{"id":37918,"date":"2025-07-11T15:41:47","date_gmt":"2025-07-11T18:41:47","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/yog-atak-meu-pai-kaiowa-o-reencontro-filmado-de-uma-familia-indigena-separada-pela-ditadura\/"},"modified":"2025-07-11T15:41:47","modified_gmt":"2025-07-11T18:41:47","slug":"yog-atak-meu-pai-kaiowa-o-reencontro-filmado-de-uma-familia-indigena-separada-pela-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/yog-atak-meu-pai-kaiowa-o-reencontro-filmado-de-uma-familia-indigena-separada-pela-ditadura\/","title":{"rendered":"\u201cY\u00f5g \u00c3tak: Meu Pai, Kaiow\u00e1\u201d: o reencontro filmado de uma fam\u00edlia ind\u00edgena separada pela ditadura"},"content":{"rendered":"<p><span>Chegou aos cinemas nesta quinta-feira (10\/07) o filme <\/span><i><span>Y\u00f5g \u00c3tak: Meu Pai, Kaiow\u00e1<\/span><\/i><span>, que acompanha o reencontro da diretora Sueli Maxakali com seu pai, separados por quatro d\u00e9cadas em decorr\u00eancia da ditadura civil-militar. Al\u00e9m de Sueli, o filme \u00e9 dirigido por seu marido Isael Maxakali, Roberto Romero e Luisa Lanna \u2013 quarteto que recebeu o pr\u00eamio de Melhor Dire\u00e7\u00e3o no Festival de Bras\u00edlia no final de 2024.<\/span><\/p>\n<p><span>Atrav\u00e9s de relatos orais de anci\u00e3os Maxakali e Kaiow\u00e1, o filme recupera a hist\u00f3ria de Lu\u00edz Kaiow\u00e1, que aos dez anos de idade deixou o territ\u00f3rio de seu povo em Mato Grosso do Sul, ao lado de seu irm\u00e3o. Depois de passarem por diversos estados, foram levados \u00e0 for\u00e7a por agentes da Funda\u00e7\u00e3o Nacional dos Povos Ind\u00edgenas (Funai) para trabalhar no territ\u00f3rio Maxakali, em Minas Gerais. Passados mais de quinze anos, foi reconduzido ao Mato Grosso, deixando duas filhas pequenas, Maiza e Sueli Maxakali, com quem nunca mais teve contato.<\/span><\/p>\n<figure aria-describedby=\"caption-attachment-225097\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/indigena-kaiowa.webp\" alt=\"Sueli Maxakali apresenta sua fam\u00edlia para seu pai Lu\u00edz Kaiow\u00e1 em um retrato filmado. &lt;br&gt; (Foto: Divulga\u00e7\u00e3o\/Emba\u00faba Filmes)\" width=\"1920\" height=\"1080\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/indigena-kaiowa.webp 1920w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/indigena-kaiowa-300x169.webp 300w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/indigena-kaiowa-1024x576.webp 1024w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/indigena-kaiowa-768x432.webp 768w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/indigena-kaiowa-1536x864.webp 1536w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/indigena-kaiowa-150x84.webp 150w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/indigena-kaiowa-750x422.webp 750w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/indigena-kaiowa-1140x641.webp 1140w\" sizes=\"auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px\"><figcaption>Sueli Maxakali apresenta sua fam\u00edlia para seu pai Lu\u00edz Kaiow\u00e1 em um retrato filmado. <br \/>(Foto: Divulga\u00e7\u00e3o\/Emba\u00faba Filmes)<\/figcaption><\/figure>\n<p><span>Com ajuda de suas primas Kaiow\u00e1 e uma pesquisadora, Tatiane Klein, Sueli consegue localizar seu pai e decide fazer um filme do reencontro. Em entrevista ao <\/span><a href=\"https:\/\/feitoporelas.com.br\/57a-festival-de-brasilia-yog-atak-meu-pai-kaiowa\/\"><span>Feito por Elas<\/span><\/a><span>, a diretora conta que foi gra\u00e7as ao dinheiro do edital financiador do filme, BH nas Telas, que foi poss\u00edvel juntar recursos para a empreitada de percorrer 1.800 km para rever Lu\u00edz e conhecer o restante da fam\u00edlia. Deste modo, a possibilidade do reencontro \u00e9 a motiva\u00e7\u00e3o para a realiza\u00e7\u00e3o da obra e o fio condutor da narrativa, ao mesmo tempo em que o filme \u00e9 o motor que viabiliza o reencontro.