{"id":39124,"date":"2025-07-18T19:47:03","date_gmt":"2025-07-18T22:47:03","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/tocaia-e-introspeccao-em-graciliano-ramos\/"},"modified":"2025-07-18T19:47:03","modified_gmt":"2025-07-18T22:47:03","slug":"tocaia-e-introspeccao-em-graciliano-ramos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/tocaia-e-introspeccao-em-graciliano-ramos\/","title":{"rendered":"Tocaia e introspec\u00e7\u00e3o em Graciliano Ramos"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"860\" height=\"484\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Screenshot-2025-07-18-at-19-46-28-graciliano-ramos-escritor-credito-divulgacao-editora-recordwebp-imagem-WEBP-860-484-pixels.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Screenshot-2025-07-18-at-19-46-28-graciliano-ramos-escritor-credito-divulgacao-editora-recordwebp-imagem-WEBP-860-484-pixels.png 860w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Screenshot-2025-07-18-at-19-46-28-graciliano-ramos-escritor-credito-divulgacao-editora-record.webp-imagem-WEBP-860-\u00d7-484-pixels-300x169.png 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Screenshot-2025-07-18-at-19-46-28-graciliano-ramos-escritor-credito-divulgacao-editora-record.webp-imagem-WEBP-860-\u00d7-484-pixels-768x432.png 768w\" sizes=\"(max-width: 860px) 100vw, 860px\"><figcaption>Foto: Editora Record\/Divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Este ensaio integra <strong>Graciliano Ramos, a paix\u00e3o medida: ensaios de interpreta\u00e7\u00e3o da obra<\/strong>, livro organizado por Erwin Torralbo Gimenez, Fabio Cesar Alves e Simone Rossinetti Rufinoni, publicado pela Hucitec Editora, parceira editorial de Outras Palavras<\/p>\n<div>\n<figure><\/figure>\n<\/div>\n<p>Matos t\u00eam olhos, paredes t\u00eam ouvidos.<br \/>(Graciliano Ramos, Ang\u00fastia)<\/p>\n<p><em>Ang\u00fastia<\/em> desenvolve <em>topos<\/em> caro ao romance de 1930, qual seja: a jornada dos descendentes deca\u00eddos da aristocracia rural, em meio \u00e0 modernidade perif\u00e9rica. Incapazes de gerir os neg\u00f3cios da fam\u00edlia, acostumados aos privil\u00e9gios e predispostos \u00e0s letras acabam por integrar os quadros da burocracia urbana, protagonizando dramas pungentes, marcados por um misto de impot\u00eancia, frustra\u00e7\u00e3o e devasta\u00e7\u00e3o da personalidade. O assunto configura sequ\u00eancia recorrente da experi\u00eancia nacional, encontrando express\u00e3o liter\u00e1ria nos romances da d\u00e9cada, sem contar os precursores ainda no s\u00e9culo XIX.<em>[1]<\/em> Nessa galeria de burocratas, pobres-diabos decadentes, enquadram-se Carlos de Melo, do ciclo da cana-de-a\u00e7\u00facar, de Jos\u00e9 Lins do Rego; Lu\u00eds da Silva, de <em>Ang\u00fastia<\/em>, e Belmiro Borba, de <em>O amanuense Belmiro<\/em>.<\/p>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/apoia.se\/outraspalavras\" aria-label=\"MAT\u00c9RIA-GERAL\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/MATERIA-GERA-18.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/MATERIA-GERA-18.png 681w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-GERAL-300x75.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 681px) 100vw, 681px\" width=\"681\" height=\"171\"><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p>Em todos esses casos, e de modos v\u00e1rios, a conflu\u00eancia de introspec\u00e7\u00e3o e experi\u00eancia social permite a disseca\u00e7\u00e3o do conflito por meio do drama pessoal. Nesse sentido, h\u00e1 que se reter o matiz dessa prosa de introvers\u00e3o \u00e0 brasileira: certo aspecto de desdobramento de si que os faz espectadores das pr\u00f3prias defici\u00eancias, <em>voyeurs <\/em>e carrascos implac\u00e1veis de si pr\u00f3prios. Esse eu profundo que se lan\u00e7a sobre o eu de superf\u00edcie esquadrinha os segredos imiscu\u00eddos nos recessos mais inconfess\u00e1veis, impedindo o comprazimento na mediocridade confort\u00e1vel da vida pr\u00e1tica. Estado de coisas expresso por uma lucidez doentia, investigativa e desconfiada. \u00c0 luz da disseca\u00e7\u00e3o do outro, avalia cont\u00ednua e impiedosamente os pr\u00f3prios atos; submetido a tal inescap\u00e1vel escrut\u00ednio, cada gesto, fala ou sentimento redundar\u00e1 em ina\u00e7\u00e3o, incomunicabilidade e solid\u00e3o. Tal din\u00e2mica do encaramujar-se a fim de auscultar-se de modo obsessivo e quase m\u00f3rbido \u00e9 peculiar em <em>Ang\u00fastia<\/em>.<\/p>\n<p>A exaspera\u00e7\u00e3o que vitima Lu\u00eds da Silva \u00e9 resultado de um feixe de dilemas pessoais que se al\u00e7am ao coletivo nacional, no percurso entre a brusca passagem da forma\u00e7\u00e3o patriarcal \u00e0 vida adulta, ante as exig\u00eancias da modernidade. Os dois momentos remetem a duas ordens de mundo, ambas violentas e inescap\u00e1veis. O percurso faz de Lu\u00eds um proscrito: imbu\u00eddo dos valores da oligarquia decadente, \u00e9 um homem livre empobrecido precisando adaptar-se \u00e0s regras da modernidade canhestra que se instala. <em>[2] <\/em>O lugar social equ\u00edvoco grava-se em recorr\u00eancias importantes. A sensa\u00e7\u00e3o de ex\u00edlio se faz privada e p\u00fablica. Na contram\u00e3o do que a cr\u00edtica por vezes afirmou, a subjetividade esteticamente organizada do movimento intensamente crispado \u00e9 experi\u00eancia hist\u00f3rica internalizada cujos sentidos restam desvendar.<em>[3]<\/em><\/p>\n<p>Acompanhe-se a abertura do romance. Ante a confus\u00e3o cronol\u00f3gica do enredo, o in\u00edcio da obra refere-se \u00e0 convalescen\u00e7a de Lu\u00eds da Silva, ap\u00f3s o torpor resultante do ato criminoso. Esta abertura maneja tr\u00eas fios tem\u00e1ticos distintos, formalmente enredados pelo recurso do fluxo de consci\u00eancia. A primeira vis\u00e3o que atormenta o assassino \u00e9 a do vagabundo: \u201cH\u00e1 criaturas que n\u00e3o suporto. Os vagabundos, por exemplo. Parece-me que eles cresceram muito, e, aproximando-se de mim n\u00e3o v\u00e3o gemer pedit\u00f3rios: v\u00e3o gritar, exigir, tomar-me qualquer coisa\u201d.<em>[4]<\/em><\/p>\n<p>A segunda imagem que lhe ocorre \u00e9, sintomaticamente, a do mundo das letras, por meio da imagem da livraria:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Certos lugares que me davam prazer tornaram-se odiosos. Passo diante de uma livraria, olho com desgosto as vitrinas, tenho a impress\u00e3o de que se acham ali pessoas exibindo t\u00edtulos e pre\u00e7os nos rostos, vendendo-se. \u00c9 uma esp\u00e9cie de prostitui\u00e7\u00e3o. (p. 21)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>N\u00e3o \u00e9 fortuita a associa\u00e7\u00e3o da vagabundagem ao estudo. Sobre ambos, paira o espectro da perda do lugar social; para os dois casos, o que os torna negativos \u00e9 a remiss\u00e3o a uma outra ordem: a da fam\u00edlia patriarcal. Os pobres tornam-se um pesadelo, uma vez que lhe recordam o passado recente de pedinte e ainda parecem querer tomar o pouco que amealhou. Car\u00eancia e amea\u00e7a; falseamento e prostitui\u00e7\u00e3o. Se a esfera familiar era um pesadelo previsto, o mundo na cidade oferta o pavor da liberdade.<\/p>\n<p>Em seguida acorrem as lembran\u00e7as do assassinato por meio da vis\u00e3o das m\u00e3os que se lhe afiguram alheias: m\u00e3os que escrevem e matam. Ecos de Marina e Juli\u00e3o Tavares antecipam as recorda\u00e7\u00f5es da casa do av\u00f4, retrato do cl\u00e3 rural em vias de esfarelar-se.<\/p>\n<p>Assim, ap\u00f3s as imagens do vagabundo e da literatura corrompida retornam cenas de sua forma\u00e7\u00e3o sertaneja. Lemos as mem\u00f3rias do protagonista:<\/p>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<blockquote>\n<p>Volto a ser crian\u00e7a, revejo a figura de meu av\u00f4, Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva, que alcancei velh\u00edssimo. Os neg\u00f3cios da fazenda andavam mal. E meu pai, reduzido a Camilo Pereira da Silva, ficava dias inteiros manzanzando numa rede armada nos esteios do copiar, cortando palha de milho para cigarros, lendo o Carlos Magno, sonhando com a vit\u00f3ria do partido que Padre In\u00e1cio chefiava. Dez ou doze reses, arrepiadas no carrapato e na varejeira, envergavam o espinha\u00e7o e comiam o mandacaru que Amaro vaqueiro cortava nos cestos. O cupim devorava os mour\u00f5es do curral e as linhas da casa. No chiqueiro alguns bichos bodejavam. Um carro de bois apodrecia debaixo das catingueiras sem folhas. Tinham amarrado no pesco\u00e7o da cachorra Moqueca um ros\u00e1rio de sabugos de milho queimado. Quit\u00e9ria, na cozinha, mexia em cumbucos cheios de miudezas, escondia peles de fumo no carit\u00f3.<br \/>Eu andava no p\u00e1tio, arrastando um chocalho, brincando de boi. Minha av\u00f3, sinha Germana passava os dias falando s\u00f3, xingando as escravas, que n\u00e3o existiam. Trajano Pereira de Aquino Cavalcanti e Silva tomava pileques tremendos. \u2026 \u00c0s vezes subia \u00e0 vila, descomposto, um camis\u00e3o vermelho por cima da ceroula de algod\u00e3o encaro\u00e7ado, chap\u00e9u de ouricuri, alpercatas e varapau. Nos dias santos, de volta da igreja, Mestre Domingos, que havia sido escravo dele e agora possu\u00eda venda sortida, encontrava o antigo senhor escorado no balc\u00e3o de Teotoninho Sabi\u00e1, bebendo cacha\u00e7a e jogando tr\u00eas-setes com os soldados. O preto era um sujeito perfeitamente respeit\u00e1vel. Em horas de solenidade, usava sobrecasaca de chita, corrent\u00e3o de ouro atravessado de um bolso a outro do colete, chinelos de tran\u00e7a, por causa dos calos, que n\u00e3o aguentavam sapatos. Por baixo do chap\u00e9u duro, a testa retinta, \u00famida de suor, brilhava como um espelho. Pois, apesar de tantas vantagens, Mestre Domingos, quando via meu av\u00f4 naquela desordem, dava-lhe o bra\u00e7o, levava-o para casa, curava-lhe a bebedeira com amon\u00edaco. Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva vomitava na casaca de Mestre Domingos e gritava:<br \/>\u2014 Negro, tu n\u00e3o respeitas teu senhor n\u00e3o, negro! (p. 26)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O quadro apreende, de forma not\u00e1vel, as contradi\u00e7\u00f5es p\u00fablicas pelo recurso da experi\u00eancia privada. O processo da decad\u00eancia come\u00e7a com a velhice do patriarca, a fazenda abandonada, a incapacidade de aceitar a aboli\u00e7\u00e3o e, por fim, a embriaguez. O retrato do av\u00f4 n\u00e3o podia ser mais contundente: inscreve a derrocada da casa-grande, a recusa \u00e0 mudan\u00e7a, o arb\u00edtrio.<\/p>\n<p>Far\u00e1 contraste flagrante com a imagem do negro liberto, Mestre Domingos, ex-escravo, \u201cperfeitamente respeit\u00e1vel\u201d, cuja imagem traz a promessa do novo tempo contraposto \u00e0 velha ordem, mas ainda perversamente ligado a ela. Enverga a sobrecasaca, mesmo que de tecido ordin\u00e1rio, e usa apetrechos simples de cidad\u00e3o livre: a cena retida pelo menino sabe distinguir pobreza de indignidade. Apesar de tudo isso, ceder\u00e1 \u00e0 lei costumeira e a roupa mal-amanhada do antigo senhor levar\u00e1 a melhor. O coronel deca\u00eddo verter\u00e1 seu v\u00f4mito na indument\u00e1ria t\u00e3o distinta do homem, no ato simb\u00f3lico do pouco-caso com que era encarada a emancipa\u00e7\u00e3o do negro. Mestre Domingos, mesmo ap\u00f3s liberto, retomar\u00e1 os afazeres de cativo e sofrer\u00e1 as descomposturas calado. Cabe reter algo relevante a prop\u00f3sito do ponto de vista do narrador sobre as rela\u00e7\u00f5es entre brancos e negros: aqui a simpatia pelo alforro altivo e humilde faz contraste com outros momentos em que testemunha desprezo pela pobreza e incapacidade de solidarizar-se com o desvalido. Tais oscila\u00e7\u00f5es condizem com seu lugar social inst\u00e1vel aliado \u00e0 dificuldade em se desligar do passado e testemunham a complexidade do narrador.<\/p>\n<p>J\u00e1 a figura do pai conter\u00e1 marcas evidentes do decl\u00ednio: o nome reduzido configura subtra\u00e7\u00e3o de posse e mando e a tend\u00eancia \u00e0 leitura aviva a imagina\u00e7\u00e3o de vit\u00f3rias pol\u00edticas vantajosas, em vez de tomar as r\u00e9deas do seu tempo. Passividade e literatura: moedas inadequadas para o com\u00e9rcio da vida. Lu\u00eds da Silva a\u00e7ambarca a heran\u00e7a da ru\u00edna do av\u00f4 e do pai, torna-se rebento esp\u00fario dessa sucess\u00e3o de desarranjos. O decaimento \u00e9 apreendido pelo nome abreviado do neto que, despojado dos sobrenomes vultosos, reduzido a um \u201cSilva\u201d qualquer, d\u00e1 a medida da queda.<\/p>\n<p>Pouco adiante diz:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Penso em Mestre Domingos, no velho Trajano, em meu pai. N\u00e3o sei por que mexi com eles, t\u00e3o remotos, dilu\u00eddos em tantos anos de separa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o t\u00eam nenhuma rela\u00e7\u00e3o com as pessoas e as coisas que me cercam. (p. 28)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A \u00faltima frase \u00e9 um despiste. A voz do protagonista lan\u00e7a o ju\u00edzo da desconex\u00e3o dos fatos por sobre a confus\u00e3o que o texto instaura, revolve propositalmente enredo e estrutura, procurando, num procedimento caro ao romance moderno, instaurar a d\u00favida. Mas os elos da aparente desordem, disseminados ao longo do trabalho peculiar da fatura, conferem o sentido mais fundo que subjaz ao drama de Lu\u00eds da Silva. Todos os elementos t\u00eam rela\u00e7\u00e3o entre si; o que parece n\u00e3o saber a personagem, o sabe a arquitetura romanesca. Desvalimento, literatura e patriarcado s\u00e3o pe\u00e7as do enredo, bem como do eu estilha\u00e7ado.<\/p>\n<p>Assim, a reflex\u00e3o sobre o papel da arte \u2014 consequ\u00eancia do sujeito lan\u00e7ado \u00e0 pr\u00f3pria sorte, qual mendigo \u2014 entronca-se \u00e0 problem\u00e1tica da posi\u00e7\u00e3o perdida e sempre rememorada. \u00d3rf\u00e3o deca\u00eddo na cidade, Lu\u00eds mendiga at\u00e9 cavar um espa\u00e7o no jornal. Ocupa\u00e7\u00e3o ordin\u00e1ria, escreve o que lhe pedem, sem convic\u00e7\u00f5es, livre de dores de consci\u00eancia. Aprendeu que os afazeres do mundo das letras tamb\u00e9m t\u00eam seu pre\u00e7o. Comp\u00f4s alguns versos sofr\u00edveis que mercadejou a algu\u00e9m certamente capaz de lhes dar inv\u00f3lucro aceit\u00e1vel. Na sua faina de jornalista, sabe que as palavras n\u00e3o correspondem \u00e0 verdade.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Habituei-me a escrever, como j\u00e1 disse. Nunca estudei, sou um ignorante, e julgo que os meus escritos n\u00e3o prestam. Mas adquiri cedo o v\u00edcio de ler romances e posso, com facilidade, arranjar um artigo, talvez um conto. Compus, no tempo da m\u00e9trica e da rima, um livro de versos. Eram duzentos sonetos aproximadamente. N\u00e3o me foi poss\u00edvel public\u00e1-los, e com a idade compreendi que n\u00e3o valiam nada. Em todo o caso acompanharam-me por onde andei. Um dia, na pens\u00e3o de Dona Aurora, o meu vizinho Macedo come\u00e7ou a elogiar um desses sonetos que, por sinal era dos piores, e acabou oferecendo-me por ele cinquenta mil-r\u00e9is. Nem foi preciso copiar: arranquei a folha do livro e recebi o dinheiro, depois de jurar que a coisa estava in\u00e9dita. Macedo transigiu comigo umas vinte vezes. Infelizmente voltou para S\u00e3o Paulo sem concluir o curso. Desde ent\u00e3o procuro avistar-me com mo\u00e7os ing\u00eanuos que me compram esses produtos. Antigamente eram estampados em revistas, mas agora figuram em seman\u00e1rios da ro\u00e7a, e vendo-os a dez mil-r\u00e9is. O volume est\u00e1 reduzido a um caderno de cinquenta folhas amarelas e ro\u00eddas pelos ratos. (p. 56-57)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Os of\u00edcios pr\u00f3ximos confundem-se e equivalem-se: a literatura, o jornalismo e a burocracia partilham da mesma m\u00e1 reputa\u00e7\u00e3o, s\u00e3o logro e neg\u00f3cio, indistingu\u00edveis. A venalidade contamina a carga de autonomia que a esfera da cria\u00e7\u00e3o poderia adquirir. Vendidos como bagatelas, os poemas findaram ro\u00eddos por ratos. No romance, a recorr\u00eancia ao animal, no caso associado \u00e0 escrita, \u00e9 obsessiva: reverbera a carga de atributos ign\u00f3beis e humilhantes que sinalizam sujeira e exclus\u00e3o.<\/p>\n<p>T\u00e3o maculada quanto tudo pela corrup\u00e7\u00e3o, a vida liter\u00e1ria \u00e9 ainda marcada pela figura, asquerosa f\u00edsica e moralmente, de Juli\u00e3o Tavares, cuja aus\u00eancia de escr\u00fapulos n\u00e3o o impede de fazer versos.<\/p>\n<p>A associa\u00e7\u00e3o entre palavra e d\u00favida potencializa a descren\u00e7a diante da esfera da cultura como possibilidade emancipat\u00f3ria. Torna-se mais um instrumento de opress\u00e3o:<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u2014 Acabe com essa literatura, Mois\u00e9s, exclamei impaciente. N\u00e3o serve. Mois\u00e9s dobrou a folha, sorrindo:<br \/>\u2014 \u00c9 o que lhe digo. N\u00e3o serve. A linguagem escrita \u00e9 uma safadeza que voc\u00eas inventaram para enganar a humanidade, em neg\u00f3cios ou com mentiras.<br \/>\u2014 Que diabo tem voc\u00ea? Perguntou Mois\u00e9s.<br \/>\u2014 N\u00e3o \u00e9 nada n\u00e3o. \u00c9 que n\u00e3o vale a pena, acredite que n\u00e3o vale a pena. Uma pessoa passa a vida remoendo essas bobagens. Tempo perdido. Uma crian\u00e7a mete a gente num chinelo, Mois\u00e9s; qualquer imbecil mete a gente num chinelo, Mois\u00e9s. (p. 89)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Moto-cont\u00ednuo, o pensamento, crivado pela aporia, transborda. Explos\u00e3o da experi\u00eancia privada, que n\u00e3o p\u00f4de conter-se, em p\u00fablica: \u201c\u2014 Eles escrevem assim porque receberam ordem para escrever assim. Depois escrever\u00e3o de outra forma. \u00c9 tapea\u00e7\u00e3o, \u00e9 safadeza\u201d (p. 130).<\/p>\n<p>As letras s\u00e3o mais uma desilus\u00e3o. N\u00e3o poder\u00e3o dar-lhe alguma esperan\u00e7a de ascens\u00e3o ou ao menos de integra\u00e7\u00e3o na paz burguesa, que se distancia \u00e0 medida que perde Marina. O universo da cultura \u00e9 sintomaticamente o da modernidade que se avizinha mais perigosa que auspiciosa. A decad\u00eancia do sistema \u00e9 cont\u00edgua ao apego aos livros: o pai lia Carlos Magno, o filho faz \u2014 e negocia \u2014 versos.