{"id":37750,"date":"2025-07-11T08:00:00","date_gmt":"2025-07-11T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/apos-128-anos-academia-brasileira-de-letras-tera-uma-imortal-negra\/"},"modified":"2025-07-11T08:00:00","modified_gmt":"2025-07-11T11:00:00","slug":"apos-128-anos-academia-brasileira-de-letras-tera-uma-imortal-negra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/apos-128-anos-academia-brasileira-de-letras-tera-uma-imortal-negra\/","title":{"rendered":"Ap\u00f3s 128 anos, Academia Brasileira de Letras ter\u00e1 uma \u201cimortal\u201d negra"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" width=\"1024\" height=\"613\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/trbr6003_1.webp\" alt=\"\" decoding=\"async\" srcset=\"https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/trbr6003_1-1024x613.webp 1024w, https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/trbr6003_1-300x179.webp 300w, https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/trbr6003_1-768x459.webp 768w, https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/trbr6003_1.webp 1170w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><\/p>\n<p>A escritora mineira Ana Maria Gon\u00e7alves foi eleita nesta quinta-feira (10) para ocupar a cadeira 33 da Academia Brasileira de Letras (ABL). Celebrada pelo romance <em>Um Defeito de Cor<\/em> (2006), ela era favorita \u00e0 vaga e recebeu 30 votos de 31 poss\u00edveis \u2013 a escritora ind\u00edgena Eliane Potiguara teve um voto.<\/p>\n<p>Ana Maria vai substituir o fil\u00f3logo Evanildo Bechara, que morreu em 22 de maio. Nos 128 anos de hist\u00f3ria da ABL, esta \u00e9 apenas a primeira vez que uma autora negra se torna \u201cimortal\u201d. Al\u00e9m disso, entre as 13 escritoras mulheres j\u00e1 eleitas acad\u00eamicas, nenhuma havia conquistado uma cadeira com menos de 55 anos \u2013 a idade atual de Ana Maria.<\/p>\n<p>\u201cAli <em>(a ABL)<\/em> \u00e9 um clube, e as constru\u00e7\u00f5es de quem entra e quem n\u00e3o entra s\u00e3o discutidas internamente. Enquanto a gente n\u00e3o tiver vozes dissidentes l\u00e1 dentro, que defendam e conversem com outras candidaturas, a gente realmente n\u00e3o vai estar l\u00e1\u201d, afirmou a escritora h\u00e1 pouco mais de um m\u00eas, em entrevista \u00e0 <em>Folha de S.Paulo<\/em>.<\/p>\n<p>Historicamente racista e machista, a Academia s\u00f3 passou a ter uma integrante do sexo feminino em 1977, quando, j\u00e1 octogen\u00e1ria, acolheu a cearense Rachel de Queiroz. Sua primeira presidenta mulher, N\u00e9lida Pi\u00f1on, alcan\u00e7ou o posto somente em 1996, \u00e0s v\u00e9speras do centen\u00e1rio da entidade.<\/p>\n<p>Ao completar cem anos, em 1997, a Academia mereceu do jornalista e cr\u00edtico Jos\u00e9 Geraldo Couto uma s\u00edntese afiada: \u201cPouca gente s\u00e9ria leva a s\u00e9rio a Academia Brasileira de Letras, mas ela \u00e9 a cara do Brasil. Os defeitos cr\u00f4nicos da entidade \u2013 a pol\u00edtica de compadrio, a ret\u00f3rica oca, o formalismo, a subservi\u00eancia aos poderosos, o conservadorismo pol\u00edtico e de costumes \u2013 s\u00e3o os mesmos que caracterizam a hist\u00f3ria do pa\u00eds\u201d.