<\/span><\/p>\n<p><span>Inicialmente, contudo, Lu\u00edz se nega a ser filmado e diz que no dia da chegada das filhas n\u00e3o estar\u00e1 na aldeia. Tratando sobre o assunto, um jovem Kaiow\u00e1 comenta que o tempo para os ind\u00edgenas \u00e9 outro, \u201ccom uma hora n\u00e3o se conversa\u201d; \u00e9 preciso muito mais para que seja criada confian\u00e7a e haja a abertura. Nesse sentido, a aproxima\u00e7\u00e3o da filha mesmo antes da viagem e o estabelecimento dos v\u00ednculos de afeto foi fundamental para que mais tarde Lu\u00edz topasse n\u00e3o somente aparecer para as c\u00e2meras, mas tamb\u00e9m dar uma entrevista, que, ali\u00e1s, \u00e9 o momento de auge do filme.<\/span><\/p>\n<p><span>Ele narra como sofria ao ver os intensos maus tratos dos militares contra os Tikm\u0169\u2019\u0169n (Maxakali), fala sobre a instala\u00e7\u00e3o de uma pris\u00e3o na aldeia, sobre a vinda for\u00e7ada de povos de diversas etnias para trabalhar no territ\u00f3rio e relembra e reencena a gestualidade dos militares, evidenciando os traumas e as viol\u00eancias inscritas no seu corpo e na sua mem\u00f3ria. Ao final do encontro, j\u00e1 com a c\u00e2mera desligada, o microfone registra a \u00faltima fala de Lu\u00edz com a filha: \u201cTup\u00e3 me dividiu em dois\u201d, conclus\u00e3o do relato de uma vida cindida e marcada pelas cicatrizes deixadas pela ditadura que perduram ainda hoje.<\/span><\/p>\n<p><span>Trata-se do segundo filme do casal sobre o tema. Em <\/span><a href=\"https:\/\/youtu.be\/zT2oXGKH4fw?si=DvxyOmwTOtmAw_Wu\"><i><span>GRIN \u2013 Guarda Rural Ind\u00edgena<\/span><\/i><\/a> <span>(2016), de Roney Freitas e Isael Maxakali, com participa\u00e7\u00e3o de Sueli Maxakali, s\u00e3o entrevistados os sobreviventes do cruel experimento promovido por Manoel dos Santos Pinheiro, conhecido como Capit\u00e3o Pinheiro, sobrinho do governador de Minas \u00e0 \u00e9poca, Israel Pinheiro. A Guarda Rural Ind\u00edgena (GRIN) foi um batalh\u00e3o militar com mais de 80 homens de diversas etnias formado em 1969 e treinado pela Pol\u00edcia Militar de Minas Gerais para reprimir outros ind\u00edgenas. Era uma forma de poder e controle que n\u00e3o estava prevista na auto organiza\u00e7\u00e3o das aldeias, mas passou a ser imposta pelos militares. Segundo a Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, foram implantados tamb\u00e9m outros mecanismos de controle, com a interna\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria de ind\u00edgenas em Minas Gerais em um pres\u00eddio chamado de \u201cReformat\u00f3rio Krenak\u201d e na Fazenda Guarani, que funcionaram como campos de concentra\u00e7\u00e3o e tortura para o exterm\u00ednio dos povos ind\u00edgenas.<\/span><\/p>\n<figure aria-describedby=\"caption-attachment-225098\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/meu-pai-indigena.webp\" alt=\"Cartaz de \u201cY\u00f5g \u00c3tak: Meu Pai, Kaiow\u00e1\u201d. &lt;br&gt; (Foto: Divulga\u00e7\u00e3o)\" width=\"704\" height=\"1024\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/meu-pai-indigena.webp 704w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/meu-pai-indigena-206x300.webp 206w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/meu-pai-indigena-150x218.webp 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 704px) 100vw, 704px\"><figcaption>Cartaz de \u201cY\u00f5g \u00c3tak: Meu Pai, Kaiow\u00e1\u201d. <br \/>(Foto: Divulga\u00e7\u00e3o)<\/figcaption><\/figure>\n<p><span>Em 2012, foi encontrada uma grava\u00e7\u00e3o da formatura de um dos batalh\u00f5es ind\u00edgenas em 1970, em Belo Horizonte. Trata-se do \u00fanico registro p\u00fablico de tortura que se tem not\u00edcia no Brasil, com imagens de ind\u00edgenas fardados levando