<\/p>\n<p>Aparentemente em polos distintos, os temas viol\u00eancia e cultura ganham relevo na obra do autor uma vez que comparecem cuidadosamente articulados e, por seu interm\u00e9dio, vem \u00e0 tona a engrenagem social. De um ponto de vista ideal, a vida do esp\u00edrito estaria apta a mitigar os efeitos de uma sociedade autorit\u00e1ria, desenvolvendo a sensibilidade, refinando os costumes, incentivando o senso de equidade e o altru\u00edsmo. Contudo, mais afeita \u00e0 perversa dial\u00e9tica do contexto local, comparecer\u00e1 enraizada no solo da sociedade esp\u00faria, comprometida com o poder, sendo instrumento mais sofisticado de opress\u00e3o e hierarquia. Sob essa influ\u00eancia comparecem outros desdobramentos, como \u00e9 o caso da educa\u00e7\u00e3o formal, do jornalismo e da literatura. Desde Jo\u00e3o Val\u00e9rio, med\u00edocre autor de romances, passando pelo matuto Paulo Hon\u00f3rio, que se disp\u00f5e a redigir as pr\u00f3prias mem\u00f3rias, chega-se ao drama do intelectual frustrado em <em>Ang\u00fastia<\/em>, ao que se seguir\u00e3o as obras de tra\u00e7os autobiogr\u00e1ficos, <em>Inf\u00e2ncia<\/em> e <em>Mem\u00f3rias do c\u00e1rcere<\/em>, onde a quest\u00e3o revela o quanto a elabora\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria enra\u00edza-se na experi\u00eancia vivida, o quanto o artista, cujos temas repisados resultavam em experi\u00eancias est\u00e9ticas sempre novas, perseguiu suas obsess\u00f5es seja na fic\u00e7\u00e3o, seja na confiss\u00e3o.<em>[5]<\/em> A reflex\u00e3o que subjaz \u00e0 recidiva ao assunto parece repor a m\u00e1xima de Walter Benjamin segundo a qual todo documento de cultura \u00e9 inevitavelmente documento de barb\u00e1rie.<em>[6]<\/em><\/p>\n<p>Particularmente em <em>Ang\u00fastia<\/em>, romance de 1936, o topos comparece de modo intenso, por\u00e9m dilu\u00eddo no enredo do pobre-diabo, tornado assassino ante as circunst\u00e2ncias do presente indigno, cujas reminisc\u00eancias ao passado familiar, al\u00e9m da mem\u00f3ria do romance e da vida burguesa perdidos, instauram o terreno psicol\u00f3gico e social prop\u00edcio \u00e0 eclos\u00e3o do crime. O relato assume as esp\u00e9cies da tortura de onde acorrem imagens do ato, confundidas com as farpas de desejo insatisfeito, do lugar social prec\u00e1rio, dos dogmas patriarcais obsoletos e um profundo, confuso e indiscriminado ressentimento contra a ordem dos vencedores e a desordem dos vencidos.<\/p>\n<p>Assim como o pai, Lu\u00eds da Silva segue a linhagem dos descendentes leitores, \u00edndice da ru\u00edna do mundo rural. Por\u00e9m, as leituras est\u00e3o longe de corresponder \u00e0 preval\u00eancia da sensibilidade ou ao refinamento dos sentidos: as imagens que gravou do pai s\u00e3o as da dor e da humilha\u00e7\u00e3o no po\u00e7o da Pedra e as pancadas pelo mau aprendizado do alfabeto.<\/p>\n<p>Na alucina\u00e7\u00e3o e na desordem em que se enovelam os tempos na narrativa, \u00e9 poss\u00edvel entrever tr\u00eas tempos mais n\u00edtidos: um tempo mais pr\u00f3ximo do momento da enuncia\u00e7\u00e3o; um passado recente, onde est\u00e3o Marina e Juli\u00e3o Tavares, e um passado remoto, onde jaz a mem\u00f3ria da fam\u00edlia. Nesse sentido, os tempos e as fases da vida de Lu\u00eds p\u00f5em em contato temas aparentemente desconexos, mas cujos fios se entretecem a fim de urdir o destino desse p\u00e1ria. Desse modo, comparece a recorr\u00eancia \u00e0s formas de espolia\u00e7\u00e3o, \u00e0 mis\u00e9ria e \u00e0 injusti\u00e7a (antiga e recente); o tem\u00e1rio das letras (na acep\u00e7\u00e3o de literatura ou jornalismo) e os fundamentos \u00e9ticos e morais pautados pela fam\u00edlia. Esse neto de coronel que, \u00f3rf\u00e3o e empobrecido, chega a esmolar para conseguir, \u00e0 custa de humilha\u00e7\u00f5es, um lugar numa reda\u00e7\u00e3o de jornal, entrev\u00ea o cons\u00f3rcio pac\u00edfico e poss\u00edvel com uma mo\u00e7a de sub\u00farbio. O sonho modesto logo lhe \u00e9 tomado por um rival cuja elimina\u00e7\u00e3o supostamente o compensar\u00e1 das perdas sofridas.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 lugar poss\u00edvel para Lu\u00eds da Silva. Mas a consci\u00eancia de classe ou da situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do pa\u00eds n\u00e3o lhe acorrem; em vez disso, apega-se ao passado e moraliza. Em v\u00e1rias passagens, o protagonista deixa claro que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel saber de que lado est\u00e1: n\u00e3o pertence mais \u00e0 aristocracia rural que, contudo, o educou, n\u00e3o chegou a ser um intelectual e n\u00e3o se entende como um despossu\u00eddo. Seu modo de ser conter\u00e1 tra\u00e7os dessas tr\u00eas esferas que, internalizadas, digladiam entre si. O sujeito que teve um nome n\u00e3o condiz com aquele que suplicou para comer; estes, por sua vez, afastam-se do homem culto. No entanto, as diferen\u00e7as parecem diminuir frente ao recorrente hist\u00f3rico das humilha\u00e7\u00f5es sofridas: menino, \u00e9 ridicularizado e torturado pelo pai; \u00f3rf\u00e3o e pobre conhecer\u00e1 o infort\u00fanio dos que nada t\u00eam, implorando por um trabalho reles; letrado, n\u00e3o passa de funcion\u00e1rio a servi\u00e7o do poder.<\/p>\n<p>A sensa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o-pertencimento ocorre seja como remanescente da oligarquia, seja como sujeito moderno. As viol\u00eancias vincam profundamente, comprometendo o que poderia se organizar como projeto, afeto ou inser\u00e7\u00e3o social. A vida infame de Lu\u00eds da Silva o faz vacilante sobre os mesmos preconceitos e traumas, a amargar a distin\u00e7\u00e3o lograda, os modos acabrunhados, a trai\u00e7\u00e3o presente.<\/p>\n<p>O surgimento de Juli\u00e3o Tavares \u00e9 o aguilh\u00e3o final no orgulho pu\u00eddo desse pobre-diabo. Encarna a espolia\u00e7\u00e3o de sua classe, conjuga todas as torpezas que a modernidade lhe tomou e faz avultar a indignidade de sua vida apequenada. Nesta, tudo s\u00e3o n\u00f3doas: o sal\u00e1rio curto, a roupa ruim, a casa com ratos. Pequenezas que tomam propor\u00e7\u00f5es avassaladoras, pois s\u00e3o proje\u00e7\u00f5es da intimidade estra\u00e7alhada. No espa\u00e7o da cidade hostil, Juli\u00e3o Tavares domina a inst\u00e2ncia p\u00fablica. O protagonista se inquieta: \u201cPor que era que aquele sem-vergonha caminhava como se estivesse em casa, pisando no ch\u00e3o pago?\u201d (p. 187). No bonde, no caf\u00e9 e pela vida afora, ao passo em que Lu\u00eds, azedo, encolhe-se com vestimenta amarfanhada; Juli\u00e3o, adulador, esparrama-se com o peitilho engomado.<\/p>\n<p>Em resposta \u00e0s perdas acumuladas, e como a antecipar o crime central da intriga, a narrativa \u00e9 costurada por cenas que aludem ao canga\u00e7o. <em>[7]<\/em> Apesar do estudo, a justi\u00e7a do citadino empobrecido \u00e9 entrevista como vingan\u00e7a \u00e0 maneira sertaneja. Em face da inoper\u00e2ncia do estatuto burgu\u00eas ancorado na garantia aos direitos, que impediria o desagravo brutal, assomam figuras de justiceiros e crueldades oriundas do mundo rural.<\/p>\n<p>Sente-se pr\u00f3ximo ao canga\u00e7o em mais de um sentido. Por um lado, anseia a solu\u00e7\u00e3o da for\u00e7a, o que remete \u00e0 mem\u00f3ria da fam\u00edlia, \u00e0 repara\u00e7\u00e3o da honra e \u00e0 considera\u00e7\u00e3o do grupo que lhe falta; por outro, sente-se como um bandido: acuado, perseguido e p\u00e1ria. Acrescente a isso que a condi\u00e7\u00e3o de <em>outsider <\/em>faz de Lu\u00eds um observador cauteloso e camuflado. Observa escondendo-se: habita os interst\u00edcios, ouvindo entre paredes, esgueirando-se, desculpando-se. Age como um cangaceiro: silencia, fareja, entreolha. Tal investiga\u00e7\u00e3o voyeur\u00edstica afina-se \u00e0 prosa de introvers\u00e3o, assumindo ainda outra faceta.<\/p>\n<p>A din\u00e2mica da observa\u00e7\u00e3o vai al\u00e9m e a invisibilidade ser\u00e1 um trunfo. Presente nos desv\u00e3os da sua prosa de an\u00e1lise, o protagonista \u00e9 caracterizado como aquele que se situa nas f\u00edmbrias da vida organizada: uma vez expulso, procurar\u00e1 cada vez mais apagar-se. Estar\u00e1 sempre nas sombras, num movimento de esquivan\u00e7as entre prote\u00e7\u00e3o e amea\u00e7a; temor e ataque. A sofisticada estrutura costura linhas que rep\u00f5em constantemente indig\u00eancia, literatura e inf\u00e2ncia e, por meio destas, alteridade, vida p\u00fablica e vida privada. Chegado ao limite de suas for\u00e7as, como agir\u00e1 aquele que foi impiedosamente espezinhado e expurgado de qualquer pertencimento? A t\u00e9cnica da sondagem interior \u00e9 refinamento a que Graciliano Ramos acrescenta certa especificidade que se engasta na vida social brasileira, conferindo ao drama pessoal, expressivas notas locais.