{"id":36699,"date":"2025-07-04T18:26:47","date_gmt":"2025-07-04T21:26:47","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/passeio-ao-redor-do-livro\/"},"modified":"2025-07-04T18:26:47","modified_gmt":"2025-07-04T21:26:47","slug":"passeio-ao-redor-do-livro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/passeio-ao-redor-do-livro\/","title":{"rendered":"\u201cPasseio ao redor do livro\u201d"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"860\" height=\"573\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/arte_en_la_calle-3.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/arte_en_la_calle-3.jpg 860w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/arte_en_la_calle-3-300x200.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/arte_en_la_calle-3-768x512.jpg 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/arte_en_la_calle-3-272x182.jpg 272w\" sizes=\"auto, (max-width: 860px) 100vw, 860px\"><figcaption>Parte de um mural no M\u00e9xico DF. Foto: teleSUR<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Este texto \u00e9 o pref\u00e1cio de <em>A sociedade dos textos dois<\/em>, organizado por <strong>Andr\u00e9 Botelho<\/strong> e <strong>Alexandre de Bastos Pereira, <\/strong>o<strong> <\/strong>oitavo volume da BVPS Cole\u00e7\u00e3o, composto inteiramente por textos in\u00e9ditos. <a href=\"https:\/\/blogbvps.com\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/BVPS-Colecao_v.008_vf-1.pdf\">Clique\u00a0aqui<\/a>\u00a0e baixe gratuitamente o e-book. Outros t\u00edtulos da Cole\u00e7\u00e3o podem ser conferidos <a href=\"https:\/\/blogbvps.com\/bvps-colecao\/\">aqui.<\/a> O <a href=\"https:\/\/blogbvps.com\/\">Blog da Biblioteca Virtual do Pensamento Social (BVPS)<\/a> \u00e9 parceiro editorial de <em>Outras Palavras<\/em>. <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tag\/bvps\/\"><strong>Leia outros textos<\/strong><\/a><\/p>\n<div>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"473\" height=\"592\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Screenshot-2025-07-04-at-18-04-39-WhatsApp-Image-2025-07-01-at-115739webp-imagem-WEBP-819-1024-pixels-Redimensionada-57.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Screenshot-2025-07-04-at-18-04-39-WhatsApp-Image-2025-07-01-at-115739webp-imagem-WEBP-819-1024-pixels-Redimensionada-57.png 473w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Screenshot-2025-07-04-at-18-04-39-WhatsApp-Image-2025-07-01-at-11.57.39.webp-imagem-WEBP-819-\u00d7-1024-pixels-Redimensionada-57-240x300.png 240w\" sizes=\"auto, (max-width: 473px) 100vw, 473px\"><\/figure>\n<\/div>\n<p>Ler, ler um livro \u00e9, como todas as outras ocupa\u00e7\u00f5es propriamente humanas, uma tarefa ut\u00f3pica.<br \/>Jos\u00e9 Ortega y Gasset, \u201cQue es leer\u201d, 1946.<\/p>\n<p>Apresentar este livro, que re\u00fane ensaios de jovens pesquisadores vinculados \u00e0 \u00e1rea de pensamento social brasileiro, \u00e9 tamb\u00e9m uma oportunidade de refletir sobre um programa de ensino e pesquisa desenvolvido ao longo de mais de vinte anos. Como ressaltam os organizadores na apresenta\u00e7\u00e3o, esse programa tem lugar no N\u00facleo de Estudos Comparados e Pensamento Social (NEPS), sediado na UFRJ e, mais recentemente, na UFF e na UFRRJ. No entanto, ele remete a outras institui\u00e7\u00f5es e experi\u00eancias anteriores, at\u00e9 hoje profundamente inspiradoras, como as pesquisas de Elide Rugai