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Pol\u00eamicas<\/strong><\/p>\n<p>Independentemente de \u00e9poca, a pol\u00eamica \u00e9 regra na Casa de Machado de Assis. Para qualquer mortal, \u201c\u00e9 mais f\u00e1cil se eleger presidente do Brasil do que vencer uma elei\u00e7\u00e3o na ABL\u201d, teria dito o ex-presidente Juscelino Kubitschek. Para mulheres e negros, o desafio sempre foi maior.<\/p>\n<p>Idealizada e fundada em 1897 por um escritor negro, Machado de Assis, a institui\u00e7\u00e3o tem um hist\u00f3rico de desprezo \u00e0 diversidade. O pr\u00f3prio Machado, seu primeiro presidente, foi alvo do racismo velado. Por mais de um s\u00e9culo, o autor de <em>Dom Casmurro<\/em> era reconhecido, no limite, como \u201cmulato\u201d, jamais como negro. Seu embranquecimento simb\u00f3lico refletia o car\u00e1ter elitista que prevaleceu (e ainda prevalece) na Academia.<\/p>\n<p>Em 1917, quando o \u201cimortal\u201d Sousa Bandeira morreu, a ABL recebeu uma carta de Lima Barreto, hoje reconhecido como maior escritor negro do Brasil no s\u00e9culo 20. O autor de <em>Triste Fim de Policarpo Quaresma<\/em> seguiu todos os tr\u00e2mites para registrar sua candidatura a \u201cimortal\u201d, mas foi esnobado pelo presidente da Academia, Rui Barbosa, que nem sequer lhe respondeu. Barreto escreve, ent\u00e3o, uma libelo contra a entidade: \u201cCome\u00e7ou com escritores, tendo estes, por patronos, tamb\u00e9m escritores; e vai morrendo suavemente em cen\u00e1culo de diplomatas <em>chics<\/em>, de potentados do \u2018sil\u00eancio \u00e9 ouro\u2019, de m\u00e9dicos afreguesados e ju\u00edzes <em>tout \u00e0 fait<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>A ABL foi transgressora, sim, no rumo da desmoraliza\u00e7\u00e3o. Sob o Estado Novo, aceitou o ingresso imotivado (a n\u00e3o ser por raz\u00f5es pol\u00edticas) do presidente Get\u00falio Vargas. Foi uma das poucas indica\u00e7\u00f5es que n\u00e3o passaram pelo voto dos acad\u00eamicos. Em plena ditadura, tamanho capachismo foi duramente criticado num manifesto assinado por nomes como S\u00e9rgio Buarque de Hollanda e Carlos Drummond de Andrade.<\/p>\n<p>As incoer\u00eancias n\u00e3o terminaram por a\u00ed. Os magnatas da m\u00eddia Assis Chateaubriand e Roberto Marinho tamb\u00e9m viraram \u201cimortais\u201d, assim como o sanitarista Oswaldo Cruz, o inventor Santos Dumont, o cirurgi\u00e3o pl\u00e1stico Ivo Pitanguy e o neurocirurgi\u00e3o Paulo Niemeyer Filho. Ganha uma vaga autom\u00e1tica na ABL quem identificar qualquer contribui\u00e7\u00e3o relevante de qualquer um deles como acad\u00eamico a servi\u00e7o da l\u00edngua portuguesa e das letras.\u00a0<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Sarney chegou primeiro \u00e0 ABL (em 1980) e s\u00f3 depois ao Planalto (em 1985). Mas, eleito \u201cimortal\u201d enquanto comandava o PDS (herdeiro do partido da ditadura, a Arena), ele transformou sua posse num evento pol\u00edtico pr\u00f3-regime. Estavam presentes o general-ditador Jo\u00e3o Batista Figueiredo, o vice-presidente Aureliano Chaves e nove ministros.