{"id":38392,"date":"2025-07-15T16:56:32","date_gmt":"2025-07-15T19:56:32","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/e-prosa-e-pau\/"},"modified":"2025-07-15T16:56:32","modified_gmt":"2025-07-15T19:56:32","slug":"e-prosa-e-pau","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/e-prosa-e-pau\/","title":{"rendered":"\u00c9 prosa e pau"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/unnamed-20.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/unnamed-20-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/unnamed-20-300x225.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/unnamed-20-768x576.jpg 768w, https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/unnamed-20.jpg 1280w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>Marcha na abertura da festa da conquista do assentamento Resist\u00eancia Camponesa. Foto: Leandro Taques<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Por Felippe An\u00edbal, de Curitiba<br \/>Da <a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/\">Revista Piau\u00ed<\/a><\/em><\/p>\n<p>No meio da manh\u00e3, o Sol j\u00e1 abrasava a terra vermelha da zona rural de Cascavel, no Oeste do Paran\u00e1. Parecia sert\u00e3o. O term\u00f4metro escalava para 30 graus quando cerca de mil pessoas come\u00e7aram a marchar por uma estradinha de terra que parte de um entroncamento da rodovia BR-277. Com roupas vermelhas, os manifestantes tremulavam bandeiras do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e entoavam can\u00e7\u00f5es sobre a Reforma Agr\u00e1ria.<\/p>\n<p>Depois de percorrerem cerca de 700 metros, chegaram em um vilarejo de casebres de madeira para uma celebra\u00e7\u00e3o. H\u00e1 26 anos, a gleba de 479 hectares (165 deles agricult\u00e1veis) foi ocupada pelo\u00a0MST. E agora, naquele dia 8 de fevereiro, ela se tornava finalmente o Assentamento Resist\u00eancia Camponesa \u2013 e 76 fam\u00edlias passavam a ter, ali, seu peda\u00e7o de ch\u00e3o, com t\u00edtulo de propriedade de papel passado. A \u201cconquista\u201d \u2013 como disseram os Sem Terra \u2013 tinha duplo significado: a \u00e1rea \u00e9 a primeira do\u00a0MST\u00a0assentada pelo atual governo Lula e fica em Cascavel, munic\u00edpio onde o movimento foi fundado h\u00e1 41 anos.<\/p>\n<p>Assim que a marcha chegou ao centro do assentamento, parte da multid\u00e3o se dirigiu a um galp\u00e3o de madeira rec\u00e9m-constru\u00eddo e se acomodou em cadeiras de pl\u00e1stico. Em uma mesa disposta sobre um tablado apinharam-se 25 pessoas. Todas iriam discursar ao longo das quase tr\u00eas horas seguintes. Ali estavam lideran\u00e7as do\u00a0MST, autoridades municipais e deputados estaduais. Tamb\u00e9m havia \u201cgente do Lula\u201d (na express\u00e3o dos Sem Terra): representantes do Minist\u00e9rio do Desenvolvimento e Assist\u00eancia Social, Fam\u00edlia e Combate \u00e0 Fome (MDS) e do Instituto Nacional de Coloniza\u00e7\u00e3o e Reforma Agr\u00e1ria (Incra), al\u00e9m dos deputados federais Zeca Dirceu, Elton Welter e Gleisi Hoffmann (ent\u00e3o presidente do\u00a0PT\u00a0e hoje secret\u00e1ria de Rela\u00e7\u00f5es Institucionais do governo).\u00a0<\/p>\n<p>Os discursos ora exaltavam a luta do\u00a0MST, ora enfatizavam a import\u00e2ncia do Movimento para a resist\u00eancia pol\u00edtica da esquerda desde o impeachment de Dilma Rousseff e a pris\u00e3o de Lula. Em sua fala, Gleisi Hoffmann ressaltou que Lula herdou \u201cum governo totalmente destrambelhado\u201d, com o \u201cIncra praticamente desconstru\u00eddo\u201d e com o Minist\u00e9rio de Defesa Agr\u00e1ria e Agricultura Familiar (MDA) arruinado. \u201cN\u00f3s tivemos que reconstruir, mas, como disse o Lula, agora n\u00f3s vamos chegar no per\u00edodo da colheita\u201d, disse ela. E encerrou bradando palavras de ordem com o punho cerrado: \u201cViva o\u00a0MST! Viva a Reforma Agr\u00e1ria!\u201d Foi aclamada pelos Sem Terra.\u00a0<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"599\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/unnamed-19-dest.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/unnamed-19-dest-1024x599.jpg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/unnamed-19-dest-300x175.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/unnamed-19-dest-768x449.jpg 768w, https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/unnamed-19-dest.jpg 1467w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>Ato festivo do assentamento Resist\u00eancia Camponesa, com fala de Jo\u00e3o Pedro Stedile do MST. Foto: Thiarles Fran\u00e7a<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Tudo seguia nesse tom protocolar e de celebra\u00e7\u00e3o, at\u00e9 que chegou a vez do ga\u00facho Jo\u00e3o Pedro Stedile discursar. Um dos fundadores e principais l\u00edderes do\u00a0MST, ele p\u00f4s de lado as meias-palavras e as frases de efeito. Disse que o governo Lula estava demorando a assentar fam\u00edlias que vivem em acampamentos e que o movimento n\u00e3o estava disposto a esperar mais. \u201cDepois de seis anos de crise e, agora, de dois de governo Lula, essa \u00e1rea aqui [<em>o Assentamento Resist\u00eancia Camponesa<\/em>] \u00e9 a primeira [<em>a ser revertida \u00e0 Reforma Agr\u00e1ria<\/em>], o \u00fanico conflito que foi resolvido a n\u00edvel nacional. Isso \u00e9 uma vergonha\u201d, afirmou. \u201cUm governo nosso n\u00e3o pode ser t\u00e3o lerdo para resolver conflito.\u201d<\/p>\n<p>Stedile, que tem 71 anos, falou por 23 minutos, pontuando seu discurso firme com o dedo indicador em riste. Ao atacar o governo, poupou o presidente. Disse que Lula est\u00e1 do lado do\u00a0MST\u00a0e que o movimento tem indicado a ele o que precisa mudar. Mas acusou alguns setores do Executivo de \u201cfalta de coragem\u201d: o Incra, o\u00a0MDA\u00a0e a Companhia Nacional do Abastecimento (Conab).<\/p>\n<p>O l\u00edder Sem Terra deu um exemplo, citando o Programa de Aquisi\u00e7\u00e3o de Alimentos (PAA), criado por Lula em 2003 para a compra direta pelo governo, sem licita\u00e7\u00e3o, de produtos de agricultores familiares. \u201cEle [<em>Lula<\/em>] disse para o presidente da Conab [<em>o ga\u00facho<\/em>\u00a0<em>Edegar Pretto<\/em>]: \u2018Para de ser frouxo! Fa\u00e7a os contratos de compra do PAA.\u2019 A\u00ed, o meu ga\u00facho l\u00e1 disse: \u2018\u00c9, mas n\u00f3s n\u00e3o temos dinheiro.\u2019 [<em>Lula respondeu:<\/em>] \u2018N\u00e3o me importa! Fa\u00e7a os contratos que depois eu vou atr\u00e1s do dinheiro.\u2019 Esse que \u00e9 o presidente\u201d, discursou Stedile. O di\u00e1logo, ele deu a entender, transcorreu recentemente. \u201cFalta um pouco de fibra para a Conab, para o Incra, para o\u00a0MDA, porque o pr\u00f3prio presidente tem compromisso em ir atr\u00e1s do recurso. N\u00e3o tem mais desculpa, o dinheiro n\u00e3o \u00e9 mais desculpa.\u201d (\u00c0\u00a0Revista Piau\u00ed, a Conab respondeu que o di\u00e1logo de Lula com Pretto n\u00e3o se deu \u201cnesses termos\u201d.)