<\/p>\n<p>Premido pela vida obscura, pela mulher perdida, pelo lugar social equ\u00edvoco, pelo desejo castrado, pelos laivos de bem-estar que lhe s\u00e3o interditos, far\u00e1 com que a t\u00e9cnica de ausculta\u00e7\u00e3o interior \u2014 tribut\u00e1ria da tradi\u00e7\u00e3o da prosa de introvers\u00e3o, com seu anseio de autoconhecimento e autorreflex\u00e3o e, portanto, inserida no rol das artes modernas e burguesas \u2014 aproxime-se, paradoxal e surpreendentemente, da <em>pr\u00e1xis <\/em>ancorada no <em>modus operandi <\/em>arcaico, a t\u00e9cnica lapidada para o assassinato perfeito: a tocaia jagun\u00e7a. Tocaiar ou atocaiar: da pr\u00e1tica selvagem de subsist\u00eancia \u00e0 per\u00edcia para o crime. A violenta lei da vingan\u00e7a do mundo rural representada pelo movimento sinuoso da ronda e da ca\u00e7a alia-se \u00e0 t\u00e9cnica da perquiri\u00e7\u00e3o do eu, perfazendo a urdidura em que o refinado psicologismo moderno se entrela\u00e7a \u00e0 engrenagem da barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>Assim, a matriz formal do romance moderno \u2014 a prosa de introvers\u00e3o, com sua inflex\u00e3o \u00e0 autorreflex\u00e3o e autoan\u00e1lise \u2014 amalgama-se \u00e0 t\u00e9cnica corporal e ps\u00edquica da mestria jagun\u00e7a para o crime, qual seja: a tocaia, paci\u00eancia e estrat\u00e9gia a armar o golpe fatal. Desse modo, pode-se desentranhar, da trama romanesca, algo como um movimento formalmente organizado da tocaia, cuja complexidade migra de si para o outro e vice-versa, da pesquisa interiorizada \u00e0 emboscada e, desta, novamente ao encal\u00e7o de si, num giro em falso. Elaborada t\u00e9cnica de literatura \u2014 ve\u00edculo de civiliza\u00e7\u00e3o \u2014 modulada pela habilidosa t\u00e9cnica do crime \u2014 instrumento de barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do fluxo da consci\u00eancia agonizante que move a narrativa desde o in\u00edcio, a prosa incorpora a din\u00e2mica do procedimento ditado pelo h\u00e1bito da justi\u00e7a jagun\u00e7a. O ritmo da prosa apreende as nuances do crime de vingan\u00e7a \u00e0 moda sertaneja, fazendo vibrar a ordem de valores ancorada na escravid\u00e3o e na grande propriedade. Esse movimento se insinua em v\u00e1rios n\u00edveis da prosa de introvers\u00e3o: desde o enrodilhar da mem\u00f3ria, at\u00e9 o voyeurismo e, finalmente, as esp\u00e9cies v\u00e1rias do crime. Os negaceios aludem \u00e0 espera e o vaiv\u00e9m reproduz o movimento do assalto. A varredura impiedosa voltada para dentro incorpora o olho atento ao perigo, o imperativo da cautela. A atitude suspicaz daquele que se investiga obsessivamente, podando com o excesso de zelo o aflorar da vida, traz para a vida privada a l\u00f3gica da persecu\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria da h\u00e1bil cilada. A educa\u00e7\u00e3o r\u00fastica gravada na pele lhe ensinou que as melhores solu\u00e7\u00f5es n\u00e3o passam pelo crivo da lei; esta tamb\u00e9m mera palavra sujeita ao falseamento e \u00e0 m\u00e1-f\u00e9. Ao interiorizar a desconfian\u00e7a obsessiva, a nervura dessa tocaia \u2014 exerc\u00edcio primoroso de paci\u00eancia, observa\u00e7\u00e3o e trai\u00e7\u00e3o \u2014 infiltra-se na consci\u00eancia, assumindo teor autof\u00e1gico.<\/p>\n<p>Observe-se como a din\u00e2mica da subjetividade em modo de tocaia impregna a longa sequ\u00eancia na qual Lu\u00eds mobiliza aten\u00e7\u00e3o desmesurada aos ru\u00eddos que v\u00eam da casa vizinha. A descri\u00e7\u00e3o acompanha o impacto do procedimento arcaico na sensibilidade \u00e0 flor da pele: n\u00e3o dormir, n\u00e3o se mover, resistir a fim de alcan\u00e7ar a meta:<\/p>\n<blockquote>\n<p>De costas, as m\u00e3os sobre o peito, experimentava relaxar os m\u00fasculos e n\u00e3o pensar. Atrav\u00e9s das p\u00e1lpebras meio cerradas via apenas a brasa do cigarro, que se cobria de cinza. Tranquilo, tranquilo, nenhum pensamento. Sentia vontade de chorar, tinha um bolo na garganta.<br \/>\u2014 Tranquilo, tranquilo.<br \/>Esta repeti\u00e7\u00e3o me exasperava e endoidecia. O corpo em completo sossego, o cigarro apagado. N\u00e3o sabia em que posi\u00e7\u00e3o estavam as pernas. As m\u00e3os pesavam em cima do peito. Mas as pernas, onde estariam elas? Flutuava como um bal\u00e3o. O corpo quase adormecido e sem pernas. As ideias por\u00e9m n\u00e3o me deixavam, ideias truncadas.<br \/>[\u2026]<br \/>Sentava-me e acendia um cigarro. Perdido o sacrif\u00edcio de permanecer im\u00f3vel, suportando as pulgas. Fechava as m\u00e3os com for\u00e7a.<br \/>Estertor de bicho sufocado. O que eu desejava era apertar o pesco\u00e7o do homem calvo e moreno, apert\u00e1-lo at\u00e9 que ele enrijasse e esfriasse. Lutaria e estrebucharia a princ\u00edpio, depois seriam apenas convuls\u00f5es, estremecimentos. Os meus dedos continuariam crispados, penetrando a carne que se imobilizaria, em sil\u00eancio. Este pensamento afugentava os outros. (p. 115)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>N\u00edtidos tra\u00e7os de uma tocaia jagun\u00e7a enquanto espera a chegada da mo\u00e7a, \u00e1vido por segredos. O sofrimento desnecess\u00e1rio imposto a si mesmo carrega a mem\u00f3ria dos feitos heroicos do banditismo, al\u00e9m de consistir em uma esp\u00e9cie de treino. O trecho culmina em imagens de morte, uma vez que o agente da vig\u00edlia parece ter encontrado um alvo provis\u00f3rio. Nesse momento, o objeto do ataque, modulado pela interioridade em del\u00edrio, consiste em um am\u00e1lgama de Marina, Juli\u00e3o e do vizinho, cujos amores o despertam e lembram sua desdita. \u00c9 como se a subjetividade j\u00e1 tivesse impregnada do singular aprendizado do \u00f3dio calmo, controle dos sentidos \u00e0 espera do aprazado bote.<\/p>\n<p>Poucas p\u00e1ginas depois, l\u00ea-se o \u201cconto sensacional\u201d de Seu Ramalho a prop\u00f3sito de hediondo crime de desforra \u00e0 maneira do sert\u00e3o: o moleque negro, amante da filha do senhor, assassinado de modo crudel\u00edssimo. Esta imagem, bem como a anterior, da morte do vizinho, ecoa e antecipa a sorte de Juli\u00e3o. Recorrentemente imagens de tortura pontuam o romance.<\/p>\n<p>Em meio ao rancor e ao despeito, contudo, saltam fiapos de lucidez ante o problema social desse mundo todo errado. Entre a conversa com o pai da mo\u00e7a e o fragmento decisivo da perda de Marina, interp\u00f5e-se a sequ\u00eancia sobre a chegada da companhia l\u00edrica, momento do apogeu dos amores do casal. O desencadear dos fios descosidos n\u00e3o impede a eclos\u00e3o de reflex\u00f5es de car\u00e1ter altru\u00edsta, esp\u00e9cie de contragolpe, quando a viol\u00eancia cultivada redunda em dolorosa identifica\u00e7\u00e3o. Em meio \u00e0 sua desgra\u00e7a, procura a irmandade dos miser\u00e1veis, que n\u00e3o o acolhem. Em trecho pungente, emerge o contraponto ao horror \u00e0 pobreza \u2014 e o olhar sensibiliza-se, afastando-se do desprezo ao outro:<\/p>\n<blockquote>\n<p>A literatura nos afastou: o que sei deles foi visto nos livros. Comovo-me lendo os sofrimentos alheios, penso nas minhas mis\u00e9rias passadas, nas viagens pelas fazendas, no sono curto \u00e0 beira das estradas ou nos bancos dos jardins. Mas a fome desapareceu, os tormentos s\u00e3o apenas recorda\u00e7\u00f5es. Onde andariam os outros vagabundos daquele tempo? Naturalmente a fome antiga me enfraqueceu a mem\u00f3ria. Lembro-me de vultos bisonhos que se afastavam como bichos, remoendo pragas. Que fim teriam levado? Mortos nos hospitais, nas cadeias, debaixo dos bondes, nos rolos sangrentos das favelas. Alguns, raros, teriam conseguido, como eu, emprego p\u00fablico, seriam parafusos insignificantes na m\u00e1quina do Estado e estariam visitando outras favelas, desajeitados, ignorando tudo, olhando com assombro as pessoas e as coisas. Teriam as suas pequeninas almas de parafusos fazendo voltas num lugar s\u00f3. (p. 123). A pobreza e a literatura aqui est\u00e3o no avesso das imagens que abrem o romance, de modo a testemunharem certa lat\u00eancia de indigna\u00e7\u00e3o que subjaz ao rep\u00fadio senhorial ao outro de classe. As oscila\u00e7\u00f5es d\u00e3o conta da complexidade do ponto de vista, da fenda dial\u00f3gica instaurada por meio da voz em primeira pessoa. Alternam-se o ju\u00edzo categ\u00f3rico de op\u00e7\u00f5es antidemocr\u00e1ticas e o deslizar para a consci\u00eancia cr\u00edtica ante os males do subdesenvolvimento, a ecoar o momento da enuncia\u00e7\u00e3o, os tumultuados anos de 1930.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O romance \u00e9 crivado por refer\u00eancias objetivas ou subterr\u00e2neas ao universo do canga\u00e7o. Desde o conto de Seu Ramalho, a morte de Cirilo da Engr\u00e1cia, a liberta\u00e7\u00e3o dos homens de Cabo Preto, o defunto Fabr\u00edcio e a figura de Jos\u00e9 Ba\u00eda, at\u00e9 excertos avulsos em que se pode flagrar a presen\u00e7a da habilidade sertaneja para vigiar e matar.<em>[8]<\/em><\/p>\n<p>Sejam as refer\u00eancias expl\u00edcitas: \u201cOs meus dedos contra\u00edram-se, moveram-se para Juli\u00e3o Tavares. Com um salto eu poderia agarr\u00e1-lo\u201d (p. 88). Sejam as impl\u00edcitas, quando o modo da tocaia se espraia pelo romance todo, com modula\u00e7\u00f5es diversas, como a observa\u00e7\u00e3o de atos cotidianos: \u201c\u2026 olhava, fingindo desinteresse, a mulher dos cabelos de fogo\u201d (p. 46); \u201cFarejava-o, percebia-o de longe, s\u00f3 pelo modo de empurrar a porta e atravessar o corredor\u201d (p. 61); \u201cEu andava para cima e para baixo, o ouvido atento aos mais insignificantes rumores da casa vizinha\u201d (p. 102); \u201c\u2026Contentava-me com aqueles rumores, e percebia-a como se a visse\u201d (p. 142); \u201cAgucei os ouvidos e arregacei as narinas\u201d (p. 144).<\/p>\n<p>Note-se que a for\u00e7a das imagens de mortes violentas n\u00e3o se deve t\u00e3o somente ao realismo cru. Sob impacto da subjetividade em crise, o real intensifica-se por meio da desrealiza\u00e7\u00e3o.