\u00a0<\/p>\n<p><strong>De Concei\u00e7\u00e3o Evaristo a Ana Maria<\/strong><\/p>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o com a aus\u00eancia de autoras negras \u00e9 recente.\u00a0 Em 2018, Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, mineira e preta, entrou na disputa pela cadeira 7, vaga desde a morte do \u201cimortal\u201d Nelson Pereira dos Santos. A jornalista Fl\u00e1via Oliveira puxou o coro. \u201cVoto em Nei Lopes ou Martinho da Vila. Sem falar na Concei\u00e7\u00e3o Evaristo. \u2018T\u00e1\u2019 faltando preto na Casa de Machado de Assis\u201d.<\/p>\n<p>Com direito \u00e0 hashtag #ConceicaoEvaristonaABL, abaixo-assinados online em apoio \u00e0 sua \u201canticandidatura\u201d reuniram mais de 40 mil signat\u00e1rios. Mesmo sem conquistar a vaga \u2013 que ficou com o cineasta Cac\u00e1 Diegues \u2013, Evaristo firmou o debate sobre a falta de representatividade numa das mais antigas e tradicionais institui\u00e7\u00f5es culturais do Brasil.\u00a0<\/p>\n<p>Em fevereiro de 2024, a Academia Mineira de Letras fez jus \u00e0 causa e transformou Concei\u00e7\u00e3o Evaristo em sua primeira \u201cimortal\u201d negra. \u201cFiquei feliz, mas com a sensa\u00e7\u00e3o de que a Academia estava cumprindo um papel de justi\u00e7a\u201d, enfatizou a autora.<\/p>\n<p>No mesmo m\u00eas, a candidatura de Ana Maria Gon\u00e7alves \u00e0 ABL passou a ser mencionada devido \u00e0 combina\u00e7\u00e3o de boas not\u00edcias. A primeira delas, ainda no Carnaval 2024, foi a repercuss\u00e3o do samba-enredo da Portela inspirado em <em>Um Defeito de Cor<\/em>. Ap\u00f3s o desfile da escola na Marqu\u00eas de Sapuca\u00ed, a procura pelo livro cresceu dez vezes, levou a editora a fazer uma reimpress\u00e3o \u00e0s pressas e fez de Ana Maria a campe\u00e3 de vendas na <em>Amazon<\/em>. Com mais de 900 p\u00e1ginas, o romance hist\u00f3rico j\u00e1 vendeu 180 mil exemplares e se converteu num inusitado <em>best-seller<\/em>.<\/p>\n<p>A protagonista de <em>Um Defeito de Cor<\/em> \u00e9 Kehinde, alter ego da revolucion\u00e1ria Lu\u00edsa Mahin. J\u00e1 idosa e cega, a ex-escrava viaja da \u00c1frica para o Brasil, a fim de procurar o filho do qual est\u00e1 separada h\u00e1 d\u00e9cadas. Temendo morrer antes que o navio atraque no Rio de Janeiro, ela relata suas mem\u00f3rias a uma companheira de viagem. As lembran\u00e7as incluem traumas da di\u00e1spora, anos de escravid\u00e3o, insurrei\u00e7\u00f5es e religiosidade. \u00c9 o relato de vida de uma negra africana escravizada, alforriada e perseguida no Brasil no s\u00e9culo 19.<\/p>\n<p>Em maio de 2025, <em>Um Defeito de Cor <\/em>foi eleito o melhor livro brasileiro de literatura do s\u00e9culo 21, conforme um j\u00fari de personalidades e especialistas ouvidos pela <em>Folha<\/em>. Rankings do g\u00eanero s\u00e3o invariavelmente controversos, mas os n\u00fameros s\u00e3o contundentes: entre 101 votantes \u2013\u00a0 que podiam escolher at\u00e9 dez livros \u2013, 48 citaram a obra-prima de Ana Maria Gon\u00e7alves. <em>Torto Arado<\/em>, de Itamar Vieira Junior, ficou num distante segundo lugar, com 35 votos.