decorrem do risco de si mesmo. Obcecado pelo conforto, pela redu\u00e7\u00e3o do amante a uma quantidade conhecida e inofensiva, \u201cO amor moderno carece de toda transcend\u00eancia e transgress\u00e3o\u201d, escreve Han em A Agonia de Eros (2012).<\/p>\n<p>Transcend\u00eancia e transgress\u00e3o s\u00e3o dimens\u00f5es g\u00eameas do negativo: ambas envolvem ir al\u00e9m e aqu\u00e9m do j\u00e1 conhecido. Assim como est\u00e3o sendo extirpadas do er\u00f3tico, tamb\u00e9m est\u00e3o perdendo seu lugar no est\u00e9tico. A arte contempor\u00e2nea, argumenta Han em <em>Salvar o Belo <\/em>(2015), tornou-se o \u00f3rg\u00e3o expressivo de uma \u201csociedade da positividade\u201d, como se manifesta na est\u00e9tica \u201clisa\u201d comum a iPhones, depila\u00e7\u00f5es brasileiras e esculturas de Jeff Koons. O que esses objetos aparentemente d\u00edspares t\u00eam em comum \u00e9 o brilho imperme\u00e1vel de suas superf\u00edcies.<\/p>\n<p>Han tem como alvo espec\u00edfico Koons, em cuja obra \u201cn\u00e3o existe desastre, nem ferida, nem rupturas, tampouco costuras\u201d. Por \u201ccosturas\u201d, ele quer dizer aqueles tra\u00e7os do trabalho e do sofrimento que foram investidos em sua fabrica\u00e7\u00e3o: falhas na passagem f\u00e1cil da obra para seu consumo. De modo mais amplo, diz Han: \u201cO objeto liso deleta seu Contra. Qualquer forma de negatividade \u00e9 removida.\u201d Tal negatividade, ou resist\u00eancia, apresenta um obst\u00e1culo para a \u201ccomunica\u00e7\u00e3o acelerada\u201d. Isso pode estar no n\u00edvel do material \u2013 o gr\u00e3o \u00e1spero da pedra do escultor, a espessura do empasto da tinta, as disson\u00e2ncias da linguagem po\u00e9tica ou musical. Ou pode pertencer mais \u00e0 subst\u00e2ncia da obra, uma aliena\u00e7\u00e3o da imagem, composi\u00e7\u00e3o, forma. De qualquer modo, livre de qualquer interrup\u00e7\u00e3o desse tipo, a obra de arte lisa viaja pelo campo perceptivo do espectador com a facilidade de um milkshake deslizando pelo trato digestivo.<\/p>\n<p>Essa planura esvaziada \u00e9 igualmente evidente em uma crise relacionada do capitalismo digital: o esgotamento das formas narrativas como portadoras de significado social. Em <em>A Crise da Narra\u00e7\u00e3o<\/em> (2023), Han ecoa uma an\u00e1lise agora familiar. Ele atribui a ascens\u00e3o dos movimentos nacionalistas populistas \u00e0 percep\u00e7\u00e3o astuta, ainda que c\u00ednica, por parte de seus l\u00edderes, de um anseio p\u00fablico por \u201csignificado e identidade\u201d em um mundo onde a temporalidade foi t\u00e3o erodida que reduz o calend\u00e1rio a \u201cuma agenda sem sentido de compromissos\u201d e destr\u00f3i qualquer senso de continuidade ou comunidade.<\/p>\n<p>A cultura do consumo, com sua compuls\u00e3o por novidade e est\u00edmulo perp\u00e9tuo, igualmente corr\u00f3i os la\u00e7os de experi\u00eancia compartilhada que geram narrativas significativas. O fogo ao redor do qual os seres humanos outrora se reuniam para ouvir hist\u00f3rias foi substitu\u00eddo pela tela digital, \u201cque separa as pessoas como consumidores individuais\u201d. Tempo, amor, arte, trabalho, narrativa; estas s\u00e3o as zonas-chave da experi\u00eancia esvaziadas pela l\u00f3gica desintegrativa do capitalismo digital. Cada uma \u00e9 um rico reservat\u00f3rio de encontro transformador, ou <em>Erfahrung<\/em>, que o \u201cn\u00e3o-tempo\u201d do presente reduziu a inst\u00e2ncias vazias de <em>Erlebnis<\/em>.