\u00a0<\/p>\n<p>Em tom inflamado, St\u00e9dile ent\u00e3o conclamou o\u00a0MST\u00a0a endurecer, dizendo que a \u00fanica forma de \u201cacelerar o futuro\u201d e pressionar o governo \u00e9 voltar \u201c\u00e0 luta de massas\u201d. Defendeu a retomada maci\u00e7a das mobiliza\u00e7\u00f5es de rua e das ocupa\u00e7\u00f5es de terra em escala nacional. Na avalia\u00e7\u00e3o do l\u00edder, s\u00f3 isso pode \u201ccolocar os movimentos da cidade e do campo em outro patamar.\u201d E acrescentou: \u201cN\u00f3s estamos muito frouxos! N\u00f3s temos que retomar grandes acampamentos com mais de mil fam\u00edlias.\u201d Aplaudido de p\u00e9, o ativista teve dificuldades para deixar o palanque, tamanho o ass\u00e9dio de seus companheiros. Destoando da multid\u00e3o, Stedile n\u00e3o vestia vermelho. Estava com uma camisa azul clara de mangas curtas por dentro da cal\u00e7a jeans.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 coisa recente a rusga entre o\u00a0MST\u00a0e o governo Lula. As lideran\u00e7as do movimento tiveram que esperar um ano e meio depois da posse do presidente para serem recebidas por ele pela primeira vez. O encontro, ao qual Stedile n\u00e3o esteve presente, ocorreu em agosto de 2024, quando o movimento apresentou uma pauta de reivindica\u00e7\u00f5es, com foco no assentamento de fam\u00edlias acampadas. Pouca coisa avan\u00e7ou nos meses posteriores.<\/p>\n<p><strong>Para piorar, no in\u00edcio deste ano, a imprensa noticiou, com base em dados do\u00a0MDA, que 71,4 mil fam\u00edlias tinham sido inclu\u00eddas no programa de reforma agr\u00e1ria em 2024, dando a entender que tinham sido assentadas.<\/strong> Como nenhum assentamento havia sido criado em \u00e1reas ocupadas pelo\u00a0MST,\u00a0a informa\u00e7\u00e3o enfureceu o comando dos Sem Terra. N\u00e3o porque essas lideran\u00e7as considerassem que o\u00a0MST\u00a0deveria ter prioridade, mas por suspeitarem de distor\u00e7\u00f5es nos n\u00fameros do governo, uma vez que, dada a dimens\u00e3o e capilaridade do movimento, seria dif\u00edcil o programa n\u00e3o ter inclu\u00eddo nenhuma de suas fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Por esse motivo, o clima estava tenso na segunda reuni\u00e3o de Lula com a lideran\u00e7a do\u00a0MST, no dia 31 de janeiro passado. O presidente entrou na sala empunhando sua simpatia habitual e chamando de \u201ccompanheiros\u201d os seis dirigentes nacionais do\u00a0MST\u00a0presentes \u2013 Gilmar Mauro, Ceres Hadich, Jaime Amorim, Roberto Baggio, D\u00e9bora Nunes e Jo\u00e3o Paulo Rodrigues. Lula estava acompanhado do ministro do Desenvolvimento Agr\u00e1rio e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira, da secret\u00e1ria-executiva da pasta, Fernanda Machiaveli, do presidente do Incra, C\u00e9sar Aldrighi, e do presidente da Conab, Edegar Pretto.<\/p>\n<p>Durante uma hora, a equipe do governo apresentou um raio X da Reforma Agr\u00e1ria a Lula, enfatizando que a Uni\u00e3o estava em processo de aquisi\u00e7\u00e3o de 307 \u00e1reas, que podem atender at\u00e9 30 mil fam\u00edlias. No or\u00e7amento deste ano, o governo disp\u00f5e de 406 milh\u00f5es de reais para aquisi\u00e7\u00f5es e desapropria\u00e7\u00f5es de terras. A equipe exp\u00f4s, ainda, um conjunto de n\u00fameros recentes: 125,3 mil fam\u00edlias haviam sido atendidas pelo programa de reforma agr\u00e1ria desde a posse de Lula, e a proje\u00e7\u00e3o \u00e9 chegar a 326 mil fam\u00edlias at\u00e9 o fim de 2026.<\/p>\n<p>Daquelas 125,3 mil fam\u00edlias, 52,5 mil eram \u201cfam\u00edlias regularizadas\u201d \u2013 ou seja, que j\u00e1 estavam assentadas, mas tinham pend\u00eancias burocr\u00e1ticas, como a falta de algum documento. O levantamento incluiu tamb\u00e9m 47 mil \u201cfam\u00edlias reconhecidas\u201d pelo programa de reforma agr\u00e1ria, isto \u00e9, que atendiam aos crit\u00e9rios para se tornarem benefici\u00e1rios dessa pol\u00edtica p\u00fablica. Al\u00e9m disso, os dados abrangiam 22,4 mil fam\u00edlias de \u201cassentamentos diferenciados\u201d, voltados, por exemplo, para ribeirinhos e comunidades extrativistas. Em \u201cassentamentos tradicionais\u201d \u2013 que correspondem ao modelo destinado, entre outros, aos militantes ligados ao\u00a0MST\u00a0\u2013, o balan\u00e7o mencionava a inclus\u00e3o de apenas 3.353 fam\u00edlias, menos de 2,7% do total.<\/p>\n<p>Os dirigentes do\u00a0MST\u00a0estranharam os n\u00fameros. De pronto, garantiram a Lula que nenhuma fam\u00edlia de \u00e1reas ocupadas pelo movimento tinha sido assentada em seu governo. Ao ouvir isso, Lula fez \u201cuma cara de espanto\u201d, nas palavras de Jo\u00e3o Paulo Rodrigues, da dire\u00e7\u00e3o nacional do movimento. Apesar da surpresa, Lula chamou a responsabilidade para si, como lembra Rodrigues. \u201cEle falou: \u2018Olha, se tem algu\u00e9m culpado aqui, sou eu, viu? Porque eu sou o presidente da Rep\u00fablica.\u2019\u201d<\/p>\n<p>Em seguida, os dirigentes do\u00a0MST\u00a0apresentaram os seus pr\u00f3prios n\u00fameros ao presidente. Disseram que, de 1 milh\u00e3o de fam\u00edlias ligadas ao movimento que j\u00e1 foram assentadas no Brasil, apenas 33,3 mil (ou 3% do total) t\u00eam acesso ao Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), que prev\u00ea financiamento a juros subsidiados e \u00e9 considerado um dos pilares da Reforma Agr\u00e1ria. Fora isso, somente 6.995 fam\u00edlias (0,7%) tinham conseguido aderir ao PAA\u00a0at\u00e9 aquele momento. Calculando que o custo hoje para assentar uma fam\u00edlia seja de 100 mil reais, os dirigentes apontaram que o governo precisaria de 6,5 bilh\u00f5es de reais para atender as 100 mil fam\u00edlias acampadas no pa\u00eds. Posteriormente, o Incra divulgou dados que revelam que o contingente de acampados \u00e9 ainda maior: atualmente, 122.343 fam\u00edlias vivem em mais de 1.250 acampamentos do\u00a0MST\u00a0nas 27 unidades da federa\u00e7\u00e3o, esperando regulariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois da reuni\u00e3o de cerca de tr\u00eas horas, os dirigentes do movimento deixaram o Planalto com uma sensa\u00e7\u00e3o d\u00fabia. Lula lhes pareceu empenhado em fazer a Reforma Agr\u00e1ria avan\u00e7ar, mas n\u00e3o fixou nenhum cronograma nem firmou qualquer compromisso. Integrante da coordena\u00e7\u00e3o nacional do\u00a0MST, Ceres Hadich lamentou a falta de um an\u00fancio concreto. \u201cN\u00e3o aconteceu, mas acreditamos que a reuni\u00e3o foi importante no sentido de passar em revista as demandas e as pend\u00eancias\u201d, disse \u00e0\u00a0piau\u00ed<strong>,\u00a0<\/strong>em entrevista concedida em fevereiro. Para Rodrigues, a impress\u00e3o \u00e9 de que o governo at\u00e9 poder\u00e1 ajudar a resolver o problema das fam\u00edlias que j\u00e1 t\u00eam terra, mas n\u00e3o vai resolver o problema dos acampados do movimento. \u201cN\u00f3s ficamos com a pulga atr\u00e1s da orelha\u201d, afirmou. \u201cFalta depura\u00e7\u00e3o dos n\u00fameros e das informa\u00e7\u00f5es levadas [<em>pela equipe do governo<\/em>] ao presidente. O governo tem menos de 500 milh\u00f5es de reais para a terra: tem 10% disso [<em>do necess\u00e1rio para adquirir terras para todos os acampados<\/em>]. N\u00f3s precisamos de mais dez governos Lula para resolver a situa\u00e7\u00e3o.