Bastos e seu grupo na Unicamp. Afinal, como sempre lembra um amigo do grupo, Arcadio Diaz-Qui\u00f1ones, come\u00e7ar nunca \u00e9 partir do zero. Destaco ainda a import\u00e2ncia dos GTs e CPs de pensamento social brasileiro da ANPOCS e da SBS, nos quais muitas das ideias discutidas pelo grupo foram testadas e debatidas, por vezes em acaloradas pol\u00eamicas. Nos \u00faltimos anos, parte significativa dos esfor\u00e7os do NEPS concentrou-se em sua iniciativa irm\u00e3, a Biblioteca Virtual do Pensamento Social (BVPS), em especial em seu Blog, voltado \u00e0 pr\u00e1tica da comunica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Na BVPS, a participa\u00e7\u00e3o de jovens pesquisadores, como os que publicam nesta colet\u00e2nea, tem sido central. Muitos deles, inclusive, colaboram ou colaboraram em diferentes frentes, da equipe editorial ao trabalho nas m\u00eddias sociais.<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/apoia.se\/outraspalavras\" aria-label=\"MAT\u00c9RIA-5\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/MATERIA-5-3.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/MATERIA-5-3.png 681w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-5-300x75.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 681px) 100vw, 681px\" width=\"681\" height=\"171\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>Pensar em uma \u201csociedade dos textos\u201d \u00e9 tamb\u00e9m pensar nas formas de sociabilidade que se constroem ao redor dos textos e na socializa\u00e7\u00e3o a partir deles. Por isso, destacar a import\u00e2ncia de um N\u00facleo de Pesquisa n\u00e3o significa apenas apontar para uma inst\u00e2ncia da estrutura acad\u00eamica. Gostaria, assim, de come\u00e7ar com uma observa\u00e7\u00e3o mais pessoal, embora enraizada em experi\u00eancia profundamente coletiva. As primeiras lembran\u00e7as de minha participa\u00e7\u00e3o no NEPS, antes mesmo de sua exist\u00eancia formal, diga-se, e quando eu ainda era aluno de gradua\u00e7\u00e3o no IFCS\/UFRJ, remontam aos grupos de leitura coordenados por Andr\u00e9 Botelho. As discuss\u00f5es giravam em torno de textos bastante diversos, alguns diretamente vinculados \u00e0s pesquisas em andamento, como a leitura de <em>Popula\u00e7\u00f5es meridionais do Brasil<\/em>, de Oliveira Vianna; outros, a obras de fic\u00e7\u00e3o. Recordo, em particular, um grupo dedicado aos primeiros romances de Machado de Assis, no qual lemos <em>A m\u00e3o e a luva<\/em>, <em>Helena<\/em> e <em>Iai\u00e1 Garcia<\/em>. Participavam desse grupo, entre outros colegas, todos os orientadores dos trabalhos reunidos neste segundo volume de <em>A<\/em> <em>sociedade dos textos<\/em> \u2013 Antonio Brasil Jr., Lucas Carvalho e Maur\u00edcio Hoelz, ent\u00e3o ainda alunos de gradua\u00e7\u00e3o ou mestrado. Foi igualmente marcante, nesse percurso, a disciplina optativa sobre Sociologia da Literatura, ministrada por Andr\u00e9 Botelho.