<\/p>\n<p>\u00c9 em <em>Vita Contemplativa<\/em> (2022) que Han avan\u00e7a mais al\u00e9m dos limites da pol\u00eamica para vislumbrar uma alternativa \u00e0 pol\u00edtica e cultura enervadas da sociedade do desempenho. O livro apresenta uma defesa filos\u00f3fica da inatividade, concebida menos como oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 atividade do que como uma possibilidade dentro dela. Han cita um fragmento da fase final de Nietzsche sobre \u201cpessoas inventivas\u201d, que prop\u00f5e que o verdadeiramente novo s\u00f3 pode surgir onde h\u00e1 tempo e liberdade suficientes para pensar, \u00e0 parte dos imperativos de prop\u00f3sito e produtividade.<\/p>\n<p>Essa comunidade nietzschiana ainda inexistente dos inventivos ecoa a imagina\u00e7\u00e3o ut\u00f3pica do poeta alem\u00e3o Novalis de uma \u201crep\u00fablica dos vivos\u201d. O ideal de poesia de Novalis \u00e9 muito mais do que uma forma liter\u00e1ria discreta. \u00c9 radicalmente expansivo. Para Novalis e os rom\u00e2nticos alem\u00e3es, a poesia \u00e9 \u201cum meio de unifica\u00e7\u00e3o, reconcilia\u00e7\u00e3o e amor\u201d. A capacidade do poema de encontrar uma imagem do todo em um objeto aparentemente discreto serve como uma esp\u00e9cie de promessa da unidade \u00faltima entre parte e todo, finito e infinito.<\/p>\n<p>Esse horizonte ut\u00f3pico est\u00e1 intimamente ligado \u00e0 natureza da poesia como atividade n\u00e3o final\u00edstica. Por n\u00e3o ter um objetivo instrumental, nada em particular \u201ca fazer\u201d, ela \u00e9 suficientemente abrangente para absorver em si todo o mundo humano e n\u00e3o humano, o que Novalis chama de \u201cfam\u00edlia mundial\u201d, sem exclus\u00f5es ou exce\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Parte da beleza dessa vis\u00e3o ut\u00f3pica est\u00e1 certamente em sua impossibilidade, e Han sabe que n\u00e3o deve propor um programa para sua realiza\u00e7\u00e3o \u2013 principalmente porque isso exigiria uma mudan\u00e7a instrumental do contemplativo para o ativo. Mas essa impossibilidade deixa sua obra dividida entre a escurid\u00e3o implac\u00e1vel da realidade do mundo e a luz pura de seu ideal, com muito pouca no\u00e7\u00e3o de qualquer passagem entre os dois lados dessa divis\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas se afastarmos a obra de Koons do julgamento implac\u00e1vel de Han, est\u00e1 longe de ser claro que ela abole o negativo. A superf\u00edcie espelhada de sua <em>silhueta de urso <\/em>sem caracter\u00edsticas \u00e9 meramente uma afirma\u00e7\u00e3o lisa da positividade da cultura pop? Sua pr\u00f3pria vacuidade n\u00e3o se apresenta a n\u00f3s como uma opacidade imperme\u00e1vel? Em certo sentido, confirma a observa\u00e7\u00e3o de Han de que a arte de Koons recusa a interpreta\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o no sentido que o pr\u00f3prio Han pretende. <em>A pura haecceidade da obra, seu silencioso esc\u00e1rnio de qualquer decifra\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, n\u00e3o constituiria sua pr\u00f3pria negatividade?