\u201d Os \u201cmenos de 500 milh\u00f5es de reais\u201d mencionados por Rodrigues se referem aos 406 milh\u00f5es de reais inclu\u00eddos no or\u00e7amento de 2025 para aquisi\u00e7\u00f5es e desapropria\u00e7\u00f5es de terra.<\/p>\n<p>Menos de um m\u00eas depois do ato em Cascavel, Lula fez seu primeiro aceno p\u00fablico ao movimento. Em 7 de mar\u00e7o passado, levou um evento oficial a uma \u00e1rea ocupada pelo\u00a0MST,\u00a0o Quilombo Campo Grande, situado na cidade mineira de Campo do Meio, em terras que fazem parte da massa falida de uma usina de \u00e1lcool e a\u00e7\u00facar. L\u00e1, entre ministros, secret\u00e1rios e deputados e diante de centenas de Sem Terra, o presidente divulgou um pacote de medidas.<\/p>\n<p>Primeiro, anunciou o assentamento de 12.297 fam\u00edlias, em 24 estados. Depois, assinou sete decretos de desapropria\u00e7\u00e3o, revertendo 13,3 mil hectares \u00e0 Reforma Agr\u00e1ria \u2013 com potencial de atender oitocentas fam\u00edlias. Por fim, avisou que estava destinando 1,6 bilh\u00e3o de reais para o Cr\u00e9dito Instala\u00e7\u00e3o, que deve atender 18 mil fam\u00edlias rec\u00e9m-assentadas ou em processo de assentamento. O Cr\u00e9dito Instala\u00e7\u00e3o \u00e9 um benef\u00edcio do Incra para que fam\u00edlias rec\u00e9m-assentadas possam se fixar nas \u00e1reas.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 apenas o in\u00edcio do pagamento de uma d\u00edvida de 525 anos que o governo tem com o povo brasileiro\u201d, discursou Lula. \u201cA terra tem que estar na m\u00e3o do povo, para que ele possa produzir.\u201d A frase faz men\u00e7\u00e3o a um dos pontos que constam da carta de funda\u00e7\u00e3o do\u00a0MST,\u00a0que, por sua vez,\u00a0alude a uma m\u00e1xima atribu\u00edda ao l\u00edder revolucion\u00e1rio mexicano Emiliano Zapata: \u201cA terra \u00e9 de quem trabalha nela.\u201d<\/p>\n<p>O presidente tamb\u00e9m se desculpou pela demora em apresentar realiza\u00e7\u00f5es aos Sem Terra. Disse que nos primeiros dias de governo pediu \u00e0 sua equipe que fizesse um levantamento de terras p\u00fablicas e \u00e1reas improdutivas que poderiam ser destinadas ao programa de reforma agr\u00e1ria e que o atraso foi devido \u00e0 necessidade de \u201carrumar a casa que foi destru\u00edda\u201d. Ele n\u00e3o deu detalhes a respeito, mas \u00e9 de conhecimento geral que as institui\u00e7\u00f5es de Estado que cuidam da Reforma Agr\u00e1ria foram enfraquecidas ou eliminadas nos governos anteriores. Em 2016, Temer extinguiu o ent\u00e3o Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Agr\u00e1rio. Em 2019, Bolsonaro fundiu o Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Social e Combate \u00e0 Fome ao Minist\u00e9rio da Cidadania.<\/p>\n<p>Em tom de campanha, Lula garantiu aos Sem Terra que, a partir de agora, os resultados concretos v\u00e3o aparecer. \u201cAgora, \u00e9 preciso fazer com que essa prateleira [<em>de terras<\/em>] possa ser distribu\u00edda\u201d, afirmou. \u201cAno que vem, vamos colher tudo o que preparamos. N\u00e3o tem explica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tem choradeira. N\u00f3s temos que entregar o que prometemos durante a campanha.\u201d<\/p>\n<p>No mesmo encontro em Minas, membros do governo ampliaram os acenos do presidente ao\u00a0MST. O advogado-geral da Uni\u00e3o, Jorge Messias, anunciou que a Advocacia-Geral da Uni\u00e3o (AGU) vai atuar diretamente caso empresas ou propriet\u00e1rios de terras desapropriadas acionem na Justi\u00e7a benefici\u00e1rios do programa de reforma agr\u00e1ria. \u201cMexeu com voc\u00eas, mexeu com a gente agora\u201d, proclamou Messias. O ministro da Defesa Agr\u00e1ria e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira, disse estar aberto a cobran\u00e7as e refor\u00e7ou o compromisso do governo de zerar os acampamentos: \u201cN\u00e3o \u00e9 o fim. \u00c9 o come\u00e7o, \u00e9 a alavanca. N\u00e3o vamos dormir enquanto n\u00e3o assentarmos o \u00faltimo acampado neste pa\u00eds.\u201d<\/p>\n<p>O governo turbinou o an\u00fancio com as medidas j\u00e1 programadas, como a amplia\u00e7\u00e3o do\u00a0Programa Nacional de Educa\u00e7\u00e3o na Reforma Agr\u00e1ria\u00a0(Pronera), para o qual o or\u00e7amento deste ano destinou 48,6 milh\u00f5es de reais. (O Pronera realiza conv\u00eanios do governo com institui\u00e7\u00f5es de ensino superior para a oferta de cursos exclusivos a assentados e acampados.) O Programa de Aquisi\u00e7\u00e3o de Alimentos, por sua vez, ter\u00e1 1,1 bilh\u00e3o em recursos. Segundo o governo, entre 2023 e 2024, a Conab comprou 249 mil toneladas de alimentos de 2.780 cooperativas e associa\u00e7\u00f5es, por meio do PAA. Deste volume, 26% prov\u00eam de assentados da reforma agr\u00e1ria.<\/p>\n<p>Durante o ato, o agricultor Sem Terra Valdecir Ribeiro da Costa, de 77 anos, foi um dos que receberam o t\u00edtulo de propriedade do lote em que vive, em Uberl\u00e2ndia. Rompendo o protocolo, ele apanhou o microfone e disse estar orgulhoso com \u201co documento\u201d, mas n\u00e3o satisfeito. \u201cVamos buscar mais. Esse [<em>documento<\/em>] aqui me garante 17 hectares de terra, mas \u00e9 muito pouco onde tem milhares e milhares [<em>de acampados<\/em>] que n\u00e3o t\u00eam 17 cent\u00edmetros para p\u00f4r o p\u00e9\u201d, disse. Em seguida, abrandou suas declara\u00e7\u00f5es, manifestando apoio \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o do presidente: \u201cN\u00f3s temos mais dois anos com esse companheiro aqui, mas podemos ter mais quatro.\u201d<\/p>\n<p>Em 29 de maio, Lula fez um novo aceno ao MST. O presidente visitou o Acampamento Maila Sabrina, formado pelo MST h\u00e1 mais de duas d\u00e9cadas, em Ortigueira (a 250 km de Curitiba). Na ocasi\u00e3o, o governo anunciou a desapropria\u00e7\u00e3o da fazenda de 10,6 mil hectares para assentar as mais de 400 fam\u00edlias que vivem naquelas terras. Na cerim\u00f4nia, Lula deu um pux\u00e3o de orelha no ministro Paulo Teixeira, do Desenvolvimento Agr\u00e1rio: \u201cO aparato estatal foi estruturado para negar demandas, quando deveria ao menos demonstrar disposi\u00e7\u00e3o para viabilizar solu\u00e7\u00f5es. Essa mudan\u00e7a de mentalidade, Paulinho, \u00e9 fundamental no Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Agr\u00e1rio.\u201d<\/p>\n<p>O pacote do governo, por\u00e9m, n\u00e3o arrefeceu o tom entre os dirigentes do\u00a0MST. Tr\u00eas dias depois do evento em Campo do Meio, Minas Gerais, St\u00e9dile colocou em perspectiva as medidas anunciadas. Classificou-as como paliativas e pontuais. \u201cElas amenizam conflitos, mas est\u00e3o muito aqu\u00e9m do compromisso do presidente Lula\u201d, disse \u00e0\u00a0<strong>piau\u00ed.