<\/p>\n<p>\u201cAtrav\u00e9s da jornada \u00e9pica de Kehinde, Ana Maria Gon\u00e7alves n\u00e3o apenas reconstr\u00f3i o Brasil do s\u00e9culo 19 \u2013 ela o reinventa, preenchendo as lacunas da hist\u00f3ria oficial com uma narrativa t\u00e3o meticulosamente pesquisada quanto poeticamente constru\u00edda. \u00c9 daqueles livros que nos fazem diferentes ap\u00f3s a \u00faltima p\u00e1gina\u201d, justificou-se o m\u00fasico e escritor angolano Kalaf Epalanga. \u201c\u00c9 uma s\u00edntese e uma antecipa\u00e7\u00e3o de temas que se tornariam centrais nas quase duas d\u00e9cadas que se seguiram a seu lan\u00e7amento\u201d, agregou o cr\u00edtico Italo Moriconi.<\/p>\n<p><strong>Futuro<\/strong><\/p>\n<p>O Brasil mudou \u2013 e o triunfo de Ana Maria Gon\u00e7alves expressa que, se o tempo passou na janela, a ABL j\u00e1 viu. N\u00e3o que, neste \u00faltimo per\u00edodo, a politicagem entre acad\u00eamicos tenha diminu\u00eddo. Quem conta entre seus 40 membros com dois jornalistas-celebridades da Globo, Merval Pereira e Miriam Leit\u00e3o, n\u00e3o pode reivindicar a condi\u00e7\u00e3o de isenta.<\/p>\n<p>No entanto, a Academia tenta se popularizar. Em 2022, elegeu como \u201cimortais\u201d a atriz Fernanda Montenegro e o cantor e compositor Gilberto Gil. J\u00e1 o escritor e ativista Ailton Krenak, empossado na ABL em 2024, foi seu primeiro integrante ind\u00edgena. \u201cEu n\u00e3o sou mais do que um, mas eu posso invocar mais do que 300. Nesse caso, 305 povos <em>(ind\u00edgenas)<\/em>, que nos \u00faltimos 30 anos passaram a ter disposi\u00e7\u00e3o de dizer: \u2018Estou aqui\u2019\u201d, afirmou Krenak.<\/p>\n<p>Agora, passados 128 nos da funda\u00e7\u00e3o da ABL, uma autora afro-brasileira chegou l\u00e1. \u201cQue se abra uma linhagem de mulheres negras, que \u00e9 muito importante para a Academia, para que ela seja diversa, plural\u201d, disse a \u201cimortal\u201d Lilia Schwarcz, bi\u00f3grafa de Lima Barreto. \u201c\u00c9 muito fundamental este lugar que ela vem ocupar e todo o m\u00e9rito que \u00e9 dela \u2013 e toda a luta que \u00e9 dela. Vem representando as mulheres negras e um feminismo muito importante.\u201d\u00a0<\/p>\n<p>A senda est\u00e1 aberta. Neste ano, a Fuvest, respons\u00e1vel pelo vestibular para a USP (Universidade de S\u00e3o Paulo), ter\u00e1 apenas livros escritos por mulheres como leituras obrigat\u00f3rias. Ao todo, s\u00e3o dez autoras: Clarice Lispector, Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, Djaimilia Pereira de Almeida, Julia Lopes de Almeida, Lygia Fagundes Telles, Narcisa Am\u00e1lia, N\u00edsia Floresta, Paulina Chiziane, Rachel de Queiroz e Sophia de Mello Breyner Andresen. \u00c9 tempo de enfrentar os c\u00e2nones.<\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/vermelho.org.br\/2025\/07\/11\/apos-128-anos-academia-brasileira-de-letras-tera-uma-imortal-negra\/\">Ap\u00f3s 128 anos, Academia Brasileira de Letras ter\u00e1 uma \u201cimortal\u201d negra<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/vermelho.org.br\/\">Vermelho<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/renda-de-trabalhadores-mais-pobres-sobe-mais-que-alta-de-alimentos-apontam-senadores\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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