<\/p>\n<p>\u00c0s rodas de discuss\u00e3o e orienta\u00e7\u00e3o que t\u00ednhamos quase semanalmente se seguiam outros encontros, especialmente nos bares do centro do Rio de Janeiro. Mas tamb\u00e9m se seguiam outros textos, e a produ\u00e7\u00e3o de textos sobre textos. Ler literatura de fic\u00e7\u00e3o em um curso de ci\u00eancias sociais, mesmo quando nenhum de n\u00f3s estudantes de gradua\u00e7\u00e3o pesquisava isso diretamente, n\u00e3o era um exerc\u00edcio de diletantismo, mas uma forma de entender a import\u00e2ncia das variadas formas de escrita, a for\u00e7a social das ideias e a rela\u00e7\u00e3o entre textos e contextos. N\u00e3o por acaso, foi j\u00e1 naquele momento que come\u00e7amos a escrever e publicar nossos primeiros artigos sobre o tema, na ent\u00e3o revista de graduandos em ci\u00eancias sociais da UFRJ, a <em>Habitus<\/em>. Lembro particularmente de dois: Maur\u00edcio Hoelz, Heloisa Helena Santos e outros colegas de curso escreveram sobre como, segundo a teoria de Niklas Luhmann, o romance contribuiu para a constitui\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o do c\u00f3digo do amor \u00e0s exig\u00eancias da sociedade moderna marcada pela diferencia\u00e7\u00e3o funcional. J\u00e1 Alexander Englander e eu nos debru\u00e7amos sobre as \u201cteorias do romance\u201d de Jos\u00e9 Ortega y Gasset e Georg Luk\u00e1cs, procurando entender as rela\u00e7\u00f5es entre a forma romance e a emerg\u00eancia da modernidade.<\/p>\n<p>A socializa\u00e7\u00e3o <em>entre<\/em> textos acad\u00eamicos e ficcionais era uma forma de educa\u00e7\u00e3o do olhar para perceber em livros, artigos, poemas, mat\u00e9rias de jornal, narrativas de viagem, entre outros, muito mais do que esses suportes pareciam dizer. N\u00e3o se tratava exatamente da revela\u00e7\u00e3o de um \u201csegredo\u201d, como em um exerc\u00edcio esot\u00e9rico, mas da compreens\u00e3o de que textos est\u00e3o atravessados por rela\u00e7\u00f5es de ordens variadas. E para construir essas rela\u00e7\u00f5es (ou, como se dizia frequentemente em nossos debates, para estabelecer os termos da media\u00e7\u00e3o) era necess\u00e1rio aprender a fazer boas perguntas para os textos. Mas como construir essas perguntas? \u00c9 a\u00ed que entrava o percurso pelos debates te\u00f3ricos e metodol\u00f3gicos, que aos poucos se descortinavam.<\/p>\n<p>Creio que cada um dos trabalhos de pesquisa que surgiram a partir dessa experi\u00eancia, seja de Andr\u00e9 Botelho, seja de seus ent\u00e3o orientandos, passou a formular perguntas diferentes aos textos. Desde o in\u00edcio, no entanto, havia tr\u00eas quest\u00f5es gerais que nos mobilizavam e seguem nos interpelando, como podemos ver no segundo volume de <em>A sociedade dos textos<\/em>. A primeira quest\u00e3o diz respeito \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre texto e contexto, uma preocupa\u00e7\u00e3o inescap\u00e1vel \u00e0s ci\u00eancias sociais. O di\u00e1logo com a sociologia do conhecimento de Karl Mannheim se impunha, mas foi sobretudo o contextualismo lingu\u00edstico de Quentin Skinner e John Pocock, al\u00e9m da hist\u00f3ria dos conceitos de Reinhart Koselleck, que mais motivou os debates do grupo. Menos do que reduzir textos a contextos, o objetivo era controlar os anacronismos e as an\u00e1lises retrospectivistas, evitando assim o risco de dogmatismos. Em vez de pensar os contextos como \u201ccausas\u201d ou \u201cdetermina\u00e7\u00f5es \u00faltimas\u201d, procur\u00e1vamos compreender, seguindo o conselho de Antonio Candido, como elementos estruturais se tornavam \u201cinternos\u201d a uma obra. Sociologicamente, esse \u00e9 um desafio imenso, pois exige olhar os textos a partir de sua forma social \u2013 e n\u00e3o apenas a partir de seus conte\u00fados. Ou ainda, deixar-se surpreender por aquilo que n\u00e3o se define exclusivamente pelos interesses dos atores sociais ou pelas disputas no campo intelectual.