<\/strong> Ele conversou com a reportagem em duas ocasi\u00f5es: numa igreja de madeira do Assentamento Resist\u00eancia Camponesa, em Cascavel, em 8 de fevereiro, e dias depois\u00a0por teleconfer\u00eancia, da biblioteca de sua casa na cidade de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>St\u00e9dile mencionou que apenas pouco mais de um ter\u00e7o (4,8 mil) das fam\u00edlias assentadas que o governo anunciou em Minas s\u00e3o vinculadas ao\u00a0MST. Tamb\u00e9m apontou que o Pronera precisaria do triplo dos recursos anunciados. \u201cO ideal teria sido, logo l\u00e1 no in\u00edcio, fazer o III Plano Nacional de Reforma Agr\u00e1ria, que eles n\u00e3o fizeram\u201d, reclamou. \u201cO\u00a0<em>modus operandi<\/em>\u00a0da \u00e1rea agr\u00e1ria do governo vai sempre em cima de press\u00f5es pontuais que possam acontecer aqui e acol\u00e1, nos estados. Ent\u00e3o, na pr\u00e1tica, a pol\u00edtica agr\u00e1ria do governo n\u00e3o se alterou, infelizmente.\u201d\u00a0<\/p>\n<p>St\u00e9dile tamb\u00e9m disse que o\u00a0MST\u00a0n\u00e3o se comoveu com a justificativa de que os primeiros resultados demoraram a surgir porque era preciso p\u00f4r a casa em ordem. \u201c\u00c9 um argumento que setores do governo utilizam para esconder sua incompet\u00eancia\u201d, afirmou. \u201cQuem \u00e9 eleito, \u00e9 para governar na primeira semana. Veja o Trump. Em um m\u00eas, j\u00e1 operou muitas coisas, ainda que ele n\u00e3o seja modelo para ningu\u00e9m.\u201d\u00a0<\/p>\n<p>St\u00e9dile viu apenas um fato positivo no evento em Minas Gerais: a reconex\u00e3o de Lula com setores populares. Ao longo daquele dia 7 de mar\u00e7o, em Campo do Meio, lideran\u00e7as do\u00a0MST\u00a0acompanharam o presidente em visitas a acampamentos. Ele conversou com fam\u00edlias, ouviu hist\u00f3rias de vida e quis entender por que os pre\u00e7os do caf\u00e9 e dos ovos subiram tanto. \u201cEu vi o Lula como um peixe dentro da \u00e1gua\u201d, definiu St\u00e9dile, que esteve no evento em Minas, mas n\u00e3o discursou. \u201cO\u00a0MST\u00a0n\u00e3o pode cair na ilus\u00e3o de que as mudan\u00e7as e um programa de reforma agr\u00e1ria vir\u00e3o apenas de conversas. As conversas s\u00e3o necess\u00e1rias, fazem parte da institucionalidade. Agora, a for\u00e7a real para mover montanhas \u00e9 a mobiliza\u00e7\u00e3o de massas. \u00c9 prosa e pau.\u201d<\/p>\n<p>Economista de forma\u00e7\u00e3o, St\u00e9dile tamb\u00e9m criticou os rumos econ\u00f4micos do governo. \u201cAntes, diz\u00edamos \u2018o Banco Central do Bolsonaro\u2019. E agora, que o Banco Central \u00e9 nosso? N\u00e3o tem explica\u00e7\u00e3o para uma taxa de juros t\u00e3o alta, porque inviabiliza qualquer projeto de ind\u00fastria e de agroind\u00fastria.\u201d (Na sua \u00faltima reuni\u00e3o, em 7 de maio, o Comit\u00ea de Pol\u00edtica Monet\u00e1ria, o Copom, fixou a taxa Selic em 14,75% ao ano.)<\/p>\n<p>Ele foi mais longe: defendeu que o modelo do agroneg\u00f3cio brasileiro, focado na exporta\u00e7\u00e3o de commodities agr\u00edcolas, est\u00e1 \u00e0 beira da fal\u00eancia. Como exemplo, mencionou a soja e os planos da China de ampliar drasticamente sua produ\u00e7\u00e3o desses gr\u00e3os e atingir a autossufici\u00eancia em menos de uma d\u00e9cada. S\u00f3 no ano passado, o Brasil exportou 69 milh\u00f5es de toneladas da oleaginosa \u00e0 China \u2013 o que corresponde a 73,4% dos embarques brasileiros do produto. \u201cPara quem os produtores de soja brasileiros v\u00e3o vender daqui a dez anos? Para o Paraguai?\u201d, ironizou St\u00e9dile. Ele fez compara\u00e7\u00e3o similar a respeito da destina\u00e7\u00e3o de cana-de-a\u00e7\u00facar para a produ\u00e7\u00e3o de etanol. \u201cE, quando o carro el\u00e9trico chin\u00eas for 90% da frota de autom\u00f3veis do Brasil, para onde vai o etanol? Para os b\u00eabados, acho. A\u00ed, tem cacha\u00e7a para todo mundo.\u201d<\/p>\n<p>Apesar dos ataques ao programa econ\u00f4mico do governo, St\u00e9dile pensa que Lula ainda \u00e9 a \u00fanica alternativa vi\u00e1vel eleitoralmente para a esquerda, que, segundo ele, est\u00e1 em \u201cestado de letargia\u201d desde a deposi\u00e7\u00e3o de Dilma Rousseff. Ele acredita que s\u00f3 v\u00e3o surgir novas lideran\u00e7as e for\u00e7as pol\u00edticas se a esquerda voltar ao trabalho de base e deixar de pensar exclusivamente em elei\u00e7\u00f5es. O l\u00edder sem-terra entende que \u00e9 preciso resgatar logo esse trabalho de base e de mobiliza\u00e7\u00e3o popular. \u201cN\u00f3s, do\u00a0MST, temos que fazer uma grande alian\u00e7a com a classe oper\u00e1ria da cidade, para retomar aquele movimento que gerou o Lula, que foi de 1978 at\u00e9 1999\u201d, disse \u00e0\u00a0piau\u00ed, em mar\u00e7o passado. \u201cEnt\u00e3o, daqui at\u00e9 abril estamos fazendo isso: motivar a turma a voltar a fazer grandes acampamentos.\u201d<\/p>\n<p>Abril Vermelho \u00e9 como ficou conhecida a Jornada Nacional de Lutas em Defesa da Reforma Agr\u00e1ria, deflagrada anualmente pelo\u00a0MST. Trata-se de uma s\u00e9rie de mobiliza\u00e7\u00f5es em todo o pa\u00eds, iniciadas 29 anos atr\u00e1s. A primeira delas ocorreu em abril de 1996, em rea\u00e7\u00e3o ao Massacre de Eldorado dos Caraj\u00e1s, ocorrido no dia 17 daquele m\u00eas, no qual dezenove sem-terra foram mortos pela Pol\u00edcia Militar do Par\u00e1 (dois militantes morreram depois no hospital).<\/p>\n<p>No Abril Vermelho de 2025, o\u00a0MST\u00a0contabilizou mais de sessenta a\u00e7\u00f5es, que envolveram 50 mil militantes, em vinte estados e no Distrito Federal, em manifesta\u00e7\u00f5es, passeatas e sete ocupa\u00e7\u00f5es de \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos, como algumas sedes do Incra. Houve tamb\u00e9m trinta ocupa\u00e7\u00f5es tempor\u00e1rias de terras, principalmente em \u00e1reas reivindicadas para a reforma agr\u00e1ria. Entre elas, a Fazenda Santa Luzia, localizada na cidade de Campo dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, arrendada a uma cooperativa que tem d\u00edvida de mais de 200 milh\u00f5es de reais com a Uni\u00e3o. Por algumas horas, cerca de quatrocentas fam\u00edlias ocuparam a propriedade.<\/p>\n<p>O ato mais significativo, no entanto, foi a forma\u00e7\u00e3o de tr\u00eas novos acampamentos. Cerca de quatrocentas fam\u00edlias ocuparam uma \u00e1rea em Oroc\u00f3, em Pernambuco, 260 levantaram acampamento em uma fazenda na cidade goiana de Crix\u00e1s, e oitocentas se fixaram em terras da massa falida da Usina Santa Teresa, em Goiana, tamb\u00e9m em Pernambuco.<\/p>\n<p>A Confedera\u00e7\u00e3o Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (Contag) e a Federa\u00e7\u00e3o dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (Fetraf) tamb\u00e9m promoveram mobiliza\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias ou em apoio ao Abril Vermelho, embora em menor volume. Apesar de terem pautas em comum \u2013 inclusive, a reforma agr\u00e1ria \u2013, o \u00e2mbito de a\u00e7\u00f5es \u00e9 distinto. Contag e Fetraf s\u00e3o entidades de classe, com atua\u00e7\u00e3o institucional e de mobiliza\u00e7\u00e3o sindicalizada, enquanto o\u00a0MST\u00a0\u00e9 um movimento social aut\u00f4nomo, que tem recorrido \u00e0 press\u00e3o social para chamar aten\u00e7\u00e3o para a reforma agr\u00e1ria.