outro ind\u00edgena preso ao pau-de-arara \u00e0 luz do dia, em um espa\u00e7o aberto, na frente da popula\u00e7\u00e3o. \u201cCoisas da ditadura militar\u201d, afirma Rodrigo Piquet, Chefe do N\u00facleo de Biblioteca e Arquivo do Museu do \u00cdndio\/FUNAI, se referindo a esta cena do pau-de-arara na abertura do curta-metragem <\/span><a href=\"https:\/\/youtu.be\/qZ3vyD3nv4Y?si=4N1hH3jb54FFOL3c\"><i><span>Arara: um filme sobre um filme sobrevivente<\/span><\/i><\/a><span> (2017). Dirigido por Lipe Can\u00eado, conta com entrevistas com Isael e Sueli, cujo tio participou do treinamento militar.<\/span><\/p>\n<p><span>O filme <\/span><i><span>GRIN \u2013 Guarda Rural Ind\u00edgena<\/span><\/i><span> (2016) tamb\u00e9m se inicia com estas filmagens, que s\u00e3o mostradas a um dos sobreviventes Maxakali que pontua: \u201ceu vou contar para voc\u00ea aprender e voc\u00ea vai contar sempre\u201d e acrescenta novas informa\u00e7\u00f5es e detalhes pouco ou nada conhecidos. Com isso, o anci\u00e3o afirma a responsabilidade n\u00e3o s\u00f3 do entrevistador, como dos espectadores, de ouvir esta hist\u00f3ria e repass\u00e1-la adiante, amplificando o conhecimento da sociedade sobre as consequ\u00eancias dos governos militares para os povos ind\u00edgenas.<\/span><\/p>\n<p><span>Se o cinema em alguma medida desde os anos 60 apontou suas lentes e denunciou a ditadura civil-militar, \u00e9 s\u00f3 recentemente que as brutalidades do regime contra os povos origin\u00e1rios brasileiros come\u00e7am a ganhar espa\u00e7o, consequ\u00eancia sobretudo da amplia\u00e7\u00e3o do acesso dos pr\u00f3prios ind\u00edgenas ao fazer cinematogr\u00e1fico. Os filmes comentados evidenciam a import\u00e2ncia do relato oral para recupera\u00e7\u00e3o de fatos ainda desconhecidos, de t\u00e1ticas militares de tortura contra os ind\u00edgenas, da instrumentaliza\u00e7\u00e3o de membros de uma etnia para a promo\u00e7\u00e3o de viol\u00eancias contra outras e de estrat\u00e9gias de aniquila\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas no Brasil. Nesse contexto, o cinema enquanto ferramenta auditiva e visual cumpre papel chave no registro destes relatos e na recupera\u00e7\u00e3o de uma parte da hist\u00f3ria do pa\u00eds ainda a ser descoberta e denunciada.<\/span><\/p>\n<div data-id=\"3a925c7\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"jnews_archive_title_elementor.default\">\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><em><strong>(*) Nayla Guerra<\/strong> \u00e9 Graduada em Audiovisual pela ECA-USP, produtora cultural na Cinemateca Brasileira e organizadora do coletivo Cine Sapat\u00e3o. \u00c9 autora do livro \u201cEntre apagamentos e resist\u00eancias\u201d (Editora Alameda, 2023) e diretora do filme \u201cFerro\u2019s Bar\u201d (2023).<\/em><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div data-id=\"67151a1\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"jnews_archive_block_elementor.default\">\n<div>\n<div data-unique=\"jnews_module_59219_2_655f9ca9ae8fa\">\n<div>\n<div>\n<div>\n<article>\n<div><\/div>\n<\/article>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/operamundi.uol.com.br\/opiniao\/yog-atak-meu-pai-kaiowa-o-reencontro-filmado-de-uma-familia-indigena-separada-pela-ditadura\/\">\u201cY\u00f5g \u00c3tak: Meu Pai, Kaiow\u00e1\u201d: o reencontro filmado de uma fam\u00edlia ind\u00edgena separada pela ditadura<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/operamundi.uol.com.br\/\">Opera Mundi<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/bombardeios-marcam-anuncio-de-trump-sobre-segunda-fase-do-plano-para-gaza\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/d5facef9-ad7e-48a8-8c8d-e5355e992f54-1-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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