<em>[9]<\/em> Leia-se como a imagem da morte do rapazote do conto de Seu Ramalho ganha for\u00e7a por meio da perspectiva deformadora, amalgamando-se \u00e0s imagens da morte de Juli\u00e3o Tavares:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Enquanto ele batia na testa, avan\u00e7ava e recuava, eu ia pouco a pouco distinguindo uma figura nua e preta estirada nas pedras da rua. O ventre era uma pasta escura de carne retalhada; os membros, torcidos na agonia, estavam cobertos de buracos que esguichavam sangue; a boca, sem bei\u00e7os, mostrava dentes acavalados e vermelhos, numa careta medonha; os olhos esbugalhados tornavam-se vermelhos. Mas a figura continuava a escabujar no ch\u00e3o. Agora n\u00e3o era preta nem estava nua. Pouco a pouco ia embranquecendo e engordando, o sangue estancava, as feridas saravam. <br \/>[\u2026]<br \/>A figura deitada no cal\u00e7amento estava branca e vestida de linho pardo, com manchas de suor nos sovacos. Felizmente o sangue tinha desaparecido, j\u00e1 n\u00e3o havia a umidade pegajosa na sarjeta, nos cabelos de d. Ros\u00e1lia, nas saias de Ant\u00f4nia. Em redor tudo calmo. Gente indo e vindo, crian\u00e7as brincando, roncos de autom\u00f3veis. O homem tinha os olhos esbugalhados e estrebuchava desesperadamente. Um peda\u00e7o de corda amarrado no pesco\u00e7o entrava-lhe na carne branca, e duas m\u00e3os puxavam a extremidade da corda, que parecia quebrada. S\u00f3 havia as pontas, que as m\u00e3os seguravam: o meio tinha desaparecido, mergulhado na gordura balofa como toicinho. (p. 119-120)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Em outro registro, o desejo eclode por meio da emula\u00e7\u00e3o c\u00f4mico-s\u00e9ria do esquartejamento. Na curiosa mescla de perversidade e nonsense, a passagem alude a cenas populares de espet\u00e1culos circenses, com o costumeiro truque da mulher repartida em duas: <\/p>\n<blockquote>\n<p>Veio-me o pensamento maluco de que tinham dividido Marina. Serrada viva, como se fazia antigamente. Esta ideia absurda e sanguin\u00e1ria deu-me grande satisfa\u00e7\u00e3o. N\u00e1degas e pernas para um lado, cabe\u00e7a e tronco para outro. A parte inferior mexia-se como um rabo de lagartixa cortado. (p. 71)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Desse modo, a <em>ordem da tocaia<\/em> comparece de diversas maneiras, seja pontualmente, com contos intercalados, imagens recorrentes e por vezes desconexas; seja relacionada a eventos rotineiros, distantes do ato; seja em sequ\u00eancias longas, em que o andamento assimila o passo do criminoso animalizado; seja, ainda, quando o sujeito se faz observador e carrasco de si mesmo. Mas, sobretudo, comparece como nuance formal, linha subterr\u00e2nea que interliga a heterogeneidade de assuntos do enredo sugerindo o desenho de uma ca\u00e7ada, a apreender o vaiv\u00e9m e a arma\u00e7\u00e3o do salto.<\/p>\n<p>Nesse percurso, retenham-se dois momentos centrais da narrativa, que se d\u00e3o sob o signo da tocaia: a morte de Juli\u00e3o e a ida de Marina ao arrabalde, em busca daquela que lhe far\u00e1 o aborto. Tais cenas, ocorridas no espa\u00e7o aberto, d\u00e3o conta da revolta contra seu desterro, ambas organizadas a partir da destreza no embuste: o assassinato do seu rival e a persegui\u00e7\u00e3o a Marina. Em ambas passagens, em plena rua, o protagonista age como cangaceiro, prestes a apanhar a v\u00edtima. O espa\u00e7o da cidade, oposto \u00e0 vila de sua inf\u00e2ncia, o assombra, j\u00e1 que lhe retira as ins\u00edgnias de classe e se evaporam as marcas do mundo do velho Trajano. Por ser o palco da virtual emancipa\u00e7\u00e3o burguesa, acaba sendo de fato o locus da humilha\u00e7\u00e3o e precisar\u00e1 ser o da vingan\u00e7a. N\u00e3o \u00e0 toa ser\u00e1 o lugar do crime. O descompasso entre a\u00e7\u00e3o e lugar \u00e9 sintom\u00e1tico: parece mesmo querer assassinar o pa\u00eds que se moderniza. O espa\u00e7o que deveria acolher a arena da igualdade n\u00e3o s\u00f3 humilha e oprime, como tamb\u00e9m franqueia a pior heran\u00e7a do sert\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim como Lu\u00eds inspeciona os sons da vizinha, num avan\u00e7ar e recuar temeroso de ser posto a nu, a estrutura de suspense, avan\u00e7os, recuos e intercala\u00e7\u00f5es, mimetiza o ataque. Para al\u00e9m do ritmo alucinat\u00f3rio da prosa do homicida cujas repeti\u00e7\u00f5es \u2014 ratos, cordas, cobras, arames \u2014 s\u00e3o \u00edndices do ato cometido e d\u00e3o a t\u00f4nica do pesadelo em que se encerra e cuja din\u00e2mica repercute na consci\u00eancia apreendida pela tessitura romanesca, opera outro movimento, mais afeito \u00e0 viol\u00eancia socialmente configurada. Retenha-se a primeira dessas cenas: na imin\u00eancia de cometer o crime, emergem figuras de cangaceiros: Cirilo da Engr\u00e1cia, os cabras de Cabo Preto e Jos\u00e9 Ba\u00eda. Agora a tocaia age em movimento, no escuro. \u201cMinha raiva crescia, raiva de cangaceiro emboscado. Por que esta compara\u00e7\u00e3o? Ser\u00e1 que os cangaceiros experimentavam a c\u00f3lera que eu experimentava?\u201d (p. 193). A resposta seria negativa. A c\u00f3lera insere-se como elemento de cis\u00e3o entre Lu\u00eds e os bandoleiros rememorados. O sentimento radica em conflito: presa do descontrole, torna-se menos frio, mais humano e, portanto, menos apto ao trabalho. Evidentemente que o matador bem-sucedido n\u00e3o deveria ser um sujeito problem\u00e1tico. Se, por um lado, a consci\u00eancia moral n\u00e3o o impede de cometer o assass\u00ednio \u2014 \u201cRetirei a corda do bolso e em alguns saltos, silenciosos como os das on\u00e7as de Jos\u00e9 Ba\u00eda, estava ao p\u00e9 de Juli\u00e3o Tavares\u201d (p. 196) \u2014, por outro lado, o lan\u00e7ar\u00e1 no lancinante desvario que corta todo o romance. O modo como organiza o homic\u00eddio, no que envolve de decis\u00e3o e anonimato, tamb\u00e9m traz o car\u00e1ter d\u00faplice de uma coragem covarde que quadra bem com os confusos arroubos de indigna\u00e7\u00e3o do protagonista.<\/p>\n<p>A premedita\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 \u00e0 altura de Jos\u00e9 Ba\u00eda. Faltam-lhe a impassibilidade, a aus\u00eancia de comprometimento pessoal e, sobretudo, a inconsci\u00eancia. Mais uma vez a literatura parece ter sido a culpada pelo titubeio que o afasta da a\u00e7\u00e3o definitiva. Invadido pelo terror, que se desdobra em medo do ato e do julgamento, ataca a opini\u00e3o p\u00fablica, contraposta \u00e0s ideias institu\u00eddas pelo h\u00e1bito: <\/p>\n<blockquote>\n<p>Medo da opini\u00e3o p\u00fablica? N\u00e3o existe opini\u00e3o p\u00fablica. O leitor de jornais admite uma chusma de opini\u00f5es desencontradas, assevera isto, assevera aquilo, atrapalha-se e n\u00e3o sabe para que banda vai. Ouvindo-o, penso no tempo em que os homens n\u00e3o liam jornais. Penso em Filipe Benigno, que tinha um certo n\u00famero de ideias bastante seguras, no velho Trajano, que tinha ideias muito reduzidas, em Mestre Domingos, que era privado de ideias e vivia feliz. E lamento essa balb\u00fardia, essa torre de babel em que se atarantaram os frequentadores do caf\u00e9\u2026 (p. 163)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O crime tornado not\u00edcia sujeita-se ao exame, aproximando o ato de Lu\u00eds das circunst\u00e2ncias sociais da escritura. Como se a repercuss\u00e3o do ato inomin\u00e1vel conferisse ao olhar citadino certo car\u00e1ter de ajuizamento. A trag\u00e9dia transposta para o discurso jornal\u00edstico com vistas a despertar a indigna\u00e7\u00e3o social est\u00e1 na contram\u00e3o do costume sertanejo: neste, a morte encomendada \u00e9 silenciosa e aceita, respeita-se por costume e temor.<\/p>\n<p>Com efeito, o drama subjetivo tinge-se de historicidade: trata-se de uma revolta contra a cidade e o que ela representa. Nesse caminho, a din\u00e2mica do mundo urbano op\u00f5e-se \u00e0 petrifica\u00e7\u00e3o do rural e a dic\u00e7\u00e3o vertiginosa da narrativa parece condizer com o novo f\u00f4lego que se faz artificial e penoso, em raz\u00e3o da incompatibilidade com o ritmo truncado que o formou. Carpeaux j\u00e1 havia notado que em Ang\u00fastia \u201co culpado \u00e9 a cidade\u201d que, ao assalt\u00e1-lo com as prerrogativas da competi\u00e7\u00e3o e da igualdade, intensificam o seu lamento da perda do status: \u201ccomo a cidade me afastara dos meus av\u00f3s!\u201d (p. 111).<em>[10]<\/em> Esta rua, palco da virtual emancipa\u00e7\u00e3o, mas afim ao contexto brasileiro, local de viol\u00eancias de uma modernidade abstrusa. Nas palavras do cr\u00edtico: \u201cQuer realmente voltar aos av\u00f3s. Voltar \u00e0 imobilidade, \u00e0 estabilidade do mundo primitivo. E para atingir esse fim, deve antes destruir o mundo da agita\u00e7\u00e3o angustiada, no qual est\u00e1 preso\u201d.<em> [11] <\/em>A interioridade de Lu\u00eds da Silva perfaz-se em v\u00f3rtice: a agita\u00e7\u00e3o do assassino e do exilado acumula-se \u00e0 da inadequa\u00e7\u00e3o ante a din\u00e2mica de uma realidade que se transforma. Mas, se a modernidade o espreita amea\u00e7adoramente, ao mesmo tempo ser\u00e1 este esp\u00edrito de sua \u00e9poca o respons\u00e1vel por lhe fornecer as farpas de solidariedade que dotam a \u201cobra de destrui\u00e7\u00e3o\u201d, <em>[12] <\/em>para falar com Carpeaux, de uma dolorosa e dif\u00edcil percep\u00e7\u00e3o da alteridade.<\/p>\n<p>Em certa medida, a vingan\u00e7a dirige-se contra o alvorecer da modernidade cujas marcas \u2014 igualdade, trabalho, m\u00e9rito \u2014 soam como amea\u00e7as, e n\u00e3o direitos, na percep\u00e7\u00e3o daquele que se formou, apesar dos traumas, em meio \u00e0 vida senhorial. Nesse passo, o pulo do jagun\u00e7o \u00e9 contra o mundo que se moderniza, instaurando direitos e suprimindo benef\u00edcios. A modernidade n\u00e3o ser\u00e1 auspiciosa: encarna-se no arrogante e escorregadio Juli\u00e3o Tavares, o bem-sucedido medalh\u00e3o. Esta esp\u00e9cie de duplo arrevesado de Lu\u00eds da Silva ser\u00e1 o sacrificado em ef\u00edgie de todas as humilha\u00e7\u00f5es. N\u00e3o se trata de crime passional, mas da revanche do deca\u00eddo numa sociedade que preza os valores arcaicos, cuja modernidade dos meios de produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o acompanhou o desenvolvimento da sociabilidade ou igualdade em bases burguesas.