<\/p>\n<p>Mesmo antes da deflagra\u00e7\u00e3o do Abril Vermelho, a Frente Parlamentar da Agropecu\u00e1ria (FPA) j\u00e1 vinha esbo\u00e7ando uma rea\u00e7\u00e3o ao\u00a0MST. O bloco \u2013 que re\u00fane 303 deputados federais e 50 senadores \u2013 anunciou o que chamou de \u201cpacote anti-invas\u00e3o\u201d, que contempla quatro projetos de lei (PL) e quatro projetos de decreto legislativo (PDL). Entre eles, o PDL 167\/2024, cujo objetivo \u00e9 sustar o decreto presidencial que criou o programa Terra da Gente, lan\u00e7ado por Lula em abril de 2024, que permite ao governo reverter para a reforma agr\u00e1ria terras de grandes devedores da Uni\u00e3o. Tamb\u00e9m integram o pacote ruralista o PL 4432\/2023, com a proposta de cria\u00e7\u00e3o de um \u201ccadastro de invasores de propriedades\u201d, e o PL 8262\/2017, que pretende autorizar aos propriet\u00e1rios com terras ocupadas que \u201cpossam solicitar for\u00e7a policial para retirada de invasores, independentemente de ordem judicial\u201d.<\/p>\n<p>O presidente da FPA, o deputado federal Pedro Lupion (PP-PR), disse \u00e0\u00a0piau\u00ed\u00a0que o objetivo desse pacote de projetos de lei \u00e9 claro: \u201cCoibir invas\u00f5es de terra e garantir seguran\u00e7a jur\u00eddica para quem produz no campo.\u201d Ele afirmou que o pacote do \u201ccadastro de invasores de propriedades\u201d prev\u00ea, por exemplo, que as pessoas envolvidas em tais invas\u00f5es n\u00e3o possam ocupar cargos p\u00fablicos nem receber benef\u00edcios como o Bolsa Fam\u00edlia ou participar de programas de reforma agr\u00e1ria. \u201cO Estado brasileiro n\u00e3o pode premiar quem comete crimes. A lei precisa valer para todos\u201d, afirmou Lupion, que chamou de \u201cacenos pol\u00edticos\u201d os an\u00fancios feitos recentemente por Lula aos sem-terra, como os de Campo do Meio. \u201cO governo disponibilizou cerca de 1 bilh\u00e3o de reais para demandas ligadas ao\u00a0MST, enquanto retira quase 900 milh\u00f5es de pol\u00edticas voltadas ao setor agropecu\u00e1rio. Isso mostra um claro aparelhamento da m\u00e1quina p\u00fablica em benef\u00edcio de grupos que promovem invas\u00f5es e desestabilizam o campo\u201d, disse. A realidade, como se viu, n\u00e3o confirma os n\u00fameros.<\/p>\n<p>Lupion fez quest\u00e3o de ressaltar que a FPA n\u00e3o \u00e9 contra a reforma agr\u00e1ria. \u201cDesde que ela ocorra de forma legal, com crit\u00e9rios t\u00e9cnicos, transpar\u00eancia e seguran\u00e7a jur\u00eddica\u201d, afirmou. \u201c\u00c9 preciso avaliar com cautela se os assentamentos foram feitos com base em crit\u00e9rios legais e produtivos, ou se est\u00e3o sendo usados para legitimar ocupa\u00e7\u00f5es ilegais.\u201d<\/p>\n<p>No dia da marcha para celebrar a conquista do Assentamento Resist\u00eancia Camponesa, em Cascavel, Jo\u00e3o Pedro St\u00e9dile chegou de carona \u00e0s 10 horas, em uma caminhonete Ford Ranger. Nem bem apeou do ve\u00edculo, passou a ser abordado por militantes que aguardavam o in\u00edcio da comemora\u00e7\u00e3o. A cada conversa, St\u00e9dile dava encaminhamento a demandas e anotava o contato do interlocutor em uma caderneta. Tamb\u00e9m deixava seu cart\u00e3o de visitas, em que consta a \u00fanica forma de contato: seu endere\u00e7o de e-mail. \u201cMas \u00e9 correio eletr\u00f4nico. Voc\u00ea deixe pra enviar um e-mail quando for aos Estados Unidos\u201d, repetia, meio a s\u00e9rio, meio em tom de galhofa. Tamb\u00e9m recomendou o filme\u00a0<em>O bastardo,\u00a0<\/em>de Nikolaj Arcel, sobre um soldado que participa da coloniza\u00e7\u00e3o de uma regi\u00e3o in\u00f3spita da Jutl\u00e2ndia, na Dinamarca, transformando terras \u00e1ridas em produtivas. \u201cTem muito a ver com a nossa luta\u201d, avisou.<\/p>\n<p>St\u00e9dile emergiu como lideran\u00e7a na virada das d\u00e9cadas de 1970 para 1980, quando a quest\u00e3o da reforma agr\u00e1ria fervilhava no pa\u00eds, principalmente em estados do Centro-Sul. Com a ditadura militar combalida, trabalhadores rurais inspirados pelos movimentos sindicais da ind\u00fastria come\u00e7aram a se organizar regionalmente. St\u00e9dile havia militado na juventude junto ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Bento Gon\u00e7alves, que centralizava a luta por melhor remunera\u00e7\u00e3o aos produtores de uva. Em setembro de 1979, aos 25 anos de idade, participou de sua primeira ocupa\u00e7\u00e3o no campo, no munic\u00edpio de Ronda Alta, no noroeste ga\u00facho. Nos meses seguintes, eclodiram diversas ocupa\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00f3 no Rio Grande do Sul, mas Brasil afora.<\/p>\n<p>Em todos os estados, a mobiliza\u00e7\u00e3o rural tinha um ponto em comum: a articula\u00e7\u00e3o com setores da Igreja Cat\u00f3lica, como a Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT). Atentos \u00e0s ocupa\u00e7\u00f5es pelo pa\u00eds, padres e mission\u00e1rios \u2013 sobretudo os pr\u00f3ximos da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o e das comunidades eclesiais de base \u2013 tiveram a ideia de promover uma reuni\u00e3o com as lideran\u00e7as campesinas. O encontro ocorreu, em julho de 1982, no sal\u00e3o paroquial da igreja de Medianeira, munic\u00edpio do Oeste do Paran\u00e1.<\/p>\n<p>Um ano e meio depois, entre 21 e 24 de janeiro de 1984, cerca de cem lideran\u00e7as rurais de catorze estados realizaram no insuspeito centro comunit\u00e1rio da Igreja de S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o, em Cascavel, uma reuni\u00e3o que ficaria conhecida como o 1\u00ba Encontro Nacional dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Depois de quatro dias de debates, os l\u00edderes decidiram fundar um movimento de abrang\u00eancia nacional, apartid\u00e1rio e laico. Em um documento datilografado de duas p\u00e1ginas, o grupo rec\u00e9m-criado manifestou \u201csua autonomia pol\u00edtica\u201d, defendeu a \u201creforma agr\u00e1ria j\u00e1\u201d, com a terra \u201cnas m\u00e3os de quem nela trabalha\u201d, e postulou \u201cuma sociedade igualit\u00e1ria, acabando com o capitalismo\u201d. Definiram tamb\u00e9m o nome do movimento que nascia.<\/p>\n<p>\u201cA imprensa j\u00e1 estava nos chamando de sem-terra, por causa das ocupa\u00e7\u00f5es. Mas sem-terra \u00e9 muito reduzido. Ent\u00e3o, no debate, a gente disse: \u2018Vamos botar o car\u00e1ter de classe. Ser\u00e1 Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra\u2019\u201d, relembra St\u00e9dile \u00e0\u00a0piau\u00ed, dando \u00eanfase \u00e0 palavra \u201ctrabalhadores\u201d.