<\/p>\n<p>O debate sobre a forma era fundamental, pois nos permitia avan\u00e7ar em outra discuss\u00e3o importante para o grupo, enfatizada na apresenta\u00e7\u00e3o dos organizadores deste volume: o car\u00e1ter reflexivo das ideias. Com Luhmann, mas tamb\u00e9m com Franco Moretti, compreend\u00edamos o papel da sem\u00e2ntica e da autodescri\u00e7\u00e3o na constitui\u00e7\u00e3o dos diversos subsistemas da vida social. A forma romanesca, nesse sentido, podia ser vista como um espa\u00e7o de organiza\u00e7\u00e3o de c\u00f3digos simb\u00f3licos, nos quais a sociedade elabora descri\u00e7\u00f5es de si mesma. Os textos \u2013 os romances, em especial \u2013 operam como mecanismos reflexivos, capazes de estabilizar significados e estruturar as possibilidades de comunica\u00e7\u00e3o. Como resume de modo lapidar o narrador de <em>O vermelho e o negro<\/em>, de Stendhal, um dos autores mais citados por Luhmann em <em>O amor como paix\u00e3o<\/em>, \u201cem Paris o amor copia os romances\u201d, e n\u00e3o o contr\u00e1rio, como talvez fosse de se esperar. N\u00e3o por acaso, Monsieur de R\u00eanal assegura-se de que nem sua esposa nem Julien Sorel tenham contato com \u201cesses livros perigosos\u201d e \u201cperversos\u201d. Em outras palavras, os textos t\u00eam consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>Em nossa discuss\u00e3o, dedicamos aten\u00e7\u00e3o especial \u00e0s rela\u00e7\u00f5es entre sem\u00e2ntica e a constru\u00e7\u00e3o do Estado-na\u00e7\u00e3o, entendendo que, ao menos no caso brasileiro, os ensaios de interpreta\u00e7\u00e3o do pa\u00eds representam uma \u201cforma simb\u00f3lica\u201d privilegiada para as representa\u00e7\u00f5es e comunica\u00e7\u00f5es da na\u00e7\u00e3o e do Estado. Livros, ao seu modo, tamb\u00e9m \u201cperigosos\u201d, pois constitutivos das disputas pelo sentido do controle da mudan\u00e7a social.<\/p>\n<p>O terceiro elemento fundamental diz respeito \u00e0 pesquisa em arquivos. Faz parte da socializa\u00e7\u00e3o de quase todos os estudantes do NEPS passar por alguma experi\u00eancia de pesquisa em acervos, sejam eles f\u00edsicos ou digitais. A ida aos arquivos possui pelo menos duas implica\u00e7\u00f5es. A primeira, mais evidente, \u00e9 que ele constitui um espa\u00e7o a partir do qual podem emergir novos achados, ampliando o material emp\u00edrico-documental para al\u00e9m de livros e artigos: correspond\u00eancias, recortes de jornal, pareceres, manuscritos, cadernetas de anota\u00e7\u00f5es, margin\u00e1lia, desenhos \u2013 e um vasto <em>et cetera<\/em>. O arquivo, contudo, e essa \u00e9 a segunda implica\u00e7\u00e3o, pode ser um espa\u00e7o extremamente desestabilizador dos textos. Com eles, aprendemos que o texto n\u00e3o deve ser entendido como uma unidade fechada, \u201contologizada\u201d. \u00c9 verdade que arquivos frequentemente alimentam a tenta\u00e7\u00e3o de querer encontrar o texto \u201coriginal\u201d, a pista reveladora que poderia mudar totalmente interpreta\u00e7\u00f5es estabelecidas (o \u201csegredo\u201d mencionado anteriormente). O mais interessante, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 encontrar uma revela\u00e7\u00e3o, mas formular novas perguntas a partir de elementos que, de outro modo, dificilmente ter\u00edamos acesso.