<\/em><\/p>\n<p>Recordar aquele sobressalto de reconhecimento em meu primeiro encontro com <em>A Sociedade do Cansa\u00e7o<\/em> s\u00f3 amplifica minha suspeita de que a pol\u00eamica de Han tornou-se formulaica e, como tal, uma esp\u00e9cie da pr\u00f3pria desaten\u00e7\u00e3o que ele denuncia. Encontro-me desejando que ele desista, pelo menos uma vez, de ensaios de pinceladas largas sobre a l\u00f3gica fundamental de condi\u00e7\u00f5es sociais em larga escala e, em vez disso, concentre-se em um \u00fanico objeto ou fen\u00f4meno \u2013 uma obra de arte, um lugar, uma pessoa. Se a sintonia com a alteridade est\u00e1 desaparecendo, por que n\u00e3o buscar reviv\u00ea-la em vez de lament\u00e1-la?<\/p>\n<p>Acontece que h\u00e1 uma vertente na obra de Han que pelo menos aponta para essa possibilidade, a saber, seus escritos sobre a tradi\u00e7\u00e3o cultural em que nasceu. No significativamente intitulado <em>Aus\u00eancia<\/em> (2007), Han descreve o modo muito diferente de ser e de rela\u00e7\u00e3o cultivado na filosofia, cultura e linguagem do Extremo Oriente. Em contraste com o apego tenaz do eu ocidental a seu pr\u00f3prio desejo, Han apresenta um eu que busca seu pr\u00f3prio \u201cesvaziamento\u201d \u2013 \u201cUm andarilho \u00e9 sem eu, sem self, sem nome.\u201d Enquanto a substancialidade do eu ocidental requer sua m\u00e1xima diferencia\u00e7\u00e3o do mundo \u2013 o poder divino de ser si mesmo \u2013, o eu oriental visa a uma esp\u00e9cie de fus\u00e3o oce\u00e2nica com o mundo.<\/p>\n<p>O adjetivo \u201coce\u00e2nico\u201d n\u00e3o foi escolhido arbitrariamente. Han relata o conto do fil\u00f3sofo chin\u00eas Zhuangzi, do s\u00e9culo IV a.C., sobre um peixe gigante que vive num mar escuro do norte e se transforma em um p\u00e1ssaro gigante. Se esse peixe-p\u00e1ssaro n\u00e3o fosse gigante, teria que reunir uma individualidade heroica e reunir toda a for\u00e7a de sua vontade contra o c\u00e9u e o mar. Mas seu tamanho colossal permite que seja carregado sem esfor\u00e7o pela for\u00e7a das ondas e dos ventos. Por analogia, a mente que se op\u00f5e ao mundo v\u00ea sua rela\u00e7\u00e3o apenas em termos de oposi\u00e7\u00e3o. Se o mundo \u00e9 um mar hostil e opressor, ent\u00e3o a mente \u00e9 um pequeno peixe em apuros, lutando para reunir todo seu poder e ast\u00facia para evitar ser lan\u00e7ado \u00e0s margens por suas correntes. Mas se o peixe \u00e9 de escala proporcional ao mar, pode ceder em vez de lutar contra as ondas: \u201cSe a mente \u00e9 o mar, o mar n\u00e3o representa amea\u00e7a.\u201d<\/p>\n<p>Os rituais de sauda\u00e7\u00e3o do Extremo Oriente expressam uma amizade igualmente generalizada e vazia. Quando o indiv\u00edduo ocidental olha nos olhos do outro e lhe aperta a m\u00e3o, est\u00e1 falando como um eu delimitado e diferenciado para outro. Isso cria o que Han chama de um \u201cespa\u00e7o dial\u00f3gico\u201d pleno, transbordante de olhares, pessoas e palavras.<\/p>\n<p>A rever\u00eancia oriental, por outro lado, pretende esvaziar a sauda\u00e7\u00e3o de conte\u00fado, tornar tanto seu sujeito quanto seu objeto ausentes um para o outro. Os participantes de uma rever\u00eancia \u201cn\u00e3o olham para lugar nenhum\u201d, como se cumprimentassem ningu\u00e9m em particular: \u201cA gram\u00e1tica da rever\u00eancia n\u00e3o tem nominativo ou acusativo, nem sujeito subjugador nem objeto subjugado, nem ativo nem passivo\u2026 Esta aus\u00eancia de casos constitui sua amizade.