<\/p>\n<p>A partir de ent\u00e3o, o\u00a0MST\u00a0passou a deflagrar suas a\u00e7\u00f5es pelo pa\u00eds de forma coordenada, segundo uma s\u00e9rie de protocolos de atua\u00e7\u00e3o. O primeiro ato se deu ainda naquele semestre, em 22 de junho, quando 91 fam\u00edlias ocuparam a fazenda Marimbu, em Mangueirinha, no sudoeste do Paran\u00e1. A nova organiza\u00e7\u00e3o criou n\u00facleos nos acampamentos destinados a cuidar de pontos espec\u00edficos, como sa\u00fade, seguran\u00e7a e educa\u00e7\u00e3o. \u201cEm um ano, saiu a desapropria\u00e7\u00e3o da fazenda Marimbu, que j\u00e1 foi destinada para assentamento e demarcada\u201d, conta Ant\u00f4nio Capitani, um dos ocupantes, na \u00e9poca com 25 anos (e que hoje vive em um assentamento na cidade de Lapa, no Paran\u00e1). Ele tinha ingressado na luta pela terra cinco anos antes, depois de se aproximar de cat\u00f3licos seguidores da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, ao lado dos quais come\u00e7ou a fazer trabalho de base, percorrendo o interior para convencer fam\u00edlias a se unir \u00e0 causa. O assentamento em Mangueirinha ganhou um nome cheio de simbolismo: Vit\u00f3ria da Uni\u00e3o. Hoje, em torno de 380 fam\u00edlias vivem naquela \u00e1rea.<\/p>\n<p>Devido \u00e0 press\u00e3o crescente do\u00a0MST, sob a lideran\u00e7a de St\u00e9dile, a luta pela terra voltou \u00e0 pauta nacional. Em 1985, o presidente Jos\u00e9 Sarney anunciou o primeiro Plano Nacional de Reforma Agr\u00e1ria da Nova Rep\u00fablica, com a meta de assentar 1,4 milh\u00e3o de fam\u00edlias. Os sem-terra se animaram, mas no fim das contas o governo deu t\u00edtulos de propriedade a apenas 80 mil fam\u00edlias \u2013 menos de 6% do que havia planejado. Os presidentes a seguir tamb\u00e9m produziram resultados p\u00edfios: Fernando Collor concedeu 23 mil t\u00edtulos de propriedade, e Itamar\u00a0Franco assentou somente 12,6 mil fam\u00edlias. Os n\u00fameros constam no\u00a0<em>Atlas dos benefici\u00e1rios da reforma agr\u00e1ria<\/em>, estudo publicado em 1997 e conduzido pelos pesquisadores Maria Beatriz de Albuquerque David, Philippe Waniez e Violette Brustlein.<\/p>\n<p>Com a pol\u00edtica agr\u00e1ria se arrastando, no governo de Fernando Henrique Cardoso o\u00a0MST\u00a0decidiu se expandir e intensificar as ocupa\u00e7\u00f5es. A repress\u00e3o veio na mesma propor\u00e7\u00e3o. O pa\u00eds passou a viver uma onda de conflitos rurais \u2013 nas duas gest\u00f5es de FHC, mais de 2,4 mil \u00e1reas foram ocupadas e 243 pessoas morreram nos conflitos no campo. Foi nesse contexto que, em 1996, ocorreu o Massacre de Eldorado dos Caraj\u00e1s, no Par\u00e1.<\/p>\n<p>Em mar\u00e7o de 1997, o filho de meeiros boias-frias Diego Moreira participou de sua primeira ocupa\u00e7\u00e3o, em Tamarana, Norte do Paran\u00e1. Ele tinha 14 anos quando chegou ao acampamento a bordo de uma carretinha, puxada por um trator, com outras quinze pessoas \u2013 entre elas, sua m\u00e3e e um primo. O adolescente passou tr\u00eas meses ali e se engajou de corpo e alma no movimento, do qual \u00e9 atualmente um dos coordenadores nacionais. \u201cEra um momento de crise econ\u00f4mica, no auge de experimenta\u00e7\u00e3o do neoliberalismo, que acabou sendo uma frustra\u00e7\u00e3o do ponto de vista econ\u00f4mico. O agroneg\u00f3cio n\u00e3o estava totalmente desenvolvido, ent\u00e3o ainda tinha uma presen\u00e7a forte do latif\u00fandio atrasado no interior do pa\u00eds\u201d, conta Moreira. Ele hoje tem seu lote no Assentamento Florestan Fernandes, em Florest\u00f3polis, no Norte do Paran\u00e1.<\/p>\n<p>O\u00a0MST\u00a0reagiu ao aumento da repress\u00e3o promovendo, em abril de 1997, uma marcha nacional, que culminou com uma grande manifesta\u00e7\u00e3o em Bras\u00edlia. L\u00edderes do movimento chegaram a ser recebidos por FHC no Pal\u00e1cio do Planalto. Nos anos seguintes, entretanto, o presidente baixou uma s\u00e9rie de medidas provis\u00f3rias que impediam a desapropria\u00e7\u00e3o de \u00e1reas ocupadas e proibiam quem participasse das ocupa\u00e7\u00f5es de se tornar benefici\u00e1rio do programa de reforma agr\u00e1ria. Apesar dos conflitos, ao longo de suas duas gest\u00f5es, FHC incluiu 504,7 mil fam\u00edlias no programa de reforma agr\u00e1ria, das quais quase 198,3 mil fam\u00edlias foram assentadas, mais que o dobro em rela\u00e7\u00e3o a seus tr\u00eas antecessores (Sarney, Collor e Itamar). Mesmo assim, no \u00faltimo ano de governo de FHC, quinhentas fam\u00edlias do movimento ocuparam em mar\u00e7o de 2002 a fazenda do presidente, em Minas Gerais \u2013 foram retiradas \u00e0 for\u00e7a pela pol\u00edcia.<\/p>\n<p>A posse de Lula em 2003 representou uma esperan\u00e7a para o\u00a0MST. Apesar de se declarar apartid\u00e1rio, o movimento tem muitos pontos em comum com o\u00a0PT. Ambos nasceram no contexto do novo sindicalismo e t\u00eam ra\u00edzes em setores progressistas da Igreja Cat\u00f3lica, al\u00e9m de compartilharem algumas bandeiras, como a participa\u00e7\u00e3o popular, as liberdades democr\u00e1ticas plenas, a igualdade social e, \u00e9 claro, a reforma agr\u00e1ria. Apesar de n\u00e3o ter v\u00ednculo formal com o\u00a0PT, o\u00a0MST\u00a0engrossou a oposi\u00e7\u00e3o petista \u00e0 gest\u00e3o tucana.\u00a0<\/p>\n<p>Em raz\u00e3o de tudo isso, os sem-terra supuseram que, depois de anos de tens\u00e3o no campo, teriam algum al\u00edvio com a chegada de Lula \u00e0 Presid\u00eancia \u2013 e que a pol\u00edtica agr\u00e1ria iria deslanchar. O governo estabeleceu di\u00e1logo com o movimento e lan\u00e7ou o segundo Plano Nacional de Reforma Agr\u00e1ria, que tinha como meta beneficiar 1 milh\u00e3o de fam\u00edlias. O\u00a0MST\u00a0deu um voto de confian\u00e7a, e as ocupa\u00e7\u00f5es diminu\u00edram um pouco: foram 1.968 nos dois mandatos de Lula (entre 2003 e 2011). Apesar disso, o movimento acusou o governo de priorizar o agroneg\u00f3cio e criticou a lentid\u00e3o em fazer os assentamentos. Segundo o Incra, quase 617,5 mil fam\u00edlias foram incorporadas ao programa de reforma agr\u00e1ria nas duas gest\u00f5es de Lula, com 180,6 mil fam\u00edlias assentadas. Esse n\u00famero cairia no governo de Dilma Rousseff, com o Executivo enfraquecido pela crise econ\u00f4mica e os embates no Congresso: a quantidade de fam\u00edlias inclu\u00eddas no programa de reforma agr\u00e1ria foi reduzida para 135,5 mil, com apenas 26 mil fam\u00edlias assentadas.<\/p>\n<p>Embora l\u00edderes dos sem-terra reconhe\u00e7am que durante os governos do\u00a0PT\u00a0ocorreram v\u00e1rios avan\u00e7os sociais, entre eles h\u00e1 quem considere que, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 reforma agr\u00e1ria, o partido perdeu uma oportunidade \u00fanica. \u201cA reforma agr\u00e1ria poderia ter sido uma medida estrutural que ajudaria o Brasil a se olhar no espelho e resolver problemas hist\u00f3ricos\u201d, diz Diego Moreira. Ele enfatiza que, com aprova\u00e7\u00e3o recorde, Lula tinha condi\u00e7\u00f5es objetivas de levar a cabo um amplo programa voltado ao campo. \u201cEnt\u00e3o, o governo Lula 1 foi uma oportunidade perdida de se avan\u00e7ar na reforma agr\u00e1ria do Brasil. No governo Dilma foi pior um pouco. Mas o apoio que Dilma teve n\u00e3o foi o mesmo que Lula conseguiu.