<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/circuito.ubueditora.com.br\/\" aria-label=\"circuito3anos-banner_outraspalavras\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/circuito3anos-banner_outraspalavras-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/circuito3anos-banner_outraspalavras-1.jpg 729w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/circuito3anos-banner_outraspalavras-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 729px) 100vw, 729px\" width=\"729\" height=\"90\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>Os arquivos nos oferecem essa possibilidade: mostram que os textos s\u00e3o processuais. Eles s\u00e3o retrabalhados, editados, censurados, esquecidos, interrompidos. O que \u00e9, afinal, uma obra? O que define essa unidade? O que significa publicar uma \u201cobra completa\u201d, por exemplo? Foucault se faz essa pergunta. E sugere que esse \u00e9 um problema ao mesmo tempo te\u00f3rico e t\u00e9cnico. Obra \u00e9 o que foi publicado em vida pelo autor? Os rascunhos contam como obra? E as anota\u00e7\u00f5es esparsas, ou a margin\u00e1lia? Independentemente de ser ou n\u00e3o ser (um dilema verdadeiramente hamletiano), para quem pesquisa em arquivos, todos esses elementos t\u00eam relev\u00e2ncia. Todos possuem sua pr\u00f3pria dignidade e podem ajudar a construir rela\u00e7\u00f5es inesperadas. Para lidar com essas quest\u00f5es, invariavelmente passamos por uma s\u00e9rie de leituras que tensionam essa unidade-texto \u2013 da discuss\u00e3o sobre os suportes materiais e a sociologia dos textos \u00e0 cr\u00edtica gen\u00e9tica, passando pela est\u00e9tica da recep\u00e7\u00e3o e pelos debates em torno da \u201cmorte do autor\u201d.<\/p>\n<p>A escala entre uma anota\u00e7\u00e3o \u00e0 margem de um livro (muitas vezes cortada pela a\u00e7\u00e3o implac\u00e1vel das tra\u00e7as ou do restaurador) e o Estado-na\u00e7\u00e3o parece ser bastante desproporcional e algo abrupta. No entanto, creio que ela expressa bem o desafio de uma sociologia multidimensional dos textos, empenhada em enfrentar as media\u00e7\u00f5es entre o micro e o macro. Como os textos nos arquivos, tamb\u00e9m a sociedade se constitui por sobreposi\u00e7\u00f5es inst\u00e1veis de sentidos, esquecimentos e rasuras. Pens\u00e1-la como um palimpsesto permite reconhecer que suas formas nem sempre se sucedem em linhas cont\u00ednuas ou remetem a uma \u201corigem\u201d. Muito do nosso investimento na conting\u00eancia, na improbabilidade e na complexidade da vida social vem justamente da\u00ed. E \u00e9 com base nesse car\u00e1ter contingente que entendemos os textos como simultaneamente constitu\u00eddos pela sociedade e constitutivos dela. Como escrevemos na apresenta\u00e7\u00e3o do primeiro volume de <em>A sociedade dos textos<\/em>, \u201ca <em>sociedade dos textos<\/em> s\u00e3o tamb\u00e9m os <em>textos da sociedade<\/em>, que \u2018sismografam\u2019 o processo hist\u00f3rico-social e traduzem formalmente em mat\u00e9ria \u2018textual\u2019, entendida em sentido amplo, as autocompreens\u00f5es sociais que circulam sobre a sociedade e orientam as for\u00e7as sociais e pol\u00edticas em disputa\u201d.