\u201d Trata-se de uma amizade distinta das paix\u00f5es da amizade, onde o amigo \u00e9 escolhido com base em sua singularidade. Trazer outro para a zona inclusiva de minha amizade implica uma exclus\u00e3o concomitante, uma escolha desta e n\u00e3o daquela companhia e amor. A amizade do ritual da rever\u00eancia codifica, em vez disso, uma universalidade radical \u2013 um amor livre de quaisquer preconceitos da subjetividade.<\/p>\n<p>Han acredita que a tradi\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica alem\u00e3 \u00e9 portadora de uma concep\u00e7\u00e3o similar, embora distinta, de amizade universal, na qual todos os seres humanos podem se tornar \u201cconcidad\u00e3os numa rep\u00fablica dos vivos\u201d. \u00c9 uma concep\u00e7\u00e3o que media entre a amizade indiferente do Oriente e a amizade apaixonada do Ocidente, entre a universalidade e a singularidade dos outros.<\/p>\n<p>Parece-me que, se a tradi\u00e7\u00e3o alem\u00e3 carrega o ideal preferido de Han de universalidade, \u00e9 o pensamento, a linguagem e a cultura do Extremo Oriente que permitem uma aprecia\u00e7\u00e3o mais l\u00fadica e viva do particular, insinuando matiz e cor numa prosa que pode parecer cada vez mais monocrom\u00e1tica em tom. Podemos pensar nessas duas vertentes como a intera\u00e7\u00e3o do poeta e do inventor, mostrando um prazer evidente na observa\u00e7\u00e3o e associa\u00e7\u00e3o. Para citar Han, a massa de tempura transforma peda\u00e7os de vegetal ou peixe em \u201cuma crocante aglomera\u00e7\u00e3o de vazio\u201d; no jardim de pedras zen, \u201ca natureza brilha no vazio e na aus\u00eancia\u201d. Ao contr\u00e1rio do vazio do Ocidente consumista que Han denuncia por ser imposto de cima por mestres corporativos, o vazio do jardim zen ou das cidades do Extremo Oriente \u00e9 org\u00e2nico \u00e0 cultura.<\/p>\n<p>A entrevista de Han ao <em>El Pa\u00eds<\/em> em 2023 termina com sua sugest\u00e3o, depois que o gravador \u00e9 desligado, dele e o entrevistador irem para seu restaurante italiano favorito. Comendo uma por\u00e7\u00e3o de sopa de peixe, ele relaxa, brinca, desfruta de toda a alegria de uma conversa fluida que parecia ausente no ambiente formal da entrevista. O que tal infus\u00e3o de vitalidade e brincadeira poderia fazer por sua escrita? Han provavelmente objetaria que tais lampejos de positividade apenas embotariam o fio negativo de seu pensamento. Mas n\u00e3o posso deixar de me perguntar se n\u00e3o seria o oposto.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Por Josh Cohen, no Aeon | Tradu\u00e7\u00e3o: R\u00f4ney Rodrigues Conheci Byung-Chul Han no final da d\u00e9cada passada, enquanto escrevia um [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":35511,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[8992,8993,5511,6007,8994,8995,8996,8997],"tags":[],"class_list":["post-35510","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-autoexposicao","category-byung-chul-han","category-capa","category-crise-brasileira","category-filosofia-oriental","category-psicanalise-e-politica","category-sociedade-do-cansaco","category-sociedade-paliativa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35510","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=35510"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35510\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/35511"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=35510"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=35510"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=35510"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}