<\/p>\n<p>Note-se que o que faz da sua experi\u00eancia um beco sem sa\u00edda \u00e9 a viol\u00eancia que vige nos dois mundos: esgrime-se na sua subjetividade de tal modo que dela n\u00e3o se livrar\u00e1<em>.[13]<\/em> N\u00e3o h\u00e1 escape para aquele que n\u00e3o se reconhece sujeito, apesar dos impasses, moderno. O passado ao qual recorre nada teve de pleno ou acolhedor: v\u00edtima e algoz, sujeita-se \u00e0 impiedosa din\u00e2mica de autoperscruta\u00e7\u00e3o em que o homic\u00eddio adquire tonalidades suicidas. Mas, se a mentalidade antiga \u00e9 mobilizada como sa\u00edda, n\u00e3o parece deter a \u00fanica verdade: certas passagens aparentemente fortuitas, por\u00e9m cuidadosamente escolhidas, atestam a presen\u00e7a do que h\u00e1 de emancipat\u00f3rio no vi\u00e9s aburguesado. O torneio da consci\u00eancia sobre si mesma \u00e9 resultado do embate entre viv\u00eancias que aludem ao campo e \u00e0 cidade, cujas promessas de cidadania revelaram-se letra morta.<em>[14]<\/em> Nesse caminho, a tocaia enquanto movimento de introvers\u00e3o e ato de viol\u00eancia \u2014 o dentro do fora e o fora do dentro \u2014 pode ser uma instigante forma de media\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A segunda sequ\u00eancia apontada situa-se antes do crime na ordem da narrativa. Diz respeito \u00e0 ida de Marina \u00e0 \u201ccasa de recurso\u201d, no sub\u00farbio, onde far\u00e1 o aborto \u2014 \u201cAlbertina de tal, parteira diplomada\u201d. O fragmento \u00e9 bastante significativo ao articular, pelos meandros do fluxo de consci\u00eancia, a estrat\u00e9gia persecut\u00f3ria do noivo tra\u00eddo diante da figura arrasada da mo\u00e7a. A novidade<\/p>\n<p>maior ser\u00e1 que, em meio ao emaranhado de mis\u00e9rias \u2014 desamparo, desilus\u00e3o, c\u00f3lera, culpa \u2014 ouvem-se os ecos da revolu\u00e7\u00e3o socialista. Lu\u00eds faz ato de tocaia por horas a fim de abocanhar sua presa, vingando-se e mortificando-se ao comprovar a realiza\u00e7\u00e3o do aborto. No arrabalde, durante a espia, observa a frase num muro, sem pontua\u00e7\u00e3o: \u201cProlet\u00e1rios, uni-vos\u201d. Estrategicamente os dizeres ecoam uma conversa anterior com Mois\u00e9s sobre a arte engajada e a necessidade da mudan\u00e7a social. Articulam-se ainda \u00e0s diversas reminisc\u00eancias sobre canga\u00e7o e atrocidades que se alinham aos temas j\u00e1 levantados: pobreza, letras e patriarcado. No atropelo introspectivo em que vive o protagonista, habilmente tecido pela prosa, acaba por confundir causas e consequ\u00eancias e sugere que, se tudo vai mal, \u00e9 urgente aniquilar Juli\u00e3o Tavares.<\/p>\n<p>A divisa revolucion\u00e1ria reverbera ante a dif\u00edcil situa\u00e7\u00e3o em que se encontram \u2014 o homem tra\u00eddo e devastado, a mulher abandonada e destru\u00edda \u2014 e as dores privadas agudizam-se at\u00e9 o ponto em que, por meios transversos, cabe \u00e0 literatura \u2014 que insere a frase num momento estrategicamente escolhido \u2014 ao menos enunciar a rota esmaecida da revolu\u00e7\u00e3o. Os agitadores s\u00e3o b\u00e1rbaros,a frase est\u00e1 mal escrita, os vadios n\u00e3o reconhecem o literato como um deles \u2014 em suma, se a revolu\u00e7\u00e3o vier, ele continuar\u00e1 com o drama de seu n\u00e3o-lugar: \u201cQuereriam fazer uma revolu\u00e7\u00e3o sem v\u00edrgulas e sem tra\u00e7os? Numa revolu\u00e7\u00e3o de tal ordem n\u00e3o haveria lugar para mim\u201d (p. 171). De fato, o mundo anda mal arranjado, parece pensar Lu\u00eds; contudo, a organiza\u00e7\u00e3o narrativa dota a frase mal escrita da for\u00e7a subterr\u00e2nea necess\u00e1ria \u00e0 sua legitima\u00e7\u00e3o.<em>[15]<\/em><\/p>\n<p>Diante do infort\u00fanio da mulher desejada, cuja desgra\u00e7a suscita piedade, v\u00eam \u00e0 mem\u00f3ria imagens de injusti\u00e7as diversas, desmandos, humilha\u00e7\u00f5es. O resultado dessa avalanche de agravos \u00e9 a descompostura s\u00e1dica lan\u00e7ada de chofre na cara daquela que tudo perdeu: \u201c\u2014 Puta!\u201d, repete cont\u00ednua e descontroladamente. A cada nova invectiva, mais sente pena da mo\u00e7a e raiva do mundo. Apesar da dor, vem \u00e0 tona apenas o improp\u00e9rio, incapaz de comunicar alguma forma de compaix\u00e3o. A narrativa apreende o processo da ang\u00fastia que aumenta, na medida em que se sente incapaz de compadecimento: se, por um lado, afastado o recurso da an\u00e1lise pol\u00edtica do problema, s\u00f3 lhe resta moralizar; por outro, a economia textual dissemina passagens finamente elaboradas a fim de cuidadosamente inocular o paradoxo e dar vaz\u00e3o \u00e0 complexidade dos conflitos. A cada \u201cputa\u201d pronunciado, op\u00f5e-se a voz do mon\u00f3logo interior, produzindo curto-circuito entre a voz p\u00fablica, admoestadora, e a voz interior, clivada de dores. A ambiguidade do ponto de vista d\u00e1-se a ver esteticamente, por meio do entrecruzar das matrizes conservadoras e cr\u00edticas tensionadas pelas angula\u00e7\u00f5es do fluxo de consci\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cEu sentia raiva, aborrecimento, piedade e nojo\u201d (p. 144). A constru\u00e7\u00e3o a\u00e7ambarca uma s\u00e9rie de temas pelo filtro da subjetividade atormentada. Imposs\u00edvel determinar o que vem antes. A f\u00f3rmula que associa \u00f3dio, t\u00e9dio e asco parece caminho seguro para o crime, por\u00e9m os mesmos sentimentos submetem-se \u00e0 piedade que, sem rota de fuga, degenera em viol\u00eancia intempestiva. O ressentimento proveniente do lugar social mesquinho e dos insultos sofridos obstrui a consci\u00eancia de classe \u2014 da\u00ed julgar e perder-se em descomposturas conservadoras. N\u00e3o localiza seus dissabores como parte de uma sociedade dividida e explorada, n\u00e3o identifica os inimigos reais. \u00cdndice disso \u00e9 seu abstencionismo pol\u00edtico, o desconhecimento de qualquer via de emancipa\u00e7\u00e3o e liberta\u00e7\u00e3o. Aferra-se a postulados anacr\u00f4nicos para lidar com males da sociedade moderna, v\u00edtima que utilizar\u00e1 os mesmos caminhos da opress\u00e3o para revoltar-se: novamente \u00e0 roda de si mesmo, acossado pela aporia.<\/p>\n<p>O constrangimento de Lu\u00eds da Silva \u00e9, em grande parte, oriundo da incapacidade de entender-se como parte de um todo social. \u00c0 sua maneira reproduzir\u00e1 a tortura do po\u00e7o da Pedra, sem comisera\u00e7\u00e3o pelo mais fraco: \u201cse eu pudesse fazer o mesmo com Marina\u2026\u201d (p. 29). O supl\u00edcio insuperado retorna insistente; incapaz de descolar-se da experi\u00eancia pessoal, de distanciar-se a fim de questionar os agentes sociais da opress\u00e3o, parece querer tornar-se um deles. Na confus\u00e3o entre lucidez e aliena\u00e7\u00e3o, a indetermina\u00e7\u00e3o s\u00f3 faz aumentar sua desventura.<\/p>\n<p>A dif\u00edcil forma\u00e7\u00e3o desse sujeito moderno faz aflorar farpas de consci\u00eancia social. As ofensas lan\u00e7adas \u00e0 mo\u00e7a no momento de grande fragilidade n\u00e3o impedem que observe, mais \u00e0 frente: \u201cEnt\u00e3o Marina era dele? Tolice. Era a mesma que eu tinha conhecido um ano antes, vermelha, com os cabelos pegando fogo, entre as roseiras maltratadas. Evidentemente\u201d (p. 188). O vetor moderno crispa a ades\u00e3o ao arb\u00edtrio e insufla a reflex\u00e3o: a aventura da mo\u00e7a, sua suposta queda, n\u00e3o a torna indigna. Aos seus olhos, o imperdo\u00e1vel n\u00e3o \u00e9 o ato, a trai\u00e7\u00e3o, mas o rebaixamento. A mo\u00e7a ador\u00e1vel, altiva e ruidosa dever\u00e1 doravante esconder-se \u2014 como D. Ad\u00e9lia, que outrora \u201cdan\u00e7ava a carrapeta\u201d, como tantas outras \u2014 logo, Juli\u00e3o deve morrer.<\/p>\n<p>Nesse caminho, em meio \u00e0 miscel\u00e2nea de assuntos, pouco antes de ir ao encal\u00e7o de Marina, novamente desponta a solidariedade ao pobre \u2014 e as mal tra\u00e7adas palavras de Marx ganham sentido na organizada desordem da prosa:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Mas n\u00e3o se via a gente. Apenas maloqueiros cochilando, alguns mendigos, crian\u00e7as barrigudas e amarelas. O resto devia estar no trabalho: os homens nas oficinas, nos estribos dos bondes da Nordeste, nos quart\u00e9is, em todos os infernos que h\u00e1 por a\u00ed; as mulheres lavando roupa, amando por dinheiro, preparando a comida ruim e insuficiente. Os filhos, ro\u00eddos por vermes, seriam vagabundos mais tarde, dormiriam ao meio-dia nas portas das bodegas. Dormiriam? Quando eles crescessem, haveria pessoas dormindo ao meio-dia nas portas das bodegas? Muitos agora tiritavam, batendo os dentes como porcos caititus, na maleita que a lama da lagoa oferece aos pobres. (p. 170)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Imagens do desvalimento \u2014 do outro e de si \u2014 cortam a narrativa e s\u00e3o interpretadas de modo amb\u00edguo por esse narrador letrado e deca\u00eddo marcado, ao mesmo tempo, por tra\u00e7os da consci\u00eancia moderna e citadina e por reminisc\u00eancias sofridas, mas nem por isso menos vivazes e cr\u00e9dulas, da elite rural: \u201cAdquiro ideias novas, mas estas ideias brigam com sentimentos que n\u00e3o me deixam\u201d (p. 188). O mesmo paradoxo repercute a cena de ofensa \u00e0 mulher amada e arruinada: a cada vitup\u00e9rio, ditado pelos ditos bons costumes, o enunciador se martiriza, dando a ver um estranho modo de fraternidade.