<\/p>\n<p>Ao longo dos anos, muitas dessas quest\u00f5es foram desdobradas a partir de outros referenciais te\u00f3ricos e metodol\u00f3gicos, assim como novos problemas de pesquisa se somaram aos anteriores. Destaco, por exemplo, as discuss\u00f5es da cientometria e bibliometria, que permitiram, por meio do uso de <em>big data<\/em>, outro modo de leitura, a \u201cleitura distante\u201d de redes cognitivas e sem\u00e2nticas. Ou ainda as aberturas do debate sobre a reflexividade social a partir da incorpora\u00e7\u00e3o das discuss\u00f5es sobre o aprendizado social e os movimentos culturais, implicando em um renovado programa para uma sociologia pol\u00edtica da cultura. As conversas e aprendizados com outros amigos do grupo, em especial Silviano Santiago e Ricardo Benzaquen de Ara\u00fajo (\u00e0 mem\u00f3ria de quem o primeiro <em>A sociedade dos textos <\/em>\u00e9 dedicado), foram fundamentais para o amadurecimento de pesquisas sobre a rela\u00e7\u00e3o entre textos, mem\u00f3ria e os processos sociais de subjetiva\u00e7\u00e3o e modelagem do <em>self<\/em>.<\/p>\n<p>Acredito que o segundo volume de <em>A sociedade dos textos<\/em> consolida a maturidade desse projeto intelectual. Os ensaios que seguem n\u00e3o s\u00f3 demonstram os alcances variados das quest\u00f5es explicitadas acima, como tamb\u00e9m trazem novos \u00e2ngulos, fazem perguntas inovadoras, desenvolvem outras metodologias. Se no primeiro volume de <em>A sociedade dos textos<\/em>, Andr\u00e9 Botelho, Maur\u00edcio Hoelz e eu nos focamos principalmente no modernismo e em seus desdobramentos, os artigos que comp\u00f5em o segundo volume remontam a pesquisas mais variadas, que remetem a um leque impressionante de pr\u00e1ticas textuais e de temas, que v\u00e3o de escritores naturalistas e simbolistas do s\u00e9culo XIX a fen\u00f4menos muito recentes, como as fake news.<\/p>\n<p>O livro est\u00e1 dividido em tr\u00eas partes, cada uma delas refletindo, a seu modo, sobre a complexa articula\u00e7\u00e3o entre forma, conte\u00fado, suportes de escrita e vida social. A primeira, intitulada \u201cEscrever sobre a escrita\u201d, investiga como, em diferentes momentos da hist\u00f3ria intelectual brasileira, a literatura se configura como um espa\u00e7o de disputa em que est\u00e3o em jogo n\u00e3o apenas quest\u00f5es est\u00e9ticas, mas tamb\u00e9m projetos pol\u00edticos e culturais. Seja na cr\u00edtica de Joaquim Nabuco ao romantismo de Alencar, nas codifica\u00e7\u00f5es raciais do naturalismo, nas reapropria\u00e7\u00f5es de tradi\u00e7\u00f5es orientais por Cruz e Sousa ou nas tens\u00f5es modernistas veiculadas por textos em jornais e revistas de vanguarda, o que se observa \u00e9 uma constante negocia\u00e7\u00e3o entre a forma liter\u00e1ria e a inscri\u00e7\u00e3o social da escrita. A literatura emerge, assim, como pr\u00e1tica de produ\u00e7\u00e3o de sentidos, capaz de construir imagin\u00e1rios, modelar identidades individuais e coletivas e funcionar como arena onde se definem e codificam os contornos futuros da cidadania, da na\u00e7\u00e3o e dos sujeitos que nela se reconhecem.<\/p>\n<p>Na segunda parte, \u201cA diferen\u00e7a e as formas\u201d, o foco recai sobre as formas culturais, comunicacionais e institucionais que estruturam a vida social e configuram distintos modos de organiza\u00e7\u00e3o, controle e disputa. Os ensaios analisam como certos dispositivos \u2013 estatutos esportivos, projetos de lei, organiza\u00e7\u00f5es editoriais, mecanismos de censura ou din\u00e2micas de circula\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o \u2013 operam na produ\u00e7\u00e3o e na regula\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas sociais coletivas. A cr\u00edtica cultural latino-americana, por exemplo, \u00e9 mobilizada para explorar as media\u00e7\u00f5es