\u201d<\/p>\n<p>Com a deposi\u00e7\u00e3o de Dilma Rousseff e a pris\u00e3o de Lula, o\u00a0MST\u00a0reduziu suas a\u00e7\u00f5es no campo, destinando sua mobiliza\u00e7\u00e3o \u00e0 defesa da democracia. Membros do movimento permaneceram acampados em frente \u00e0 Superintend\u00eancia da Pol\u00edcia Federal em Curitiba ao longo dos 580 dias em que Lula esteve preso naquela unidade. Essa op\u00e7\u00e3o se refletiu nas atividades no campo, com a queda das ocupa\u00e7\u00f5es e a estagna\u00e7\u00e3o da reforma agr\u00e1ria. Nos dois anos e quatro meses do governo Temer, foram registradas apenas 54 ocupa\u00e7\u00f5es, segundo o Incra. Ao fim do per\u00edodo, foram inclu\u00eddas 8,8 mil fam\u00edlias no programa de reforma agr\u00e1ria e assentadas apenas 121. No governo Jair Bolsonaro, as ocupa\u00e7\u00f5es diminu\u00edram ainda mais: somente 62. Ao final do mandato, pouco mais de 21 mil fam\u00edlias haviam entrado para o programa de reforma agr\u00e1ria, e 4,3 mil delas obtiveram t\u00edtulos de propriedade (alguns definitivos, outros tempor\u00e1rios).<\/p>\n<p>\u201cOcorreu, de fato, um cuidado [<em>em rela\u00e7\u00e3o a novas ocupa\u00e7\u00f5es durante o governo Bolsonaro<\/em>], porque uma organiza\u00e7\u00e3o madura igual \u00e0 nossa n\u00e3o vai colocar o povo para o suic\u00eddio\u201d, diz Moreira, referindo-se ao temor de uma repress\u00e3o violenta. Ele ressalta, em contrapartida, que o\u00a0MST\u00a0foi um dos \u201cpilares importantes no processo de resist\u00eancia\u201d durante os anos Temer e Bolsonaro. \u201cN\u00f3s deixamos de lado as m\u00e1goas corporativas e sindicais e fomos fazer a defesa pol\u00edtica. O Lula chega em Curitiba para cumprir a senten\u00e7a de pris\u00e3o nos bra\u00e7os do movimento. Quando ele sai, n\u00f3s estamos l\u00e1 para estender a m\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Ao assumir seu terceiro mandato, Lula convidou o advogado paulista e ex-deputado federal Paulo Teixeira, um antigo quadro do\u00a0PT, para comandar o Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Agr\u00e1rio e da Agricultura Familiar. A pasta havia sido extinta em 2016, no governo Temer. \u201cFoi como se n\u00f3s tiv\u00e9ssemos entrado numa \u00e1rea demolida\u201d, compara Teixeira, sobre as condi\u00e7\u00f5es em que o minist\u00e9rio se encontrava. \u201cN\u00e3o tinha sede, n\u00e3o tinha pol\u00edticas, n\u00e3o tinha or\u00e7amento.\u201d<\/p>\n<p>Durante a gest\u00e3o de Bolsonaro, o Incra havia encerrado sua Diretoria de Obten\u00e7\u00e3o de Terras e emitido uma s\u00e9rie de normativas que paralisaram todos os processos de compra e desapropria\u00e7\u00e3o de terras que estavam em andamento, suspendendo cerca de 250 processos. O PAA fora significativamente afetado, com enormes cortes de verba, enquanto o Pronera e o Cr\u00e9dito Instala\u00e7\u00e3o tinham sido paralisados. Tamb\u00e9m foram fechados 27 armaz\u00e9ns p\u00fablicos da Conab. \u201cPara destruir \u00e9 muito f\u00e1cil. E reconstruir \u00e9 muito dif\u00edcil\u201d, diz o economista Gustavo Noronha, servidor de carreira do Incra que hoje ocupa o cargo de diretor de Gest\u00e3o Estrat\u00e9gica do instituto. Ele menciona que cada processo de obten\u00e7\u00e3o de terra tem um tr\u00e2mite interno, no pr\u00f3prio Incra, que leva cerca de dois anos. Como os processos tinham sido suspensos no governo anterior, esse trabalho foi perdido. \u201cDurante os governos Temer e Bolsonaro, a \u00fanica preocupa\u00e7\u00e3o era a titula\u00e7\u00e3o. O Incra funcionava como um cart\u00f3rio.\u201d<\/p>\n<p>Com a reestrutura\u00e7\u00e3o, o\u00a0MDA\u00a0p\u00f4de fazer um cadastramento de todas as 122 mil fam\u00edlias acampadas. Com or\u00e7amento crescente \u2013 saltou de 4,6 bilh\u00f5es de reais em 2023, para 6,2 bilh\u00f5es neste ano \u2013, o minist\u00e9rio restituiu o Pronera e o Cr\u00e9dito Instala\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de turbinar o PAA. Paralelamente, o Incra revitalizou a Diretoria de Obten\u00e7\u00e3o de Terras, criou a Diretoria de Territ\u00f3rios Quilombolas e ganhou o aporte de novos 742 servidores.<\/p>\n<p>Dentre todas as iniciativas do\u00a0MDA, o ministro Paulo Teixeira destaca o lan\u00e7amento do Programa Terra da Gente, institu\u00eddo pelo decreto 11.995, de abril de 2024. A medida facilita a incorpora\u00e7\u00e3o de \u00e1reas para fins de reforma agr\u00e1ria. Permite, por exemplo, a adjudica\u00e7\u00e3o de terras de grandes devedores da Uni\u00e3o \u2013 ou seja, que um devedor em recupera\u00e7\u00e3o judicial utilize parte de suas propriedades como pagamento da d\u00edvida de impostos federais, regularizando sua situa\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, viabiliza a obten\u00e7\u00e3o de terras de bancos e empresas p\u00fablicos e a expropria\u00e7\u00e3o de im\u00f3veis rurais em que for detectado trabalho an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o ou cultivo ilegal de plantas psicotr\u00f3picas. Foi com base nesse decreto que o governo captou terras para 12,3 mil fam\u00edlias, como anunciou no evento em Campo do Meio.<\/p>\n<p>Teixeira considera leg\u00edtima a press\u00e3o do\u00a0MST, com o qual afirma ter boa interlocu\u00e7\u00e3o. Na sua avalia\u00e7\u00e3o, o movimento atua de forma estrat\u00e9gica. \u201cPuxa a corda ao limite para conseguir o m\u00e1ximo de conquistas, porque \u00e9 um governo que tem compromisso com a reforma agr\u00e1ria.\u201d O ministro acrescenta: \u201cA press\u00e3o n\u00e3o \u00e9 contra o nosso governo. \u00c9 contra o Estado brasileiro, para fazer uma pol\u00edtica p\u00fablica que \u00e9 uma necessidade da sociedade brasileira para diminuir desigualdades.\u201d<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m Noronha diz entender as cr\u00edticas do\u00a0MST\u00a0aos investimentos do governo na reforma agr\u00e1ria, mas lembra que, em 2010, o or\u00e7amento do Incra foi superior a 4,8 bilh\u00f5es de reais, enquanto no ano passado os recursos n\u00e3o chegaram a 2,6 bilh\u00f5es de reais. \u201cA cr\u00edtica tem a ver. Mas acho importante ressaltar que nunca se fez tanto com t\u00e3o pouco\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Stedile n\u00e3o era o \u00fanico descontente com os rumos do governo na comemora\u00e7\u00e3o no Assentamento Resist\u00eancia Camponesa, em Cascavel, em 8 de fevereiro. Diego Moreira, um dos coordenadores do\u00a0MST, avalia que Lula est\u00e1 dependente dos parlamentares do Centr\u00e3o e n\u00e3o tem a mesma for\u00e7a de seus primeiros mandatos. Ele defende que est\u00e1 na hora de o governo radicalizar, desapropriando terras de grandes devedores da Uni\u00e3o \u2013 \u201cque, inclusive, s\u00e3o do agroneg\u00f3cio atrasado e apoiaram a tentativa de golpe\u201d \u2013, de \u00e1reas de trabalho escravo, de terras griladas ou nas quais se cometeram crimes ambientais. \u201cN\u00e3o tem or\u00e7amento para a reforma agr\u00e1ria? Ent\u00e3o desapropria. Isso seria uma posi\u00e7\u00e3o radical, mas acho que contaria com apoio de grande parte da popula\u00e7\u00e3o brasileira. Por isso que eu falo que falta uma dose de coragem.