<\/p>\n<p>Por meio das peculiaridades da narrativa de mem\u00f3ria e da preval\u00eancia do del\u00edrio, a altern\u00e2ncia relativa \u00e0s duas ordens \u2014 a moderna e a arcaica \u2014 imprime-se nos espa\u00e7os romanescos de modo perspicaz. O neto da aristocracia decadente perambula entre as viol\u00eancias passadas e presentes. A ambi\u00eancia da casa familiar orienta os pesadelos e as imagens recorrentes, quase ideias fixas, que retornam avassaladoras \u00e0 medida que o sonho da vida burguesa lhe escapa: o castigo no po\u00e7o da Pedra, o homem enforcado, o negro torturado, o cangaceiro morto. As imagens remetem ao arb\u00edtrio do poder patriarcal e greg\u00e1rio, universo sem direitos e sem alteridade. No entanto, diante dos males da vida imediata, s\u00e3o as cenas que lhe acometem, como se o refrig\u00e9rio em face das humilha\u00e7\u00f5es experimentadas s\u00f3 pudesse se fazer mediante outras coa\u00e7\u00f5es. Tanto a derrocada do mundo antigo como o alvorecer da modernidade insuflam a subjetividade doentia do protagonista, cujos impasses imprimem-se nos espa\u00e7os narrativos: a circunscri\u00e7\u00e3o da casa prec\u00e1ria, o quintal e a rua, espa\u00e7o da liberdade e do crime.<\/p>\n<p>Reminisc\u00eancias da casa familiar misturam-se \u00e0 vida de assalariado, vivendo de parcos recursos, morando mal e assombrado ante a amea\u00e7a da igualdade, que lhe retira o que resta de identidade, novo tempo perigoso que salta aos olhos nas ruas da cidade. As duas ordens imprimem-se no espa\u00e7o-tempo: um deles registro de mem\u00f3ria; o outro, a realidade premente. Neste, encontram-se a casa atual \u2014 morada ordin\u00e1ria, de paredes meias com a mulher amada, cujo quintal \u00e9 espa\u00e7o do desejo interrompido \u2014 e o mundo p\u00fablico, hostil, onde Juli\u00e3o Tavares se pavoneia.<\/p>\n<p>A import\u00e2ncia dos espa\u00e7os \u2014 cidade e campo \u2014, socialmente configurados, estampa-se na sequ\u00eancia de cerca de cinco p\u00e1ginas, referente ao segundo fragmento das mem\u00f3rias que comp\u00f5em a narrativa.<em>[16] <\/em>Trata-se de uma viagem de bonde, ap\u00f3s a sa\u00edda do trabalho. Ele vai at\u00e9 o ponto-final e volta, duas vezes \u2014 centro-periferia-centro-periferia \u2014 o que confere ao percurso significado maior que o de locomo\u00e7\u00e3o rotineira. A imagem em movimento e o tr\u00e2nsito entre lugares dialogam com a problem\u00e1tica do estranhamento entre a velha e a nova ordem, bem como com o sentimento de n\u00e3o-pertencimento. O trajeto urbano figurar\u00e1 como uma imagem em miniatura do movimento do sujeito encaramujado: por meio das imagens entrevistas, cruzam-se signos do moderno e do arcaico e percep\u00e7\u00f5es da inf\u00e2ncia e da maturidade. Na cruciante introspec\u00e7\u00e3o, cuja dial\u00e9tica se alimenta<\/p>\n<p>do drama do mundo, revoluteiam as curvas do caracol.<\/p>\n<p>Acachapado pelo peso dos dias, na viagem fantasiar\u00e1 sua morte miser\u00e1vel e irrelevante, em mais uma imagem f\u00fanebre entre as tantas que povoam o romance. Quando avista o centro, observa as casas de gente rica, para cujas mulheres Marina seria mera \u201cratu\u00edna\u201d. As inquieta\u00e7\u00f5es parecem esmorecer quanto mais se aproxima das zonas pobres: \u201c\u00e0 medida que o carro se afasta do centro sinto que me vou desanuviando\u201d (p. 24). A viagem adquire outro significado ao capturar, em um \u00e1timo e quase na abertura do romance, a avers\u00e3o \u00e0 cidade e o apre\u00e7o pela paragem erma e r\u00fastica que, apesar dos males, parece acenar como paradoxal via de escape. O germe do conflito \u00edntimo relampeja nesse deslocamento trivial.<\/p>\n<p>Destaque-se que, durante o circuito em movimento, o sujeito n\u00e3o se encontra exatamente em nenhum dos polos; suspenso de fato em um n\u00e3o-lugar, a circunst\u00e2ncia lhe permite o descolamento necess\u00e1rio \u00e0 divaga\u00e7\u00e3o. A viagem funciona como um mergulho interior, antecipando motivos que a narrativa desenvolver\u00e1, entre devaneio e realidade:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Afasto-me outra vez da realidade, mas agora n\u00e3o vejo os navios, a recorda\u00e7\u00e3o da cidade grande desapareceu completamente. O bonde roda para oeste, dirige-se ao interior. Tenho <em>a impress\u00e3o de que ele me vai levar ao meu munic\u00edpio sertanejo.<\/em> (p. 25. Grifo meu)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Quanto mais se afasta do centro, mais se sente pr\u00f3ximo de sua cidade natal. O sub\u00farbio de Bebedouro faz as vezes da casa paterna, onde a considera\u00e7\u00e3o p\u00fablica convive com os maus-tratos. A rela\u00e7\u00e3o paradoxal com o passado o mant\u00e9m em cont\u00ednuo rodopio, do qual participa a din\u00e2mica da introvers\u00e3o em modo de tocaia.<\/p>\n<p>O diagrama espacial rep\u00f5e quest\u00f5es irresolvidas entre casa (fam\u00edlia, mundo rural) versus rua (individua\u00e7\u00e3o, mundo urbano). Na ambiguidade das imagens da redoma familista, o arb\u00edtrio disputa espa\u00e7o com a seguran\u00e7a do reconhecimento. Tais reminisc\u00eancias obsessivas cravam a indigna\u00e7\u00e3o ante a condi\u00e7\u00e3o rebaixada, de onde adv\u00e9m o espectro sempre amea\u00e7ador da pobreza e da igualdade. No locus citadino, o emprego de jornalista foi conseguido \u00e0s duras penas, debaixo de descomposturas e humilha\u00e7\u00e3o. Assoma o parentesco entre duas formas de pedit\u00f3rio e logro: entre o discurso farsesco do mendigo e o emprego \u201ccavado\u201d a servi\u00e7o dos grandes, a dist\u00e2ncia \u00e9 m\u00ednima. As semelhan\u00e7as n\u00e3o param por a\u00ed, desdobram-se e entretecem-se no tecido romanesco, sempre pelo crivo da personalidade problem\u00e1tica, ressentida e desfibrada. Parece n\u00e3o se identificar plenamente com nenhuma das ordens pelas quais passou \u2014 neto de grande propriet\u00e1rio de terras, indigente e homem de letras \u2014 e ao mesmo tempo n\u00e3o consegue se livrar das m\u00e1culas que cada uma representa. O ciclo do ressentimento atravanca a via da lucidez quanto \u00e0 sua posi\u00e7\u00e3o em face do processo de moderniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A profici\u00eancia da vida intelectual op\u00f5e-se \u00e0 profici\u00eancia para o crime. Introspe\u00e7\u00e3o, estudo e tocaia: ordens que t\u00eam em comum a destreza e o preparo t\u00e9cnico; por\u00e9m, se as duas primeiras se enra\u00edzam no terreno emancipat\u00f3rio, a \u00faltima \u00e9 expediente de barb\u00e1rie. A estrutura romanesca alinhava a pesquisa de si \u00e0 pesquisa destinada ao delito. A literatura faz da tocaia,tocaia de si, autoausculta\u00e7\u00e3o \u2014 e o sujeito tamb\u00e9m se aniquila ao destruir o rival. Como se a pr\u00e1tica do fac\u00ednora sofresse certa inflex\u00e3o introspectiva: a ofensiva trai\u00e7oeira torna-se algo duplamente dilacerador, uma vez que reverte contra o agente. Entre o passado e o presente, o desterrado procura rotas de fuga ora na reflex\u00e3o, cujo ancoradouro ser\u00e1 a literatura; ora na viol\u00eancia, cujo foco \u00e9 o canga\u00e7o. Sem sa\u00edda, as pontas do conflito movimentam-se em ricochete, formatando a complexidade do romance. Refinamento e barb\u00e1rie imbricam-se diante do beco sem sa\u00edda do contexto perif\u00e9rico.<\/p>\n<p>Contrariando aqueles que louvaram o romance pelo seu car\u00e1ter de universalidade, a forma que olha e ouve, espreita e espiona, em sua dupla face de autoan\u00e1lise e canga\u00e7o, enra\u00edza-se no solo do levante de 1935 e da eclos\u00e3o do Estado Novo, em surpreendente di\u00e1logo com a circunst\u00e2ncia objetiva da pris\u00e3o do autor. O contraponto ao conservadorismo \u00e9 tamb\u00e9m acionado por meio das refer\u00eancias esfumadas \u00e0 malograda revolu\u00e7\u00e3o socialista, bem como ao colega de profiss\u00e3o Mois\u00e9s e \u00e0 pr\u00e1tica do jornalismo \u2014 por tr\u00e1s da qual pulsa a sombra da literatura. Nessa prosa marcada pela desconfian\u00e7a, logro e vingan\u00e7a, a aventura da revolu\u00e7\u00e3o socialista tamb\u00e9m comparecer\u00e1 entrevista pela peculiar experi\u00eancia do r\u00e9probo assassino.<\/p>\n<p>Com efeito, a senten\u00e7a revolucion\u00e1ria rabiscada no muro suburbano \u2014 \u201cProlet\u00e1rios, uni-vos\u201d \u2014, habilmente alocada no momento da narrativa em que a emboscada opera como instrumento de crueldade e de comisera\u00e7\u00e3o, irradia-se sobre os impasses apreendidos, carregada de virtual emancipa\u00e7\u00e3o. Nesse passo, em face do mundo cerceado, a frase inc\u00f4moda emaranha-se \u00e0 tocaia literariamente constru\u00edda e o tempo suspenso da vingan\u00e7a pode carregar a sugest\u00e3o de uma outra espera \u2014 outra tocaia? \u2014, cujas resson\u00e2ncias d\u00e3o a ver o conte\u00fado latente que subjaz \u00e0 deslocada invoca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Notas:<\/strong><\/p>\n<p>[1] A esse respeito ver: ANDRADE, M\u00e1rio. A elegia de abril. In: Aspectos da literatura brasileira. 