entre cultura e sociedade, enquanto a an\u00e1lise da pol\u00edtica do futebol brasileiro evidencia como estruturas formais absorvem, de modo persistente, l\u00f3gicas patrimonialistas e personalistas. Do mesmo modo, tanto o estudo sobre fake news quanto as reflex\u00f5es sobre censura e legisla\u00e7\u00e3o agr\u00e1ria mostram como a normatiza\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas ocorre por meio de formas que simultaneamente possibilitam e restringem certos movimentos sociais, pol\u00edticos ou culturais. Em conjunto, os textos sugerem que compreender a vida social exige aten\u00e7\u00e3o aos dispositivos que moldam as possibilidades de a\u00e7\u00e3o, negocia\u00e7\u00e3o e conflito na esfera p\u00fablica. Ao faz\u00ea-lo, retomam uma das li\u00e7\u00f5es centrais de Heloisa Teixeira (autora discutida em um dos artigos): a cr\u00edtica s\u00f3 se realiza plenamente quando reconhece o dissenso como valor democr\u00e1tico e se abre \u00e0 multiplicidade de vozes que comp\u00f5em o debate p\u00fablico.<\/p>\n<p>Na terceira parte, \u201cA escrita e a sociologia\u201d, os textos colocam em primeiro plano uma dimens\u00e3o muitas vezes secundarizada nos debates sociol\u00f3gicos: a consci\u00eancia de que fazer sociologia \u00e9, tamb\u00e9m, produzir textos, disputar linguagens e ocupar espa\u00e7os de circula\u00e7\u00e3o de ideias. Ao investigar diferentes contextos e modalidades de escrita \u2013 da monografia acad\u00eamica ao ensaio, dos peri\u00f3dicos especializados \u00e0 imprensa cultural \u2013, os autores mostram como a constru\u00e7\u00e3o do conhecimento sociol\u00f3gico \u00e9 indissoci\u00e1vel dos suportes, dos g\u00eaneros e dos p\u00fablicos aos quais se dirige. No caso brasileiro, essa reflex\u00e3o ganha contornos particularmente relevantes, dado que a institucionaliza\u00e7\u00e3o das ci\u00eancias sociais se deu em permanente tr\u00e2nsito (frequentemente sujeito a engarrafamentos) entre os circuitos universit\u00e1rios e os espa\u00e7os mais amplos de interven\u00e7\u00e3o cultural e pol\u00edtica. Isso n\u00e3o apenas atravessou as trajet\u00f3rias de autores fundamentais, mas conformou tradi\u00e7\u00f5es que disputam as fronteiras e porosidades entre ci\u00eancia, ensaio e cr\u00edtica cultural. Ao retomar esse percurso, os textos tamb\u00e9m iluminam desafios contempor\u00e2neos, como os efeitos da crescente fragmenta\u00e7\u00e3o da sociologia em subcampos altamente especializados, que, muitas vezes, dialogam pouco entre si e com o p\u00fablico mais amplo.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que gostamos de paratextos, hipertextos e, \u00e0s vezes, subtextos. Agora, no entanto, se o leitor me permite, sugiro que siga o conselho de \u00cdtalo Calvino nas primeiras p\u00e1ginas de <em>Se um viajante numa noite de inverno<\/em>: \u201c\u00c9 certo que esse passeio ao redor do livro \u2013 ler o que est\u00e1 fora antes de ler o que est\u00e1 dentro \u2013 tamb\u00e9m faz parte do prazer da novidade, mas, como todo prazer preliminar, este tamb\u00e9m deve durar um tempo conveniente e pretender apenas conduzir ao prazer mais consistente, \u00e0 consuma\u00e7\u00e3o do ato, isto \u00e9, \u00e0 leitura do livro propriamente dito\u201d. Vamos, ent\u00e3o, aos textos. Antes disso, por\u00e9m, um brinde: viva o NEPS!<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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