\u201d<\/p>\n<p>A dirigente Ceres Hadich diz que falta coragem tamb\u00e9m para levar adiante as pol\u00edticas de sustenta\u00e7\u00e3o da reforma agr\u00e1ria \u2013 como a insufici\u00eancia de recursos destinados ao PAA, de compras de agricultores familiares. Para ela, o fato de o governo n\u00e3o dar prioridade ao programa acaba se refletindo na infla\u00e7\u00e3o dos alimentos, que est\u00e1 castigando a popularidade de Lula. Jo\u00e3o Paulo Rodrigues, tamb\u00e9m da dire\u00e7\u00e3o nacional, avalia que o\u00a0MST\u00a0precisa acelerar os resultados pr\u00e1ticos nos pr\u00f3ximos meses, antes que a aten\u00e7\u00e3o do governo se concentre por inteiro no julgamento de Bolsonaro e nas elei\u00e7\u00f5es de 2026. \u201cS\u00e3o meses decisivos e n\u00f3s estamos animados, porque resolver o problema dos assentados para n\u00f3s \u00e9 importante.\u201d<\/p>\n<p>Na base do movimento, a avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 semelhante. \u201cO Lula tinha que deixar a coisa muito amarrada. Podemos ter medo de perder a elei\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o podemos ter medo de construir propostas\u201d, diz Ant\u00f4nio Capitani, de 67 anos, que mora desde 1999 no Assentamento Contestado, na regi\u00e3o metropolitana de Curitiba, e preside a Cooperativa Terra Livre, composta de 250 agricultores com produ\u00e7\u00e3o agroecol\u00f3gica certificada. Na outra ponta geracional, um integrante da juventude do\u00a0MST, Daniel Fernandes Pasqual, de 23 anos, diz que sonha que todos os acampamentos do Brasil sejam assentados. \u201c\u00c9 ver todas as \u00e1reas com produ\u00e7\u00e3o de agroecologia e de alimento org\u00e2nico\u201d, afirma. Ele estava com apenas 9 meses quando seus pais se mudaram para o Acampamento Maila Sabrina \u2013 recentemente transformado em assentamento, no Paran\u00e1. Em 2009, sua fam\u00edlia conquistou o t\u00edtulo de um lote no Assentamento Eli Vive, em Londrina, onde Pasqual estudou em escolas itinerantes do pr\u00f3prio movimento. Agora, o jovem quer cursar uma universidade, como a m\u00e3e, Gilda Maria Fernandes, que \u00e9 formada em educa\u00e7\u00e3o do campo gra\u00e7as ao\u00a0Pronera.\u00a0<\/p>\n<p>Jeizi Loici Back, outra militante, tinha 11 anos quando os pais, pequenos agricultores, aderiram ao\u00a0MST, acampando em Cascavel. \u201cEu e minha irm\u00e3 chor\u00e1vamos muito, porque a gente n\u00e3o queria ser sem-terra\u201d, ela recorda. Na adolesc\u00eancia, j\u00e1 morando em um assentamento em Ramil\u00e2ndia, no Oeste do Paran\u00e1, Back vivenciou na escola o preconceito com rela\u00e7\u00e3o aos estudantes ligados ao movimento. \u201cDiziam que as crian\u00e7as do\u00a0MST\u00a0fediam a mijo, que fediam a fuma\u00e7a\u201d, conta. Com isso, os alunos acampados e assentados se isolavam dos demais.<\/p>\n<p>A dificuldade de acesso \u00e0 escola (eram duas horas de \u00f4nibus) e a necessidade de trabalhar acabavam provocando a evas\u00e3o escolar dos alunos oriundos do assentamento ao qual pertencia Back. Na \u00e9poca, ela foi a \u00fanica a concluir o segundo grau. E seguiu adiante: formou-se em pedagogia pelo Pronera, fez duas especializa\u00e7\u00f5es e um mestrado. Hoje, aos 36 anos, \u00e9 coordenadora de educa\u00e7\u00e3o do\u00a0MST\u00a0no Paran\u00e1. Tamb\u00e9m atua na Cooperativa de Produ\u00e7\u00e3o Agropecu\u00e1ria Vit\u00f3ria (Copavi), que funciona no assentamento em que vive atualmente, em Paranacity. \u00c9 o \u00fanico m\u00f3dulo do\u00a0MST\u00a0gerido coletivamente de forma integral: n\u00e3o existe divis\u00e3o de lotes entre as 26 fam\u00edlias, todos se revezam no trabalho e dividem o lucro do que \u00e9 produzido. A cooperativa produz iogurte (distribu\u00eddo a escolas locais), hortifr\u00fatis e panificados.<\/p>\n<p>Por todos esses exemplos, Back esperava que houvesse condi\u00e7\u00f5es de a reforma agr\u00e1ria avan\u00e7ar. \u201cA gente sempre cria a expectativa de querer mais. Estamos tentando avan\u00e7ar na diplomacia, mas eu n\u00e3o sei se vai continuar muito tempo assim. O\u00a0MST\u00a0\u00e9 um movimento aut\u00f4nomo e n\u00e3o vai se negar a cobrar o governo, se precisar\u201d, diz. \u201cAcho que precisamos ser mais incisivos, cobrar mais, mas tamb\u00e9m n\u00e3o podemos esquecer que as elei\u00e7\u00f5es de 2026 j\u00e1 est\u00e3o a\u00ed.\u201d<\/p>\n<p>Raquel Viana de Ara\u00fajo passou quase todos os seus trinta anos de vida em acampamentos. Ela estava com 4 anos quando se mudou com os pais para uma \u00e1rea ocupada pelo\u00a0MST\u00a0em Quedas do Igua\u00e7u, no Oeste do Paran\u00e1. Hoje, no mesmo munic\u00edpio, divide uma casa mista \u2013 de alvenaria e madeira \u2013, no Acampamento Fernando de Lara. Apesar de n\u00e3o ter a titularidade do lote, ela e a irm\u00e3 cultivam ali hortifr\u00fatis, em sistema de agroecologia, e mant\u00eam cinquenta cabe\u00e7as de gado leiteiro. Desde a deposi\u00e7\u00e3o de Dilma, Ara\u00fajo esteve na linha de frente da \u201cresist\u00eancia\u201d, como diz, e fez vig\u00edlia na frente do pr\u00e9dio da Pol\u00edcia Federal de Curitiba onde Lula estava preso. Mas ela acha que o movimento j\u00e1 esperou demais e \u00e9 hora de lutar. \u201cTem um lema do\u00a0MST\u00a0que \u00e9 assim: \u2018\u00c9 na lei ou na marra.\u2019 E \u00e9 isso nossa avalia\u00e7\u00e3o, sabe?\u201d<\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/2025\/07\/15\/e-prosa-e-pau\/\">\u00c9 prosa e pau<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/\">MST<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/golpes-com-anuncios-pagos-reforcam-urgencia-de-regulacao-na-internet\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Captura-de-Tela-2025-07-09-as-181042-150x150.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Golpes com an\u00fancios pagos refor\u00e7am urg\u00eancia de reg...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/comunidade-tradicional-ocupa-sede-da-secretaria-do-patrimonio-da-uniao-spu-em-minas-gerais\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Comunidade tradicional ocupa sede da Secretaria do...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/mst-e-torcedores-do-corinthians-iniciam-plantio-de-mil-arvores-na-zona-leste-de-sao-paulo\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">MST e torcedores do Corinthians iniciam plantio de...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/cuba-lanca-pacote-de-reformas-para-garantir-crescimento-com-desenvolvimento-social\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Captura-de-Tela-2025-07-18-as-163759-2048x1254-1-150x150.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Cuba lan\u00e7a pacote de reformas para garantir cresci...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marcha na abertura da festa da conquista do assentamento Resist\u00eancia Camponesa. Foto: Leandro Taques Por Felippe An\u00edbal, de CuritibaDa Revista Piau\u00ed No meio da manh\u00e3, o Sol j\u00e1 abrasava a terra vermelha da zona rural de Cascavel, no Oeste do Paran\u00e1. Parecia sert\u00e3o. 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