5\u00aaed. S\u00e3o Paulo: Martins, 1974 e PAES, Jos\u00e9 Paulo. O pobre-diabo na literatura brasileira. In: Armaz\u00e9m liter\u00e1rio. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2008<\/p>\n<p>[2] Refer\u00eancia ao livro de Maria Sylvia de Carvalho Franco. Homens livres na ordem escravocrata. 4\u00aaed. S\u00e3o Paulo: Editora da Unesp, 1997<\/p>\n<p>[3] Trata-se da leitura que focaliza o car\u00e1ter universal do drama de Ang\u00fastia. \u201cSe o Sr. Graciliano Ramos apresentava-se \u2014 como Antonio Salles \u2014 observador interessante da vida di\u00e1ria de nossas cidadezinhas, j\u00e1 em Ang\u00fastia ele desconsidera o \u2018meio\u2019 para considerar a vida em seu sentido amplo de universidade e sofrimento. N\u00e3o \u00e9 mais o romancista do Brasil. \u00c9 o romancista que interpreta a vida em sua rigorosa significa\u00e7\u00e3o de sentido humano. \u00c9 o romancista que exibe o \u2018humano\u2019 que existe na \u2018vida\u2019 do homem de todos os lugares\u201d. Adonias Filho. Ang\u00fastia. In: Ang\u00fastia. Edi\u00e7\u00e3o comemorativa, 75 anos. Org. Elisabeth Ramos. Rio de Janeiro: Record, 2011, p. 243.<\/p>\n<p>[4] Todas as cita\u00e7\u00f5es da obra foram retiradas de RAMOS, Graciliano. Ang\u00fastia. Edi\u00e7\u00e3o comemorativa, 75 anos. Org. Elisabeth Ramos. Rio de Janeiro\/S\u00e3o Paulo: Record, 2011, p. 21<\/p>\n<p>[5] Refer\u00eancia ao volume que re\u00fane os estudos de Antonio Candido sobre o autor. CANDIDO, Antonio. Fic\u00e7\u00e3o e confiss\u00e3o: ensaios sobre Graciliano Ramos. 3\u00aa ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006.<\/p>\n<p>[6] \u201cN\u00e3o h\u00e1 documento de cultura que n\u00e3o seja tamb\u00e9m documento de barb\u00e1rie\u201d. BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de hist\u00f3ria (Tese VII). In: O anjo da hist\u00f3ria. Org. e trad. Jo\u00e3o Barrento. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2012<\/p>\n<p>[7] Graciliano Ramos dedicou-se ao tema do canga\u00e7o tanto na fic\u00e7\u00e3o quanto em artigos de jornal e revistas. Nos escritos de n\u00e3o-fic\u00e7\u00e3o, pontua o car\u00e1ter socioecon\u00f4mico do problema: \u201ctalvez acertemos supondo que atualmente o canga\u00e7o \u00e9 um fato de natureza econ\u00f4mica, ampliado por motivos de ordem social\u201d. Preocupa-se em compreender o fen\u00f4meno de modo complexo, dividindo-o em fases e analisando tanto as circunst\u00e2ncias sociais \u2014 rela\u00e7\u00e3o com a grande propriedade, com a injusti\u00e7a e a mis\u00e9ria do sert\u00e3o \u2014 quanto aspectos do imagin\u00e1rio sobre o cangaceiro, entre bandido e her\u00f3i. Ver, entre outros: RAMOS, Graciliano. O fator econ\u00f4mico no canga\u00e7o. In: Viventes das Alagoas: quadros e costumes do Nordeste. 16\u00aa ed. S\u00e3o Paulo: Record, 1994, p. 126.<\/p>\n<p>[8] A grande maioria das historietas relativas \u00e0 morte referem-se ao canga\u00e7o e, portanto, \u00e0 pr\u00e1tica da tocaia. Em seu estudo sobre a obra, L\u00facia Helena Carvalho organiza tabelas para os \u201csignificantes\u201d que identifica na obra. Uma das divis\u00f5es refere-se ao \u201cparadigma do significante morte\u201d. Neste, elenca \u201cas micronarrativas ficcionais em Ang\u00fastia\u201d: dos 14 epis\u00f3dios de mortes arroladas, apenas duas ocasi\u00f5es n\u00e3o aludem ao canga\u00e7o. CARVALHO, L\u00facia Helena. A ponta do novelo (uma inter- preta\u00e7\u00e3o de Ang\u00fastia, de Graciliano Ramos). S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 1983, p. 28<\/p>\n<p>[9] Sobre o car\u00e1ter deformador do realismo de Graciliano Ramos, ver: CARPEAUX, Otto Maria. As tend\u00eancias contempor\u00e2neas na literatura: um esbo\u00e7o. Rio de Janeiro: Tecnoprint, 1968, p. 248-249 e GIMENEZ, Erwin Torralbo. \u201cTrata-se de uma dial\u00e9tica cuja s\u00edntese se funda no realismo deformador\u201d. Mal sem mudan\u00e7a \u2014 notas iniciais sobre Ang\u00fastia. In: Revista Estudos Avan\u00e7ados, S\u00e3o Paulo, no 26 (76), 2012, p. 213<\/p>\n<p>[10] CARPEAUX, Otto Maria. Vis\u00e3o de Graciliano Ramos. In: Ensaios reunidos 1942-1978. De A cinza do purgat\u00f3rio a Livros na mesa. Vol. I. Rio de Janeiro: UniverCidade Editora\/Topbooks, 1999, p. 449: \u201cO culpado \u00e9 \u2014 superficialmente visto, numa primeira aproxima\u00e7\u00e3o \u2014 a cidade\u201d.<\/p>\n<p>[11] Ibidem.<\/p>\n<p>[12] Ibidem.<\/p>\n<p>[13] Fernando C. Gil notou a onipresen\u00e7a da viol\u00eancia, \u201conipot\u00eancia destrutiva\u201d, como parte da identidade fragmentada diante de temporalidades hist\u00f3ricas antag\u00f4nicas: \u201cpassado rural e presente urbano conjugam-se na \u00fanica identidade poss\u00edvel que enforma os dois espa\u00e7os brasileiros distintos: a atitude do arb\u00edtrio e da brutalidade destrutiva\u201d. GIL, Fernando C. O romance da urbaniza\u00e7\u00e3o. Porto Alegre, EDIPUCRS, 1999, p. 86<\/p>\n<p>[14] Fernando C. Gil aponta a presen\u00e7a de \u201cdois tempos hist\u00f3ricos\u201d como marca do que classifica como \u201cromances da urbaniza\u00e7\u00e3o\u201d: \u201c[\u2026] o que est\u00e1 em jogo em Ang\u00fastia de modo particular, e no romance da urbaniza\u00e7\u00e3o, de modo geral, \u00e9 o conflito de dois tempos hist\u00f3ricos distintos que correspondem a espa\u00e7os e valores sociais e culturais tamb\u00e9m diversos e que, at\u00e9 certo ponto, formalizam-se no n\u00edvel est\u00e9tico como irreconcili\u00e1veis para a vida do nosso protagonista. De um lado, tem-se o tempo presente da cidade, da vida urbana; de outro, o passado do campo, da vida rural\u201d. GIL, Fernando C. O romance da urbaniza\u00e7\u00e3o. Op. cit., p. 73<\/p>\n<p>[15] A express\u00e3o \u201cmundo muito mal arranjado\u201d \u00e9 proveniente do romance Caet\u00e9s. RAMOS, Graciliano. Caet\u00e9s. Edi\u00e7\u00e3o comemorativa, 80 anos. Org. Elisabeth Ramos e Erwin Torralbo Gimenez. Rio de Janeiro\/S\u00e3o Paulo: Record, 2013, p. 21<\/p>\n<p>[16] Na edi\u00e7\u00e3o comemorativa utilizada, \u00e9 o segundo fragmento de texto, localizado na terceira p\u00e1gina da narrativa, logo ap\u00f3s a nota\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica que estabelece a divis\u00e3o com o primeiro entrecho. Come\u00e7a por: \u201cSe pudesse, abandonaria tudo e recome\u00e7aria as minhas viagens\u201d e vai at\u00e9: \u201cSempre brinquei s\u00f3\u201d (p. 23-7). A passagem foi analisada por Erwin Torralbo Gimenez, que assinala o car\u00e1ter simb\u00f3lico do epis\u00f3dio: \u201cO tra\u00e7ado simb\u00f3lico do bonde, fora da cidade, assinala a imposs\u00edvel fuga da hist\u00f3ria, capaz de ligar as inst\u00e2ncias do tempo, num continuum, ora refrat\u00e1rio a qualquer golpe tr\u00e1gico\u201d. GIMENEZ, Erwin Torralbo. Mal sem mudan\u00e7a \u2014 notas iniciais sobre Ang\u00fastia. Op. cit., p. 217-218. refer\u00eancias<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/p>\n<p>ANDRADE, M. A elegia de abril. In: Aspectos da literatura brasileira. 5\u00aa ed. S\u00e3o Paulo: Martins, 1974.<\/p>\n<p>BENJAMIN, W. Sobre o conceito de hist\u00f3ria. In: O anjo da hist\u00f3ria. Org. e trad. Jo\u00e3o Barrento. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2012.<\/p>\n<p>CANDIDO, A. Fic\u00e7\u00e3o e confiss\u00e3o: ensaios sobre Graciliano Ramos. 3\u00aa ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006.<\/p>\n<p>CARPEAUX, O. M. Vis\u00e3o de Graciliano Ramos. In: Ensaios reunidos 1942-1978. De A cinza do purgat\u00f3rio a Livros na mesa. Vol I. Rio de Janeiro: UniverCidade Editora\/Topbooks, 1999.<\/p>\n<p>CARPEAUX, O. M. As tend\u00eancias contempor\u00e2neas na literatura: um esbo\u00e7o. Rio de Janeiro: Tecnoprint, 1968.<\/p>\n<p>CARVALHO, L. H. A ponta do novelo (uma interpreta\u00e7\u00e3o de Ang\u00fastia, de Graciliano Ramos). S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 1983.<\/p>\n<p>FILHO, A. Ang\u00fastia. In: RAMOS, G. Ang\u00fastia. Edi\u00e7\u00e3o comemorativa, 75 anos. Org. Elisabeth Ramos. Rio de Janeiro\/S\u00e3o Paulo: Record, 2011.<\/p>\n<p>FRANCO, M. S. C. Homens livres na ordem escravocrata. 4\u00aa ed. S\u00e3o Paulo: Editora da Unesp, 1997.<\/p>\n<p>GIL, F. C. O romance da urbaniza\u00e7\u00e3o. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1999.<\/p>\n<p>GIMENEZ, E. T. Mal sem mudan\u00e7a \u2013 notas iniciais sobre Ang\u00fastia. In: Revista Estudos Avan\u00e7ados, S\u00e3o Paulo, n \u00ba 26, (76), 2012. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.revistas.usp.br\/eav\/article\/view\/47552\/51281. Acesso em: 13 fev. 2025.<\/p>\n<p>PAES, J. P. O pobre-diabo na literatura brasileira. In: Armaz\u00e9m liter\u00e1rio. S\u00e3o Paulo, Companhia das letras, 2008.<\/p>\n<p>RAMOS, G. Ang\u00fastia. Edi\u00e7\u00e3o comemorativa, 75 anos. Org. Elisabeth Ramos. Rio de Janeiro\/S\u00e3o Paulo: Record, 2011.<\/p>\n<p>RAMOS, G. Caet\u00e9s. Edi\u00e7\u00e3o comemorativa, 80 anos. Org. Elisabeth Ramos e Erwin Torralbo Gimenez. Rio de Janeiro\/S\u00e3o Paulo: Record, 2013.<\/p>\n<p>RAMOS, G. O fator econ\u00f4mico no canga\u00e7o. In: Viventes das Alagoas: quadros e costumes do Nordeste. 16\u00aa ed. S\u00e3o Paulo: Record, 1994.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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